Durante cerca de um ano, escrevi regularmente no espaço do Facebook com o mesmo nome, as crónicas que descreviam os principais eventos que presenciei de 1968 a 1986. É a minha vida mas também é o retrato de uma época. Alguns amigos ajudaram-me com alguns textos nessa tarefa e este espaço estará sempre aberto a novas partilhas. As crónicas daquilo que eu queria ter contado já terminaram mas o espírito de grupo de todos os que nelas se reconhecem, continuará para sempre.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
MEGAFESTA ANOS 70 E 80 DE APOIO À AJUDA DE BERÇO
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Paulo Caiado
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O BEIJO DA ARTISTA
Um dia vêm ter comigo a correr.
- Anda ver depressa, andam umas miúdas nuas pela Rua das Montras e está tudo no maior reboliço.
Entreolhei o amigo surpreendido mas nem por momentos pensei que me estaria a pregar uma partida. Corri atrás dele até à Rua das Montras.
Afinal a multidão já tinha dispersado e apenas ficaram pequenos grupos de foliões comentando o tema.
Lamentei não ter estado presente mas mal sabia eu que teria outras ocasiões nessa semana para assistir ao momento mais controverso que a pacata cidade assistira desde a remoção da estátua do Marechal Carmona do Burlão.
Voltemos alguns dias atrás no tempo.
Entre 1974 e 1977 realizaram-se os “Encontros Internacionais de Arte” (Valadares, Viana do Castelo, Póvoa de Varzim e Caldas da Rainha), promovidos por Egídio Álvaro e Jaime Isidoro da Galeria Alvarez do Porto.
Nesse ano de 1977 decorreram nas Caldas numa iniciativa conjunta da Casa da Cultura, Museu José Malhoa e outras entidades, os IV Encontros Internacionais da Arte.
Pretendeu-se efectuar uma exposição dinâmica que interagisse com a população mostrando o multifacetismo da arte com exposições, instalações e palestras sobre formas artísticas tão diversas como a escultura, a pintura, a literatura, a arquitectura e até o cinema.
‘’ A exposição é para Egídio Álvaro o espaço concreto no qual o pensamento e a sua prática artística se encontram onde, em diálogo permanente, artistas e crítico-comissário definem o seu pensamento visual, político e social.
Através das exposições que comissariou e sobre as quais escreveu profusamente – EXPO-AICA-SNBA (1972/1974); III Encontros Internacionais de Arte (1976) e Identidade Cultural, Massificação e Originalidade (1977) – afirmou uma postura crítica e curatorial, que consideramos indissociáveis e que se situam na charneira das mudanças que caracterizam a crise do modelo museal dos anos 70 e a afirmação de uma nova fórmula expositiva que privilegia a inserção da obra de arte em contexto vivo – numa aproximação ao espaço da vida social.’’
Ana Luisa Barão: Egidio Álvaro: O Critico como Comissário
Na realidade Egídio Álvaro concebeu as exposições como espaços em que o momento de produção e de exibição fossem simultâneos, daí a extraordinária multiplicidade de instalações, de happenings, de perfomances e de produções que se efectuaram naqueles dias em que ocorrera o Encontro. Um espírito de vanguarda e absoluto experimentalismo dominou todo o evento.
Nele participaram, entre outros, Artur Bual, Túlia Saldanha, Alvess (Manuel Nogueira Alves), Abilio José Santos, o Grupo Puzzle (João Dixo), Carlos Carreiro, Albuquerque Mendes, Dario Alves, Armando Azevedo, Graça Morais, Jaime Silva, Pedro Rocha, Pinto Coelho, Gerardo Burmester) e o Grupo Acre (Alfredo Queiroz Ribeiro, Clara Meneres, Lima Carvalho), ambos dedicados a pinturas de rua, o Grupo de Animação ANIMA com Bernardo Silvestre Pestana, Seme Lutfi, Ernesto Melo Castro, sua mulher Alberta e a filha Eugénia Melo e Castro, Orlan Sans, Louis Orrocha, o grupo espanhol ‘’A-Por-No-Gráfico’’.
Existem poucas notícias da época e muito menos recordações daqueles dias mas estes foram, apesar de tudo inesquecíveis para os jovens de 14 ou 15 anos como eu.
Os eventos até começaram de forma pacata com palestras e exposições no Museu José Malhoa e na Casa da Cultura mas as diferentes intervenções urbanas dos vários artistas presentes começou a dar literalmente um colorido especial às ruas da cidade.
Em diversos pontos das Caldas começaram a aparecer sinais da sua presença com grafittis, pinturas no asfalto e nas calçadas, murais, intervenções escultóricas, cenas teatrais e declamações poéticas em plenas vias e praças públicas.
Uma intervenção mais ousada inflamou os ânimos na Praça de Peixe e originou um desacato sério, não me lembro se com um grupo de comerciantes ciganos se com peixeiras e pescadores.
A pouco e pouco as intervenções começaram a ser mais provocativas e vanguardistas reagindo a população ora com humor ora em choque.
E é neste espírito que a artista francesa Orlan Sans e um grupo de assistentes femininas efectuou um conjunto de intervenções que para sempre iriam ficar na memória dos jovens (e menos jovens!) caldenses!
No dia seguinte estava com uns amigos na Zaira quando alguém entrou e nos veio chamar para vermos o que se passava na Rua das Montras.
Desta vez Orlan Sans fazia-se acompanhar de mais algumas jovens e como vestais desfilando em Roma, trajavam finas túnicas e véus, com algumas parecenças no estilo que não nos tecidos, com os hábitos de freiras.
Os mantos só vagamente cobriam os corpos despidos. Ainda assim, menos mal que na véspera!
O cómico da situação é que Orlan seguia refastelada no único transporte apropriado que encontrara para o evento. À falta de uma liteira de vestal, as jovens empurravam um velho carrinho de jardineiro, certamente levado do parque (o Tobias, jardineiro do parque, não deve ter achado graça à ideia!)
