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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

QUE VIVAS PARA SEMPRE! - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO


Isto de escrever num blogue ou num grupo deveria, parece-me a mim, obedecer a alguma planificação e ser feito em horas e datas marcadas. Julgo perceber que o Paulo publica as suas crónicas à segunda-feira e de facto acho que faz sentido ter alguma periodicidade. No entanto, é-me praticamente impossível agendar assim uma actividade que me surge quando surge, pelo que deixo ao critério do Paulo decidir quando pôr no blogue, enquanto eu vou pondo no site do grupo, mais ou menos quando me apetece, o que quer mais ou menos dizer, quando me surge qualquer coisa interessante de que falar.


Esta memória, não poderá certamente ser lida com o riso nos lábios visto tratar-se de algo bem menos divertido, mas não deixa de ser uma memória pela qual todos ou quase todos nós passámos. Lembrei-me de tudo isto quando dei com um pedido de amizade da Filomena Diogo no Facebook. De aceitar o pedido a bisbilhotar-lhe as fotografias foi um passo e, ao dar com algumas bem antigas, ainda dos tempos de escola primária, vi-me de repente avassalada por lembranças desse tempo.


Andámos as duas numa professora particular, que a esta hora já deve ter morrido. Daquele tempo e, especificamente daquela turma, lembro-me, além da Filomena, do Pedro Gonçalves, do CáZé Costa Faro, do João que morava na praça do peixe, do CáMané, da Fátinha e de um sem número de pessoas de quem recordo as caras e não consigo lembrar os nomes. O que recordo melhor é o medo.


A professora tinha uma régua de madeira a que dava uso regularmente, de acordo com regras por si estabelecidas e que hoje nos pareceriam dignas de filme de terror, mas na época eram bem reais.


Eu era boa aluna e nunca apanhei muito, mas o que via passar-se diariamente debaixo do meu nariz era suficientemente aterrador, para sentir por ela um misto de ódio e medo, que nunca me abandonou o resto da vida.


Desde aí, ganhei o hábito de roer os dedos à volta das unhas e só recentemente consegui quase livrar-me disso. Mesmo assim, em momentos de tensão, lá vai um dedito…


Quando a encontrei mais tarde, já muito velha e claramente debilitada, lembro-me de lhe ter desejado cá dentro, que vivesse para sempre, para que tivesse a oportunidade de sofrer todas as maleitas da velhice até à última consequência.


Mas então o que se passava assim de tão traumatizante para as crianças? Bem, nem sei bem por onde começar, mas talvez pela regra do “cada erro cada reguada”. Esta era a regra dos ditados e cheguei a ver um colega levar 60 reguadas de seguida. Apre, que e mulher tinha genica e gostava de bater…


Escusado será dizer que a maioria dos miúdos dava incomensuravelmente mais erros do que daria se não fosse a espada de Democles sistematicamente pendente sobre as suas cabeças. Como davam mais erros apanhavam mais e tinham cada vez mais medo o que os levava a dar cada vez mais erros… Enfim, uma pescadinha de rabo na boca.


Quanto à aprendizagem, também não me parece nada que melhorasse com o método.


Também recordo que uma colega usava normalmente o relógio com o mostrador virado para a face interna do pulso. Então, a professora pegava-lhe na mão com a palma virada para cima e os dedos bem dobrados para baixo, de forma a expor a palma e o pulso, explicava mais uma vez que não se responsabilizava por relógios partidos (a aluna que o pusesse noutra posição) e toca de bater com quanta força tivesse, na palma da mão e na parte da frente do pulso, até acabar por lhe partir mais um relógio. Não me lembro quantos lhe partiu assim, mas penso que mais que um certamente. Mesmo que tenha sido só um já foi demais.


Também era digno de ver quando um(a) aluno(a), depois de levar umas valentes reguadas, ia a chorar para a carteira e o choro se misturava com o ranho, depois era tudo devidamente fungado.




Não sei o que provocava nos meus colegas, mas acredito que terá provocado o mesmo que em mim: profunda pena do ou da infeliz, e cada vez mais ódio pela professora. Agora o que eu nunca consegui perceber era como é que os pais deixavam que estas coisas acontecessem.


Dos meus não me posso queixar, que nunca permitiram estes abusos, mas outros houve que nunca vi levantarem um dedo para defenderem os filhos de semelhante barbárie. Dos meus lembro-me bem do dia em que a minha irmã levou nove reguadas: como era bem branquinha apareceu em casa com as mãos roxas, o que noutros miúdos só aconteceria com muitas mais, mas os meus pais meteram-se no carro e lá rumaram a casa da professora para pôr os pontos nos is e os traços nos tês.

