Durante cerca de um ano, escrevi regularmente no espaço do Facebook com o mesmo nome, as crónicas que descreviam os principais eventos que presenciei de 1968 a 1986. É a minha vida mas também é o retrato de uma época. Alguns amigos ajudaram-me com alguns textos nessa tarefa e este espaço estará sempre aberto a novas partilhas. As crónicas daquilo que eu queria ter contado já terminaram mas o espírito de grupo de todos os que nelas se reconhecem, continuará para sempre.
domingo, 2 de maio de 2010
BALLET
Acho que o Paulo tem sido brilhante nas suas exposições, ou “estórias”. Graças a estas, tenho reavivado a memória, e são muitas e bonitas as lembranças destas duas décadas.
Mas talvez correndo o risco de ser tendenciosa atendendo ao género (neste caso feminino), não posso deixar de referir aqui o extraordinário papel que a Casa da Cultura teve na minha vida, nomeadamente pelo ensino e divulgação da dança.
Fomos muitas, e alguns. Éramos as alunas do Ballet, guiadas e ensinadas pelo Prof. José Correia, que teve um papel importantíssimo na nossa formação artística e humana. Nas memórias das antigas alunas, o Zé Correia ocupa um lugar de destaque. Ensinou-nos a dançar, mas também a noção do brio, da perseverança e do orgulho. Também ensinou a humildade, mas a humildade educada, não a da subjugação.
Em 1975, ano em que entrei para o Ballet, o “dress code” era o preto total. Parecíamos pequenas baratas ou formigas e eu lembro-me de achar o salão onde a aula era dada absolutamente assustador. Tinha 5 anos. A verdade é que era lindo. A Casa da Cultura era linda, com aqueles tectos trabalhados e aqueles salões tão vividos de memoráveis festas.
Mais tarde tivemos direito a uma nova sala de aula, onde tudo brilhava, desde o chão de madeira clara de tábua corrida, às barras no mesmo tom e aos espelhos imensos colocados a todo o comprimento de uma parede.
Nessa altura já não tínhamos de nos vestir de preto total e competíamos numa profusão de cores e malhas ao bom estilo “Fame”.
Encomendávamos os fatos numa loja pequenina, na Rua Heróis da Grande Guerra e era uma emoção quando íamos comprar as sapatilhas, ou os “maillots”.
Quem andou e gostou de andar no Ballet, nunca esquecerá o cheiro a couro de umas sapatilhas novas onde depois cosíamos as fitas de cetim a combinar com a cor das mesmas.
Desses tempos, o Grupo de Bailado, os ensaios exigentes, os espectáculos nos Pimpões e os nervos, meu Deus, os nervos…
Nos meus 9 anos de aprendizagem vi formarem-se boas bailarinas e excelentes mulheres, e aqui tenho de referir a Élia Parreira, colega e amiga, dona de uma alegria e generosidade sem fim, entre tantas outras (e também alguns). Algumas são hoje professoras de Ballet, como a Cláudia Finote, a Vanda Nogueira e a Isabel – estas últimas nos Pimpões. Outras foram mesmo bailarinas, aqui e no estrangeiro, mas a memória atraiçoa-me para os nomes.
Era bom que “aparecessem” por aqui… E fotografias, também!
Também não posso deixar de sorrir sempre que me lembro que ao lado da Casa da Cultura havia o pavilhão do Karaté (ou seria Judo?), cujas aulas eram da responsabilidade do Prof. Coutinho. Quantas vezes os pupilos deste não nos faziam esperas no pequeno largo (sim, Pedro Vila, eras um deles) e quantos “responsos” não ouvi por chegar tarde a casa…
Bem, a verdade é que em 70 e 80 a cidade fervilhava de actividade desportiva, artística e cultural.
A Casa da Cultura era uma “Casa” numa Cidade onde a Cultura era vivida.
Quase todos nós praticamos mais que uma actividade desportiva, e tivemos acesso a tantas outras a um custo praticamente zero para os nossos pais. Era só escolher!
Os “responsáveis” pela cidade à época, souberam cuidar dos interesses das crianças e jovens e a verdade é que quase todos o souberam e quiseram aproveitar.
