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segunda-feira, 7 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - A VELHA ESPLANADA


(sobre foto de Pedro Olivença)



Descia a correr em bando com os amigos o troço da Aldeia dos Macacos que ia do Casino à Esplanada.
Como habitualmente, no meio de uma jogatana de futebol ou de tiros e flechas dos caubois e índios (eu era o Faca Negra, chefe da tribo dos Facas) eu avistara o meu avô João a subir a alameda na companhia dos seus amigos.
Era já uma tradição diária. Pelas quatro e meia, cinco da tarde, o meu avó e os seus amigos terminavam uma das suas grandes voltas ao parque que se iniciara naquele mesmo local, perto do coreto, e subiam a alameda em direcção Casino. Viravam depois à direita, passando então diante da Biblioteca Gulbenkian, dos Pavilhões do Parque (o antigo quartel que viria a ser Liceu), do Salão Ibéria, dos amigos a bater uma sueca no pavilhão de tiro, pelo roseiral, retornando para a frente do Museu, passando junto à casa dos barcos e parando por um tempo em conversa com outro grupo de amigos.




Depois continuando sob a pérgola até ao parque das bicicletas e descendo as escadinhas do ténis. Voltavam a parar para apreciar os amigos tenistas e os seus filhos, o Prof. Barreto, o Dr. Calheiros Viegas, o Henrique Mineiro e o Dr. Saudade e Silva, o José Augusto, o Dr. Alcino Coelho, o Sr. Barreto do tribunal (pai do Manel e do Luis da Azenha) o Pinto Ribeiro, o Sena, o Tony Vieira Pereira, o Ramiro e o Paulino, o Néné e o seu primo Gégé, o pai deste, Jorge Sottomayor, o Jorge Salles, o Eurico, o Ai-Tó e o Miguel Sampaio Guimarães, o Chico Carrilho e o Miguel Bento Monteiro e o Rogério Matias, entre tantos outros.


Viravam em direcção ao pequeno lago, onde estão agora mais dois courts de ténis e depois passavam ao longo da rede dos courts do lado do Lisbonense subiam pelas outras escadinhas e entravam na alameda principal, torneando o parque infantil com o seu grande escorrega-castelo de três descidas, o escorrega vermelho mais pequeno, as avionetas vermelhas em baloiço, os outros baloiços, o sobe-e-desce e o carrossel dos cavalinhos, o comboio à entrada, à esquerda, ao lado do trapézio e das argolas sob um suporte azul. E no meio de tudo, o velho ringue de patinagem agora de dimensões mais reduzidas do que outrora fora.
Subiam então a Aldeia dos Macacos passando pela esplanada e pelo coreto onde paravam ganhando forças para um novo circuito.
Eram tardes soalheiras de fim de semana de Verão. A minha mãe e a minha avó jogavam canasta com as amigas no casino e lá em baixo a esplanada enchia-se de outras mães de família em conversa amena enquanto tricotavam uns naperons e pelo canto do olho zelavam pelos seus filhos (os Morgado, Horta, Pereira, Batista e muitos outros) que às dezenas brincavam nas imediações.
O ritual era sagrado. Manhã na praia, aproveitando as marés baixas e caminhando pelas rochas, ou banhos pela mão (o molhar o pé) nas grandes ondas das marés cheias. Manhãs de capacete a brincar às touradas ou a jogar ao prego ou manhãs de sol a comer uma Bola-de-Berlim e a beber uma gasosa no Tábuas azul, junto às escadas de madeira que davam para o largo do Facho. O José Luis , banheiro, montava as barracas brancas com números a cor de vinho e a sua mulher zelava pelo casebre onde depositávamos os enormes sacos de pano onde guardávamos os baldes, pás e colchões de água.
Se almoçávamos na praia tínhamos de ir a correr procurar os pequenos bancos de madeira e os largos estrados de madeira que faziam de tampo de mesa para que os meus avós pudessem comer sentados.
Depois era hora de voltar às Caldas não sem antes ir apanhar mais umas dezenas de caricas no areal por baixo do Tábuas.
Subíamos então as velhas escadas, carcomidas pelo sol, pelo sal e pela areia, passávamos pelo casebre conhecido pela casa dos barcos, onde ainda se alinhavam os dois velhos salva-vidas de madeira, agora destituidos das suas funções pelo asfaltamento da estrada que conduzia ao largo do Facho e pela construção do muro de segurança ao longo da ravina que levava à praia. Seriam precisos oito homens para os remarem e muitos mais para os levar ao areal, à falta dos bois que o faziam originalmente.

