domingo, 22 de agosto de 2010

AS MEMÓRIAS GRÁFICAS DA MAIS AMADA GINA






A Revista Gina 
(artigo in Correio da Manhã - 22 de Março de 2009 - Por Maria Ramos Silva)

Texto de apoio à crónica ''Leituras, Texturas e outras Literaturas''


Nos anos 70 e 80 o ioiô e a Spectrum ferviam nas mãos dos adolescentes. A ‘Gina’ também. Entre 74 e 2005, ano em que gemeu de prazer pela última vez, Mário Gomes, das edições Pirâmide, traduziu a revista pornográfica mais popular em Portugal.

Foram 196 números quentes que revolucionaram o País dos brandos costumes. Para eles. E, sim, também para elas!

Mário Gomes nunca foi tão fotografado como para esta história. Mais flashes, 'só no dia do meu casamento', garante, entre risos. A insistência da lente faz sentido, porque as recordações que enchem a cave do prédio na Buraca, onde pouco funcionam as edições Pirâmide, escrevem--se com imagens. Muitas e bem explícitas. 'Ainda hoje, não deve haver um homem ou mulher com mais de vinte anos que não saiba o que é a ‘Gina’'.

O esclarecimento sobre a popular revista pornográfica abona assim tanto entre as senhoras? 'Elas consumiam e muito! Por norma os homens não têm pudor em comprar mas alguns metem entre o jornal. As mulheres compram com uma revista. No Rossio e em Santa Apolónia mantinha contacto com os vendedores. Vendiam-se milhares a senhoras que estavam de passagem.'

Para os desatentos ou fiéis depositários de ignorância crónica, aqui vai a apresentação. A ‘Gina’, de apelido ‘Histórias Sexy Internacionais’, foi instituição da literatura porno, marco da libertação de costumes, ícone de uma geração, manual de iniciação a uma vida nada banal para muito jovem na flor da idade e sucedâneo de aventuras idas para gente entradota, cartilha picante, sempre no fio da navalha entre a mais conspurcada brejeirice e calinadas nos diálogos e uma rebuscada prosa com laivos de erudição. E foi o pavor de todas as Virgínias e Reginas do País, atreitas a associações galhofeiras por parte das línguas mais desabridas.

Trocado por miúdos, ou melhor, por adultos, a ‘Gina’ foi a ‘Anita’ dos crescidos – ou de todos os que cresceram com a sua leitura. A ressalva é que até a viajada ‘Anita’ ficava aquém dos périplos da ‘Gina’. A ‘Gina’, tal como as meninas más, ia para todo o lado.

Faz em Julho três anos que deixou de ser editada. Hoje, é um vestígio retro dos tempos que já lá vão. Um kitsch bibelô ressuscitado, qual sabonete Ach Brito ou pasta medicinal Couto que sobrevive sob a forma de culto.

Provando que há quem duvide com todas as ganas que fechou actividade, de vez em quando, 'homens e mulheres que querem ser ‘intérpretes’ da ‘Gina’ ainda mandam para aqui o curriculum com fotos'. Impossível. Que se saiba, os modelos eram estrangeiros e, como dizem as bocas largas de quem se cruza com um exemplar antigo: 'algumas já são avós e ainda aqui andam nas capas!'

No escritório da Buraca nunca se fizeram castings para actores porno, apesar da estética da ‘menina do calendário’ dominar a decoração.

Mário traduzia os hilariantes recortes literários. Coisa 'corriqueira', desvaloriza, sem empolgamentos. Ao início levava um dia por revista. O irmão criticou a minúcia. Pediu que aliasse o literal com o improviso. E Mário melhorou a média. Cinco a seis horas de trabalho por cada ‘Gina’. 'Em alguns casos era preciso criatividade, quando sobrava espaço depois de traduzido de francês ou do inglês. Lá saía um bocado ordinário, mas é disso que o povinho gosta!'

Povinho que é como quem diz. Democrático como poucos, o sexo convence todos os estratos sociais. E assim a senhora dona ‘Gina’ chegava a todos. Era de todos. E de ninguém. Sacudia-se a água do capote para o primo, o tio ou o vizinho quando a vergonha de a ter entre mãos suplantava o tamanho da colecção. 'Uma das primeiras era uma polícia alemã a multar um gajo num parque de estacionamento. E pronto, lá terminava em amor!' Ai, tanto eufemismo estacionava nesse parque...

A ‘Gina’ veio ao mundo português no ano da liberdade. Entre Setembro e Outubro de 1974 foram publicadas as primeiras quatro revistas. Custava 5% do ordenado mínimo nacional, 30 escudos. Rapidamente, galgou para os 50. 'Começou a ser publicada pela Palinex, editora do meu irmão mais velho, nas Vendas Novas, onde tínhamos as oficinas gráficas'. Acácio Gomes, já falecido, tornava-se o 'pioneiro das revistas porno em Portugal'. Homem de faro apurado, 'fura-vidas que podia ter sido magnata', qual Hugh Heffner lusitano, importou da Alemanha um negócio da China, directamente da feira do livro de Frankfurt. 'A revista alemã tinha o mesmo nome e grafismo. Comprámos os direitos com fotolito e tudo.'

Os números espelham o fervor pela matéria que a ditadura sem libido aplacava. 'Venderam-se uns 150 mil exemplares de cada um dos primeiros quatro números. Foi a primeira revista pornográfica com textos em balão e acho que a única. Os primeiros números foram publicados ao mesmo tempo em Portugal e na Alemanha.'
A pornografia chegava até então às curiosas mãos nacionais de forma relinchante, mas silenciosa - pela porta do cavalo. 'Uma polícia do aeroporto pedia a um piloto para lhe trazer exemplares do Norte da Europa para dar ao namorado. Custava uma fortuna'.

Em 58 nem as anedotas com biquinis venciam a prova da censura.

Mas a fome deu em fartura. 'Tudo o que era erótico ou pornográfico era impossível antes do 25 de Abril. Depois, tornou-se uma debochice autêntica. Havia revistas da ‘Gina’ expostas na rua, em qualquer estação. Passou-se do oito para o oitenta, ou melhor, para o 800!'

As páginas escancaravam-se mais ainda do que a ousadia da rainha dos títulos, que rendeu boa maquia à editora. Mário não consegue precisar o volume de escudos, mas de uma coisa se lembra. 'O meu irmão apetrechou a oficina com máquinas à custa da ‘Gina’ e das outras!' Confirma-se. ‘Gina’ não deixava os créditos por mãos alheias e fazia tudo, até emparelhar com outras publicações da casa, nada obscenas. Menos trabalhar para aquecer. 'Publicámos banda desenhada, do ‘Texas Jack’ ao ‘Homem Aranha’. Fomos os primeiros a publicar comics americanos em Portugal. Fomos pioneiros na fotonovela'. E ainda livros de cowboys e de culinária. Obras infantis e para pintar. Mais tarde, banda desenhada erótica vinda de Itália. O filão era mesmo este.

Um ano e meio depois dessa novidade, de sua graça ‘Gina’, o ‘boom’ dos conteúdos explícitos. 'Chegou a haver uns 10 a 15 títulos mensais'. Como a rival ‘Tânia’. A própria Pirâmide investiu no segmento. Chegou a deter seis títulos com conteúdos semelhantes, da ‘Top Sex’ à ‘Weekend Sexy’. Tanta concorrência resultou madrasta para a infatigável ‘Gina’. A estocada final chegou com o advento da internet, 'e do famoso canal 18'. A pornografia ficou à distância de um excitante clique.

