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sábado, 5 de junho de 2010

UM RELÓGIO




Medir o tempo é um exercício de exactidão aparentemente simples e óbvio.
O tempo suscita os mais diversos sentimentos, prolonga-os, acelera-os.
Quando se espera, o tempo é longo.
Quando se deseja, o tempo é curto.
Procura-se tempo para tudo, e perde-se tempo com tudo.
Fala-se de tempo, enquanto o tempo decorre.
Agarra-se o tempo, quando se sabe que não pára. Enquanto o tempo decorre pensa-se no tempo, e o momento presente era agora mensmo futuro, e é já passado! Enquanto procuramos preencher o tempo, este já nos preencheu...
Pensava tudo isto no tempo em que terminava a tarefa minuciosa de arranjar aquele relógio que lhe deixaram com um expresso pedido de urgência, por não ter tempo a perder. No final, confirmou peça a peça, ouviu no silêncio o seu trabalhar e, sorrindo de satisfação dirigiu-se de relógio na mão para aquela pessoa ansiosa.
Partiu o relógio violentamente no chão e, perante o olhar surpreso e indignado que o fitava... sorriu, dizendo:
- O tempo afinal, não se mede!

(post da Cláudia Tonelo - texto de 29 Maio 2003)



Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo (Festival RTP 1971)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

HISTÓRIA DO LADO OESTE



As rivalidades entre grupos de jovens que referi na crónica ‘’A Manjedoura’’ tiveram origem muitas décadas atrás.
Inicialmente nos anos 40 e 50 essa rivalidade foi criada entre os jovens que cessavam a sua actividade estudantil após a quarta classe e ingressavam logo após na vida activa (recordo que não havia legislação que impedisse o trabalho antes dos 16 anos) e os estudantes que ingressavam na Escola Industrial e Comercial para os cursos técnicos.
Mesmo dentro da Escola fazia-se sentir a rivalidade entre os alunos ‘’limpinhos’’ da área comercial e os alunos ‘’cheios de óleo’’ da área industrial, cada um com as suas batas características e adequadas aos seus estudos.
Com a necessidade de ser criada uma escola que permitisse aos alunos o grau de preparação para ingressarem no ensino superior e na ausência de um liceu, foram criados vários colégios privados sendo o mais famoso e perene o Externato Ramalho Ortigão que conheceu várias localizações.
A rivalidade dos alunos da Escola Industrial e Comercial transferiu-se então para os alunos do Ramalho Ortigão.
Surgiram entretanto alguns factores exógenos a manter essa rivalidade. Os alunos da Escola Industrial e Comercial pretendiam efectuar cursos técnicos que lhes dariam acesso imediato à actividade profissional, os alunos do colégio seguiam um grau de ensino intermédio que lhes daria acesso ao ensino superior, às licenciaturas.
Existe pois um factor social e económico a condicionar a escolha do tipo de ensino. Os alunos oriundos das famílias mais pobres eram condicionados a tirar um curso rápido que lhes daria acesso à actividade profissional a curto prazo e não tinham recursos para poder ir para as grandes cidades e manter-se aí na condição de estudantes. Com algumas excepções, os estudantes oriundos das famílias mais abastadas iam para o colégio e os das famílias com menos recursos iam para a escola.
Entretanto e em termos demográficos verifica-se que a expansão das Caldas faz-se para Oeste com a criação do Bairro do Além da Ponte e mais tarde do Bairro dos Arneiros, povoados sobretudo pelas classe operárias; e para Este, na Encosta do Sol, que será habitada sobretudo por pequenos empresários e profissionais liberais. A própria tipologia das casas assim o demonstra.
A estratificação social vincada dos anos 40 a 70 condiciona as relações entre alunos e os próprios namoros de casais oriundos de escolas diferentes não são vistos com bons olhos!
Em meados dos anos setenta surge o Liceu e por via disso é extinto o Colégio. A população tinha agora acesso ao ensino intermédio oficial e estatal de carácter gratuito.
E a rivalidade entre escolas transfere-se agora para o Liceu.
A rivalidade entre alunos das áreas industriais e comerciais da Escola começa a diluir-se na partilha de uma identidade comum e essa rivalidade é apontada exclusivamente ao Liceu.
Quem ainda viveu esses tempos dos anos 70 em que a ida a um dos convívios organizados pela escola rival gerava algumas ‘’susceptibilidades’’ que eram agravadas quando nos metíamos com alunas da outra escola, sabe do que eu estou a falar!
E nem vale a pena esconder muito o sol com a peneira, as clivagens no período do pós-25 de Abril aumentaram com as opções de ordem política.
A própria Praça da Fruta era um micro-cosmos que reflectia a realidade caldense da altura. Se os jovens dos anos 60 agora repartiam-se entre os Cafés Central (os ‘’intelectualoides de esquerda’’!) e a Zaira (o ‘’ninho das víboras’’ e os ‘’fascistas’’!), os dos anos 70 mantinham a sua divisão entre a Zaira e o Convivio. Neste ponto apenas o Camaroeiro Real (os rapazes) e a Machado (as raparigas) os unia!
Entretanto, mesmo no interior do Liceu e com a criação do ensino unificado começam a ser criadas facções, agora já não pela tipologia do curso mas pela área de residência.
A democracia, a melhoria das condições económicas e sociais, a diluição progressiva da estratificação social, permitiu que os alunos oriundos das famílias menos abastadas e residentes nas áreas da zona oeste, acedessem também ao Liceu e com isso trouxessem a rivalidade – baseada sobretudo na sua identidade cultural e até politica – para o interior do próprio Liceu.
Não é uma rivalidade baseada em disputas fisicas ou em actos de segregação total no espaço escolar mas num espirito de grupo, de clã, que os coloca em diferentes lados da barreira na convivência fora dessas portas.
E é nesse momento da história da juventude caldense que se passam os factos relatados na minha crónica ‘’A Manjedoura’’.


Streets Of Fire Theatrical Trailer




Diane Lane - Tonight Is What It Means To Be Young

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A MANJEDOURA



Ainda antes de aparecer o sótão do Kiko (Pessoa e Costa) que marcou a união entre os dois grupos, a Manjedoura rivalizava com o sótão dos Crespos em animação.

Enquanto o sótão era mais frequentado pelos denominados betinhos ou queques ou copos de leite (éramos uma autêntica pastelaria!) do Liceu e pelos amigos que vinham de fim de semana ou de férias, a Manjedoura enchia-se de malta da Bordalo Pinheiro e sobretudo do Bairro da Ponte.

(na realidade o sótão do Kiko já era o seu segundo sótão, pois o primeiro ficava no prédio acima que também pertencia à família, mas as estórias desse primeiro sótão ficam para outra oportunidade.)

A fama do Sotão dos Crespos extravasara as Caldas mas era nas duas escolas (Comercial e Liceu) que se relatavam os acontecimentos das últimas matinés enchendo de orgulho quem tinha estado presente e de tristeza quem não o pudera fazer.

Pouco tempo após a abertura do Sotão um grupo de estudantes de ambas as escolas na sua maioria residentes no Bairro da Ponte, decidiu abrir o seu próprio espaço de diversão para os jovens adolescentes que ainda não podiam frequentar as discotecas locais. No fundo o mesmo motivo que levara à abertura do Sotão.

O local escolhido foi uma antiga estrebaria ou manjedoura situada no número 1 da Rua das Vacarias, perto da Praça do Peixe e daí o seu nome A Manjedoura.

Era um ambiente igualmente fantástico e tenho boas recordações dos tempos do Nuno, do Chico e de tantos outros.

Infelizmente, sendo eu tido como um dos betinhos do Sotão não tenho tantas estórias para contar da Manjedoura e passo esse testemunho a outro que certamente se encontrará entre vós.

Quando a Manjedoura abriu, a sua fama rivalizou de imediato com a do Sotão e tornaram-se a marca distintiva dos dois grupos que se formaram entre as duas escolas. Na realidade já existia uma grande rivalidade entre os alunos da Escola e os do Liceu e de certa forma entre os alunos do centro da cidade e os dos Bairros da Ponte e Arneiros e zonas limitrofes que iam quase até à Praça do Peixe.

A rivalidade marcada quase impedia os namoros de casais pertencentes a ambas facções e por pouco as Caldas não rivalizava com Nova Iorque e o seu West Side Story ou com Verona e o seu Romeu e Julieta ou se quisermos uma analogia cinematográfica mais contemporânea, a Califórnia e o seu Grease ou Chicago e o seu Streets of Fire!

No meio destas divisões algumas amizades mantinham-se inquebrantáveis.

Um dia o rumor começou a correr pelo liceu como uma vaga em crescendo. A Manjedoura não só ia fazer uma grande festa como o seu grupo tinha mandado imprimir convites. Verdadeiros convites daqueles só utilizados pelas grandes instituições e impressos em tipografia (longe ainda vinham os tempos dos convites para Festas de Aniversário à venda nos supermercados e papelarias!).

- Ok rapazes! – Dissemos nós ‘’os do Sotão’’. – Desta vez fomos ultrapassados! Eles ganharam-nos!

Rapazes e raparigas ficaram em expectativa na ânsia de receber um dos almejados convites. Não houve propriamento uma guerra pela posse do cartãozinho mas houve certamente alguma falsa desdenha.

Numa tarde surgem-me diante de mim, no corredor do piso de entrada, o Chico Zé e o Nuno Aleixo e entregam-me o famoso convite.

- Gostaríamos muito que viesses! – Disse-me o Nuno pondo-me a mão no ombro. O bom do Chico Zé, grande como um urso, limitou-se a sorrir e a acenar a cabeça em sinal de concordância.

Eu olhei para o convite, era feito em cartolina preta canelada e abria-se em dois. As palavras Convite e Manjedoura em letras prateadas... E fiquei sem o que dizer!

Eu, um dos betinhos do Sotão, estava a ser convidado para uma festa do outro grupo!Claro que vou! Yupee! Os outros vão-se babar de raiva!

Guardei esse convite durante anos e sei que algures dentro dos inúmeros caixotes, que teimo em guardar com papelada e revistas de dois séculos, se encontra o mágico cartãozinho.

A festa foi tudo o que antecipara. No Sotão partilhávamos os convivos com as amigas de sempre, amigas de infância e só de quando em vez nos aparecia a amiga da amiga para refrescar a paisagem! Namoros eram quase proibidos, parecia que estávamos a namorar as nossas primas!

Ali, na Manjedoura, eram caras novas, raparigas lindas que eu só podia admirar de vista e à distância (entre as quais a Silvia, uma pirralha lindisssima que era só a irmã mais nova do Nuno!), raparigas sem amigos em comum que me pudessem apresentar e que finalmente eu tinha agora a possibilidade de conhecer, de flirtar e quem sabe de namorar. Rapazes que pela ausência de um relacionamento directo preconcebíamos ideias erradas a respeito e com quem encetávamos agora uma nova amizade.

Foi uma tarde de descoberta, novos rostos, novas amizades, novos temas de conversa. No inicio só a música e alguns amigos nos unia mas naquele fim de tarde, caminhando de regresso ao Burlão, era como se metade das Caldas, a metade que não conhecia, tivesse sido finalmente aberta para mim! Grande Nuno e grande Chico!