Após as 3 das tarde, então sim íamos para o parque, para o casino, onde ficaríamos até serem horas de jantar.
Longas tardes no parque. Pessoas a banhos que alugavam casas e quartos nas imediações do Hospital Termal sentavam-se nas avionetas, os famosos bancos inclinados, ao longo das alamedas. Muitas vezes traziam os filhos, geralmente os netos, com quem estabelecíamos fortuitas amizades de Verão. Vinham as famílias de África onde os pais cumpriam comissões de serviço, e falava-se dos usos e costumes de Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e mesmo de Timor. Vinham os caldenses residentes nas colónias deixar os filhos com os avós durante as férias ou a preparar o novo ano lectivo. Vinham emigrantes e excursionistas, vinham de todo o lado, visitar as Caldas.
A Aldeia dos Macacos, a velha alameda principal, enchia-se de gente passeando entre os plátanos seculares, jovens estudantes, empregadas domésticas em dia de folga ou fardadas cuidando das crianças e sempre merecendo a atenção dos jovens recrutas do R.I.5, muitos de partida para África e querendo ganhar um novo laço com a metrópole. Madrinhas de guerra, namoradas de guerra!


Por vezes tínhamos a surpresa de um teatro de fantoches, de Robertos, que uns artistas montavam de improvisação, de outra vez era um cigano com um urso amestrado, de unhas limadas e focinho ançaimado ou um tocador de realejo com um macaquinho saguim vestido de paquete de hotel, a recolher as moedas que os adultos lhe deixavam.
Então eu os meus amigos parávamos junto ao grupo do meu avô e eu dava-lhe um forte abraço e o meu avô, como sempre, dava-me um beijo na testa e dizia:
- Deus te proteja e te abençoe!
Nunca me faltou com aquela bênção mesmo que lhe desse mil beijos num dia! Mesmo quando estudava na Universidade e morava na sua casa na Estefânia.
Depois o meu avô levava a mão ao bolso e retirava um pequeno porta moedas de pele castanha e tirava uma moeda de 10 ou de 25 tostões que me dava. Depois voltava a guardar o porta-moedas no bolso para junto de outra carteira onde trazia a fotografia da sua mãe Francisca e uma pequena oração do Padre Cruz. Mesmo ali perto da medalhinha da Nossa Senhora de Fátima que trazia sempre pregada com um pequeno alfinete de dama à camisola interior.
Corríamos então para a esplanada. De cada lado existia um pequeno stand. O primeiro vendia gelados Olá e os pauzinhos podiam conter um prémio, um boneco monocromático dos personagens do Carrocel Mágico, a Anica, o seu cão Franjinhas, o caracol Ambrósio, o feiticeiro mau Saltitão, a vaca Rosália, o coelho Flávio, o Tio Realejo, os amigos Joana e Chico…
O prémio maior era um livro de histórias do Carrocel Mágico ou o próprio Carrocel.
No stand de baixo, no fim da varanda, vendiam-se os gelados da Rajá (É Rajá! É Rajá!) e aqui o prémio eram astronautas e alienígenas sendo o grande prémio (que nunca consegui) a nave espacial que os poderia albergar a todos.
Escolha difícil que tinha que de fazer todos os dias!
Os anos foram passando, agora já não corria para o meu avô. Ia a andar que um jovem de 10 anos tem que manter a postura!
As jogatanas de futebol no jardim do casino mantinham-se, entre corridas de carrinhos Matchbox e Corgy Toys no céu de vidro e corridas da minha Vilar contra a Motobecane do Kiko e a pasteleira do Diogo.
A moeda do dia servia agora para ir à esplanada beber uma groselha ou um capilé ou comer um iogurte natural Ucal, Primor, Veneza ou Lisboa, servidos sempre em boião de vidro.
Na juke box da esplanada ouvia-se o Ob-la-di Ob-la-dá e o Can’t Buy Me Love dos Beatles e o Unchained Melody dos Rigtheous Brothers mas também muitos outros êxitos da Dalida, Rita Pavone, Silvie Vartan, Claude Francois, Charles Aznavour, Sacha Distel e Adamo.
Na entrada Este surgiu mais tarde uma máquina electrónica com um simulador de Fórmula 1 com volante e acelerador. Poucas moedas e tantos bónus!
Já começava a conhecer os miúdos da esplanada e já nos misturávamos nos nossos jogos de ping-pong e nas incursões pelo palmeiral da parada.
Entrei na adolescência e a esplanada foi entreameando períodos abertos com outros fechados, viríamos uma vez reabri-la para fazer os nossos convívios de angariação de fundos para a excursão de finalistas de 1980. Panos pretos nas janelas e limpeza geral e chão encerado em poucas horas! Depois voltou a reabrir e já não era o meu avô João que eu via a passear com os seus amigos. Agora era o meu pai com os seus primos direitos e alguns amigos. O dinheiro que lhe pedia era agora para o café ou para os cigarros às escondidas!
De adolescente tornei-me adulto e agora sento-me na velha e sempre renovada esplanada, de Expresso ou Exame na mão, gozando o sol das meias estações e as sombras dos plátanos, enquanto os meus filhos correm para o parque infantil. As pastilhas que me pedem já não são Pirata, são agora Bubli”$E#%&£#/ qualquer coisa! Os Fruto Real, Laranjina C, Vitasumo, Carbo Cidral e Ginger Ale são agora néctares de pêssego ou alperce e Ice Teas. E até os bolos e sandes já não têm o sabor de outrora. Mas o prazer de estar na esplanada e na velha Aldeia dos Macacos, agora despida de muitos dos seus plátanos, mantém-se intocáveis.



