segunda-feira, 8 de novembro de 2010

NO JARDIM-ESCOLA



Como? Não sei, mas lembro-me do meu primeiro dia no jardim-escola da Misericórdia, no Bairro da Ponte.

Lembro-me de entrar no hall e conhecer todas as divisões numa visita guiada pela Isabel, a directora. Sei que as recordo dessa altura pois desde a infãncia não entrei de novo no edificio.

À esquerda, a cozinha e refeitório ao fundo, a casa de banho com as suas várias sanitas de diferentes tamanhos e alinhadas lado a lado, ao centro, e uma sala logo à direita. Existiria ainda um gabinete para a Isabel à esquerda?

À direita, uma sala com janelas e portadas que davam para o jardim nas traseiras, uma divisão ao meio e a sala da Alicinha que dava para o lado da rua.

Nas traseiras, o pátio. Saía-se para um terraço mais elevado em varanda com alguns degraus a darem para o amplo jardim a toda a extensão. À sua direita o grande chorão em cujo interior havia um banquinho onde nos sentávamos procurando uma sombra nos dias de sol.

Ainda antes do chorão, uma pequena casita de bonecas em frente à qual cantávamos e dançávamos as músicas ‘’Ai ai ai minha machadinha’’, ‘’Que linda falua que vem de Belém’’ e ‘’Aqui vai o lenço aqui fica o lenço’’.

Do lado oposto, à esquerda do varandim, ficava uma arrecadação onde se guardavam pequenos móveis, ferramentas e produtos de limpeza.

Um dia o meu primo Kika esgueirou-se para o seu interior e temeu-se que tivesse bebido um golo de lixivia. Obrigaram-no a beber litros e litros de leite até vomitar mas o receio deverá ter sido infundado. Esta recordação é difusa pois dada a nossa diferença de idades eu não poderia andar na época no jardim-escola. Terá sido num dia de festa em que voltei a visitar o jardim-escola ou é uma recordação induzida por me terem contado a estória na altura?

Lembro-me dos baloiços ao centro do jardim e de estar suspenso pelos braços na trave que sustinha os baloiços. O meu primo Pedro puxou-me pelos pés e eu caí batendo com a cara na base de cimento de um dos pilares, partindo o nariz!

Recordo-me da directora, a Isabel que vivia por cima da Zá-Zá, no prédio onde viviam também a Teresa e a Manuela Ferreira, em frente ao Montepio e que teve uma filha chamada Marta. Lembro-me da Filomena e da Gracinha Jordão que eram as assistentes da educadora de infância. E lembro-me tão bem da doce e já idosa Alicinha, que ainda visitei por muitos anos na sua casa de um rés-de-chão da Rua Duarte Pacheco e que era irmã da D. Clarisse, professora primária no Colégio Ramalho Ortigão.

Como me recordo tão bem dos trabalhos manuais que com ela fiz no segundo ano da escola, onde andei nos meus 4 e 5 anos. De desenhar patinhos e coelhos em papel de lustro que depois era picotado sobre uma esponja verde e finalmente colado, já recortado, em papel de outra cor. Um patinho em papel de lustro laranja, assim picotado, ainda conservo num album de fotografias e de recordações da meninice!



À segunda-feira realizava-se o mercado semanal na encosta enlameada que ficava ao lado da escola e onde mais tarde se construiram prédios e a sede dos Pimpões. Toda aquela ladeira poeirenta enchia-se de vendedores, agricultores e criadores de gado que vendiam frutas e hortaliças, animais de capoeira e gado de todo o género, roupa, ferramentas e alfaias agrícolas, arames e vergas, mantas e sacas de serapilheira. As medidas faladas eram as arrobas e arrateis, quintais e quartalejos, moios, fangas e alqueires, toneis, almudes e quartilhos e falava-se em quarteirões e grosas...

E entre as vacas e os bois, os carneiros e as ovelhas, entre os gansos, patos, galinhas e coelhos, entre gaiolas de pássaros e muares, desfilávamos todos em fila, mãos dadas em cordão num deslumbre que se repetia semanalmente no dia preferido da criançada. E ainda hoje se mantém entre a pressão da Asae e dos hábitos mudados, a feira de segunda-feira, fiel herdeira do mercado do além-da-ponte da minha infância nos finais dos anos sessenta.

Depois, voltávamos em carreirinho até ao jardim-escola. E todas as manhãs, a meio das actividades e em todas as tardes, fizesse sol ou caísse chuva, no recreio ou numa das salas, jogávamos!

E que jogos maravilhosos! Neste tempo de videos e consolas, falta já pouco espaço para as brincadeiras fora do recinto escolar mas é forçoso que as nossas crianças encontrem tempo para brincar de uma forma que desenvolva as suas aptidões físicas e sobretudo a sua relação com os outros. Se não, estaremos a criar crianças com bom desempenho intelectual, com capacidade para interagir com as novas tecnologias mas sem espaço para a partilha, para a comunhão de vida com as outras crianças. Serão mais espertos, porventura mais inteligentes mas mais introvertidos e menos sociáveis do que poderiam ser. E um dia, quando forem à procura das suas memórias de infância lembrar-se-ão, por certo, do Pokemon, do Digimon, das Winx e da Puka, do Dragon Ball e da Hanna Montana mas... e do tempo compartilhado? Dos momentos fora da escola que não sejam dentro de uma sala em frente a um ecran seja de televisão seja de computador? Terão eles momentos de excelência que perdurarão nas suas memórias e farão com que, daqui a algumas décadas se consigam recordar dos seus amigos de agora e do que faziam em conjunto?

Então naquelas dias longos em que a imaginação vos falta para os entreter, ensinem-lhes os jogos da vossa infância e façam com que os partilhem com os amigos e deixem-se ficar a ver como eles se divertem, mesmo quando não têm uma televisão ou uma consola portátil por perto.


ALGUNS JOGOS INFANTIS DO MEU JARDIM-ESCOLA E PRIMÁRIA



JOGO DE SALTAR À CORDA

Regras: O Jogo de Saltar à Corda, podia ser disputado por várias participantes ao mesmo tempo (corda grande) ou individual (corda pequena).

Numa corda relativamente grande, duas participantes pegavam nas extremidades fazendo-a balançar, em movimento circular (dando à corda).

As participantes, individualmente, entravam na corda e sempre saltando de acordo com o movimento da corda. Tinham que manter-se dentro durante determinado tempo previamente designado. Pela mesma forma tinham que sair, tudo isto, sem interromper o normal andamento da corda.

Também era jogado com vários concorrentes ao mesmo tempo, que tinham que entrar e sair, sempre saltando, de acordo com o fosse determinado e conforme a ordem de participação dos concorrentes.

Perdia a participante que prendesse a corda, deixando por isso de rodar e, quando isso acontecesse, essa concorrente era penalizada sendo excluída do jogo, podendo ainda ter que tomar o lugar de pegar na corda (dando à corda).

Nestes jogos de Saltar à Corda, ganhava sempre o concorrente que durante as provas tivesse menos faltas.




BERLINDE

Material: Berlindes (esferas de vidro ou metal )

Terreno: Terra batida e plano

Número de Participantes: Vários

Objectivo: Meter os berlindes nas covas

Desenvolvimento: Fazem-se 3 covas. Cada jogador lança o berlinde. Quem conseguir chegar mais longe inicia o jogo que consiste em tentar enfiar os berlindes sucessivamente nas 3 covas que estão em linha recta empurrando-o com os dedos. Quando se consegue chegar à última cova faz-se o percurso no sentido oposto. À medida que os jogadores vão conseguindo estas etapas ficam com o direito de tentar acertar nos berlindes dos outros jogadores, também utilizando a técnica de os empurrar com os dedos na terra. Quando acertam ganham esses berlindes.




O JOGO DO PIÃO

O jogo do pião praticado especialmente pelos rapazes durante a primeira metade deste século volta a surgir sobretudo nos pátios das escolas.

Disposição inicial: Pode tratar-se de uma competição com tempo fixado, ou de um encontro em que o pião deve tocar nos piões dos restantes jogadores e projectá-los para fora de um círculo de jogo traçado no solo e continuar por si só a girar, considerando-se fora de prova os piões que saírem desse mesmo círculo.

Desenvolvimento: O movimento resulta de um cordel enrolado à volta do pião. O cordel segura-se com a mão por uma das extremidades o qual desenrolando-se o faz girar.

Participantes: Pode ser jogado por uma ou mais pessoas.

Material: Pião e cordel.




JOGO DA MALHA

Material: 4 malhas de madeira, ferro ou pedra (duas para cada equipa); 2 pinos (paus redondos que se equilibrem na vertical).

Jogadores: 2 equipas de 2 elementos cada.

Jogo: Num terreno liso e plano, são colocados os pinos, na mesma direcção, com cerca de 15/18 metros de distância entre eles. Cada equipa encontra-se atrás de um pino. Joga primeiro um elemento de uma equipa e depois o da outra, tendo como objectivo derrubar ou colocar a malha o mais perto do pino onde está a outra equipa, lançando-a com uma mão.

Pontuação: 6 pontos por cada derrube, 3 pontos para a malha que fique mais perto do pino. Quando uma equipa atinge 30 pontos, ganha. Uma partida pode ser composta por três jogos, uma equipa para vencer terá de ganhar dois.



CORRIDA DE SACOS

A corrida de sacos é uma prova pedestre de resistência, em que os concorrentes correm uma determinada distância (consoante o escalão etário) introduzidos num saco até à cintura.

Participantes: A prova pode ser individual ou por equipas.

Disposição inicial: O percurso é determinado pelo júri. Ganha o que primeiro ultrapassar a linha da meta.

Desenvolvimento: O objectivo é percorrer a distância indicada no mais curto espaço de tempo.

Para se deslocarem, devem segurar o saco com as duas mãos. O concorrente que sair de dentro do saco durante o percurso, será desclassificado. Se a prova for por equipas, será a equipa também desclassificada. Se for por equipas, será vencedora a equipa que obtiver o maior número de pontos resultantes do somatório dos seus componentes.

Material: Sacos, de preferência em serapilheira.


A CABRA CEGA

Terreno: O terreno deve ser plano e limpo, de preferência sem buracos.

Número de participantes: Vários.

