terça-feira, 24 de agosto de 2010

LEITURAS, TEXTURAS E OUTRAS LITERATURAS




Desde muito novo que tenho um enorme gosto pela leitura. Ainda antes de frequentar o liceu já me encaminhava vários dias por semana para a Bibilioteca Gulbenkian, no parque, para ir levantar os três livros da praxe que geralmente devorava em dois dias.

Nas tardes de Verão ou de outras férias em que o tempo não nos dispunha para ir à praia ou à rua, preparava metodicamente um jarro de refresco Dawa ou Alsa, uma enorme quantidade de papo-secos das Teixeira com fatias grossas de marmelada e manteiga e instalava-me no meu quarto, ao som de uns vinis e deitando-me em cima da cama, passava longas horas em leitura na companhia do Tarzan, do Lagardére, do Arsene Lupin, do Santo (colecção Vampiro!), do Capitão Morgan e de toda a obra de Emílio Salgari (incluindo o Sandokan) e de Julio Verne! O meu método era simples. Pegava nos indexes das colecções e lia as obras dos meus heróis ou escritores preferidos por ordem de data de edição ou da sua disponibilidade na biblioteca, não descansando enquanto não lia toda a bibliografia.

Bem mas do gosto pelos livros e particularmente pelas bibliotecas Gulbenkian escreverei numa outra oportunidade!

Hoje remeto-me para a recordação das revistas do nosso tempo!

O que me salta à vista é que a panóplia de revistas daquele tempo nada tem a ver com a infinidade de títulos que hoje enchem os quiosques e papelarias. E afinal o que é que a nossa geração lia na altura?

As minhas mais remotas recordações remetem-me para a leitura dos Disney e de outras bandas desenhadas de origem brasileira, a Turma da Mónica, argentina (Mafalda) e americana (Bolinha, Brotoeja, Lulu, Charlie Brown, Katzenjammer Kids, ou sejam, Os Sobrinhos do Capitão e o Pequeno Nemo), sempre em edições brasileiras!

Ainda na primária recordo-me de ir para casa do Luis Correa, meu colega no Ramalho Ortigão, embora um ano mais acima (agora no Cadaval mas que na altura vivia junto ao Burlão), ler os fascículos das séries de continuação semanal do Tintim que ele encadernava religiosamente. Mais tarde estas revistas ‘’a suivre’’ deram lugar às revistas Spirou e Jacto. Foi assim que conheci heróis como Michel Vaillant, Tanguy & Laverdure, Ric Hochet, Blake & Mortimer, Spirou, Blueberry, Valerian, Asterix, Os Túnicas Azuis, Bruno Brazil, Bernard Prince, Simon du Fleuve, Luc Orient, Yakari, Alix, Lucky Luke, Corto Maltese e tantos, tantos outros.

Mais tarde, talvez já no ciclo iniciei-me na leitura dos Comic americanos com as revistas da Editora Brasil-America Lda (Ebal) no sotão do Manel e do Luis Castelo Branco e na leitura do SuperHomem, Batman, Flash, Legião dos SuperHerois, Lanterna Verde, etc. etc.

Já nos tempos do liceu corria os quiosques à procura das revistas de bolso Condor e Falcão para ler as aventuras de Ogan, Kalar, Ene 3, Major Alvega, Kit Carson, Texas Jack, Oliver, Dogfight Dixon, David Crockett, Buffalo Bill, das revistas Jornal do Cuto e Mundo de Aventuras e os seus Mandrake, Fantasma, Tarzan, Luis Euripo, Flash Gordon, Brick Bradford,Gringo, Garth, Rip Kirby, Johnny Hazard, Steve Canyon, Cisco Kid e de revistas de western para ler o Kid Seis-Balas, Ringo, Laramie John, Tex, Billy-the–Kid, Oklahoma Slim, Colorado Kid e outros pistoleiros invencíveis.

Isto somado às tiras de BD das edições dominicais do Diário de Noticias com o Principe Valente, O Coração de Julieta, Blondie, Modesty Blaise e Brenda Starr.

Desses primeiros momentos de leitura nasceu uma enorme paixão pela banda desenhada que me fez tornar por longos anos um grande (exagerado!) coleccionador deste género de literatura.

Mas nem só de banda desenhada constava o nosso gosto pela leitura de revistas nem tão pouco a BD era do agrado de muitos de nós.

As raparigas entusiasmavam-se com a compra das revistas alemãs Bravo e Pop. Não percebiam nada dos textos mas retiravam daí as letras das canções mais populares e canibalizavam as revistas por inteiro. Os posters da página central decoravam as paredes dos quartos e as fotos eram recortadas e após um elaborado trabalho de colagens faziam capas para os seus dossiers, cadernos e até livros escolares. Disso dei conta na crónica ‘’Posters e a Suzy Quatro’’!

Os rapazes mais apaixonados pelos desportos motorizados, como eu, compravam semanalmente as revistas Volante e Motor (que nas primeiras séries eram enormes e traziam um poster nas páginas centrais) e mais tarde as revistas Motor (2ª série) e Auto Mundo. E todas as terças ou quarta feiras lá ia eu à Jornália (mais conhecida pelo Diário de Noticias) ou à banca das escadas da Traviata gastar dois terços da minha semanada na compra destas revistas.