Enquanto isso anseio pela dinamização do parque, pelos concertos Promenade que nunca vêm, pelo Maestro José Atalaya que me encheu a infância e a adolescência, que o parque se torne o nosso Central Park, o nosso Hyde Park, o nosso Serpentine, o nosso Vonderlpark, o nosso Englischer Garten… que nos tornemos uma Brighton e aproveitemos o coreto, a ilha do parque, o roseiral ou os magníficos relvados do parque e os nossos estupendos fins de tarde para incentivarmos e formarmos os nossos filhos no caminho da música e das artes.
O parque já não é o local onde costumava passar todos os meus tempos livres, fosse Verão ou Inverno, fizesse sol ou chuva. Já não é o local onde andava de bicicleta na infância ou jogava ténis na adolescência, onde namorava nos Invernos dos fins de setenta ou tinha aulas nos relvados nas tardes de Primavera. Já não tenho o cinema para ir ver o Trinitá nem a biblioteca para ler o Sandokan ou o Capitão Morgan.
Mas o parque ainda lá está, em todo o seu esplendor, o melhor jardim de Portugal, uma situação única em que uma boa parte da área da cidade é ocupada por um jardim. O parque com o seu lago continua a ter um enorme potencial e a esplanada, tal como a Praça da Fruta para a cidade, é a sua alma, o seu coração.
Já lá estava antes de eu nascer, já lá estava antes do meu pai nascer, já lá estava antes do meu avô nascer! Será testemunha silenciosa da história da minha família, das nossas brincadeiras e dos passeios com os amigos em amena e sorridente cavaqueira e dos nosso passeios bucólicos, solitários e introspectivos.
Um dia serei eu o avô a passear com os amigos (e como irei desfrutar as Caldas!) e serão os meus netos a correrem para mim. E quem sabe se não sentirei então a necessidade de os acolher com um:
- Deus te proteja e te abençoe!
(1971)


(1974)












O Carrocel Mágico - Genérico


Cat Stevens - Father and Son Original

sábado, 8 de maio de 2010

CRUZANDO OS ANOS EM POUCOS DIAS - DIÁRIO DE UM ESTUDANTE


É Domingo.

Acordo com a rádio e com as vozes do Carlos Cruz e do Rolo Duarte no Pão com Manteiga. Levanto-me para ir para o ténis. Como um pão com Tulicreme e abalo para o parque.
Encontro-me com o Zé Manel Cabaços, o Senra, o Roxo, o Leonel e o Zé Ricardo e jogamos durante duas horas. No outro court estão a jogar o Henrique Mineiro com o José Augusto.
Volto para casa e tomo banho para ir almoçar com os meus pais à Pensão Cristina.

À tarde arranco para o sotão. Chego atrasado e a festa já começou. Cruzo-me nas escadas com a Elza, a Milai, a Ju, a Gracinha, a Lena e a Elsinha Magalhães. A entrar já está a Paula da Malveira e a irmã. Quando entro vejo que temos muita gente de fora. A Guida Sousa, a Isabel de Cascais e uma amiga chamada Bárbara que conquista logo a atenção dos rapazes. Dou um beijo à Susana e uma palmada no Ricardo. Trato-o por Rato e ele manda-me dar uma volta. Chega o Pedro Cardoso com os primos Moreira, o João, o Marco e a Isabel, vem o Peliculas e todos os Calisto incluindo os três Titos, o Xico, o Tony e o João. Vêm depois o João Paulo Ascenço, a Teresa e a Leonor Raposo. Atrás chega o Luis Jardim com a Mana Inês.

Ao fim da tarde tenho que sair antes de todos para ir à missa das seis. Quase que adormeço na homilia do Padre Guerra. À saida vejo a Graça, o Saloio, a Fátima e o Camané. Reencontro o Mário Rui que veio do seminário. Cumprimento o Dr. Fernando Palma que fala com o Dr. José Mota.
– Entã Compadre? – sauda-me este como sempre o faz.
O meu pai conversa em tertúlia no passeio á frente da casa com o Zé Lamy e com o David Duarte Ribeiro e o José Monroy.