Pelo caminho o meu pai dizia à minha mãe: “Teresa não te enerves, deixa-me ser eu a falar”. Quando lá chegaram, às tantas já ele estava aos gritos com a professora que lhe dizia, “O senhor não grita na minha casa”, e ele respondia, “Então vamos lá para fora porque vai ter de me ouvir, quer goste quer não”.


Disto tudo que conclusões devo tirar quando se sabe que hoje em dia os miúdos batem nos professores, ameaçam-nos e fazem deles gato-sapato?



Acho que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Se hoje os professores atravessam uma crise de autoridade e dispõem de poucas ferramentas para disciplinar meninos muitas vezes bem mal-educados, naquele tempo os professores estavam apenas um pequenino degrau abaixo da divindade e tudo lhes era permitido. Também posso concluir, à laia de remate para a minha crónica anterior, que talvez devido a estes excessos no nosso passado, tantos de nós enveredaram por uma via por vezes demasiado facilitadora, quando chegou a nossa vez de educar.

post de Maria João Sacadura



segunda-feira, 21 de junho de 2010

CANELEIRAS E PROTECTORES A CAMINHO DA PRIMÁRIA


Nasci em Setúbal só por acaso, e porque a minha mãe era lá professora primária. Estava para ir nascer a Évora, cidade onde viviam os meus avós, mas ao que parece, acelerei a chegada.O meu pai tinha chegado há um ano do Ultramar, e à data, estava provisoriamente colocado em Lisboa, na Direcção Geral de Educação . Também era professor primário.

Pouco tempo depois de eu nascer, abriram os concursos anuais de colocação e pôs-se a questão de para onde concorrerem ambos, ao abrigo de uma coisa que infelizmente para os professores já não existe : a “Lei dos Cônjuges”.

O meu pai era aventureiro e gostava de desafios. Também gostava (e gosta), do mar bravo. Contou-me que estendeu o mapa de Portugal em cima da mesa e escolheu as Caldas da Rainha, porque lhe agradou a proximidade com as praias. Nunca tinha lá ido.

Chegámos em Julho de 1970 e eu tinha 6 meses. Morámos perto de dois anos no nº 16 da Rua Formosa e depois passámos para a Rua Heróis da Grande Guerra, 169. Da Rua Formosa ficou-me uma amiga para a vida, a também formosa Ana Teresa Gomes (Vasconcelos), e os meus padrinhos, que ainda hoje e já velhinhos por lá continuam.A Sílvia (agora Goulão), mais nova que eu dois anos, também lá morou, na casa em frente aos meus padrinhos, e também respondia por Sissi, motivo pelo qual ficámos a “Sissi grande” e a “Sissi pequena”.

Aos 4 anos, e porque os meus pais acharam que eu devia conviver mais com outras crianças e sair debaixo das saias da empregada, entrei no Ramalho Ortigão, onde tive como Educadora a carinhosa D. Vicência, mãe dos Cordeiro.

Ao que parece aguentei um mês, por total e completa incompatibilidade com as sestas obrigatórias em catres de lona e almofadinha pequena, com cobertores de “picos” a acompanhar o sacrifício. Lembro-me do recreio, e de um túnel em cimento colorido, que servia para nos metermos lá dentro e quase sufocar se estava um à frente e outro atrás, género versão nível um dos treinos nos Comandos, e de mais umas quantas “diversões” coloridas.

A D. Vicência (a quem agora presto merecida homenagem ), não conseguiu acalmar a ira na hora das sestas, e eu não me fartei de berrar por casa e pela Isabel, a nossa empregada, outra santa que tinha uma pachorra de “jó” quer para me pôr a comer (tarefa difícil ao que parece), quer para me entreter nos desvarios.

Acabei por levar a minha avante e fiz a pré-primária em casa. Como queria muito ler para ver se não me enganavam nas histórias, contaram-me os meus pais que ao tentarem aplicar o “Método Global” para a leitura, em vigência nas escolas primárias em 74/75, e depois de muito livrinho com as letras ilustradas por objectos e animais, tipo: “G” - e por baixo o desenho da Galinha, um dia olhei para um saco de plástico da GOIA, à data laranja e preto e li: “Goia”.

Depois fui para a primeira classe ainda não tinha 5 anos, para não ser esperta. Adeus remanso de casa, adeus Isabel, que de mãos à cinta argumentava com os meus pais que “coitadinha da menina, que é tão pequenina, ainda lhe fazem mal, e tão bem que estava aqui comigo". Eu, no fundo, também achava o mesmo, mas queria aprender “coisas”.