Estas duas décadas, 70 e 80, foram o brilho que depois faltou nas outras duas que se seguiram e que agora (parece-me) está a ressurgir. Não importa quantas rotundas e fontes a mais. Importa agora que ressurja.
(post da Cecilia (Sissi) Martinho)
A Casa da Cultura teve um papel muito relevante para a formação cultural de uma geração, substituindo-se de forma épica à própria Câmara e institutos governamentais a quem competiria essa responsabilidade.
Nascida sob o estigma de utilizar o velho Casino que tão entrosado estava na vida da cidade, a Casa da Cultura nunca conseguiu livrar-se dessa marca que a condenou a ser de forma involuntária uma fonte de divisão da sociedade caldense e por isso mesmo não vendo reconhecido o seu extraordinário papel para o desenvolvimento da cultura caldense. Ficámos todos a perder, ficámos todos mais pobres.
Foram aqui criadas as raízes do Teatro da Rainha e doutras artes cénicas como o teatro de marionetas. Foram igualmente desenvolvidas actividades nas áreas desportivas e circenses.
Foi contudo no ensino da dança clássica e sobretudo no ballet que a Casa da Cultura mais se notabilizou com o trabalho do Prof. José Correia a colmatar a lacuna deixada pelo fim das aulas da conceituada Profª Isabel Affonseca no ginásio do Ramalho Ortigão.
Já numa crónica anterior falámos de António Rodrigues a propósito da natação. José Correia merece igualmente um destaque e de ser devidamente reconhecido na formação de uma geração. Obrigado Sissi por o teres lembrado.
PC
in Gazeta das Caldas 23.01.2003 - Suplemento ''A Dança nas Caldas da Rainha''
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BAU DE MEMÓRIAS - SÉRIES TV (1)
PIPI DAS MEIAS ALTAS
BONANZA
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VIAGEM FINALISTAS 1983

(post do Nuno Aniceto / Parrila)
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PODER EN LA OSCURIDAD
Eu e a Teresa ficámos com as funções de ‘’Relações Públicas’’ (pois!) e competia-nos acolher as delegações desportivas ou de outro teor das outras escolas e representar no exterior o liceu das Caldas.Também fomos incumbidos de angariar fundos para a excursão de finalistas que iríamos promover na Páscoa de 1980. (estávamos feitos!)
Arranjámos uns patrocinadores que nos davam as bebidas (cervejas, águas e sumos) para os convívios e ainda uns prémios para sortear e conseguimos obter umas taças para promover uns campeonatos de vários desportos.
Decidimos organizar um primeiro convívio que decorreu no grande átrio do primeiro andar do Liceu e que teve um enorme sucesso. O segundo convívio foi organizado no hall da entrada do Liceu e cada vez conseguíamos ter mais gente.
Fomos então ainda mais afoitos e decidimos pedir autorização à Administração do Hospital Termal para nos ceder a esplanada do parque, que nessa altura estava encerrada, e foi aí que organizámos mais dois convívios, um deles com música ao vivo.
Lembro-me que conseguimos angariar o suficiente para toda a gente levar dinheiro de bolso para a excursão e pagá-la àqueles que não tinham dinheiro para ir.
Na Páscoa, e na companhia do padre Eduardo e da Profª Fátima, lá fomos nós para a nossa primeira viagem sem os pais.
A semana em Torremolinos foi um estrondo, na verdadeira acepção da palavra. Logo que chegámos uns alunos do Maria Amália atiram com um frigorífico pela janela fora enquanto outros fizeram uma limpeza completa a um dos supermercados, enfim!
Eu fui entretanto e compulsivamente ‘’nomeado’’ responsável pelo grupo do nosso liceu e tive que entregar o bilhete de identidade na recepção para o caso de no final haver algumas contas por pagar devido a eventuais estragos.
Ficámos alojados em Benalmadena no complexo Zodíaco e eu reparti um apartamento na torre Piscis (o nome que lhe dávamos era outro!) com o Paulo Lemos, o João Miguel Dinis, o Mário João Carvalho e o Rafael que de tanto comer queijo flamengo e conservas ficou doente ao fim de uns dias e só melhorou em Portugal!