Também estas colecções estão devidamente encaixotadas em minha casa para desgosto da restante família que bem gostaria de se livrar delas!

Por casa os pais liam a Flama, o Século Ilustrado, a Vida Mundial e a Nova Gente onde se entretinham com a coluna de mexericos entitulada Ziriguidum escrita por uma tal Daniela que mais tarde se veio a descobrir ser o Carlos Castro. As senhoras mais jovens liam a Plateia e as suas fotonovelas e reportagens dos famosos ou com a Crónica Feminina, a antecessora da revista Maria. As apreciadoras do género liam aos enredos amorosos da Corin Tellado, as fotonovelas da Capricho e a adaptação semanal para fotonovela da radionovela de origem espanhola Simplesmente Maria que entre 1973 e 1974 foi transmitida em 500 folhetins radiofónicos na Radio Renascença!

À medida que fomos crescendo os nossos gostos passavam mais pela revista Mad e pelas revistas e jornais de música e espectáculos como a Música & Som, o Se7e e o jornal Blitz.

E quando entrámos na adolescência começámos a admirar o belo sexo e depois de darmos uma espreitadela às revistas com nús artisticos como a Photo, a Lui e a Oui! que eram compradas pelos irmãos mais velhos (quem os tinha!), passámos à leitura, ou melhor, à visualização de nús, digamos, menos artisticos!

Pelo menos umas duas vezes por ano, alguns rapazes mais ousados juntavam-se em grupo e com o maior dos embaraços iam em bando até à banca escolhida e no meio de uma dezena de revistas diversas lá compravam a medo a revista Gina!

A Gina foi a primeira e mais popular revista pornográfica a ser publicada em Portugal e foi também o maior terror de todas as Virginias e Reginas deste país! Só o nome de Gina desencadeava um sorriso mais ou menos cúmplice e matreiro entre os jovens da minha geração e foi o que aconteceu, certa vez, com um amigo, agora radicado no estrangeiro, que se lembrou de aparecer em minha casa de Lisboa com uma amiga, ou espécie de amiga, com demasiada maquilhagem, decote generoso e mini-saia curta demais para o diâmetro das suas coxas! Ao apresentar-nos a amiga com o nome de Gina, soltámos uma gargalhada instantânea que ainda hoje, passados quase trinta anos, fará corar a pobre rapariga!

A revista então comprada numa banca das Caldas seguia direita para o liceu onde conhecia a maior taxa de audiência alguma vez registada por publicação em Portugal, salvo as edições com dois anos da Caras que encontramos em certos consultórios médicos!

A Gina passava então de grupo em grupo, ao longo de uns oitenta pares de olhos que bem às escondidas nos corredores dos pavilhões do parque, tinham finalmente as suas primeiras aulas de educação sexual!

E uma vez, quando um grupo de uns três ou quatro colegas chega ao pátio das traseiras do liceu com a última edição da Gina escondida dentro de um dossier escolar e nos junta a todos num grupo de mais de uma dezena, um dos rapazes solta um grito de admiração!

- É pá! Esta era a minha empregada!

Olhámos para ele estupefactos.

- Tanga! – gritámos em uníssono. – Está-se mesmo a ver!

- Juro! – replicou ele com um ar convincente – É a Manuela* ! Então eu não a conheço?! Foi minha empregada dois anos!

Olhámos para ele com ar de gozo.

- Conheces assim tão bem?!

- Não, parvos! Não assim tão bem! – explicou - Mas é ela, de certeza!

- E então onde ela está?! – perguntámos.

O Carlos* encolheu os ombros.- Não faço a mínima ideia! Ela saíu lá de casa há mais de um ano dizendo que tinha uma proposta para ir trabalhar para uma boutique na Amadora ou na Damaia, já não sei bem. E nunca mais a vi!

- Olha lá. – disse um com um ar mais malandro. - E a tua mãe não sabe? Podíamos ir visitá-la!

- A quem? Querem ir todos lá a casa perguntar?

- Não, estúpido! Podíamos ir visitar a tua empregada!

- Eu vou perguntar à minha mãe e amanhã digo-vos! – propõs o Carlos.

Olhámos para ele com ar de gozo!

- É pá! Vai é lá saber já! Achas que vamos ficar á espera até amanhã?!

O rapaz lá foi então a casa saber novidades. Voltou mais tarde com ar cabisbaixo.

- A minha mãe não ficou com nenhum contacto. Ela prometeu telefonar ou voltar para visitar-nos mas até agora nada!

- Chiça! – gritou um mais desanimado!

Foi um enorme desgosto para nós todos! Logo agora que poderíamos ter a chance de conhecer uma artista internacional!

Durante anos esse desgosto perseguiu-nos e, de vez em quando, relembrávamos o episódio com nostalgia e ainda alguma esperança.

De vez em quando algum dos meus amigos ainda me pergunta:

- Então pá! O Carlos já descobriu a empregada ou achas que ele sempre soube e escondeu-nos isso?

Eu sempre respondo com uma gargalhada.

- Não faço ideia! Mas por esta altura a mulher já estará na casa dos cinquenta! Se calhar já é avó!

E rimo-nos todos imaginando-a com os netos e escondendo o segredo do marido!

Mas que o desgosto de não a ter conhecido nos ficou, ai isso ficou!