À noite fico-me por casa a ver o Colombo.


Segunda-feira.

Saio de casa ao mesmo tempo do Jorge e do Cá-Jó, juntam-se a Paula Melo e a Cristina Caramelo da nossa rua e vamos juntos para o liceu.
Começo bem o dia com a aula de Sociologia do Frederico Costa, o meu professor preferido. Ele chega ao mesmo tempo e já está a estacionar o seu carocha laranja no largo do hospital.
Então? – pergunto-lhe eu – Continua comunista?
Comunista não, UDP! – responde-me ele com um largo sorriso – E tu? Continuas fascista? - Eu devolvo-lhe o sorriso e entramos juntos no liceu enquanto ele me conta como passou a noite a fazer vaporizações para a filha que estava com gripe.
Entro no Liceu ao mesmo tempo que o Manta e a São Teles. O Alexandre e o Pedro Gonçalves cumprimentam-me no hall. De súbito lembro-me que me esqueci de alguns livros na sala da associação. O costume! Viro à direita e subo pelas escadas de pedra cumprimentando a Sara e o Clemente que vêm a descer. Viro à esquerda, passo a correr pela sala dos professores, viro à direita e passo diante do bar onde está a Vanda Nogueira a conversar com a Guida Nascimento e os mais novos, o Mário Filipe, a Nucha e o primo Zé Miguel com a namorada. Digo-lhes adeus e atravesso o hall do 1º andar, felizmente a Teresa Requeijo e a Susana estão na associação. Quando entro a correr para apanhar os livros elas abanam a cabeça sorrindo e num gesto de reprovação. Sou um caso perdido! Desço agora pelas escadas de madeira e cruzo-me com a Rosa e a Paula da Columbeira, corro de novo pelo corredor vira na segunda à esquerda e entro pela última porta à direita. Estou finalmente na sala!
No intervalo grande, passo pelos três Baltasares que estão com o Manel, a Ana Monroy e a Bébé a recordar o fim de semana no Baleal com o Ivo e o Vasconcelos e Sá. A Xinha mostra uma cassete do Jackson Browne que lhe gravara o Jean-Jacques no Verão.
Entro de novo na sala de aulas com o João Buiça, a Manuela, a Anisabel e a Anabela, altas e lindas.

À hora de almoço, a caminho de casa, cruzo-me na rua com uns amigos do meu pai. O Vasconcelos a meter-se com o Juca, o Cap. Pires e o Rogério Matias. Páro para cumprimentá-los.
- Olá Paulo Rogério! – sauda-me o Cap. Pires utilizando o meu segundo nome como só ele o faz.
- Estás bom Tempero!? – cumprimenta-me o Rogério Matias utilizando uma private joke.
Desvio-me na Cova da Onça, cumprimento o funileiro e vou ao Caldinho dar um beijo aos meus avós que chegaram de Lisboa. Dou um beijo à Lila e cumprimento o Rui Aniceto. Os filhos, Rui e Nuno, o Parrila, chegam atrás de mim.
Sigo para casa a reboque do Pedro Miguel do Rosário, da Sandrinha e dos Morgados que fazem o mesmo percurso. Meto-me com o Nuno pelo seu recente namoro com a Vanda.

À tarde volto para o Liceu. Entro no átrio e vejo a minha irmã Teresa a trocar segredos com a João Horta e a Isabel Thiran. Os irmãos Valente passam por mim, também a Sara e o Clemente. A Xinha conversa com a Manuela Ferreira, a Bibú e a Vani e o Pedro Ferreira. A Xana deverá andar por aí com a Cristina Machado, a Alexandra Palma e o Inho.


O Gil passa por mim no corredor e espeta-me um carolo enquanto o Isidro olha-me com cara de gozo. Boa! Esta tarde começa bem. Ao fim do dia passo à biblioteca da Gulbenkian e devolvo o livro que levara para o fim de semana. Saio e cai-me caca de pombo no meu ombro. Merda! Este não é o meu dia! Olho com tristeza para o edificio entaipado da Casa da Cultura recordando os tempos do Casino. Volto ao liceu para me limpar e depois vou com a malta do Bombarral comer umas chamuças á Colher de Pau antes de apanharem o comboio.

Ao jantar juntam-se a Cristina Machado e a Kika Costa, já quase residentes da casa. Depois é hora da telenovela mas eu já estou farto de Gabrielas, Escravas Isauras, Casarões, Dancing Days e Astros. Vou para o meu quarto ler banda desenhada e ouvir o ‘’Quando o telefone toca’’ do Matos Maia. Não sei como esta gente gosta tanto do Tony de Matos! Decido-me pelo Jackson Browne.