E assim, no meio das instalações de outros artistas, ziguezagueando entre as pinturas efémeras da calçada que outros colegas artistas produziam no momento, a artista francesa e o seu séquito avançavam, de peito feito – literalmente! – e grande aprumo, rumo à Rua dos Herois da Grande Guerra donde retornavam de novo até à outra extremidade da Rua das Montras, junto á Praça.
O desfile das jovens desnudadas ainda durou algumas piscinas de ida e volta perante o deleite da população masculina, o riso de alguns e as palavras de desdém e de ira de outros.
Finalmente, um elemento da Policia foi chamado a intervir mas este, após tentar dialogar sem sucesso com as artistas que se refugiavam no seu francês para fingir ignorar o que lhes era dito, acabou a chamar reforços.
Veio enfim um corpo policial de quatro elementos para põr fim à situação e foi de forma humorada que se assistiu às tentativas dos policias para tapar a nudez visivel das performers enquanto as conduziam de volta ao Parque de onde partia toda a acção.
Orlan Sans não se deu por satisfeita e e como grande parte do público acompanhou o grupo sob escolta, decidiu criar mais um happening, decidindo medir a área do ‘’Céu de Vidro’’ do edificio da Casa da Cultura com o seu próprio corpo. Sendo um recinto privado, a policia limitou-se a acompanhar os eventos a partir da porta, acompanhando a população que se divertia com a excentricidade da artista francesa que se deitava no chão de azulejos do lindo salão, enquanto uma das suas acompanhantes fazia a marcação com um giz.
Já não me lembro do resultado da medição, nem sei tão pouco se ficou para a história, mas certamente deu um determinado número de corpos de Orlan Sans de cumprimento por tantos de largura!
Fotos extraídas do Blog: 100SentidosComSentidos de Margarida Araújo
No sábado seguinte, Orlan voltou à carga! Desta vez tirou uma foto sua nua, de corpo inteiro e à escala natural e colou-a numa placa de contraplacado que mandou recortar.Prevenida, já não era ela pessoalmente mas a sua imagem que desfilava agora pela Rua das Montras. Era persistente, a francesa!
A imagem foi erguida sobre o já célebre carrinho de mão e a policia desistiu de a persuadir.
Finalmente, a artista para estimular o público que começava a acomodar-se ao espectáculo e a reagir de forma mais desinteressada, mandou cortar a placa em várias partes, desmembrando o seu corpo fotografado.
Fotos extraídas do Blog: 100SentidosComSentidos de Margarida Araújo
As placas mostravam agora partes do seu corpo, braços, pernas, torso, que a artista decidiu leiloar em praça pública. Mais uma vez a expressão tinha uma forma literal já que o leilão foi feito na Praça da Fruta, em plena hora de mercado, ao sábado de manhã.No domingo iria terminar o Encontro e Orlan faz a apresentação da instalação que conhecera estreia mundial na FIAC em Paris e que tinha agora preparado para este evento. Tudo o resto tinha servido para se dar a conhecer e desencadear reacções da parte do público, neste caso da população local.
“O beijo da artista” (Le baiser de l'artiste) causa polémica com a simulação do seu corpo como uma máquina automática de vender beijos. O utilizador colocava a moeda do respectivo valor numa pequena ranhura que a artista usava ao peito e esta recompensava-o com um beijo.
A instalação foi colocada no salão magno do Museu José Malhoa junto às grandes estátuas de Francisco Franco e Leopoldo de Almeida.
Os mais afoitos foram os velhos artistas boémios caldenses que tomaram, com notável sentido de humor, a iniciativa de serem os primeiros a receber os calorosos beijos da artista, a troco de uma moeda que depositavam num dispositivo da instalação. Isto perante uma plateia de populares ora divertidos ora escandalizados pela audácia e despudor de alguns dos nomes mais sonantes da vida artística caldense, bem entrados na vida e que, assumiam eles, com idade suficiente para ter mais siso!
Que grandes figuras! Que gente boa!
E o que me ficou na memória, foi o ambiente de quase festa e de bom humor com que terminou o Encontro. Ia o ano de 1977!
ORLAN DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Texto Complementar à crónica ''O Beijo da Artista''
por: Eunice Gonçalves Duarte
ORLAN/ORLON
“J'ai donné mon corps à l'art”
Orlan
Não é uma afirmação mas o titulo de uma performance. Uma das muitas performances coreografadas, preparadas e realizadas por Orlan durante a Reincarnação de St. Orlan.
Em 1977, “O beijo da artista” (Le baiser de l'artiste) causa polémica com a simulação do seu corpo como uma máquina automática de vender beijos; o utilizador colocava a moeda do respectivo valor numa pequena ranhura que a artista usava ao peito e esta recompensava-o com um beijo. Este foi o ponto de partida para uma mulher que 6 anos antes se havia baptizado com o nome artístico de St. Orlan, ao “mascarar”-se com materiais como o vinil e a pele. Encena a vida dos santos em forma de performance integrando fotos, colagens, vídeos. Esta incarnação centrava-se na denúncia da hipocrisia da sociedade tradicional na forma como tratava a imagem feminina, colocando-a sempre entre a santa e a prostituta.