Há uns anos atrás saíu uma reportagem sobre o fim da Gina. Ao fim de mais de trinta anos de dedicado serviço aos jovens imberbes deste país, a revista finalmente terminou. O seu editor jurou a pés juntos que o material vinha da Alemanha e que ele se limitava a fazer as traduções e a inventar legendas mais ousadas e que apesar da crença popular, nunca utilizou modelos portugueses.

Mas eu não acreditei! O tipo não parece ser de fiar! Cá para mim ele não quer ter problemas e esconde que algumas das artistas eram mesmo nacionais!

Não sei! O meu amigo parecia demasiado sincero! Talvez um dia ainda conheçamos a artista e arranjemos aquela edição para lhe pedir um autógrafo!


*Nome ficticio


Nota: Ler o texto de apoio ''As Memórias Gráficas da Mais Amada das Gina''



domingo, 22 de agosto de 2010

AS MEMÓRIAS GRÁFICAS DA MAIS AMADA GINA






A Revista Gina 
(artigo in Correio da Manhã - 22 de Março de 2009 - Por Maria Ramos Silva)

Texto de apoio à crónica ''Leituras, Texturas e outras Literaturas''


Nos anos 70 e 80 o ioiô e a Spectrum ferviam nas mãos dos adolescentes. A ‘Gina’ também. Entre 74 e 2005, ano em que gemeu de prazer pela última vez, Mário Gomes, das edições Pirâmide, traduziu a revista pornográfica mais popular em Portugal.

Foram 196 números quentes que revolucionaram o País dos brandos costumes. Para eles. E, sim, também para elas!

Mário Gomes nunca foi tão fotografado como para esta história. Mais flashes, 'só no dia do meu casamento', garante, entre risos. A insistência da lente faz sentido, porque as recordações que enchem a cave do prédio na Buraca, onde pouco funcionam as edições Pirâmide, escrevem--se com imagens. Muitas e bem explícitas. 'Ainda hoje, não deve haver um homem ou mulher com mais de vinte anos que não saiba o que é a ‘Gina’'.

O esclarecimento sobre a popular revista pornográfica abona assim tanto entre as senhoras? 'Elas consumiam e muito! Por norma os homens não têm pudor em comprar mas alguns metem entre o jornal. As mulheres compram com uma revista. No Rossio e em Santa Apolónia mantinha contacto com os vendedores. Vendiam-se milhares a senhoras que estavam de passagem.'

Para os desatentos ou fiéis depositários de ignorância crónica, aqui vai a apresentação. A ‘Gina’, de apelido ‘Histórias Sexy Internacionais’, foi instituição da literatura porno, marco da libertação de costumes, ícone de uma geração, manual de iniciação a uma vida nada banal para muito jovem na flor da idade e sucedâneo de aventuras idas para gente entradota, cartilha picante, sempre no fio da navalha entre a mais conspurcada brejeirice e calinadas nos diálogos e uma rebuscada prosa com laivos de erudição. E foi o pavor de todas as Virgínias e Reginas do País, atreitas a associações galhofeiras por parte das línguas mais desabridas.

Trocado por miúdos, ou melhor, por adultos, a ‘Gina’ foi a ‘Anita’ dos crescidos – ou de todos os que cresceram com a sua leitura. A ressalva é que até a viajada ‘Anita’ ficava aquém dos périplos da ‘Gina’. A ‘Gina’, tal como as meninas más, ia para todo o lado.

Faz em Julho três anos que deixou de ser editada. Hoje, é um vestígio retro dos tempos que já lá vão. Um kitsch bibelô ressuscitado, qual sabonete Ach Brito ou pasta medicinal Couto que sobrevive sob a forma de culto.

Provando que há quem duvide com todas as ganas que fechou actividade, de vez em quando, 'homens e mulheres que querem ser ‘intérpretes’ da ‘Gina’ ainda mandam para aqui o curriculum com fotos'. Impossível. Que se saiba, os modelos eram estrangeiros e, como dizem as bocas largas de quem se cruza com um exemplar antigo: 'algumas já são avós e ainda aqui andam nas capas!'

No escritório da Buraca nunca se fizeram castings para actores porno, apesar da estética da ‘menina do calendário’ dominar a decoração.

Mário traduzia os hilariantes recortes literários. Coisa 'corriqueira', desvaloriza, sem empolgamentos. Ao início levava um dia por revista. O irmão criticou a minúcia. Pediu que aliasse o literal com o improviso. E Mário melhorou a média. Cinco a seis horas de trabalho por cada ‘Gina’. 'Em alguns casos era preciso criatividade, quando sobrava espaço depois de traduzido de francês ou do inglês. Lá saía um bocado ordinário, mas é disso que o povinho gosta!'

Povinho que é como quem diz. Democrático como poucos, o sexo convence todos os estratos sociais. E assim a senhora dona ‘Gina’ chegava a todos. Era de todos. E de ninguém. Sacudia-se a água do capote para o primo, o tio ou o vizinho quando a vergonha de a ter entre mãos suplantava o tamanho da colecção. 'Uma das primeiras era uma polícia alemã a multar um gajo num parque de estacionamento. E pronto, lá terminava em amor!' Ai, tanto eufemismo estacionava nesse parque...