Terça-feira.

Acordo com o Diário Rural e o anúncio ao Piquenicão. O Cá-Zé e a Cami descem comigo no elevador e paramos no 1º andar para apanhar o Rui e a Nica.
Paro no Nutripol para comprar pastilhas Pirata e vou com a Kika Gancho até ao liceu. À chegada faço as entregas do dia, devolvo o livro da Christiane F. à Margarida Arroz e um album dos Yes à Teresa Lamy e começo as aulas.

À tarde vou comprar umas sapatilhas John Smith ou All Star à Macadi e converso com a Mizá e com o Graciano. Depois apanho a Cristina Aleixo à saída da Drogaria e vamos juntos para o liceu. Cruzo-me com as quatro da vida airada, a Vanda, a Tita, a Ana e a Paula. À porta do Falcão estão a Cristina e a Rita a falar com a Leonor Vaz Pato e a Orlanda. O dia decorre lentamente até à hora de jantar. O Pedro Furriel dá-me uma boleia de mota até casa.

À noite vou à Zaira e tomo um café na mesa de entrada com a Libânia, a Cristina Romão e a Rosa Amélia. Encontro casualmente a Teresa Fialho do Bombarral e ficamos a falar até serem onze. Passam por mim os três primos Horta, a Cristina Coutinho, o Luis e a Estela. É hora de ir para casa.


É quarta-feira.

Hoje só tenho aulas de manhã. Acordo ao som da rádio como habitualmente. Vou num ápice para o Liceu. No hall cruzo-me com o Dr. Lalanda e a sua mulher Leonor, mais à frente o Prof. Serafim e o Padre Naia. A primeira aula do dia é de História com a Sotora Fernanda Bernardes, segue-se Inglês com o Daniel Filipe e Filosofia com o Prof. Vasco a que carinhosamente tratamos por ‘’abajour’’ devido ao seu excêntrico penteado.
No intervalo grande, subo ao átrio do segundo andar pelas escadas de madeira no fundo do liceu. A meio patamar saem uns miúdos disparados da sala de Trabalhos Oficais e quase caiem pelos degraus. Viro à direita e entro na casinha da Associação. O Paulo, o Anibal e a Susana, o Dadinho e o Brasuca, a Luisa Branco, a Nônô e o João Paulo atropelam-se naquele pequeno espaço tão entretidos estão com o stencil para o jornal.
O hall está uma confusão, com a Margarida Palma e uma colega a jogarem badminton no meio de toda a gente. O Foca, o Zé da Burra e o Cá-Zé, conferenciam a um canto com ar de gozo. A Minô, a Filó e as Ferreira entopem o bar.


A porta da rua está aberta e a Teresa, a Ana Margarida, a Nini Velhinho, o Cabaços, o João Librax, o Artur, o Tó Zé Faustino, a Paula Couto, a Zita, a Ivone Mil-Homens e o Jose Luis do Bombarral, as Carmitas, a Élia com o Paulo Renato e a Paula Ribas entopem a saída. À parte de trás chega o grupo das motos, o Miguel Crespo com a sua mini-Casal, o Zé Vargas e o Bairradas com as suas Casal Trial, o Jorge Magalhães e a Nini Gouveia com as suas Suzuki e Yamaha, o Cavim com a Gilera, o seu irmão Jô com a Nicha atrás, o Pêpê e o Rui Bento do O. A Orlanda, a Paqui e a Cristina chamam pela Nini para irem treinar voley.
Cravo o terceiro cigarro da manhã à Mila Ferreira - hoje vale tudo, é SG Filtro, Ritz ou Português Suave - e subo para a aula de 2 horas de Educação Física. No andar de cima está o grupo do Cadaval, a Paula, o Luis, o João e o Duarte. O João Miguel conversa com a Di.

Hoje estou por minha conta. Saio do liceu e vou comer uma crise ao Tric. Depois de almoço subo ao Camaroeiro Real para ir jogar flippers. São quase três da tarde.


