sábado, 27 de novembro de 2010

ÉRAMOS ENDIABRADOS - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO



Desde que comecei a ler as crónicas do Paulo pensei escrever qualquer coisa, mas a vida agitada, o excesso de trabalho e essencialmente, o não ter a certeza do que gostaria de partilhar que constituísse memória dos anos em causa, levaram-me sempre a arrepiar caminho.

Lembro-me de inúmeras peripécias desses tempos, que envolveram amigos e colegas de escola em situações mais ou menos caricatas. Do que me lembro essencialmente é que constituíamos uma geração engraçada e algo provocadora, numa época em que se estabelecia a transição entre as educações rígidas que a maioria de nós teve, e as bastante menos rígidas, já para não dizer, talvez um pouco facilitadoras demais, que a maioria de nós acabou por dar aos filhos.

No nosso tempo não se questionavam as opiniões e ordens dos mais velhos e cumpria-se um sem fim de regras, que agora nos parecem na sua maioria obsoletas. Até nos rimos quando recordamos que tivemos de implorar e batalhar pelo direito de ir a pé para a escola, ao passo que agora, os nosso filhos nem imaginam a possibilidade de não serem transportados para todo o lado por pais, avós ou quem quer que tenha alguma disponibilidade.


A minha irmã dizia-me há uns anos que por vezes se sentia um híbrido entre táxi e multibanco e parece-me que muitos de nós já tiveram essa sensação, nem que fosse por uma vez. Os nossos filhos convencem-se por vezes de que fomos um grupo ordeiro que jamais deixava de cumprir aquilo que estava estipulado e, embora em grande medida fosse isso que era de nós esperado, o facto é que nem sempre assim acontecia.


A grande diferença em relação ao que hoje se passa, era que nós fazíamos imensas coisas que não eram bem aquilo que entre aspas, deveríamos, mas sempre com alguma consciência dos limites que não se podiam mesmo ultrapassar.

Hoje em dia, penso que muitos miúdos se esquecem desses limites e isto é uma questão absolutamente transversal em termos sociais. Não é um problema de ricos e pobres, ou de mais ou menos cultos e educados, mas algo que se tem vindo a enraizar na sociedade de tal maneira, que mesmo os pais que têm noção de que as coisas não estão muito bem, acabam por ter dificuldade em remar contra uma maré que se avoluma e ganha força de dia para dia. É o conceito do “eu mereço”, que se difundiu num clip publicitário de um leite qualquer, mas se traduziu entretanto, na ideia de que tudo merecemos e a tudo temos direito, quando de facto nem tudo merecemos e muito menos, a tudo temos direito.

De qualquer forma, e voltando ao tema inicial, nós éramos endiabrados e muito nos divertimos com isso. Por isso e para que os participantes se lembrem e riam, e os não participantes também se possam rir, aqui ficam alguns registos de peripécias mais ou menos amalucadas de que me recordo.

A primeira que me ocorre é sem dúvida uma célebre noite no Inferno da Azenha em que estava com as amigas de sempre: a Lúcia, a Isabel, a Minela, a Sami e de certeza mais umas quantas. Estávamos no primeiro andar e todas ou quase todas já um bocadinho entornadas, quando de repente dou com a Minela a descer as escadas muito devagarinho, e a cada degrau que descia, dizia uma célebre frase que ficou para a História: “Minela, uma senhora nunca se embebeda.”, e lá descia mais um degrau…

Foto de Margarida Araújo

Outra peripécia engraçada mas bem mais antiga, remonta ao meu sétimo ou oitavo ano, quando decidi com a Anita não ir a uma aula qualquer, que entretanto já tinha começado. O problema foi que tínhamos os livros e cadernos dentro da sala e precisávamos de os tirar de lá, de forma que, achámos por bem pormo-nos de gatas e, quando o professor abriu a porta, puxar-lhe pelas pernas das calças e pedir-lhe que se afastasse, que íamos só lá dentro buscar uma coisa… e lá fomos nós de gatas ao outro lado da sala buscar os nossos pertences, e de novo até à porta, perante o olhar estupefacto de professor e colegas. Penso que o Prof. ainda hoje deve pensar porque carga de água não reagiu…

Também me lembro de passar uma aula de inglês inteira a mudar a fralda a um rato de pano com a Anita. Usámos um lenço de papel e conseguimos boicotar completamente o trabalho da desgraçada que teve e infelicidade de nos ter na turma. O problema era que ainda por cima éramos alunas de vinte a inglês e portanto as represálias não eram fáceis de exercer. Enfim, as coisas que os professores aguentavam… eram pelo menos mais divertidas que as que aguentam hoje, e bastante menos graves.

Também me lembro de um célebre sardão que o Mota largou no liceu… Deu um frufru medonho, houve senhoras em cima das mesas aos gritos e finalmente, quando o sardão foi apanhado e barbaramente encarcerado, pelo Padre Eduardo se não estou em erro, que há-de ter sido o único que lhe conseguiu mexer, os felizes proprietários do animal vieram-me pedir emprestada a pastora alemã para proceder ao resgate. Lá emprestei o bicho mas fiz questão de os avisar que não era grande defesa pessoal de tão amaricada a tínhamos feito. Não se importaram muito, alegando que o Padre não sabia dessas fraquezas da cadela e lá foram, exigir a devolução do sardão, sob pena de atiçarem o cão. Penso que ainda hoje poucos sabem que a pastora era um doce, habituada a brincar com crianças e incapaz de fazer mal a uma mosca. Ehehehe!


Ainda no Liceu, lembro-me bem de saltar pelas janelas dos laboratórios do rés-do-chão para ir laurear a pevide para o Parque; lembro-me também que laurear a pevide significava entre outras coisas, passeios de barco no lago com os pés descalços dentro de água, passar a tarde deitada na relva a roer uma palhinha, muito namoro e alguns passeios para a Foz e S. Martinho, esses mais tarde, já de carro e de mota.

Com a Anita lembro-me de no Carnaval deitarmos estalinhos da janela do terceiro andar da casa dela cá para baixo, e ficarmos deliciadas a ver as senhoras aos gritos e os collants a ficarem cheios de malhas com as faíscas pequeninas que aquilo deitava.

Por essa altura também tínhamos o hábito de ouvir música num volume de som tal que qualquer pessoa que passasse na rua três andares abaixo, poderia identificar claramente as músicas que ouvíamos. Quantas vezes a vizinhança se queixou e quantas vezes a mãe dela se exasperou connosco…

Voltando ao Liceu, lembram-se de quando um professor bem-intencionado se lembrou de dar umas aulas de educação sexual e da raia que isso deu? O infeliz quase foi expulso por estar a corromper as criancinhas e as criancinhas permaneceram tão desinformadas como estavam antes. Os puritanos da época regozijaram-se e à conta disso possivelmente, mais uma ou outra rapariga engravidou a destempo, mais um casalinho se formou prematuramente e mais uns avós tiveram de ajudar a criar netos de filhos adolescentes. Não é que a coisa não continue a acontecer, mas penso (espero..) que já não passaria pela cabeça de nenhum de nós achar que os meninos devem ser mantidos na ignorância.

