Mostrar mensagens com a etiqueta Inferno da Azenha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Inferno da Azenha. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de novembro de 2010

ÉRAMOS ENDIABRADOS - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO



Desde que comecei a ler as crónicas do Paulo pensei escrever qualquer coisa, mas a vida agitada, o excesso de trabalho e essencialmente, o não ter a certeza do que gostaria de partilhar que constituísse memória dos anos em causa, levaram-me sempre a arrepiar caminho.

Lembro-me de inúmeras peripécias desses tempos, que envolveram amigos e colegas de escola em situações mais ou menos caricatas. Do que me lembro essencialmente é que constituíamos uma geração engraçada e algo provocadora, numa época em que se estabelecia a transição entre as educações rígidas que a maioria de nós teve, e as bastante menos rígidas, já para não dizer, talvez um pouco facilitadoras demais, que a maioria de nós acabou por dar aos filhos.

No nosso tempo não se questionavam as opiniões e ordens dos mais velhos e cumpria-se um sem fim de regras, que agora nos parecem na sua maioria obsoletas. Até nos rimos quando recordamos que tivemos de implorar e batalhar pelo direito de ir a pé para a escola, ao passo que agora, os nosso filhos nem imaginam a possibilidade de não serem transportados para todo o lado por pais, avós ou quem quer que tenha alguma disponibilidade.


A minha irmã dizia-me há uns anos que por vezes se sentia um híbrido entre táxi e multibanco e parece-me que muitos de nós já tiveram essa sensação, nem que fosse por uma vez. Os nossos filhos convencem-se por vezes de que fomos um grupo ordeiro que jamais deixava de cumprir aquilo que estava estipulado e, embora em grande medida fosse isso que era de nós esperado, o facto é que nem sempre assim acontecia.


A grande diferença em relação ao que hoje se passa, era que nós fazíamos imensas coisas que não eram bem aquilo que entre aspas, deveríamos, mas sempre com alguma consciência dos limites que não se podiam mesmo ultrapassar.

Hoje em dia, penso que muitos miúdos se esquecem desses limites e isto é uma questão absolutamente transversal em termos sociais. Não é um problema de ricos e pobres, ou de mais ou menos cultos e educados, mas algo que se tem vindo a enraizar na sociedade de tal maneira, que mesmo os pais que têm noção de que as coisas não estão muito bem, acabam por ter dificuldade em remar contra uma maré que se avoluma e ganha força de dia para dia. É o conceito do “eu mereço”, que se difundiu num clip publicitário de um leite qualquer, mas se traduziu entretanto, na ideia de que tudo merecemos e a tudo temos direito, quando de facto nem tudo merecemos e muito menos, a tudo temos direito.

De qualquer forma, e voltando ao tema inicial, nós éramos endiabrados e muito nos divertimos com isso. Por isso e para que os participantes se lembrem e riam, e os não participantes também se possam rir, aqui ficam alguns registos de peripécias mais ou menos amalucadas de que me recordo.

A primeira que me ocorre é sem dúvida uma célebre noite no Inferno da Azenha em que estava com as amigas de sempre: a Lúcia, a Isabel, a Minela, a Sami e de certeza mais umas quantas. Estávamos no primeiro andar e todas ou quase todas já um bocadinho entornadas, quando de repente dou com a Minela a descer as escadas muito devagarinho, e a cada degrau que descia, dizia uma célebre frase que ficou para a História: “Minela, uma senhora nunca se embebeda.”, e lá descia mais um degrau…

Foto de Margarida Araújo

Outra peripécia engraçada mas bem mais antiga, remonta ao meu sétimo ou oitavo ano, quando decidi com a Anita não ir a uma aula qualquer, que entretanto já tinha começado. O problema foi que tínhamos os livros e cadernos dentro da sala e precisávamos de os tirar de lá, de forma que, achámos por bem pormo-nos de gatas e, quando o professor abriu a porta, puxar-lhe pelas pernas das calças e pedir-lhe que se afastasse, que íamos só lá dentro buscar uma coisa… e lá fomos nós de gatas ao outro lado da sala buscar os nossos pertences, e de novo até à porta, perante o olhar estupefacto de professor e colegas. Penso que o Prof. ainda hoje deve pensar porque carga de água não reagiu…

Também me lembro de passar uma aula de inglês inteira a mudar a fralda a um rato de pano com a Anita. Usámos um lenço de papel e conseguimos boicotar completamente o trabalho da desgraçada que teve e infelicidade de nos ter na turma. O problema era que ainda por cima éramos alunas de vinte a inglês e portanto as represálias não eram fáceis de exercer. Enfim, as coisas que os professores aguentavam… eram pelo menos mais divertidas que as que aguentam hoje, e bastante menos graves.