Objectivo: A cabra cega tenta apanhar os outro jogadores e identificá-los pelo tacto.

Desenvolvimento: Põe-se uma venda a um jogador para ser a Cabra Cega .Os outros jogadores andam à sua volta tocando-lhe e dizendo Cabra Cega , mas sem se deixarem apanhar nem ir para muito longe . Quando um jogador é apanhado pela Cabra Cega não pode falar porque esta deve identificá-lo através do tacto.

Se conseguir passa então o jogador apanhado a ser a Cabra Cega.



CARACOL

Material: Pedrinhas, giz.

Terreno: O terreno deve ser plano e limpo, de preferência sem buracos.

Número de participantes: Vários.

Objectivo: Chegar ao centro do Caracol sem perder.

Desenvolvimento: Desenha-se um caracol grande no chão .

No início do caracol o primeiro jogador lança uma pedra; depois ao pé coxinho vai empurrando essa pedra até conseguir alcançar o centro do caracol, sem que esta saia do caracol Se a pedra sai do interior do caracol passa a vez de jogar a outro jogador e assim sucessivamente.




O SENHOR BARQUEIRO

Material: Os meninos.

Terreno: Espaço grande.

Número de participantes: Vários.

Objectivo: Obter o maior número de elementos para ganhar a prova.

Desenvolvimento: Dois meninos de mãos dadas escolhem cada um, um nome: de frutos, animais, países ou de outra coisa que quiserem, sem os outros ouvirem. Os restantes meninos fazem uma fila e cantam uma canção:

- ‘’Que linda Falua que vem lá vem, é uma falua que vem de Belém. Peço ao senhor barqueiro que me deixe passar, tenho filhos pequeninos não os posso sustentar..., passará ,passará , mas algum deixará, se não for a mãe da frente é o filho lá de trás.’’


Quando passam por baixo do arco que os dois meninos fazem, fica lá o último menino da fila. Este escolhe um dos nomes que eles propõem e fica atrás do menino que tiver o nome que ele escolheu.

Quando tiverem todos escolhido formam dois grupos, conforme os nomes escolhidos.

De seguida fazem um risco no chão, a dividir os grupos , dão as mãos e puxam na direcção do seu grupo. O grupo que passar o risco perde o jogo.


DANÇA DAS CADEIRAS

Material: cadeiras e um rádio.

Participantes: Grupo de no mínimo 5 pessoas.

Desenvolvimento: Forme um círculo de cadeiras, com os assentos voltados para fora, com tantas cadeiras quantos forem os participantes menos uma.

Coloque música a tocar e peça que os participantes "dancem" ao redor das cadeiras.

Quando desligar o som, cada pessoa deve procurar uma cadeira no círculo; como o número de cadeiras é menor que o de participantes, um ficará de fora; este sai da brincadeira.

Tire uma cadeira e recomece; ganha aquele que conseguir sentar - se na última cadeira.



FORCA

Regras: Uma criança desenha a forca e escolhe uma palavra (em segredo). Em seguida desenha um traço para cada letra da palavra. A outra criança deve adivinhar qual a palavra secreta, dizendo uma palavra de cada vez.

Se disser uma letra que exista na palavra, esta deve ser escrita no traço correspondente no desenho. Se a mesma letra aparecer mais vezes, ela deve ser escrita em todos os traços correspondentes na mesma vez.

A cada letra que a criança disser e que não exista na palavra secreta, deve-se desenhar uma parte do corpo na forca: cabeça, pescoço, corpo, um braço, outro braço, assim por diante até o desenho ficar completo e é "enforcado".

Se a criança adivinhar a palavra antes de ser "enforcada" ela ganha o jogo.



JOGO DO BOTÃO

Este jogo consistia no seguinte: Era feito ou jogado por dois colegas. Eram necessários dois botões de ceroulas. Alternadamente, cada jogador tinha de bater o seu botão de encontro a uma porta. Se o Joaquim, por exemplo, lançasse o botão e ele ficasse no chão a menos de um palmo do outro, o adversário tinha de lhe entregar um outro botão como recompensa. E o jogo prolongava-se por largos minutos até estarmos cansados ou saturados do mesmo jogo, ora ganhando, ora perdendo um botão.


JOGO DA VARA

Material: Varas. O número de varas é de menos uma em relação ao número de participantes.

Jogadores: Número variável.

Jogo: Espetam-se as varas no chão, os participantes alinham, atrás de uma marca, de costas voltadas para as varas. Após um sinal, dado por alguém que não esteja a jogar, cada jogador corre para tentar apoderar-se de uma vara. O jogador que não o conseguir é eliminado, os outros dirigem-se novamente para a marca de partida e o jogo prossegue com cada vez menos varas até que reste só um jogador, que será o vencedor.



MACACA

Material: uma pedra lisa, giz ou uma lasca de tijolo para desenhar a macaca no chão.

Terreno: Um local de terra ou cimento onde se possa desenhar

Número de participantes: Seis a doze jogadores

Objectivo: Deitar a pedra dentro de cada casa; Saltar a casa onde está a pedra sem a pisar; Saltar as casas ao pé coxinho; apanhar a pedra sem cair e não pisar as riscas.

Desenvolvimento: Atira-se a pedra para a primeira casa e quando se começa a jogar salta-se ao pé coxinho, pulando a casa onde está a pedra.

Fazemos o mesmo para todas as casas até ao fim da macaca.

Depois começa outro jogador. Quando a pedra sai fora também joga outro.



JOGO DA TRACÇÃO COM CORDA EM LINHA

Material: 1 corda e 1 lenço (deverá estar atado a meio da corda).

Jogadores: 2 equipas com o mesmo número de jogadores cada uma.

Jogo: Num terreno plano e livre de obstáculos, duas equipas com forças equivalentes, seguram, uma de cada lado e à mesma distância do lenço, uma corda. Entre as equipas, antes de começar o jogo, traça-se ao meio uma linha no chão. O jogo consiste em cada equipa puxar a corda para o seu lado, ganhando aquela que conseguir arrastar a outra até o primeiro jogador ultrapassar a marca no chão. É também atribuída a derrota a uma equipa se os seus elementos caírem ou largarem a corda. Não é permitido enrolar a corda no corpo ou fazer buracos no solo para fincar os pés.


OS CINCO CANTINHOS

Material: Desenhar cinco cantinhos no chão

Terreno: Qualquer terreno livre

Número de participantes: Seis jogadores

Objectivo: Trocar de lugares sem perder o lugar para aquele que está no meio.

Desenvolvimento: Cinco jogadores metem-se nos cinco cantinhos que foram desenhados no chão e fica um a pedir lume ao meio. Se dissermos que não ele vai a outro pedir, se dissermos que sim ele vai para o nosso cantinho e esse que disse que sim vai para o meio pedir lume. Enquanto ele vai pedir lume os outros trocam de lugar entre si, mas o do meio tenta ver se consegue apanhar o lugar de algum que se distraia.



RODA DA CABACINHA

Material: nenhum

Terreno: O terreno deve ser plano e limpo, de preferência sem buracos.

Número de participantes: Dois

Objectivo: Dar balanço com o corpo e rodar o mais depressa possível sem cair ou largar as mãos.

Desenvolvimento: Dois jogadores virados de frente um para o outro, dão as mãos ao mesmo tempo juntam os pés e dão uma inclinação ao corpo, para trás de modo que os braços fiquem esticados. Lentamente vão começando a rodar dizendo:

- ”Roda, roda, Cabacinha, roda roda cabação!’’ até conseguirem rodar o mais depressa possível.



 JOGO DA BOLA À PAREDE

Material: 1 bola de trapos.

Jogadores: Um contra um ou dois contra dois.

Jogo: Cada jogador bate a bola com a mão sucessivamente contra a parede, sem parar e sem a deixar cair no chão. Se jogam em equipa, bate um jogador e depois outro, alternadamente.

Quando a bola cai no chão, começa, o jogador adversário ou a outra equipa a jogar. Ganha aquele jogador ou equipa que conseguir bater maior número de vezes com a bola na parede. Pode lançar-se o mais alto que se quiser.



JOGO DO ANEL

Antes de tudo, escolhe-se quem vai ser o portador do anel. Ele põe o anel (ou outra coisa pequena) entre suas mãos, que estão encostadas uma na outra.

Os outros jogadores ficam um ao lado do outro, com as palmas das mãos encostadas como as do portador do anel.

O portador passa as suas mãos no meio das mãos de cada um dos jogadores, deixando cair o anel na mão de um deles sem que ninguém perceba.

Quando tiver passado por todos os jogadores, o portador pergunta a um deles: "Quem ficou com a anel ?".

Se acertar, é o novo portador do anel. Se não, paga a prenda (castigo) que os jogadores mandarem.

O portador repete a pergunta até alguém acertar. Quem acertar será o novo portador do anel.

 

JOGO DA PAULADA NO CÂNTARO

Participantes: Rapazes ou raparigas. Este jogo é jogado em série normalmente de 5 ou 6 participantes de cada vez.

Desenvolvimento: Suspensos por uma corda, colocam-se 3 cântaros: 1 com um prémio e 2 com enganos.

Cada participante tem os olhos vendados, sendo volteados 5 vezes por um elemento do júri, partindo depois, com um pau numa das mãos para tentar quebrar o cântaro.

O pau para quebrar o cântaro é igual para todos os participantes. Os participantes jogam todos ao mesmo tempo e com os olhos vendados.

É declarado vencedor o que conseguir partir o cântaro com o prémio ou o engano em primeiro lugar.

Material: Pau, cântaros de barro, venda , postes, corda e prémios (coelhos, galinhas, pombos, chouriços) ou engano (água, farinha, terra, farelos).


JOGO DO MATA

Material: Uma bola ou um ringue, terreno dividido ao meio.

Nº de participantes: Duas equipas

Objectivos: Procurar "matar" (atingir directamente um jogador com a bola) os jogadores adversários e não se deixar "matar", esquivando-se ou apanhando a bola.

Regras: Após o sorteio, começa uma equipa. Só pode "matar" aquele que tiver apanhado a bola sem que esta tenha tocado no chão. Quem for atingido vai para o "piolho".

