segunda-feira, 30 de agosto de 2010

FESTA ''EU GOZEI A MINHA ADOLESCÊNCIA NAS CALDAS DA RAINHA NOS ANOS 70 E 80''

Pois é, a pedido de muitas famílias vamos ter a FESTA do grupo EU GOZEI A MINHA ADOLESCÊNCIA NAS CALDAS DA RAINHA NOS ANOS 70 E 80!

Será no dia 4 DE SETEMBRO à noite, no SITIO DA VÁRZEA, um espaço cheio de boas recordações agora com gerência de George Santos e com o DJ Paulo Arnaldo!

Com a marcação para esta data, garantimos que a maioria de vós não esteja ausente em férias e damos uma grande despedida ao Verão!

Esta será uma festa ANOS 70 E 80 e por isso só se ouvirão os acordes das músicas postadas no espaço do Facebook!

E AÍ ESTÁ O PROGRAMA (sempre em actualização)


DJs  (por ordem de confirmação):

PAULO ARNALDO (ex.Ferro Velho)
ZÉ MANEL (ex.Ferro Velho, ex. Green Hill)
LUIS CORTE-REAL (ex. Inferno D'Azenha)
JOÃO PRETO (ex.Ferro Velho)
PAULO TOYOTA (ex. Green Hill)
RUI PEDRAS (ex. Inferno D'Azenha)
LUISA PIRES (A Rainha do Funk!)
JOÃO BERNARDES (ex. Bonnie)
JOÃO LEIRIA (ex. Bonnie)
E

CARLOS FÉLIX (ex. Ferro Velho)


E AINDA MÚSICA AO VIVO COM:


WE (30 anos depois!)

e os

IZAKAKE
 
MARQUEM NA VOSSA AGENDA!

Com a FESTA procuraremos atingir um dos objectivos a que nos propusemos: ENCURTAR DISTÂNCIAS COM OS AMIGOS!

Será uma noite mágica, aberta a todos, será uma noite de reunião, de todos os amigos, será uma noite única, uma ocasião rara para revivermos as velhas amizades.

Venham todos, tragam os vossos amigos, tragam os vossos filhos (os que têm idade para estas coisas!) tragam até os vossos pais!

Convoquem os amigos que há muito não vêem, das Caldas ou de qualquer outra parte, esta é uma ocasião única. Querem uma melhor razão que a reunião de velhos amigos?

Chamem-nos às Caldas, organizem jantares entre vós, e venham depois ao encontro de uma geração.

Não vão haver na vossa vida ocasiões tão festivas para se encontrarem, não deixem para depois que pode ser tarde!

Deixo-vos com um poema de Fernando Pessoa que ainda há poucos dias postei:



DEDICATÓRIA AOS AMIGOS


Um dia a maioria de nós irá separar-se.

Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora,

das descobertas que fizemos,

dos sonhos que tivemos,

dos tantos risos e momentos que partilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia,

das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano,

enfim... do companheirismo vivido.

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje não tenho mais tanta certeza disso.

Em breve cada um vai para seu lado,

seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a nos encontrar,

quem sabe... nas cartas que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...

Até que os dias vão passar, meses...anos...

até este contacto se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo....


Um dia os nossos filhos vão ver as nossas fotografias e perguntarão:

"Quem são aquelas pessoas?"

Diremos...que eram nossos amigos e...... isso vai doer tanto!

" Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!"

A saudade vai apertar bem dentro do peito.

Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente......


Quando o nosso grupo estiver incompleto...

reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.

E, entre lágrimas abraçar-nos-emos.

Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes

desde aquele dia em diante.

Por fim, cada um vai para o seu lado

para continuar a viver a sua vida, isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo.....


Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo:

não deixes que a vida te passe em branco,

e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades....

Eu poderia suportar, embora não sem dor,

que tivessem morrido todos os meus amores,

mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"



Fernando Pessoa



NÃO ESPEREM PELOS MOMENTOS TRISTES PARA SE REENCONTRAREM!

O MOMENTO É AGORA, DIA 4 DE SETEMBRO!

Paulo Caiado e Pandilha



terça-feira, 24 de agosto de 2010

LEITURAS, TEXTURAS E OUTRAS LITERATURAS




Desde muito novo que tenho um enorme gosto pela leitura. Ainda antes de frequentar o liceu já me encaminhava vários dias por semana para a Bibilioteca Gulbenkian, no parque, para ir levantar os três livros da praxe que geralmente devorava em dois dias.