Também me lembro de um célebre sardão que o Mota largou no liceu… Deu um frufru medonho, houve senhoras em cima das mesas aos gritos e finalmente, quando o sardão foi apanhado e barbaramente encarcerado, pelo Padre Eduardo se não estou em erro, que há-de ter sido o único que lhe conseguiu mexer, os felizes proprietários do animal vieram-me pedir emprestada a pastora alemã para proceder ao resgate. Lá emprestei o bicho mas fiz questão de os avisar que não era grande defesa pessoal de tão amaricada a tínhamos feito. Não se importaram muito, alegando que o Padre não sabia dessas fraquezas da cadela e lá foram, exigir a devolução do sardão, sob pena de atiçarem o cão. Penso que ainda hoje poucos sabem que a pastora era um doce, habituada a brincar com crianças e incapaz de fazer mal a uma mosca. Ehehehe!


Ainda no Liceu, lembro-me bem de saltar pelas janelas dos laboratórios do rés-do-chão para ir laurear a pevide para o Parque; lembro-me também que laurear a pevide significava entre outras coisas, passeios de barco no lago com os pés descalços dentro de água, passar a tarde deitada na relva a roer uma palhinha, muito namoro e alguns passeios para a Foz e S. Martinho, esses mais tarde, já de carro e de mota.

Com a Anita lembro-me de no Carnaval deitarmos estalinhos da janela do terceiro andar da casa dela cá para baixo, e ficarmos deliciadas a ver as senhoras aos gritos e os collants a ficarem cheios de malhas com as faíscas pequeninas que aquilo deitava.

Por essa altura também tínhamos o hábito de ouvir música num volume de som tal que qualquer pessoa que passasse na rua três andares abaixo, poderia identificar claramente as músicas que ouvíamos. Quantas vezes a vizinhança se queixou e quantas vezes a mãe dela se exasperou connosco…

Voltando ao Liceu, lembram-se de quando um professor bem-intencionado se lembrou de dar umas aulas de educação sexual e da raia que isso deu? O infeliz quase foi expulso por estar a corromper as criancinhas e as criancinhas permaneceram tão desinformadas como estavam antes. Os puritanos da época regozijaram-se e à conta disso possivelmente, mais uma ou outra rapariga engravidou a destempo, mais um casalinho se formou prematuramente e mais uns avós tiveram de ajudar a criar netos de filhos adolescentes. Não é que a coisa não continue a acontecer, mas penso (espero..) que já não passaria pela cabeça de nenhum de nós achar que os meninos devem ser mantidos na ignorância.

Também me lembro de uma célebre professora de Português que decidiu dar gramática ditando o conteúdo de uma gramática. Já na altura eu tinha algum sentido prático e perguntei-lhe se aquilo que estava a ler era uma gramática, porque nesse caso se não se importasse, podia dar-me a referência da dita e eu trataria de a comprar e ler, em vez de estar a escrever definições no caderno. Escusado será dizer que ficou absolutamente furiosa e aí… ai que há gente que tem mesmo falta de sorte… não é que me disse que agarrasse nas pernas e fosse para a rua. Quem lá estava deve lembrar-se: saí mesmo agarrada aos joelhos… mais uma aula transformada num circo.

Eu era tramada mesmo, tenho de reconhecer, mas também tinha por lá umas acompanhantes jeitosas. Normalmente eram a Anita e a Isabel Martins, depois juntou-se-nos a Paula Nascimento da Benedita, enfim… meninas com ideias brilhantes. Quando não nos divertíamos a fazer a vida negra aos professores, entretínhamo-nos a escolher os colegas mais tímidos da turma e fazer tudo o que pudéssemos para os fazer corar. Miguel desculpa. Não tínhamos má intenção, mas tu ficavas mesmo giro vermelho que nem um pimentão…

Mas há mais algumas engraçadas: uma das melhores foi quando os três casalinhos da vida airada (leia-se eu com o Quintino, a Anita com o Mota e a Isabel com o Clérigo) tinham o bonito hábito de namorar nas escadinhas da sala de trabalhos oficinais, por traz do Liceu. A coisa estoirou quando um belo dia de manhã a porta das traseiras apareceu fechada a sete chaves. Nunca tivemos s certeza que fosse por nossa causa, mas tudo indicou que sim, a começar nos rumores que por lá andavam. Garantidamente que foi, ou por isso, ou porque o Mota se lembrou de entrar de mota no Liceu pela porta de cima, descer as escadas todas ainda de mota e, sair triunfalmente pela porta principal lá em baixo, com uma quantidade de funcionários a correr atrás dele aos gritos…