Os iniciais milhares de exemplares vendidos decaíram para 1500 nos últimos anos. O declínio chegou à fase do ‘pacote poupança’ que empurrou a ‘Gina’ para as ruas da amargura. 'Vendiam-se 10 ao preço de cinco. Há muitos coleccionadores que escrevem para cá a pedir números em falta.'

Mário, filho de minhotos, um de cinco irmãos, deitou mãos ao trabalho com apenas 11 anos. Entrou para a editorial Íbis como moço de recados, onde o irmão mais velho era chefe de escritório. Descobriu os primeiros números da norte-americana ‘Hustler’, concorrente da ‘Playboy’ em terras do puritano mais fajuto de todos os tempos: o tio Sam. O mano Constantino também se ligou à área editorial.

Em 1965, Acácio, Rossado Pinto e Alfredo Silva fundavam a Palinex. 'Estive sempre com eles, desde 58, neste ramo'. Em 74, deitavam mãos à ‘Gina’. Em 1980, os irmãos Acácio, Mário e Constantino montavam as Edições Pirâmide e transferiam a matriarca das revistas porno para o Carmo, em Lisboa. Depois, mudaram-se para a cave da Buraca juntamente com outras publicações que celebrizaram a casa, como as revistas de crochet e ponto de cruz, os manuais de tarot ou os cromos de futebol. Menos melindrosas do que a agitadora ‘Gina’. 'O meu irmão foi condenado uma vez a uma multa de 350 contos, o que em 79 era muito. Um padre viu as revistas em Santa Apolónia e fez queixa'. Não é para menos. O hábito, em pele de fetiche, desfilou muitas vezes na ‘Gina’, rivalizando com enfermeiras, hospedeiras e outras.

Em Chelas, onde ainda funciona o armazém da Pirâmide, sobrevivem cerca de 150 mil exemplares da ‘Gina’. As edições mais recentes vêm em invólucro de plástico. Forma inovada, o conteúdo de sempre. 'Em dois anos destruo aquilo tudo. Cada coisa tem a sua época. Ainda cá temos o ponto de cruz e o livro de S. Cipriano. Porque continuam a haver bruxos!' Tendo em conta que também continua a haver sexo, talvez a ‘Gina’ merecesse melhor sorte.

HISTÓRIAS INTERNACIONAIS EM 196 NÚMEROS

Mário Gomes descobriu o primeiro número da revista numa das gavetas do irmão Constantino. Uma ‘Gina’ bem descolorada, 34 anos depois. Não era a primeira edição. Atesta-o o preço de capa, 50 escudos, vinte escudos mais do que a inicial. A procura foi tanta que a inflação não demorou. A ‘Gina’ suspirou pela última vez no n.º 196

'ÉS MUITA LINDA'

Faz em Julho três anos que a ‘Gina’ deixou de ser publicada. Refundidas em alguns quiosques, aqui e ali na internet, nas mãos de alfarrabistas ou de particulares, ainda é possível descobrir exemplares antes de ligar para as edições Pirâmide. O culto sobrevive. A banda ‘The Great Lesbian Show’ veste a camisola da ‘Gina’ - literalmente - em concertos. A publicidade revivalista de trazer por casa não fica por aqui. Os Ena Pá 2000 usaram uma das imagens da célebre revista na capa do álbum ‘És muita linda’. A lenda continua a dar música


Maria Ramos Silva

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UM CARNAVAL PERFUMADO



As noites de Carnaval nas Caldas eram sempre algo de muito especial e olhando a esta distância não sei como era possível nós ‘’arrancarmos’’ à sexta feira à noite e só pararmos na cama na Quarta-Feira de Cinzas!

O ambiente nas Caldas era fantástico e inúmeros bailes de máscaras concorriam entre si na animação da cidade. Haviam os bailes do Casino, do Hotel Lisbonense, da Columbófila, dos Pimpões e dos Bombeiros, estes três últimos não onde agora ficam situados mas nas suas instalações originais, a Columbófila no mesmo sitio mas no edifício original, sem o pavilhão da esquina, os Pimpões em frente ao que é hoje a Farmácia Perdigão (a farmácia que existia na altura era a Correia Mendes , alguns metros mais acima) e os Bombeiros no cruzamento da Rua Raul Proença com a Rua Miguel Bombarda, onde agora fica o Caldas Shopping.

Para além disso as discotecas Inferno da Azenha e Ferro Velho surgiam como alternativas a quem não gostava dos bailes.

Parecia que toda a cidade vivia intensamente o Carnaval. As principais empresas da região tinham os seus carros alegóricos e a ida ao Corso nas tardes de Domingo e Terça-Feira eram obrigatórias.

À noite juntavam-se as troupes ou grupos de amigos que se mascaravam de acordo com um tema e lembro-me dos irmãos metralhas, dos fantasmas e muito particularmente o grupo de palhaços do Joca Pimenta, Mário Felizardo, Agapito,do João Pedro ‘’Catatau’’ e tantos outros e ainda do grupo que utilizava sempre os fatos que em cada ano eram confeccionados pela Guida Godinho (lembram-se das abelhas Maia?!). Estas troupes participavam em assaltos a casa dos amigos e também a locais públicos como os cafés. Muitas vezes metiam-se com os seus próprios familiares sem que eles os reconhecessem!

O espírito era tal que uma vez trouxe um colega de universidade passar cá o Carnaval e como não havia na altura os multibancos, houve necessidade de ir levantar dinheiro antes que os bancos encerrassem, assim na sexta-feira fomos ao BES e um funcionário que nessa altura lá trabalhava atendeu-nos ao balcão de cabeleira loura e baton nos lábios. Imaginem a cara do meu amigo e sobretudo imaginem isso nos tempos que correm com o cinzentismo que impera nos bancos!

Numa dessas noites fomos todos para o Ferro Velho (nos tempos em que eu ainda tinha pachorra para o EU VI A EVA DE MINI-SAIA, AURORA, NÓS OS CARECAS, TOMARA QUE CHOVA, VAI VER QUE É, CHIQUITA BACANA, BALANCÊ, DAQUI NÃO SAIO, MAMÃE EU QUERO, CACHAÇA NÃO É ÁGUA, CIDADE MARAVILHOSA, AI MORENA, MORO NUM PAÍS TROPICAL, ME DÁ UM DINHEIRO AÍ, QUEM SABE, SABE, TRISTEZA, YES, NÓS TEMOS BANANAS, e outras iguais!) para mais uma dessas directas.

Estávamos em grupo sentados na conversa na sala de entrada quando chega uma troupe de velhinhas saloias, de máscara de plástico e lenço na cabeça constituído pela Fatocas Crespo, o meu querido Pedro Cardoso, a Elza, a Milai, o Raulzinho (Rodolfo ou Papillon, conforme a alcunha!), a Elsinha Magalhães e mais alguns, e começam a meter-se connosco (e nós sem sabermos quem eram!) e de repente sacam de uns borrifadores de perfume dos antigos (Rita Lee cantava Lança, Lança Perfume!) e dão-nos um banho de TABÚ e PATCHOULI!

Os que se lembram dessas duas supremas essências recordam-se que para além de serem simplesmente horríveis, eram extremamente activos e duradouros. Ficámos com um pivete insuportável em toda a roupa e as pessoas afastavam-se de nós na pista de dança. Uns abnegados conseguiram aguentar toda a noite apesar da segregação a que foram votados mas para muitos de nós o único remédio foi ir a casa e trocar de roupa. Mas apesar dos duches e dos quilos de sabonete, parecia que o cheiro se agarrara a nós e que iria perdurar por toda a semana.