Nas tardes de Verão ou de outras férias em que o tempo não nos dispunha para ir à praia ou à rua, preparava metodicamente um jarro de refresco Dawa ou Alsa, uma enorme quantidade de papo-secos das Teixeira com fatias grossas de marmelada e manteiga e instalava-me no meu quarto, ao som de uns vinis e deitando-me em cima da cama, passava longas horas em leitura na companhia do Tarzan, do Lagardére, do Arsene Lupin, do Santo (colecção Vampiro!), do Capitão Morgan e de toda a obra de Emílio Salgari (incluindo o Sandokan) e de Julio Verne! O meu método era simples. Pegava nos indexes das colecções e lia as obras dos meus heróis ou escritores preferidos por ordem de data de edição ou da sua disponibilidade na biblioteca, não descansando enquanto não lia toda a bibliografia.

Bem mas do gosto pelos livros e particularmente pelas bibliotecas Gulbenkian escreverei numa outra oportunidade!

Hoje remeto-me para a recordação das revistas do nosso tempo!

O que me salta à vista é que a panóplia de revistas daquele tempo nada tem a ver com a infinidade de títulos que hoje enchem os quiosques e papelarias. E afinal o que é que a nossa geração lia na altura?

As minhas mais remotas recordações remetem-me para a leitura dos Disney e de outras bandas desenhadas de origem brasileira, a Turma da Mónica, argentina (Mafalda) e americana (Bolinha, Brotoeja, Lulu, Charlie Brown, Katzenjammer Kids, ou sejam, Os Sobrinhos do Capitão e o Pequeno Nemo), sempre em edições brasileiras!

Ainda na primária recordo-me de ir para casa do Luis Correa, meu colega no Ramalho Ortigão, embora um ano mais acima (agora no Cadaval mas que na altura vivia junto ao Burlão), ler os fascículos das séries de continuação semanal do Tintim que ele encadernava religiosamente. Mais tarde estas revistas ‘’a suivre’’ deram lugar às revistas Spirou e Jacto. Foi assim que conheci heróis como Michel Vaillant, Tanguy & Laverdure, Ric Hochet, Blake & Mortimer, Spirou, Blueberry, Valerian, Asterix, Os Túnicas Azuis, Bruno Brazil, Bernard Prince, Simon du Fleuve, Luc Orient, Yakari, Alix, Lucky Luke, Corto Maltese e tantos, tantos outros.

Mais tarde, talvez já no ciclo iniciei-me na leitura dos Comic americanos com as revistas da Editora Brasil-America Lda (Ebal) no sotão do Manel e do Luis Castelo Branco e na leitura do SuperHomem, Batman, Flash, Legião dos SuperHerois, Lanterna Verde, etc. etc.

Já nos tempos do liceu corria os quiosques à procura das revistas de bolso Condor e Falcão para ler as aventuras de Ogan, Kalar, Ene 3, Major Alvega, Kit Carson, Texas Jack, Oliver, Dogfight Dixon, David Crockett, Buffalo Bill, das revistas Jornal do Cuto e Mundo de Aventuras e os seus Mandrake, Fantasma, Tarzan, Luis Euripo, Flash Gordon, Brick Bradford,Gringo, Garth, Rip Kirby, Johnny Hazard, Steve Canyon, Cisco Kid e de revistas de western para ler o Kid Seis-Balas, Ringo, Laramie John, Tex, Billy-the–Kid, Oklahoma Slim, Colorado Kid e outros pistoleiros invencíveis.

Isto somado às tiras de BD das edições dominicais do Diário de Noticias com o Principe Valente, O Coração de Julieta, Blondie, Modesty Blaise e Brenda Starr.

Desses primeiros momentos de leitura nasceu uma enorme paixão pela banda desenhada que me fez tornar por longos anos um grande (exagerado!) coleccionador deste género de literatura.

Mas nem só de banda desenhada constava o nosso gosto pela leitura de revistas nem tão pouco a BD era do agrado de muitos de nós.

As raparigas entusiasmavam-se com a compra das revistas alemãs Bravo e Pop. Não percebiam nada dos textos mas retiravam daí as letras das canções mais populares e canibalizavam as revistas por inteiro. Os posters da página central decoravam as paredes dos quartos e as fotos eram recortadas e após um elaborado trabalho de colagens faziam capas para os seus dossiers, cadernos e até livros escolares. Disso dei conta na crónica ‘’Posters e a Suzy Quatro’’!