Também me lembro de uma célebre professora de Português que decidiu dar gramática ditando o conteúdo de uma gramática. Já na altura eu tinha algum sentido prático e perguntei-lhe se aquilo que estava a ler era uma gramática, porque nesse caso se não se importasse, podia dar-me a referência da dita e eu trataria de a comprar e ler, em vez de estar a escrever definições no caderno. Escusado será dizer que ficou absolutamente furiosa e aí… ai que há gente que tem mesmo falta de sorte… não é que me disse que agarrasse nas pernas e fosse para a rua. Quem lá estava deve lembrar-se: saí mesmo agarrada aos joelhos… mais uma aula transformada num circo.

Eu era tramada mesmo, tenho de reconhecer, mas também tinha por lá umas acompanhantes jeitosas. Normalmente eram a Anita e a Isabel Martins, depois juntou-se-nos a Paula Nascimento da Benedita, enfim… meninas com ideias brilhantes. Quando não nos divertíamos a fazer a vida negra aos professores, entretínhamo-nos a escolher os colegas mais tímidos da turma e fazer tudo o que pudéssemos para os fazer corar. Miguel desculpa. Não tínhamos má intenção, mas tu ficavas mesmo giro vermelho que nem um pimentão…

Mas há mais algumas engraçadas: uma das melhores foi quando os três casalinhos da vida airada (leia-se eu com o Quintino, a Anita com o Mota e a Isabel com o Clérigo) tinham o bonito hábito de namorar nas escadinhas da sala de trabalhos oficinais, por traz do Liceu. A coisa estoirou quando um belo dia de manhã a porta das traseiras apareceu fechada a sete chaves. Nunca tivemos s certeza que fosse por nossa causa, mas tudo indicou que sim, a começar nos rumores que por lá andavam. Garantidamente que foi, ou por isso, ou porque o Mota se lembrou de entrar de mota no Liceu pela porta de cima, descer as escadas todas ainda de mota e, sair triunfalmente pela porta principal lá em baixo, com uma quantidade de funcionários a correr atrás dele aos gritos…


Falando em peripécias de mota com o Mota, também me recordo de um célebre passeio de mota em que eu ia com o Quintino, e a Paula Nascimento com o Mota, até que ali para as bandas do Campo, ela lhe meteu o bolso no blusão, deu um valente grito, saltou borda fora, aterrou de rabo no chão, e o Mota parou muito chateado porque ela lhe tinha entretanto feito desaparecer a cobra que ele tinha no bolso…

Voltando às peripécias no Inferno na Azenha, lembrei-me agora de repente de mais três. A primeira foi quando fizeram lá uma rusga, eu, a Lúcia e nem sei mais quem não tínhamos idade para lá estar e nos enfiámos na casa de banho; qual não foi o nosso desconcerto quando a Belão decidiu porque decidiu, que havia de ir à casa de banho naquele momento. Ora mesmo ao lado estava a polícia, o Jorge não conseguia arranjar maneira de lhe explicar porque era que lá estávamos e ela fez um escabeche à porta da casa de banho. Lá a deixámos entrar e ela lá se calou mas ainda hoje acho que a polícia só não nos encontrou porque não quis.

Entretanto nessa altura era também hábito, sairmos da Azenha e ir passear pelas Caldas. Íamos ao pão quente, às vezes directos para a praia, eu sei lá. Lembro-me de que uma vez, andávamos de carro a passear pelas Caldas lá para as sete da manhã e começámos a ver passar as senhoras já velhotas que se levantam cedo, para passear os cãezinhos. Daí a lembrarmo-nos de nos meter com elas porque eram umas vadias, que àquela hora andavam ainda na galderice, foi um passo. Na altura elas riam-se mas se fosse nos dias que vão correndo, o mais certo era as senhoras fugirem o mais que pudessem, com medo de serem assaltadas…

Finalmente, e para terminar este conjunto de peripécias mais ou menos engraçadas, mais ou menos rocambolescas, aqui fica uma que bastante me custou e quem estava presente certamente recordará: o dia em que e minha mãe me estabeleceu uma hora para estar em casa e como não a cumpri não foi de modas – meteu-se ao caminho até à Azenha e pregou-me um valente estalo em plena pista de dança. Essa doeu, mais na alma que na cara, mas doeu. Enfim, ela tinha alguma razão…

Não penso que o fizesse mas os tempos agora também são outros, o que me leva de novo à reflexão inicial, sobre as diferenças de educação entre nós e os nossos rebentos. Ainda não sei dizer qual é melhor, se a nossa se a deles. Penso que ambas pecaram por alguns excessos, sendo que naturalmente os excessos dos nossos pais foram por nós evitados, mas em contrapartida inventámos os nossos próprios excessos. Isto de educar meninos não tem receitas e não é fácil evitar alguns erros. Nós fomos talvez educados com demasiada severidade, até porque ficou patente nas linhas acima, que sempre tivemos meios de ultrapassar a maioria das regras. Os nossos filhos tiveram talvez a vida facilitada demais e muitos sofreram por falta de preparação para o mundo real, fora da saia da mãe e da mão protectora do pai. Se os nossos filhos conseguissem evitar os erros dos pais e dos avós seria fantástico, mas infelizmente a memória de cada geração é principalmente prisioneira dos factos vividos e esses confinam-se quase exclusivamente à geração anterior.



Post de Maria João Sacadura

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

NÃO É PRECISO CORAGEM


Para escrever não é preciso talento
É preciso coragem
Coragem para começar
Coragem para continuar.

Quando falamos de nós e não dos outros
É preciso coragem
Coragem para nos expor
Coragem para partilhar!

Para ser solidário não é preciso talento
É preciso coragem
Coragem para começar
Coragem para continuar

Quando damos algo de nós e não dos outros
É preciso coragem
Coragem para dispor
Coragem para partilhar!

Em ambos os casos
o que é preciso é começar
Depois, continuar

E finalmente veremos que a nossa coragem
Só é mesmo necessária
Se formos os únicos.
Se estivermos sós!



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

EM SERVIÇO PÚBLICO

OBRIGADO SENHOR GULBENKIAN

Ainda hoje não consigo entender muito bem as razões porque Calouste Gulbenkian se decidiu a ficar em Portugal e dedicar toda a sua fortuna à instrução, formação e cultura do povo português.

Para quem conhece pouco a sua história direi que era um rico comerciante arménio nascido em Scutari, Turquia e que por disposição testamentária, antes de morrer em Lisboa, determinou que a maior parte de sua fortuna, acumulada na indústria e no comércio do petróleo, além de quadros e objetos de arte, fossem destinadas para uma fundação em Portugal, a Fundação Gulbenkian (1955), cujo objectivo seria promover a caridade, a educação, a arte e a ciência.

Cônsul-geral do Irão em Paris, no início da segunda guerra mundial refugiou-se em Portugal (1942), onde fixou residência.

Era conhecido como "senhor cinco por cento" devido à sua participação de 5% na Iraq Petroleum Company.

Em Abril de 1942, entrou em Portugal pela primeira vez, convidado pelo embaixador de Portugal em França.

Inicialmente, Lisboa seria apenas uma escala numa viagem a Nova Iorque, mas o empresário adoeceu e acabou por ficar mais tempo do que planeara, agradado com a paz que em Portugal se vivia durante o conflito que devastava o resto da Europa. Sentindo-se bem acolhido, estabeleceu residência permanente em Lisboa, no Hotel Aviz. Acabou por se instalar definitivamente em Portugal até à sua morte em 1955.