Influenciada pela obra de Duchamp e pelas correntes revolucionárias do Maio de 68, Orlan trabalha performances blasfémicas onde o seu corpo encarna e molda diferentes personagens, numa espécie de retratos vivos das acções que se passam. Uma gravidez extra-uterina fez com que fosse operada de emergência; através de uma anestesia local, pôde ser espectadora da sua operação como se a parte do corpo a ser operada não lhe pertencesse. Montou uma única câmara na sala de operações e assim que a primeira cassete terminou foi enviada de imediato para o Centro de Arte Contemporânea de Lion para ser exibida, numa performance quase em simultâneo. Mas foi só pelo seu 43.º aniversário, em 1990, que fez a primeira de nove operações da performance Reincarnação de St. Orlan. Através de acessórios e cenários vários tinha representado as suas esculturas e performances; agora Orlan passa a esculpir na sua própria carne, agindo impiedosamente sobre ela através de operações plásticas. Não seriam operações normalizadas feitas à porta fechada, mas sim sob a forma de performance mediática e ensaiada onde se mistura música, literatura e dança. A sala é decorada de acordo com uma cenografia específica e os figurinos são feitos por costureiros famosos, numa mistura do barroco, grotesco e kitsch. Cuidadosamente estudada e estruturada, começa pela desconstrução da imagem mitológica feminina, construída através da história da arte. Assim concebeu um retrato feito com o nariz da escultura de Diana, a boca de Europa de Boucher, a testa da Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o queixo da Vénus de Botticelli e os olhos da Psyché de Gerome. A escolha de cada uma destas personagens tem uma razão específica: não foram escolhidas pela sua beleza artística ou pelo facto de serem mundialmente conhecidas mas pelo seu peso histórico e mitológico que as tornou parte da história e cultura ocidental. A escolha de Diana deve-se a esta ser a deusa da caça, agressiva e aventureira, que não se submetia aos homens, Psyché devido à sua necessidade de amor e de beleza espiritual, um oposto a Diana, Europa por esta ter olhado para outro continente e se ter aventurado num futuro desconhecido, Vénus pela sua caracterização mitológica como deusa do amor, da fertilidade e da criatividade, e Mona Lisa pelo mistério e pela lenda de que este é um auto-retrato do pintor.
Cada performance é registada em fotos e vídeos e a partir de certa altura começa a ter transmissões em directo, via satélite, para todo o mundo. Os espectadores podem telefonar para a artista colocando as mais diversas perguntas, sempre com um estilo diferente. Ao misturar estas personagens mitológicas faz surgir uma personagem híbrida que não procura a beleza ou a juventude; ao escolhê-las Orlan não deseja entrar para o livro de recordes em operações plásticas nem sequer ser parecida com as personagens, como é acusada pelos vários meios da comunicação da especialidade. Elas são uma inspiração pelo seu contexto histórico e pelo seu valor representativo.
Os textos constituem uma parte importante nestas performances, já que estas são feitas com base em textos filosóficos, psicoanaliticos e literários de autores como Antonin Artaud, Michel Serres, Eugenie Lemoine-Luccioni, Alphonse Allais, Elisabeth Betuel Fiebig, Raphael Cuir, Julia Kristeva e ainda textos hindus em sânscrito. Tudo é feito pela artista de maneira consciente já que as anestesias são dadas a nível local e não geral, o que lhe permite gerir o que se passa à sua volta assim como os materiais que registaram a sua performance para futuras exibições. Orlan, tal como qualquer artista, toma uma certa posição em relação a uma ideologia artística que quer ver materializada.
A sua posição artística não é contra as intervenções plásticas mas contra os padrões de beleza e o domínio destas ideologias que se entranham cada vez mais na carne dos homens e das mulheres. Orlan explica que com a idade se tende a estranhar a aparência no espelho; algumas pessoas não aguentam essa ideia e as operações plásticas são sem dúvida a melhor solução, numa sociedade que valoriza e idolatra a juventude. As operações plásticas não são naturais ao corpo humano, assim como outros medicamentos e cosméticos utilizados, que acabam por ser assimilados como “extensão” e se tornam necessários à sobrevivência.
“Dei o meu corpo à arte” e é na arte que ele ficará, já que pretende doá-lo a um museu após a sua morte, mumificado ou moldado com resina, sendo a peça mais importante de uma instalação vídeo interactiva. De momento Orlan dedica todos os seus esforços para que seja reconhecida judicialmente a sua nova identidade relacionando-a com a sua nova imagem.
O CORPO PARA ORLAN
“This is my body, This is my software.”
Orlan
Bragança de Miranda classifica o corpo como um feixe de ligações prejudiciais à nossa vontade. Já para Deleuze e Guattari o corpo é uma unidade uniforme. Orlan afirma que o seu corpo é o seu software, esta é a sua frase de apresentação, como se se tratasse de um cartão de visitas. O corpo é uma espécie de bolsa onde está a matéria que permite a Orlan trabalhar sobre ele tornando-o uma metamorfose. “Este corpo é obsoleto”, diz, “não está preparado para a velocidade exigida hoje em dia e cada vez mais exigida”.
Quando da sua pesquisa e preparação para a Reincarnação de St. Orlan, consultou um psicanalista que ao saber o que iria fazer lhe disse que iria cometer um suicídio, proibindo-a de prosseguir o trabalho, afirmando que este tipo de mudanças no corpo através de operações plásticas deve apenas ser utilizado em situações de ausência do orgânico ou então em caso de acidente e não para práticas de metamorfose artística. Ao reformular estas noções e ao explorar as novas possibilidades de actividade artística faz dessas performances um “ready-made”; assim como Duchamp readaptou objectos quotidianos e John Cage fez do silêncio música, Orlan faz de operações plásticas a sua obra.
Para alguns críticos o seu corpo é a sua obra de arte final mas para a artista não é o resultado final que importa, e sim esse ritual de passagem que faz em cada performance. Da discussão de valores que são abalados e que surgem em torno das questões por ela colocadas, acrescenta ainda que na sua vida a relação com os outros não depende do seu corpo mas do contexto e das histórias produzidas pelo seu corpo.
Esta foi a primeira e única artista a utilizar as operações plásticas como performance, designando o seu trabalho como «Carnal Art», um auto-retrato feito com o uso de tecnologias avançadas que lhe dão a possibilidade de ter o corpo “aberto” sem sofrimento e ver o seu interior. As suas ideias e conceitos artísticos encarnaram na carne o valor do corpo na sociedade ocidental e o seu futuro nas gerações vindouras face ao avanço tecnológico e às manipulações genéticas. O confronto entre esta fragilidade do corpo e o avanço tecnológico é a base de todo este trabalho, isto é, saber como eles se podem relacionar ou se o tecnológico acabará por prevalecer sobre o biológico.
Na continuação deste trabalho, pensa em operar o seu nariz, aumentando-o tanto quanto possível anatomicamente. O seu trabalho não desrespeita o seu corpo, pelo contrário denúncia a sua fragilidade e a decadência que mais tarde ou mais cedo todos acabamos por notar.