Os rapazes mais apaixonados pelos desportos motorizados, como eu, compravam semanalmente as revistas Volante e Motor (que nas primeiras séries eram enormes e traziam um poster nas páginas centrais) e mais tarde as revistas Motor (2ª série) e Auto Mundo. E todas as terças ou quarta feiras lá ia eu à Jornália (mais conhecida pelo Diário de Noticias) ou à banca das escadas da Traviata gastar dois terços da minha semanada na compra destas revistas.

Também estas colecções estão devidamente encaixotadas em minha casa para desgosto da restante família que bem gostaria de se livrar delas!

Por casa os pais liam a Flama, o Século Ilustrado, a Vida Mundial e a Nova Gente onde se entretinham com a coluna de mexericos entitulada Ziriguidum escrita por uma tal Daniela que mais tarde se veio a descobrir ser o Carlos Castro. As senhoras mais jovens liam a Plateia e as suas fotonovelas e reportagens dos famosos ou com a Crónica Feminina, a antecessora da revista Maria. As apreciadoras do género liam aos enredos amorosos da Corin Tellado, as fotonovelas da Capricho e a adaptação semanal para fotonovela da radionovela de origem espanhola Simplesmente Maria que entre 1973 e 1974 foi transmitida em 500 folhetins radiofónicos na Radio Renascença!

À medida que fomos crescendo os nossos gostos passavam mais pela revista Mad e pelas revistas e jornais de música e espectáculos como a Música & Som, o Se7e e o jornal Blitz.

E quando entrámos na adolescência começámos a admirar o belo sexo e depois de darmos uma espreitadela às revistas com nús artisticos como a Photo, a Lui e a Oui! que eram compradas pelos irmãos mais velhos (quem os tinha!), passámos à leitura, ou melhor, à visualização de nús, digamos, menos artisticos!

Pelo menos umas duas vezes por ano, alguns rapazes mais ousados juntavam-se em grupo e com o maior dos embaraços iam em bando até à banca escolhida e no meio de uma dezena de revistas diversas lá compravam a medo a revista Gina!

A Gina foi a primeira e mais popular revista pornográfica a ser publicada em Portugal e foi também o maior terror de todas as Virginias e Reginas deste país! Só o nome de Gina desencadeava um sorriso mais ou menos cúmplice e matreiro entre os jovens da minha geração e foi o que aconteceu, certa vez, com um amigo, agora radicado no estrangeiro, que se lembrou de aparecer em minha casa de Lisboa com uma amiga, ou espécie de amiga, com demasiada maquilhagem, decote generoso e mini-saia curta demais para o diâmetro das suas coxas! Ao apresentar-nos a amiga com o nome de Gina, soltámos uma gargalhada instantânea que ainda hoje, passados quase trinta anos, fará corar a pobre rapariga!

A revista então comprada numa banca das Caldas seguia direita para o liceu onde conhecia a maior taxa de audiência alguma vez registada por publicação em Portugal, salvo as edições com dois anos da Caras que encontramos em certos consultórios médicos!

A Gina passava então de grupo em grupo, ao longo de uns oitenta pares de olhos que bem às escondidas nos corredores dos pavilhões do parque, tinham finalmente as suas primeiras aulas de educação sexual!

E uma vez, quando um grupo de uns três ou quatro colegas chega ao pátio das traseiras do liceu com a última edição da Gina escondida dentro de um dossier escolar e nos junta a todos num grupo de mais de uma dezena, um dos rapazes solta um grito de admiração!

- É pá! Esta era a minha empregada!

Olhámos para ele estupefactos.

- Tanga! – gritámos em uníssono. – Está-se mesmo a ver!

- Juro! – replicou ele com um ar convincente – É a Manuela* ! Então eu não a conheço?! Foi minha empregada dois anos!

Olhámos para ele com ar de gozo.

- Conheces assim tão bem?!

- Não, parvos! Não assim tão bem! – explicou - Mas é ela, de certeza!

- E então onde ela está?! – perguntámos.

O Carlos* encolheu os ombros.- Não faço a mínima ideia! Ela saíu lá de casa há mais de um ano dizendo que tinha uma proposta para ir trabalhar para uma boutique na Amadora ou na Damaia, já não sei bem. E nunca mais a vi!

- Olha lá. – disse um com um ar mais malandro. - E a tua mãe não sabe? Podíamos ir visitá-la!