Passo à Taiti e subo ao primeiro andar. Já lá estão todos. Peço ao Sr. Saul um café e um pampilho e cravo um novo cigarro à Anabela Elias e mando uma boca ao Joca e à Paula. Às quatro da tarde rumamos ao Queens para aproveitar a matiné de quarta-feira, único dia em que abre à tarde durante a semana. Nem nós nem os da Escola Comercial têm aulas à quarta à tarde!
Dou um beijo à Paula Lopes e à Cristina que vêm da Académica, os seus grandes olhos sobressaem carregados de rímel e de lápis. Juntamo-nos todos nas traseiras do Montepio antes de entrar.
Grande tarde! A Joana não me ligou nenhuma mas isso também já é habitual! Há mais peixe no mar!
Após o fecho, às sete, vamos um grupo ao beco dos Teixeiras, à fábrica de bolos. A mesa de matraquilhos está ocupada e decidimo-nos por ir à Floresta. Entramos pelo longo corredor. Amofino o papagaio como habitualmente e delicio-me a ver as sandes de salada de polvo e de coentrinhos de orelha de vaca que nunca como! Um grupo de veteranos está a jogar à laranjinha e nós escapulimo-nos para o pomar das traseiras. As mesas estão livres mas cobertas de caca de pombo. As bolas estão todas picadas pelos pássaros e a mesa empenada, mas é o que há!
Às oito regresso finalmente a casa para jantar. Cruzo-me com a Anabela Venâncio que me pergunta pelo Tó-Zé Lemos e pela Paula de Alvorninha do nosso tempo do 7º ano. Trabalhos de casa e passagem rápida pela Zaira. O João e o Romão estão de serviço e eu pago um café que fiquei a dever ao Jorge no dia anterior.

Acabo o dia a ouvir a 24ª Hora na Rádio Comercial. No meu quarto só se ouve Rádio Comercial em FM.


Quinta-feira.

Hoje só tenho aulas mais tarde. De manhã ainda ouço o TNT- Todos no Top (com o patrocínio dos Shampoos Timothey!) com o Jorge Pego e a Manuela Moura Guedes. Passo à MagicSom para ver o que saíu e sigo para o Liceu. Tenho Alemão com a S’tora Alice Grilo, Moral e Religião com o Padre Eduardo e mais uma catrefada de aulas.

No intervalo do almoço venho a casa e passo nas escadas da Traviata para comprar o Falcão e o Mundo de Aventuras. Começo a contar os tostões para ver se ainda dá para ir ao Diário de Noticias comprar o Motor ou o Automundo, a semanada vai acabar-se num ápice.
No intervalo da tarde temos reunião na Associação, estamos a tratar dos contactos com a Touricoop e com a Top Tours para ver quem faz o melhor preço para a excursão, ainda me cruzo pelo caminho com o Albano e a Xana, as minhas irmãs conversam em grupo com a Blica, as Palma, as Vaz Pato e a Isabel Nunes, a Ritinha e a Cláudia.


Ao fim da tarde vou ao Machado comer um russo com uns amigos e as colegas nazarenas, a Teresa, a Maria João e a Luisa. Desafiam-me para ir aos matraquilhos do café ao lado mas prefiro ir jogar bilhar com o João Gancho para a cave do Central. Passo mais tarde pelo Carlos e a Elsa na Duarte Pacheco e entro no Franco para tomar uma imperial com o Quim, o Tó-Zé e o Luis Rebelo ‘’Sancho’’ e vou para casa jantar.

À noite fico a ver Os Anjos de Charlie e a ouvir o Morrison Hotel do Rui Morrison.


Thanks God it’s Friday!

Tenho duas horas de Educação Física sempre a jogar Voley com o Paulo Mateus e o Paulo Jorge, o Pedro Sebastião e o marrão do Alcides. Depois uma sucessão de aulas até ao almoço. O Sr. Hermínio vem-me azucrinar por deixar sempre os livros no liceu. Vou tomar um café ao Gato Preto e sigo para casa na companhia do Joca e do Toni que vão pelo mesmo caminho. Tenho que fazer um TPC. Ligo a Rádio e os meus programas preferidos vão passando com as horas. O Vapor com o José La Féria, a Discoteca com o Adelino Gonçalves e as crónicas de Londres do Corte-Real, o Rock em Stock com o Luis Filipe Barros e a Ana Bola.