Devo ter perdido muitas potenciais namoradas naquele Carnaval!





Rita Lee -  Lança-Perfume

Banda Paradigma - Marchinhas de Carnaval


terça-feira, 10 de agosto de 2010

CAÇADA NA MATA REAL



A população das Caldas vive hoje de costas para a Mata Rainha D. Leonor e no entanto nem sempre foi assim.

Quando eu era jovem passeava muito com os amigos pela mata e lembro-me de existirem vários pontos de confraternização da população mais idosa. Grupos de reformados juntavam-se assiduamente em bancos de jardim para jogarem à bisca e à sueca e o parque das merendas era todos os fins de semana ocupado por excursionistas ou pelos piqueniques da população local.

Claro que haveriam muito mais pessoas a ir assistir aos jogos do Caldas mas isso só influenciava a frequência um domingo em cada dois e no Verão, durante o defeso, nem havia jogos de futebol.

O momento mais alto do ano era a feira do 15 de Agosto que se organizava nesse tempo justamente na mata.

Recordo-me de entrar pelo portão junto ao Hospital (por trás da monumental obra Jardim da Água de Ferreira da Silva que muitos teimam em não conhecer) ou pelo que fica junto ao Palácio Real, por trás da igreja de Nossa Senhora do Pópulo. E as veredas que se iniciam nesses portões logo eram ladeadas pelas barracas dos feirantes que se estendiam até à alameda principal junto ao campo de futebol.

A mata nesses dias estava polvilhada de pessoas com um movimento só igualado pela Feira da Fruta que se realizaria mais tarde no Parque D. Carlos I.

Eu avançava pela mão dos meus pais ou avós e mais tarde na companhia de amigos, olhando deslumbrado a diversidade de brinquedos quase artesanais que eram colocados à venda: os jogos do Loto e do antepassado do Sabichão, os aviões, barcos, locomotivas, carros e motas de todos os géneros em latão, uns de empurrar e outros de corda, os brinquedos de madeira articulados, alguns munidos de rodinhas e com um varão para empurrar, os móveis e objectos de cozinhas e os piões grandes em latão com múltiplas cores e que se punham a rodopiar premindo um eixo/veio central, as espingardas que disparavam dardos com ventosas, as pistolas com fitinhas de fulminantes que assustavam os idosos e sobretudo as bolas de serraduras cobertas de prata colorida e presas por um elástico, os ioiô daqueles tempos!

Ao cimo da mata desembocava-se no campo de futebol, em terra branca, agora transformado em parque de diversões e aqui poderíamo-nos perder por horas.

Não faltavam as barraquinhas de tiro ao alvo para ganhar uma ginjinha (no nosso caso um pirolito!), os jogos da bola escondida entre 3 caixas, as barracas de algodão doce e de farturas e as tascas improvisadas para comermos os frangos ou sardinhas assadas.

O enorme chapiteau do circo (Mariano, Cardinalli, Americano) era a estrela principal, apresentando o célebre palhaço Quinito, o mais famoso de Portugal (que eu viria a conhecer mais tarde através do seu irmão Zeca)!

Mas em seu redor erguiam-se outras estruturas de nos pôr a boca aberta de admiração. O labirinto de espelhos que nos desfiguravam o reflexo, as barracas com tiro ao alvo com bolas de ténis para acertarmos numas latas empilhadas, os diversos carrosséis, os carrinhos de choque, o peso que se elevava com a força da martelada que lhe dávamos e que se atingisse um determinado nível fazia tocar uma campainha e ganhávamos um prémio, a tenda que apresentava a mulher barbuda e a mulher-sereia (com um soutien de armação reforçada!), a tenda com o Gigante de Moçambique ou de Manjacaze com 2,45 metros de altura (eles falavam em 3,5 metros!) e com o anão Toninho de Arcozelo e ainda o espantoso Poço da Morte cujos motociclistas desafiavam a gravidade e a vida cruzando-se vezes sem conta a alta velocidade nas paredes de um poço de madeira!

Íamos para a mata logo que a feira começava e só saíamos quando era hora de jantar. Depois voltávamos de novo para a ‘’sessão’’ da noite!

Procurámos sempre desfrutar do melhor que a mata nos dava e isso significava, ao longo da adolescência, a prática de actividades desportivas e outras… também desportivas!

Mas a mata era também sinónimo de aventura (pois, para a prática desportiva também era uma aventura!) e serviu para pregar inúmeras partidas aos amigos que desconheciam os hábitos e a fauna caldense.

Um desses amigos foi um inolvidável holandês amigo e repetidamente hóspede de férias da família Calisto, o nosso inesquecível Martin, companheiro de aventuras e fotógrafo amador das corridas de touros protagonizadas por alguns dos membros da gangue! O bom do Martin queria à viva força entrosar-se com o nosso grupo de amigos (o que aliás conseguiu rapidamente graças à sua simpatia e fair-play) e revelava-se sempre pronto para participar nas nossas brincadeiras, mesmo que ele fosse a vítima escolhida.

Ora os primos Pedro Calisto e Miguel Calisto Pereira Monteiro, anfitriões do Martin, decidiram um dia informá-lo que existia uma espécie rara e endógena de animais a habitar a mata real, uma colónia de animais tão escassa quanto esquiva, sendo muito difícil caça-los, nomeadamente à noite, quando saiam das suas tocas para caçar.

De uma forma vaga foram dizendo que se tratava de um mamífero roedor arraçado de pássaro.

E que se chamavam gambuzinos!

Claro que o Martin não descansou enquanto não fossemos com ele à mata ver e mesmo caçar os tão famosos gambuzinos.

Então numa noite, reunimo-nos na grande casa dos avós Calisto na Rua dos Bombeiros, um enorme grupo composto por todos os Calistos e ramificações (Pedro, Miguel, provavelmente já o Gonçalo, o Asdrubal e talvez o Jorge, os Titos ou seja o Chico, o Tony e o João), eu, o Diogo Sampaio Guimarães, o João Moreira, o Luis Castelo Branco, talvez o Luis Castro, o Ricardo Ramos, talvez o Kiko Pessoa e Costa, o Pedro Cardoso, o João Gancho, o Helder Vasconcelos ‘’o Peliculas’’, talvez o Tomix, e ainda alguns outros (olhando agora à distância vejo que entre forcados dos grupos das Caldas, Montemor e Vila Franca tinhamos o suficiente para pegar de caras um gambuzino de meia tonelada!), e munidos de alguns sacos de pano, daqueles para ir ao pão, lá fomos nós em direcção à mata.

Para aumentar a aventura decidimos entrar pelo portão mais afastado, ou seja, o que tem acesso pelo Largo João de Deus. O portão estava fechado pelo guarda mas saltámos o muro numa zona mais baixa e lá entrámos em direcção ao parque das merendas.

Ensinámos uma cantilena qualquer ao Martin, tipo ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’ e lá fomos ouvindo-o a cantar e a andar completamente agachado entre o mato e os arbustos à procura dos célebres gambuzinos!

E nós todos atrás a conter o riso e a levar muito a sério o nosso papel de batedores…de retaguarda!

A partida correu muito melhor do que esperávamos pois encontrámos pirilampos e alguém decidiu dizer ao Martin que eram os olhos dos gambuzinos (a patranha da mistura de mamífero roedor com pássaro tinha agora dado jeito!).