- A quem? Querem ir todos lá a casa perguntar?

- Não, estúpido! Podíamos ir visitar a tua empregada!

- Eu vou perguntar à minha mãe e amanhã digo-vos! – propõs o Carlos.

Olhámos para ele com ar de gozo!

- É pá! Vai é lá saber já! Achas que vamos ficar á espera até amanhã?!

O rapaz lá foi então a casa saber novidades. Voltou mais tarde com ar cabisbaixo.

- A minha mãe não ficou com nenhum contacto. Ela prometeu telefonar ou voltar para visitar-nos mas até agora nada!

- Chiça! – gritou um mais desanimado!

Foi um enorme desgosto para nós todos! Logo agora que poderíamos ter a chance de conhecer uma artista internacional!

Durante anos esse desgosto perseguiu-nos e, de vez em quando, relembrávamos o episódio com nostalgia e ainda alguma esperança.

De vez em quando algum dos meus amigos ainda me pergunta:

- Então pá! O Carlos já descobriu a empregada ou achas que ele sempre soube e escondeu-nos isso?

Eu sempre respondo com uma gargalhada.

- Não faço ideia! Mas por esta altura a mulher já estará na casa dos cinquenta! Se calhar já é avó!

E rimo-nos todos imaginando-a com os netos e escondendo o segredo do marido!

Mas que o desgosto de não a ter conhecido nos ficou, ai isso ficou!


Há uns anos atrás saíu uma reportagem sobre o fim da Gina. Ao fim de mais de trinta anos de dedicado serviço aos jovens imberbes deste país, a revista finalmente terminou. O seu editor jurou a pés juntos que o material vinha da Alemanha e que ele se limitava a fazer as traduções e a inventar legendas mais ousadas e que apesar da crença popular, nunca utilizou modelos portugueses.

Mas eu não acreditei! O tipo não parece ser de fiar! Cá para mim ele não quer ter problemas e esconde que algumas das artistas eram mesmo nacionais!

Não sei! O meu amigo parecia demasiado sincero! Talvez um dia ainda conheçamos a artista e arranjemos aquela edição para lhe pedir um autógrafo!


*Nome ficticio


Nota: Ler o texto de apoio ''As Memórias Gráficas da Mais Amada das Gina''



domingo, 22 de agosto de 2010

AS MEMÓRIAS GRÁFICAS DA MAIS AMADA GINA






A Revista Gina 
(artigo in Correio da Manhã - 22 de Março de 2009 - Por Maria Ramos Silva)

Texto de apoio à crónica ''Leituras, Texturas e outras Literaturas''


Nos anos 70 e 80 o ioiô e a Spectrum ferviam nas mãos dos adolescentes. A ‘Gina’ também. Entre 74 e 2005, ano em que gemeu de prazer pela última vez, Mário Gomes, das edições Pirâmide, traduziu a revista pornográfica mais popular em Portugal.

Foram 196 números quentes que revolucionaram o País dos brandos costumes. Para eles. E, sim, também para elas!

Mário Gomes nunca foi tão fotografado como para esta história. Mais flashes, 'só no dia do meu casamento', garante, entre risos. A insistência da lente faz sentido, porque as recordações que enchem a cave do prédio na Buraca, onde pouco funcionam as edições Pirâmide, escrevem--se com imagens. Muitas e bem explícitas. 'Ainda hoje, não deve haver um homem ou mulher com mais de vinte anos que não saiba o que é a ‘Gina’'.

O esclarecimento sobre a popular revista pornográfica abona assim tanto entre as senhoras? 'Elas consumiam e muito! Por norma os homens não têm pudor em comprar mas alguns metem entre o jornal. As mulheres compram com uma revista. No Rossio e em Santa Apolónia mantinha contacto com os vendedores. Vendiam-se milhares a senhoras que estavam de passagem.'

Para os desatentos ou fiéis depositários de ignorância crónica, aqui vai a apresentação. A ‘Gina’, de apelido ‘Histórias Sexy Internacionais’, foi instituição da literatura porno, marco da libertação de costumes, ícone de uma geração, manual de iniciação a uma vida nada banal para muito jovem na flor da idade e sucedâneo de aventuras idas para gente entradota, cartilha picante, sempre no fio da navalha entre a mais conspurcada brejeirice e calinadas nos diálogos e uma rebuscada prosa com laivos de erudição. E foi o pavor de todas as Virgínias e Reginas do País, atreitas a associações galhofeiras por parte das línguas mais desabridas.