Os anos passaram. O Nuno foi por momentos engolido pelo turbilhão da vida mas lutou, resistiu e subiu à tona. Hoje é um enorme testemunho de vida. http://www.nodrugs.me/A sua associação Canguru ajudará certamente a que outros possam aprender a nadar entre as vagas e os escolhos que esta vida nos traz.

E Nuno, se quiseres seguir o caminho da vida comigo, não preciso que me digas de onde vens, antes que me digas para onde vais!


No passado dia 15 de Maio, Dia da Cidade, o Chico Zé (Leal Ferreira) foi distinguido com a Medalha de Mérito Municipal pelo seu trabalho em prol da natação caldense como Vice-Presidente dos Pimpões e seccionista do departamento de natação e como vice-presidente da Assembleia Geral da Associação Distrital de Natação.

No mesmo dia outros dois amigos da minha geração foram igualmente distinguidos.

O Vitor Marques pela sua actividade empresarial como geradora de emprego para a cidade, e pelo seu papel de dirigente do Caldas Sport Clube onde desempenhou vários cargos na área de formação e na área dita profissional, sendo actualmente o seu Presidente. O Vitor foi reconhecido como um exemplo de liderança e Fair-Play.

O Carlos José (Cá-Zé) Costa Faro pela excelência do seu trabalho na área da investigação e do ensino cientifico. O seu espantoso curriculo internacional fala por si.


Ao longo dos últimos anos são felizmente muitos os meus amigos que vêem o seu trabalho profissional, artistico, cultural, em prol da comunidade e até por actos heroicos (grande Albano!), reconhecido quer pelo nosso Municipio quer por outras entidades nacionais.

E de cada vez que um meu amigo é desta forma distinguido, é um enorme orgulho que se apossa de mim como se fizessem parte da minha familia, da minha casa!

São também estes os momentos que importa recordar.





"- Gostas assim de passear em nosso carro?
- Ele também é meu?
- Tudo que é meu é teu. Como dois grandes amigos.
Fiquei delirante. Ah se eu pudesse contar a todo mundo que era meio dono do carro mais bonito do mundo."


José Mauro de Vasconcelos – O Meu Pé de Laranja Lima





Streets of Fire - No where fast

terça-feira, 1 de junho de 2010

EM BUSCA DO DISCO AMARELO



Paulo, obrigado pela crónica - e post - sobre o DISCO AMARELO.

Foi uma daquelas coincidências, um daqueles momentos em que o tempo sincroniza as acções e pensamentos de duas ou mais pessoas à distância: tu voltas a publicar a crónica sobre O SÓtÂO - a primeira que aqui publicaste e que eu não tinha lido no post original; Eu leio essa crónica, revejo as memórias desse sótão, e lembro-me do "disco amarelo"; escrevo um comment à tua crónica mencionando esse disco... e tu respondes "Nem de propósito, a crónica de quarta-feira é sobre esse disco e está concluida..." E ainda por cima acabas por publicar a crónica logo nesse dia (ontem) por outra coincidência: o aniversário do Johnny Crespo Wilson.

Abençoada "rede" e abençoado Facebook.

Este disco - o DISCO AMARELO - ficou-me para sempre na memória. Uma daquelas memórias cuja força não conseguimos bem compreender, talvez potenciada pelo mistério... Revi a imagem daquela rodela de vinil amarelo vezes sem conta na minha cabeça, acompanhada de fragmentos de memória algo difusos... a imagem do sótão, uma vaga memória da música contida nesse disco (era disco-sound), algumas caras de pessoas, uma sensação de "domingo à tarde", um sentimento de excitação e de alegria adolescentes...

Essas memórias sempre adensaram o mistério sobre esse disco - e dessa forma devem ter contribuído para a minha relação com a música e em particular com os discos de vinil.

De cada vez que pensava nesse disco - e foram vezes sem conta - perguntava-me: que disco seria esse? que grupo? que música? Lembrava-me que era um máxi-single, que teria sido a primeira vez que tinha visto um máxi-single... Em que ano teria sido? De quem seria o disco? Onde estaria "esse disco"? E pensava exactamente nessa cópia do disco: onde estaria esse objecto tão fortemente marcado na minha memória?


Ler esta tua crónica sobre o DISCO AMARELO foi por isso um momento de revelação em que preenchemos espaços vazios da nossa memória afectiva. Quando isso acontece sentimos uma mistura de emoções, umas que nos vêm das recordações desse episódio ou fase da vida em particular, outras que são de agora, do que estamos a viver, e outras ainda que atravessam longos periodos da nossa existência... todas essas emoções se cruzam de um modo simultaneamente intenso e difuso.


Agora sei a história desse disco. E daqui em diante, cada vez que me lembrar dele, será uma memória enriquecida... agora, quando pensar n' O DISCO AMARELO vou pensar no Paulo Caiado, nos Crespos e outras pessoas com quem me cruzei nessa altura. Vou pensar na Tália, no Anselmo, na Discosom, na loja de discos que ficava na cave do Drugstore ?? (onde depois foi o Menú)... ou seja, os locais onde comprei os discos da minha adolescência (muitos deles ainda comigo e a serem tocados de vez em quando)...
e vou-me lembrar da relação ambígua que tinha na altura com o disco-sound (durou ainda alguns anos)... era quase um conflito de interesses: como era possível eu gostar dos Sex Pistols, Ramones, Jimi Hendrix, Led Zeppelin? Devo, Wire,... e gostar daquela música (e o facto é que gostava)?. Foi preciso a maturidade para o conflito estético desaparecer e ser substituido pela síntese ( LCD SOUNDSYSTEM :-) é procurar no youtube)

A música tem a encorme capacidade de evocar emoções, sentimentos, memórias... de gerar afectivade, paixões, conforto e desconforto...

Sempre me intrigou a relação que se establece entre a nossa experiência e a "banda sonora" dessa experiência, ou melhor experiências. A cada fase da nossa vida associamos uma determinada banda sonora, composta de memórias da música que nos acompanhou nesses momentos, mas também da memória dos locais, das pessoas, dos objectos...


Há uns tempos escrevi um texto que fala de algumas destas coisas.
Está aqui o link, se alguêm quiser ler "A história da musica não vai nem a meio…" http://blog.joaopaulofeliciano.com/

Para terminar:
Onde é que está esse DISCO AMARELO? Essa cópia que tu compraste na Tália e vendeste ao "Johnny Crespo Wilson"? Estará algures concerteza.


(post de João Paulo Feliciano)


Pat and Mick - I Haven't Stopped Dancing Yet

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O DISCO AMARELO





Estávamos no final do Verão de 1979 quando num sábado de manhã, passava eu diante da Tália, ouvi um som fantástico que me fez entrar. Dirigi-me ao fundo da loja, à secção de discos e perguntei o que estava a tocar.
O empregado com um sorriso e um brilho nos olhos de quem reconhece um cúmplice, mostrou-me um disco como se fosse uma peça de colecção.
- É importado, só mandámos vir dois!
O grupo ‘’Gonzalez’’ não me dizia muito, mas a música era um verdadeiro hino ao disco-sound!
O meu interesse baixou um pouco perante a expectativa do preço que me iriam apresentar.
O empregado retirou o disco da capa e os meus olhos abriram-se de admiração e entusiasmo.
-É um maxi-single. – informou o empregado.
O primeiro que eu vira na vida. Ainda por cima trazia outra novidade, o vinil era amarelo, o primeiro vinil colorido que eu vira em toda a minha vida!
Custava 18 escudos, mais do dobro de um single normal mas a expectativa de ter aquela raridade nas Caldas fez-me decidir a ir casa tentar reunir a quantia necessária.
Nessa a tarde apresentei-me triunfante e orgulhoso no Sotão trazendo o disco como um galardão. Foi de imediato um enorme sucesso e o disco passou vezes sem conta nessa tarde.
No dia seguinte repetiu-se o sucesso com os que não tinham estado na véspera e no final da tarde. O João Crespo Wilson veio então pedir-me se me podia comprar o disco pois ia nessa noite para Leiria e não teria possibilidade de ir comprar à Tália o outro exemplar. Receava ele que em Leiria não conseguisse encontrar o disco uma vez que era importado.
Apesar da minha relutância inicial eu acedi e vendi-lhe o disco, na esperança de no dia seguinte poder adquirir o outro exemplar na Tália.
O pior foi quando cheguei á loja e me disseram que o outro disco já tinha sido vendido e como eram importados não havia muita possibilidade de o ter de novo. Pedi-lhes quase encarecidamente que tentassem encomendar um novo exemplar.
Durante semanas, meses, perguntei pelo disco. E nada!
Estive anos sem voltar a ouvir a música mas apesar de tudo dava por mim de quando em quando a trautear os seus acordes como quem tem um flashback de uma antiga namorada de infância de quem já temos dificuldades em recordar a cara.
Com o aparecimento da VH1 surgiu a oportunidade de voltar a ouvir a música e um dia que sintonizei esta estação lá estava.
Ao fim de tantos anos voltava a ouvir os Gonzalez e ‘’Haven’t Stop Dancing Yet’’!
O Disco Sound há muito que morrera e o meu gosto musical foi-se alterando ao longo dos anos, mas a alegria de viver reflectida pela música e a marca dos tempos em que nos ríamos e brincávamos enquanto dançávamos num circulo de vinte, trinta amigos, isso perdurou em mim até hoje.

Ao Johnny Crespo Wilson que hoje faz 47 Primaveras
As amizades são eternas!



Os Gonzalez foi um grupo britânico de R&B e Funk. Ficaram mais conhecidos como banda de apoio de grandes nomes do R&B, Funk e da música Soul. O seu primeiro álbum com o título ‘’Gonzalez’’ foi lançado em 1974. Gravaram um total de seis álbuns antes de se retirarem em 1986, e são sobretudo conhecidos para o seu grande êxito ‘’Haven’t Stopped Dancing Yet’’
A banda original foi formada por Godfrey McLean e Bobby Tench em 1970 e incluiu outros membros dos Gass (uma banda rock e de rock progressivo formada em 1965) com a formação inicial constituída por Tench como vocalista e guitarrista, Godfrey McLean na bateria , baixista Delisle Harper e percussionista Lennox Langton. Mais tarde Tench tornou-se membro do Jeff Beck Group e os Gonzalez criaram uma nova formação, com os saxofonistas Mick Eva, Chris Mercer, Geoffrey 'Bud' Beadle, e ainda Roy Davies nas teclas e o guitarrista Gordon Hunte. Mais tarde George Chandler, Glen LeFleur e Delisle Harper incorporaram a banda, mantendo-se em simultâneo no grupo funk The Olympic Runners.
O seu primeiro álbum Gonzalez (1974) apresentou um som Funk muito pesado. Our Only Weapon Is Our Music (1975) foi lançado sob a etiqueta Capitol, uma empresa-irmã da EMI.
Por volta de 1977 eles tinham encontrado um público entusiasta entre os fans da música Disco, com a canção escrita por Gloria Jones (a mesma de Tainted Love interpretada mais tarde por Marc Almond dos Soft Cell) ‘Haven’t Stopped Dancing Yet’’' que chegou ao nr. 26 no Billboard Hot 100. Um remix da canção conseguiu o 7º lugar no US Club Play Chart e o 15º no UK Singles Chart.
Os terceiros e quartos álbuns da banda, Shipwrecked e Move It To The Music foram produzidos igualmente por Gloria Jones. Eve e Hunte deixaram entretanto a banda antes do single ‘Ain’t No Way To Treat a Lady’’ ser lançado como uma tentativa de repetir o êxito de ‘Haven’t Stopped Dancing Yet’’
Em 1980, os singles seguintes e o seu quinto álbum Watch Your Step, não tiveram sucesso e o grupo perdeu o seu status na editora discográfica. Os Gonzalez então mudaram-se para a editora Pye Records e concentraram-se nas actuações ao vivo, normalmente como banda de apoio de estrelas da R&B, Funk e da música Soul, como Freddie King.
Roy Davies morreu em 1986 e então os Gonzalez dispersaram.