A principio, e porque ainda não tinha idade legal para frequentar a primeira classe, fiquei na escola do Avenal, onde os meus pais eram professores, com a Professora D. Leonor, a segunda santa da minha vida escolar. Era só para ocupar umas horas e começar a brincar com as letras, mas a verdade é que a brincar com as ditas, passei para a segunda classe. E o que se ganhou com isso é que tive de repetir a terceira, porque andava um ano e tal à frente dos outros e porque muito jeitinho para ler e escrever, mas a aritmética era mais ver os números a passar. Infelizmente até hoje….

Saí da escola do Avenal, onde era protegida por todos e onde me ensinaram a andar de bicicleta sem “rodinhas”, para a malfadada terceira classe no Bairro dos Arneiros, onde o meu pai tinha sido colocado esse ano. Estávamos em 76/77. E azar, dos azares, não me lembro do nome da Professora. Talvez porque percebeu logo que a “esperta” não fazia os trabalhos de casa de aritmética e olhava para o lado quando se faziam os exercícios na aula. Talvez porque as idas ao quadro eram verdadeiros suplícios e as queixas da Senhora ao Professor da sala ao lado (o paaaiiiiizinhoooooo) eram recorrentes. Bom…As suficientes para em consciência decidirem pai, mãe e professora a repetição da terceira, até porque eu nunca poderia entrar para o ciclo ainda com 8 anos. Isto de ser de Janeiro, e de ter tido pais professores tem que se lhe diga…

Ficou-me da passagem pelos Arneiros outra amiga para a vida, a Vanda Belo, aluna do meu pai e companheira de aventuras espaciais, atendendo a que as nossas diversões no recreio passavam por cada uma de nós riscar no chão uma enorme circunferência (as naves), escolhermos as “crews”, e partirmos rumo a uma longínqua constelação. Eu costumava ser a Dra. Helen, e ela o Capitão John. O tema era o “Espaço 1999”, claro...

Vira-se novamente o disco, adeus Arneiros, e lá fui eu para a segunda terceira classe na “Escola Mais Bonita das Caldas da Rainha” – a primeira de todas, em frente do Parque de Campismo à entrada das Caldas.E começou o sabor a independência; ia sozinha, saída da Rua Heróis da Grande Guerra, logo de manhã cedo, a bater os protectores das botas caneleiras pelos passeios, e a parar nas várias capelinhas para seguir em grupo para a Escola. Os companheiros eram a Maria João (neta do dono da Goia), que morava perto da Praça do Peixe e o Gustavo Caridade que nos “apanhava” vindo de perto dos Bombeiros. Havia mais que se juntavam à pandilha, mas não consigo agora recordar os nomes…

Com o Professor Lemos, dono da papelaria Pelicano, (onde se iam comprar os livros escolares e aqueles mapas de Portugal lindos de morrer, hiper coloridos, que depois se plastificavam), chegou a época da “responsabilização escolar”, palavras usadas lá em casa e demasiado complexas para mim e para a Isabel, que achou desumano a menina ir sozinha e a pé para tão longe. Eu adorava!..

Pouco tempo a seguir, a Isabel desistiu de argumentar e saiu de nossa casa para casar com um “embarcadiço” de farto bigode loiro e olhos azuis, que em tempo de licença, a costumava ir namorar algures entre a garagem dos Claras, e a esquina da Jornália, ali rés-vés com as traseiras do Montepio, onde por vezes apanhavam um cortejo fúnebre que a Isabel aproveitava para depois comentar até à exaustão.

Pois…É que também faz parte da minha infância, saber sempre o nome, e muitas vezes a história dos defuntos….Já para não falar da indumentária que levavam para a última morada, atendendo a que a vista da varanda da minha casa incidia directamente para a casa mortuária do Montepio…Mas era uma belíssima varanda e a casa era magnífica!

Bom…A segunda terceira classe fez-se já sem a protecção paterna, e seguiu-se a quarta entre jogos da “macaca” no pátio de chão de terra batida, biqueiradas e correrias. Lembro-me também de levar a merenda num cestinho de vime, comprado na Praça da Fruta, depois substituído por uma lancheira moderníssima a imitar um “School Bus” americano, oferecida por uma prima residente no Canadá e que fez a inveja das amigas.Mas a aritmética foi sempre um osso duro de roer…

Foi com o Professor Lemos que ganhei o gosto pela História de Portugal, que ele sabia contar ao jeito de “estória” e foi pela mão dele que percebi o significado de “responsabilização escolar”. Literalmente….