Trocado por miúdos, ou melhor, por adultos, a ‘Gina’ foi a ‘Anita’ dos crescidos – ou de todos os que cresceram com a sua leitura. A ressalva é que até a viajada ‘Anita’ ficava aquém dos périplos da ‘Gina’. A ‘Gina’, tal como as meninas más, ia para todo o lado.

Faz em Julho três anos que deixou de ser editada. Hoje, é um vestígio retro dos tempos que já lá vão. Um kitsch bibelô ressuscitado, qual sabonete Ach Brito ou pasta medicinal Couto que sobrevive sob a forma de culto.

Provando que há quem duvide com todas as ganas que fechou actividade, de vez em quando, 'homens e mulheres que querem ser ‘intérpretes’ da ‘Gina’ ainda mandam para aqui o curriculum com fotos'. Impossível. Que se saiba, os modelos eram estrangeiros e, como dizem as bocas largas de quem se cruza com um exemplar antigo: 'algumas já são avós e ainda aqui andam nas capas!'

No escritório da Buraca nunca se fizeram castings para actores porno, apesar da estética da ‘menina do calendário’ dominar a decoração.

Mário traduzia os hilariantes recortes literários. Coisa 'corriqueira', desvaloriza, sem empolgamentos. Ao início levava um dia por revista. O irmão criticou a minúcia. Pediu que aliasse o literal com o improviso. E Mário melhorou a média. Cinco a seis horas de trabalho por cada ‘Gina’. 'Em alguns casos era preciso criatividade, quando sobrava espaço depois de traduzido de francês ou do inglês. Lá saía um bocado ordinário, mas é disso que o povinho gosta!'

Povinho que é como quem diz. Democrático como poucos, o sexo convence todos os estratos sociais. E assim a senhora dona ‘Gina’ chegava a todos. Era de todos. E de ninguém. Sacudia-se a água do capote para o primo, o tio ou o vizinho quando a vergonha de a ter entre mãos suplantava o tamanho da colecção. 'Uma das primeiras era uma polícia alemã a multar um gajo num parque de estacionamento. E pronto, lá terminava em amor!' Ai, tanto eufemismo estacionava nesse parque...

A ‘Gina’ veio ao mundo português no ano da liberdade. Entre Setembro e Outubro de 1974 foram publicadas as primeiras quatro revistas. Custava 5% do ordenado mínimo nacional, 30 escudos. Rapidamente, galgou para os 50. 'Começou a ser publicada pela Palinex, editora do meu irmão mais velho, nas Vendas Novas, onde tínhamos as oficinas gráficas'. Acácio Gomes, já falecido, tornava-se o 'pioneiro das revistas porno em Portugal'. Homem de faro apurado, 'fura-vidas que podia ter sido magnata', qual Hugh Heffner lusitano, importou da Alemanha um negócio da China, directamente da feira do livro de Frankfurt. 'A revista alemã tinha o mesmo nome e grafismo. Comprámos os direitos com fotolito e tudo.'

Os números espelham o fervor pela matéria que a ditadura sem libido aplacava. 'Venderam-se uns 150 mil exemplares de cada um dos primeiros quatro números. Foi a primeira revista pornográfica com textos em balão e acho que a única. Os primeiros números foram publicados ao mesmo tempo em Portugal e na Alemanha.'
A pornografia chegava até então às curiosas mãos nacionais de forma relinchante, mas silenciosa - pela porta do cavalo. 'Uma polícia do aeroporto pedia a um piloto para lhe trazer exemplares do Norte da Europa para dar ao namorado. Custava uma fortuna'.

Em 58 nem as anedotas com biquinis venciam a prova da censura.

Mas a fome deu em fartura. 'Tudo o que era erótico ou pornográfico era impossível antes do 25 de Abril. Depois, tornou-se uma debochice autêntica. Havia revistas da ‘Gina’ expostas na rua, em qualquer estação. Passou-se do oito para o oitenta, ou melhor, para o 800!'