O testamento, datado de 18 de Junho de 1953, criou a fundação com o seu nome que ficou herdeira do remanescente da sua fortuna, e que tem fins caritativos, artísticos, educativos e científicos, elegendo Portugal para a sua fixação - agradecendo, postumamente, o acolhimento que teve num momento crítico da história da Europa e sabendo o respeito que em Portugal haveria pelo escrupuloso cumprir da sua vontade.

Já ouvi testemunhos de Mário Soares e de Jorge Sampaio que foram seus advogados e que referem que o facto de Gulbenkian ter permanecido no nosso país quando de inicio estaria apenas em trânsito para um exílio nos Estados Unidos, foi o facto das pessoas o cumprimentarem sempre com um sorriso e um bom dia no elevador do Hotel e nos cafés sem mesmo saber quem ele era. Dizia que isso era raro nos outros países que visitara.

Um bom dia com um sorriso fez com que Portugal beneficiasse por mais de 50 anos da sua generosidade, da sua solidariedade.

A minha crónica de hoje, ‘’EM SERVIÇO PÚBLICO’’ fala de mais um episódio pitoresco da minha adolescência, fala da minha paixão pelos livros, fala dos momentos que eu deixava a minha mente voar para os mundos dos piratas do Capitão Morgan e do Sandokan, para a selva de Tarzan, para as sete partidas do mundo de Júlio Verne e até para os fantásticos lanches dos Cinco! Fala da Biblioteca Gulbenkian instalada no parque D. Carlos I!

Devo muito à biblioteca Gulbenkian em termos de instrução, formação e lazer. Os seus livros ajudaram-me tanto a superar aqueles dias tristes de chuva de inverno que, por fim, já ansiava por eles.

Olhando agora para trás, vejo que também eu beneficiei da generosidade, da bondade de um refugiado estrangeiro, que apenas procurava abrigo de um mundo em guerra.

Ainda hoje existe quem procure abrigo de uma sociedade desequilibrada. Mas muitos não têm os meios de Calouste Gulbenkian.

E assim e agora, chegou também a minha vez de retribuir a generosidade de Calouste Gulbenkian, ajudando quem mais necessita.

Por isso no dia 11 de Dezembro estarei em Óbidos na Festa Anos 70 e 80 em Apoio à Instituição AJUDA DE BERÇO.






EM SERVIÇO PÚBLICO

Já anteriormente, em outras crónicas, abordei a importância que a Biblioteca Gulbenkian, instalada num dos pavilhões do parque, teve não só para mim mas para toda a população das Caldas e muito particularmente para os jovens da minha geração.

Adquirir livros não era um acto tão corriqueiro quanto o é hoje e o poder económico das familias nos anos 60 e 70 não era grande. Apesar de existirem várias livrarias nas Caldas como a Parnaso, a Pelicano, a Polana e a Tertúlia e a Tália também vendiam livros algumas papelarias como a Áurea, o Silva Santos, a Átila e ainda a Jornália. Contudo comprar livros ao ritmo da sua leitura era despesa completamente impensável quando o rendimento familiar era contado até aos tostões.

Daí que no seguimento da biblioteca instalada em 1962 num pavilhão do parque já com leitura domiciliária, foi inaugurada oficialmente em 1969 a biblioteca nº 156 da Fundação Gulbenkian. Esta biblioteca da Gulbenkian passava agora a ser fixa depois de anos em que serviu as Caldas com serviço itinerante.

E assim, a partir de meados dos anos 70 passei a frequentar assiduamente a biblioteca, tornando-me um utilizador frequente e constante e foi graças a esta biblioteca que pude aceder às obras que ilustraram a minha adolescência. Primeiro as obras de Julio Verne, Emilio Salgari, Enyd Blyton, Edgar Rice Burroughs, Leslie Charteris, Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle, George Simenon, Paul Feval, Erle Stanley Gardner, Ellery Queen, Alexandre Dumas e depois os autores portugueses, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão.


Entrava na biblioteca e depois de apresentar o meu cartão à bibliotecária sentada à direita de quem entra e apresentar os livros que levara para casa, disparava para as prateleiras situadas imediatamente à esquerda da porta de entrada.

Sabía que iria aí encontrar os livros indicados para a minha idade. A forma de classificação da biblioteca era bastante interessante com etiquetas coloridas na lombada de cada livro. Cada cor indicava o limite mínimo de idade a que podíamos aceder ao título. Os livros estavam dispostos por cores e eu sabia quais as prateleiras que continham os livros que podia levar para casa. Eram as à esquerda da porta. Só à medida que fui crescendo pude aceder às outras prateleiras, primeiro às do centro e depois às do fundo. Nunca cheguei às da direita e muito menos à sala do fundo onde estavam as preciosas encadernações resguardadas das mãos das crianças. No inicio dos anos oitenta quando parti para Lisboa já pouco utilizava a biblioteca que contudo se manteve em funcionamento até 1997.

O meu gosto pela leitura ficou mas ainda hoje me custa pegar em livros que não são meus, com receio de os estragar, com pena de não os manter!

A biblioteca cedeu o seu lugar à Biblioteca Municipal, erigida na Rua Vitorino Froes mas ainda hoje ao passar diante da porta da antiga biblioteca sinto uma grande nostalgia desses momentos passados no seu interior em busca de um novo título ou de quando quase corria para o parque logo após a hora de abertura para verificar se já fora entregue o livro que eu perseguia há semanas.

E ao olhar para aquela porta interrogo-me como teriam sido diferentes aquelas tardes de inverno chuvosas se não tivesse a companhia de todos aqueles livros cuja leitura a biblioteca me proporcionou.


E pergunto-me também como terão passado os outros jovens mais velhos do que eu se não fosse o serviço que a biblioteca e a Fundação Gulbenkian proporcionou à população caldense.

A história do serviço bibliotecário nas Caldas é interessante. Só nos finais dos anos 40 se instalou a primeira biblioteca nas Caldas quando uma comissão sob o nome de Grupo de Amigos da Biblioteca conseguiu reunir suficientes donativos e obras suficientes para constituir uma primeira biblioteca que ficou guardada no Sindicato dos Caixeiros.

Depois conseguiu-se instalar provisoriamente num dos arruamentos do Parque, por trás da estátua de Ramalho Ortigão, uma biblioteca de apoio ao jardim apenas com uma estante e uma mesa. Os livros tinham de ser lidos no local e devolvidos antes do encerramento.

Biblioteca instalada no Jardim Teófilo Braga (Jardim da Parada) em Campo de Ourique.
A biblioteca do Parque D.Carlos I deveria ser semelhante a esta que data da mesma altura.

Só em 1962 se inaugurou uma biblioteca com serviço domiciliário num dos pavilhões do parque, calculo que no mesmo local onde se situou a Biblioteca Gulbenkian que lhe sucedeu em 1969.

Esta biblioteca substituiu o serviço itinerante que a Gulbenkian já proporcionava à população local.

Os serviços bibliotecários itinerantes da Gulbenkian foram criados em 1953 e eram constituidos por unidades móveis, carrinhas Citroen Hy especialmente adaptadas para o efeito que transportavam no seu interior mais de 2000 livros.