E pronto, podem imaginar o pobre do Martin a correr atrás dos pirilampos, cabelos ao vento e saco bem aberto segurado pelas duas mãos e cantando desalmadamente:

- ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’

Não sei quantos trambolhões, arranhões e contusões lhe valeram a correria perante as nossas gargalhadas mas no final o Martin chegou ao pé de nós, completamente desolado a pedir desculpa por não ter apanhado nenhum gambuzino!

Confortámo-lo o melhor que pudemos e pondo-lhe um braço à volta dos ombros, o Pedro Calisto sossegou-o com aquele vozeirão de forcado.

- Deixa lá! Amanhã também é dia!

E não é que no dia seguinte conseguimos convencê-lo a repetir a dose?!!!!




Feliz Aniversário Pedro. Que possamos disfrutar da nossa amizade por muitos e bons anos.
Como sempre, tens 23 dias para me chamar Puto!


Nota: Por uma feliz coincidência o Martin está neste momento de férias nas Caldas com os seus filhos. Talvez queiras de novo participar numa gloriosa caçadas para recordar os velhos tempos?!


Nos próximos dias publicarei três textos complementares a esta crónica:

- A Caça aos Gambuzinos
- Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?
- O Poço da Morte


Queen - Friends Will Be Friends


PARTIDAS TRADICIONAIS


GAMBUZINOS

Gambuzinos são bichos inexistentes que vivem no campo, em estado mais ou menos selvagem e têm várias utilizações, como pretexto para organizar-se uma caçada; fazer um petisco de gambuzino; pele muito bonita para casacos, etc..

Para organizar uma caçada aos gambuzinos, necessitamos de:

- dois ou mais conspiradores

- uma ou mais vítimas crédulas;

- uma saca de serrapilheira ou equivalente para cada vítima segurar e   latas e paus para cada um dos conspiradores fazerem barulho.

De início, os conspiradores escolhem as vítimas. Depois combinam com as vítimas a data e a hora da caçada. Convem ser no próprio dia e devem alertar que a caça aos gambuzinos é proibida, para que as vítimas não digam nada a alguém que as possam disuadir.

De seguida, levam-se as vítimas para o campo. Aí procuram-se arvores com tocas (buracos no tronco), buracos no solo buracos nas rochas.

A caçada consiste em:

A vítima encosta a boca da saca à toca da árvore e fica a segurar até que o gambuzino salte para dentro da saca e...

Os conspiradores afastam-se para fazerem um cerco maior e fazem barulho batendo com os paus nas latas, para assustarem os gambuzinos e obrigá-los a sairem da toca da árvore para dentro da saca.

A partida consiste nos conspiradores virem embora e deixarem a vítima no local, segurando a saca.



ELECTRICIDADE EM PÓ

É obvio que não existe.

Pede-se à vítima para ir à drogaria mais próxima e trazer uma pequena quantidade de electricidade em pó. É preferível não enviar dinheiro, pois a vítima pode vingar-se ficando com ele.

Se o fulano da drogaria também for conspirador, dirá que acabou a electricidade em pó, mas que na outra drogaria, ou na farmácia, também vendem. Conheço um caso em que a vítima foi a 6 estabelecimentos.


OSSOS DE MINHOCA

Igual à electricidade em pó.



SUOR DE POLÍCIA

Igual à electricidade em pó.



SOMBRA DE OLIVEIRA

Embora esta partida possa parecer igual às anteriores, a verdade é que sombra de oliveira existe na realidade. É um óxido metálico utilizado pelos pintores. Esta partida serve para confundir a vítima.


PEDRA-DAS-SEDAS

Igual à electricidade em pó. Contudo, se o fulano da drogaria também for conspirador, arranjará algumas pedras para a vítima carregar.



FITA DE IMPRESSORA

Quando a fita já está usada, diz-se à vitima que a fita já não imprime porque está suja. Pede-se-lhe então, o favor de a lavar. A água, o sabão e a cera da tinta fazem uma mistura que suja tudo e é difícil de limpar.



CAMPAÍNHAS - I

Basta tocar a campainha da porta da vítima e fugir. Rir é opcional.



CAMPAÍNHAS - II

Repetir a anterior as vezes necessárias. Cuidado com campaínhas III.



CAMPAÍNHAS - III

Se é a nossa campainha que estão a tocar, enche-se um balde com água e sobe-se à varanda. Quando a vítima se aproximar para tocar a campainha, despeja-se a água por cima dela. Não é necessário que seja água. Pode ser qualquer outra coisa. Que saudades do tempo em que havia penicos debaixo da cama...



CAMPAÍNHAS - IV

Espera-se que alguém venha a entrar no prédio e procede-se como na anterior. Se a vítima protestar, põe-se uma cara muito sincera e arrependida e explica-se que durante todos os dias, uns malandros fartaram-se de tocar a campainha.



BATENTES DE PORTA

As portas mais antigas, têm um batente em ferro, para bater à porta. Ata-se uma linha forte à parte móvel do batente. De longe, basta puxar a linha para bater à porta.


Paul Simon & Art Garfunkel - Scarborough Fair












A CAÇA AOS GAMBUZINOS

A CAÇA AOS GAMBUZINOS 
 1º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''


1º Texto Complementar à crónica ''Caçada na Mata Real''




GAMBOZINOS


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Os gambozinos são seres imaginários que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies já tenham se adaptado e hoje também se possam encontrar nos recantos sombrios e húmidos dos parques de algumas cidades.

No dicionário, são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, embora haja quem ache que possam ser parecidos com o pirilampo, com o dragão marinho (Phycodurus eques) ou com o ouriço. Há quem ache que são seres da família dos vegetais que vivem debaixo da terra; no começo do século XX houve quem os descrevesse apenas como “pequenos bolbos de uma espécie de lírio” que podem ser comidos. A ideia que se faz destes seres varia conforme a imaginação de cada um.

O glossário escutista define estes seres como um “animal de características especiais, nocturno, e que é muito difícil de caçar. Normalmente caçam-se nos acampamentos.

”A caça aos gambozinos faz-se geralmente de noite, é muito popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, como na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro, e não requer nenhuma licença especial para a prática desta actividade.

A caça ao gambozino não visa a obtenção de alimento mas a conservação de tradições, é por isso considerada um desporto. Tradicionalmente são usados sacos de sarapilheira para os capturar. É tradição organizar caçadas aos gambozinos e convidar pessoas ingénuas para ir junto. Frequentemente são levados nestas caçadas irmãos ou sobrinhos mais novos; é por isso visto como um desporto de família.

A caça aos gambozinos é considerada uma prática ancestral, e, conforme conta Ferraz (1895) no fim do século XIX, quando alguém concordava em ir à caça dos gambozinos “[…] levavão-na uma noite sombria a um sitio escuro e medonho, e collocavão-na com um sacco aberto ao pé de um buraco, como para agarrar nella os gambozinos, que costumavam sahir por alli; e assim deixavam ficar o incauto, ás vezes, até pela manhã indo-se embora, sob qualquer pretexto, a pessoa que o lá levou”.

Em algumas regiões do País a tradição conta também que se deve levar uma lanterna a qual, quando se chega ao lugar desejado, é apagada deixado o ingénuo às escuras e saindo logo de seguida quem para lá o levou.

Para atestar a antiguidade da tradição, Ferraz comenta ainda que “[…] d’este costume se não contão casos modernos, mas antigos, não se apontando mesmo ninguém que se tenha sujeitado a semelhante caçada”.

Embora não haja notícia de alguém que alguma vez tenha visto um gambozino, é "frequente" ouvir um ou outro fanfarrão dizer que já caçou dois ou três gambozinos, só para se vangloriar.