As páginas escancaravam-se mais ainda do que a ousadia da rainha dos títulos, que rendeu boa maquia à editora. Mário não consegue precisar o volume de escudos, mas de uma coisa se lembra. 'O meu irmão apetrechou a oficina com máquinas à custa da ‘Gina’ e das outras!' Confirma-se. ‘Gina’ não deixava os créditos por mãos alheias e fazia tudo, até emparelhar com outras publicações da casa, nada obscenas. Menos trabalhar para aquecer. 'Publicámos banda desenhada, do ‘Texas Jack’ ao ‘Homem Aranha’. Fomos os primeiros a publicar comics americanos em Portugal. Fomos pioneiros na fotonovela'. E ainda livros de cowboys e de culinária. Obras infantis e para pintar. Mais tarde, banda desenhada erótica vinda de Itália. O filão era mesmo este.

Um ano e meio depois dessa novidade, de sua graça ‘Gina’, o ‘boom’ dos conteúdos explícitos. 'Chegou a haver uns 10 a 15 títulos mensais'. Como a rival ‘Tânia’. A própria Pirâmide investiu no segmento. Chegou a deter seis títulos com conteúdos semelhantes, da ‘Top Sex’ à ‘Weekend Sexy’. Tanta concorrência resultou madrasta para a infatigável ‘Gina’. A estocada final chegou com o advento da internet, 'e do famoso canal 18'. A pornografia ficou à distância de um excitante clique.

Os iniciais milhares de exemplares vendidos decaíram para 1500 nos últimos anos. O declínio chegou à fase do ‘pacote poupança’ que empurrou a ‘Gina’ para as ruas da amargura. 'Vendiam-se 10 ao preço de cinco. Há muitos coleccionadores que escrevem para cá a pedir números em falta.'

Mário, filho de minhotos, um de cinco irmãos, deitou mãos ao trabalho com apenas 11 anos. Entrou para a editorial Íbis como moço de recados, onde o irmão mais velho era chefe de escritório. Descobriu os primeiros números da norte-americana ‘Hustler’, concorrente da ‘Playboy’ em terras do puritano mais fajuto de todos os tempos: o tio Sam. O mano Constantino também se ligou à área editorial.

Em 1965, Acácio, Rossado Pinto e Alfredo Silva fundavam a Palinex. 'Estive sempre com eles, desde 58, neste ramo'. Em 74, deitavam mãos à ‘Gina’. Em 1980, os irmãos Acácio, Mário e Constantino montavam as Edições Pirâmide e transferiam a matriarca das revistas porno para o Carmo, em Lisboa. Depois, mudaram-se para a cave da Buraca juntamente com outras publicações que celebrizaram a casa, como as revistas de crochet e ponto de cruz, os manuais de tarot ou os cromos de futebol. Menos melindrosas do que a agitadora ‘Gina’. 'O meu irmão foi condenado uma vez a uma multa de 350 contos, o que em 79 era muito. Um padre viu as revistas em Santa Apolónia e fez queixa'. Não é para menos. O hábito, em pele de fetiche, desfilou muitas vezes na ‘Gina’, rivalizando com enfermeiras, hospedeiras e outras.

Em Chelas, onde ainda funciona o armazém da Pirâmide, sobrevivem cerca de 150 mil exemplares da ‘Gina’. As edições mais recentes vêm em invólucro de plástico. Forma inovada, o conteúdo de sempre. 'Em dois anos destruo aquilo tudo. Cada coisa tem a sua época. Ainda cá temos o ponto de cruz e o livro de S. Cipriano. Porque continuam a haver bruxos!' Tendo em conta que também continua a haver sexo, talvez a ‘Gina’ merecesse melhor sorte.

HISTÓRIAS INTERNACIONAIS EM 196 NÚMEROS

Mário Gomes descobriu o primeiro número da revista numa das gavetas do irmão Constantino. Uma ‘Gina’ bem descolorada, 34 anos depois. Não era a primeira edição. Atesta-o o preço de capa, 50 escudos, vinte escudos mais do que a inicial. A procura foi tanta que a inflação não demorou. A ‘Gina’ suspirou pela última vez no n.º 196

'ÉS MUITA LINDA'

Faz em Julho três anos que a ‘Gina’ deixou de ser publicada. Refundidas em alguns quiosques, aqui e ali na internet, nas mãos de alfarrabistas ou de particulares, ainda é possível descobrir exemplares antes de ligar para as edições Pirâmide. O culto sobrevive. A banda ‘The Great Lesbian Show’ veste a camisola da ‘Gina’ - literalmente - em concertos. A publicidade revivalista de trazer por casa não fica por aqui. Os Ena Pá 2000 usaram uma das imagens da célebre revista na capa do álbum ‘És muita linda’. A lenda continua a dar música


Maria Ramos Silva