Gonzalez - Haven't Stopped Dancing Yet (1979 - original video)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

EM BUSCA DA ESPIRITUALIDADE



Eu sabia que deveria haver alguma razão para que nos tempos da primária eu e alguns colegas do Colégio Ramalho Ortigão nos escapássemos para a sala onde se faziam as hóstias e nos atafulhássemos com as aparas e com hóstias não consagradas.
Nos anos setenta a busca pela espiritualidade deu-me forte.
Não que fosse adepto das leituras dos guias do Lobsang Rampa que enchiam os escaparates da montra da Jornália, nem que fosse particularmente influenciado pelos Meninos de Deus que pululavam na Rua das Montras, a distribuir bandas desenhadas que falavam do Pai David e tratando-me por Bhaiya (irmão) (e eu a olhar para as louras alemãs e logo a pensar ‘’Irmão, o caraças que tu com um banhinho decente em cima...!’’)
- Ó minha Rani até te levava para um Parikrama! (um género de passeio p’ró divino!)
E foi assim que segundo os historiadores começou oficialmente o Flirty Fishing*!
(vão à wikipédia que eu agora não tenho tempo para vos explicar, mas olhem que é muito interessante!)



À falta de um Samadhi ou uma revelação divina (ou um placar em néon!) que me levasse a encontrar um caminho. Decidi saciar a minha forte necessidade de encontrar um caminho, indo a todas as missas quanto possíveis. Estes factos já os relatei anteriormente mas agora aqui vão devidamente integrados no seu contexo. Em pouco tempo fiquei não só a saber todas as rezas do Pároco como as bisbilhotices mais interessantes cá do burgo!
- Ai mana, sabe que anda um professor lá pelo liceu, um tal de ‘’Borboleta’’, a distribuir preservativos nas suas aulas e levou uma boneca daquelas onde se aprende a fazer respiração boca-a-boca mas parece que a utilizou para ensinar a beijar?!’’
E a mana a persignar-se!
(se querem saber a diferença entre benzer-se e persignar-se aconselho-vos o curso para acólitos aos sábados de manhã na Igreja Paroquial)
- Cruz Credo! E o homem não foi expulso!!?? Ao que isto chegou!
- ‘Tava-se mesmo a ver! Um liceu no meio do parque, o que é que podiam esperar? Aquilo é um antro! Um antro!!!
E as ‘’noticias’’ sucediam-se metodicamente ao ritmo de cada missa dando-me uma excelente perspectiva de um desconhecido quotidiano caldense.
Passado um tempo e vendo-me o Padre Guerra em tamanha devoção, ocupando sistematicamente a primeira fila da missa, decidiu convidar-me para ajudar à missa como acólito. Desconhecia que para ser acólito era necessário tirar um curso e torci logo o nariz à ideia de ter mais uma cena para estudar mas era tarde demais e já não podia voltar atrás. Frequentei o curso e tirei o diploma com a brilhante nota de 16 valores só ultrapassado pelo devoto Zé Ricardo que já nessa altura se revelava um estudioso à altura!
(Recordo –me ainda da primeira pergunta:
- Olha lá, tu rezas antes de comeres? – picou-me o acólito-mor.
- Não, q’a minha mãe é uma boa cozinheira! – atirei-lhe eu.)

As coisas até que começaram bem. Lá ia fazendo a minhas quatro missitas por dia mais uns baptizadozitos e casamentos e os domingos iam passando.
Numa manhã as coisas começaram a descarrilar! Não sei porque carga d’água mas em vez de encher o jarrito do galheteiro com o vinho de mesa, troquei-o e enchi-o de vinagre de vinho tinto. Podem imaginar o tamanho da careta que o Padre Guerra fez em plena missa do meio-dia!
Mas o homem era um santo e escapei com uma pequena advertência. Mas a coisa pôs-me nervoso!
No domingo seguinte, de novo na missa do meio-dia, venho com o galheteiro todo lampeiro para o altar, quando piso a minha própria túnica, dou um enorme tropeção e o galheteiro voou pelos ares para aterrar em completo ‘’estol’’ na mesa do altar!
Minha Santa Maria da Feira!
Fez-se um silêncio sepulcral na igreja, eu devo ter corado mais do que a pobre da Teresa Miguel das Doce quando lhe caiu o cai-cai de pele de leopardo no palco, em pleno Burlão e no meio do ‘’Uma da manhã, ei! Bem bom, duas da manhã, ei…’’ .
(Era por essa e por outras que chamávamos àquela peça de vestuário os ‘’tomara que caia!’’)
Enfim uma experiência única mas que teria sido mais esclarecedora se a protagonista fosse a Lena Coelho!
Por fim, o Padre Guerra com ar zangado e sobrancelhas franzidas, lá prosseguiu com a missa, enquanto eu me escapulia para o canto que dava para a porta da sacristia.
E foi assim o fim da minha carreira de acólito na igreja das Caldas. Mais um grande talento desperdiçado por falta de condições de trabalho!

Mas eu não me dei por vencido e alguns meses depois, lá estava eu de comboio a caminho de Coimbra com mais um grupo de jovens bem-intencionados e prontos a mergulhar num novo momento de grande espiritualidade.
Juntámo-nos os manos lá de casa, mais os primos de Setúbal, e mais uns tantos amigos das Caldas (que eu não nomeio aqui porque são pais e mães de familia e não os quero embaraçar!), um grupo do Estoril e outro da Figueira todos rumo a Coimbra, Seminário Velho, para fazer um Retiro de Jovens. (Tipo Verão Azul mas sem as bicicletas, nem a praia, nem a banda sonora, nem a professora, nem a traineira em cima da falésia, nem… enfim, perceberam a ideia!).
O comboio levou-nos até à bifurcação de Lares (ou coisa que o valha!) e depois tomámos outro comboio rumo a Coimbra B. À nossa espera um grupo de amigos habituais das férias nas Caldas, mas que viviam em Coimbra, e os dois casais organizadores do Retiro.
Primeiro dia, sessão de trabalho, jantar frugal com os frades franciscanos e recolha às celas individuais para meditação.

(momento de pausa para meditação)




Estava-se mesmo a ver!
Não sei quem foi o culpado (eu não fui!!!) mas um dos rapazes saiu da sua cela e pé ante pé foi batendo às portas de cada uma das celas dos rapazes e desafiou-nos para irmos fumar um cigarrito ao claustro! Depois até algumas das raparigas se juntaram a nós e acabámos a escapar pelas traseiras para ir ao Raul das Tostas comer tostas de galinha e penalties de vinho verde à pressão para compensar o jantar dos frades.
Palavra puxa palavra, mãozinha puxa mãozinha, uma coisa leva a outra, a Ladeira do Seminário leva ao rio e a ponte da Portagem levou-nos ao Scotch. Finalmente entrámos em êxtase! O Scotch era a melhor discoteca de Coimbra e fez mais pelas nossas relações de grupo que todas aquelas horas da tarde!
Eram altas horas quando regressámos e subimos devagarinho, pé ante pé, as escadarias que nos levariam de volta às celas. Chegámos a tirar os sapatos para que os tacões não ressoassem na pedra de granito.
Nisto, quando estávamos a chegar a um dos patamares, salta-nos vindo do nada um frade com o hábito franciscano.
Ai Minha Nossa Senhora, apanhámos o maior cagaço das nossas vidas!
- Ai Pecadores! Estais perdidos! – gritou ele visivelmente furioso. (juro que é verdade!) – Como ousais?
Agarra-nos pelos pulsos e toca de levar toda a gente para a sala do refeitório. Mandou-nos esperar quietinhos que iria chamar o Frade Superior e os adultos laicos responsáveis pela organização do retiro. Começamos a rezar a todos os santinhos nossos conhecidos (Santo António dos Cavaleiros, São Bartolomeu de Messines, São João do Estoril, …).
Esperámos uma hora até que os civis chegassem e formou-se um verdadeiro conclave, mais, um verdadeiro tribunal da Inquisição. Aonde foram? O que fizeram? Não têm vergonha? Ao menos estão arrependidos?
O Frade Superior era um velho bondoso e compreensivo e estava pronto a relevar o incidente mas o raio de um outro frade mais jovem e mais ortodoxo fez de Torquemada e estava decidido a convencê-lo a expulsar-nos e terminar o retiro de imediato.
Valeu-nos a compreensão e solidariedade do casal organizador para convencer o Frade Superior a dar-nos mais uma oportunidade para que o retiro não terminasse por ali.
E assim, após uma noite mal dormida, na manhã seguinte reunimo-nos ao pequeno-almoço no refeitório do Convento e lá iniciámos mais uma manhã de discussão, oração, trabalhos de grupo e meditação. Após o almoço era tempo de recolhermos de novo às nossas celas para meditar sobre os nossos actos e o caminho que queríamos levar para a vida!

(nova pausa para meditação)



Eu juro pela santinha que não fui eu!
Eu até estava a dormitar na camita para recuperar a noite mal dormida e curar-me da ressaca das Cuba Libres e dos penalties emborcados!
Nisto ouço bater à porta e eram os do Estoril encabeçados pelo Vasco Sampaio que com ar de gozo cheio de cumplicidade entram-me pela cela dentro.
- ‘Bora lá bater uma poquerada! – Disse um deles. – Temos cartas e sacámos umas pedritas dos vasos.
Ainda nem eu tivera tempo para me recompor e já as cartas estavam sobre a cama e distribuídas entre todos.
Não demorou muito para que perante as nossas gargalhadas e exclamações os outros se juntassem e o caldo ficou outra vez entornado!
Lá apareceu de novo o Torquemada e desta vez nem São João da Pesqueira nos safou!
Acabou-se logo o retiro. Fomos todos despachados para casa no primeiro comboio a partir de Coimbra!


Passaram-se uns meses e na praia da Foz julguei ter finalmente encontrado a espiritualidade nas mãos de uma moçoila dinamarquesa que se interessou muito pelo meu Yang e adorava estudar os meus chakras, particularmente o manipura! O problema é que há boa maneira nórdica trazia com ela dois espanadores por baixo dos braços e como fazia campismo a higiene não devia ser muita. Um dia fomos ao Green Hill e quando começámos a dançar slows escapou-me:
- Du tust parfüm Schneewittchen. Nicht du? (Tu usas perfume Branca de Neve, não usas?)
- Wie Sie entdeckt? (Como soubeste?)
- Sie haben einen kleinen Zwerg unter den Arm getötet! (Deves ter um anãozinho morto por baixo do braço!)
Assim, foi sol de pouca dura e estava a começar a desesperar com o meu Karma!


