À nossa Professora D. Elisa
Vou atrasar o Relógio do Tempo 36 anos.
...
As memórias que não perdi
Ficarão enternamente a sorrir
Dentro de mim….
Quando penso nos tempos da escola primária há uma data que inevitavelmente me ocorre de imediato. 24 de Abril de 1974.
Como era habitual a família estava reunida em casa. Os meus pais, eu e o meu irmão que tinha 4 anos. Já teríamos jantado quando a emissão da RTP encerrou passando a dar lugar ao Hino Nacional. Lembro-me do murmurinho que se gerou lá em casa nessa noite, dos movimentos invulgares aquelas horas no prédio onde habitávamos, da agitação dos meus pais… A vizinhança estava em alerta. Percebi que era algo grave que se estava a passar para lá das nossas paredes, senti o medo que pairava no ar e ouvi referências a tropa e quartéis. Que confusão que estava a ser para a minha cabeça de criança…
Foi esta a primeira noção que tive da Revolução do 25 de Abril, a Revolução dos cravos.
Bom, parece que nem tudo foi assim tão mau. No meio de tanta inquietação descansei quando soube que no dia seguinte não teria que ir à escola!
Estava então a frequentar a quarta-classe. Vivia na Capitão Filipe de Sousa, quase vizinha à célebre Rua do Jardim (agora tenho pena que os meus pais não tenham optado por viver no quarteirão de baixo para ter podido participar em tantas brincadeiras que já se falaram aqui, não imaginava que aí se passavam tantos acontecimentos como os que têm sido relatados aqui noutras “estorias”…) e a minha escola ficava no prédio ao lado da entrada da Rodoviária que fica hoje em dia do lado dos CTT, no último andar.
Refiro-me à célebre escola da D.Elisa da qual muitos de vós se devem recordar.
Era uma das Escolas primárias mais conhecidas das Caldas, reconhecida pela sua qualidade de ensino e rigor na obtenção dos conhecimentos.
A primeira e segunda classes tinham aulas de tarde, a terceira tinha aulas de manha e a quarta, de manha e de tarde. Ou seja, os alunos da quarta classe, durante a manha tinham secretaria para sentar mas à tarde ficávamos sentados nas escadas que iam do segundo andar para o sótão. Pois, porque a sala de aula era nas águas-furtadas do prédio. Tínhamos óptima iluminação natural que o saguão nos fornecia mas eram horas infindáveis de rabo poisado na escadaria de madeira, às tantas já não tínhamos posição, nem sentados, nem deitados, nem esticados, nem de forma nenhuma já sustentávamos os nosso corpinhos…E era nesses preparos, nessas posições tão incómodas que se decoravam nomes de rios, nascentes, afluentes, serras, estações de caminhos-de-ferro, ai decoravam, decoravam… Disso ninguém tenha as menores dúvidas! E é para aí que a minha memória me leva.
Quem concluiu a 4ªclasse com a D.Elisa, (com direito a Exame na Escola Primária do Bairro dos Arneiros e fizemos um brilharete!) seguramente teve o trabalho facilitado nos anos seguintes e por isso lhe reconheço todo mérito apesar das suas praticas de ensino já serem contestadas à época por alguns. Mas que dava resultado, sem duvida! A matéria ficava na ponta da língua.
Esse ano foi emocionalmente complicado para mim.
No inicio do ano lectivo, dirigi-me para a carteira que tinha utilizado no ano anterior. Recordo-me de o fazer como se tivesse sido há pouco tempo.A carteira ficava do lado esquerdo a meio, ao lado do corredor que dividia a sala a meio. Eram carteiras de madeira inteiriças, com a secretária unida ao assento, para dois alunos. A colega que a tinha partilhado comigo anteriormente chamava-se Violante e morava na Estrada da Tornada. Era uma miúda morena, bem comportada, pacata, ideal para fazer parelha comigo, que era um pouco mais rebelde e talvez por isso nos entendêssemos lindamente. Foi essa a imagem que me ficou dela.
O lugar ao lado do meu estava agora vazio. Ainda esperei por ela, olhei para a porta repetidas vezes na esperança de a ver entrar. Não me apetecia nada ter que repartir a correnteza curta e estreita da madeira com outra menina. Era a companhia dela que eu desejava nesse momento. Soube nesse dia que a Violante tinha sido atropelada mortalmente na Estrada que a vira crescer. Não sei descrever o sentimento que me invadiu nessa hora. Foi um misto de emoções, penso que foi a primeira vez que me confrontei com perda provocada pela morte de alguém que de alguma forma nos é querido. Afinal as férias grandes tinham-nos afastado, eu já não a via há alguns meses, eu não era da família, não convivia assiduamente com ela, mas essa menina com quem dividira a carteira era a minha companheira de aula, deitávamos o olho aos trabalhos uma da outra, trocávamos material escolar…Enfim, trocávamos afectos … Foi duro perceber e interiorizar que a Violante não iria estar mais connosco, nem em qualquer outro lugar visível por nos.
Benditos semáforos que mais tarde resolveram colocar nessa malfadada estrada e que certamente evitaram que mais vidas aí fossem ceifadas. Senti uma tristeza profunda nessa altura e ainda hoje a sinto sempre que me ocorrem pensamentos dessa época da minha vida. Nunca esqueci essa menina, ficou para sempre viva dentro do meu coração. O irmão dela era o Luís, também frequentava a mesma Escola e passou a trajar de preto e com semblante carregado. Anos mais tarde reencontrei-o a explorar uma tabacaria que chegou a existir no Modelo, à entrada do lado direito.
Nessa altura muitos dos meus dias terminavam na Espingardaria Mário com a Anita (filha do Sr.Mario) que também era minha colega ou com a Elisa Oliveira (filha do Vasco Oliveira).
O Ramiro “do oculista” e o João Paulo Piloto eram os rapazes com quem eu mais me lembro de conviver na escola primária. Os irmãos Cordeiro, também passaram por lá. Recordo-me que o Piloto, como lhe chamávamos, e o Eduardo (que hoje exerce na PSP das Caldas) eram uns alunos brilhantes. Lembro ainda que o Eduardo teve que repetir a 4ª classe porque não tinha idade para frequentar o ciclo preparatório. Eram outros tempos…
O marido da D.Elisa, o Sr.Feliz, era viajante como se apelidavam nessa altura os vendedores. Já não me recordo bem de quê mas tenho uma ideia que negociava em máquinas. Quando subia as escadas para resolver algum assunto com a D.Elisa era uma festa para nós.
Seriam esses talvez os únicos momentos em que o silencio se quebrava, em que podíamos trocar algumas palavras entre nós e os mais atrevidos faziam passar entre as carteiras trocas dos primeiros bilhetinhos de amor, de papelinhos preenchidos com versos, coraçõezinhos pintados,… enfim verdadeiras provas de amor puro e inocente…
O relógio acertou a hora.
E a cadencia mantêm-se…
O tempo não perdoa.
(post da Élia Parreira)