A ‘Gina’ veio ao mundo português no ano da liberdade. Entre Setembro e Outubro de 1974 foram publicadas as primeiras quatro revistas. Custava 5% do ordenado mínimo nacional, 30 escudos. Rapidamente, galgou para os 50. 'Começou a ser publicada pela Palinex, editora do meu irmão mais velho, nas Vendas Novas, onde tínhamos as oficinas gráficas'. Acácio Gomes, já falecido, tornava-se o 'pioneiro das revistas porno em Portugal'. Homem de faro apurado, 'fura-vidas que podia ter sido magnata', qual Hugh Heffner lusitano, importou da Alemanha um negócio da China, directamente da feira do livro de Frankfurt. 'A revista alemã tinha o mesmo nome e grafismo. Comprámos os direitos com fotolito e tudo.'

Os números espelham o fervor pela matéria que a ditadura sem libido aplacava. 'Venderam-se uns 150 mil exemplares de cada um dos primeiros quatro números. Foi a primeira revista pornográfica com textos em balão e acho que a única. Os primeiros números foram publicados ao mesmo tempo em Portugal e na Alemanha.'
A pornografia chegava até então às curiosas mãos nacionais de forma relinchante, mas silenciosa - pela porta do cavalo. 'Uma polícia do aeroporto pedia a um piloto para lhe trazer exemplares do Norte da Europa para dar ao namorado. Custava uma fortuna'.

Em 58 nem as anedotas com biquinis venciam a prova da censura.

Mas a fome deu em fartura. 'Tudo o que era erótico ou pornográfico era impossível antes do 25 de Abril. Depois, tornou-se uma debochice autêntica. Havia revistas da ‘Gina’ expostas na rua, em qualquer estação. Passou-se do oito para o oitenta, ou melhor, para o 800!'

As páginas escancaravam-se mais ainda do que a ousadia da rainha dos títulos, que rendeu boa maquia à editora. Mário não consegue precisar o volume de escudos, mas de uma coisa se lembra. 'O meu irmão apetrechou a oficina com máquinas à custa da ‘Gina’ e das outras!' Confirma-se. ‘Gina’ não deixava os créditos por mãos alheias e fazia tudo, até emparelhar com outras publicações da casa, nada obscenas. Menos trabalhar para aquecer. 'Publicámos banda desenhada, do ‘Texas Jack’ ao ‘Homem Aranha’. Fomos os primeiros a publicar comics americanos em Portugal. Fomos pioneiros na fotonovela'. E ainda livros de cowboys e de culinária. Obras infantis e para pintar. Mais tarde, banda desenhada erótica vinda de Itália. O filão era mesmo este.

Um ano e meio depois dessa novidade, de sua graça ‘Gina’, o ‘boom’ dos conteúdos explícitos. 'Chegou a haver uns 10 a 15 títulos mensais'. Como a rival ‘Tânia’. A própria Pirâmide investiu no segmento. Chegou a deter seis títulos com conteúdos semelhantes, da ‘Top Sex’ à ‘Weekend Sexy’. Tanta concorrência resultou madrasta para a infatigável ‘Gina’. A estocada final chegou com o advento da internet, 'e do famoso canal 18'. A pornografia ficou à distância de um excitante clique.

Os iniciais milhares de exemplares vendidos decaíram para 1500 nos últimos anos. O declínio chegou à fase do ‘pacote poupança’ que empurrou a ‘Gina’ para as ruas da amargura. 'Vendiam-se 10 ao preço de cinco. Há muitos coleccionadores que escrevem para cá a pedir números em falta.'

Mário, filho de minhotos, um de cinco irmãos, deitou mãos ao trabalho com apenas 11 anos. Entrou para a editorial Íbis como moço de recados, onde o irmão mais velho era chefe de escritório. Descobriu os primeiros números da norte-americana ‘Hustler’, concorrente da ‘Playboy’ em terras do puritano mais fajuto de todos os tempos: o tio Sam. O mano Constantino também se ligou à área editorial.

Em 1965, Acácio, Rossado Pinto e Alfredo Silva fundavam a Palinex. 'Estive sempre com eles, desde 58, neste ramo'. Em 74, deitavam mãos à ‘Gina’. Em 1980, os irmãos Acácio, Mário e Constantino montavam as Edições Pirâmide e transferiam a matriarca das revistas porno para o Carmo, em Lisboa. Depois, mudaram-se para a cave da Buraca juntamente com outras publicações que celebrizaram a casa, como as revistas de crochet e ponto de cruz, os manuais de tarot ou os cromos de futebol. Menos melindrosas do que a agitadora ‘Gina’. 'O meu irmão foi condenado uma vez a uma multa de 350 contos, o que em 79 era muito. Um padre viu as revistas em Santa Apolónia e fez queixa'. Não é para menos. O hábito, em pele de fetiche, desfilou muitas vezes na ‘Gina’, rivalizando com enfermeiras, hospedeiras e outras.

Em Chelas, onde ainda funciona o armazém da Pirâmide, sobrevivem cerca de 150 mil exemplares da ‘Gina’. As edições mais recentes vêm em invólucro de plástico. Forma inovada, o conteúdo de sempre. 'Em dois anos destruo aquilo tudo. Cada coisa tem a sua época. Ainda cá temos o ponto de cruz e o livro de S. Cipriano. Porque continuam a haver bruxos!' Tendo em conta que também continua a haver sexo, talvez a ‘Gina’ merecesse melhor sorte.