Desenvolvimento: Na parte de trás de cada equipa, há um "piolho" para onde vai um jogador da equipa adversária. este jogador lança a bola aos elementos da sua equipa. A partir desse momento, uns e outros podem "matar" um adversário.

a) Quem for atingido vai para o "piolho" e o que lá estava no início vai para a equipa.

b) Podem "matar" quer os jogadores em campo quer os do "piolho" (só podem "matar" se a bola não tiver tocado no chão).

c) Sempre que um jogador é atingido, tem direito à bola.

d) O jogador adversário que conseguir agarrar a bola, ao ser atingido, não é considerado "morto" e pode, por sua vez, "matar".

e) Sempre que a bola saia dos limites do campo, esta pertence à equipa contrária.


SALTAR À CORDA

(2ª VERSÃO)


Material: Uma corda grande.

Terreno: O terreno de ser plano.

Número de Participantes: Vários.

Objectivo: Tentar saltar o mais tempo possível.

Regras: Dois meninos dão à corda, os outros vão saltando e cantando, as seguintes canções:

1ª- Quantos carros leva a noiva?

1,2 3,4,... e contam até perder, pois a corda deixa de rodar.

2ª- Freira, casada e solteira.... vão dizendo, quando a corda deixar de rodar, vimos em qual calhou se é freira, casada ou solteira.



JOGO DO EIXO

Terreno: Terreno sem obstáculos

Número de Participantes: Entre 6 e 8 jogadores

Objectivo: Saltar por cima do outro; Saltar sem cair; Chegar ao fim sem perder uma única vez.

Regras: Fica um jogador dobrado (amochar ) e os outros vão saltando por cima dele com as pernas abertas dizendo :

Um à bananeira

Dois à catatumba

Três aberta, fechada ou mista

Quatro rás ca parta

Cinco Maria do brinco

Seis panela do tio Zé Reis

Sete canivete

Oito biscoito

Nove já não chove

Dez não molhes os pés

Onze os sinos da capela são de bronze

O jogo termina quando todos saltam e conseguem ganhar sem perder uma única vez. Caso perca fica esse a amochar.


JOGO DO GALO

Regras: O tabuleiro é uma matriz de três linhas por três colunas. Dois jogadores escolhem uma marcação cada, geralmente um círculo (O) e um xis (X).

Os jogadores jogam alternadamente, uma marcação por vez, numa lacuna que esteja vazia.

O objectivo é conseguir três círculos ou três xis em linha, quer horizontal, vertical ou diagonal (ver figura), e ao mesmo tempo, quando possível, impedir o adversário de ganhar na próxima jogada.

Quando um jogador conquista o objectivo, costuma-se riscar os três símbolos.



JOGO DO ARCO

Material: - Arco e Gancheta

Participantes: - Individual

Desenvolvimento: - Os jogadores percorrem um percurso previamente estabelecido, procurando controlar o arco com a gancheta e realizar o menor tempo possível.

Regras: - Se o jogador perde o controlo do arco, recomeça a prova no local onde isso aconteceu.

Resultado: - Ganha o jogador que chegar 1º à meta, ou se, a prova não for feita em simultâneo, o jogador que fizer menos tempo.

Regra optativa: - Penalizar cada perda do arco com, por exemplo, 2 segundos de acréscimo ao tempo conseguido.

Variantes: - Realizar a competição por equipas.

Neste caso atribuem-se pontos por ordem de chegada, por exemplo, 10 pontos ao 1º, 9 pontos ao 2º, e assim sucessivamente. Somam-se os pontos de cada equipa e ganha a que tiver somado mais pontos.


O GATO E O RATO

As crianças formam uma roda. Uma delas, o Rato, fica dentro da roda. Outra, o Gato fica fora da roda.

O Gato pergunta: “O Ratinho está?"
As crianças da roda respondem : "Não"
O Gato pergunta: "A que horas ele chega?"
As crianças respondem um horário à escolha.

As crianças começam a rodar e o Gato vai perguntando: "Que horas são?" e as crianças respondem: "Uma hora" - "Que horas são?" "Duas Horas" e assim até chegar ao horário que elas responderam anteriormente que o Rato chegaria. As crianças param de rodar e o Gato passa a perseguir o Rato.

A brincadeira acaba quando o Gato pega o Rato e pode-se recomeçar com outras crianças como os personagens principais da brincadeira.



JOGO DAS PEDRINHAS

Regras: Era necessário arranjar cinco pedrinhas, de preferência arredondadas.

Depois de estabelecida a ordem de saída, o jogador iniciava o jogo lançando as cinco pedrinhas ao chão, de forma a ficarem o mais juntas possível. O jogador agarrava uma das pedrinhas, lançava-a ao ar e tinha que a apanhar.

Seguidamente o jogador colocava essa pedrinha nas costas da mão depois, com a mesma mão, agarrava outra pedrinha, lançando ao ar as duas e, com a mesma mão, tinha de as agarrar quando estavam em queda.

Repetia toda esta operação, até conseguir acumular nas costas da mão, com êxito, as cinco pedrinhas.

No caso de falhar, dava a vez ao concorrente seguinte e, quando voltasse a jogar, recomeçava na situação onde tinha falhado.

Depois de ter efectuado e terminado todos os lançamentos com êxito, o jogador teria que pegar as cinco pedrinhas, lançá-las ao ar e apanhá-las nas costas da mão.

Era vencedor o jogador que conseguisse ficar com o maior número de pedrinhas nas costas da mão.


JOGO DO PREGO

(não confundir com a versão de praia)

Regras: Delineava-se uma área, normalmente um grande círculo, em terreno relativamente mole. Depois, cada jogador, na sua vez, munido do seu prego (altos, de barrote) começava por conquistar um «território». Podia ir avançando lançando o prego e criando uma linha imaginária. A distância entre cada lançamento nunca podia ser superior ao tamanho do pé do jogador. Sempre que o prego não espetasse no terreno, o jogador perdia a sua vez e dava-a a um dos adversários. Ganhava quem conquistasse a totalidade do círculo previamente definido.




MACAQUINHO DO CHINÊS

O macaquinho do chinês é um jogo em que uma pessoa fica virada para a parede e diz: “Um, dois, três, macaquinho do chinês”.

Os outros vão aproximando-se do macaquinho. Quando a pessoa acaba de dizer os jogadores têm de parar, e se este se mexer terá de voltar ao sítio inicial. Ganha a pessoa que chegar primeiro ao macaquinho.


JOGO DA BARRA DO LENÇO

Número de Participantes: Mínimo 4 jogadores e um juiz (a pessoa que também segura no lenço).

Material: 1 lenço

Desenvolvimento: Fazem-se duas equipas com o mesmo número de jogadores aos quais serão atribuídos números iguais (1,2,3,4, etc.) para ambas, decididos secretamente por cada equipa.

As equipas ficam frente a frente separadas pela mesma distância. No meio do terreno, num dos lados, fica o juiz com um lenço pendurado na mão, que vai chamando, um de cada jogada, os vários números que estão em jogo. Os jogadores das duas equipas, que tenham o número chamado, correm e tentam ficar com o lenço sem serem tocados pelo adversário, e, seguidamente, fugir para uma das barras (zona das equipas), para assim somar pontos.

Regras do Jogo: A cada jogador de uma equipa corresponde um número igual ao de outro jogador da equipa adversária. (Pode atribuir-se mais do que um número a cada jogador, se forem poucos, mas sempre em paralelo com os da equipa adversária.)

Quando o juiz que está no meio das duas equipas chama um número, os jogadores de cada equipa que têm esse número, correm em direcção ao lenço e tentam apanhá-lo. Quando um o faz tem várias hipóteses:

- Se fugir com o lenço para lá da barra da sua equipa, sem ser tocado pelo outro, ganham 1 ponto.

- Se fugir com o lenço para lá da barra da equipa adversária, sem ser tocado pelo outro, ganham 2 pontos.

- Se for tocado na posse do lenço pelo jogador adversário é a equipa deste que ganha 1 ponto.

- Se o adversário retirar o lenço da mão do jogador que o tirou, sem lhe tocar em qualquer outra parte do corpo, no decorrer da jogada, passa a poder pontuar para a sua equipa, tal como se o retirasse ao juiz.

Todos os números têm de ser chamados pelo juiz.

No caso de dois jogadores estarem a demorar muito tempo para tirar o lenço, o juiz pode chamar outro número para ajudar o colega (neste caso todas as condicionantes do jogo se mantêm iguais, tendo em atenção que o jogador só pode ser tocado pelo número correspondente).

Ganha o jogo a equipa que primeiro fizer 20 pontos, por exemplo, ou pode decidir-se um tempo para terminar.

Variantes: O juiz poderá chamar, se assim o entender, as duas equipas completas dizendo: FOGO!

Se o juiz gritar: ÁGUA!, as equipas deverão ficar imóveis.

Se assim for decidido, o juiz pode chamar (se quiser) dois ou mais jogadores de cada vez.

Para tornar as corridas mais divertidas o juiz poderá chamar os números fazendo-lhes corresponder nomes que definem a maneira como o número se deve movimentar até chegar à barra:

- Madeira: só podem andar ao pé coxinho,
- Panela: têm de ir de cócoras,
- Caranguejo: de costas,
- Etc.

Pode não ser permitido "fazer asas" (abrir os braços para facilitar o toque ao adversário, se este estiver mais perto de retirar o lenço e o que "faz asas" estiver atrás dele).


APANHADA

A apanhada é um jogo em que um jogador sorteado à sorte fica a apanhar.

Os outros terão de evitar serem apanhados pela pessoa que ficou a apanhar, por isso terão de correr pelo campo e podem refugiar-se no coito, sitio onde não podem ser apanhados.

O vencedor será o que for apanhado em último. A primeira pessoa a ser apanhado será a pessoa a apanhar no próximo jogo.



JOGO DAS ESCONDIDAS

Um dos jogadores tapa os olhos e começa a contar até um determinado numero. Os outros jogadores no tempo em que o outro está a contar vão se esconder. O jogador que estava a contar quando acabar tem de gritar bem alto “Aqui vou eu”e começa á procura.

O objectivo de quem procura é encontrar todos e os que se escondem é chegar ao “coito”se ser apanhado ou visto.