É dia de semanada. Vou comer um prego ao Convivio onde encontro a Zé, a Clara e o Paulo Gaspar e vou tomar café à Zaira. Juntamo-nos alguns para ir à Cave do Vale e depois à festa da Azenha.
Vou no Fiat 850 do Norberto com a Maria João e o Sérgio. Desço as escadas e cumprimento o Sr. Montês e a D. Maria pedindo um Toupeiro. Brinco pela milésima vez com a cera das velas e juntam-se ao grupo o Manel Luis, o Manel Zé e o João Manel e ainda a Paulinha, a Rosarinho e a Guida. Um grupo de Óbidos na sala das vergas está particularmente ruidoso, o Paulo Cardoso, o Banana e a Carmita, o José António, o Oscar, a Teresa e a Rosário, o David e a namorada . Chegam depois as Alpoim Calvão. O Octávio eo Zé Mineiro estão na mesa ao lado da minha com duas holandesas. O costume!
Enquanto o grupo com quem fui segue para a Usseira, vou com os Maneis para a Azenha. A nós ainda se juntam o Quim Maria, o Carlos João e o Fernando Berardo. Sou o mais novo do grupo, o que já se torna habitual.
Está o Jorge na entrada. No bar estão hoje o Henrique, o Rui e o Helder. Encontramos um grupo grande de amigos e pedimos Cuba Libre e whiskys. A música é boa mas tive azar de entrar ao som do Voulez-Vous dos Abba. As miúdas adoram e vão para a pista de dança. Fazem muito bem! No piso de baixo só me apanham se for para ir namorar para as mesas debaixo da cabine.
Estão lá o Luis Faria, o Hernani, a Rosa de Portalegre e a prima Guida das Gaeiras.
O Rui aparece com o Paulo e o Pedro Maluco mas vão cedo para outras paragens.
Aparecem milhentas caras conhecidas. Revejo os irmãos ‘’Torralta’’, a Sónia, o Luis e o Paulo Rua que aparecem nessa noite vindos de Lisboa. Vêm também de Lisboa a Gisela e o Teorias. Chega um grande grupo da Foz com o Salomão, o Batata, os Batalha Reis e os Araújo, o Zé, o Fernando e a Marina, os Picaretas, o Cristiano abraçado ao Manel Severino e os Sottomayor com as Hermanas. Chegam os Pessoa de Carvalho com alguns do grupo de forcados, o Hazakis, o Lameiras, o Vasco, o Camané Sequeira e o Luis Valério. Reencontro as manas Vazão, envaideço-me com a Xuxu, minha primeira namorada dos tempos da primária e vejo como a Paula está cada vez mais bonita, a Teresa olha-me com timidez. Mais gente que vem de Lisboa, o grupo da Rua Raul Proença traz o Carlos ‘’Caralhete’’ e mais umas caras desconhecidas. Chegam os do Cartaxo, o Paulo Vieira Dias com a São e a Sameirinho, o Pira e o Miguel, o João Paulo e o Rui Paulo, a Xana e a Bébé Rocha Homem. Chegaram os do Bombarral, os Figueiras com o Titico, de Almeirim veio o Nozes, o Sérgio, o Zé e o Mário Dinis Lucas. Chegaram também os de Torres Vedras com o Zé Manel Bota Fora à cabeça. Que festa!
Passam-se as horas. Muitos começam a partir. Tenho uma porcaria de uma paragem de digestão e começo a ficar enjoado. Ninguém está para me levar a casa e não me apetece regressar sozinho a pé. É o Zé Godinho que me traz na Peugeot mas não sem parar primeiro no Oasis para comer um pão quente, e eu enjoado no carro. Longas são as noites!


Finalmente chega o Sábado, o meu dia preferido.

Começo com um pequeno-almoço de duas vianinhas quentes e uma arrufada dos Teixeira. Na rádio passa a Grafonola Ideal com o Júlio Isidro. Vou à Goia para comprar uns jeans e sigo para a Zaira. Tenho de dar um beijo a centena e meia de amigas da minha mãe e da minha avó, opto por uma cumprimento rápido e apenas beijo a D. Leonarda, a minha avó, a Maria da Natividade, a Cristina e a Maria Helena Jales que estão na primeira mesa. A outras que se considerem cumprimentadas. Fujo para a mesa dos meus amigos, como habitualmente ao fundo da sala, à esquerda por trás do arco.


Damos umas passas meio às escondidas enquanto tomamos o café. Os meus pais hoje vão almoçar uma caldeirada com as minhas irmãs ao Félix mas nem a ideia de comer a Montanha Russa me seduz. Decidimos ir depois de almoço a S. Martinho, ao Feelings. Mas antes ainda vou jogar uma hora de ténis com o Diogo e o Kiko que chegaram de Lisboa.

Tomamos café no Pão de Ló de Alfeizerão e eu ironizo com algumas das músicas da Juke Box (Adamo, Silvie Vartan, James Last, Claude François, Sérgio e Madi, Duo Ouro Negro,…). Passamos à Viamar mas está fechada aos sábados e seguimos para S. Martinho.
Quando descemos à cave já os acordes do Born To Be Alive se fazem ouvir. A malta que tem casa de férias em S. Martinho, os Palma, os Gomes, as Gama, já lá está toda e acabamos por formar um grupo de trinta. Terminamos a comer pastéis de nata junto aos Bombeiros.

Nova noite, nova corrida. Hoje o programa inclui chouriço assado na Biquinha e depois Ferro Velho.
Sr. Zé diga aos Morenos para irem abrindo a porta que estamos para chegar!


A todos os que viveram comigo a adolescência
A todos os amigos
A todos os que já partiram mas que ainda vivem
Em mim!