Acredita-se que o canto de algumas espécies de gambozinos têm propriedades especiais, que podem ser identificadas nos seguintes versos de João Monge:


“O teu coração parece

Uma pedra sem destino

Dizem que só amolece

Ao canto de um gambozino”


No Entre-Douro-e-Minho este animal imaginário também é conhecido por Pio-Pardo. No Baixo Alentejo é conhecido por Gramuzilho.

AINDA SE LEMBRAM DO GIGANTE MANJACAZE?

AINDA SE LEMBRAM  DO GIGANTE DE MANJACAZE? 
 2º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''

O GIGANTE DE MANJACAZE




Fonte: Blog AQUI TAILÂNDIA


Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?


Era o Gabriel Estevão Mondlane, media 2,45 metros de altura; infelizmente já morreu em 1990, com apenas 45 anos de idade. Resolvi fazer uma pesquisa na Internet e encontrei várias referências, das quais destaco as seguintes:

1 - Vida do Gigante de Manjacaze em livro O poeta e ficcionista português, Manuel da Silva Ramos, lançou em Maputo o livro "Viagem com um Branco no Bolso", um romance sobre a vida do "Gigante de Manjacaze", Gabriel Estevão Mondlane.

A obra apresenta um outro personagem, o anão português, Toninho de Arcozelo, que contracenava com o gigante nos círculos, feiras e praças públicas. No romance, com 574 páginas, o autor faz uma análise crítica à grande exploração a que o "Gigante de Manjacaze", com cerca de 2,5 metros, foi submetido no período colonial por empresários e promotores de espectáculo da época.

O nome do anão Toninho de Arcozelo, o então homem mais curto do mundo, com 75 cm de altura, associa-se a Gabriel Mondlane pelo facto de ambos aparecerem juntos muitas vezes, no mesmo palco, como forma de evidenciar a diferença entre ambos.

O autor do livro nasceu a 13 de Setembro de 1947 na Covilhã, esteve exilado durante 17 anos na França, regressou a Portugal em 1997 e é tido como um escritor polémico e pessimista. (Notícias, 26/01/01)

2 - Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (Moçambique), foi notícia em Banguecoque em Agosto de 1989

Os jornais e a televisão falaram dele. A sua imagem junto da esposa Maria saiu nas páginas de todos os jornais, editados, na capital tailandesa. Motivo da visita: A inauguração da abertura primeiro supermercado "Makro". Gabriel estava designado como o homem mais alto no mundo no "Livro de Recordes Guinness".

Conhecíamos a história do Gabriel de quando começou a crescer, desmesuradamente, depois de ter dado uma queda, na sua aldeia, em Manjacaze, no sul de Moçambique.Perante tal fenómeno de crescimento o Gabriel, embora o não apoquentem dores, foi internado num hospital de Lourenço Marques (Maputo) para ser observado pelos médicos. De um jovem com altura normal, cresceu, cresceu e foi até à craveira de 2,42. Os médicos (segundo os jornais de Moçambique) nunca explicaram o motivo da razão do Gabriel crescer descomunalmente e o rapaz foi enviado de volta às orígens.

O Gabriel, passava os dias sentado à sombra de um cajueiro, ao redor de sua casa, a sua altura desmedida não lhe dá a oportunidade para se juntar à sua família e trabalhar na "machamba" (pequena propriedade agrícola em Moçambique). Passa a ser um Gabriel amargurado, a maldizer o crescimento e um pesadelo para a família alimentá-lo, que comia por quatro pessoas de média estatura.

Devido à publicidade dada ao caso de sua altura houve alguém se interessou em fazer dinheiro com o tamanho do Gabriel.

Começa, então o drama de um homem alto pelos anos de 1965!

Eu vivia na cidade da Beira na altura e conhecia, pelos jornais, a história do crescimento do Gabriel.

Dois homens, expeditos, residentes na capital de Manica e Sofala andavam por alí a ganhar a vida ao sabor das marés. Todo os peixes que as ondas traziam à costa lhes servia.

Um de nome pomposo o Dr. Rakar, homem para todas ocasiões. Pintor à espátula, advinho com consultório montado e viria a dar aso a confusões e divórcios, entre maridos e mulheres na Beira. Entretanto foi-lhe apontado o "dedo" pelos jornalistas de tentar o aliciamento sexual, durante as consultas, às senhoras que o visitavam para que advinhasse qual era a "dama" que lhes estava a roubar o marido.

Outro de nome Prof. Belito, artista circense, ilusionista que andava por ali a montar a barraca nos arredores da Beira a mostrar, um truque, a cabeça de um preto em cima de uma mesa, que falava e comia bananas. Lá ía governando a vida, muito mal e com os dez tostões do custo dos bilhetes de entrada.

Os dois deslocaram-se a Manjacaze e trazem o Gabriel para a Beira, encomendaram uma "fatiota" por encomenda; uns sapatos para uns pés de 50 centimetros. Adquirem uma aparelhagem sonora de 100 watts cujo som, berrado, chegava a 10 quilómetros de distância. O Gabriel é enfiado numa barraca feita de pano de toldo, em locais da Beira e arredores, há bichas de pessoas para verem de perto o Gabriel.

O negócio foi correndo para o Razak e o Belito. Percorreu numa caixa de camião, aspirando o pó da picada, para outras terras de Moçambique.

Os moçambicanos e os "muzungos" (nome que os nativos davam aos portugueses de pele branca), depois de conhecer o Gabriel ao vivo não o pretendem ver mais.

O negócio começou a não ser rentável para os empresários Razak e o Belito.

Eles eram homens de imaginação e não se deram por vencidos.

Mandar o Gabriel de volta a Manjacaze, com a "fatiota", os sapatos e cotão no bolso em vez de umas notas em dinheiro, não era nada relevante para os seus protectores.

Se o Razak o Belito o pensaram melhor o fizeram!

Porque não ir mostrar o Gabriel de Manjacaze aos angolanos? Claro que sim e a ideia era genial! Fazer ver aos angolanos: Embora vocês tenham "pacaças" no mato, que Moçambique não tem, nós temos o homem mais alto do mundo e a dança do rabo de cadeira a "Marrabenta" !

Ajustam com a TAP, na Beira, o preço e o espaço da cadeira para transportar o Gabriel no "Super Constelation" para Luanda. O Gigante de Manjacaze, aterra na capital angolana, metido num espaço apropriado para a sua medida. Os jornais dão o "lamiré" e começa, como em Moçambique a ser exibido numa barraca.

O negócio foi correndo ao Razak, ao Belito e aos seus agentes.

Bem depois de ser visto e revisto e a figura do gigante deixar de ter interesse foi abandonada em Angola.Passou por lá misérias, os jornais de Moçambique deram conta do estado de vida degradado do Gabriel em Angola e regressa a Moçambique à estaca zero.

Porém, o Gabriel, aquele rapaz humilde já habituado aos ambientes do público, de ser admirado pelas crianças dentro de uma "barraca", começou a sentir-se (apesar de grande) "pequeno" em Manjacaze.

Nova fase de vida principia para o Gabriel, mas agora, com alguma dignidade.

Um empresário, circense, contrata-o e leva-o para Portugal.Corre Portugal de lés-a-lés, acomodado numa caravana (o próprio Gabriel me informou), onde dentro havia qualidade de vida e na hora que lhe estava destinada a exibir-se perante o público.

O "Gigante de Manjacaze" não foi explorado e amealhava uns "dinheiros".