JOGO DO LENCINHO

O jogo do lencinho é um jogo em que as crianças colocam-se em roda, colocando as mãos atrás das costas. Uma outra criança, que foi escolhida, vai correr á volta da roda com um lenço na mão. Enquanto isso vai cantando:

-‘’Aqui vai o lenço, aqui fica o lenço!’’.

Neste jogo as pessoas que ficam sentadas não podem olhar para trás. A criança que correrá com o lenço terá de o por discretamente numa pessoa que se encontra na roda. Este ao colocar o lenço começa a correr evitando que seja apanhado pela pessoa que colocou o lenço. Se a pessoa que ficou com o lenço não conseguir a pessoa que o colocou, este continua a correr e irá ele por o lenço noutra pessoa.




SIRUMBA

Estás pronto para descobrir se és um bom polícia ou um perfeito fora-da-lei? :)

Material: Giz

Como Construir: Em primeiro lugar tens de desenhar com giz no chão, um rectângulo grande, com seis quadrados lá dentro, divididos por corredores. Nos dois lados paralelos mais curtos do rectângulo, fazes mais um traço onde irás escrever, apenas num deles, Sirumba. É como se fosse uma barra dentro do rectângulo. Depois decidem que é ladrão e polícia.

Regras: As regras são as seguintes: os polícias andam nos corredores e os ladrões saltam de quadrado em quadrado. Os polícias têm como objectivo apanhar os ladrões, tocando neles. Estes por sua vez, têm como objectivo passar por todos os quadrados desenhados dentro do rectângulo, até chegar à barra oposta que diz sirumba e voltar a base inicial.

O primeiro ladrão a chegar sem ser apanhado pela polícia, grita bem alto SIRUMBA e ganha o jogo.

Se os polícias conseguirem apanhar todos os ladrões o jogo acaba e invertem-se os papéis.

Cuidado porque quem pisar os riscos desenhados a giz, morre e sai do jogo e quem for apanhado é preso e sai do jogo.




MAMÃ DÁ LICENÇA?

Jogam seis ou mais crianças, num espaço que tenha parede ou muro, embora estes possam ser substituídos por um risco no solo. As crianças dispõem-se sobre um risco, umas ao lado das outras. Uma, a mãe, fica colocada de frente para as outras crianças, a uma distância de dez ou mais metros. A mãe fica de costas para a parede ou muro. Uma criança de cada vez vai perguntando à mãe:


- “A mamã dá licença?”

- “Dou”.

- “Quantos passos me dás?”

- “Cinco à bebé.”

- ”Mas dá mesmo?”

- ”Sim.”

Então a criança avança, dando cinco passos muito pequeninos, pois neste exemplo, dá passos “à bebé”. Em seguida, pergunta outra criança e assim sucessivamente. Ganha o primeiro a chegar ao pé da mãe, tomando o seu lugar e recomeçando o jogo. De referir que, após a ordem dada pela mãe, a outra criança deve confirmá-la antes de a executar (“Mas dá mesmo?”), sob pena de regressar ao ponto de início.

As respostas da mãe (ordens), podem ser muito variadas: passos à gigante (grandes), à caranguejo (para trás), à cavalinho (saltitantes), à tesoura (abertura lateral dos membros inferiores), etc.



O CHEFE MANDA

Jogam várias crianças.

Uma é nomeada ou sorteada ‘’Chefe’’.

Regras: O jogo consiste em seguir as ordens do chefe que são ditas e executadas cada vez mais depressa.

Mas atenção: o Chefe tem de dizer ‘’O Chefe manda’’, como por exemplo ‘’O chefe manda saltar’’ ou ‘’o chefe manda colocar a mão na cabeça’’. Se a ordem for apenas ‘’ saltar’’ ou ‘’colocar a mão na cabeça’’ sem a indicação ‘’o chefe manda’’, então a ordem não deverá ser executada, devendo as crianças permanecer imóveis. Perdem os que executarem uma ordem sem a indicação ‘’o chefe manda’’.






Espero que tenham gostado de ter feito esta viagem pelo passado.

Esta crónica é dedicada a todos os que de uma forma individual ou por meio de instituições se dedicam a proteger as crianças desfavorecidas e com isso salvaguardam o seu futuro.

Recordem-se da vossa infância, fosse ela feliz ou não, e deixem que essas recordações vos levem a apoiar mais todas essas instituições que lutam com enormes dificuldades. Não fiquem indiferentes, não ajam como se não fosse convosco. Não pensem sobretudo que se ao Estado compete essa acção não precisam de tomar a iniciativa. O Estado anda a olhar para o lado e as crianças não podem esperar!

O tempo de ajuda é hoje!

PC



Ah! Esqueci-me!
Para começarem a jogar precisam de umas rimas de selecção.
Elas aqui vão:

Um, dó, li, tá,
Caramelo de amêndoá,
Um sorvete colorete,
Um, dó, li, tá.

Sarapico, pico, pico
Quem te deu tamanho bico?
Foi a velha Chocalheira
Come ovos e manteiga.
Os cavalos a correr,
As meninas a aprender.
Qual será a mais bonita
Que se irá esconder?

Aniolita
Pirolita
Bacalhau
Batata frita.

Em cima do piano
Está um copo de veneno
Quem bebeu, morreu.

Pim, pão, pum
Cada bola mata um.
Da galinha pró peru
Quem está livre és tu.

Tão balalão,
Cabeça de cão,
Orelhas de gato,
Não tem coração.

Um aviãozinho militar
Atirou uma bomba ao ar.
A que terra foi parar?

O teu pai é sinaleiro?
(É)
Quantos carros manda parar?
(4)
Um, dois, três, quatro.

Um, dois, três, quatro,
A galinha mais o pato
Fugiram da capoeira,
Foi atrás a cozinheira
Que lhes deu com o sapato,
Um, dois, três, quatro.

A, E, I, O, U,
Aqui ficas tu.

Bons jogos!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - DIA DE PÃO-POR-DEUS


Durante a minha infância e pré-adolescência, existiam quatro momentos do ano pelos quais ansiava.

O Natal, o Carnaval, o meu Aniversário e o Dia do Pão-por-Deus.

Hoje é dia 1 de Novembro, Dia do Pão-por-Deus, e por toda a cidade correm grupos de crianças, batendo às portas e pedindo a dádiva do Pão-por-Deus.

Nas Beiras, onde estive nos últimos dias e para onde me refúgio nos fins-de-semana prolongados do Outono à Primavera, manda a tradição que as crianças declamem algumas quadras dependendo do resultado da sua visita, ora para os que os contemplaram com alguma oferenda ora para com os que nem se sequer lhes abrem a porta.

"Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz
Truz! Truz! Truz!

A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de s'alevantar
P´ra vir dar um tostãozinho.''



Quando os donos da casa dão alguma coisa:

"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

Quando os donos da casa não dão nada:

"Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto."


Já nas Caldas a quadra é outra:

"Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus."

Nessas frias e cinzentas manhãs de 1 de Novembro dos anos 70, juntava-me com amigos, vizinhos de bairro, como o Paulo Bastos da Rua Leão Azedo e corríamos os prédios das ruas limítrofes. Como éramos tímidos, apenas batíamos à porta de pessoas conhecidas mas ainda assim, ou por essa mesma razão, conseguíamos encher o saco por uma ou duas vezes. O saco era um tradicional saco de pão, feito de pano-cru e com figuras e dizeres bordados a cores. Quando chegávamos a casa no final da primeira ou da última ronda, despejávamos para cima da mesa da cozinha o nosso espólio, geralmente composto pelos víveres tradicionais de quem não tem muito para dar ou de quem se esqueceu da data mas que mesmo assim não recusava o pedido das crianças. Maçãs, nozes, castanhas, ovos cozidos, alguns pinhões e figos secos. De vez em quando lá vinham também um punhado de caramelos espanhóis, daqueles embrulhados em plástico castanho e beije, compra tradicional das visitas a Badajoz. Quando hoje vemos as guloseimas que as crianças pretendem receber neste dia vemos o quanto éramos tão felizes com tão pouco. Porque o importante não era o que recebíamos mas a alegria do correr as portas, a alegria de receber algo com um sorriso dado por alguém com um sorriso.



Recordar o dia de Pão-por-Deus é recordar também a figura de Thomaz dos Santos, assim mesmo, escrito na grafia do seu tempo, é relembrar a mais marcante recordação daquele dia.

Thomaz dos Santos foi um dos mais ilustres empresários caldenses, daquelas figuras que forjaram a nossa cidade e que apesar de todo o seu património e de todo o tempo que tinha de reservar à gestão das suas empresas, fazia questão de nesse dia, se colocar a uma janela do rés-do-chão do prédio que ainda hoje é a sede da empresa que construiu, na Rua Capitão Filipe de Sousa, e daí distribuir moedas de 25 tostões (o que equivaleria com a correcção cambial a cerca de 1 euro aos preços de hoje) por todas as crianças da cidade que lá se dirigissem. E todas o faziam! Todas eram satisfeitas e a prodigiosa memória de Thomaz dos Santos evitava que alguns tentassem repetir o pedido pois ele conseguia decorar todas as feições e com um sorriso nos lábios recusava o pedido dos prevaricadores. Afinal, tinha que dar para todos!

Thomaz dos Santos entregava a sua moeda a cada criança com um sorriso de enorme satisfação e aposto que ele antecipava por dias aquele dia em especial. Que organizava aquela manhã com satisfação e até com alguma ansiedade, pedindo a algum colaborador que fosse ao banco levantar as moedas trocadas para que nada faltasse e dispusesse uma cadeira e uma mesinha junto àquela janela em particular.


Aquele seu sorriso guardava um segredo, um segredo que só desvendei na idade adulta.

Durante anos esperei ansiosamente por este dia e usufrui do ambiente de partilha daquelas manhãs como ninguém. Com o decorrer dos tempos deixei de ir bater às portas mas mantive o entusiasmo por este dia. Aos poucos e poucos comecei a desvendar o segredo.

Quando fui estudar para Lisboa e logo nas primeiras semanas, à medida que o dia se aproximava, comecei a questionar os meus novos colegas sobre esta tradição e descrevi-lhes o ambiente nas Caldas. Fiquei completamente surpreendido pelo facto de, salvo os que tinham familiares na província, desconhecerem esta tradição.

Tal como o Carnaval, o Dia de Pão-por-Deus passava despercebido na grande cidade.