Chegámos a Setembro e a família partiu para o Algarve.
Ao fim do primeiro dia conhecemos um casal e os seus filhos. E adivinhem? O pai de família era médium e fazia sessões espíritas!
- Começamos bem! - Pensei eu para os meus botões!
O fulano levava a cena bem a sério. Fazia espiritismo nas horas vagas mas com tanto entusiasmo e devoção que à partida para as suas férias anuais, aconchegava toda a família mais a bagagem no seu pequeno Mini e atava a sua mesa de pé de galo ao tejadilho da bomba.
Dá para imaginar a cena do Mini pelo Alentejo abaixo com quatro marmanjos e uma mesa atada ao tejadilho de pernas para cima!
Logo nessa tarde fomos informados que iria ser realizada uma sessão espírita em casa dos nossos novos amigos mas que estes estavam mais interessados em ir para a discoteca e eram os seus pais que se juntariam com mais dois casais de meia-idade.
O meu primo Bernardo, sempre pronto para a galhofa perguntou logo se poderíamos participar pois éramos muito crentes!
O casal olhou-nos com desconfiança mas perante a seriedade simulada do Bernardo lá nos deram autorização para irmos lá a casa.
Como imaginávamos, os nossos amigos tinham-se baldado para a discoteca e fomos recebidos pelos seis outros participantes na sessão.



Sentaram-nos à volta da famosa mesa. Tinham posto a sala às escuras e apenas uma vela acesa no centro da mesa iluminava a divisão. O médium fecha os olhos e começa a entrar em transe pedindo-nos que fechássemos igualmente os olhos e que déssemos as mãos. Foi o princípio do fim!
Comecei a espreitar por um olho mal fechado e vi o Bernardo à minha frente também a olhar por uma nesga de um olho e de mãos dadas com um dos casais. Os dois começámos a tentar conter um quase incontrolável riso.
O espírita pediu-nos para fazer força, muita força de mente e eu fiz tanta força como um alferes-miliciano com prisão de ventre!
O médium abriu os olhos e reprovou:
- Estão na sala alguns descrentes! Enquanto aqui estiverem o espírito não virá!
-Ah pois! – Contestou o meu primo – Se ele não vem, então é que nunca acreditaremos mesmo!
E desatámo-nos os dois a rir a bandeiras despregadas.
Como podem imaginar fomos convidados ‘’cordialmente’’ a sair da casa e perdi a minha chance de encontrar um sinal.

Não desisti e no regresso às aulas ingressei na Católica. Pensei que aí eu poderia estar mais perto de encontrar a tão ansiada espiritualidade.
As coisas pareciam bem encaminhadas quando na praxe é eleita Miss Católica uma bela ruiva de olhos verdes que estava na minha turma.



Perante aquela nomeação e a beleza da personagem julguei eu que ela teria certamente encarnado algo divino (nesse tempo silicone, o botox e a lipoaspiração ainda eram coisas do futuro!)!
Fiz-lhe os rituais de idolatração, ofereci-lhe incenso, mirra e ouro (tá bem, eram Brise e Ferrero Rocher mas tiveram o mesmo efeito!), dediquei-lhe alguns mantras e começamos a namorar. Durante um ano lectivo procurei arduamente saciar a minha busca pela espiritualidade mas infelizmente os únicos sinais que recebi foram o de beco sem saída e o de inversão de marcha!
Se havia umas luzes na Católica elas estavam meio fundidas e fui encontrar maior iluminação no Farol em Cascais e no Archote ao Arco do Cego!
Mas persistência é o meu mote!
Uma amiga muito dada a estas coisas do Yin e Yang disse-me para eu parar de procurar a espiritualidade nas coisas externas mas olhasse para o meu interior, para o meu innermost being.
Ok. Mas como iria eu fazer isso? Com uma sonda? Um duplo J? Um laparoscópio?
- Meu São Brás de Alportel! A procura iria ser mais dolorosa do que eu previa!
Felizmente alguns acontecimentos na minha vida vieram em meu auxílio. No decorrer dos anos seguintes fui sujeito a uma série de cirurgias em diferentes partes do corpo e ao acordar de cada anestesia invariavelmente perguntava ao cirurgião se tinha encontrado algo estranho.
Nada! Nicles batatoide! Agora só me faltava mesmo verificar nos pés. E até podia ser que estivesse por aí. Que a minha espiritualidade se encontrasse nos meu pés. Estava certo que o mesmo acontecia com o Cristiano Ronaldo, como a espiritualidade do Jardel estava na cabeça, a do Roger Federer está nos braços e a do Zé Castelo-Branco está no…, enfim!
Desde então tenho procurado a espiritualidade em todo o lado, já fui ao Budha Bar, conheci os Santos & Pecadores, os Anjos (mas foi com as Tentações que me senti mais perto de encontrar o sentido da vida), fui à Catedral da Luz ver o Jesus e até fui à repartição do BES do Burlão! E até agora nada!
Minha Santa Kshanti!
Não desisto. Continuarei a procurar a minha espiritualidade. Um dia vou encontrá-la e convidá-la para tomar um copo.
Ainda nos vamos rir os dois!



Chris Rea - Puppet singing Tell Me There's A Heaven

quarta-feira, 26 de maio de 2010

ADELAIDE FERREIRA


Adelaide Ferreira apesar de ter nascido em Minde veio aos 3 anos de idade para as Caldas da Rainha. É uma das nossas!
Dava Tudo, um dos seus maiores êxitos data de 1989 e fez parte da minha reconciliação com a música portuguesa. Lindo!



Dava tudo

domingo, 23 de maio de 2010

DE REGRESSO A CASA





Tínhamos uma forma de regressar a casa, depois de terminar a aula na escola primária da Praça do Peixe deveras “peculiar”. …..

Depois de acalmada a correria inicial após a saída, a primeira paragem era logo na porta ao lado da porta da Escola, na Drogaria Mimosa (mesmo ao lado), o nosso olhar consumia diariamente a montra, que, se bem me lembro, mudou só uma vez a sua decoração quando alguém partiu o vidro e foi necessário substitui-lo.

Mas nada de novo se passava na montra, mas não sei porque raio, tínhamos um encanto pela montra, o que é certo é que olhávamos quase de olhos fora das orbitas para as embalagens com produtos químicos expostos com as magnificas e proibidas caveiras pequenas na parte inferior da embalagem, que passavam imensos meses na montra sempre brindadas com a nossa admiração diária.

Talvez a curiosidade fosse pelo medo que os nossos pais nos induziam acerca daqueles produtos. Após termos saciado a curiosidade com as drogas na montra da drogaria descíamos até á mercearia do Pena.

Olhávamos para as caras de bacalhau e para as línguas de bacalhau expostas á porta de entrada com um ar de enjoados do pior, aliás não me esqueço de enormes bacalhaus pendurados nas partes laterais das portas da mercearia, por cima das castanhas, nozes e amendoins, com uns papeis brancos agarrados a meio, com letras estilizadas de cor azul, “ Bacalhau da Noruega só no Pena” .

Houve alturas que uma ou outra língua de bacalhau era usada para atazanar alguém, ia parar á mala de algum mais distraído, claro está, que depois levava uma bronca das grossas pelo cheiro que aquele pequenino pedaço de peixe salgado produzia dentro da mala no quarto de quem fosse brindado.

Sempre que o empregado suspeitava de algo, lá estávamos nós com as caritas de anjo na primeira fila do sorriso, como se nada tivesse acontecido. Mas aquela mercearia, possuía ainda mais duas outras mais-valias, uma era aquele cheiro a café incrível, que nos entrava pelo nariz de tal modo que se tornava egoísta, não deixando entrar outros cheiros.

Bom mas esses cheiros faziam os caldenses passarem pelo menos duas vezes por mês no “Pena” para comprar um pacote de café, em papel de cores coloridas esbatidas, que se fechava no topo com a dobragem da parte superior do pacote do qual resultavam, dois triângulos rectângulos que ficavam opostos, mas que muitíssimas vezes eram atados com a passagem da guita numa das dobras que nessa altura usavam e partiam, com uma perícia de ourives em todas as lojas.

Muitas vezes, tentei nessa altura partir o raio da guita e nadaaaaa…

A outra mais-valia do Pena era sem duvida o sitio onde íamos comprar umas pastilhas de nome pirata que faziam uns balões, maiores que as nossas cabeças. Por imensas vezes metemo-nos em sarilhos com essas “performances”, brindando com alguns pedaços de pastilha esticada resultantes dos estoiros desses balões algumas das pessoas que pela praça do peixe, passavam e se cruzavam connosco nos momentos da grande “arte do balonismo”,

Bom até ai seria tudo tranquilo, mas as contra-indicações dessa brincadeira fazia-nos aparecer por vezes após o intervalo, com os cabelos cheios de pastilha, o que nos valia sempre valente reprimenda do professor e por norma, um corte de cabelo bem mais curto, no meu caso no meu tio Hermínio em frente ao antigo quartel da GNR.

Bom já consegui andar 20 metros desde a porta de saída da escola…..nada mal.

Entravamos então na rua Heróis da Grande Guerra onde o nº125 me esperava todos os dias por volta das 13h30, cruzávamo-nos então pelo Ramiro e com as suas montras em curva, onde estava sempre dois manequins masculinos e um feminino, eles de fatos completos, sempre escuros com umas gravatas brilhantes numas posições de Peter Pan, enquanto o manequim feminino, sempre vestido de noiva, coisa que achávamos na altura uma chatice ‘’coitada da mulher tinha de levar aquilo tudo vestido’’ pensávamos nós terríveis “cavaleiros da arte de bem vestir”.



Era então ai, que se dava o inicio da corrida que religiosamente todos os dias iniciávamos nessa parte da rua para executar um salto, na tentativa de chegar a um sinal de trânsito, para aferir a nossa altura já que a loja a seguir ao Ramiro nunca nos cativou, vendia, pratos e serviços de chá os quais achávamos uma tremenda de uma chatice.

Esse sinal estava num suporte que estava cravado na parede antes da padaria que existia na altura e que vendia uns bolos em forma de rim e uns triângulos de coco com os quais ainda hoje me perco, formidáveis acreditem, bolos incríveis comemos nós ai.

Refeitos do esforço sobre humano para nós na altura na vã tentativa de perceber se poderíamos chegar ao sinal, cruzávamo-nos com uma loja que vendia tachos e panelas de alumínio com as pegas pretas e artigos em plástico, que tinha umas portas exteriores verdes, que misturava a madeira com algumas varas de ferro fundido trabalhado.

Com a nossa correria de vez em quando brindávamos os plásticos com uns ligeiros pedidos de licença para passar, nunca aceites por eles, e o resultado era, projecção para a estrada, para um espaço que estava normalmente reservado com duas caixas de madeira e duas tábuas em cima delas em jeito de hipotenusa, para que as camionetas pudessem descarregar as rações para a loja que estava a seguir.

No cruzamento da primeira estrada que tínhamos de atravessar existia e acho que ainda existe uma loja que vendi-a malhas e que mostrava garbosamente os seus pullover´s de lã virgem em manequins de meio corpo sem cabeça, nas suas pequenas montras de meia altura, tapados com uns papeis transparentes amarelos e verdes nas horas de maior luminosidade, estando no interior da loja uma senhora com um ar carrancudo que nunca nos cativou para dar-nos liberdade á nossa curiosidade e criatividade nos lanifícios de pura lã virgem.

Depois de passado este cruzamento aparecia um talho do qual não me lembro o nome, que nos gastava alguns momentos a olhar de caras coladas á montra de narizes apertados de encontro ao vidro para as peças de carne penduradas, prontas a serem vendidas Os empregados de bata branca com alguns vestígios de sangue, andavam de um lado para o outro a afiar vigorosamente as suas facas de lâmina enorme, no fuso.