Falando em peripécias de mota com o Mota, também me recordo de um célebre passeio de mota em que eu ia com o Quintino, e a Paula Nascimento com o Mota, até que ali para as bandas do Campo, ela lhe meteu o bolso no blusão, deu um valente grito, saltou borda fora, aterrou de rabo no chão, e o Mota parou muito chateado porque ela lhe tinha entretanto feito desaparecer a cobra que ele tinha no bolso…

Voltando às peripécias no Inferno na Azenha, lembrei-me agora de repente de mais três. A primeira foi quando fizeram lá uma rusga, eu, a Lúcia e nem sei mais quem não tínhamos idade para lá estar e nos enfiámos na casa de banho; qual não foi o nosso desconcerto quando a Belão decidiu porque decidiu, que havia de ir à casa de banho naquele momento. Ora mesmo ao lado estava a polícia, o Jorge não conseguia arranjar maneira de lhe explicar porque era que lá estávamos e ela fez um escabeche à porta da casa de banho. Lá a deixámos entrar e ela lá se calou mas ainda hoje acho que a polícia só não nos encontrou porque não quis.

Entretanto nessa altura era também hábito, sairmos da Azenha e ir passear pelas Caldas. Íamos ao pão quente, às vezes directos para a praia, eu sei lá. Lembro-me de que uma vez, andávamos de carro a passear pelas Caldas lá para as sete da manhã e começámos a ver passar as senhoras já velhotas que se levantam cedo, para passear os cãezinhos. Daí a lembrarmo-nos de nos meter com elas porque eram umas vadias, que àquela hora andavam ainda na galderice, foi um passo. Na altura elas riam-se mas se fosse nos dias que vão correndo, o mais certo era as senhoras fugirem o mais que pudessem, com medo de serem assaltadas…

Finalmente, e para terminar este conjunto de peripécias mais ou menos engraçadas, mais ou menos rocambolescas, aqui fica uma que bastante me custou e quem estava presente certamente recordará: o dia em que e minha mãe me estabeleceu uma hora para estar em casa e como não a cumpri não foi de modas – meteu-se ao caminho até à Azenha e pregou-me um valente estalo em plena pista de dança. Essa doeu, mais na alma que na cara, mas doeu. Enfim, ela tinha alguma razão…

Não penso que o fizesse mas os tempos agora também são outros, o que me leva de novo à reflexão inicial, sobre as diferenças de educação entre nós e os nossos rebentos. Ainda não sei dizer qual é melhor, se a nossa se a deles. Penso que ambas pecaram por alguns excessos, sendo que naturalmente os excessos dos nossos pais foram por nós evitados, mas em contrapartida inventámos os nossos próprios excessos. Isto de educar meninos não tem receitas e não é fácil evitar alguns erros. Nós fomos talvez educados com demasiada severidade, até porque ficou patente nas linhas acima, que sempre tivemos meios de ultrapassar a maioria das regras. Os nossos filhos tiveram talvez a vida facilitada demais e muitos sofreram por falta de preparação para o mundo real, fora da saia da mãe e da mão protectora do pai. Se os nossos filhos conseguissem evitar os erros dos pais e dos avós seria fantástico, mas infelizmente a memória de cada geração é principalmente prisioneira dos factos vividos e esses confinam-se quase exclusivamente à geração anterior.



Post de Maria João Sacadura

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UM CARNAVAL PERFUMADO



As noites de Carnaval nas Caldas eram sempre algo de muito especial e olhando a esta distância não sei como era possível nós ‘’arrancarmos’’ à sexta feira à noite e só pararmos na cama na Quarta-Feira de Cinzas!

O ambiente nas Caldas era fantástico e inúmeros bailes de máscaras concorriam entre si na animação da cidade. Haviam os bailes do Casino, do Hotel Lisbonense, da Columbófila, dos Pimpões e dos Bombeiros, estes três últimos não onde agora ficam situados mas nas suas instalações originais, a Columbófila no mesmo sitio mas no edifício original, sem o pavilhão da esquina, os Pimpões em frente ao que é hoje a Farmácia Perdigão (a farmácia que existia na altura era a Correia Mendes , alguns metros mais acima) e os Bombeiros no cruzamento da Rua Raul Proença com a Rua Miguel Bombarda, onde agora fica o Caldas Shopping.

Para além disso as discotecas Inferno da Azenha e Ferro Velho surgiam como alternativas a quem não gostava dos bailes.

Parecia que toda a cidade vivia intensamente o Carnaval. As principais empresas da região tinham os seus carros alegóricos e a ida ao Corso nas tardes de Domingo e Terça-Feira eram obrigatórias.