Quando terminei o liceu e rumei a Lisboa levava uma enorme expectativa, finalmente iria para uma cidade que me poderia dar tudo por que ansiava. Afinal, e ao longo dos anos compreendi que as Caldas me poderiam dar muito mais do que Lisboa, bastava entender o que era essencial!


Esta é uma terra de afectos e as tradições como o Pão-por-Deus fazem parte da nossa identidade comum e esta é distinta da de Lisboa e de muitas outras terras. Aquilo de que senti a falta, o Dia de Pão-por-Deus, a Rua das Montras em véspera de Natal, os dias de Carnaval, são momentos de partilha de toda a população, de pessoas unidas pelas Caldas, quer se conheçam ou não. Ficamos unidos por esta alegria de viver esses momentos únicos na nossa cidade e é isso que nos fortalece enquanto caldenses. Algo que para um lisboeta seria impossível entender! Também, o que podemos esperar de uma cidade em que os seus habitantes não conhecem os seus vizinhos de prédio que com eles coabitam há vinte anos?! Chamam a isso privacidade!

Na quinta-feira passada, sabendo que iriamos estar ausentes nos dias seguintes, os meus mais pequenos obrigaram-me a ir ao supermercado comprar uma pequena fortuna em guloseimas. Não queriam deixar de ter algo em casa para o Dia de Pão-por-Deus. Propositadamente encurtei um fim-de-semana que se esperava mais longo e regressei ontem de madrugada às Caldas para que as crianças pudessem viver este dia. Não pude deixar de me lembrar o quanto eu ansiava por este momento na sua idade!

Hoje, esquecendo-se da mudança da hora e porque ainda não tinha tido tempo de alterar os relógios cá de casa, acordaram e vestiram-se às sete da manhã, entrando pelo meu quarto a dizer que eram quase nove e que precisávamos de organizar as coisas!

Eram sete e meia da manhã e já estavam a colocar as guloseimas em pequenos cestos de vime que depositaram no hall de entrada. Estavam radiantes e ansiosos. Não pelo chegar da hora de irem começar a bater à porta dos vizinhos mas pela chegada das crianças a nossa casa. Tão novos e já começam a desvendar o segredo!

Às nove horas começou o corrupio de crianças a baterem à porta. Tive que expulsar os meus filhos de casa pois preferiam estar a entregar as guloseimas àquelas crianças desconhecidas do que irem, eles próprios, às casa vizinhas.

Ainda é cedo para eles! Terão tempo um dia para ficarem em casa a distribuir guloseimas e ver o sorriso de satisfação das crianças em vez de correrem a cidade. Terão tempo para compreender o segredo de Thomaz dos Santos!


O Dia de Pão-por-Deus começou, segundo a lenda, nos dias seguintes ao terramoto de 1755 que devastou a cidade de Lisboa e muitas outras povoações na província. O grau de destruição foi tanto que milhares de crianças encontraram-se, de repente, órfãs e abandonadas, desalojadas de abrigo e sem absolutamente nada de comer. Os poucos víveres que as tropas do Visconde de Oeiras (futuro Marquês de Pombal) conseguiam distribuir ficavam nas mãos dos mais fortes, e nestes não se incluíam as crianças. Assim estas começaram a bater às portas das casas que restavam de pé, pedindo comida.

- Dêem-me pão, por Deus!

O infortúnio foi tão grande que poucas semanas depois já era toda a população das cidades devastadas que se dirigiam às outras localidades pedindo que lhes dessem de comer!

Batem-me pela enésima vez à porta e eu mais uma vez tenho que interromper esta crónica. Os miúdos regressaram outra vez a casa e preferem estar a entregar os caramelos de frutas, os chupas-chupas e os pequenos chocolates às crianças que aparecem. O Francisco e a Maria revelam-se à altura da logística e distribuem com racionalidade as guloseimas. Terão que dar para todos. No ano passado, já no fim da manhã e quando as guloseimas acabaram, foram buscar do seu próprio saco para entregar a uns miúdos retardatários. Estão quase a perceber o segredo mas ainda é cedo para eles, agora é tempo de gozar a infância. Não queiram ser adultos antes de tempo!

Thomaz dos Santos criou a maior empresa das Caldas e nesse dia mostrava conhecer o segredo. Não se importava que o vissem com um sorriso nos lábios e com os afagos que dava no cabelo das crianças. Num país em que se cultiva a sisudez, em que esta é confundida com a competência fruto de uma longa linha de sisudos que nos marcou a história, Salazar, Eanes, Cavaco Silva, Ferreira Leite, Teixeira dos Santos, torna-se difícil que alguém com um sorriso nos lábios e que exprima afectos seja considerado competente. Já uma cara de quem todos lhe devem e uma rispidez natural no trato é meio caminho andado para se ser considerado competente!

E ali estava um dos maiores empresários da história da nossa cidade, partilhando os seus afectos com todas as crianças da cidade. E certamente sentia-se mais feliz nesse momento do que em qualquer outro em que recebia os resultados das suas empresas, pois ele guardava um segredo em si.

Ao longo da manhã, trazidos pela notícia que corre há anos, que o nosso bairro é de gente generosa e que aqui as crianças encontram uma, duas, dezenas de postas abertas, carros e carros vão chegando e literalmente despejando crianças na única rua que dá acesso ao bairro. Entretanto os pais refugiam-se nos dois cafés da rua e aguardam o fim da peregrinação dos miúdos. Nós ficamos felizes e até orgulhosos por esta tradição mas não evito perguntar:

E enquanto eles ali estão a aguardar que as suas crianças façam o pedido do Pão-por-Deus, quem está em suas casas para abrir a porta às outras crianças?

Será que eles ainda não desvendaram o segredo?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

UMA VIVÊNCIA


Embora seja um pouco mais nova do que a maioria dos participantes neste espaço de recordações, que tanto prazer nos dá; gostaria de deixar aqui uma perspectiva diferente daquele tempo…

A vivência de quem cresceu nas Caldas poderá ser diversa, mas para todos os que por lá passaram existem pontos comuns: o facto de ser um meio pequeno, o facto de (melhor ou pior) todas as pessoas se conhecerem e a pressão que a “pequena” sociedade Caldense exercia nas nossas vidas…

Poderei parecer melancólica ou magoada na escrita deste testemunho, mas não o estou. Foi nas Caldas que cresci e que aprendi a lidar com todas as situações, independentemente de as mesmas serem mais ou menos agradáveis e sinto um carinho imensurável pela “minha” terra.

Pelo facto de ser neta de quem sou, as pessoas sabiam quem eu era: a neta do Prof. Rainho e da Prof. Maria Joaquina! Era difícil passar despercebida. Pelo facto de ter tido uma infância atribulada, embora feliz em muitos momentos (para quem não sabe fui criada pelos meus avós desde os 5 meses de idade); cedo comecei a querer “fazer-me grande”…

Com 14 anos de idade já andava nos percursos habituais da noite dos Caldenses: Ferro Velho, Green Hill, uma discoteca em São Martinho de que não me recordo o nome, Camaroeiro, etc. A minha avó (o meu avô já tinha falecido) sofreu bastante com os meus comportamentos, uma criança de 14 anos que achava que já sabia tudo…

Com a ausência dos meus pais e a não eficiente tentativa de controlo por parte da minha avó, lá fui “crescendo”.

A primeira vez que saí à noite foi com a minha melhor amiga. Ela foi dormir a minha casa e saímos pela janela (um rés-do-chão) a uma 6ª feira. A noite decorreu bem, fomos ao Ferro Velho e ao Green Hill (eu sempre com medo que me vissem na rua). No sábado repetimos o comportamento e no Domingo achámos que podíamos voltar a fazê-lo.




Penso que fomos só ao Ferro Velho nessa noite…por volta da uma da manhã resolvemos voltar para minha casa. Chegamos à Rua da Esperança e deparámos com o estore da janela do meu quarto fechado. O meu vizinho do lado tinha-nos visto e denunciado (ainda hoje não sei porquê!)…

A partir daí a minha avó proibiu-me de andar com essa amiga, algo que eu nunca fiz, como quem me conhece bem sabe. Os episódios foram-se sucedendo, passei por uma fase em que achava que tudo era permitido e, tal como bem sabem, nas Caldas falava-se muito sobre as pessoas…como saía muito à noite atribuíram-me um sem nº de namorados, muito álcool, drogas.

Os episódios aconteciam, uns com mais gravidade e outros com menos e eu fui sendo alvo de muitas conversas…a neta do Prof. Rainho isto ou aquilo…

Efectivamente dos meus 14 anos aos 16 a minha vida foi um furacão de experiências e de vivências, umas melhores outras piores e de nenhuma me arrependo. Tive alguns namorados, bebi algumas cervejas e experimentei algumas drogas leves (ao fim e ao cabo o que muitos de nós fizemos).

O que me custou nessa altura foi o facto de muita coisa ter sido dita sem razão. Quero dizer com isto que compreendo hoje (que tenho 40 anos) que poderia ter evitado alguns episódios, sei, no entanto também, que se não tivesse passado por algumas das experiências que passei, não seria a mulher que sou hoje.

Com este testemunho queria apenas, e não me interpretem mal, demonstrar o que senti na altura. Eu adorava e adoro as Caldas mas a dada altura a pressão foi tão grande que tive que me afastar.

É evidente que o facto de o meu apoio familiar ser escasso influenciou muitos dos meus comportamentos, no entanto, também sinto que os meus excessos foram, por vezes, exponenciados pelas conversas de café…e eu, não tinha estrutura/maturidade emocional para perceber certas coisas que hoje sei…todas as pessoas fazem asneiras e passam por fases mais ou menos complicadas (eu não era melhor nem pior que ninguém…mas senti-me pior muitas das vezes)!!!!!

Esta perspectiva parece amarga, mas garanto-vos que hoje não o é. Eu adorei crescer nas Caldas e tenho, no presente, uma pena imensa de me ter desligado de algumas pessoas de quem eu gostava muito.