RELAÇÃO COM O ESPECTADOR
Além das imagens mitológicas que Orlan adaptou para a sua reincarnação, as suas performances têm uma aproximação muito forte ao espectador.
As tragédias gregas, pelo seu carácter de rito e de representação da vida de personagens mitológicas, emocionavam plateias, fazendo-as reagir como se fosse real o que se passava em cena. A barreira que separava o real da ficção era quase inexistente, com excepção do espaço físico onde decorria a acção, os anfiteatros gregos.
As performances cirúrgicas de Orlan destroem por completo essa barreira entre real e ficção, já que o espaço utilizado é uma sala cirúrgica, que apesar de decorada e cenografada de acordo com a performance, não perde o seu carácter “operatório” associado a médicos, a bisturis e ao cheiro de desinfectante, e a acção realmente acontece, não é representação ou apresentação de algo, é o escortanhar do corpo e a substituição de certos elementos por outros. No meio de sangue e de entranhas começa o desenrolar da acção, ou o inicio da reincarnação.
Durante muito tempo Orlan assumiu uma série de representações teatrais usando figurinos e máscaras para a ilusão do real. A partir da década de 90, a ilusão deixou de o ser e o seu corpo passou a conter em si essas máscaras, em acções onde o sujeito passa a ser o objecto e o público e o privado se confundem com a expansão dos meios de comunicação.
Muitos artistas fazem estas experiências de se colocarem perante o perigo com a intenção de perturbar quem vê, absorvendo os limites entre a realidade e ficção e entre vida e morte, colocando o espectador não só no meio do naufrágio mas tentando afogá-lo também, para tal utilizando meios que pareçam o mais reais possíveis e de difícil representação. Ao passarem a transmitir as suas performances em directo, tornou-se possível uma interactividade e uma aproximação maior do espectador.
Para esta artista a arte é só por si uma questão de vida ou de morte e assim em cada operação corre um risco, já que insiste em estar consciente durante todo o processo. As anestesias são dadas ao nível da espinha e com isso corre cada vez mais o risco de ficar paralítica, além das deformações que pode sofrer ou até mesmo a morte.
Orlan acha que corre tanto perigo como um piloto de corridas, o risco não está nas suas acções cirúrgicas mas na aceitação das mesmas pela sociedade, que está sempre pronta para inventar inquisições e regras de ética. Teme mais as violências verbais da crítica do que as do corpo, o grande risco é o não poder voltar atrás, mesmo que queira. Assim que termina a sua performance espera-se pelo sarar das cicatrizes e que prepare a produção da próxima intervenção.
Estas acções trazem uma atenção maior por parte dos media do que o normal nas práticas artísticas. Estes acontecimentos mediáticos obrigam o público a reagir, a concordar, a discordar, a tentar ver se o artista realmente consegue cortar o seu próprio corpo, a procurar razões e identificar semelhanças com outros casos; em suma não é só um público que vê. Será um retorno à magia que a arte sempre proporcionou ao espectador?
Para Konstantin Stanislavski a melhor técnica de representação, a mais real possível, seria o recorrer à memória, à recordação de acções passadas, para que as emoções desse momento possam ser utilizadas para se incorporar uma personagem. Mas Orlan tatua não só a sua memória mas também o seu próprio corpo com personagens específicas, componentes da e conectadas com a sua prática artística.
A arte absorve a vida já que deixa de haver o distanciamento ilusório e a morte não é entendida como um fim mas como mais uma metamorfose. Não significará antes a possibilidade de o espectador experimentar arte?
ORLAN NO CONTEXTO DA ARTE CONTEMPORÂNEA
Chama a sua arte “Carnal Art” e não “Body Art”, como já referi num capítulo anterior; no entanto não nega influências. A referência de Marcel Duchamp está presente no seu trabalho: através da sua obra começou a perceber que o negócio do belo não é nada mais do que um negócio. Andy Warhol é outra das referências por deixar que na sua arte apareçam os meios com que as realiza, e principalmente Joseph Beuys, no seu papel de shaman cujas feridas representam os males da sociedade como um vazio ainda não perceptível pelos outros. A sua arte absorve também influências de Herman Nitsch e do grupo vienense “Aktionismus”, da década de 60, que espantava os espectadores com imagens reais de rituais de sacrifícios do próprio corpo. Dos artistas desta corrente artística destaca-se Rudolf Schwarzkogler que se fotografou a cortar o seu pénis em fatias, o que lembra algumas das fotos de Orlan durante o seu processo de cura e transição para as novas operações. A grande distinção entre este grupo e a artista em questão residia num fingimento teatral não real, com o espaço como elemento determinante. O espaço de Orlan é uma sala de operações enquanto os espaços desse grupo eram os mais variados; além disso a maior parte dos documentos fotográficos era, quase sempre, encenada.
De momento, identifica o seu trabalho com o de artistas como Sterlac e Hans Haacke. Sterlac apresenta um tipo de arte que lhe agrada por ter declarado o corpo obsoleto e ter substituído uma série de membros para ultrapassar os limites da sua simples carne, propondo a si mesmo objectivos muito ambiciosos sem se afastar do complemento crítico que faz à sociedade. De Hans Haacke interessa mencionar o seu trabalho de pesquisa sobre a lavagem do dinheiro.
Ao contrário do que se poderia pensar, sente-se distante em relação à maioria das obras realizadas com as novas tecnologias. Acha que são só demonstrações técnicas ou da qualidade da definição de imagens; poucas obras têm um verdadeiro conteúdo pessoal e artístico. Apesar de utilizar as novas tecnologias para expansão do corpo, deixa claro que isso nada tem de semelhante às instalações electrónicas e tecnológicas exploradas em todos os festivais ciber.
Além deste nomes, destacam-se ainda Jeffrey Shaw, Daniel Buren, Rebecca Horn, Marina Abramovic, Annie Sprinkle, Guillaume Bijl, Andreas Serrano, Cindy Sherman, Damien Hirsh, Fabrice Hybert, Walter de Maria e Mattthew Barney.