Foi uma semana espantosa com autênticas maratonas sem dormir e a correr non-stop todas as capelinhas, o Borsalino, o Gatsby, o Joy, a Cleópatra e, o melhor de todos, o New Piper’s com as suas três pistas de dança, uma que subia e descia (e cada vez que subia roubávamos os focos do tecto!), um biombo translúcido onde víamos a silhueta de uma bailarina que dançava enquanto não atirávamos o biombo abaixo e nos atirávamos à bailarina.
Um balcão tão grande que tinha desenhado uma fita métrica e um grande baloiço entre as pistas. Duas Harley Davidson, um automóvel antigo e um charrete completavam a decoração!
Foram noites fantásticas aqui passadas com muitas estórias para contar. Recordo-me que nos fartávamos de rir com as apresentações que o DJ fazia das músicas, sempre com a habitual tradução para espanhol (não as referia nunca em inglês!) e os grandes êxitos eram Poder en la Oscuridad (Power in the Darkness) de los Tom Robinson Band e Otro ladrillo en la Pared (Another Brick in the Wall) do álbum El Muro (The Wall) de los Pink Floyd (que nós cantávamos com uma letra convenientemente adaptada!)
Numa das noites decidiram alguns dos nossos meninos e meninas fazer uma guerra de extintores no hall central e pelos apartamentos da torre Piscis numa guerra Rapazes vs. Raparigas que só acabou com a chamada da segurança.
Escusado será dizer que à partida tivemos problemas na check-out e o meu BI ficou lá retido, tendo eu voltado clandestino para Portugal. (grande cena na fronteira de Badajoz!)
Uns anos depois em passagem por Torremolinos com o Rui Rodrigues, as minhas irmãs e a Cristina Machado voltámos a ir ao Piper’s (agora com um grande cubo de água no interior a fazer de piscina!) e lembrei-me de ir mostrar às minhas irmãs ‘’ a cena do crime’’.
O meu BI continuava pregado, juntamente com outros, na parede por trás da recepção! Safa!

Poder en la Oscuridad
tom robinson band - power in the darkness
Pink Floyd - Another Brick in the Wall
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BAÚ DE MEMÓRIAS - HITS DOS 80's
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sábado, 1 de maio de 2010
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O SOTÃO
Num dia de Verão de 77 ou 78 estávamos nós (os três primos Crespos: o Miguel, o Alberto Nuno e o Johnny, o João Gancho, o Kiko, o Diogo (estás aqui connosco amigo!), o Rato (Ricardo Ramos), eu e talvez os primos Pedro e Miguel Calisto, a maldizer a vida por sermos tão novos e não podermos ir ao Ferro Velho ou à Azenha quando um dos Crespos se lembrou que poderámos fazer a nossa própria boite. O local encontrado foi uma das arrecadações do pátio das traseiras da casa da sua avó, a D. Liberdade. Durante uma tarde esvaziámos toda a arrecadação, lavámo-la e limpámo-la.
Ao segundo dia caiámos as paredes e julgávamos ter a casinha pronta para a festa ams houve um de nós que achou que lhe faltava qualquer coisa. Eu lembrei-me de um poster que tinha colado na parede do quarto do Jesus Christ Superstar ‘’à la’’ Andy Warhol e fui a correr a casa buscá-lo.
O Miguel que sempre teve muito jeitinho para os trabalhos manuais pegou num papel vegetal e copiou-o transpondo para a parede. Uma imagem a negativo, a preto e branco, do Jesus Christ Superstar ficou assim pintada na parede do fundo (a dois metros da porta que a arrecadação era mínima). A boite foi assim baptizada de ‘’Superstar’’. Depois os Crespos fizeram uns convites e preparámo-nos para a primeira festa, num domingo à tarde.
Apareceu tanta gente que tivemos de colocar os estendais de roupa com uns lençois a ampliar o espaço (tipo esplanada) de forma a que todos pudessem dançar sem estar ao sol.
Nas matinés seguintes (todos os dias) apareceu tanta gente que a arrecadação já não chegava e um dia os Crespos fizeram uma surpresa.
Tinham arranjado o sotão do prédio, com acesso exterior das escadas de serviço e feito uma verdadeira – achávamos nós! – boite.
Tinha bola de espelhos, cabine de disco jockei e tudo. O sotão durou anos e marcou uma geração!
Santa Esmeralda - Don't Let Me Be Misunderstood
Santa Esmeralda - House of the rising sun
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