E ainda outro dia, de visita a Marrocos, no meio do entrincheirado da Medina de Marraquexe , sorri ao deparar-me com uma casa de banho de “buraco”, ideal para treinar o estilo “cócoras” exactamente igual à que tínhamos na “Escola Mais Bonita das Caldas da Rainha”, já para não falar das carteiras de tampo à antiga, cheias de História e “estórias” de outros meninos.

Nestes anos de Primária, fui muito feliz. Corri e brinquei sem parar, fiz ballet, natação, patinagem e ténis e mais tempo houvesse mais faria. O espírito que reinava era o da dinâmica, de se aproveitar ao máximo os dias e tudo o que a cidade tão bem proporcionava.

Deixei de morar nas Caldas, tinha perto de 15 anos, rumo ao sul, para acompanhar os meus pais entretanto recém-licenciados noutras áreas. A Setúbal, devo ter ido só as vezes que precisei de apanhar o barco para Tróia e quando me perguntam de onde sou, isto depois de tanta paragem, respondo sempre: Das Caldas!

Das Caldas, de onde me chegam as memórias mais doces, as amizades mais verdadeiras e os laços mais fortes. Das Caldas, onde insisto em manter raízes, palco também da pré e início da adolescência, mais conturbada que a infância, polvilhada de risos e amigos “à séria”, mas também de alguns amargos de boca, como todas as adolescências…Mas da adolescência, não falo agora, até porque a prosa vai longa... Fico à espera que o Paulo me chame novamente preguiçosa para o fazer…


(post da Cecilia (Sissi) Martinho)

sábado, 19 de junho de 2010

AOS MEUS COLEGAS DA ESCOLA PRIMÁRIA






À nossa Professora D. Elisa


Vou atrasar o Relógio do Tempo 36 anos.
...
As memórias que não perdi
Ficarão enternamente a sorrir
Dentro de mim….

Quando penso nos tempos da escola primária há uma data que inevitavelmente me ocorre de imediato. 24 de Abril de 1974.
Como era habitual a família estava reunida em casa. Os meus pais, eu e o meu irmão que tinha 4 anos. Já teríamos jantado quando a emissão da RTP encerrou passando a dar lugar ao Hino Nacional. Lembro-me do murmurinho que se gerou lá em casa nessa noite, dos movimentos invulgares aquelas horas no prédio onde habitávamos, da agitação dos meus pais… A vizinhança estava em alerta. Percebi que era algo grave que se estava a passar para lá das nossas paredes, senti o medo que pairava no ar e ouvi referências a tropa e quartéis. Que confusão que estava a ser para a minha cabeça de criança…
Foi esta a primeira noção que tive da Revolução do 25 de Abril, a Revolução dos cravos.
Bom, parece que nem tudo foi assim tão mau. No meio de tanta inquietação descansei quando soube que no dia seguinte não teria que ir à escola!

Estava então a frequentar a quarta-classe. Vivia na Capitão Filipe de Sousa, quase vizinha à célebre Rua do Jardim (agora tenho pena que os meus pais não tenham optado por viver no quarteirão de baixo para ter podido participar em tantas brincadeiras que já se falaram aqui, não imaginava que aí se passavam tantos acontecimentos como os que têm sido relatados aqui noutras “estorias”…) e a minha escola ficava no prédio ao lado da entrada da Rodoviária que fica hoje em dia do lado dos CTT, no último andar.
Refiro-me à célebre escola da D.Elisa da qual muitos de vós se devem recordar.
Era uma das Escolas primárias mais conhecidas das Caldas, reconhecida pela sua qualidade de ensino e rigor na obtenção dos conhecimentos.
A primeira e segunda classes tinham aulas de tarde, a terceira tinha aulas de manha e a quarta, de manha e de tarde. Ou seja, os alunos da quarta classe, durante a manha tinham secretaria para sentar mas à tarde ficávamos sentados nas escadas que iam do segundo andar para o sótão. Pois, porque a sala de aula era nas águas-furtadas do prédio. Tínhamos óptima iluminação natural que o saguão nos fornecia mas eram horas infindáveis de rabo poisado na escadaria de madeira, às tantas já não tínhamos posição, nem sentados, nem deitados, nem esticados, nem de forma nenhuma já sustentávamos os nosso corpinhos…E era nesses preparos, nessas posições tão incómodas que se decoravam nomes de rios, nascentes, afluentes, serras, estações de caminhos-de-ferro, ai decoravam, decoravam… Disso ninguém tenha as menores dúvidas! E é para aí que a minha memória me leva.
Quem concluiu a 4ªclasse com a D.Elisa, (com direito a Exame na Escola Primária do Bairro dos Arneiros e fizemos um brilharete!) seguramente teve o trabalho facilitado nos anos seguintes e por isso lhe reconheço todo mérito apesar das suas praticas de ensino já serem contestadas à época por alguns. Mas que dava resultado, sem duvida! A matéria ficava na ponta da língua.