Podemos ainda associá-la também ao movimento da arte informe em que a estrutura deixa de existir e a obra de arte aparece sempre como inacabada, como um contínuo, sem um limite material. Mesmo dentro de um frasquinho, ou algo parecido, deixa sempre adivinhar uma história passada e uma possível história futura, onde não existe um fim específico. Não há necessidade de haver obra, basta apenas haver conceito. Sob este aspecto, Orlan contribui para o movimento da desmaterialização da obra de arte e para o aparecimento de novos paradigmas de intervenção artística ao colocar a arte num local incómodo, não num “site specific” mas em todo lado onde ela estiver, podendo ser observada como um elemento politico, biólogico e de intervenção na sociedade circundante.
Já que se trata de uma arte efémera em que a escultura está inserida no corpo da artista, de que maneira se dá a comercialização dos seus trabalhos?
Orlan tem consciência da dificuldade de comercialização das obras de qualquer artista, principalmente quando se trata de um tipo de trabalho como o seu. Sabe também da pouca comercialização dos trabalhos do grupo de Viena, como Gina Pane, que só se tornou interessante quando se soube da iminência da sua morte, e mesmo assim poucas obras dela hoje são compradas. Os coleccionadores não estão interessados em adquirir parte de líquidos do corpo, excepto se estes estiverem associados a uma prática artística muito forte e a um grande jogo de divulgação, como Orlan sabe fazer. Sabe que, como disse Andy Warhol, “arte é negócio” e cada vez mais as peças artísticas são assimiladas a mercadorias comerciais e os artistas não negam um bom preço pelas suas obras, muito menos os herdeiros destes se incomodam com este facto e o mesmo se passa com as galerias.
Como já foi referido, cada performance cirúrgica é registada em vídeo e fotografada, além disso durante essas intervenções a artista faz uma série desenhos com o seu sangue e gordura que depois são comercializados. As entrevistas que dá são pagas a peso de ouro, assim como as conferências e as aparições nos diferentes festivais. Apresenta em exposições, como produto das suas performances, amostras dos líquidos (carne e sangue). Para além do seu trabalho como artista, é docente da Escola de Belas Artes de Dijon.
Um dos seus trabalhos, de momento, consiste na angariação de uma agência de publicidade que a rebaptize com um nome artístico e um logótipo, identificando-se com uma política comercial em que ela é o próprio produto.
CONCLUSÃO
Corpo cortado, aberto, mapeado, examinado, violentado, exposto, comercializado, idolatrado… Que corpo é este que nos aparece hoje? Obsoleto? Talvez! Coberto de véus que esconde o que de mais abominável existe? É possivel! Dificilmente olhamos para carne viva, descoberta, mesmo que seja só e apenas um pequeno corte. Como nos relacionarmos com um corpo sem órgãos? Ou como nos relacionarmos com um corpo com órgãos cada vez mais fragilizados?
Qual noiva do monstro de Frankenstein, Orlan deixa para trás as suas encenações teatrais e decide trabalhar directamente na carne, gravar no seu corpo máscaras. Ao contrário da história de Mary Shelley, Orlan é simultaneamente criadora e ser criado.
A história e a cultura mapeou o nosso corpo com regras e leis que moldam o nosso comportamento; a partir do século XI começa a haver uma repugnância com o corpo e as práticas a ele associadas: iniciaram-se as proibições, as punições e as perseguições. Era uma altura em que se morria muito e tal não assustava a população que parecia estar sempre preparada para a chegada da morte. Estavam certos de encontrar outra vida, fosse ela num inferno ou num paraiso, mas ela continuava, não acabava com o material. No século XX a esperança de vida aumentou e ninguém quer morrer, já não se acredita nessa vida como continuum e teme-se pela velhice e pelas consequências que se seguem, por isso é mais do que aceitável que haja este culto do corpo saudável, da juventude e do belo.
Na arte, tudo muda, há muito que se descobriu que o verdadeiro impacto da arte na vida quotidiana não era o mostrar o belo mas o desvendar do feio e das técnicas.
Ao realizar este trabalho, Orlan colocou em cena esse confronto com a morte e com o feio, mostrando olhos inchados, cicatrizes na cara, uma mostruosidade que impressiona: olha-se por momentos mas não mais do que isso; ver mais perturba-nos. A artista sabe disso e faz disso a sua motivação artística. A vida fica aniquilada por este zelo de arte, de ideologias artísticas, políticas e estéticas como um cristo que defende a sua identidade de “filho de Deus” e por ela dá a vida. O importante deste trabalho é que dele se fale.
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
QUE VIVAS PARA SEMPRE! - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO
Isto de escrever num blogue ou num grupo deveria, parece-me a mim, obedecer a alguma planificação e ser feito em horas e datas marcadas. Julgo perceber que o Paulo publica as suas crónicas à segunda-feira e de facto acho que faz sentido ter alguma periodicidade. No entanto, é-me praticamente impossível agendar assim uma actividade que me surge quando surge, pelo que deixo ao critério do Paulo decidir quando pôr no blogue, enquanto eu vou pondo no site do grupo, mais ou menos quando me apetece, o que quer mais ou menos dizer, quando me surge qualquer coisa interessante de que falar.
Esta memória, não poderá certamente ser lida com o riso nos lábios visto tratar-se de algo bem menos divertido, mas não deixa de ser uma memória pela qual todos ou quase todos nós passámos. Lembrei-me de tudo isto quando dei com um pedido de amizade da Filomena Diogo no Facebook. De aceitar o pedido a bisbilhotar-lhe as fotografias foi um passo e, ao dar com algumas bem antigas, ainda dos tempos de escola primária, vi-me de repente avassalada por lembranças desse tempo.
Andámos as duas numa professora particular, que a esta hora já deve ter morrido. Daquele tempo e, especificamente daquela turma, lembro-me, além da Filomena, do Pedro Gonçalves, do CáZé Costa Faro, do João que morava na praça do peixe, do CáMané, da Fátinha e de um sem número de pessoas de quem recordo as caras e não consigo lembrar os nomes. O que recordo melhor é o medo.