A criação deste blog veio trazer-me recordações sobre as quais não pensava há muitos anos e, asseguro-vos, que o balanço é positivo. Penso poder recuperar muitas das amizades que tinha e poder continuar a recordar os bons momentos que pelas Caldas passei….pelo menos é a minha vontade. Até sempre.

 
post de Carla Rainho

FOTOS GRUPOS DE PALHAÇOS


post de Sara Marques

terça-feira, 5 de outubro de 2010

CRÓNICA DOS PALHAÇOS DOS ANOS 70-80

Os Palhaços faziam e fazem as delícias das crianças e adultos quando é possível assistir a um espectáculo de um qualquer circo que, orbita de terra em terra nas datas festivas e tradicionais.

Apesar da máscara e da figura do Palhaço serem conhecidas nem sempre eram bem representadas visto que os fatos, sapatos e tintas não estavam ao alcance de todos.

É por aqui que consigo escorar esta máscara na vida Caldense especialmente nos pais de alguns amigos que cresceram comigo, tendo mais tarde vindo a continuar a tradição familiar.

Os talvez pioneiros dessa máscara de uma forma mais similar do real circense, foram o Loiça Fina, José David, Pai Pimenta, Carlos Feliciano, Sanches, Pai Felizardo, Pedro Margarido, Viola, José Augusto Nicolau, Carlos Norberto e mais tarde o Leitão, (com o seu Hilman dourado que entrava normalmente no Corso das Caldas da Rainha) César e João Domingos.

Numa das idas carnavalescas aos toiros o Pai Felizardo arranjou umas motas antigas Norton, para chegarem á corrida de toiros de terça-feira de carnaval nas Caldas da Rainha.

Essas motas sofreram uma tropelia do José David que valeu uma grande pancada da perna do Felizardo no passeio no momento de a tentar por a funcionar. Apesar de ser verdadeira toda a gente pensava que era uma brincadeira montada para o efeito, fazendo com que ninguém ajudasse o mascarado, provocando uma risada geral a quem estava por perto.

Mas de todos estes pioneiros o Loiça Fina, era o único que gostava de andar sozinho, sempre com muita graça pelo carnaval, sendo todos os outros adeptos de grupo e de bailes de nomeada na altura, organizados nos seus grupos.

O grupo do Pai Pimenta veio inclusive a receber alguns prémios sendo um deles entregue no Pinheiro Chagas pelo desempenho e visual do grupo no Corso das Caldas da Rainha, outro dos prémios foi ganho no Casino do Estoril pelo grupo, Pai Pimenta, Pedro Margarido, Viola, Nicolau, José David Carlos Feliciano tendo sido aqui que o Joca Pimenta pequenote fez talvez o seu debute nos palhaços.

Esse prémio constou de uma enorme jantarada para todos No Salão Preto e Prata do Casino do Estoril.

Nesses tempos as cabeleiras e alguns adereços eram alugados em Lisboa para serem usados nos dias de carnaval.

Outras personagens tentaram seguir o andamento deste grupo nos carnavais mas rapidamente desistiam após as primeiras núpcias no jantar. Era realmente dura aquela vida.

Existia no entanto algo que para a época era realmente inovador.

Organizavam-se de forma a serem transportados por um condutor de seu nome Vasco Leal, que com a sua paciência e amizade acompanhava sempre o grupo, mantendo-se em condições de fazer a viagem de regresso sem grandes percalços, o que digamos para aquela época era realmente inovador.

A inovação continuou com a forma e o tipo de fatos, com o uso de tintas de teatro e os famosos sapatos compridos, feitos e cozidos à mão pacientemente pelos sapateiros amigos do grupo nas Caldas da Rainha.


Esta comunhão das duas gerações é de facto necessária não só para me enquadrar no tempo e na máscara de Palhaço nas Caldas da Rainha, como para fazer um elo de ligação capaz de juntar várias gerações que usufruíram da incrível onda carnavalesca desse tempo, que nos foi sendo passada no decorrer de todos estes anos.

Num dos dias que nada tínhamos para fazer, andávamos a jogar futebol nas traseiras da Igreja, corria o ano de 1979, sempre preocupados com o Padre Guerra pois não gostava que, os irrequietos jogadores de futebol da altura por ali assentassem arraiais.

Realmente muitos vidros partidos apareceram nas vidraças sem responsável por perto, tal a velocidade com que nos pirávamos após o infame acto de partir um vidro da Igreja, que na altura estavam protegidos por umas encaracoladas grelhas de protecção em ferro pintadas de preto.

No Carnaval, era comum os mais novos darem largas à sua folia com umas máscaras mais ou menos elaboradas, valendo as horas que saltávamos ou no Corso que o Sr. Alberto Saramago e os seus amigos conseguiram manter durante anos em funcionamento como um dos melhores desfiles alegóricos e críticos da região centro (na altura o carnaval de Torres Vedras era já um dos melhores) ou nos variados bailes que se realizavam na altura, adaptados a todos os tipos de bolsos, (Casino, Lisbonense, Bombeiros, Columbófila, Pimpões entre outros)

Foi nesse dia que reparamos na passagem de dois palhaços, viria a saber mais tarde que um era o Sr. º César e o Sr. Leitão. Aquele momento catalisou-me a curiosidade para aquela máscara que me viria a marcar durante imensos anos.

No dia seguinte e numa conversa com o meu amigo Joca Pimenta, soube que ele se mascarava regularmente com o grupo do Pai.

Passei uma tarde a ouvir o resultado das diabruras das noites de carnaval desses tais grupos, que era marcado pelo Pai Pimenta, e mais tarde pelo Leitão, que além de entrarem no Corso faziam a sua passagem com o bestial Hilman Dourado descapotável do Leitão pelas Caldas durante a noite, fazendo depois uma passagem em quase todas as capelinhas de diversão nessa época .

Após alguns acertos e desacertos, arranjámos um fato de palhaço que teria de ir buscar a um dos elementos desse grupo que me valeu uma espera, diria mais uma seca de 4 horas sentado num sofá à espera que alguém acordasse, até que finalmente o fato me apareceu à minha frente.

Foi nessa noite o meu baptismo de mascarado na personagem de palhaço, com as pinturas, jantar e respectiva indumentária feitos na garagem da casa do Leitão, onde se respirava Carnaval e esta dinâmica de mascarados.



Nessa noite foi um mergulho na arte de rir e de fazer rir, tais as gargalhadas que soltei, ao ver o desenrolar dos elementos do grupo, que estavam a 55 rpm e completamente adaptados à máscara com a respectiva voz digna do Palhaço Quinito do Circo Mariano.

Após as pinturas e a tripulação composta do famoso Hilman dourado com umas portas dignas, feitas de umas cordas grossas brancas com terminais de ganchos também eles dourados, fomos descendo desde a Encosta do Sol até pararmos na Praça da Fruta, sítio de paragem obrigatória, onde os mascarados se encontravam, antes de definir para onde se encaminhavam.

Decidiram rumar até ao baile da Columbófila, que era feito no pavilhão quase novo por detrás das instalações antigas. Entradas pagas e fórmula 1 estacionado, (que era quase sempre necessário empurrar, pois o tempo que ficava parado durante o ano deixava marcas) entrámos no ringue do pavilhão onde se fazia o Baile.

No meio de músicas brasileiras e casais de dançarinos que saltitavam entre empurrões e gritos produto dos encontrões e espetadelas dos ornamentos de carnaval das máscaras uns nos outros, fomos deslizando pela zona de dança como podíamos, até encontrar alguém que nos guardasse a panóplia de adereços.

O Joca mais habituado a estes andamentos, encaminhava-me pelo meio dos dançarinos entre apalpões e toques na cabeleira que naquela altura já me fazia sentir uma panela de pressão tal o calor que aquilo me fazia.

Após umas horas e umas belas minis a voz rouca comum nos palhaços começou a despontar de tal modo que até eu me admirei da voz. As músicas, calor, odores e gargalhadas foram a minha companhia por algum tempo.

Houve tempos que deixei de estar em contacto com o Joca e o resto da trupe, que passada uma centena de músicas e de danças com quem não conhecia (o importante era dançar) deram comigo e apanharam-me pelo cachaço pois de modo algum as vozes que eram necessárias para me convencerem a ir para casa eram interiorizadas por mim.



Bom…… foi um baptismo de máscara de palhaço, violento que me valeu um dia inteiro a dormir com as tintas muito mal tiradas da cara e um acordar doloroso com a voz da minha mãe a perguntar se queria jantar ou se ficaria naqueles preparos o resto da noite.

Desde esse dia ficou enraizado este costume de máscara de Palhaço no carnaval, que me tem vindo a acompanhar com o passar do tempo, somente com uma interrupção de alguns anos.

No ano seguinte, mascarámo-nos na casa do Luís Barreto. O grupo era composto pelo Joca Pimenta, Luís Barreto, Carlana e Jaime Amante, que viria a ser mais tarde o “ Bombero Torero” da trupe de Anões Espanhóis, trupe essa que viria a ter imenso sucesso, durante anos.



O engraçado de tudo isto, começa com o debute dele (Jaime Amante) nesse ano, pois não manifestava nenhum jeito para a “coisa”, manifestando mesmo uma depreciativa ideia da máscara. Jamais imaginaria que iria ser um dos seus sucessos no futuro.

O Jaime Amante era um amigo do Grupo de Forcados das Caldas que estava ligado ao mundo do espectáculo dos Toiros e dos matadores de Toiros, nomeadamente como moço de espadas. Visitava as Caldas nas fases festivas ou de dias de corridas com o Grupo.

Nesse ano na novilhada de Carnaval fomos para a Trincheira, onde nos metemos num burladero que nos serviu de base para a secção de escárnio e maldizer, pois que o estado de aceleração em que já orbitávamos, não deixou passar em branco algumas pernas e alguns sorrisos mais atrevidos, só desculpados pela data que vivíamos.


Recordo-me que alguém nos tirou uma fotografia no final da novilhada à porta dos Cavalos. Essa tarde foi algo atribulada já que fomos despachando para as bancadas os nossos apetrechos de mão, bem como parte dos sapatos.

Mas o Carlana apareceu com duas vassouras, fundamentais para nos equilibrar uns nos outros na altura após o final da novilhada ficando o pachorrento e paciente do Luís Barreto, com as mãos nos bolsos no meio do grupo, mas com o disco riscado na parte da pergunta ao fotógrafo….tenho de pagar a fotografia? …tenho de pagar a fotografia…tenho de pagar a fotografia…. Estando ainda hoje à espera da resposta que não lhe foi dada.