Era com essas enormes facas que para nós na altura pareciam espadas que talhavam os bifes e as bifanas, de pedaços que retiravam das pernas enormes de vaca e das peças inteiras do porco para as senhoras de penteados de caracóis e pregadeiras cheias de pedras reluzentes, com saias e casacos do mesmo tecido, que levavam sempre uma sesta rectangular de sisal ou algo do género que tinha uns riscos na horizontal verdes e encarnados e uma pega desse material entrelaçado.

Quando a acção deixava de ser interessante, passávamos para a próxima paragem que era sempre muito curta, pois o nosso forte nunca foi os sapatos, a sapataria Macadi, com a sua mistura de sapatos e botas nas montras e na exposição de exterior eram meras bolas brilhantes na arvore de natal para nós.
O que nos fazia deslizar um pouco mais na rua fazendo-nos passar entretanto pelo depósitos de pesticidas da Sapec, que tinha um portão enorme onde hoje é uma rua, além disso tinha também, uma montra enorme talvez a maior das Caldas durante décadas, apesar de escondida, sitio esse que nos dava abrigo aquando de algumas chuvadas mais fortes, mas que o cheiro de pesticidas nos fazia sair dali rapidamente, pois aquele cheiro provocava uma terrível má vizinhança.

Com alguma pena a minha casa estava a aproximar-se e como desde novinho aprendi, que á volta do burgo, não se queima as cortinas a contenção e o portar bem, tinha de estar no ponto todos os dias nesta aproximação a casa, não fosse alguma vizinha ou amiga da minha mãe estar plantada na janela a ver as modas a passar na rua.

Tendo ainda de passar pela Alliance Francaise e atravessar a rua do quartel dos bombeiros (era assim que a chamávamos), que possibilitava aos carros voltarem para a rua Heróis da Grande Guerra ou continuar para a Almirante Reis (rua das Montras, hoje estas ruas não tem transito), bem como pelo Gil com os seus vidros e espelhos.

Mas por último vinha o supermercado Nutripol que para a altura era quase uma inovação com o carrancudo do Sr. Ribeiro sempre a olhar para nós quando nos vi-a a comprar uns chocolates e uns Sugus ou Smarties em dias de algumas prendas monetárias.

Retirava a chave de casa da mala que sempre usava nas costas, metendo-a na fechadura rodando-a com frenesim, para uma subida de escadas tipo míssil, em direcção ao sofá para assistir ao final da emissão da RTP 1 que nessa altura acabava às duas da tarde.

Era assim um simples regressar a casa depois do fim das aulas na Escola Primária às 13h00, percorrendo pouco mais de 400 metros …


(post do António José Albano)


Cat Stevens - Remember The Days Of The Old Schoolyard

quinta-feira, 20 de maio de 2010

ERA UMA VEZ…




Era uma vez um reino onde viviam um rei, uma rainha, a rainha-mãe e duas princesinhas.

As duas princesinhas eram lindas, tímidas e delicadas.

Uma era ruiva e sardenta com uma densa cabeleira aos caracóis. Era introvertida e detestava os caracóis e as sardas. Quando sorria baixava o olhar como se não lhe fosse permitido mostrar a alegria. Tinha uma beleza rara mas por não ser vulgar não a percebia e sentia-se, infundadamente, menos bela que a irmã.

A outra princesa tinha o cabelo louro e uma tez alva, parecendo uma boneca de porcelana. Era porventura a mais bela donzela do reino. Também mais extrovertida nas brincadeiras e nos sorrisos que a sua irmã mas não menos reservada no trato.

O pequeno cavaleiro adorava visitar as princesas ao seu castelo. Adorava correr as divisões e os vários pisos daquele castelo, descomunal quando comparado com a sua própria casa. Brincava com as princesas na mansarda, pelos pátios e jardins mas era sobretudo nas antigas masmorras que se passava a maior parte da brincadeira.

Aí, entre as peles e curtumes descobriam as pedras de pez e juntavam-nas no seu tesouro como se de âmbar se tratasse. Era bem verdade que as princesas tinham umas pedras de quartzo colorido com mais valor, mas estas eram escassas e muito guardadas.

A Rainha, bondosa e extremosa, adorava que o pequeno cavaleiro se juntasse à companhia das princesas, quase sempre isoladas no seu grande castelo.

Relevava as mãos sujas e as caras mascarradas como apareciam, e chamava-os com alegria para o lanche.

Os olhos do pequeno cavaleiro abriam-se de espanto e alegria perante a diversidade e abundância do festim. Cada lanche preparado pela Rainha era um momento inolvidável que iria permanecer para sempre na sua memória e sobretudo pela atenção e o afecto que eram colocados nestes lanches com que o recebiam no castelo.

Com a Rainha aprendeu os primeiros trabalhos manuais e as primeiras palavras de francês. Com Rainha aprendeu a cantar duas baladas que o seguiram pela vida fora:

Le Petit Train

Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin

Serpentin
De bois et de feraille
Rouille et vert de gris
Sous la pluie

Il est beau
Quand le soleil l'enflamme
Au couchant
à travers champs

Les chapeaux
Des paysannes
Ondulent sous le vent

Elles rient
Parfois jusqu'aux larmes
En rêvant à leurs amants

L'avoine est déjà germée
As-tu rentré le blé?
Cette année les vaches ont fait
Des hectolitres de lait

Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?

Personne ne sait ce qui s'y fait
Personne ne croit
Il faut qu'il voie
Mais moi je suis quand même là

Le petit train
Dans la campagne
Et les enfants?

Les petit train
Dans la montagne
Les grands-parents

Petit train
Conduis-les aux flammes
à travers champs

Le petit train
S'en va dans la campagne
Va et vient
Poursuit son chemin
Serpentin de bois, de feraille
Marron et gris
Sous la pluie

Reverra-t-on
Une autre fois
Passer des trains
Comme autre fois?
C'est pas moi qui répondra



Personne ne sait
Ce qui s'y fait
Personne en croit
Il faut qu'il voit
Mais moi je suis quand même là

Petit train
Où t'en vas-tu?
Train de la mort
Mais que fais-tu?
Le referas-tu encore?

Reverra-t-on une autre fois
Passer des trains comme celui-là?
C'est pas moi qui répondra


E também:

Sur Le Pont D’Avignon
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les beaux messieurs font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les bell' dames font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les jardiniers font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les couturiers font comm' çà
Et puis encore comm' çà
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les vignerons font comm' çà
Et puis encore comm' çà

Sur le pont d'Avignon
L'on y danse, l'on y danse
Sur le pont d'Avignon
L'on y danse tous en rond
Les blanchisseus's font comm' çà
Et puis encore comm' çà


À noite a Rainha juntava as suas princesinhas e o pequeno cavaleiro na varanda do seu castelo e fazia-os observar as estrelas que brilhavam no céu.

- Aqueles são os nossos Anjos da Guarda. Os nossos entes queridos que já partiram e que estão no Céu a velar por nós.

E o pequeno cavaleiro mirava as estrelas e fixando uma mais resplandecente pensava no seu irmão mais novo que morrera à nascença e entoava:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia.

Algumas vezes por ano, davam-se os momentos mais aguardados, fidalgos e donzelas, cavaleiros e pagens, aias e princesas eram convidados pelo arauto para participar nos bailes em honra das princesas que poderiam ocorrer nos seus aniversários ou nas festas de Carnaval, no Grande Palácio do Reino.

E com mãos de fada, num dom incomparável, a Rainha pegava em papel de seda, em fitas coloridas e em colas , vernizes e tintas, em cartolinas, ráfias e guitas, em veludos, contas e missangas e para todos criava numa explosão de cor e fantasia, os trajes que cada um levaria aos bailes.

Eram reis extremosos com as suas princesas sempre as acompanhando a todos os recitais, sentando-se em família no camarote principal. Quantas vezes o pequeno cavaleiro foi convidado a subir ao camarote e quantas vezes as princesas suplicaram para descer para junto do pequeno cavaleiro e da sua companhia!

Pais mais dedicados às suas filhas nunca houve e estas crescerem num ambiente feliz e protector.


Ao crescerem, os Reis nomearam o pequeno cavaleiro protector das princesas. Serás porventura um Cavaleiro Andante mas serás o seu Paladino, o seu Lancelot!

E o pequeno cavaleiro cresceu junto das duas princesas acompanhando-as pela infância e juventude.

Sempre que um cavaleiro aparecia como pretendente a uma das princesas ou meramente pretendendo ser o seu par num baile do reino, a Rainha não lhe perguntava primeiro quem era, quem eram seus pais ou donde vinha. A sua primeira pergunta era ‘’Sois amigo do pequeno cavaleiro?’’ e em resposta afirmativa um sorriso se abria e a permissão era concedida sem mais perguntas ou entraves.

Dois momentos contudo vieram perturbar a felicidade do reino. A morte da Rainha-Mãe e mais tarde do amado Rei.

Na Rainha e nas suas princesas instalou-se uma melancolia que esteve sempre presente por toda a vida mesmo que disfarçada pelos lindos sorrisos com que brindavam os seus amigos.

Mas certamente, sempre que caía a noite, olhavam para o céu e viam as duas estrelas mais resplandecentes a brilharem para elas e no seu intimo oravam sorrindo:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia

O pequeno cavaleiro cresceu mas a Rainha esteve sempre presente na sua vida, acompanhando o seu progresso nas letras e ofícios e o seu desembaraço nas lides das armas e da diplomacia, o métier de um bom cavaleiro.

Nunca lhe faltou com uma palavra de apoio, de simpatia ou de conforto.

Quando o pequeno cavaleiro agora já crescido decidiu cortejar e mais tarde casar com uma princesa de fora do reino, muitos foram os que discordaram e quase levantaram armas. Mas a Rainha um dia vendo-o enquanto passeava, saiu da sua comitiva e dirigiu-se ao cavaleiro dando-lhe o apoio e a concordância que ele precisava.

- O amor vence! O amor é tudo!

E mais tarde quando o cavaleiro apareceu com o seus pequenos rebentos, de novo a Rainha se lhe dirigiu e acariciando as faces dos pequenos querubins manifestou uma alegria só comparável à que sentia pelas suas próprias netas.

E o pequeno, agora crescido cavaleiro, lembrou com saudade os tempos das correrias no castelo, as palavras do primeiro francês e as escoltas às princesas no caminho para a escola.

Um dia a Rainha adoeceu, o seu espírito batalhou entre o desejo de se reunir com o seu amado e bondoso Rei e a sua saudosa mãe e a vontade de permanecer e manter o braço protector sobre as suas princesas.

Foi uma batalha longa, dura e corajosa. Não importasse a duração e a dureza do combate, as duas princesas permaneceram juntas com a sua mãe, sofrendo com ela, serenando com ela.

Até que um dia compreenderam que o tempo era chegado. A Rainha já sofrera o suficiente na luta inglória contra um destino que a afastava fisicamente das suas filhas.

Era tempo de partir. Era tempo de finalmente poder juntar-se ao seu querido Rei, à sua querida mãe e a todos os que tinham feito parte da sua vida, que a tinham acompanhado nos tempos de princesa, nos tempos dos sonhos e dos desejos.

Então o seu espírito partiu. Elevou-se no ar e metamorfoseou-se numa estrela, juntando-se a todas as outras que brilham no céu.