A professora tinha uma régua de madeira a que dava uso regularmente, de acordo com regras por si estabelecidas e que hoje nos pareceriam dignas de filme de terror, mas na época eram bem reais.
Eu era boa aluna e nunca apanhei muito, mas o que via passar-se diariamente debaixo do meu nariz era suficientemente aterrador, para sentir por ela um misto de ódio e medo, que nunca me abandonou o resto da vida.
Desde aí, ganhei o hábito de roer os dedos à volta das unhas e só recentemente consegui quase livrar-me disso. Mesmo assim, em momentos de tensão, lá vai um dedito…
Quando a encontrei mais tarde, já muito velha e claramente debilitada, lembro-me de lhe ter desejado cá dentro, que vivesse para sempre, para que tivesse a oportunidade de sofrer todas as maleitas da velhice até à última consequência.
Mas então o que se passava assim de tão traumatizante para as crianças? Bem, nem sei bem por onde começar, mas talvez pela regra do “cada erro cada reguada”. Esta era a regra dos ditados e cheguei a ver um colega levar 60 reguadas de seguida. Apre, que e mulher tinha genica e gostava de bater…
Escusado será dizer que a maioria dos miúdos dava incomensuravelmente mais erros do que daria se não fosse a espada de Democles sistematicamente pendente sobre as suas cabeças. Como davam mais erros apanhavam mais e tinham cada vez mais medo o que os levava a dar cada vez mais erros… Enfim, uma pescadinha de rabo na boca.
Quanto à aprendizagem, também não me parece nada que melhorasse com o método.
Também recordo que uma colega usava normalmente o relógio com o mostrador virado para a face interna do pulso. Então, a professora pegava-lhe na mão com a palma virada para cima e os dedos bem dobrados para baixo, de forma a expor a palma e o pulso, explicava mais uma vez que não se responsabilizava por relógios partidos (a aluna que o pusesse noutra posição) e toca de bater com quanta força tivesse, na palma da mão e na parte da frente do pulso, até acabar por lhe partir mais um relógio. Não me lembro quantos lhe partiu assim, mas penso que mais que um certamente. Mesmo que tenha sido só um já foi demais.
Também era digno de ver quando um(a) aluno(a), depois de levar umas valentes reguadas, ia a chorar para a carteira e o choro se misturava com o ranho, depois era tudo devidamente fungado.
Não sei o que provocava nos meus colegas, mas acredito que terá provocado o mesmo que em mim: profunda pena do ou da infeliz, e cada vez mais ódio pela professora. Agora o que eu nunca consegui perceber era como é que os pais deixavam que estas coisas acontecessem.
Dos meus não me posso queixar, que nunca permitiram estes abusos, mas outros houve que nunca vi levantarem um dedo para defenderem os filhos de semelhante barbárie. Dos meus lembro-me bem do dia em que a minha irmã levou nove reguadas: como era bem branquinha apareceu em casa com as mãos roxas, o que noutros miúdos só aconteceria com muitas mais, mas os meus pais meteram-se no carro e lá rumaram a casa da professora para pôr os pontos nos is e os traços nos tês.
Pelo caminho o meu pai dizia à minha mãe: “Teresa não te enerves, deixa-me ser eu a falar”. Quando lá chegaram, às tantas já ele estava aos gritos com a professora que lhe dizia, “O senhor não grita na minha casa”, e ele respondia, “Então vamos lá para fora porque vai ter de me ouvir, quer goste quer não”.
Disto tudo que conclusões devo tirar quando se sabe que hoje em dia os miúdos batem nos professores, ameaçam-nos e fazem deles gato-sapato?
Acho que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Se hoje os professores atravessam uma crise de autoridade e dispõem de poucas ferramentas para disciplinar meninos muitas vezes bem mal-educados, naquele tempo os professores estavam apenas um pequenino degrau abaixo da divindade e tudo lhes era permitido. Também posso concluir, à laia de remate para a minha crónica anterior, que talvez devido a estes excessos no nosso passado, tantos de nós enveredaram por uma via por vezes demasiado facilitadora, quando chegou a nossa vez de educar.
post de Maria João Sacadura
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O SEGUNDO ANDAR DO DIOGO
A DOR QUE NÃO PASSA
Não existe nada pior na vida que a perda de entes queridos. Nada!
De acordo com os médicos, já tive que suportar algumas das piores dores físicas que nos é possível suportar. Ou devido a doença ou devido a acidente, já fui evacuado algumas vezes de ambulância para 100 kms de distância, já fui repatriado (é assim que se diz?) de outro país e já me encheram de morfina. Uma das vezes a dor foi tão forte que perdi momentaneamente os sentidos.
E contudo eu voltaria a passar de bom grado por cada um desses momentos se isso pudesse evitar a dor que sinto pela perda de alguém que amo.
A dor física infligida por uma lesão ou por uma infecção, pode ser fortíssima, pode-nos fazer gritar, espernear, esmurrar as paredes – eu sei, eu vivi isso! – mas tem um fim!
Por pior que tenha sido a dor, ela sempre passou. E de cada vez que isso me acontece, anima-me saber que mais tarde ou mais cedo, geralmente depois de uma nova cirurgia, ela irá passar.
Mas há uma dor que nunca passa!
Ao longo da vida perdi muitas pessoas que me eram queridas. Umas porque a vida as levou para longe, outras porque as perdi como amigas devido a algum gesto irreflectido e outras porque morreram antes de tempo.
As primeiras, tento-as recuperar fazendo uso às modernas tecnologias de comunicação, como o Facebook, e através dos reencontros pessoais ou em grupo. Estão a voltar a fazer parte da minha vida, como sempre deveria ter sido!
Esse reencontro é para mim muito importante, porque fazem parte do meu passado, da minha história. Escrevi um texto, ‘’Fragmentos’’ que podem encontrar no blog nos posts do mês de Maio, em que explico porque são para mim tão importantes os meus amigos. E penso sempre que se os amei e se apenas os acasos da vida os levou para longe de mim, então que estes acasos do avanço tecnológico da comunicação mos possam trazer de volta.
