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quinta-feira, 1 de julho de 2010

UMA URGÊNCIA



O relógio na parede marca 2h da manhã, quando entra, passo rápido e apressado, olhar em redor como procurando algo.


Fixa o olhar num canto, onde várias pessoas, sós ou a falar, mostram inquietação. Volta novamente a olhar em torno de si, e revela uma expressão de alívio ao fixar o olhar num vidro com uma fila de pessoas a aguardar.

A sua agitação revela uma ansiedade, aliás, comum à maioria das pessoas que permanecem naquele espaço. Indiferentes aos sons, de vozes sussurrantes, vozes alteradas e mesmo agressivas, portas que se abrem e fecham, passos de corrida, gritos, televisões colocadas em diferentes sítios e com diferentes canais sintonizados, choros, ressonares, e uma voz que, de quando em vez, soletra nomes quase indecifráveis no som do altifalante. Na rua ouvem-se vozes, passos, travões, chiar de pneus, diferentes viaturas a circular, portas que batem violentamente, sirenes…

De repente, olha e vê-se frente ao vidro onde alguém vestido de branco lhe pergunta:

- Boa noite. Tem o cartão de saúde? O nome e o motivo por que vem à urgência…

Rapidamente, responde:

- Boa noite. Tenho o cartão. O meu nome é Alzira… e há uma hora que ando de carro a percorrer bombas de gasolina, sempre fechadas, e preciso que me troque dinheiro para tirar um café na máquina!



(post da Cláudia Tonelo  escrito em  5 Junho 2002    22.05h)

 
Rui Veloso no Passeio Dos Alegres do Júlio Isidro Anos 80. - Um Café e Um Bagaço
 

terça-feira, 22 de junho de 2010

BAU DE MEMÓRIAS: FUNGÁGÁ DA BICHARADA

José Barata Moura "Fungágá da Bicharada (1975) + Joana Come a Papa (1971) + A Bola do Manel (1967)"
Ainda hoje canto muitas das canções do José Barata Moura... o que me recordo delas

Continuo a adorar :)
 
 
 


(post da Cláudia Tonelo)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

UM CAMINHO



Era uma vez um miúdo cheio de afectos, de sentimentos, que a dada altura da sua vida deixou de perceber onde os podia encaixar e a viver situações que o fizeram acreditar que tinha de mudar isso dentro de si... Entretanto descobriu que havia umas cenas que lhe "adormeciam" essa sua parte a que já não sabia dar uso... Viveu então o período de crescimento a procurar desesperadamente mostrar o quanto era um durão e um sobrevivente, não precisando de nada do que implicasse outros, pois isso parecia-lhe ser uma demonstração de fraqueza... e metade da sua vida passou assim, evitando viver tudo o que lhe parecesse "perigoso", mas ao mesmo tempo fazendo outras "perigosidades"...
Um dia (e só ele sabe, ou não sabe, porquê) resolveu desafiar os seus medos e enfrentar-se a si e a tudo o que andara a procurar evitar... acreditando finalmente que não tinha nada de errado e "merecia" uma oportunidade de paz com a Vida, de poder ser a pessoa bonita que sempre fora, por trás daquela máscara de durão... que também podia ser amado e amar, fazer os outros felizes e deixar-se ser feliz junto dos outros... sentir que pertencia a algo, amigos, família, namorada... e que outros pertenciam à sua vida... deixar de ser um solitário a explodir de coisas boas para partilhar... Assim começou o seu caminho... Pelos olhos dos que o rodeavam, muito bem e sem razões para se queixar, com tudo o que se pode desejar, etc., etc.... Mas, começou também a descoberta de uma pessoa com quem vivera esses anos todos e que lhe era afinal quase totalmente desconhecida, já que lhe fugira sempre que pudera... ele próprio, com os seus sentimentos!
E descobriu então que a adrenalina pode estar simplesmente no dia-a-dia de se ir aprendendo a viver o melhor que somos capazes, em cada momento... e que só assim se faz caminho... como dizia o poeta "Caminhante não há caminho, o caminho faz-se caminhando"
Começou a observar em seu redor, a ouvir à sua volta, e a olhar-se e ouvir-se a si próprio, e descobriu afinal que isto de vivermos é um caso complicado... mas também muito gostoso!
Percebeu que havia muitas formas de se fazer esse caminho... que cada um fala de uma maneira (e, às vezes, até vive de outra completamente diferente!) e, que à sua volta, enquanto ele estivera a representar o papel de durão outros viveram outras coisas... e que ele não tinha essas vivências para partilhar... como se tivesse um buraco no seu percurso...
Então começou a sentir outros sentimentos, uma angústia de como resolver dentro de si aquele buraco... Se aceitando-se com o seu caminho (se calhar, mesmo perdoando-se pelas escolhas que tinha feito!) e viver a partir daqui em paz consigo...
Se procurar viver o que lhe tinha faltado, embora não consiga descobrir o botão da vida que faz imagem acelerada, para não perder muito tempo.
Descobriu então que isto de termos a responsabilidade da nossa vida é uma tarefa difícil porque depois não podemos responsabilizar os outros pelos momentos menos bons (mais difícil do que decidir se fazemos um piercing!)... Mas que também tem a vantagem de que se a decisão nos faz sentir bem esse sentimento é maior ainda por nos sentirmos responsáveis por ele... e que se nos fizer sentir menos bem podemos sempre vir a aprender para outras ocasiões estarmos mais atentos a nós próprios...
Qual é o fim da história, cada um que imagine o seu... quanto a mim mantenho a certeza que tenho, desde o dia em que o conheci, de que uma pessoa bonita assim é difícil de encontrar, por isso, sejam quais forem os caminhos que vá caminhando irá sempre, em algum momento, cruzar-se com o meu para continuar a ter o privilégio de ver os seus olhos a sorrirem-me...