HISTÓRIAS INTERNACIONAIS EM 196 NÚMEROS

Mário Gomes descobriu o primeiro número da revista numa das gavetas do irmão Constantino. Uma ‘Gina’ bem descolorada, 34 anos depois. Não era a primeira edição. Atesta-o o preço de capa, 50 escudos, vinte escudos mais do que a inicial. A procura foi tanta que a inflação não demorou. A ‘Gina’ suspirou pela última vez no n.º 196

'ÉS MUITA LINDA'

Faz em Julho três anos que a ‘Gina’ deixou de ser publicada. Refundidas em alguns quiosques, aqui e ali na internet, nas mãos de alfarrabistas ou de particulares, ainda é possível descobrir exemplares antes de ligar para as edições Pirâmide. O culto sobrevive. A banda ‘The Great Lesbian Show’ veste a camisola da ‘Gina’ - literalmente - em concertos. A publicidade revivalista de trazer por casa não fica por aqui. Os Ena Pá 2000 usaram uma das imagens da célebre revista na capa do álbum ‘És muita linda’. A lenda continua a dar música


Maria Ramos Silva

terça-feira, 17 de agosto de 2010

UM CARNAVAL PERFUMADO



As noites de Carnaval nas Caldas eram sempre algo de muito especial e olhando a esta distância não sei como era possível nós ‘’arrancarmos’’ à sexta feira à noite e só pararmos na cama na Quarta-Feira de Cinzas!

O ambiente nas Caldas era fantástico e inúmeros bailes de máscaras concorriam entre si na animação da cidade. Haviam os bailes do Casino, do Hotel Lisbonense, da Columbófila, dos Pimpões e dos Bombeiros, estes três últimos não onde agora ficam situados mas nas suas instalações originais, a Columbófila no mesmo sitio mas no edifício original, sem o pavilhão da esquina, os Pimpões em frente ao que é hoje a Farmácia Perdigão (a farmácia que existia na altura era a Correia Mendes , alguns metros mais acima) e os Bombeiros no cruzamento da Rua Raul Proença com a Rua Miguel Bombarda, onde agora fica o Caldas Shopping.

Para além disso as discotecas Inferno da Azenha e Ferro Velho surgiam como alternativas a quem não gostava dos bailes.

Parecia que toda a cidade vivia intensamente o Carnaval. As principais empresas da região tinham os seus carros alegóricos e a ida ao Corso nas tardes de Domingo e Terça-Feira eram obrigatórias.

À noite juntavam-se as troupes ou grupos de amigos que se mascaravam de acordo com um tema e lembro-me dos irmãos metralhas, dos fantasmas e muito particularmente o grupo de palhaços do Joca Pimenta, Mário Felizardo, Agapito,do João Pedro ‘’Catatau’’ e tantos outros e ainda do grupo que utilizava sempre os fatos que em cada ano eram confeccionados pela Guida Godinho (lembram-se das abelhas Maia?!). Estas troupes participavam em assaltos a casa dos amigos e também a locais públicos como os cafés. Muitas vezes metiam-se com os seus próprios familiares sem que eles os reconhecessem!

O espírito era tal que uma vez trouxe um colega de universidade passar cá o Carnaval e como não havia na altura os multibancos, houve necessidade de ir levantar dinheiro antes que os bancos encerrassem, assim na sexta-feira fomos ao BES e um funcionário que nessa altura lá trabalhava atendeu-nos ao balcão de cabeleira loura e baton nos lábios. Imaginem a cara do meu amigo e sobretudo imaginem isso nos tempos que correm com o cinzentismo que impera nos bancos!

Numa dessas noites fomos todos para o Ferro Velho (nos tempos em que eu ainda tinha pachorra para o EU VI A EVA DE MINI-SAIA, AURORA, NÓS OS CARECAS, TOMARA QUE CHOVA, VAI VER QUE É, CHIQUITA BACANA, BALANCÊ, DAQUI NÃO SAIO, MAMÃE EU QUERO, CACHAÇA NÃO É ÁGUA, CIDADE MARAVILHOSA, AI MORENA, MORO NUM PAÍS TROPICAL, ME DÁ UM DINHEIRO AÍ, QUEM SABE, SABE, TRISTEZA, YES, NÓS TEMOS BANANAS, e outras iguais!) para mais uma dessas directas.

Estávamos em grupo sentados na conversa na sala de entrada quando chega uma troupe de velhinhas saloias, de máscara de plástico e lenço na cabeça constituído pela Fatocas Crespo, o meu querido Pedro Cardoso, a Elza, a Milai, o Raulzinho (Rodolfo ou Papillon, conforme a alcunha!), a Elsinha Magalhães e mais alguns, e começam a meter-se connosco (e nós sem sabermos quem eram!) e de repente sacam de uns borrifadores de perfume dos antigos (Rita Lee cantava Lança, Lança Perfume!) e dão-nos um banho de TABÚ e PATCHOULI!