Nesse ano o carnaval foi passado com este grupo, por sítios que eram normais nessa altura, Corso, Green Hill, Inferno da Azenha, Ferro velho, Bombeiros entre outros.

Todos os anos a partir da passagem de ano a conversa era muitas vezes direccionada para os preparativos do carnaval. O sítio de eleição era a porta da Câmara que ficava imediatamente a seguir à porta da Zaira.



Nesse ano tudo estava a decorrer normalmente, quando o carnaval surgiu no calendário. A primeira saída era sempre na sexta-feira, dia esse que era de poucos mascarados mas servia para nos adaptar à época, fazendo-nos deambular pelas Caldas sempre depois de um jantar de início de festas, mascarados a rigor.

È nesse ano que o Presidente da Associação Planalto da Nazaré telefonou ao meu amigo Joca, em desespero, visto que a trupe de animação que iria ter a sua apresentação no domingo de carnaval na praça da Nazaré tinha sofrido um acidente de viação em Espanha, não podendo vir fazer a sua actuação.

Nesse telefonema sondou a possibilidade de se arranjar outra solução para a situação visto que já estavam muito próximo da data. Essa sugestão apareceu com a disponibilidade do Joca em falar comigo para uma possível actuação nesse Carnaval na praça da Nazaré.

Bom, quando me foi proposto a hipótese fiquei receoso, pois nunca nenhum de nós se tinha dado a esses andamentos, mas enfim, aceitámos e ficou decidido que à hora e no dia definido de Domingo de Carnaval lá estaríamos.

Depois da proposta aceite, para a referida actuação na praça da Nazaré na tarde de Domingo de Carnaval, prontamente catalisada pelo Pai Pimenta sempre disposto a essas brincadeiras. Recordo-me que eu e o Joca, que nessa fase já andávamos pelo Forcados, nos rirmos com a ideia.

Mas após as perguntas que achamos necessárias com base na nossa inexperiência nestas andanças, ficámos a saber que iríamos ter como suporte uma panóplia de equipamentos de actuação na arena, tais como:

Baloiços, Barris, Bidões de 200 litros, Cavalos de Madeira feitos com cabos de vassoura, Baldes com pó de talco, Tesouras, Pentes e Navalhas de barba gigantes para a referida operação à vaca que nos iria calhar em sorte.

No dia D, preparámo-nos e vestimo-nos nas Caldas. Como não tínhamos ainda carta de condução o Carlos Feliciano foi-nos levar à Nazaré, seria o nosso Apoderado. Após algumas combinações a caminho da Nazaré com o nosso afamado apoderado ficou no ar que iria ser algo de que decerto nos iríamos lembrar durante muitos anos, logo não seria necessário preocuparmo-nos com o que nos iria sair na praça. Decidimos não ir ver a vaca aos curros pois poderíamos ter algum receio depois de a ver.

Ao entrar na Praça de Touros pela porta dos cavalos, logo se ouviu a pronúncia nazarena “….. Ahhh…Joãoooooooooo deixem passar os Artistasssss ohhhhhhhhhhhhh…… “

A praça estava cheia, o barulho de fundo era de alegria e de sons de cornetas, rocas e martelos de carnaval.

Mantivemo-nos por aquela zona pois teríamos de ir fazer as cortesias com os respectivos sapatos xxxxxxxllllllllll. O Inteligente, (Director da corrida) mandou tocar para a saída das cortesias.

Lá fomos saindo quando chegou a nossa vez, eu com o meu andar desengonçado, não ficando atrás o Joca com os seus pés “Dez para as duas “e as respectivas barbatanas nos pés e as tintas de Teatro na cara que nessa tarde usámos, para que não ficassem esborratadas.

Quando chegou finalmente a nossa vez, que aconteceu após um toque de cornetim, com uma melodia mais voltada para a época de Carnaval, entrámos na arena por um dos burladeros que existia na altura para a actuação.

O baloiço tinha sido montado no centro da praça mesmo em frente aos curros de onde sairia a Vaca.

O baloiço era do tipo de alavanca somente com um braço em que cada um de nós se agarrava a uma ponta e rezava para que o outro pendurado no outro extremo o puxasse.

Cada um de nós agarrou-se a um dos extremos do baloiço esperando pela abertura da porta dos sustos, esperando pela decisão de investida da vaca.

A Vaca saiu finalmente após a abertura da porta dos sustos, saindo com todo o gás que tinha em direcção ao baloiço, escolhendo o Joca para a sua primeira investida.

Claro está que a partir dali foi um sobe e desce até que as forças e o hilariante da situação nos começaram a atraiçoar e começaram a surgir uns “puxaaaaaaaaa…puxa…..puxaaaa” mais aguerridos pois começámos a levar de todos os lados que a vaca vinha.

Já não tínhamos força para nos puxar um ao outro o que provocava gargalhadas e gozo nas bancadas, até que, numa das vezes que a Vaca saiu da zona do baloiço deu tempo para me esconder dentro de um bidão.


A vaca não perdeu a oportunidade para responder, com mais uma boa dezena de investidas que me valeu quase uma volta à arena com a vaca a empurrar-me.

Recordo-me que quando parou, estava completamente tonto, tendo ficado agarrado uns segundos à trincheira até recuperar o equilíbrio, enquanto o bandarilheiro de serviço fazia passar a vaca pelo capote e o Joca fazia uns quites á vaca, num jogo de aparece e esconde.

Depois de recuperado começámos a tourear a vaca com um capote, em que o movimento feito por nós ao afastarmo-nos deixava a vaca passar pelo meio, altura em que lhe dávamos umas palmadas, escondendo-nos rapidamente atrás do capote para que a vaca voltasse a investir do mesmo modo.

Entre marradas, desequilíbrios e corridas para a trincheira, tivemos de pegar a vaca pois estava previsto uma barrela à barba da Vaca e não havia outro modo, pega feita e imobilização da Vaca executada, isto tudo feito com as gargalhadas a saírem-nos sem controlo.

Iniciámos o escanhoar com uma pasta branca que nos foi dada pela organização, tendo terminado a função após o respectivo barbear com a navalha de barba gigante e um novo penteado no pelo da vaca onde deixámos presos com um elástico uns óculos de sol de plásticos verdes que fazia parte do kit, desorganizado de uma mala enorme.

Estávamos no fim da actuação e naturalmente começámos a agradecer ao público dando a volta à arena após toda aquela loucura, quando, com alguma surpresa nossa, recebemos um toque de aviso do director da corrida, dizendo-nos que teríamos de pôr um par de bandarilhas na vaca de modo que fosse considerada lidada…Bom, isso não estava previsto por nós.

Por sorte e após o final dos treinos dos Forcados simulávamos estes kits em amena brincadeira, pois eram necessários para enganar a vaca de modo que nos desse tempo para a bandarilhar.

Após algumas falhas de propósito com as respectivas bandarilhas espetadas no chão da arena o Joca, fez um kit á Vaca que a deixou á minha frente e zás, bandarilhas espetadas e loucura terminada, após a vaca ter entrado nos curros outra vez.

Aí sim, demos uma volta à arena agradecendo àquele público da Nazaré tremendamente carnavalesco, que nos brindou com a sua alegria. O nosso cachet foi seis mil escudos quiçá a maior quantidade de dinheiro que ganhei a rir-me.

Durante anos o grupo de Palhaços, ia tendo pessoas diferentes, umas por afastamento profissional, outras por modificação familiar ou estado civil e outras ainda pelo afastamento geográfico que tornava difícil a junção nessa data.

É por essa altura que começaram a aparecer grupos de palhaços mais ou menos organizados, sendo um dos seus promotores o Joca Pimenta, Luís Rocha, Eu, Agapito filho, Felizardo filho, estou a referir-me a grupos de palhaços da nossa geração, pois outros grupos continuavam, mas com pessoas da geração dos nossos pais, penso que o Loiça Fina deixou de se mascarar á poucos anos.



O Joca Pimenta foi talvez o indivíduo da minha geração que mais catalisou a máscara de palhaço, não só pelo início mas pelo seu contacto com pessoas que convidava a partilhar daquela festa. Seja-lhe feita Justiça, pois que por razões de trabalho deixou de ser possível de nos acompanhar, pois era o disco jokey da Bonnie and Clyde.

O nosso grupo, nesse ano começou uma rotina que viria a durar mais de uma dezena de anos sempre com os mesmos personagens, Paulo Renato, Eu, Rocha e Viticó. Tivemos como base nesse ano o apartamento do meu primo Viticó na Foz do Arelho. Os fatos foram feitos ao nosso gosto em modistas diferentes. Nesse ano ficámos nas Caldas e nas redondezas, pois o Viticó e o Paulo Renato estavam a iniciar-se e foram “apalpar” o carnaval na pele de palhaço.

No ano seguinte o meu amigo Pina, decidiu também mascarar-se o que para nós foi uma surpresa, pois tinha-lhe mordido o sindroma da “ bétisse ” e não o estávamos a ver mascarado de palhaço.

Mas depois de finais de Janeiro, juntámo-nos para decidir o sítio que iria servir de base nesse ano bem como a cor dos fatos e onde os mandaríamos fazer. A minha modista de serviço aceitou de bom grado a entrada de mais dois fatos, mas o Pina decidiu mandar fazer o fato a outra modista.



O grupo de carnaval tinha ficado com mais um elemento, sendo agora necessário baptizar os ditos palhaços. O meu nome desde o início sempre foi “ Croquete ”( os meus sapatos mais pareciam uns croquetes gigantes do que uns sapatos de palhaço ) o Paulo Renato foi baptizado com “ Trotinete “ o Viticó com “ Trompete”, mas para o Pina não conseguíamos arranjar um nome interessante o que nos levou a ficar com esta missão até quase ao carnaval.

Num dos fins-de-semana em que andávamos de casa em casa, calhou em sorte ficarmos na casa do Pina, um apartamento na altura no Avenal. O referido apartamento ainda não estava totalmente mobilado e viríamos a constatar mais tarde que o construtor tinha deixado um erro terrível na instalação eléctrica da sua casa.

O pseudo erro eléctrico ganhava forma com “…A tomada do candeeiro do quarto dele estava ligado á campainha da porta e sempre que alguém tocava à dita campainha a “luz” do candeeiro do meu amigo Pina apagava-se. Esta situação durou anos a deixar de ser assunto de aperto para ele.”