(post da Cláudia Tonelo, escrito em 19 Fevereiro 2005 02.30h)



Resistência ao Vivo - Nasce Selvagem

quinta-feira, 10 de junho de 2010

OS DIAS E AS NOITES



Todas as histórias começam com era uma vez… mas a vida não era, a vida é, vive-se a cada momento… Com este pensamento ocupava a sua mente enquanto ouvia música e passava por uma cidade que em nada se assemelhava com a memória que insistia em preservar, de umas árvores há muito abatidas pela ganância do cimento. Afinal que personagem representava naquela realidade em que cada dia se sentia mais desajustada? Respostas sabia que não encontrava, e, muito menos, que alguém lhe daria! Conduzia o carro de forma automática, como acontece a quem percorre as mesmas estradas há anos, alheada dos locais por onde passava, que eram simultaneamente os da sua vida e aqueles em que se sentia uma estranha.
O tempo era algo estranho, um conceito tão concreto e ao mesmo tempo tão abstracto. Olhou para o relógio do carro e percebeu que circulava sem destino, simplesmente a poluir o ambiente e a rodar, como se a sua cabeça pudesse rodar com os pneus do carro.
Parou à porta de casa, sem saber porquê, mas provavelmente porque aí parava sempre, ou mesmo porque não havia mais nenhum local para parar. Aquele era o seu espaço, onde, por opção, cada vez permanecia mais tempo sozinha. As pessoas eram o eterno dilema da sua vida, com uma constante relação de atracção e afastamento. Eternamente a fascinariam pelas suas surpresas, pelas suas contradições. Ela própria era um belo exemplo dessa raça humana, que vive uma vida inteira procurando um sentido para a sua existência. E teria de existir um sentido? A vida não existiria simplesmente para ser saboreada, o melhor que cada um consegue em cada momento? Afinal todos corriam atrás da felicidade de forma tão ocupada que os momentos de prazer eram habitualmente vividos de modo angustiado, perdendo o seu prazer, e tornando-se em insatisfação incompreendida… Não tinha o privilégio de ser detentora de uma fé por um ser superior, metafísico, o que acreditava dava conforto à vida, aos vazios que todos sentem em alguns momentos.
Foi a pensar nessa fé que, após longas horas de insónia, acabou por adormecer.
Adormecer e descansar apenas eram sinónimos em algumas noites pontuais, e essa não foi uma delas. Sonhou com o que a atormentava, acordou, o corpo estava cansado, como se não fosse capaz de verdadeiramente repousar.