Os que se lembram dessas duas supremas essências recordam-se que para além de serem simplesmente horríveis, eram extremamente activos e duradouros. Ficámos com um pivete insuportável em toda a roupa e as pessoas afastavam-se de nós na pista de dança. Uns abnegados conseguiram aguentar toda a noite apesar da segregação a que foram votados mas para muitos de nós o único remédio foi ir a casa e trocar de roupa. Mas apesar dos duches e dos quilos de sabonete, parecia que o cheiro se agarrara a nós e que iria perdurar por toda a semana.

Devo ter perdido muitas potenciais namoradas naquele Carnaval!





Rita Lee -  Lança-Perfume

Banda Paradigma - Marchinhas de Carnaval


terça-feira, 10 de agosto de 2010

CAÇADA NA MATA REAL



A população das Caldas vive hoje de costas para a Mata Rainha D. Leonor e no entanto nem sempre foi assim.

Quando eu era jovem passeava muito com os amigos pela mata e lembro-me de existirem vários pontos de confraternização da população mais idosa. Grupos de reformados juntavam-se assiduamente em bancos de jardim para jogarem à bisca e à sueca e o parque das merendas era todos os fins de semana ocupado por excursionistas ou pelos piqueniques da população local.

Claro que haveriam muito mais pessoas a ir assistir aos jogos do Caldas mas isso só influenciava a frequência um domingo em cada dois e no Verão, durante o defeso, nem havia jogos de futebol.

O momento mais alto do ano era a feira do 15 de Agosto que se organizava nesse tempo justamente na mata.

Recordo-me de entrar pelo portão junto ao Hospital (por trás da monumental obra Jardim da Água de Ferreira da Silva que muitos teimam em não conhecer) ou pelo que fica junto ao Palácio Real, por trás da igreja de Nossa Senhora do Pópulo. E as veredas que se iniciam nesses portões logo eram ladeadas pelas barracas dos feirantes que se estendiam até à alameda principal junto ao campo de futebol.

A mata nesses dias estava polvilhada de pessoas com um movimento só igualado pela Feira da Fruta que se realizaria mais tarde no Parque D. Carlos I.

Eu avançava pela mão dos meus pais ou avós e mais tarde na companhia de amigos, olhando deslumbrado a diversidade de brinquedos quase artesanais que eram colocados à venda: os jogos do Loto e do antepassado do Sabichão, os aviões, barcos, locomotivas, carros e motas de todos os géneros em latão, uns de empurrar e outros de corda, os brinquedos de madeira articulados, alguns munidos de rodinhas e com um varão para empurrar, os móveis e objectos de cozinhas e os piões grandes em latão com múltiplas cores e que se punham a rodopiar premindo um eixo/veio central, as espingardas que disparavam dardos com ventosas, as pistolas com fitinhas de fulminantes que assustavam os idosos e sobretudo as bolas de serraduras cobertas de prata colorida e presas por um elástico, os ioiô daqueles tempos!

Ao cimo da mata desembocava-se no campo de futebol, em terra branca, agora transformado em parque de diversões e aqui poderíamo-nos perder por horas.

Não faltavam as barraquinhas de tiro ao alvo para ganhar uma ginjinha (no nosso caso um pirolito!), os jogos da bola escondida entre 3 caixas, as barracas de algodão doce e de farturas e as tascas improvisadas para comermos os frangos ou sardinhas assadas.

O enorme chapiteau do circo (Mariano, Cardinalli, Americano) era a estrela principal, apresentando o célebre palhaço Quinito, o mais famoso de Portugal (que eu viria a conhecer mais tarde através do seu irmão Zeca)!

Mas em seu redor erguiam-se outras estruturas de nos pôr a boca aberta de admiração. O labirinto de espelhos que nos desfiguravam o reflexo, as barracas com tiro ao alvo com bolas de ténis para acertarmos numas latas empilhadas, os diversos carrosséis, os carrinhos de choque, o peso que se elevava com a força da martelada que lhe dávamos e que se atingisse um determinado nível fazia tocar uma campainha e ganhávamos um prémio, a tenda que apresentava a mulher barbuda e a mulher-sereia (com um soutien de armação reforçada!), a tenda com o Gigante de Moçambique ou de Manjacaze com 2,45 metros de altura (eles falavam em 3,5 metros!) e com o anão Toninho de Arcozelo e ainda o espantoso Poço da Morte cujos motociclistas desafiavam a gravidade e a vida cruzando-se vezes sem conta a alta velocidade nas paredes de um poço de madeira!

Íamos para a mata logo que a feira começava e só saíamos quando era hora de jantar. Depois voltávamos de novo para a ‘’sessão’’ da noite!

Procurámos sempre desfrutar do melhor que a mata nos dava e isso significava, ao longo da adolescência, a prática de actividades desportivas e outras… também desportivas!

Mas a mata era também sinónimo de aventura (pois, para a prática desportiva também era uma aventura!) e serviu para pregar inúmeras partidas aos amigos que desconheciam os hábitos e a fauna caldense.

Um desses amigos foi um inolvidável holandês amigo e repetidamente hóspede de férias da família Calisto, o nosso inesquecível Martin, companheiro de aventuras e fotógrafo amador das corridas de touros protagonizadas por alguns dos membros da gangue! O bom do Martin queria à viva força entrosar-se com o nosso grupo de amigos (o que aliás conseguiu rapidamente graças à sua simpatia e fair-play) e revelava-se sempre pronto para participar nas nossas brincadeiras, mesmo que ele fosse a vítima escolhida.