Passaram a servir a população das Caldas e concelhos limítrofes a partir do inicio dos anos sessenta e as suas distintivas carrinhas Citroen ‘’Rinoceronte’’ tornaram-se famosas por todo o país.

Mal saberia a Gulbenkian que utilidade teria uma dessas carrinhas após a sua merecida reforma!


No inicio dos anos 80, um nosso amigo,o Luis Oom, apareceu um dia na Foz, onde a sua familia ainda hoje mantém uma casa de férias, com uma dessa carrinhas que tinha adquirido não me lembro em que circunstâncias.

A carrinha mantinha a iluminação original ou fora-lhe instalada um género de gambiarra e no seu interior foram montados uns divãs e uma mesa com banqueta. Parecia uma autocaravana rudimentar!

O Luis mostrou-a orgulhoso a todos os seus amigos e todos tivemos direito a dar uma volta. Finalmente, no sábado seguinte, o Luis decidiu ir nela até à Green Hill.

Estacionou-a triunfante perto da entrada, com a frente a dar para a parede à direita da entrada onde pediu ao Sr. Beja que lhe fosse deitando um olho.

Nessa mesma noite um seu amigo, conhecido por todos os que desde sempre frequentaram a noite da Foz, veio pedir-lhe um grande favor. Queria namorar à vontade com a sua namorada de há muito e gostaria de poder estar mais em privado com ela na carrinha Citroen.

No inicio o Luis recusou veemente mas depois ainda que relutante aquiesceu ao pedido do seu amigo mas encheu-o de recomendações e alertas para manter a decência.

Que sim, afiançou-lhe o amigo. Não haveria lugar a nenhuma falta de respeito, seria tal e qual o namoro no interior da discoteca mas ao abrigo dos olhares e das bocas dos amigos.

O Luis ainda se manteve muito preocupado. Tinha medo do que poderia acontecer e do que isso poderia ter como consequências para si próprio como proprietário da carrinha. E ficou ainda mais de pé atrás quando o amigo lhe garantiu que não aconteceria nada mais do que normalmente acontecia no interior de qualquer outra viatura estacionada no parque da Green Hill. O que ele foi dizer!!!


Finalmente com a garantia da jovem namorada ele lá entregou as chaves da Citroen e o casalinho lá foi todo lampeiro para a viatura.

Mas o Luis continuava inquieto e acho que só sossegou quando o Rodrigo, o ‘’Batata’’, subiu ao tejadilho da carrinha e espreitou pela claraboia que aí existia, certificando-lhe que tudo se mantinha dentro dos limites da decência.

A partir dessa vez foram muitas as noites que a carrinha esteve estacionada à porta da Green Hill e foram também muitos os pedidos que o Luís teve para ceder a viatura por alguns minutos. O Luís mostrou-se algumas vezes irredutível mas a verdade é que de vez em quando lá a voltava a emprestar. Contudo, os pedidos eram tantos que sugerimos que começasse a cobrar e a determinar o período de tempo de utilização para dar lugar a todos.
Foi o suficiente para o Luis desaparecer com a carrinha e até hoje não voltei a pôr-lhe a vista em cima!

Que será feito dela? Terá a Gulbenkian consciência do enorme serviço público que aquela Citroen continuou a prestar ao longos desses anos após a sua reforma?






AS BIBLIOTECAS ITINERANTES DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN (1958-2002)
Texto Complementar à crónica ''Em Serviço Público''


Para o início efectivo das bibliotecas móveis em Portugal é apontado a data de 1953, referente ao início dos serviços de uma biblioteca-circulante, implementada por Branquinho da Fonseca, no Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, onde na altura exercia funções de conservador-bibliotecário. Esse carro-biblioteca deslocava-se até “às associações, escolas e lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo domiciliário, o acesso ao livro pela população.” [Neves, pág. 3]. Era de carácter gratuito e o acesso às estantes era livre.

Biblioteca móvel, do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, de Cascais
(ver fonte no fim do post)

Em 1958 a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) criou, por sugestão do mesmo Branquinho da Fonseca, um serviço similar ao de Cascais, mas que almejava abranger todo o território nacional, incluindo mesmo os arquipélagos. Surgiu assim o Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI), que B. da Fonseca dirigiu até à sua morte (1974). Este tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” [Neves, pág. 3] Afigurava-se como tal um serviço de leitura pública moderna.

O público a quem era mais dirigido o serviço era sobretudo aquele que era mais parco no acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mas desfavorecidas. estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia será no público mais jovem que este serviço terá melhor acolhimento, apesar de se pretender contemplar de modo símile todas as idades. (ver [Melo, 2004a])

“As bibliotecas itinerantes ou carros-biblioteca levavam a bordo cerca de dois mil volumes arrumados nas estantes. Nas prateleiras de baixo, encontram-se os livros para crianças, nas prateleiras do meio a literatura de ficção, de viagens e biografias e, por fim, nas de cima os livros menos procurados, de filosofia, poesia, ciência e técnica. Circulavam por territórios que abrangiam mais do que um concelho, permitindo, após o cumprimento das formalidades de inscrição e requisição, o empréstimo dos livros por períodos de um mês, prorrogáveis, sendo até possível efectuar reservas.” [Neves, pág. 3 e 4]

A opção inicial por bibliotecas itinerantes foi motivada sobretudo pelo facto de grande parte das populações nunca antes terem tido contacto com este tipo de serviço e como tal revelava-se essencial ser a biblioteca a deslocar-se até elas, até em razão dos potenciais leitores possuírem poucos tempos livres, e de os meios de deslocação dos mesmos serem escassos. Com os veículos móveis era possível chegar ao Portugal mais profundo, dos pequenos lugarejos, de habitações mais dispersas (e uma grande parte destes povoados nem se localizava propriamente no interior do país). Indubitavelmente o cerne deste serviço era o leitor e as suas efectivas necessidades, o que era algo incomum nas bibliotecas mais tradicionais portuguesas. (ver [Melo, 2004b, pág. 282-83 e 330-331])

Este serviço era em muitos casos o único contacto com os livros que se possibilitava a muitas populações. Todavia, observa-se o cuidado de não atender apenas à leitura lúdica (embora seria esta a mais saliente) mas também à leitura informativa e formativa, abarcando o maior número de temáticas possíveis (e também incluindo nestes manuais de estudo, oficiais). A escolha do fundo documental obedecia a critérios bem definidos, por uma comissão, e era publicado num catálogo, actualizado regulamente (o primeiro, de 1960, possuía 1674 títulos diferentes). No acervo das obras disponíveis foram-se incluindo mesmo, embora lentamente e com certas reservas, algumas obras que não eram muito do agrado dos dirigentes políticos do Estado Novo. Ressalva-se, todavia que o empréstimo deste tipo de obras, era restrito a certas pessoas. (ver [Melo, 2004a])