Entre os caminhos "circenses" do Gabriel, uma mulher de 1,54 ( cuja altura dava-lhe pela cintura) de nome Maria, apaixonou-se por um homem de tamanha altura e 150 quilos de peso.

Maria começou acompanhar o marido, gigante, por todo Portugal e teve um filho. Um rapaz "mulato" que teria uns 10 ou 11 anos de quando estiveram em Banguecoque e me mostraram a foto do rapaz.

Maria está ao lado de Gabriel, adquiriram uma cave nos arredores de Lisboa e fazem uma vida de um casal normal.

A altura do Gabriel Monjane chegou ao livro "dos recordes Guiness" e está lançado no mundo como o homem mais alto do globo. Das picadas de Moçambique e de Angola, da tenda de lona o "Gigante de Manjacaze", começa a ser solicitado para publicidade e ser apresentado ao mundo.

Foi por este motivo que a empresa multinacional "Makro" convidou o Gabriel, o inglês Cris Greener, de 2,28 e outros homens, tailandeses (como anões junto do Gabriel e o Cris Green), para estarem, presentes, na abertura da primeira grande superfície na "Cidade dos Anjos".

Milhares de pessoas correram ao parque "Happy Land" para admirarem o "Gigante de Manjacaze", que embora nascido em Moçambique, dizia que era português!

Serviu de interprete entre o Gabriel e os jornalistas, a Esperança Rodrigues (ela e eu somos os portugueses mais antigos residentes na Tailândia), que traduzia as palavras do Gabriel em português para a língua tailandesa.

O Gabriel, meu amigo, partiu de Banguecoque, como um herói.

Passado uns poucos anos, uma delegação, moçambicana, que acompanhou o Primeiro Ministro Mário da Graça Machungo, em visita oficial à Tailândia, depois de lhes falar na história do Gabriel em Banguecoque, de volta recebi a triste notícia: " O Gabriel ao entrar na cave onde residia, escorregou, caiu e morreu". Fiquei triste por eu tinha lidado de perto com o Gabriel em Banguecoque e tínhamos ficado amigos.


O GABRIEL EM BANGUECOQUE

No dia 1 de Agosto de 1989 era um dia igual a muitos outros anteriores. Saí de casa para a Embaixada de Portugal, às seis da manhã, comprei o jornal e fui lê-lo para uma esplanada, junto ao rio Chao Praiá, onde todas as manhãs se sentavam à minha mesa uns "amigos e amigas", cáusticos: o Zebreu, judeu com uma lapidaria de pedras preciosa; o Miko, canadiano e fotógrafo para uma agência de publicidade, a Porno estudante universitária de economia e a Plá, secretária do gerente da Sony (Thailand). Não se discutia futebol, nem política mas "coisas" alegres e antes de começarmos um novo dia de trabalho.

Na primeira página do "Bangkok Post" estava inserida a foto do Gabriel Monjane e hospedado no "Montien Hotel", a uns dois quilómetros onde me quedava. Não fazia a mínima ideia aonde o Gabriel parava se em Moçambique ou noutro país. Ora eu conhecia a história, infeliz, do começo da sua carreira e da tragédia que tinha sido envolvido. Tinham passado (mais ou menos) 11 anos que lhe tinha perdido o rasto de sua vida. Às dez da manhã dei uma "saltada" ao "Hotel Montien" e oferecer-lhe os meus préstimos em Banguecoque. Da recepção do hotel telefonei para o quarto (cinco estrelas) e fui atendido pela D. Maria, sua esposa. Fomos breves na apresentação e subi no elevador.

Naquela manhã eu era para o Gabriel o seu anjo da guarda e comer um pequeno-almoço decente e não as torradas, com manteiga, marmelada e o sumo de laranja. O Gabriel desejava um bom prato de sopa de arroz com uns pedaços de carne e nunca as comidas "hoteleiras" que lhe tinham levado ao quarto. A D. Maria e o Gabriel não falavam, palavra que fosse, da língua inglesa e quando pediam, aos criados, sopa de arroz em português, sorriam-se e voltavam-lhe as costas.

Os pequenos-almoços do Gabriel desde logo ficaram resolvidos e não tardou um criado entrar no quarto puxando um "carrinho" com uma terrina de sopa, bem cheirosa, para um pequeno almoço decente e digno para um homem de 2,42 (dois metros e 42 centímetros).

Todos os dias, ao fim da tarde, durante a permanência do "Gigante de Manjacaze" em Banguecoque estava junto a ele. Sentava-se num banco especial, no "lobby" do hotel, junto ao cartaz que anunciava os eventos de sábado e domingo. O "lobby" do hotel passou a ser um centro de romaria. Os jornais, em língua inglesa e tailandesa, tinham dado cariz à presença do Gabriel em Banguecoque e todos querem apreciar a sua altura e tirar foto com ele. No princípio de uma noite teve duas visitas, especiais, de duas princesas reais: Soamsawali e filha Bajrakitiyabha que lhe foram fazer uma visita, particular, ao "Montien Hotel" cumprimentaram-no e tiraram fotos juntos.

Ofereci uma "boleia", no meu Volvo 244, já um carro bem "coçado", ao Gabriel para lhe mostrar Banguecoque à noite, as luzes de neon e todo aquele movimento nocturno. O carro era espaçoso e estudei a melhor forma de o transportar. Retirei-lhe o assento da frente, o Gabriel sentou-se no banco de trás, dobrou os joelhos e apreciou Banguecoque e não só atravessei a grande ponte, Rei Rama IX, e olhou a cidade lá do alto.Ao Gabriel, meu amigo, desejamos que esteja no céu, porque um homem simples e bom, igual a ele não tem lugar no purgatório, nem no inferno.

O Inferno já o tinha experimentado na vida terrena.

"Kanimambo" Gabriel Monjane



José Martins - 17 de Maio de 2007




O POÇO DA MORTE

O POÇO DA MORTE 
 3º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA '' CAÇADA NA MATA REAL''




O POÇO DA MORTE

Reportagem do Jornal do Algarve


Adelino Henriques percorre as feiras algarvias com o seu poço da morte


A arte de ganhar a vida a brincar com a morte "Nunca soube o que é o medo", afirma Adelino Henriques, o famoso artista do Poço da Morte. Tem 79 anos, mas a idade não é um impedimento para continuar a fazer aquilo que mais gosta. Apaixonado desde sempre pelo Poço da Morte um "divertimento" que tem tanto de sedutor como de arriscado, em que um pequeno deslize pode ser fatal. Uma "paixão cega" que fez com que este homem passasse a vida a brincar com a morte.

Ana Rosa - 13 de Novembro de 2009


O famoso Poço da Morte, uma das diversões mais antigas do país, anda a percorrer as feiras algarvias. E se o espectáculo já é por si só um verdadeiro "show" de emoções e adrenalina, o que se dirá quando o artista principal tem 79 anos. Adelino Henriques, é a estrela deste espectáculo único que deixa o público com aquele "nervoso miudinho". O J A aproveitou a presença do artista na região e foi conhecer um pouco melhor o "homem sem medo".

Natural de Mangualde, concelho de Viseu, Adelino teve o primeiro contacto com o Poço da Morte aos oito anos, na feira de São Mateus, em Viseu.

"Na altura não fazia bem ideia do que isto era, mas comecei a sonhar todos os dias que era um dos artistas do poço", recorda. Aos 18 anos, numa feira em Aveiro, surgiu-lhe a oportunidade com que tanto sonhara. Começou a andar no Poço da Morte primeiro com uma bicicleta a pedal e logo depois com uma motorizada, aprendendo também a trabalhar na Esfera da Morte. Aqui o espectáculo é feito numa bola redonda feita de ferro.