Esse ano foi emocionalmente complicado para mim.
No inicio do ano lectivo, dirigi-me para a carteira que tinha utilizado no ano anterior. Recordo-me de o fazer como se tivesse sido há pouco tempo.A carteira ficava do lado esquerdo a meio, ao lado do corredor que dividia a sala a meio. Eram carteiras de madeira inteiriças, com a secretária unida ao assento, para dois alunos. A colega que a tinha partilhado comigo anteriormente chamava-se Violante e morava na Estrada da Tornada. Era uma miúda morena, bem comportada, pacata, ideal para fazer parelha comigo, que era um pouco mais rebelde e talvez por isso nos entendêssemos lindamente. Foi essa a imagem que me ficou dela.
O lugar ao lado do meu estava agora vazio. Ainda esperei por ela, olhei para a porta repetidas vezes na esperança de a ver entrar. Não me apetecia nada ter que repartir a correnteza curta e estreita da madeira com outra menina. Era a companhia dela que eu desejava nesse momento. Soube nesse dia que a Violante tinha sido atropelada mortalmente na Estrada que a vira crescer. Não sei descrever o sentimento que me invadiu nessa hora. Foi um misto de emoções, penso que foi a primeira vez que me confrontei com perda provocada pela morte de alguém que de alguma forma nos é querido. Afinal as férias grandes tinham-nos afastado, eu já não a via há alguns meses, eu não era da família, não convivia assiduamente com ela, mas essa menina com quem dividira a carteira era a minha companheira de aula, deitávamos o olho aos trabalhos uma da outra, trocávamos material escolar…Enfim, trocávamos afectos … Foi duro perceber e interiorizar que a Violante não iria estar mais connosco, nem em qualquer outro lugar visível por nos.
Benditos semáforos que mais tarde resolveram colocar nessa malfadada estrada e que certamente evitaram que mais vidas aí fossem ceifadas. Senti uma tristeza profunda nessa altura e ainda hoje a sinto sempre que me ocorrem pensamentos dessa época da minha vida. Nunca esqueci essa menina, ficou para sempre viva dentro do meu coração. O irmão dela era o Luís, também frequentava a mesma Escola e passou a trajar de preto e com semblante carregado. Anos mais tarde reencontrei-o a explorar uma tabacaria que chegou a existir no Modelo, à entrada do lado direito.
Nessa altura muitos dos meus dias terminavam na Espingardaria Mário com a Anita (filha do Sr.Mario) que também era minha colega ou com a Elisa Oliveira (filha do Vasco Oliveira).
O Ramiro “do oculista” e o João Paulo Piloto eram os rapazes com quem eu mais me lembro de conviver na escola primária. Os irmãos Cordeiro, também passaram por lá. Recordo-me que o Piloto, como lhe chamávamos, e o Eduardo (que hoje exerce na PSP das Caldas) eram uns alunos brilhantes. Lembro ainda que o Eduardo teve que repetir a 4ª classe porque não tinha idade para frequentar o ciclo preparatório. Eram outros tempos…
O marido da D.Elisa, o Sr.Feliz, era viajante como se apelidavam nessa altura os vendedores. Já não me recordo bem de quê mas tenho uma ideia que negociava em máquinas. Quando subia as escadas para resolver algum assunto com a D.Elisa era uma festa para nós.
Seriam esses talvez os únicos momentos em que o silencio se quebrava, em que podíamos trocar algumas palavras entre nós e os mais atrevidos faziam passar entre as carteiras trocas dos primeiros bilhetinhos de amor, de papelinhos preenchidos com versos, coraçõezinhos pintados,… enfim verdadeiras provas de amor puro e inocente…


O relógio acertou a hora.
E a cadencia mantêm-se…
O tempo não perdoa.