Bibliotecas Itinerantes (Citröen) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Inicialmente, em 1958, foram colocadas em circulação 15 bibliotecas itinerantes (sobretudo na região de Lisboa e litoral), mas o seu crescimento inicial foi deveras acentuado, sendo que em 1961 já circulava pelo país (estendendo-se ao interior) um total de 47 veículos de marca Citröen. (ver [Melo, 2004b, pág. 334]) “No que concerne ao pessoal que assegurava o funcionamento destas unidades móveis, era constituído por dois elementos: o auxiliar e o encarregado, responsável pela biblioteca, a quem competia orientar o leitor nas suas escolhas de leitura”. [Neves, pág. 4] O encarregado “não tinha de de ter nenhum curso específico, nem sequer de ser diplomado, apenas precisando de ser alfabetizado, evidenciar alguma cultura geral, gosto pelo livro e predisposição para o contacto com o público”. Entre eles incluíram-se “grande número de intelectuais reconhecidos” como Alexandre O’Neill ou Herberto Hélder [Melo, 2004b, pág. 285]

A FCG estabeleceu parcerias com as autarquias, em que estas cediam instalações para depósitos de livros (cada carrinha tinha o espólio no interior e mais o dobro de reserva num espaço exterior) e pontualmente contribuíam para o pagamento das despesas, ao passo que à FGC arcava com o grande ónus das expensas (fornecer o acervo de obras, o biblio-carro, pagar os honorário do pessoal, o combustível, despesas de manutenção e conservação, etc). (ver [Melo, 2004b, pág. 283-84]) A Gulbenkian teve assim a incumbência de se substituir em grande parte ao Estado a sua função de criar uma rede de bibliotecas, até pelo facto de o Estado não estar muito interessado na formação de cidadãos plenamente esclarecidos e informados. Por outro lado, e reportando somente ao valor material do livro, o seu corrente acesso era na época apenas factível a classes mais favorecidas.

Este serviço itinerante teve desde o seu começo uma elevada recepção, sendo que somente três anos volvidos, em 1961, o número de leitores inscritos era de cerca de 250 mil e foram requisitados cerca de 2,5 milhões de livros. Apenas para se observar a acentuada evolução, no ano seguinte o número de leitores inscritos era já de cerca de 350 mil e foram requisitados cerca de 3,5 milhões de livros (ver [Melo, 2004b, pág. 334])

Gradualmente, desde o 2º semestre de 1959, foram-se instalando algumas bibliotecas fixas, sobretudo em locais de maior centralidade e inseridas em organismos públicos, o que induziu, pelo menos a um acréscimo mais paulatino dos efectivos móveis. Em 1962 já existiam 36 bibliotecas fixas e 47 móveis, o que já evidenciava uma razoável cobertura do país. “Em 1963 introduziram-se as bibliotecas itinerantes e fixas nos Açores e na Madeira. Em 1967 contabilizavam-se 205 bibliotecas (61 móveis e e 144 fixas) (ver [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Ainda assim, só em 1972, é que a própria FCG deu por «concluída» a sua rede de bibliotecas itinerantes e fixas, totalizando, respectivamente, 62 e 166 unidades” Nesse ano existiam cerca de 475 mil leitores inscritos e foram requisitados cerca de 6 milhões de livros. [Melo, 2004b, pág. 291 e 334]. As Bibliotecas móveis sempre serviram aos povoados mais pequenos e periféricos ao inverso das fixas.

Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Desde o início da década de 70 o projecto SBI vê a sua sustentação fragilizada no seio da FCG, pois esta pretendia que as despesas (bastante elevadas e com um 'retorno' algo dúbio) fossem repartidas com o poder central e local. Em 20-2-1974 chegou mesmo a existir uma reunião onde se discutiu a extinção da SBI, contudo a eclosão do 25 de Abril, mudou o panorama global e o serviço manteve-se, sofrendo algumas reestruturações.

No período (1981-1996) em que Vergílio Ferreira foi director do SBI, foi enfatizado a animação da leitura e a difusão literária e cultural. Deste modo forami reforçadas as actividades de promoção da leitura e dos livros (exposições, debates, encontros com autores, leitura de contos e poesia, etc.) nas bibliotecas Gulbenkian. Em 1983 o SBI foi renomeado SBIF (Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian).

Vergílio Ferreira”foi um defensor da manutenção do projecto de bibliotecas FCG, pois entendia que a proposta lançada pelo IPLL não era uma alternativa completa, dado não cobrir então todo o pais (excluía as regiões autónomos) e por não ter um serviço de unidades itinerantes.” [Melo, 2004b, pág. 302].

A implementação gradual do Programa Nacional de Leitura Pública, a partir de 1987, que visava a construção de bibliotecas de feição mais moderna de acordo com os princípios de Manifesto da UNESCO contribui para o decréscimo progressivo do número de efectivos da SBIF que se vinha registando desde o início da década da década, sobretudo de móveis que rapidamente se extinguiram (ver[Melo, 2004b, pág. 294-298]. Por outro lado muitas das novas biblioteca da Rede Nacional de Leitura Pública começaram a integrar o serviço de biblioteca itinerante. Contudo em muitos dos casos a gradual ausência das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian das povoações, não foi colmatada pelos novos serviços móveis, sobretudo nos povoados mais periféricos.

Em 1993 o SBIF passava a SBAL (Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura) e em 19 de Dezembro de 2002 era definitivamente extinto.

Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

No total, segundo aponta Manuel Carmelo Rosa, director do Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Gulbenkian, o serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da FCG emprestou ao longo de quarenta e quatro (1958-2002) anos cerca de 97 milhões de livros e, chegou a quase 29 milhões de leitores, distribuídos por cerca de três mil novecentas povoações. Para cumprir com sucesso esse serviço adquiriu ao longo dos anos mais de cinco milhões de livros. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Estes números são muito diferentes do que Daniel Melo apresenta. Relativamente ao número de empréstimos, e apenas entre 1958 e 1989, este regista 140 862 248 livros emprestados; e no mesmo período de tempo relativamente a livros adquiridos regista 7 849 749 livros. [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Na mesma obra de Daniel Melo é registado que apenas entre 1958 e 1990 o número total de leitores foi 46 423 881. Desses, cerca de 36 551 663 (78,7%) foram crianças e adultos [Melo, 2004b, pág. 343]. Estes valores evidenciam a enorme importância que este serviço da Gulbenkian assumiu em Portugal e espelham de modo singular o elevado sucesso que granjeou no seio do povo português.

A propósito, Carmelo Rosa lembra que quando uma biblioteca móvel era substituída por uma fixa todo o acervo da móvel (quer do seu interior, quer em depósito) era oferecido ao município. Em Dezembro de 2002 com a extinção do programa praticamente todo o acervo bibliográfico e documental transitou para as autarquias. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Saliente-se que a Fundação Gulbenkian continua a prestar um fundamental apoio às bibliotecas portugueses, sobretudo Públicas e Escolares, agora não através de unidades físicas (fixas ou móveis), mas de programas, serviços, diversas iniciativas, apoio financeiro e material, etc. que lhes concede; e de eventos e iniciativas (conferências concursos, formações, etc.) que produz nos e a partir dos seus espaços. E como lembra Carmelo Rosa "no seu website tem disponível mais de 30 mil fichas de leitura relativas ao que mais importante se publicou desde a década de 60".

Biblioteca Itinerante (renovada) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Se desde finais da década de 80 o número de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian diminuiu, essa redução foi sendo contrabalançada com o acréscimo sucessivo, de novas unidades referentes às bibliotecas não pertencentes à rede Gulbenkian. Estes bibliomóveis apresentam-se, regra geral, melhor apetrechados, incorporando já sistemas multimédia e informáticos. Por outro lado tem se vindo a diversificar o tipo de serviços móveis prestados, com a inclusão de bibliocaixas, bibliomalas, etc. A edificação de pólos e extensões das bibliotecas públicas não tem sido muito significativa, não servindo assim efectivo contraponto a este serviço. Na actualidade existem várias dezenas de bibliotecas públicas que prestam este serviço itinerante.