E há noite, as duas princesas e as duas pequenas princesinhas olharam para o céu e viram não duas mas três estrelas a brilhar mais forte.

E ao longe o cavaleiro tornou-se de novo criança e orou:

Anjo da Guarda
Minha Companhia
Guarda a minha Alma
De Noite e de Dia

E fez uma genuflexão e erguendo uma taça brindou:

Longa Vida à Rainha
Que viva sempre nos nossos corações!


“As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém… Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto… e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!”

(Antoine de Saint-Exupéry - O Pequeno Principe)

In Memoriam IC




Sur le pont d'Avignon



Rita Mitsouko- Le petit train



quarta-feira, 19 de maio de 2010

COCA-COLA SENSAÇÃO DE VIVER


...apesar de não ter nascido nas Caldas, Adelaide Ferreira passou a maioria da sua infância e toda a adolescência nas Caldas. A sua extraordinária voz deu-nos o jingle mais famoso dos anos 80

É provavelmente o “jingle” da marca com mais sucesso em Portugal. Lançado em 1988, o anúncio sob a assinatura “Sensação de Viver” marcou toda uma geração que hoje ainda sabe de cor a letra da música.




...E era cantado pela ''nossa'' Adelaide Ferreira, uma honra para as Caldas.

Dançar

Sentir a emoção de uma coca-cola

Sensação de viver

Vou dançar até o dia acabar

Sentir a música que paira no ar
A
Sentir o ritmo que me faz vibrar
hey hey hey

Não posso deixar de partilhar esta emoção a valer

Cantar

Dançar

Sentir a emoção de uma coca-cola
Coca-cola,
sensação de viver…



Coca-Cola Sensação de Viver

O FERRO VELHO



A história do Ferro Velho começa quando Jorge Sales, aos 35 anos, abriu o espaço no dia 24 de Abril de 1972, com o seu amigo Pedro Félix, que era também colega de trabalho no aeroporto, no sector do turismo.


“Em conversas achámos engraçado abrir uma discoteca. Tivemos várias hipóteses desde a construção de uma de raiz ou alugar um espaço. Acabámos por escolher o Ferro Velho, em detrimento do Inferno da Azenha. Naquela altura funcionavam ambas como discoteca particulares”, recordou.


Jorge Sales revelou que a sua escolha se deveu ao facto de na altura já o Ferro Velho ter funcionado como discoteca e por ter mais condições, uma vez que já tinha uma casa de banho.


Também o facto do Ferro Velho ter aberto oficialmente em 1968 com festas, pelo seu proprietário Vasco Luís, foi outra das razões que o levaram a optar por esta escolha, uma vez que tinha licença da Direcção Geral de Espectáculos.


O primeiro dono do Ferro Velho foi assim Vasco Luís, proprietário da Quinta do Avenal e que abria particularmente o espaço. Mesmo assim, problemas com directores do Casino, situado no Parque D. Carlos I, que fizeram queixa à Direcção Geral de Espectáculos, pelo que veio a obter a licença em 1968.




O Ferro Velho, pela mão de Jorge Sales e Pedro Félix, abria ao fim-de-semana e em Agosto todos os dias e centenas de pessoas rumavam ao local, uma vez que não havia discotecas num raio de 50 quilómetros.


“Discotecas só em Lisboa, ou em Torres, o Túnel. De resto não havia mais nada”, lembrou Jorge Sales.


A sociedade destes dois amigos terminou um ano depois, tendo Jorge Sales e a sua mulher Alice seguido o negócio até 1983, altura em que foi vendido. Na década de 90 encerraria as portas.


O Ferro Velho contribuiu para o crescimento da cidade das Caldas, não só pelos namoros e alguns casamentos que proporcionou, mas porque muitas pessoas de fora da região se deslocavam à casa da moda, uma vez que pela sua profissão no aeroporto de Lisboa, Jorge Sales conseguia ter música actual.


“Antes um álbum chegava ao nosso país um ano depois de ter saído nos Estados Unidos, mas como tinha acesso em viagens aos Estados Unidos, comprava muitos discos, que duravam mais de um ano. Na altura era uma grande novidade, agora as músicas saem às 10 horas em Nova Iorque e cerca de meia hora depois está em todo o Mundo”, declarou.


in Jornal das Caldas. Edição On-line 22 Abril 2009
















Bob Seger - Still The Same (1978)



Bob Seger - Rare Against The Wind Live



Bob Seger - We've got tonight (1978)

sábado, 15 de maio de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

PLIÉS E BABYGROWS



Na minha adolescência, os meus pais sempre arranjaram forma de me tramar as tardes de fim de semana. Ainda antes dos tempos da natação, puseram a minha irmã Xinha no Ballet.

E eu lá ia como irmão mais velho protector, acompanhá-la ao ginásio do Ramalho Ortigão onde uma prestigiada professora e antiga bailarina, a D.Isabel Affonseca dava as suas aulas. Todas as santas tardes de sábado.

Isabel Affonseca tinha sido uma das mais famosas bailarinas portuguesas e era agora uma emérita professora de ballet. Como podem imaginar estas aulas eram uma completa seca para mim.

A senhora, que nessa altura já não ia para nova, vestia invariavelmente umas calças à la Audrey Hepburn e arregaçava os canos das calças, dobrando-os por aí a cima até ficar com os tornozelos bem à mostra. Calçava também umas sabrinas ou umas sapatilhas de meia ponta e munia-se sempre de uma pesada e grossa bengala com que marcava os ritmos dando constantes ferroadas no chão.

Acompanhava-a uma outra senhora ainda mais velha que martelava gentilmente um provecto piano.

Estou a recordar a Profª Affonseca, de costas para o palco e de frente para as alunas, muito hirta de pernas meias abertas e pés firmes no chão, de bengala na mão esquerda, a dar as suas instruções com voz grave e ar sempre zangado.

Ao fim de umas tardes fastidiosas lá descobri uma forma de aligeirar o programa e assim colocava-me em pleno palco do Ginásio (que servia igualmente de recitório), por trás da professora imitando-lhe todos os gestos perante o riso das alunas. E cada vez que a senhora olhava para trás com ar zangado e desconfiado eu fazia a pose mais angélica que poderiam esperar.

O meu único ponto de interesse naquelas aulas residia numa aluna de Alcobaça amiga da minha irmã, a Sofia Raposo Magalhães, era loura e de pele muito branca. Infelizmente considerou que eu era baixo demais para ela e afastou-me das suas atenções!

Apesar disso eu acompanhava com especial resistência e sentido altruísta aquelas lições de En l’Air! Plié! Relevé! Ronds de Jambe!Soutenu! Degagé! E por aí fora (o que eu sei, Mon Dieux!).

No final de cada ano acontecia a prova máxima. O Sarau no Teatro Tivoli em Lisboa onde todas as classes da Profª Isabel Affonseca (que dava aulas em várias localidades) se apresentavam perante uma assistência de familiares, amigos, apreciadores e outros desgraçados que tinham de gramar mais uma manhã intensa de jeitosos com malhas e esqueléticas sem peito.

A única parte aceitável do programa era o cerimonial da troca de vestuário que era feito no primeiro andar do quartel de Bombeiros que ficava nas imediações do Tivoli. Nessa altura eu misturava-me com a plebe e lá ia tendo um momento de lazer que antecipava as quatro horas de tortura porque iria passar!

Certa vez, decorria um Pas de Deux intitulado Au Claire de La Lune ( as coisas de que eu me lembro, caramba! ) e que consistia num número de dança efectuada a dois por uma elegante anoréctica e um rapazinho com baixos níveis de testosterona , quando a Prof. Affonseca verificou que lhe faltava um figurante para o número seguinte. E eis que ela crava os olhos à matador em mim, cerra os olhos e aponta-me a bengala.

–Moi?!- Pensei eu para os meus botões. - O que é que terei feito agora que estou aqui tão quietinho a contar as horas para voltar para as Caldas?!

- Tu aí, ó Caiado! – gritou a Margot Fontaine cá do burgo. – Anda cá que preciso de ti!

Bom - pensei eu no meu espírito altruísta – deve querer que faça companhia a uma das donzelas que vieram sozinhas! E lá fui eu, inocente como um cordeiro para a degola.

- Preciso que vistas uns costumes e vás para o palco fazer de figurante. – quase vociferou a senhora – Não precisas de fazer nada! Apenas fica ali até a cortina baixar! E vê se te aguentas sem te rir! – ralhou ela.

- De malhas não! – Logo fui avisando, temendo o pior!

- Porquê?!- gritou ela! – Tens medo de gostar?!

Eu ia começar um tratado sobre o meu gosto pelas malhas dos pullovers da Sidney e pelo jogo da malha que jogava na beco da taberna do Antero, pai do Paulo, mas a senhora agarrou-me firmemente por um braço e deixou-me nas mãos de uma costureira.

Foi uma experiência que escondi no mais ermo local da minha memória e que faço por não lembrar.

Pode ter sido apenas a minha imaginação mas eu iria jurar que durante o tempo que estive no palco senti os meus órgãos genitais a shrinkar… a shrinkar. Se calhar aconteceu apenas porque as calças eram muito apertadas ou porque o tempo de exposição à radioctividade, digo, ao ambiente, foi pouco, pois logo depois de tirar o traje senti-me a melhorar.

Uns tempos mais tarde o diabo da senhora decidiu fazer um novo recital, desta vez num palco improvisado no parque das bicicletas do parque. Desta vez tinha espaço suficiente para ir cirandar para longe, por exemplo… até aos prédios dos Violas!

Mas não, a minha mãe achou que era uma vergonha eu não assistir à fantástica exibição da minha irmã e insistiu que eu ficasse por ali.

Estava eu a apreciar os diversos encantos das bailarinas, quando ouço um remake do Exorcista:

– Ó Caiado, anda aqui para dar uma ajuda!

Então não é que a senhora me detectou no meio da multidão e queria que eu voltasse a repetir a gracinha do Tivoli? Só que agora parece que eu teria mesmo que vestir umas caneleiras de malha sobre um babygrow azul celeste que daria cabo da minha reputação em menos tempo que levou a Samy Figueiredo Lopes a dar-me uma chapada quando lhe beijei a cara, uma tarde no Casino.

Desatei a fugir pelas escadas que dão para o ténis, sai pelo portão do Lisbonense, passei a Rainha e só parei na Praça do Peixe.

Durante meses tive pesadelos com a senhora a apontar-me a bengala e a gritar:

- Tu aí ó Caiado! Plié! Cabrolié!Elancé! Saut d’Ange!Tour en l’air! Et maintenant triplo mortal encarpado, com uma mouche sobre a multidão!!!

E eu acho que ainda hoje tenho que olhar por trás do ombro para ver se não me apanham!


Isabel Affonseca faleceu em Abril de 2007. As suas antigas alunas recordam-na com saudade pela sua alegria e boa–disposição mas também pelo seu rigor e disciplina que fez delas melhores alunas e melhores performers. A sua contribuição para o ensino do bailado nas Caldas não foi reconhecido em devido tempo.

Não deixemos que isso volte a acontecer com quem ainda pode receber esse carinho.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

SARDINHADAS COM AZEITE



Os Crespos costumavam organizar umas sardinhadas valentes no casal que tinham na Lagoa Parceira.