(post da Élia Parreira)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - O EXAME DA QUARTA CLASSE




Hoje em todo o país, dezenas de milhares de crianças concluem o ano lectivo do primeiro ciclo, antiga Primária. E destes, alguns milhares, incluindo o meu filho Francisco, concluiram a antiga quarta classe.
Em 1973, eu e os meus colegas de classe, preparámo-nos com afinco para os exames finais da quarta classe. Estudávamos no Externato Ramalho Ortigão, vulgo O Colégio, que não possuía autonomia pedagógica, razão porque esse exame teria de ser efectuado numa escola oficial.
Essa contingência aumentava a nossa preocupação e durante semanas preparámo-nos metodicamente, simulando as provas com que nos iriamos confrontar.
O grau de exigência do Colégio e a grande competência e carinho da nossa professora, a D. Esperança, atenuou contudo qualquer dificuldade na nossa preparação e sentíamo-nos perfeitamente aptos quando chegou o grande dia. Isso não fez diminuir contudo os nossos nervos!
Éramos poucos rapazes na turma, apenas quatro dos cinco que tinham iniciado a primeira classe. Eu, o grande Zé-Tó, o Luis Filipe Gomes e o Louis Borga Gomes (o Luis André tinha ido para Alcobaça no final da segunda classe). Tal como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas éramos quatro, e durante quatro anos repartimos um mundo de aventuras, fantasia e muita brincadeira.
Recordo entre as nossas colegas, a Luisinha Canela Lopes, a Teresa Ferreira, a Bibú Castro, a Xú-Xú (Cristina Vazão de Almeida), a Ana Monroy, a Kikas Gama (Ana Homem de Barros), a Luisa Jordão, a Teresa Lourenço, a Ana Paula Duarte, a Misá (Maria do Rosário Carvalho Dias) e a Paqui (Paula Almeida).
Repartíamos a sala de aulas com a segunda classe que já nos acompanhava desde o ano anterior, como era tradição no Colégio. Duas classes com a D. Esperança, duas classes com a D.Clarisse, dependendo do ano em que iniciávamos a Primária. Faziamos depois toda a Primária com a mesma professora. A D. Dora dava o apoio escolar da parte da tarde, a todas as classes.
No dia agendado reunimo-nos na Escola Primária da Policia de Trânsito, diante do antigo Parque de Campismo, no parque, por cima do ténis.
O facto dos exames serem efectuados noutra escola e por professores desconhecidos, aumentou a nossa ansiedade mas felizmente saímo-nos na perfeição. Não me recordo já do teor dos exames mas recordo-me que tínhamos uma prova de trabalhos manuais em que construí uma caravela de cartolina e arame, longamente treinada nas aulas de preparação, o nome que lhe dei guardo-o para mim mas trago na memória com carinho que a D. Esperança insistiu em guardar depois esse barco de cartolina que durante muito tempo figurou na sua sala de aulas.
Saí um pouco mais cedo dos exames e aguardei com preocupação a saída dos meus colegas, receava que por ter concluído as provas em primeiro lugar pudesse indicar que tinha falhado alguma pergunta. Sentei-me junto ao passeio na companhia dos meus pais e dos outros pais e a ansiedade aumentava a cada minuto que passava. Não deve ter contudo demorado muito tempo antes que, um por um, os meus amigos começassem a sair. O confronto de respostas dava-nos alento para aguardar pelos resultados. Após a saída do último reunimo-nos com um pouco mais de alegria e nem parecia já que esperávamos pela saída dos resultados.
Passados alguns minutos saiu da escola a D. Esperança com um sorriso de satisfação nos lábios. Tinha dialogado com os outros professores que estavam a avaliar as provas e as expectativas eram muito boas.
Finalmente sairam os resultados e juntámo-nos todos numa grande festa na rua.
Passados todos estes anos continuo a ver com alguma frequência quase todos eles. Amizades para a vida!
Éramos poucos entre alguns, passámos a ser poucos entre muitos mas os laços criados pela convivência e forte espírito de identidade desse tempo no Colégio manteve-nos unidos ao longo de todos estes anos.


A todos os meus colegas da primária no Externato Ramalho Ortigão
que contribuíram tanto para que tivesse uma infância tão feliz.

À D. Esperança.
Enquanto eu viver, viverá em mim!

Ao José Manuel Cabaços.
Obrigado por me ajudares a educar o meu filho da forma como o fizeste.

Ao meu filho Francisco.
Que a escola te continue a trazer tantos momentos felizes,
professores inesquecíveis
e tão grandes amizades como me trouxe a mim.












Jacques Brel - L'Enfance

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A MINHA PRIMEIRA ESCOLA FOI NA PRAÇA DO PEIXE .........