À noite juntavam-se as troupes ou grupos de amigos que se mascaravam de acordo com um tema e lembro-me dos irmãos metralhas, dos fantasmas e muito particularmente o grupo de palhaços do Joca Pimenta, Mário Felizardo, Agapito,do João Pedro ‘’Catatau’’ e tantos outros e ainda do grupo que utilizava sempre os fatos que em cada ano eram confeccionados pela Guida Godinho (lembram-se das abelhas Maia?!). Estas troupes participavam em assaltos a casa dos amigos e também a locais públicos como os cafés. Muitas vezes metiam-se com os seus próprios familiares sem que eles os reconhecessem!

O espírito era tal que uma vez trouxe um colega de universidade passar cá o Carnaval e como não havia na altura os multibancos, houve necessidade de ir levantar dinheiro antes que os bancos encerrassem, assim na sexta-feira fomos ao BES e um funcionário que nessa altura lá trabalhava atendeu-nos ao balcão de cabeleira loura e baton nos lábios. Imaginem a cara do meu amigo e sobretudo imaginem isso nos tempos que correm com o cinzentismo que impera nos bancos!

Numa dessas noites fomos todos para o Ferro Velho (nos tempos em que eu ainda tinha pachorra para o EU VI A EVA DE MINI-SAIA, AURORA, NÓS OS CARECAS, TOMARA QUE CHOVA, VAI VER QUE É, CHIQUITA BACANA, BALANCÊ, DAQUI NÃO SAIO, MAMÃE EU QUERO, CACHAÇA NÃO É ÁGUA, CIDADE MARAVILHOSA, AI MORENA, MORO NUM PAÍS TROPICAL, ME DÁ UM DINHEIRO AÍ, QUEM SABE, SABE, TRISTEZA, YES, NÓS TEMOS BANANAS, e outras iguais!) para mais uma dessas directas.

Estávamos em grupo sentados na conversa na sala de entrada quando chega uma troupe de velhinhas saloias, de máscara de plástico e lenço na cabeça constituído pela Fatocas Crespo, o meu querido Pedro Cardoso, a Elza, a Milai, o Raulzinho (Rodolfo ou Papillon, conforme a alcunha!), a Elsinha Magalhães e mais alguns, e começam a meter-se connosco (e nós sem sabermos quem eram!) e de repente sacam de uns borrifadores de perfume dos antigos (Rita Lee cantava Lança, Lança Perfume!) e dão-nos um banho de TABÚ e PATCHOULI!

Os que se lembram dessas duas supremas essências recordam-se que para além de serem simplesmente horríveis, eram extremamente activos e duradouros. Ficámos com um pivete insuportável em toda a roupa e as pessoas afastavam-se de nós na pista de dança. Uns abnegados conseguiram aguentar toda a noite apesar da segregação a que foram votados mas para muitos de nós o único remédio foi ir a casa e trocar de roupa. Mas apesar dos duches e dos quilos de sabonete, parecia que o cheiro se agarrara a nós e que iria perdurar por toda a semana.

Devo ter perdido muitas potenciais namoradas naquele Carnaval!





Rita Lee -  Lança-Perfume

Banda Paradigma - Marchinhas de Carnaval


sábado, 8 de maio de 2010

CRUZANDO OS ANOS EM POUCOS DIAS - DIÁRIO DE UM ESTUDANTE


É Domingo.

Acordo com a rádio e com as vozes do Carlos Cruz e do Rolo Duarte no Pão com Manteiga. Levanto-me para ir para o ténis. Como um pão com Tulicreme e abalo para o parque.
Encontro-me com o Zé Manel Cabaços, o Senra, o Roxo, o Leonel e o Zé Ricardo e jogamos durante duas horas. No outro court estão a jogar o Henrique Mineiro com o José Augusto.
Volto para casa e tomo banho para ir almoçar com os meus pais à Pensão Cristina.

À tarde arranco para o sotão. Chego atrasado e a festa já começou. Cruzo-me nas escadas com a Elza, a Milai, a Ju, a Gracinha, a Lena e a Elsinha Magalhães. A entrar já está a Paula da Malveira e a irmã. Quando entro vejo que temos muita gente de fora. A Guida Sousa, a Isabel de Cascais e uma amiga chamada Bárbara que conquista logo a atenção dos rapazes. Dou um beijo à Susana e uma palmada no Ricardo. Trato-o por Rato e ele manda-me dar uma volta. Chega o Pedro Cardoso com os primos Moreira, o João, o Marco e a Isabel, vem o Peliculas e todos os Calisto incluindo os três Titos, o Xico, o Tony e o João. Vêm depois o João Paulo Ascenço, a Teresa e a Leonor Raposo. Atrás chega o Luis Jardim com a Mana Inês.

Ao fim da tarde tenho que sair antes de todos para ir à missa das seis. Quase que adormeço na homilia do Padre Guerra. À saida vejo a Graça, o Saloio, a Fátima e o Camané. Reencontro o Mário Rui que veio do seminário. Cumprimento o Dr. Fernando Palma que fala com o Dr. José Mota.
– Entã Compadre? – sauda-me este como sempre o faz.
O meu pai conversa em tertúlia no passeio á frente da casa com o Zé Lamy e com o David Duarte Ribeiro e o José Monroy.