Na generalidade dos países da UE ou da OCDE, e basta olharmos para os nuestros hermanos, existe uma considerável profusão de redes de bibliotecas móveis. E na generalidade dos casos, não se tratam apenas de meros princípios verbais assinados num documento ou pontuais intercâmbios de serviços, produtos ou recursos humanos. São efectivas redes onde em muitos casos a mesma unidade móvel movimenta-se um raio de acção supra-concelhio, orientada por políticas de promoção da leitura e da literacia digital de âmbito regional.


Referências bibliográficas:

MELO, Daniel

2004a Leitura e leitores nas bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957-1987). [em linha] [consultado em 23/12/2006]

2004b A Leitura Pública no Portugal contemporâneo : 1926-1987. Lisboa : Imprensa de Ciências Sociais. ISBN 972-671-137-1

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato word-pdf)

Gulbenkian emprestou 97 milhões de livros – notícia da Agência Lusa/RTP 18-7-2005

Fonte das imagens (referenciadas acima):

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Disponível em www:

Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato ppt)


Publicada por Fernando Vilarinho no blog ''Bibliotecas de Portugal'' em 12/24/2006

domingo, 21 de novembro de 2010

ÓBIDOS



EU TAMBÉM GOZEI A MINHA ADOLESCÊNCIA EM ÓBIDOS NOS ANOS 70 E 80

Falar dos meus tempos de adolescência nas Caldas é falar dos excelentes tempos passados em Óbidos. Calculo que para todos nós, Óbidos tenha sido a nossa segunda casa.

Em ‘’Cruzando os Anos em Poucos Dias’’, a minha crónica que descreve o nosso quotidiano ao longo de uma semana daquela época, eu faço justamente menção a uma deslocação a Óbidos. Estava nos nossos hábitos. Era indissociável da nossa vida adolescente.

Lendo as crónicas dos mais velhos, aqueles que foram jovens nos anos 60 e 70 e cujos testemunhos estão expressos nos blogues dos Antigos Alunos do Externato Ramalho Ortigão e dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial, verifico que nos seus hábitos de juventude estavam também enraizadas as excursões nocturnas a Óbidos.

Os jovens de Caldas e de Óbidos misturavam-se nas escolas e nos cafés, nas festas e nos namoros. Ninguém conseguiria diferenciar-nos.

Calculo que ainda hoje seja assim.

Íamos ao sábado e domingo à tarde às festas privadas do Marinho na Rua Direita e íamos à noite ter com o Sr. Roberto e com D. Maria à Cave do Vale , o Toupeiro. Íamos comer uma linguiça assada à Biquinha ou ouvir um fado ao Ramiro. Mostrávamos o segredo do mural na parede do Ibn Errik Rex onde bebíamos uma grande ginginha feita se calhar ainda pelo Montês, enquanto contemplávamos as milhares de miniaturas de garrafinhas. E muitas vezes ainda sobrava tempo para um whisky na Estalagem do Convento.

Organizámos festas na discoteca da estalagem e jantares em casa das Alpoim Calvão.

Gozar a adolescência na nossa região era também usufruir de tudo o de bom que Óbidos, os lugares e os nossos amigos, tinham para nos oferecer.


MEGA FESTA DE APOIO À AJUDA DE BERÇO

É com muito orgulho que anuncio que a próxima festa do nosso grupo será organizada em Óbidos. Não é uma festa qualquer. Já não será apenas uma festa de reencontros, será sim uma festa de afectos, um compromisso, um gesto de amizade para com os amigos, de amor para com quem mais precisa.

Dia 11 de Dezembro, nos antigos armazéns da EPAC (junto à estátua da mão-pomba de José Aurélio) agora em vias de serem transformados (ONE NIGHT ONLY!) numa mega-discoteca, vamos organizar uma grande festa  com música dos anos 70 e 80!

Numa parceria do nosso grupo de amigos com a ÓBIDOS-VILA NATAL vamos fazer acontecer!

Vamos dar uma mega-festa com música ao vivo e com a participação de muitos Djs. que marcaram a nossa época e que não quiseram deixar de se associar a este evento.

E o mais importante,

TODAS AS RECEITAS DESTE EVENTO IRÃO PARA APOIO À INSTITUIÇÃO AJUDA DE BERÇO.

Eu não disse que era tempo de começar?

Será uma pequena aragem sobre o mar que se poderá transformar numa onda.

NÓS PODEMOS FAZER A DIFERENÇA!

Esta festa estará integrada num conjunto de acções distribuídas por vários concelhos da Região Oeste de apoio àquela instituição. E nós vamos dar o nosso contributo!

Basta estar presente! Basta divulgar entre os amigos e colegas de trabalho!

Esta não será apenas uma festa do nosso grupo, será uma festa do OESTE SOLIDÁRIO, aberto a todas as gerações, a todas as vivências. Queremos receber de braços abertos, com a fraternidade do Oeste, todos os que quiserem vir de todo o país!

POR UMA CAUSA!

POR SERMOS QUEM SOMOS!

DIA 11 DE DEZEMBRO, NOS ARMAZÉNS DA EPAC EM ÓBIDOS, VAMO-NOS DIVERTIR E COM OS NOSSOS SORRISOS, COM OS NOSSOS ABRAÇOS, FAZER ALGUMAS CRIANÇAS FELIZES!


DOIS ARMAZÉNS   DUAS PISTAS DE DANÇA    UMA MEGA-DISCOTECA
E OS DJs

CHARLIE
DJ LBR
JOÃO LEIRIA
JOÃO ''POP CROSS'' BERNARDES
JOÃOZINHO PRETO
JOCA PIMENTA
LUISA ''THE QUEEN OF FUNK'' PIREX
E
ZÉ MANEL CAMPOS
...

Agora, por Facebook ou por mail, por sms ou pelo telefone, por sinais de fumo ou garrafas atiradas ao mar, partilhem esta noticia.

Partilhem, partilhem, partilhem, pois neste caso partilhar é já por si um gesto solidário e quantos mais de nós tivermos na festa maior será o contributo para a Ajuda de Berço.


A vida foi feita para amarmos e sermos amados! Por este motivo, devemos decidir resolutamente que, nunca mais, nenhuma criança seja objecto de rejeição e desamor!

Madre Teresa de Calcutá

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UMA PEQUENA ARAGEM SOBRE O MAR

CARTA DA AJUDA BERÇO



É TEMPO DE AGIR






UMA PEQUENA ARAGEM SOBRE O MAR

Eu cresci a acreditar que os acasos da vida sempre corrigiriam o que estava errado. Que a pobreza, o abandono, as doenças que via na televisão seriam erradicadas um dia pelo linear da vida.

Acreditava sinceramente que as coisas se modificariam até eu ser grande e que no entretanto a nossa sociedade seria mais justa, mais equitativa e tecnologicamente mais desenvolvida para acabar com todas as incorrecções do mundo.