Desde que li o manifesto do Paulo fiquei, de tal modo agradado que conseguiram fazer-me deslizar para tempos, onde decididamente tínhamos o privilégio de brincar e traquinar na rua, onde hoje o meu filho não o pode fazer nem o quer fazer, em que um simples autocolante dos Rollings Stones era sucesso garantido entre o grupo que cresceu comigo (na rua do jardim).

Também eu cresci na rua do jardim, onde havia um Tó-zé grande (eu), o Tó-zé Pequeno, o Rui da Sapataria América e o irmão Carlos, o Berto, o Paulo do Antero e o Badaró. Todos nós jogamos á bola tendo como balizas as sarjetas, da rua Leão Azedo e o Portão do Serrano no beco do Borralho (Antero), não me esqueço do olhar triste do Ricardo Pimenta por não poder fazer o mesmo, pois os avós não o deixavam jogar na rua, ficando na janela a ver-nos.

Passamos tardes e tardes a ler o Nody, a jogar Monopoly e Bolsa, enfim fomos crescendo e fomos nos separando, cada um para a sua escola a mim coube-me em sorte a escola da praça do peixe, onde tive o Prof. Norte como primeiro professor, Prof. Martinho e a Prof. Josélia sem dúvida daquelas personagens que não me irei esquecer, tal como o meu colega de turma com 15 anos que continuava na 1ªClasse, em grande guerra na captura das letras que para os outros era facílimo, mas que para ele era uma tortura.

Recordo-me com um sorriso da chegada do intervalo onde saltávamos pelas escadas em direcção á praça do peixe, apesar dos gritos da Continua Hermínia, que nos mandava descer devagar, tentativa diária vã, tal a velocidade de descida de todos nós. Com duas únicas ideias, comprar uma bola de plástico na loja onde hoje é uma agencia de viagens por 1$50 (em que todos entravamos com os nossos tostões de momento) ou tentar convencer um vendedor de enguias da lagoa (Às segundas feiras era o mote mais pedido entre os meus colegas) a oferecer-nos uma, para a fazermos deslizar pelas aguas que deslizavam da plataforma da praça para as pequenas valas de canalização de aguas excedentes da lavagem dos peixes em direcção às sarjetas adjacentes.

Acreditem, não havia campainha e nem todos tínhamos relógio….mas de bata branca vestida, lá estávamos 45 minutos depois, sentados nas famosas carteiras de barras verticais de ferro fundido com o buraco para o tinteiro a desafiar-nos para introduzirmos os lápis e canetas que rapidamente o Professor nos punha, em “su sitio”.

Alguns meses mais tarde e por razões profissionais da minha mãe, tive de ir para o colégio de Porto de Mós, Colégio incrível para aquela altura. A sala de desenho no último andar abria o tecto para que a luz natural fosse a eleita para que todos trabalhassem nos seus desenhos, foi sem duvida uma das coisas que me deixou de boca aberta nas primeiras aulas de desenho que tinha com o Libelinha e o João Manuel ao meu lado, foi ai que me cruzei com o professor Perpétua, na altura director do colégio (penso que mais tarde viria a ser professor no Liceu e de muitos de vocês) bem como a sua mulher Sr.ª Esmeralda, conheci também Tó Freitas, o irmão Pedro Freitas bem como o Lucinio médico nas Caldas e o Arnaldo Santos.

Após o terminus da minha passagem por Porto de Mós, vim então de novo para as Caldas e é aí que conheço alguns de vocês, na Turma do Ciclo Preparatório no 1º A, lembro-me ainda de algumas pessoas. Foram tempos em que tínhamos de ficar formados á frente da porta da sala, miúdos de um lado e miúdas do outro, antes de o professor chegar, vou tentar recordar-me: (Peço desculpa por não me lembrar de todos) Ana Monroy, Teresa Lamy e Marina (2º ano), Nini Velhinho, Cristina, Margarida Arroz, Luísa Branco, Leonor, Luísa Caiado, Cristina Maduro, Helena, Mário Fialho, Paulo Caiado, Paulo Lemos, António Albano, Cristina Aleixo, Jorge Bandeira, João Ascenso, Bebé Gomes, Luís Sancho, Tó Zé, Quim Franco, João Paulo Feliciano, Buiça…

Há algumas coisas que me lembro desses tempos no pós escola, as inúmeras tardes que passávamos a desenhar aviões e guerras em folhas de papel A4 na casa do Paulo Lemos, em que o nosso imaginário fluía para guerras e combates intermináveis, das tardes a jogar futebol no jardim do Jorge Bandeira que nos deixava de rastos.