Ora os primos Pedro Calisto e Miguel Calisto Pereira Monteiro, anfitriões do Martin, decidiram um dia informá-lo que existia uma espécie rara e endógena de animais a habitar a mata real, uma colónia de animais tão escassa quanto esquiva, sendo muito difícil caça-los, nomeadamente à noite, quando saiam das suas tocas para caçar.

De uma forma vaga foram dizendo que se tratava de um mamífero roedor arraçado de pássaro.

E que se chamavam gambuzinos!

Claro que o Martin não descansou enquanto não fossemos com ele à mata ver e mesmo caçar os tão famosos gambuzinos.

Então numa noite, reunimo-nos na grande casa dos avós Calisto na Rua dos Bombeiros, um enorme grupo composto por todos os Calistos e ramificações (Pedro, Miguel, provavelmente já o Gonçalo, o Asdrubal e talvez o Jorge, os Titos ou seja o Chico, o Tony e o João), eu, o Diogo Sampaio Guimarães, o João Moreira, o Luis Castelo Branco, talvez o Luis Castro, o Ricardo Ramos, talvez o Kiko Pessoa e Costa, o Pedro Cardoso, o João Gancho, o Helder Vasconcelos ‘’o Peliculas’’, talvez o Tomix, e ainda alguns outros (olhando agora à distância vejo que entre forcados dos grupos das Caldas, Montemor e Vila Franca tinhamos o suficiente para pegar de caras um gambuzino de meia tonelada!), e munidos de alguns sacos de pano, daqueles para ir ao pão, lá fomos nós em direcção à mata.

Para aumentar a aventura decidimos entrar pelo portão mais afastado, ou seja, o que tem acesso pelo Largo João de Deus. O portão estava fechado pelo guarda mas saltámos o muro numa zona mais baixa e lá entrámos em direcção ao parque das merendas.

Ensinámos uma cantilena qualquer ao Martin, tipo ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’ e lá fomos ouvindo-o a cantar e a andar completamente agachado entre o mato e os arbustos à procura dos célebres gambuzinos!

E nós todos atrás a conter o riso e a levar muito a sério o nosso papel de batedores…de retaguarda!

A partida correu muito melhor do que esperávamos pois encontrámos pirilampos e alguém decidiu dizer ao Martin que eram os olhos dos gambuzinos (a patranha da mistura de mamífero roedor com pássaro tinha agora dado jeito!).


E pronto, podem imaginar o pobre do Martin a correr atrás dos pirilampos, cabelos ao vento e saco bem aberto segurado pelas duas mãos e cantando desalmadamente:

- ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’

Não sei quantos trambolhões, arranhões e contusões lhe valeram a correria perante as nossas gargalhadas mas no final o Martin chegou ao pé de nós, completamente desolado a pedir desculpa por não ter apanhado nenhum gambuzino!

Confortámo-lo o melhor que pudemos e pondo-lhe um braço à volta dos ombros, o Pedro Calisto sossegou-o com aquele vozeirão de forcado.

- Deixa lá! Amanhã também é dia!

E não é que no dia seguinte conseguimos convencê-lo a repetir a dose?!!!!




Feliz Aniversário Pedro. Que possamos disfrutar da nossa amizade por muitos e bons anos.
Como sempre, tens 23 dias para me chamar Puto!


Nota: Por uma feliz coincidência o Martin está neste momento de férias nas Caldas com os seus filhos. Talvez queiras de novo participar numa gloriosa caçadas para recordar os velhos tempos?!


Nos próximos dias publicarei três textos complementares a esta crónica:

- A Caça aos Gambuzinos
- Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?
- O Poço da Morte


Queen - Friends Will Be Friends


PARTIDAS TRADICIONAIS


GAMBUZINOS

Gambuzinos são bichos inexistentes que vivem no campo, em estado mais ou menos selvagem e têm várias utilizações, como pretexto para organizar-se uma caçada; fazer um petisco de gambuzino; pele muito bonita para casacos, etc..

Para organizar uma caçada aos gambuzinos, necessitamos de:

- dois ou mais conspiradores

- uma ou mais vítimas crédulas;

- uma saca de serrapilheira ou equivalente para cada vítima segurar e   latas e paus para cada um dos conspiradores fazerem barulho.

De início, os conspiradores escolhem as vítimas. Depois combinam com as vítimas a data e a hora da caçada. Convem ser no próprio dia e devem alertar que a caça aos gambuzinos é proibida, para que as vítimas não digam nada a alguém que as possam disuadir.

De seguida, levam-se as vítimas para o campo. Aí procuram-se arvores com tocas (buracos no tronco), buracos no solo buracos nas rochas.

A caçada consiste em:

A vítima encosta a boca da saca à toca da árvore e fica a segurar até que o gambuzino salte para dentro da saca e...

Os conspiradores afastam-se para fazerem um cerco maior e fazem barulho batendo com os paus nas latas, para assustarem os gambuzinos e obrigá-los a sairem da toca da árvore para dentro da saca.

A partida consiste nos conspiradores virem embora e deixarem a vítima no local, segurando a saca.



ELECTRICIDADE EM PÓ

É obvio que não existe.

Pede-se à vítima para ir à drogaria mais próxima e trazer uma pequena quantidade de electricidade em pó. É preferível não enviar dinheiro, pois a vítima pode vingar-se ficando com ele.

