Era uma vez um reino onde viviam um rei, uma rainha, a rainha-mãe e duas princesinhas.
As duas princesinhas eram lindas, tímidas e delicadas.
Uma era ruiva e sardenta com uma densa cabeleira aos caracóis. Era introvertida e detestava os caracóis e as sardas. Quando sorria baixava o olhar como se não lhe fosse permitido mostrar a alegria. Tinha uma beleza rara mas por não ser vulgar não a percebia e sentia-se, infundadamente, menos bela que a irmã.
A outra princesa tinha o cabelo louro e uma tez alva, parecendo uma boneca de porcelana. Era porventura a mais bela donzela do reino. Também mais extrovertida nas brincadeiras e nos sorrisos que a sua irmã mas não menos reservada no trato.
O pequeno cavaleiro adorava visitar as princesas ao seu castelo. Adorava correr as divisões e os vários pisos daquele castelo, descomunal quando comparado com a sua própria casa. Brincava com as princesas na mansarda, pelos pátios e jardins mas era sobretudo nas antigas masmorras que se passava a maior parte da brincadeira.
Aí, entre as peles e curtumes descobriam as pedras de pez e juntavam-nas no seu tesouro como se de âmbar se tratasse. Era bem verdade que as princesas tinham umas pedras de quartzo colorido com mais valor, mas estas eram escassas e muito guardadas.
A Rainha, bondosa e extremosa, adorava que o pequeno cavaleiro se juntasse à companhia das princesas, quase sempre isoladas no seu grande castelo.
Relevava as mãos sujas e as caras mascarradas como apareciam, e chamava-os com alegria para o lanche.
Os olhos do pequeno cavaleiro abriam-se de espanto e alegria perante a diversidade e abundância do festim. Cada lanche preparado pela Rainha era um momento inolvidável que iria permanecer para sempre na sua memória e sobretudo pela atenção e o afecto que eram colocados nestes lanches com que o recebiam no castelo.
Com a Rainha aprendeu os primeiros trabalhos manuais e as primeiras palavras de francês. Com Rainha aprendeu a cantar duas baladas que o seguiram pela vida fora:
Le Petit Train
Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin
Serpentin
De bois et de feraille
Rouille et vert de gris
Sous la pluie
Il est beau
Quand le soleil l'enflamme
Au couchant
à travers champs
Les chapeaux
Des paysannes
Ondulent sous le vent
Elles rient
Parfois jusqu'aux larmes
En rêvant à leurs amants
L'avoine est déjà germée
As-tu rentré le blé?
Cette année les vaches ont fait
Des hectolitres de lait
Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?
Personne ne sait ce qui s'y fait
Personne ne croit
Il faut qu'il voie
Mais moi je suis quand même là
Le petit train
Dans la campagne
Et les enfants?
Les petit train
Dans la montagne
Les grands-parents
Petit train
Conduis-les aux flammes
à travers champs
Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin
Serpentin de bois, de feraille
Marron et gris
Sous la pluie
Reverra-t-on
Une autre fois
Passer des trains
Comme autre fois?
C'est pas moi qui répondra
Personne ne sait
Ce qui s'y fait
Personne en croit
Il faut qu'il voit
Mais moi je suis quand même là
Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?
Reverra-t-on une autre fois
Passer des trains comme celui-là?
C'est pas moi qui répondra
E também:
Sur Le Pont D’Avignon
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les beaux messieurs font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les bell' dames font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les jardiniers font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les couturiers font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les vignerons font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les blanchisseus's font comm' çà
Et puis encore comm' çà
À noite a Rainha juntava as suas princesinhas e o pequeno cavaleiro na varanda do seu castelo e fazia-os observar as estrelas que brilhavam no céu.
- Aqueles são os nossos Anjos da Guarda. Os nossos entes queridos que já partiram e que estão no Céu a velar por nós.
E o pequeno cavaleiro mirava as estrelas e fixando uma mais resplandecente pensava no seu irmão mais novo que morrera à nascença e entoava:
Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia.
Algumas vezes por ano, davam-se os momentos mais aguardados, fidalgos e donzelas, cavaleiros e pagens, aias e princesas eram convidados pelo arauto para participar nos bailes em honra das princesas que poderiam ocorrer nos seus aniversários ou nas festas de Carnaval, no Grande Palácio do Reino.
E com mãos de fada, num dom incomparável, a Rainha pegava em papel de seda, em fitas coloridas e em colas , vernizes e tintas, em cartolinas, ráfias e guitas, em veludos, contas e missangas e para todos criava numa explosão de cor e fantasia, os trajes que cada um levaria aos bailes.
Eram reis extremosos com as suas princesas sempre as acompanhando a todos os recitais, sentando-se em família no camarote principal. Quantas vezes o pequeno cavaleiro foi convidado a subir ao camarote e quantas vezes as princesas suplicaram para descer para junto do pequeno cavaleiro e da sua companhia!
Pais mais dedicados às suas filhas nunca houve e estas crescerem num ambiente feliz e protector.