Aos 40 anos mandou construir o seu próprio poço e, desde aí, este passou a ser o seu ganha-pão, acompanhando-o de norte a sul do país. Passados 40 anos, continua a ganhar a vida com o Poço da Morte.

"Nunca me imaginei a fazer mais nada", frisa.

Para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao extraordinário espectáculo, que desafia todas as leis da gravidade, o J A levanta aqui a "pontinha do véu".


O Poço da Morte é uma estrutura feita em madeira com cerca de sete metros de altura. Em redor do poço é montado um estrado, de onde o público poderá assistir ao espectáculo. Os artistas ao volante de uma motorizada movem-se em círculos à volta do poço, a cerca de sete metros do chão.

Não são utilizados capacetes, colchões ou qualquer outra protecção, o que significa que qualquer deslize pode resultar numa queda que pode ser fatal. As motos atingem velocidades de 90 quilómetros por hora.

E como se não bastasse a espectacularidade do momento, os artistas vão ainda mais longe. Sempre com os motores a trabalhar, ousam tirar os braços do guiador e mesmo a tapar os olhos com vendas. O objectivo aqui é impressionar e para isso vale tudo, até brincar com a morte. Actualmente, Adelino e o seu companheiro de cena fazem o espectáculo com uma Suzuki e uma Yamaha.

"Estas são motos vulgares, sem qualquer tipo de apetrecho ou modificação", explica o artista do Poço da Morte. "Apaixonei-me pelo Poço da Morte"


Adelino Henriques contou até há bem pouco tempo com a colaboração de um dos seus netos, que o acompanhava nas destemidas aventuras. Hoje é Carlos Silva, de 30 anos, um "velho" amigo da família que acompanha o experiente artista nas suas actuações.

"As actuações em dupla são ainda mais espectaculares aos olhos do público", diz Adelino.

O artista é actualmente o homem mais idoso do mundo a fazer o Poço da Morte. E apesar da insistência dos quatro filhos, que, preocupados, tentam convencê-lo a mudar de vida, Adelino não se dá por vencido: "Espero continuar a fazer o Poço da Morte enquanto a minha saúde o permitir". Mas o que leva uma pessoa a arriscar assim a vida, perguntam alguns. Pois foi essa a questão que o J A colocou a Adelino Henriques, que respondeu simplesmente:

"Faço isto porque gosto. Apaixonei-me pelo Poço da Morte! Nunca senti medo, não sei o que é o medo. Sinto-me muito bem quando estou lá dentro, gosto de ouvir os aplausos das pessoas", revela.

Apesar de nunca ter "apanhado um grande susto", já deu umas valentes quedas.

"Já fracturei braços e pernas várias vezes. Tenho uma placa de platina na perna. Mas nada de grave!" Ossos do ofício! O artista revelou ainda ao JA factos curiosos, como por exemplo que nunca houve uma companhia de seguros que fizesse um seguro a um artista do Poço da Morte. Créditos à habitação e outros bens também não são permitidos a estes artistas. Vivem no limite, sem qualquer tipo de seguro!

"Já cheguei a entrar dentro do poço agarrado a duas muletas"

Adelino continua com a mesma destreza, apesar dos seus quase oitenta anos. Embora o problema do reumatismo lhe ande a trocar as voltas. "Já cheguei a entrar dentro do poço agarrado a duas muletas. As pessoas pensavam que era maluco", conta, divertido.Contudo, Adelino Henriques sabe que o dia em que terá que abandonar o seu "amado" poço não tarda.

"Gostava muito que isto continuasse. Os meus filhos aprenderam todos a andar no Poço da Morte", mas acabaram por enveredar por outras profissões".

"É uma pena que os jovens de hoje não queiram aprender um ofício. Esta é uma profissão como outra qualquer", diz. Com o senão de que cada dia pode ser o último!

Já houve quatro Poços da Morte em Portugal. O primeiro chegou pelas mãos de uns italianos, que depois o venderam a uns portugueses. O poço de Adelino Henriques é, actualmente, o único Poço da Morte no país, e também o maior poço que alguma vez existiu em Portugal. Apesar de actuar mais frequentemente na zona norte do país, Adelino e o seu poço decidiram descer este ano ao Algarve e já passaram pelas feiras de Olhão, Tavira, Vila Real de Santo António e Silves.



terça-feira, 3 de agosto de 2010

DESVENTURAS DE UM ESTUDANTE EM TORREMOLINOS EXCURSÃO DE 1980 - PARTE 3



Resumo dos capítulos anteriores:

Estamos na Páscoa de 1980. Os finalistas do Liceu das Caldas partem em excursão para Torremolinos. Mal chegámos e já estávamos a correr as discotecas da cidade. No regresso ao nosso apartamento em Benalmadena, descobrimos que a piscina do complexo está cheia e que uma das banhistas era a minha namorada do Verão de 1979. Ao debruçar-me para a beijar, o Filipe do Pó atira-me para dentro de água, todo vestido.

No dia seguinte fomos ao Corte Inglês de Malaga e assistimos a uma cena de histerismo das fans de Pedro Marin. Para acabar o dia fomos afastados de um jantar no apartamento de umas amigas da onça mas o feitiço voltou-se contra o feiticeiro.

Perceberam? Não? Então leiam os capítulos anteriores que a mim já me basta ter de arranjar tempo para escrever este!

Parte três:

Os dias sucederam-se a um ritmo vertiginoso e depressa demais para o nosso gosto. Dormíamos pouquíssimo e apenas nas horas mortas por forma a estender ao máximo o nosso tempo útil de diversão.

Dividiamo-nos em grupos e enquanto uns iam às praias do Lido, de Bajondillo e de La Carihuela ou permaneciam na piscina, outros passavam a tarde nas esplanadas da Calle de San Miguel ou participavam em excursões a Mijas, Marbella e Puerto Banus.

À noite percorríamos as discotecas de Torremolinos e regressávamos a pé a Benalmadena. Muitos estudantes de outras localidades optavam por alugar motocicletas e conduziam-nas com dois e três passageiros sem qualquer tipo de protecção.

Uma noite regressávamos a Benalmadena pela Avenida de Palma de Mallorca e a meio caminho recebemos a noticia de um trágico acidente de mota envolvendo dois estudantes de Torres Vedras. Por uma vez a noite acabou triste e pesarosa para todos, perdendo nós a vontade de a estender nas nossas farras nocturnas que normalmente teminavam com o nascer do sol.

Num final de tarde um grupo vem a correr até à piscina para nos chamar. Entre risadas contam que estavam a vaguear pelas calles quando entraram num bar chamado Bonanza, entre eles estavam o João Gancho e a acompanhá-los o Padre Eduardo.

O barman era um transformista chamado Miguel, Miguel do Bonanza como era conhecido e que quando se transvestia assumia o personagem de ''Agata''.

O João Gancho picou-o para se ir mudar e o Miguel do Bonanza ficou todo dengoso com o João que se fartou de gozar incitando-o a encarnar o seu personagem. O bom do Padre Eduardo bem que tentou afastar o grupo do bar mas o mais que conseguiu foi ele próprio se retirar deixando o grupo entregue à sua diversão.

Fomos a correr assistir ao pagode e ainda apanhámos a ‘’Agata’’ a dançar umas sevilhanas para o João. No final da tarde tivemo-lo que o proteger das insistências do travesti que queria à força dançar mais umas músicas para o João.