À noite fico-me por casa a ver o Colombo.


Segunda-feira.

Saio de casa ao mesmo tempo do Jorge e do Cá-Jó, juntam-se a Paula Melo e a Cristina Caramelo da nossa rua e vamos juntos para o liceu.
Começo bem o dia com a aula de Sociologia do Frederico Costa, o meu professor preferido. Ele chega ao mesmo tempo e já está a estacionar o seu carocha laranja no largo do hospital.
Então? – pergunto-lhe eu – Continua comunista?
Comunista não, UDP! – responde-me ele com um largo sorriso – E tu? Continuas fascista? - Eu devolvo-lhe o sorriso e entramos juntos no liceu enquanto ele me conta como passou a noite a fazer vaporizações para a filha que estava com gripe.
Entro no Liceu ao mesmo tempo que o Manta e a São Teles. O Alexandre e o Pedro Gonçalves cumprimentam-me no hall. De súbito lembro-me que me esqueci de alguns livros na sala da associação. O costume! Viro à direita e subo pelas escadas de pedra cumprimentando a Sara e o Clemente que vêm a descer. Viro à esquerda, passo a correr pela sala dos professores, viro à direita e passo diante do bar onde está a Vanda Nogueira a conversar com a Guida Nascimento e os mais novos, o Mário Filipe, a Nucha e o primo Zé Miguel com a namorada. Digo-lhes adeus e atravesso o hall do 1º andar, felizmente a Teresa Requeijo e a Susana estão na associação. Quando entro a correr para apanhar os livros elas abanam a cabeça sorrindo e num gesto de reprovação. Sou um caso perdido! Desço agora pelas escadas de madeira e cruzo-me com a Rosa e a Paula da Columbeira, corro de novo pelo corredor vira na segunda à esquerda e entro pela última porta à direita. Estou finalmente na sala!
No intervalo grande, passo pelos três Baltasares que estão com o Manel, a Ana Monroy e a Bébé a recordar o fim de semana no Baleal com o Ivo e o Vasconcelos e Sá. A Xinha mostra uma cassete do Jackson Browne que lhe gravara o Jean-Jacques no Verão.
Entro de novo na sala de aulas com o João Buiça, a Manuela, a Anisabel e a Anabela, altas e lindas.

À hora de almoço, a caminho de casa, cruzo-me na rua com uns amigos do meu pai. O Vasconcelos a meter-se com o Juca, o Cap. Pires e o Rogério Matias. Páro para cumprimentá-los.
- Olá Paulo Rogério! – sauda-me o Cap. Pires utilizando o meu segundo nome como só ele o faz.
- Estás bom Tempero!? – cumprimenta-me o Rogério Matias utilizando uma private joke.
Desvio-me na Cova da Onça, cumprimento o funileiro e vou ao Caldinho dar um beijo aos meus avós que chegaram de Lisboa. Dou um beijo à Lila e cumprimento o Rui Aniceto. Os filhos, Rui e Nuno, o Parrila, chegam atrás de mim.
Sigo para casa a reboque do Pedro Miguel do Rosário, da Sandrinha e dos Morgados que fazem o mesmo percurso. Meto-me com o Nuno pelo seu recente namoro com a Vanda.

À tarde volto para o Liceu. Entro no átrio e vejo a minha irmã Teresa a trocar segredos com a João Horta e a Isabel Thiran. Os irmãos Valente passam por mim, também a Sara e o Clemente. A Xinha conversa com a Manuela Ferreira, a Bibú e a Vani e o Pedro Ferreira. A Xana deverá andar por aí com a Cristina Machado, a Alexandra Palma e o Inho.


O Gil passa por mim no corredor e espeta-me um carolo enquanto o Isidro olha-me com cara de gozo. Boa! Esta tarde começa bem. Ao fim do dia passo à biblioteca da Gulbenkian e devolvo o livro que levara para o fim de semana. Saio e cai-me caca de pombo no meu ombro. Merda! Este não é o meu dia! Olho com tristeza para o edificio entaipado da Casa da Cultura recordando os tempos do Casino. Volto ao liceu para me limpar e depois vou com a malta do Bombarral comer umas chamuças á Colher de Pau antes de apanharem o comboio.

Ao jantar juntam-se a Cristina Machado e a Kika Costa, já quase residentes da casa. Depois é hora da telenovela mas eu já estou farto de Gabrielas, Escravas Isauras, Casarões, Dancing Days e Astros. Vou para o meu quarto ler banda desenhada e ouvir o ‘’Quando o telefone toca’’ do Matos Maia. Não sei como esta gente gosta tanto do Tony de Matos! Decido-me pelo Jackson Browne.