Muito pior é a dor dos amigos que perdi devido a um gesto, momento ou atitude irreflectida.
É uma dor que vai ficando, que nos mina, que nos desespera. É uma dor traiçoeira que nos ataca nos intervalos do dia e nas interrupções do sono. É uma dor de culpa e de arrependimento. É a demonstração da nossa falha, a nossa imperfeição enquanto seres humanos, o nosso pecado!
Afasta-nos do bem, afasta-nos de nós próprios!
E o pior, é que não há palavras que possam fazer sentir o nosso arrependimento, não há textos, por mais belos que sejam, que reflictam os nossos sentimentos, aquilo que sentíamos naquele momento e aquilo que sentimos depois, a todo o tempo.
E só nos nossos actos futuros, nos gestos e acções que praticamos, na mudança de rumo que damos às nossas vidas, no mostrar que queremos ser melhores do que éramos, que queremos ser melhores do que a maioria, podemos ter esperança de que um dia o rancor passe, o desafecto se atenue e nos possamos de novo reunir como os amigos que estávamos destinados a ser.
Contudo existe uma dor que nunca passará, a perda dos que já morreram. Eu sei que é uma dor que muda com o tempo. Criam-se memórias que nos confortam, que nos acarinham, que nos fazem felizes. Mas a dor, a dor da falta de presença física, do que ficou por dizer, estará sempre por cá!
O Diogo Sampaio de Guimarães era um dos meus melhores amigos. Faleceu devido a um trágico acidente. O indicador do nível de gasolina do seu automóvel estava avariado e ele viu-se sem combustível em plena madrugada na Av. 24 de Julho em Lisboa. Começou então a empurrar o seu carro até à bomba de gasolina que ficava a cerca de 100 metros.
Um imbecil bêbado, vindo de uma discoteca da zona e querendo mostrar às amigas que o acompanhavam que era melhor que o Fittipaldi, decidiu fazer-lhe uma razia para o assustar. Com o efeito do álcool e a falta de prática de condução acertou-lhe em cheio.
O Diogo foi evacuado para Santa Maria com lesões múltiplas onde haveria de morrer umas semanas depois devido a uma embolia, quando tudo parecia ir correr bem.
Eu era um dos seus melhores amigos e contudo não estive junto a ele quando mais precisava de companhia, de um apoio amigo. Agora vendo bem era ele que era um dos meus melhores amigos e não o contrário.
Eu morava então a 200 kms de distância, não havia auto-estradas, tal como agora tinha uma enorme dificuldade em colocar os deveres pessoais à frente dos profissionais e o acidente surgiu numa altura em que tive de trabalhar muitos fins-de-semana consecutivos e francamente, informavam-me de Lisboa que tudo estava a correr bem.
Tudo me serviu de desculpa na altura, tudo me serve para tentar justificar o porquê, mas o que é certo é que passados vinte anos ainda me culpabilizo por isso e caiem-me as lágrimas de arrependimento, como agora, no momento em que escrevo estas palavras.
Às vezes temos mesmo que escrever o que nos é mais íntimo, de mostrar quem somos, com as nossas coisas boas e os nossos defeitos. Quando me perguntam se me sinto confortável com a exposição pública das minhas memórias eu digo-lhes que o faço para fixar no tempo lugares, eventos e pessoas que se destacaram e que ficarão perdidos na memória colectiva se eu não o relembrar por escrito, para que fique!
Digo-lhes que o faço para ter tempo de dizer aos meus amigos o quanto eles significam e significaram para mim. Faço-o para homenagear amigos que se destacaram e para fazer uma elegia à amizade. Faço-o para que os meus filhos saibam como foi e como fui.
E tudo o que faço, na escrita e nas acções comunitárias faço-o também como acto de contrição. É tempo de crescer! É tempo de ser melhor do que era!
A minha crónica de hoje chama-se ‘’O Segundo Andar do Diogo’’ é dedicada à sua memória e àqueles dias felizes. A única nostalgia que sinto do passado não são os momentos que vivi, os lugares que frequentei, as aventuras em que participei. A única nostalgia que tenho do passado é os amigos que perdi. Uns recuperarei com o tempo, outros recuperarei com os actos mas há alguns que só poderei recuperar através da sua recordação.
Não existe nada pior na vida que a perda de entes queridos. Nada!
De acordo com os médicos, já tive que suportar algumas das piores dores físicas que nos é possível suportar. Ou devido a doença ou devido a acidente, já fui evacuado algumas vezes de ambulância para 100 kms de distância, já fui repatriado (é assim que se diz?) de outro país e já me encheram de morfina. Uma das vezes a dor foi tão forte que perdi momentaneamente os sentidos.
E contudo eu voltaria a passar de bom grado por cada um desses momentos se isso pudesse evitar a dor que sinto pela perda de alguém que amo.
A dor física infligida por uma lesão ou por uma infecção, pode ser fortíssima, pode-nos fazer gritar, espernear, esmurrar as paredes – eu sei, eu vivi isso! – mas tem um fim!
Por pior que tenha sido a dor, ela sempre passou. E de cada vez que isso me acontece, anima-me saber que mais tarde ou mais cedo, geralmente depois de uma nova cirurgia, ela irá passar.
Mas há uma dor que nunca passa!
Ao longo da vida perdi muitas pessoas que me eram queridas. Umas porque a vida as levou para longe, outras porque as perdi como amigas devido a algum gesto irreflectido e outras porque morreram antes de tempo.
As primeiras, tento-as recuperar fazendo uso às modernas tecnologias de comunicação, como o Facebook, e através dos reencontros pessoais ou em grupo. Estão a voltar a fazer parte da minha vida, como sempre deveria ter sido!
Esse reencontro é para mim muito importante, porque fazem parte do meu passado, da minha história. Escrevi um texto, ‘’Fragmentos’’ que podem encontrar no blog nos posts do mês de Maio, em que explico porque são para mim tão importantes os meus amigos. E penso sempre que se os amei e se apenas os acasos da vida os levou para longe de mim, então que estes acasos do avanço tecnológico da comunicação mos possam trazer de volta.