Ao crescer vi que me enganara e que não será uma força etérea que transformará o mundo mas o nosso esforço.

Compreendi também que se tentarmos abranger o todo, seremos sufocados pela imensidão de problemas… e desanimaremos perante a nossa própria incapacidade de mudar o mundo, pela nossa impotência perante a injustiça.

Gradualmente comecei a compreender que não podemos ter a veleidade de mudar tudo e não podemos corrigir tudo de uma vez.

Mas compreendi também que se focalizarmos o nosso esforço para corrigir algo que esteja ao nosso alcance, algo que seja mensurável e possível de mudar, então teremos a capacidade de fazer a diferença.

Lao Tse, um filósofo chinês, disse um dia que uma grande caminhada começa sempre com um pequeno passo. A muralha da China começou pela primeira pedra e sou daqueles que acreditam que uma ligeira lufada de ar cria uma pequena ondulação na água que acaba por se transformar numa enorme onda.

Nós podemos fazer sempre a diferença se algum dia começarmos!

E nós vamos começar.

Dia 11 de Dezembro, em Óbidos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - LINGUAGENS SECRETAS


Entrei na sala de aula e vi a Teresa Lamy passar meio às escondidas à Marina um papelinho dobrado em quatro.

Não gostei! A Teresa não costumava esconder-me muitas coisas e pensei logo que estivesse a guardar um segredo naquela troca de correspondência.

Julgo que durante todo o dia, eu e os outros rapazes tentámos obter da Marina aquela mensagem. Não tivemos qualquer sucesso em arrancá-lo da nossa colega mas eu consegui vislumbrar o texto quando ela o abriu durante uma aula.

Não consegui entender nada do que estava escrito e pensei que era apenas uma partida das raparigas.


Nos outros dias começaram a circular cada vez mais papéis entre as raparigas e as aulas do Ciclo agitaram-se entre trocas de mensagens e risadas de cumplicidade entre as colegas.

Começámos a ficar fartos de sermos gozados com a situação e não descansámos até compreender o que se passava.

Um olhar de esguelha por cima do ombro da colega da frente mostrávamo-nos um texto escrito numa linguagem desconhecida. De inicio pensávamos sinceramente que estavam a gozar connosco mas percebemos que elas realmente entendiam o conteúdo das mensagens e faziam uma verdadeira troca de correspondência entre si. Será que elas tinham aprendido com alguém uma língua nova para além do Francês que estudávamos? Inglês sabíamos que não era pois começáramos a aprender algumas palavras nesta língua. Espanhol também não. Seria alemão?


Virámo-nos para o António José que vivera na Alemanha e pedimos que escrevesse umas frases nessa língua. Nã! Não era nada parecido! Que mistério se passava pelos corredores, recreios e salas de aula da Escola Comercial?

Finalmente o Luis Rebelo Sancho ou o Tó-Zé Cavaco, não lembro quem, conseguiu arrancar das mãos da Luisa Branco um desses malfadados papeis e trouxe-o vitorioso até nós!

Não compreendemos nada à primeira e pensámos que definitivamente estavam apenas a gozar connosco, até que um olhar mais atento do Joaquim Franco trouxe a descoberta.


- Elas estão a utilizar os ‘’pês’’ depois de cada sílaba. Escrevem ‘’pê’’ e depois as vogais da sílaba anterior! Vêem?! – Exclamou ele com um sorriso triunfante.

‘’Enpenconpontranpanmopo-nospos àpá sapaípidapa’’

Olhámos todos para o papel, soletrando as sílabas e finalmente entendemos a cifra.

Elas não falavam outra língua. Era a mesma coisa, só que cada sílaba começava com “pê”. Nada mais tolo!

Decifrado o mistério decidimo-nos vingar e encarregámos o Franco de encontrar uma linguagem cifrada só para nossa utilização.


Um dia depois surgiu com um texto e o seu código. Algo simples mas que servia para a nossa vingança:

1S M2N3N1S T2M 1 M1N31 Q52 S14 2SP2RT1S M1S N4S S4M4S M2LH4R2S!

Era tão simples de traduzir (conseguem fazê-lo?) e contudo as raparigas levaram dias a decifrá-lo (ok. estou a exagerar! Foi apenas um dia....umas horas, tá bem , pronto! Foi uma questão de minutos!) e de qualquer maneira o Joaquim Franco todos os dias aparecia com uma nova linguagem cifrada. Uma por exemplo consistia em iniciar um texto com um digito ( 3, por exemplo) e um sinal de + ou de -, escrever nas letras que fossem três números à frente ou atrás consoante a indicação. Assim:

(3+) COMPREENDERAM A MENSAGEM? FRPSUHHQGHUDP D PHQVDJHP?


Bem, mas enquanto nós desenvolvíamos linguagem cada vez mais encriptadas e mais difíceis de entender e de escrever (até por nós!) as raparigas passaram a utilizar uma nova linguagem em que a vogal ‘’a’’ era complementada com o sufixo ‘’aix’’, o ‘’e’’ com o ‘’eber’’, o ‘’i’’ com ‘’ifix’’, o ‘’o’’ com ‘’ober’’ e o ‘’u’’ com ‘’ufux’’.

Assim,

Ober meberufux naixmoberraixdober eber maixsifixs gifixrober qufuxeber ober teberufux!
(O meu namorado é mais giro que o teu!)

Enfim! Uma guerra sem quartel!

Aos poucos e poucos a moda foi alastrando e até brincadeiras da língua inglesa como a Pig Latin foram utilizadas por alguns.



O Pig Latin consiste em colocar a primeira letra da palavra no final desta e acrescentar a partícula +ay.  A razão desta mudança talvez seja para obter uma melhor sonoridade, já que a língua inglesa não é uma língua latina.


Por exemplo: I like to speak Pig Latin.    Ficaria:  Iay Ikelay otay peaksay Igpay Atinlay.



OU ISTO OU AQUILO


de: Cecilia Meireles

Oupou sepe tempem chupuvapa epe nãopão sepe tempem solpol
Oupo sepe tempem solpol epe nãopão sepe tempem chupuvapa!
Oupo sepe calpalçapa apa lupuvapa epe nãopão sepe põepõe opo apanelpel,
Oupou sepe põepõe opo apanelpel epe nãopão sepe calpalçapa apa lupuvapa!
Quempem sopobepe nospos arespares nãopão fipicapa nopo chãopão
Quempem fipicapa nopo chãopão nãopão sopobepe nospos arespares!
Épé upumapa granpandepe pepenapa quepe nãpão sepe popossapa espestarpar
Aopao mespesmopo tempempopo nospos doispois lupugaparespes!

(…)



Conseguiste decifrar? PAPARAPABÉNSPÉNS!




OU ISTO OU AQUILO

De: Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.




Mas falar com os Pês tem muito que se lhe diga. Há muito tempo surgiu um texto de autor anónimo que não utilizava a linguagem dos Pês mas fazia uma autêntica elegia à letra Pê.

PEDRO PAULO PEREIRA PINTO

Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor, português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos.
Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.
Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido,porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.
Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente,pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.
Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo.
Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo…
Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses.
- Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo. -Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.
Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província.
Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu:
- Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior.
Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?
- Papai, – proferiu Pedro Paulo – pinto porque permitiste, porém, preferindo,poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.
Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus.
Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas.
Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando… Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar… Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

Postado por Paulo (papaupulopo capaiapiadopo)


Quanpandopo eupeu eperapa criprianpançapa, upusapavapa muipuitopo apa linpingupuapa dopo Pêpê paparapa fapalarpar compom aspas mipinhaspas irpirmãspãs.