Terça-feira.

Acordo com o Diário Rural e o anúncio ao Piquenicão. O Cá-Zé e a Cami descem comigo no elevador e paramos no 1º andar para apanhar o Rui e a Nica.
Paro no Nutripol para comprar pastilhas Pirata e vou com a Kika Gancho até ao liceu. À chegada faço as entregas do dia, devolvo o livro da Christiane F. à Margarida Arroz e um album dos Yes à Teresa Lamy e começo as aulas.

À tarde vou comprar umas sapatilhas John Smith ou All Star à Macadi e converso com a Mizá e com o Graciano. Depois apanho a Cristina Aleixo à saída da Drogaria e vamos juntos para o liceu. Cruzo-me com as quatro da vida airada, a Vanda, a Tita, a Ana e a Paula. À porta do Falcão estão a Cristina e a Rita a falar com a Leonor Vaz Pato e a Orlanda. O dia decorre lentamente até à hora de jantar. O Pedro Furriel dá-me uma boleia de mota até casa.

À noite vou à Zaira e tomo um café na mesa de entrada com a Libânia, a Cristina Romão e a Rosa Amélia. Encontro casualmente a Teresa Fialho do Bombarral e ficamos a falar até serem onze. Passam por mim os três primos Horta, a Cristina Coutinho, o Luis e a Estela. É hora de ir para casa.


É quarta-feira.

Hoje só tenho aulas de manhã. Acordo ao som da rádio como habitualmente. Vou num ápice para o Liceu. No hall cruzo-me com o Dr. Lalanda e a sua mulher Leonor, mais à frente o Prof. Serafim e o Padre Naia. A primeira aula do dia é de História com a Sotora Fernanda Bernardes, segue-se Inglês com o Daniel Filipe e Filosofia com o Prof. Vasco a que carinhosamente tratamos por ‘’abajour’’ devido ao seu excêntrico penteado.
No intervalo grande, subo ao átrio do segundo andar pelas escadas de madeira no fundo do liceu. A meio patamar saem uns miúdos disparados da sala de Trabalhos Oficais e quase caiem pelos degraus. Viro à direita e entro na casinha da Associação. O Paulo, o Anibal e a Susana, o Dadinho e o Brasuca, a Luisa Branco, a Nônô e o João Paulo atropelam-se naquele pequeno espaço tão entretidos estão com o stencil para o jornal.
O hall está uma confusão, com a Margarida Palma e uma colega a jogarem badminton no meio de toda a gente. O Foca, o Zé da Burra e o Cá-Zé, conferenciam a um canto com ar de gozo. A Minô, a Filó e as Ferreira entopem o bar.


A porta da rua está aberta e a Teresa, a Ana Margarida, a Nini Velhinho, o Cabaços, o João Librax, o Artur, o Tó Zé Faustino, a Paula Couto, a Zita, a Ivone Mil-Homens e o Jose Luis do Bombarral, as Carmitas, a Élia com o Paulo Renato e a Paula Ribas entopem a saída. À parte de trás chega o grupo das motos, o Miguel Crespo com a sua mini-Casal, o Zé Vargas e o Bairradas com as suas Casal Trial, o Jorge Magalhães e a Nini Gouveia com as suas Suzuki e Yamaha, o Cavim com a Gilera, o seu irmão Jô com a Nicha atrás, o Pêpê e o Rui Bento do O. A Orlanda, a Paqui e a Cristina chamam pela Nini para irem treinar voley.
Cravo o terceiro cigarro da manhã à Mila Ferreira - hoje vale tudo, é SG Filtro, Ritz ou Português Suave - e subo para a aula de 2 horas de Educação Física. No andar de cima está o grupo do Cadaval, a Paula, o Luis, o João e o Duarte. O João Miguel conversa com a Di.

Hoje estou por minha conta. Saio do liceu e vou comer uma crise ao Tric. Depois de almoço subo ao Camaroeiro Real para ir jogar flippers. São quase três da tarde.