Estas sardinhadas duravam um fim de semana e como só havia um quarto dormíamos todos espalhados pelo chão da sala com um tronco de madeira a fazer de almofada.

Éramos mesmo muitos e de manhã íamos à Praça do Peixe às sardinhas e à praça comprar o tomate e os pimentos. A alface e as batatas vinham do casal.

Partíamos quase todos de bicicleta, salvo alguns que já tinham umas pequenas motas.

Ao fim da tarde o Miguel pegava num velho Goldoni e íamos todos no atrelado do tractor ao café da aldeia e os mais afoitos tomavam á noite e sempre a pé o caminho das Caldas para ir ao Camaroeiro ou mesmo ao Ferro Velho.

Faziam-se autênticos campeonatos de comezaima e alguns alarves chegavam a comer quatro dúzias de sardinhas - e não comiam mais porque não os deixavam!

Lembro-me de um que se gabou de ter comida seis dúzias e de alguém ter dito:

- E hoje quando fui à praça disse-me um pescador que tinha pescado um candeeiro aceso!

- Eia que exagero! – replicou o alarve.

- Tá bem – respondeu o outro – Tu tiras três dúzias à tua contagem e o homem faz o favor de apagar o candeeiro!

Eram tempos de completa aventura num misto de Pequenos Vagabundos e Verão Azul. Fazíamos passeios pelos pinhais e provas de ciclocross.

Uma tarde eu e o João Gancho decidimo-nos pendurar numa nespereira e comer todas as nêsperas que ficaram ao nosso alcance. Ficámos dois dias agarrados às calças!

Como disse a sardinhada durava todo o fim de semana e na tarde de Domingo alguns pais costumavam aparecer e era aí que se dava a desgraça.

As sardinhadas eram muito bem regadas de água-pé e de tinto dos pipos da quinta e invariavelmente havia quem apanhasse grandes pielas.

Ao aproximar da hora em que os pais poderiam aparecer aumentava a aflição dos que ainda tinham um pingo de consciência perante a completa bebedeira de alguns.

Era nesta altura que o Pedro Cardoso intervinha com a sua solução mágica. A Fatocas agarrava-os firmemente e o Pedro toca de lhes enfiar um copo de azeite pelas goelas abaixo!

Era remédio santo, ao fim de uma hora estavam sãos como um pêro.

A Zairinha e a Magalhulha que o digam!




Ao Pedro


Ville Valo & Natalia Avelon Summer Wine

sábado, 8 de maio de 2010

CRUZANDO OS ANOS EM POUCOS DIAS - DIÁRIO DE UM ESTUDANTE


É Domingo.

Acordo com a rádio e com as vozes do Carlos Cruz e do Rolo Duarte no Pão com Manteiga. Levanto-me para ir para o ténis. Como um pão com Tulicreme e abalo para o parque.
Encontro-me com o Zé Manel Cabaços, o Senra, o Roxo, o Leonel e o Zé Ricardo e jogamos durante duas horas. No outro court estão a jogar o Henrique Mineiro com o José Augusto.
Volto para casa e tomo banho para ir almoçar com os meus pais à Pensão Cristina.

À tarde arranco para o sotão. Chego atrasado e a festa já começou. Cruzo-me nas escadas com a Elza, a Milai, a Ju, a Gracinha, a Lena e a Elsinha Magalhães. A entrar já está a Paula da Malveira e a irmã. Quando entro vejo que temos muita gente de fora. A Guida Sousa, a Isabel de Cascais e uma amiga chamada Bárbara que conquista logo a atenção dos rapazes. Dou um beijo à Susana e uma palmada no Ricardo. Trato-o por Rato e ele manda-me dar uma volta. Chega o Pedro Cardoso com os primos Moreira, o João, o Marco e a Isabel, vem o Peliculas e todos os Calisto incluindo os três Titos, o Xico, o Tony e o João. Vêm depois o João Paulo Ascenço, a Teresa e a Leonor Raposo. Atrás chega o Luis Jardim com a Mana Inês.

Ao fim da tarde tenho que sair antes de todos para ir à missa das seis. Quase que adormeço na homilia do Padre Guerra. À saida vejo a Graça, o Saloio, a Fátima e o Camané. Reencontro o Mário Rui que veio do seminário. Cumprimento o Dr. Fernando Palma que fala com o Dr. José Mota.
– Entã Compadre? – sauda-me este como sempre o faz.
O meu pai conversa em tertúlia no passeio á frente da casa com o Zé Lamy e com o David Duarte Ribeiro e o José Monroy.

À noite fico-me por casa a ver o Colombo.


Segunda-feira.

Saio de casa ao mesmo tempo do Jorge e do Cá-Jó, juntam-se a Paula Melo e a Cristina Caramelo da nossa rua e vamos juntos para o liceu.
Começo bem o dia com a aula de Sociologia do Frederico Costa, o meu professor preferido. Ele chega ao mesmo tempo e já está a estacionar o seu carocha laranja no largo do hospital.
Então? – pergunto-lhe eu – Continua comunista?
Comunista não, UDP! – responde-me ele com um largo sorriso – E tu? Continuas fascista? - Eu devolvo-lhe o sorriso e entramos juntos no liceu enquanto ele me conta como passou a noite a fazer vaporizações para a filha que estava com gripe.
Entro no Liceu ao mesmo tempo que o Manta e a São Teles. O Alexandre e o Pedro Gonçalves cumprimentam-me no hall. De súbito lembro-me que me esqueci de alguns livros na sala da associação. O costume! Viro à direita e subo pelas escadas de pedra cumprimentando a Sara e o Clemente que vêm a descer. Viro à esquerda, passo a correr pela sala dos professores, viro à direita e passo diante do bar onde está a Vanda Nogueira a conversar com a Guida Nascimento e os mais novos, o Mário Filipe, a Nucha e o primo Zé Miguel com a namorada. Digo-lhes adeus e atravesso o hall do 1º andar, felizmente a Teresa Requeijo e a Susana estão na associação. Quando entro a correr para apanhar os livros elas abanam a cabeça sorrindo e num gesto de reprovação. Sou um caso perdido! Desço agora pelas escadas de madeira e cruzo-me com a Rosa e a Paula da Columbeira, corro de novo pelo corredor vira na segunda à esquerda e entro pela última porta à direita. Estou finalmente na sala!
No intervalo grande, passo pelos três Baltasares que estão com o Manel, a Ana Monroy e a Bébé a recordar o fim de semana no Baleal com o Ivo e o Vasconcelos e Sá. A Xinha mostra uma cassete do Jackson Browne que lhe gravara o Jean-Jacques no Verão.
Entro de novo na sala de aulas com o João Buiça, a Manuela, a Anisabel e a Anabela, altas e lindas.

À hora de almoço, a caminho de casa, cruzo-me na rua com uns amigos do meu pai. O Vasconcelos a meter-se com o Juca, o Cap. Pires e o Rogério Matias. Páro para cumprimentá-los.
- Olá Paulo Rogério! – sauda-me o Cap. Pires utilizando o meu segundo nome como só ele o faz.
- Estás bom Tempero!? – cumprimenta-me o Rogério Matias utilizando uma private joke.
Desvio-me na Cova da Onça, cumprimento o funileiro e vou ao Caldinho dar um beijo aos meus avós que chegaram de Lisboa. Dou um beijo à Lila e cumprimento o Rui Aniceto. Os filhos, Rui e Nuno, o Parrila, chegam atrás de mim.
Sigo para casa a reboque do Pedro Miguel do Rosário, da Sandrinha e dos Morgados que fazem o mesmo percurso. Meto-me com o Nuno pelo seu recente namoro com a Vanda.

À tarde volto para o Liceu. Entro no átrio e vejo a minha irmã Teresa a trocar segredos com a João Horta e a Isabel Thiran. Os irmãos Valente passam por mim, também a Sara e o Clemente. A Xinha conversa com a Manuela Ferreira, a Bibú e a Vani e o Pedro Ferreira. A Xana deverá andar por aí com a Cristina Machado, a Alexandra Palma e o Inho.


O Gil passa por mim no corredor e espeta-me um carolo enquanto o Isidro olha-me com cara de gozo. Boa! Esta tarde começa bem. Ao fim do dia passo à biblioteca da Gulbenkian e devolvo o livro que levara para o fim de semana. Saio e cai-me caca de pombo no meu ombro. Merda! Este não é o meu dia! Olho com tristeza para o edificio entaipado da Casa da Cultura recordando os tempos do Casino. Volto ao liceu para me limpar e depois vou com a malta do Bombarral comer umas chamuças á Colher de Pau antes de apanharem o comboio.

Ao jantar juntam-se a Cristina Machado e a Kika Costa, já quase residentes da casa. Depois é hora da telenovela mas eu já estou farto de Gabrielas, Escravas Isauras, Casarões, Dancing Days e Astros. Vou para o meu quarto ler banda desenhada e ouvir o ‘’Quando o telefone toca’’ do Matos Maia. Não sei como esta gente gosta tanto do Tony de Matos! Decido-me pelo Jackson Browne.


Terça-feira.

Acordo com o Diário Rural e o anúncio ao Piquenicão. O Cá-Zé e a Cami descem comigo no elevador e paramos no 1º andar para apanhar o Rui e a Nica.
Paro no Nutripol para comprar pastilhas Pirata e vou com a Kika Gancho até ao liceu. À chegada faço as entregas do dia, devolvo o livro da Christiane F. à Margarida Arroz e um album dos Yes à Teresa Lamy e começo as aulas.

À tarde vou comprar umas sapatilhas John Smith ou All Star à Macadi e converso com a Mizá e com o Graciano. Depois apanho a Cristina Aleixo à saída da Drogaria e vamos juntos para o liceu. Cruzo-me com as quatro da vida airada, a Vanda, a Tita, a Ana e a Paula. À porta do Falcão estão a Cristina e a Rita a falar com a Leonor Vaz Pato e a Orlanda. O dia decorre lentamente até à hora de jantar. O Pedro Furriel dá-me uma boleia de mota até casa.

À noite vou à Zaira e tomo um café na mesa de entrada com a Libânia, a Cristina Romão e a Rosa Amélia. Encontro casualmente a Teresa Fialho do Bombarral e ficamos a falar até serem onze. Passam por mim os três primos Horta, a Cristina Coutinho, o Luis e a Estela. É hora de ir para casa.


É quarta-feira.

Hoje só tenho aulas de manhã. Acordo ao som da rádio como habitualmente. Vou num ápice para o Liceu. No hall cruzo-me com o Dr. Lalanda e a sua mulher Leonor, mais à frente o Prof. Serafim e o Padre Naia. A primeira aula do dia é de História com a Sotora Fernanda Bernardes, segue-se Inglês com o Daniel Filipe e Filosofia com o Prof. Vasco a que carinhosamente tratamos por ‘’abajour’’ devido ao seu excêntrico penteado.
No intervalo grande, subo ao átrio do segundo andar pelas escadas de madeira no fundo do liceu. A meio patamar saem uns miúdos disparados da sala de Trabalhos Oficais e quase caiem pelos degraus. Viro à direita e entro na casinha da Associação. O Paulo, o Anibal e a Susana, o Dadinho e o Brasuca, a Luisa Branco, a Nônô e o João Paulo atropelam-se naquele pequeno espaço tão entretidos estão com o stencil para o jornal.
O hall está uma confusão, com a Margarida Palma e uma colega a jogarem badminton no meio de toda a gente. O Foca, o Zé da Burra e o Cá-Zé, conferenciam a um canto com ar de gozo. A Minô, a Filó e as Ferreira entopem o bar.