Bopoaspas repecorpordapaçõpõespes!


Da Wikipédia:

No Brasil a lingua dos Pês é escrita ao contrário. Consiste em se introduzir a consoante P seguida pela vogal precedente (e algumas consoantes - como o m, n, r, s, etc) de cada um dos fonemas da frase.

Por exemplo a frase: Quando eu era criança, usava muito a língua do P para falar com meus irmãos.
Ficaria: Panquan podo peueu pee para picri panan paça, puu pasa pava puimui poto paa pinlin puagua podo pePe papa para pafa parlar pomcom peme pusus pirir pãmã posos.


História da Lingua dos Pês:

Pesua peoperipegem perrepemonpeta pea Pessepegunpeda Pegueperra Pemunpedipeal, pequanpedo pessolpedapedos peapelipeapedos, peprepecipesanpedo pede peupema peforpema pede pesse pecopemupenipecar pecom pesseus pecompepapenheiperos pessem pesseperem peenpetenpedipedos pepepelos peipenipemipegos, pecripeaperam peupema pelínpegua peque pesseperia peepexapetapemenpete peipegual pea pelínpegua penapetipeva pedepeles, pepoperém peapecrespecenpetanpedo pea pessípelapeba pepe peanpetes pede pecapeda pessípelapeba pede pecapeda pepapelapevra pea pesser pedipeta.




No mundo cultural germânico existem várias formas de línguas infanto-juvenís similares a nossa Língua do Pê.
Na Alemanha, por exemplo, a mais conhecida e celebrada delas se chama Löffelsprache (Löleföf elefel spralefach elefe) que traduzido literalmente quer dizer Língua da Colher (Löffel = colher + Sprache = língua). Já na Suíça alemã existe uma língua similar em sua natureza que se chama Matteänglisch ou Mattenenglisch (Itteme-Inglische) que quer dizer 'língua falada num lugar chamado Matte'.
Vale notar que até existe literatura produzida nestas línguas. Também existem clubes de aficionados. Apesar de terem surgido na Europa, e no caso do Matteänglish mais especificamente na área de Berna, na Suíça, existem falantes desses idiomas 'construídos' em vários países do mundo para onde imigraram europeus de origem teuta (i.e. Brasil, Estados Unidos, etc.).




TEXTO COMPLEMENTAR À CRÓNICA
‘’A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA- LINGUAGENS SECRETAS''


Sabiam que existem realmente língua artificiais que são faladas por milhares de pessoas em todo o mundo? Desde o século 17 que se criam idiomas artificiais. E não se trata apenas das falas do quotidiano modificadas devido ao calão, e sim de idiomas completamente lógicos e complexos. Contudo a maioria não caiu no gosto popular.


No livro In The Land of Invented Languages (“Na Terra das Línguas Inventadas”) Arika Okrent cita mais de 500 idiomas extintos por falta de utilizadores. Mas entre esses idiomas artificiais alguns ainda permanecem hoje com milhares de falantes, desses que não morreram os mais populares são:


Esperanto

Criado por: L.L. Zamenhof, em 1887.

Origem: Construído a partir de palavras semelhantes em várias línguas, o esperanto foi criado para servir de idioma universal e promover a paz e a fraternidade entre as nações. Daí o nome, que significa “esperançoso”.
Inspiração: Vocabulários das línguas latinas, pronúncia das línguas eslavas.
Falantes: 200 mil.


Klingon

Criado por: Mark Okrand, em 1982.

Origem: Feita por encomenda para o 3° filme da série Star Trek – os produtores queriam que a raça guerreira dos Klingons falasse uma língua completa em vez dos grunhidos de sempre. Com os fãs, o idioma ganhou vida própria. Existe até o Instituto da Língua Klingon, que publicou uma tradução de Hamlet.
Inspiração: Sons guturais, com a intenção de soar alienígena.
Falantes: 20 mil


Sindarin

Criado por: J.R.R. Tolkien, 1920-1940.

Origem: Criar línguas era um passatempo do jovem Tolkien, que a partir delas inventou um mundo inteiro: o universo mítico de O Senhor dos Anéis, onde Sindarin é apenas o mais falado dos vários idiomas da raça dos elfos.
Inspiração: Galês.
Falantes: 10 mil



quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O SENHOR DO ADEUS

Sim, eu sei que este texto nada tem a ver com a minha, com a nossa adolescência. Mas os valores que hoje professo, os afectos que hoje dispenso, foram-me incutidos pela minha familia e moldados pela minha vivência com os meus amigos. Se hoje sou o que sou, sou-o pelo contacto com os outros. Pelo contacto convosco. Para o bem ou para o mal, eu também sou o que os outros fizeram de mim.



O SENHOR DO ADEUS

Foi com uma grande tristeza que soube à hora de almoço pelas notícias na tv que morreu o Senhor do Adeus.


João Manuel Serra não dirá nada para muitos e no entanto a sua morte recebeu honras de noticiário na tv, jornais e internet, ao nível de uma grande figura da nossa política ou da cultura.


Eu passava por ele umas duas vezes por semana, no Restelo, onde passava uma boa parte do dia, sempre na mesma esquina (o resto do dia passava-a no Saldanha) e durante anos habituei-me ao seu acenar e ao seu enorme sorriso.


Por vezes ao buzinar para o cumprimentar acenava-me de tal forma esfusiante que saltava no passeio. Até parecia que me reconhecia!


Cumprimentei-o sempre, quer fosse sozinho ou acompanhado, em silêncio ou a conversar.


Como a grande maioria dos passantes, eu julgava que o senhor sofria de um qualquer desequilíbrio mental pois passar o dia a acenar aos condutores não é de gente sã!


Hoje, ao ler a noticia da sua morte, soube que afinal João Serra, o Senhor do Adeus, estava perfeitamente lúcido e consciente do que fazia. Dizia ele que se apercebera que o seu comportamento, o acenar para as pessoas, deixavam estas felizes na sua ida para o trabalho.


Foi ainda com alguma resistência que aceitei esta constatação. Afinal quem no seu estado normal passa o dia a acenar e a cumprimentar com um largo sorriso, como de um amigo de largos anos, as pessoas que circulavam nos seus automóveis?!


Meu Deus! Onde foi que eu me transformei? Onde foi que eu perdi a fé na bondade das pessoas? Como podia eu alguma vez pensar que o Senhor do Adeus o fazia por genuína bondade, por vontade de tornar as pessoas um pouco mais felizes?


E no entanto, faz agora sentido que alguém que vivia sozinho e provavelmente com a maioria dos amigos longe ou já falecidos preferisse estar junto dos seus amigos automobilistas, a fazê-los felizes do que a permanecer em casa agarrado a um televisor. Faz todo o sentido optar por ajudar os outros quando se tem algum tempo do que a desperdiçar o tempo a embrutecer defronte do televisor.


João, desculpa eu não ter acreditado.


Daqui te aceno e obrigado por teres tornado os meus dias mais felizes.


Que o teu exemplo floresça em nós e nos torne melhores e mais solidários.