Passo à Taiti e subo ao primeiro andar. Já lá estão todos. Peço ao Sr. Saul um café e um pampilho e cravo um novo cigarro à Anabela Elias e mando uma boca ao Joca e à Paula. Às quatro da tarde rumamos ao Queens para aproveitar a matiné de quarta-feira, único dia em que abre à tarde durante a semana. Nem nós nem os da Escola Comercial têm aulas à quarta à tarde!
Dou um beijo à Paula Lopes e à Cristina que vêm da Académica, os seus grandes olhos sobressaem carregados de rímel e de lápis. Juntamo-nos todos nas traseiras do Montepio antes de entrar.
Grande tarde! A Joana não me ligou nenhuma mas isso também já é habitual! Há mais peixe no mar!
Após o fecho, às sete, vamos um grupo ao beco dos Teixeiras, à fábrica de bolos. A mesa de matraquilhos está ocupada e decidimo-nos por ir à Floresta. Entramos pelo longo corredor. Amofino o papagaio como habitualmente e delicio-me a ver as sandes de salada de polvo e de coentrinhos de orelha de vaca que nunca como! Um grupo de veteranos está a jogar à laranjinha e nós escapulimo-nos para o pomar das traseiras. As mesas estão livres mas cobertas de caca de pombo. As bolas estão todas picadas pelos pássaros e a mesa empenada, mas é o que há!
Às oito regresso finalmente a casa para jantar. Cruzo-me com a Anabela Venâncio que me pergunta pelo Tó-Zé Lemos e pela Paula de Alvorninha do nosso tempo do 7º ano. Trabalhos de casa e passagem rápida pela Zaira. O João e o Romão estão de serviço e eu pago um café que fiquei a dever ao Jorge no dia anterior.

Acabo o dia a ouvir a 24ª Hora na Rádio Comercial. No meu quarto só se ouve Rádio Comercial em FM.


Quinta-feira.

Hoje só tenho aulas mais tarde. De manhã ainda ouço o TNT- Todos no Top (com o patrocínio dos Shampoos Timothey!) com o Jorge Pego e a Manuela Moura Guedes. Passo à MagicSom para ver o que saíu e sigo para o Liceu. Tenho Alemão com a S’tora Alice Grilo, Moral e Religião com o Padre Eduardo e mais uma catrefada de aulas.

No intervalo do almoço venho a casa e passo nas escadas da Traviata para comprar o Falcão e o Mundo de Aventuras. Começo a contar os tostões para ver se ainda dá para ir ao Diário de Noticias comprar o Motor ou o Automundo, a semanada vai acabar-se num ápice.
No intervalo da tarde temos reunião na Associação, estamos a tratar dos contactos com a Touricoop e com a Top Tours para ver quem faz o melhor preço para a excursão, ainda me cruzo pelo caminho com o Albano e a Xana, as minhas irmãs conversam em grupo com a Blica, as Palma, as Vaz Pato e a Isabel Nunes, a Ritinha e a Cláudia.


Ao fim da tarde vou ao Machado comer um russo com uns amigos e as colegas nazarenas, a Teresa, a Maria João e a Luisa. Desafiam-me para ir aos matraquilhos do café ao lado mas prefiro ir jogar bilhar com o João Gancho para a cave do Central. Passo mais tarde pelo Carlos e a Elsa na Duarte Pacheco e entro no Franco para tomar uma imperial com o Quim, o Tó-Zé e o Luis Rebelo ‘’Sancho’’ e vou para casa jantar.

À noite fico a ver Os Anjos de Charlie e a ouvir o Morrison Hotel do Rui Morrison.


Thanks God it’s Friday!

Tenho duas horas de Educação Física sempre a jogar Voley com o Paulo Mateus e o Paulo Jorge, o Pedro Sebastião e o marrão do Alcides. Depois uma sucessão de aulas até ao almoço. O Sr. Hermínio vem-me azucrinar por deixar sempre os livros no liceu. Vou tomar um café ao Gato Preto e sigo para casa na companhia do Joca e do Toni que vão pelo mesmo caminho. Tenho que fazer um TPC. Ligo a Rádio e os meus programas preferidos vão passando com as horas. O Vapor com o José La Féria, a Discoteca com o Adelino Gonçalves e as crónicas de Londres do Corte-Real, o Rock em Stock com o Luis Filipe Barros e a Ana Bola.