A porta da rua está aberta e a Teresa, a Ana Margarida, a Nini Velhinho, o Cabaços, o João Librax, o Artur, o Tó Zé Faustino, a Paula Couto, a Zita, a Ivone Mil-Homens e o Jose Luis do Bombarral, as Carmitas, a Élia com o Paulo Renato e a Paula Ribas entopem a saída. À parte de trás chega o grupo das motos, o Miguel Crespo com a sua mini-Casal, o Zé Vargas e o Bairradas com as suas Casal Trial, o Jorge Magalhães e a Nini Gouveia com as suas Suzuki e Yamaha, o Cavim com a Gilera, o seu irmão Jô com a Nicha atrás, o Pêpê e o Rui Bento do O. A Orlanda, a Paqui e a Cristina chamam pela Nini para irem treinar voley.
Cravo o terceiro cigarro da manhã à Mila Ferreira - hoje vale tudo, é SG Filtro, Ritz ou Português Suave - e subo para a aula de 2 horas de Educação Física. No andar de cima está o grupo do Cadaval, a Paula, o Luis, o João e o Duarte. O João Miguel conversa com a Di.

Hoje estou por minha conta. Saio do liceu e vou comer uma crise ao Tric. Depois de almoço subo ao Camaroeiro Real para ir jogar flippers. São quase três da tarde.


Passo à Taiti e subo ao primeiro andar. Já lá estão todos. Peço ao Sr. Saul um café e um pampilho e cravo um novo cigarro à Anabela Elias e mando uma boca ao Joca e à Paula. Às quatro da tarde rumamos ao Queens para aproveitar a matiné de quarta-feira, único dia em que abre à tarde durante a semana. Nem nós nem os da Escola Comercial têm aulas à quarta à tarde!
Dou um beijo à Paula Lopes e à Cristina que vêm da Académica, os seus grandes olhos sobressaem carregados de rímel e de lápis. Juntamo-nos todos nas traseiras do Montepio antes de entrar.
Grande tarde! A Joana não me ligou nenhuma mas isso também já é habitual! Há mais peixe no mar!
Após o fecho, às sete, vamos um grupo ao beco dos Teixeiras, à fábrica de bolos. A mesa de matraquilhos está ocupada e decidimo-nos por ir à Floresta. Entramos pelo longo corredor. Amofino o papagaio como habitualmente e delicio-me a ver as sandes de salada de polvo e de coentrinhos de orelha de vaca que nunca como! Um grupo de veteranos está a jogar à laranjinha e nós escapulimo-nos para o pomar das traseiras. As mesas estão livres mas cobertas de caca de pombo. As bolas estão todas picadas pelos pássaros e a mesa empenada, mas é o que há!
Às oito regresso finalmente a casa para jantar. Cruzo-me com a Anabela Venâncio que me pergunta pelo Tó-Zé Lemos e pela Paula de Alvorninha do nosso tempo do 7º ano. Trabalhos de casa e passagem rápida pela Zaira. O João e o Romão estão de serviço e eu pago um café que fiquei a dever ao Jorge no dia anterior.

Acabo o dia a ouvir a 24ª Hora na Rádio Comercial. No meu quarto só se ouve Rádio Comercial em FM.


Quinta-feira.

Hoje só tenho aulas mais tarde. De manhã ainda ouço o TNT- Todos no Top (com o patrocínio dos Shampoos Timothey!) com o Jorge Pego e a Manuela Moura Guedes. Passo à MagicSom para ver o que saíu e sigo para o Liceu. Tenho Alemão com a S’tora Alice Grilo, Moral e Religião com o Padre Eduardo e mais uma catrefada de aulas.

No intervalo do almoço venho a casa e passo nas escadas da Traviata para comprar o Falcão e o Mundo de Aventuras. Começo a contar os tostões para ver se ainda dá para ir ao Diário de Noticias comprar o Motor ou o Automundo, a semanada vai acabar-se num ápice.
No intervalo da tarde temos reunião na Associação, estamos a tratar dos contactos com a Touricoop e com a Top Tours para ver quem faz o melhor preço para a excursão, ainda me cruzo pelo caminho com o Albano e a Xana, as minhas irmãs conversam em grupo com a Blica, as Palma, as Vaz Pato e a Isabel Nunes, a Ritinha e a Cláudia.


Ao fim da tarde vou ao Machado comer um russo com uns amigos e as colegas nazarenas, a Teresa, a Maria João e a Luisa. Desafiam-me para ir aos matraquilhos do café ao lado mas prefiro ir jogar bilhar com o João Gancho para a cave do Central. Passo mais tarde pelo Carlos e a Elsa na Duarte Pacheco e entro no Franco para tomar uma imperial com o Quim, o Tó-Zé e o Luis Rebelo ‘’Sancho’’ e vou para casa jantar.

À noite fico a ver Os Anjos de Charlie e a ouvir o Morrison Hotel do Rui Morrison.


Thanks God it’s Friday!

Tenho duas horas de Educação Física sempre a jogar Voley com o Paulo Mateus e o Paulo Jorge, o Pedro Sebastião e o marrão do Alcides. Depois uma sucessão de aulas até ao almoço. O Sr. Hermínio vem-me azucrinar por deixar sempre os livros no liceu. Vou tomar um café ao Gato Preto e sigo para casa na companhia do Joca e do Toni que vão pelo mesmo caminho. Tenho que fazer um TPC. Ligo a Rádio e os meus programas preferidos vão passando com as horas. O Vapor com o José La Féria, a Discoteca com o Adelino Gonçalves e as crónicas de Londres do Corte-Real, o Rock em Stock com o Luis Filipe Barros e a Ana Bola.

É dia de semanada. Vou comer um prego ao Convivio onde encontro a Zé, a Clara e o Paulo Gaspar e vou tomar café à Zaira. Juntamo-nos alguns para ir à Cave do Vale e depois à festa da Azenha.
Vou no Fiat 850 do Norberto com a Maria João e o Sérgio. Desço as escadas e cumprimento o Sr. Montês e a D. Maria pedindo um Toupeiro. Brinco pela milésima vez com a cera das velas e juntam-se ao grupo o Manel Luis, o Manel Zé e o João Manel e ainda a Paulinha, a Rosarinho e a Guida. Um grupo de Óbidos na sala das vergas está particularmente ruidoso, o Paulo Cardoso, o Banana e a Carmita, o José António, o Oscar, a Teresa e a Rosário, o David e a namorada . Chegam depois as Alpoim Calvão. O Octávio eo Zé Mineiro estão na mesa ao lado da minha com duas holandesas. O costume!
Enquanto o grupo com quem fui segue para a Usseira, vou com os Maneis para a Azenha. A nós ainda se juntam o Quim Maria, o Carlos João e o Fernando Berardo. Sou o mais novo do grupo, o que já se torna habitual.
Está o Jorge na entrada. No bar estão hoje o Henrique, o Rui e o Helder. Encontramos um grupo grande de amigos e pedimos Cuba Libre e whiskys. A música é boa mas tive azar de entrar ao som do Voulez-Vous dos Abba. As miúdas adoram e vão para a pista de dança. Fazem muito bem! No piso de baixo só me apanham se for para ir namorar para as mesas debaixo da cabine.
Estão lá o Luis Faria, o Hernani, a Rosa de Portalegre e a prima Guida das Gaeiras.
O Rui aparece com o Paulo e o Pedro Maluco mas vão cedo para outras paragens.
Aparecem milhentas caras conhecidas. Revejo os irmãos ‘’Torralta’’, a Sónia, o Luis e o Paulo Rua que aparecem nessa noite vindos de Lisboa. Vêm também de Lisboa a Gisela e o Teorias. Chega um grande grupo da Foz com o Salomão, o Batata, os Batalha Reis e os Araújo, o Zé, o Fernando e a Marina, os Picaretas, o Cristiano abraçado ao Manel Severino e os Sottomayor com as Hermanas. Chegam os Pessoa de Carvalho com alguns do grupo de forcados, o Hazakis, o Lameiras, o Vasco, o Camané Sequeira e o Luis Valério. Reencontro as manas Vazão, envaideço-me com a Xuxu, minha primeira namorada dos tempos da primária e vejo como a Paula está cada vez mais bonita, a Teresa olha-me com timidez. Mais gente que vem de Lisboa, o grupo da Rua Raul Proença traz o Carlos ‘’Caralhete’’ e mais umas caras desconhecidas. Chegam os do Cartaxo, o Paulo Vieira Dias com a São e a Sameirinho, o Pira e o Miguel, o João Paulo e o Rui Paulo, a Xana e a Bébé Rocha Homem. Chegaram os do Bombarral, os Figueiras com o Titico, de Almeirim veio o Nozes, o Sérgio, o Zé e o Mário Dinis Lucas. Chegaram também os de Torres Vedras com o Zé Manel Bota Fora à cabeça. Que festa!
Passam-se as horas. Muitos começam a partir. Tenho uma porcaria de uma paragem de digestão e começo a ficar enjoado. Ninguém está para me levar a casa e não me apetece regressar sozinho a pé. É o Zé Godinho que me traz na Peugeot mas não sem parar primeiro no Oasis para comer um pão quente, e eu enjoado no carro. Longas são as noites!


Finalmente chega o Sábado, o meu dia preferido.

Começo com um pequeno-almoço de duas vianinhas quentes e uma arrufada dos Teixeira. Na rádio passa a Grafonola Ideal com o Júlio Isidro. Vou à Goia para comprar uns jeans e sigo para a Zaira. Tenho de dar um beijo a centena e meia de amigas da minha mãe e da minha avó, opto por uma cumprimento rápido e apenas beijo a D. Leonarda, a minha avó, a Maria da Natividade, a Cristina e a Maria Helena Jales que estão na primeira mesa. A outras que se considerem cumprimentadas. Fujo para a mesa dos meus amigos, como habitualmente ao fundo da sala, à esquerda por trás do arco.


Damos umas passas meio às escondidas enquanto tomamos o café. Os meus pais hoje vão almoçar uma caldeirada com as minhas irmãs ao Félix mas nem a ideia de comer a Montanha Russa me seduz. Decidimos ir depois de almoço a S. Martinho, ao Feelings. Mas antes ainda vou jogar uma hora de ténis com o Diogo e o Kiko que chegaram de Lisboa.

Tomamos café no Pão de Ló de Alfeizerão e eu ironizo com algumas das músicas da Juke Box (Adamo, Silvie Vartan, James Last, Claude François, Sérgio e Madi, Duo Ouro Negro,…). Passamos à Viamar mas está fechada aos sábados e seguimos para S. Martinho.
Quando descemos à cave já os acordes do Born To Be Alive se fazem ouvir. A malta que tem casa de férias em S. Martinho, os Palma, os Gomes, as Gama, já lá está toda e acabamos por formar um grupo de trinta. Terminamos a comer pastéis de nata junto aos Bombeiros.

Nova noite, nova corrida. Hoje o programa inclui chouriço assado na Biquinha e depois Ferro Velho.
Sr. Zé diga aos Morenos para irem abrindo a porta que estamos para chegar!


A todos os que viveram comigo a adolescência
A todos os amigos
A todos os que já partiram mas que ainda vivem
Em mim!





Terry Jacks - Seasons in the sun 1974