Quando o telemóvel tocou, para despertar, a sensação era de que sempre estivera desperta. Deixou-se ficar estendida, a pensar o porquê de todo este turbilhão de sentimentos que a invadiam, o porquê de não conseguir dar uma volta por cima e tornar-se numa outra pessoa, embora não soubesse bem em quem, ou em quê, concretamente. Só identificava o mau estar, sem encontrar soluções. Por enquanto procurava ocupar a mente com tarefas práticas, e com música, mas sabia que isso em nada alteraria esta sua dificuldade de viver esta vida que percorria. Era o preço de escolher estar sempre sóbria, pensava por vezes… O desejo de se alhear era cada vez mais constante, mas sabia que esse milagre não existe, por isso era um pensamento como outro qualquer, sem qualquer consequência.
Levantou-se e dirigiu-se para o duche. Muitas vezes o duche significava um desejo de limpeza, como se a pudesse libertar… fazendo-lhe recordar os relatos das pessoas violadas que se esfregam sucessivamente como que desejando que a água lhes retire o que viveram, o que sentiram… mesmo sabendo a impossibilidade de tal acontecer! O desejo de não existir para não sentir, tantas vezes ouvido em relatos de outras vidas… E as vidas que trazia dentro de si eram realmente intermináveis, e difíceis de digerir, eram sofrimentos e pequenas alegrias a que ninguém dera valor.
Saiu do duche e pensou onde estava o seu positivismo que lhe orientava os princípios de vida? Curioso, há muito que tinha uma atitude de vida positiva, mas os seus anos de zanga prevaleciam na imagem de si, nos olhos dos outros a maior parte das vezes via-se a mesma pessoa zangada, e esse retorno incomodava, minava interiormente. Então o que fazer? Nada, era a resposta imediata. Sentia-se como diz o poeta, cansada, cansaço só pelo cansaço…
A sua vida fora essencialmente passada naquela cidade, naquele espaço físico, mas as pessoas sempre tinham entrado e saído, aparecido e desaparecido… permanecendo na sua maioria apenas na sua memória, nas suas recordações, procurando guardar de cada uma os melhores momentos, aquilo em que contribuíram para que se sentisse uma pessoa melhor. E será que se tornava verdadeiramente uma melhor pessoa? Convencia-se que sim, de que isso sucedia com o passar dos anos. Mas, por vezes duvidava, de si, da pessoa que era, do sentido da sua vida. Quem era afinal? Um personagem diferente, consoante os olhos de cada um. Para uns uma estranheza, uma complicação difícil de entender, para outros uma insatisfeita eterna, para outros ainda, a força que em alguns momentos precisavam… e mais uma infinidade de atribuições. E afinal quem se sentia ser? Por vezes não o sabia, e agora era um desses momentos.

Vestiu-se sem qualquer cuidado com as peças de roupa que escolhia. Como era possível sentir tanta capacidade de vida dentro de si, de criar, de fazer, e ao mesmo tempo tanto desejo de desistir, de falta de sentido para o que quer que fosse? Só queria desaparecer por uns tempos e quando voltasse, ser alguém menos complicado. Queria o impossível, e ao pensar nisso, sorriu por entre o choro convulsivo que não parava. Chorar era como despejar a dor. A dor de existir, de sentir, de um vazio que nem ela própria entendia, a dor pela dor. Pelo menos as suas dores de estômago, essas eram físicas, socialmente aceitáveis! Quando pensou isto sentiu o peso da palavra socialmente. O peso de estar inserida nesse social que a maioria das vezes acreditava em pressupostos muito diferentes dos seus. Estranho, porque também ela crescera nesse mesmo social! Em que momento passara a estar à deriva desse rio que todos pressupunham que naturalmente percorresse. Em que momento passara a viver um rafting em quedas de água? Sorria com esta analogia, já que essas adrenalinas nunca foram as suas, era o que se chama uma medrosa sem espírito de aventuras dessas. Aliás, pensou, como é que se pode transmitir uma imagem de controlo de todas as situações, tornar-se incómoda por se transmitir essa forma de estar, e, interiormente se sentir numa tempestade, sem vislumbrar um farol que anuncie um porto de abrigo?!
Enquanto se ocupava com tarefas manuais, procurava perceber o impercebível, porque construíra um personagem fortaleza, frequentemente invasivo da vida dos outros, que o viam cheio de certezas, quando desde sempre se lembrara de si como cheia de dúvidas e de carências, até mesmo aquilo que vulgarmente se chama de lamechas?! Esta dúvida trazia dentro de si desde que percebeu que afastara de si alguém que amava, e acabara sufocado pela sua estranha forma de amar. Depois desse momento muitas vezes julgou ter mudado, a imagem que transmitia aos outros, e a sua estranha forma de amar… e mudara, dentro de si sentia as suas mudanças, mas que na prática se traduziam em formas semelhantes de se dar a sentir aos outros! Que estranho personagem era este, que sem qualquer dúvida transmitia para os outros, e com quem afinal pouco se identificava? De tanto olhar dentro dos outros perdera a possibilidade de olharem dentro de si? Ou de tanto se obrigar a não se revelar aqueles dentro de quem olhava, passara a ter uma barreira para com aqueles que desejava a olhassem e entendessem no seu interior? Tinha a capacidade de atrair as pessoas, e depois de as sufocar, de as afastar. Este era um facto que verificava constantemente.
Parou as suas tarefas, e sentada, a beber um café, pensou na importância da memória e das palavras ditas. Porque teria esta capacidade de memória de elefante, como lhe chamavam frequentemente? E porque não seria capaz de conter as palavras, as frases, mesmo quando antecipadamente pensava que se dissesse determinado comentário iria criar confusão no seu entendimento com os outros? Mais uma vez, pensava no tal do botão do off que também no seu discurso verbal lhe seria útil. E, repentinamente, ocorreu-lhe que o botão do off está dentro de cada um de nós, como diria o Fernão Capelo Gaivota, personagem com que se identificara desde que lera a sua história na adolescência… E, então “voou” por uma série de perguntas que a inquietavam. Porque se havia de repetir o que o bando desde sempre fez? Porque não ir mais além, dentro de nós? E porque se assustava “o bando” por alguém ser diferente? Porque a diferença do que se instituiu ser a norma tanto incomodava “a norma”? Sentia isso no seu trabalho, o seu afastamento por algum tempo, confirmando que tanto havia para se fazer, tinha desafiado o comodismo e o medo instituído. Por vezes, sentia que os outros não entenderam o seu voo de liberdade como exclusivamente um processo seu, mas também como mais uma vez estando a pôr em causa os que sempre falaram e nunca se ausentaram. Sentia isso na sua vida, na forma como geria os seus acontecimentos de vida e nas escolhas que fazia. Porque incomodaria tanto os outros as suas escolhas não corresponderem à desejabilidade do “bando”, quando em nada interferia com as suas vidas? Porque lhe faziam sentir esse incómodo? Não teria o direito de “voar” livremente procurando viver os seus momentos de felicidade? Gostaria de que o incómodo que lhe transmitiam não tivesse a capacidade de a incomodar, de a condicionar.
Com o Fernão Capelo no pensamento, e a consciência do “peso do bando”, nessa noite deitou-se, desejando o impossível, a oportunidade de ser livre, de viver momentos de felicidade, de rir à gargalhada até às lágrimas, de gostar e ser uma pessoa gostada… Dias e noites!