Terry Jacks - Seasons in the sun 1974


sexta-feira, 30 de abril de 2010

MATINÉS NO CASINO


A propósito das fotos dos bailes de máscaras que se realizavam no Casino das Caldas vieram-me à memória grandes recordações dessa época que marcou a minha infância e a minha pré-adolescência.

Desde sempre o Casino organizou bailes e soirées que alcançaram fama não só em Portugal como no estrangeiro através dos maiores nomes da canção ligeira portuguesa e europeia. As temporadas de Verão do casino e a semana do Carnaval constituíam o ponto mais forte com inúmeros bailes e concursos de misses.

Não vou aqui desenvolver este tema que já está tão bem retratado no blog dos ex. alunos do Externato Ramalho Ortigão mas trazer à memória as matinés de Carnaval no casino dedicadas às famílias, incluindo as crianças.

Era um dos pontos mais fortes do ano para nós e alguns esmeravam-se na confecção ou no aluguer de trajes e máscaras que vestiam nessas matines. Lembro-me particularmente de um ano em que os primos Crespos apareceram vestidos de astronautas com o capacete com redoma de vidro e tudo. Um espanto!

Lembro-me também que as melhores festas de máscaras para crianças do Casino eram organizadas pela Bé Castro, mãe da Bibú e da Vani.


No inicio dos anos 70 a Direcção do casino contratou um conjunto que teve uma carácter mais permanente, os Xaranga Beat, esta banda tocava nos bailes de Verão (sendo o mais importante o baile de Chitas no 15 de Agosto) e do Carnaval, e faziam o frete de animar a pequenada e os adolescentes nas matines aqui referidas.


Esta banda conheceu várias formações sendo a que eu melhor me recordo (o que me aturavam nos ensaios!) o Carlos Cavalheiro (voz) , Júlio Pereira (piano, órgão e viola) (sim o talentoso músico do cavaquinho), Carlos Patricio (baixo) e Rui Venâncio (bateria) posteriormente substituído pelo Zé da Cadela.

Este grupo mudou posteriormente o seu nome para Xaranga (não confundir com o grupo de música etno-popular Charanga do Chico Carrilho) e quando gravaram os seus dois singles utilizaram a designação Xarhanga.

Foi ao som dos Xaranga e da voz do Carlos Cavalheiro que eu dancei os meus primeiros slows, a música? Michelle, Yesterday ou The Long and Winding Road dos Beatles. As damas: a Margarida Sousa e a Isabel Ramos Coelho. Tinha pouco mais de 10 anos!

Apesar do seu inglês não ser muito ‘’oxfordiano’’ lá se desenrascavam com agrado com covers dos Beatles (All My Loving era um must!) e outros grupos da época (música ligeira que a velha guarda não permitia devaneios!).

No entanto as músicas que me ficaram na memória por tanto serem cantadas ao longo das tardes, foram as suas versões de Sunny de Bobby Hebb e de My Bonnie de Tom Sheridan (que mais tarde mereceu um cover dos Boney M). Como curiosidade Tom Sheridan gravou na Alemanha uma versão de My Bonnie com um grupo chamado The Beat Brothers que não eram mais do que os Beatles.

My Bonnie lies over the ocean
My Bonnie lies over the sea
My Bonnie lies over the ocean
Oh bring back my Bonnie to me

REFRÃO

Bring back, bring back
Bring back my Bonnie to me, to me
Bring back, bring back
Bring back my Bonnie to me

Last night as I lay on my pillow
Last night as I lay on my bed
Last night as I lay on my pillow
I dreamed that my Bonnie was dead


REFRÃO

Oh blow the winds o'er the ocean
And blow the winds o'er the sea
Oh blow the winds o'er the ocean
And bring back my Bonnie to me


REFRÃO

The winds have blown over the ocean
The winds have blown over the sea
The winds have blown over the ocean
And brought back my Bonnie to me


REFRÃO



Covers dos Xharanga: Matinés no Casino

Tonny Sheridan & The Beat Brothers (Beatles) - My Bonnie


Bobby Hebb "Sunny" (1966)

THE BEATLES - ALL MY LOVING (CLOSE YOUR EYES)


Ainda em 1973 os Xaranga Beat deram a vez aos We como banda residente, um conjunto de músicos locais formados especialmente para o efeito.


Do conjunto WE podemos ver o Luís Silva, o Jaime Saez Salgado, o António João Freitas e o Carlos Silva ou Cazé. Em algumas fotos encontramos também o Carlos Sena, já falecido, que participou na actuação.



Em 4 de Setembro de 2010 na Festa do nosso Grupo, os WE  tiveram um enorme gesto de amizade para com todos nós e reuniram-se (sem o Jaime, ausente por motivos profissionais) ao fim de 30 anos para nos dar um concerto memorável numa noite memorável.