É dia de semanada. Vou comer um prego ao Convivio onde encontro a Zé, a Clara e o Paulo Gaspar e vou tomar café à Zaira. Juntamo-nos alguns para ir à Cave do Vale e depois à festa da Azenha.
Vou no Fiat 850 do Norberto com a Maria João e o Sérgio. Desço as escadas e cumprimento o Sr. Montês e a D. Maria pedindo um Toupeiro. Brinco pela milésima vez com a cera das velas e juntam-se ao grupo o Manel Luis, o Manel Zé e o João Manel e ainda a Paulinha, a Rosarinho e a Guida. Um grupo de Óbidos na sala das vergas está particularmente ruidoso, o Paulo Cardoso, o Banana e a Carmita, o José António, o Oscar, a Teresa e a Rosário, o David e a namorada . Chegam depois as Alpoim Calvão. O Octávio eo Zé Mineiro estão na mesa ao lado da minha com duas holandesas. O costume!
Enquanto o grupo com quem fui segue para a Usseira, vou com os Maneis para a Azenha. A nós ainda se juntam o Quim Maria, o Carlos João e o Fernando Berardo. Sou o mais novo do grupo, o que já se torna habitual.
Está o Jorge na entrada. No bar estão hoje o Henrique, o Rui e o Helder. Encontramos um grupo grande de amigos e pedimos Cuba Libre e whiskys. A música é boa mas tive azar de entrar ao som do Voulez-Vous dos Abba. As miúdas adoram e vão para a pista de dança. Fazem muito bem! No piso de baixo só me apanham se for para ir namorar para as mesas debaixo da cabine.
Estão lá o Luis Faria, o Hernani, a Rosa de Portalegre e a prima Guida das Gaeiras.
O Rui aparece com o Paulo e o Pedro Maluco mas vão cedo para outras paragens.
Aparecem milhentas caras conhecidas. Revejo os irmãos ‘’Torralta’’, a Sónia, o Luis e o Paulo Rua que aparecem nessa noite vindos de Lisboa. Vêm também de Lisboa a Gisela e o Teorias. Chega um grande grupo da Foz com o Salomão, o Batata, os Batalha Reis e os Araújo, o Zé, o Fernando e a Marina, os Picaretas, o Cristiano abraçado ao Manel Severino e os Sottomayor com as Hermanas. Chegam os Pessoa de Carvalho com alguns do grupo de forcados, o Hazakis, o Lameiras, o Vasco, o Camané Sequeira e o Luis Valério. Reencontro as manas Vazão, envaideço-me com a Xuxu, minha primeira namorada dos tempos da primária e vejo como a Paula está cada vez mais bonita, a Teresa olha-me com timidez. Mais gente que vem de Lisboa, o grupo da Rua Raul Proença traz o Carlos ‘’Caralhete’’ e mais umas caras desconhecidas. Chegam os do Cartaxo, o Paulo Vieira Dias com a São e a Sameirinho, o Pira e o Miguel, o João Paulo e o Rui Paulo, a Xana e a Bébé Rocha Homem. Chegaram os do Bombarral, os Figueiras com o Titico, de Almeirim veio o Nozes, o Sérgio, o Zé e o Mário Dinis Lucas. Chegaram também os de Torres Vedras com o Zé Manel Bota Fora à cabeça. Que festa!
Passam-se as horas. Muitos começam a partir. Tenho uma porcaria de uma paragem de digestão e começo a ficar enjoado. Ninguém está para me levar a casa e não me apetece regressar sozinho a pé. É o Zé Godinho que me traz na Peugeot mas não sem parar primeiro no Oasis para comer um pão quente, e eu enjoado no carro. Longas são as noites!


Finalmente chega o Sábado, o meu dia preferido.

Começo com um pequeno-almoço de duas vianinhas quentes e uma arrufada dos Teixeira. Na rádio passa a Grafonola Ideal com o Júlio Isidro. Vou à Goia para comprar uns jeans e sigo para a Zaira. Tenho de dar um beijo a centena e meia de amigas da minha mãe e da minha avó, opto por uma cumprimento rápido e apenas beijo a D. Leonarda, a minha avó, a Maria da Natividade, a Cristina e a Maria Helena Jales que estão na primeira mesa. A outras que se considerem cumprimentadas. Fujo para a mesa dos meus amigos, como habitualmente ao fundo da sala, à esquerda por trás do arco.


Damos umas passas meio às escondidas enquanto tomamos o café. Os meus pais hoje vão almoçar uma caldeirada com as minhas irmãs ao Félix mas nem a ideia de comer a Montanha Russa me seduz. Decidimos ir depois de almoço a S. Martinho, ao Feelings. Mas antes ainda vou jogar uma hora de ténis com o Diogo e o Kiko que chegaram de Lisboa.

Tomamos café no Pão de Ló de Alfeizerão e eu ironizo com algumas das músicas da Juke Box (Adamo, Silvie Vartan, James Last, Claude François, Sérgio e Madi, Duo Ouro Negro,…). Passamos à Viamar mas está fechada aos sábados e seguimos para S. Martinho.
Quando descemos à cave já os acordes do Born To Be Alive se fazem ouvir. A malta que tem casa de férias em S. Martinho, os Palma, os Gomes, as Gama, já lá está toda e acabamos por formar um grupo de trinta. Terminamos a comer pastéis de nata junto aos Bombeiros.

Nova noite, nova corrida. Hoje o programa inclui chouriço assado na Biquinha e depois Ferro Velho.
Sr. Zé diga aos Morenos para irem abrindo a porta que estamos para chegar!


A todos os que viveram comigo a adolescência
A todos os amigos
A todos os que já partiram mas que ainda vivem
Em mim!





Terry Jacks - Seasons in the sun 1974