(post da Cláudia Tonelo, escrito em Maio 2005)



Sétima Legião - Por Quem Não Esqueci (ao vivo)

POEMA de Charles Chaplin



Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima....

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.

Hoje sei que o nome disso é... Respeito.


Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco ao serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!

(post de Cláudia Tonelo, escrito por Charles Chaplin)


NAT KING COLE - Smile

BAÚ DE MEMÓRIAS - RTP PASSA A EMITIR A CORES (1979)

Quando a RTP passou a emitir a cores (05-09-1979)


(post da Cláudia Tonelo)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA FOLHA



Uma caneta a tocar o papel, hesitante e pouco firme. A mão, a tremer, pousa a caneta na mesa de madeira e segura o papel por uns instantes... fecha os dedos e, violentamente amarrota o pedaço de papel.

Novamente segura a caneta, mão trémula a escrever numa folha branca, reluzente, aguardando manchas de tinta preta. Inseguras, surgem letras desenhadas, procurando formar palavras... mas as mãos seguram a folha e rasgam-na violentamente. Com menos firmeza a caneta toca numa outra folha branca e preenche-a com letras trémulas... para de seguida pegar fogo e reduzi-la a cinzas.

Após algumas horas, a caneta é fechada com mãos trémulas e guardada num bolso, enquanto o cinzeiro transborda de restos de folhas violentamente destruídas... palavras destruídas.

Levantou-se, afastou a cadeira, e desapareceu calma e serenamente.

Na mesa, numa folha, viam-se as palavras:
amo-te. Até logo, quando nos reencontramos.


(post de Claúdia Tonelo, escrito em 26 Abril 2002 01.30h)

Jorge Palma - Estrela do Mar

sábado, 5 de junho de 2010

UM RELÓGIO




Medir o tempo é um exercício de exactidão aparentemente simples e óbvio.
O tempo suscita os mais diversos sentimentos, prolonga-os, acelera-os.
Quando se espera, o tempo é longo.
Quando se deseja, o tempo é curto.
Procura-se tempo para tudo, e perde-se tempo com tudo.
Fala-se de tempo, enquanto o tempo decorre.
Agarra-se o tempo, quando se sabe que não pára. Enquanto o tempo decorre pensa-se no tempo, e o momento presente era agora mensmo futuro, e é já passado! Enquanto procuramos preencher o tempo, este já nos preencheu...
Pensava tudo isto no tempo em que terminava a tarefa minuciosa de arranjar aquele relógio que lhe deixaram com um expresso pedido de urgência, por não ter tempo a perder. No final, confirmou peça a peça, ouviu no silêncio o seu trabalhar e, sorrindo de satisfação dirigiu-se de relógio na mão para aquela pessoa ansiosa.
Partiu o relógio violentamente no chão e, perante o olhar surpreso e indignado que o fitava... sorriu, dizendo:
- O tempo afinal, não se mede!

(post da Cláudia Tonelo - texto de 29 Maio 2003)



Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo (Festival RTP 1971)