Não tendo a certeza no tempo, mas penso que foi na altura no 2º Ano Ciclo que o Té Mil Homens na altura Professor de educação física, nos encaminhou para o inicio do núcleo de rugby da escola tendo decidido que o sítio do futuro campo seria onde viria a ser a Escola do Ciclo Preparatório agora Escola do segundo ciclo, e ai começamos a arrancar as plantas e ervas alta que naquele terreno existiam, tendo conseguido “desmatar” o terreno e iniciar os treinos e os jogos do então núcleo de rugby da escola que nos iria permitir ir a Coimbra defrontar outras escolas, onde o barulho dos pitons das outras equipas me surpreendeu a mim e aos outros da equipa pois nenhum de nós possuía na altura tal tipo de equipamento desportivo, aquando da saída dos balneários, claro está que levamos uma coça magistral, tal era a nossa inexperiência•.

Outro dos assuntos de escárnio e gozação nos intervalos tinha como alvo uma contínua pequenina que trabalhava nos balneários femininos de qual não me recordo o seu nome verdadeiro, tal a força da alcunha com que a brindamos. A sua alcunha era TéTé, como se não fosse suficiente usávamos uma pseudo - conjugação do verbo,” …il y a TéTé, il y a Ovo, il y a Galinhas,…” o que a deixava furibunda da vida. Essa irrequietude valeu-nos algumas corridas mais longas á frente dela de maneira que não apanhássemos com a vassoura que certeiramente tentava sempre lançar, mas sempre foi guerreira e nunca nos levou ao Director da Escola…..

Passei pelo 16 de Março sem ter a noção do que se estava a passar a não ser que algo se estava a decorrer fora do normal, que motivou a saída dos militares e o cerco da altura do RI5. Para mim foi um agora chamado ATL magnífico, pois passeei-me por entre as trincheiras exteriores que hoje algumas ainda existem escondidas, tapadas pelos tojos no pinhal circundante á agora Escola de Sargentos do Exercito, tendo mantido amena cavaqueira com os militares que ali estavam há mais de 24h e que acharam piada á minha insistência de estar por ali tanto tempo tendo – me deixado mexer nas armas de que disponham na altura, o que para mim foi algo inimaginável para um miúdo de 12 anos.

Umas semanas mais tarde, viria a acontecer o 25 de Abril, tendo-me ficado gravado muito bem de como, local e momento em que tive contacto com a noticia. Tínhamos aulas às 8h30 e estava a subir a escadas para a sala 5A, quando me cruzo com a Teresa Lamy que entretanto vinha a descer as escadas e me disse ….” Não há aulas ouve umas confusões em Lisboa com os Militares e hoje não há aulas ”……bem….foi um dia bestial de divertimento e jogos tendo ido para casa ao almoço sem nada entender do que se estava a passar…Mas que foi um dia de longa brincadeira essa lembro-me e muitíssimo bem.

Outras das recordações do ciclo são os jogos, do fogo, e de uma roda enorme que corríamos por fora da roda com um lenço, deixando cair normalmente atrás de quem gostávamos, era de certo nesses jogos que naturalmente estávamos a descobrir toda a magnitude da pré puberdade, lembro-me curiosamente de algumas meninas bonitas e que hoje continuam, umas mais doces, outras mais endiabradas, não me vou adiantar neste assunto, mas que houve …love in the air… foi uma verdade J.Eu pelo menos sempre me senti muito mais atraído por Arroz do que por Massa …é um facto.

Alguns dos professores ficaram gravados, uns pelo lado positivo outros pelo lado negativo. Quem não se lembra dos gritos do Professor Saraiva a português? Da Professora de Ciências Manuela, que nos demonstrava aquelas experiencias básicas de coloração de líquidos com anilinas naquele anfiteatro.

Quem não se lembra das aulas de canto coral e do ritmo seguido com o bater dos pés no soalho da sala bem como do chiar do pedal do órgão que a professora teimosamente empurrava para baixo, do professor de matemática do qual não me lembro o nome mas que nos levava pelo reino dos números de um modo sereno e sem barulho com a sua fina figura de magrizela.

Do Professor Vendas que nos deu educação física, da Mãe da Teresa Lamy, Professora Aurília que nos levou até ao reino “Bonjour Paris”. Enfimmmmm, tempos que tivemos a sorte de brincar na rua, de sair da escola e vir para casa sozinhos, a correr para não perder a serie dos Pequenos Vagabundos ……

(post do António José Albano)


Supertramp - School