Se o fulano da drogaria também for conspirador, dirá que acabou a electricidade em pó, mas que na outra drogaria, ou na farmácia, também vendem. Conheço um caso em que a vítima foi a 6 estabelecimentos.


OSSOS DE MINHOCA

Igual à electricidade em pó.



SUOR DE POLÍCIA

Igual à electricidade em pó.



SOMBRA DE OLIVEIRA

Embora esta partida possa parecer igual às anteriores, a verdade é que sombra de oliveira existe na realidade. É um óxido metálico utilizado pelos pintores. Esta partida serve para confundir a vítima.


PEDRA-DAS-SEDAS

Igual à electricidade em pó. Contudo, se o fulano da drogaria também for conspirador, arranjará algumas pedras para a vítima carregar.



FITA DE IMPRESSORA

Quando a fita já está usada, diz-se à vitima que a fita já não imprime porque está suja. Pede-se-lhe então, o favor de a lavar. A água, o sabão e a cera da tinta fazem uma mistura que suja tudo e é difícil de limpar.



CAMPAÍNHAS - I

Basta tocar a campainha da porta da vítima e fugir. Rir é opcional.



CAMPAÍNHAS - II

Repetir a anterior as vezes necessárias. Cuidado com campaínhas III.



CAMPAÍNHAS - III

Se é a nossa campainha que estão a tocar, enche-se um balde com água e sobe-se à varanda. Quando a vítima se aproximar para tocar a campainha, despeja-se a água por cima dela. Não é necessário que seja água. Pode ser qualquer outra coisa. Que saudades do tempo em que havia penicos debaixo da cama...



CAMPAÍNHAS - IV

Espera-se que alguém venha a entrar no prédio e procede-se como na anterior. Se a vítima protestar, põe-se uma cara muito sincera e arrependida e explica-se que durante todos os dias, uns malandros fartaram-se de tocar a campainha.



BATENTES DE PORTA

As portas mais antigas, têm um batente em ferro, para bater à porta. Ata-se uma linha forte à parte móvel do batente. De longe, basta puxar a linha para bater à porta.


Paul Simon & Art Garfunkel - Scarborough Fair












A CAÇA AOS GAMBUZINOS

A CAÇA AOS GAMBUZINOS 
 1º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''


1º Texto Complementar à crónica ''Caçada na Mata Real''




GAMBOZINOS


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Os gambozinos são seres imaginários que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies já tenham se adaptado e hoje também se possam encontrar nos recantos sombrios e húmidos dos parques de algumas cidades.

No dicionário, são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, embora haja quem ache que possam ser parecidos com o pirilampo, com o dragão marinho (Phycodurus eques) ou com o ouriço. Há quem ache que são seres da família dos vegetais que vivem debaixo da terra; no começo do século XX houve quem os descrevesse apenas como “pequenos bolbos de uma espécie de lírio” que podem ser comidos. A ideia que se faz destes seres varia conforme a imaginação de cada um.

O glossário escutista define estes seres como um “animal de características especiais, nocturno, e que é muito difícil de caçar. Normalmente caçam-se nos acampamentos.

”A caça aos gambozinos faz-se geralmente de noite, é muito popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, como na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro, e não requer nenhuma licença especial para a prática desta actividade.

A caça ao gambozino não visa a obtenção de alimento mas a conservação de tradições, é por isso considerada um desporto. Tradicionalmente são usados sacos de sarapilheira para os capturar. É tradição organizar caçadas aos gambozinos e convidar pessoas ingénuas para ir junto. Frequentemente são levados nestas caçadas irmãos ou sobrinhos mais novos; é por isso visto como um desporto de família.

A caça aos gambozinos é considerada uma prática ancestral, e, conforme conta Ferraz (1895) no fim do século XIX, quando alguém concordava em ir à caça dos gambozinos “[…] levavão-na uma noite sombria a um sitio escuro e medonho, e collocavão-na com um sacco aberto ao pé de um buraco, como para agarrar nella os gambozinos, que costumavam sahir por alli; e assim deixavam ficar o incauto, ás vezes, até pela manhã indo-se embora, sob qualquer pretexto, a pessoa que o lá levou”.

Em algumas regiões do País a tradição conta também que se deve levar uma lanterna a qual, quando se chega ao lugar desejado, é apagada deixado o ingénuo às escuras e saindo logo de seguida quem para lá o levou.

Para atestar a antiguidade da tradição, Ferraz comenta ainda que “[…] d’este costume se não contão casos modernos, mas antigos, não se apontando mesmo ninguém que se tenha sujeitado a semelhante caçada”.

Embora não haja notícia de alguém que alguma vez tenha visto um gambozino, é "frequente" ouvir um ou outro fanfarrão dizer que já caçou dois ou três gambozinos, só para se vangloriar.

Acredita-se que o canto de algumas espécies de gambozinos têm propriedades especiais, que podem ser identificadas nos seguintes versos de João Monge:


“O teu coração parece

Uma pedra sem destino

Dizem que só amolece

Ao canto de um gambozino”


No Entre-Douro-e-Minho este animal imaginário também é conhecido por Pio-Pardo. No Baixo Alentejo é conhecido por Gramuzilho.