Após uma longa tarde a ouvir música e a cruzar informação das namoradas e dos flirts que entretanto iam acontecendo, decidimos sair em direcção à Zaira. Nesse percurso o Pina desabafa connosco no carro……” estou mesmo entusiasmado com o apartamento só me falta comprar mais uns” Etrómésticos”. Olhámos uns para os outros, soltando de seguida uma magistral gargalhada, tinha surgido ali o nome com que iria ficar baptizado enquanto palhaço “Etróméstico”, mas as surpresas não terminaram pelo nome.

A base nesse ano foi a casa do Pina, onde acampámos durante três noites. A nossa mala era atafulhada com fatos de outros anos e o respectivo fato novo (todos os anos mandávamos fazer um), cabeleiras e apêndices para fazer uns truques trapalhões dignos da personagem de palhaço, tornando o chão do espaço onde nos mascarávamos numa feira de roupa de palhaço, meias, cabeleiras, caixas com tintas, bases, lápis pretos e a imprescindível afiadeira.

Quando estamos a mostrar os fatos do ano, eis que chega a vez do Pina que nos deslumbra com um fato digno do sindroma em que estava mergulhado (bétisse), um fato de palhaço em que o casaco tinha um corte de asa de grilo com um padrão de fundo cor-de-rosa com bolas brancas de alguma dimensão, esse casaco era acompanhado com uns calções verdes florescente debruado com uma fita no seu final do tecido do casaco às bolas, claro está que lhe moemos a cabeça nessa noite especialmente durante as viagens entre os sítios de divertimento.



Esse Carnaval foi marcado pelo debute do Pina que tínhamos de o trazer de todos os sítios quase pelo pescoço pois ele não parava e as tintas e a cabeleira eram mero adereço de ocasião. Nesse ano o grupo ficou mais forte pois funcionámos muito bem.

Nos anos seguintes fomos deambulando de casa em casa, entre cabeleiras feitas dos mais estranhos materiais (esfregonas e carpetes felpudas, por exemplo), jantares e saídas diabólicas para todos os Corsos e festas na zona desde a Nazaré até Torres Vedras que nessa altura, já era o melhor carnaval da zona Oeste, onde as matronas na altura eram já o seu cartão-de-visita.

È sensivelmente nesta fase que a máscara de Palhaço se torna quase obrigatória aos foliões, pelo menos no sábado de carnaval nas Caldas da Rainha. Recordo-me de tentar ver uma máscara diferente na Praça da Fruta e não conseguir, ou seja a máscara de palhaço, foi adoptada por quase todos os foliões durante cerca de três anos.



Num desses anos criámos a nossa base de carnaval na minha casa no Montijo, cidade onde decidi viver por razões profissionais.

Esse ano viria a ser um dos mais diabólicos carnavais de que me lembro. O Viticó, Renato e Pina, apareceram na sexta-feira à tarde, faltando o Luís Rocha que por razões profissionais não poderia ir, prometendo que apareceria na segunda-feira à noite, promessa que aliás cumpriu.

Após as farpelas estarem devidamente acomodadas no chão da sala e dos quartos fomos jantar e apalpar o andamento do carnaval por Alcochete e Montijo, na Renault 4 branca do Paulo Renato sempre conduzida pelo Pina que nessa altura era o único que não bebia umas minis …Nessa noite decidimos não nos mascarar aproveitando para descansar para o outro dia após umas horas de conversa pelo Alcache em Alcochete.

Essa noite valeu uma manhã inteira a dormir, só se ouvindo os primeiros passos por volta da uma da tarde. Esse dia foi o inicio das hostilidades carnavalescas para nós, por terras do Porco.

Após uma tarde em que fizemos as últimas compras necessárias para as pinturas, começámos a mascarar-nos por volta das 19h00, para jantar no Tia Maria, restaurante na altura no centro do Montijo.

Ao entrar no restaurante os empregados fuzilaram-nos com o seu olhar de reprovação, pois de facto não estavam habituados a servir grupos de palhaços.

Mas com os nossos sorrisos e gestos mais adequados à máscara, conseguimos descongelar o olhar e expressão facial dos empregados, que lá nos encaminharam para nos sentar numa das mesas do canto com ampla vista para todo o restaurante.

Lembro-me ainda da sobremesa, um doce fenomenal que comi, de nome serradura real, que me fez tomar por mais umas vezes o caminho desse restaurante após o carnaval.



Nessa noite após o jantar fomos para Alcochete, parámos num bar que ainda hoje existe de nome Alcache que nos fez as honras de carnaval, já que, éramos os únicos mascarados da ocasião, entre uns copos, gargalhadas e umas assobiadelas, lembro-me que houve um grupo de miúdas que se meteu connosco, tendo terminado com umas fotografias já com o Pina dentro do carro a querer sair pelo vidro da 4L.

A noite evoluiu com a nossa passagem pela Banda Democrática e pelo Portugal duas das mais afamadas discotecas na altura pelos lados do Montijo.

O dia seguinte começou mais cedo do que o costume. Decidimos que iríamos ao Corso do Montijo com a nossa arma secreta desse ano. Essa tal arma secreta tinha um nome devidamente adaptado ao seu modo de actuação O “FeroZZZ” .

Um cão em esponja pintado de preto suportado por uma vara de aço que o fazia vibrar e deslizar na estrada tal como um cão de pequeno porte. Após as pinturas e pequenos-almoços despachados, entrámos no Corso, com os respectivos adereços, gaiolas, Ferozz, vara de equilíbrio da garrafa de mini, havendo sempre um que só levava um chapéu de varetas para o suporte do grupo.

O digno fiel tratador da nossa fera nesse dia foi o Pina “ Etróméstico” que com a sua voluntariosa e incisiva energia deambulou pela assistência ao desfile, fazendo soltar gritos de susto a algumas senhoras mais impressionáveis, sendo prontamente acalmadas pelos digníssimos, Croquete, Trotinete e Trompete ora mostrando o imaginável canário na gaiola de porta aberta, ou distribuindo umas festinhas com as luvas de algodão de cor branca.

Esse foi o dia de Corso Carnavalesco que mais sucesso nos proporcionou.

Inclusive tivemos honras de primeira página no Correio da Manhã, com várias fotos na capa e no artigo com o famoso “Feroz” ,a indubitável fera em actuação animada pelo “Etróméstico”, tal foi a empatia que fomos criando conforme as voltas do desfile iam acontecendo.

Essa tarde acabou num café de nome César que ainda hoje existe na praça do centro do Montijo a comer uns pregos. Mas claro a noite estava a entrar e ainda havia muito para foliar, após uma passagem pela base de carnaval, fomos em direcção a Setúbal para a nostálgica Seagull, situada na serra da Arrábida um pouco antes da Figueirinha que infelizmente ardeu há um bom par de anos.

Ai aconteceu o inesperado. Embrenhamo-nos de tal maneira na pista de dança que nos perdemos uns dos outros. Foi preciso passar mais de uma hora para que nos voltássemos a reunir e combinar a nossa saída e regresso de Setúbal para o Montijo.

Bom, sei que chegámos, que nos deitámos, mas ainda hoje não sei como o fizemos, nem mesmo o “Etróméstico” o nosso fiel condutor nos confessou como chegou. Nestas andanças há sempre algo que fica, uma delas foi verificar no dia seguinte que o Trotinete tinha-se entretido a encher a gaiola dos virtuais pássaros de copos durante a noite no Seagull decidindo fazer a viagem de regresso a casa com a respectiva gaiola cheia de copos nessa noite.

Foi uma noite e uma manhã de recuperação que foi interrompida pelo Luís Rocha, fazendo-nos uma visita tal como tinha prometido. A partir daquele momento o “Clarão”, tornou-se num furacão, pois estava de baterias carregadas e cheio de energia para se mascarar.

Tivemos um acordar violento que o Trotinete e o Trompete repudiaram, mandando uns sobreiros e carvalhos de boa rama ao chão. Nesse dia ou melhor nessa noite o Clarão deu largas ao seu apito, em todo o sítio onde ia criando uma má vizinhança, até que entre a passagem da discoteca Portugal para a Banda Democrática com uma passagem por Alcochete sofreu um assalto, feito pela trupe na qual o resultado foi o desaparecimento de tal instrumento de super agudos.

O Clarão ficou inconformado, ficando ainda mais rosado na sua cara redonda que era semi tapada por um chapelito digno do mais delirante ciclista do pelotão da volta a Portugal, voltando a ver o famoso apito somente no dia seguinte.

Esse ano carnavalesco terminou com a despedida destes meus amigos do sítio onde montamos a base no Montijo.

Em Dezembro desse ano o Rui Aniceto, (irmão do Parrila, que na altura era um dos sócios de uma discoteca do Montijo de seu nome Alcunhas) pediu-nos ajuda para a festa de natal das crianças da empresa onde trabalhava. Sondei o Pina para me fazer companhia na actuação.




O meu amigo Pina nem pestanejou aceitando logo no momento do convite. Esse final de tarde valeu-lhe uma enorme dose de farinha branca e água por cima da cabeleira e das calças. Essa foi sem dúvida talvez a última brincadeira mais elaborada em que participamos.

No decorrer do ano seguinte, algo viria a acontecer que iria abalar todas estas personagens.

Num dos dias mais tristes desta minha vida, um dos elementos do grupo sofreu um acidente de viação grave que lhe ceifou a vida. Foi algo que me abalou, sacudiu e fez-me mergulhar numa tristeza que me inibiu durante mais de uma dúzia de anos de me mascarar. Tínhamos perdido o “Trompete” ….Esse episódio foi marcante e castrador emocionalmente para todos nós.

A “TI” meu querido amigo Viticó dedico, esta crónica de passagens carnavalescas, sorrisos, partidas e malandrices que tão bem fazíamos e dos quais eras sempre um dos mais disponíveis para o fazeres.

Até um dia desses Primo “ VITICÓ “.


Um muito OBRIGADO ao Pai Pimenta, Mãe Pimenta e ao meu grande amigo Joca Pimenta pela ajuda necessária para conseguir sincronizar alguns anos de Carnaval entre as duas gerações.



 
Post de António J.F. Albano