Nessa noite fizemos mais uma rodada pelas discotecas, acabando como sempre no Piper’s.

Há muitas noites que um grupo de miúdas de Oviedo, nas Astúrias, também em excursão de finalistas, rondavam um dos grupos de rapazes do liceu das Caldas, metendo conversa com eles e sistematicamente pegando nas suas bebidas para irem matando a sede sem ter pagar as suas próprias bebidas, bem, ou era essa a razão, ou encontraram assim uma forma de se colarem ao grupo. Era vê-las sempre a dançar junto aos caldenses no patamar diante do famoso biombo das dançarinas e nunca entrando nas pistas de dança.

Este grupo era formado entre outros pelo Tó Zé Faustino do Bombarral, pelo Paulo Renato Castro e pelo José da Silva. A determinada altura já fartos da insistência das raparigas em pegar os copos das suas mãos e bebericarem deles, decidiram pregar-lhes uma partida.

De cada lado dos três ou quatro degraus que davam para esse patamar, haviam uns pequenos lagos com nenúfares e algumas trepadeiras. Invariavelmente esses pequenos lagos terminavam a noite apinhados de copos pois à falta de outro local para os pousar e uma vez vazios, era aí que todos os depositavam.

A água continha muitos elementos vegetais em suspensão dando-lhe uma cor verde. Assim numa noite, os rapazes decidiram encher os copos com essa água sabendo o que aconteceria pouco depois.

E assim foi! Uns minutos depois eis que chega o grupo de espanholas e recomeça a dança, com elas a bambulearem-se à sua volta e a pedirem-lhes os copos para bebericarem.

‘’ - Tiene un color hermoso. ¿qué es?’’

‘’- Pisang Ambon!’’ – retorquiram os rapazes com um tom meio enfadado, meio contido.

As raparigas beberam e não se desfizeram! – Uma até disse que era muito bom.

Tivemos que nos virar para esconder o riso! Não me recordo já se lhes serviu de remédio ou se os rapazes lhes ofereceram por uma vez as bebidas.

Ai! Longas eram as noites!

Na tarde do último dia chego aos apartamentos e encontro no hall do meu piso um grupo de colegas formado pela Rosa e pela Paula da Columbeira, pelas Susanas, pela Fátima, pela Teresa Requeijo, pela Margarida Rosa e pela Heloísa. Algumas delas, não me lembro de quais, pois os seus apartamentos eram anexos, tinham ficado do lado de fora do seu apartamento pois repartiam-no com uma colega e esta tinha vindo mais cedo da piscina com as chaves e agora não lhes abria a porta.

Batiam na porta, tocavam à campainha e nada!

- Têm a certeza que ela está aí dentro? – perguntei eu.

Que sim, responderam-me. Se tivesse saído teria deixado a chave na recepção como era habitual.

- Deve estar a tomar banho e não vos ouve! – conclui eu.

Que não, reponderam elas. Já estavam a bater há muito tempo e ela sem abrir. Começavam a ficar preocupadas.

Nisto, uma delas lembrou-se que tanto a sua janela que dava para a varanda como a janela do apartamento do lado estavam abertas.

- Paulo! – pediram-me elas lançando-me o seu ar mais charmoso! – Eras um querido se passasses de uma varanda para a outra e nos abrisses a porta.

- Devem estar malucas, ainda caio lá em baixo!

- Não cais nada! Saltas pela divisória! – disse-me uma com ar despreocupado (pudera, não era ela a saltar!) – E se alguma coisa tiver acontecido é melhor seres tu a dar com ela!

- Ai parva! – interrompeu logo uma, vendo que o argumento não me iria convencer – Ela deve é estar a dormir ferrada!

Acabei por aceder ao pedido e fui até à varanda do apartamento que algumas ocupavam, mesmo ao lado do apartamento trancado. As varandas estavam divididas por muros que impediam a vista de uma para a outra, resguardando a privacidade não só das varandas mas também dos quartos e salas. O pior é que entre cada varanda havia ainda um pequeno espaço de alguns centimetros e podia mesmo ser perigoso se não saltássemos junto à parede.

Bem, lá foi o Paulo armado em Arsene Lupin, e toca de subir a uma espreguiçadeira e daí para o muro.

Quando estou no topo do pequeno muro descubro a razão porque a menina não ouvia o bater da porta.

Ao saltar por cima do muro deparo-me com uma visão fantástica!

Uma linda moçoila de olhos fechados a apanhar sol em topless, com duas meias cascas de tangerina a proteger as partes mais vulneráveis ao sol. A sério, foi lindo!

O que fazer? Volto para trás e corro o risco de ser apanhado de costas ou entro rapidamente para a sala que estava mesmo ali à mão?

Decido-me por esta alternativa. E esgueiro-me em bicos dos pés para a sala, não sem antes deitar uma última olhadela à Vénus Adormecida.

Abro depois a porta e deixo-as entrar perdido de riso. Mais uma vez fico guardião de um segredo da excursão! Quem seria a misteriosa dama do monoquini?

Haveremos de nos encontrar todos uma hora mais tarde.

Não sei como começou mas sei no que deu!

Estávamos no nosso apartamento a recuperar forças para o que seria a nossa ultima noite quando ouvimos uma grande algazarra. Saímos de imediato do apartamento e deparamos como uma autêntica cena de guerra, por todo o lado e em todos os pisos haviam rapazes e raparigas a degladiarem-se com extintores de incêndio. Era uma fumarada ou melhor uma polvilhada tal que parecia que os halls estavam imersos em nevoeiro!

Toda a gente parecia moleiros, enfarinhados de alto a baixo!

Foi o bom e o bonito! Não havia nada a fazer pois quem não entrava na festa só tinha duas alternativas: ou reentrava nos apartamentos e esperava pelo fim do motim ou deixava-se fumegar passivamente!

A brincadeira acabou com a chegada dos seguranças e uma convocatória geral para o hall da recepção onde nos esperavam a administração do empreendimento, que nos pretendia (a todos, de todas as escolas) expulsar na hora, os professores que acompanhavam as diversas escolas e ainda um corpo policial.

Enfim, a última grande reprimenda da minha vida!

À chegada, quando fizemos o check-in, alguns de nós, tinha visto o seu BI retido na recepção como garantia para evitar ou compensar eventuais danos. Bem, eles não estavam a pensar neste tipo de danos!

Às tantas já tinhamos algumas raparigas a telefonar para os pais a dizerem que iriamos todos ser expulsos de Espanha... e sem bilhetes de identidade!

Lembro-me que alguns pais estavam mesmo dispostos a meter-se a caminho para resgatarem as suas filhas das garras dos nossos ‘’captores’’!

Os que fazíamos parte da Associação de Estudantes começámos achar tudo aquilo um exagero e tanto mais que os estudantes das Caldas eram dos menos culpados da situação. Fizemos tudo em legitima defesa!LOL!

Com a ajuda dos nossos professores e do responsável da agência de viagens conseguimos dialogar com os administradores do empreendimento e lá conseguimos que libertassem todos os BI com excepção do meu e não sei se do Paulo Lemos que era o Presidente da Associação e que teve um papel de destaque nessas negociações. Deveria ter ido para a carreira diplomática, o nosso Paulo!

No final lá passei clandestino a fronteira. Julgo que foi a primeira vez na história que um português passou a fronteira na clandestinidade...

...no sentido Espanha-Portugal!
















Lipps Inc. - Funky Town (1980)