Muito pior é a dor dos amigos que perdi devido a um gesto, momento ou atitude irreflectida.
É uma dor que vai ficando, que nos mina, que nos desespera. É uma dor traiçoeira que nos ataca nos intervalos do dia e nas interrupções do sono. É uma dor de culpa e de arrependimento. É a demonstração da nossa falha, a nossa imperfeição enquanto seres humanos, o nosso pecado!
Afasta-nos do bem, afasta-nos de nós próprios!
E o pior, é que não há palavras que possam fazer sentir o nosso arrependimento, não há textos, por mais belos que sejam, que reflictam os nossos sentimentos, aquilo que sentíamos naquele momento e aquilo que sentimos depois, a todo o tempo.
E só nos nossos actos futuros, nos gestos e acções que praticamos, na mudança de rumo que damos às nossas vidas, no mostrar que queremos ser melhores do que éramos, que queremos ser melhores do que a maioria, podemos ter esperança de que um dia o rancor passe, o desafecto se atenue e nos possamos de novo reunir como os amigos que estávamos destinados a ser.
Contudo existe uma dor que nunca passará, a perda dos que já morreram. Eu sei que é uma dor que muda com o tempo. Criam-se memórias que nos confortam, que nos acarinham, que nos fazem felizes. Mas a dor, a dor da falta de presença física, do que ficou por dizer, estará sempre por cá!
O Diogo Sampaio de Guimarães era um dos meus melhores amigos. Faleceu devido a um trágico acidente. O indicador do nível de gasolina do seu automóvel estava avariado e ele viu-se sem combustível em plena madrugada na Av. 24 de Julho em Lisboa. Começou então a empurrar o seu carro até à bomba de gasolina que ficava a cerca de 100 metros.
Um imbecil bêbado, vindo de uma discoteca da zona e querendo mostrar às amigas que o acompanhavam que era melhor que o Fittipaldi, decidiu fazer-lhe uma razia para o assustar. Com o efeito do álcool e a falta de prática de condução acertou-lhe em cheio.
O Diogo foi evacuado para Santa Maria com lesões múltiplas onde haveria de morrer umas semanas depois devido a uma embolia, quando tudo parecia ir correr bem.
Eu era um dos seus melhores amigos e contudo não estive junto a ele quando mais precisava de companhia, de um apoio amigo. Agora vendo bem era ele que era um dos meus melhores amigos e não o contrário.
Eu morava então a 200 kms de distância, não havia auto-estradas, tal como agora tinha uma enorme dificuldade em colocar os deveres pessoais à frente dos profissionais e o acidente surgiu numa altura em que tive de trabalhar muitos fins-de-semana consecutivos e francamente, informavam-me de Lisboa que tudo estava a correr bem.
Tudo me serviu de desculpa na altura, tudo me serve para tentar justificar o porquê, mas o que é certo é que passados vinte anos ainda me culpabilizo por isso e caiem-me as lágrimas de arrependimento, como agora, no momento em que escrevo estas palavras.
Às vezes temos mesmo que escrever o que nos é mais íntimo, de mostrar quem somos, com as nossas coisas boas e os nossos defeitos. Quando me perguntam se me sinto confortável com a exposição pública das minhas memórias eu digo-lhes que o faço para fixar no tempo lugares, eventos e pessoas que se destacaram e que ficarão perdidos na memória colectiva se eu não o relembrar por escrito, para que fique!
Digo-lhes que o faço para ter tempo de dizer aos meus amigos o quanto eles significam e significaram para mim. Faço-o para homenagear amigos que se destacaram e para fazer uma elegia à amizade. Faço-o para que os meus filhos saibam como foi e como fui.
E tudo o que faço, na escrita e nas acções comunitárias faço-o também como acto de contrição. É tempo de crescer! É tempo de ser melhor do que era!
A minha crónica de hoje chama-se ‘’O Segundo Andar do Diogo’’ é dedicada à sua memória e àqueles dias felizes. A única nostalgia que sinto do passado não são os momentos que vivi, os lugares que frequentei, as aventuras em que participei. A única nostalgia que tenho do passado é os amigos que perdi. Uns recuperarei com o tempo, outros recuperarei com os actos mas há alguns que só poderei recuperar através da sua recordação.
O SEGUNDO ANDAR DO DIOGO
Falar do segundo andar de casa dos pais do Diogo Sampaio de Guimarães, na Praça da Fruta, ao tempo por cima da loja Monteiro, é falar antes de mais no próprio Diogo.
Falar do segundo andar de casa dos pais do Diogo Sampaio de Guimarães, na Praça da Fruta, ao tempo por cima da loja Monteiro, é falar antes de mais no próprio Diogo.
O Diogo foi um dos meus melhores amigos, presente em todas as peripécias e aventuras ocorridas nas Caldas e mesmo em muitas em que participei ou assisti em Lisboa, depois de partir para a universidade.
Ele esteve omnipresente nas matinés do Casino que mencionei numa das minhas primeiras crónicas (As Matinés no Casino) e em todos os outros episódios ai ocorridos. Era meu companheiro inseparável nas fitas do Pinheiro Chagas e do Salão Ibéria (O Piolho e as Reprises) e frequentador permanente do Sotão do Kiko (O Primeiro Sotão do Kiko) e mais tarde do Sotão dos Crespos (O Sotão), assistiu às cenas em volta do ‘’Disco Amarelo’’ e do ‘’Punk Belga’’ e foi protagonista de ‘’Sardinhadas com Azeite’’. Era o meu par e adversário preferido no ténis e não faltava às festas a que referi em ‘’Slows e outros Termos Náuticos’’. Picou o ponto em todas as referências a que fiz no meu Manifesto do Grupo sobre o que fazíamos na nossa juventude.
Estava certamente connosco nos eventos mencionados em ‘’Um Carnaval Perfumado’’ e ‘’Caçada na Mata Real’’.
Esteve sempre no meu pensamento em ‘’Cruzando os Anos em Poucos Dias’’ e só o facto de estudar em Lisboa o impediu de participar na nossa excursão de finalistas. E ainda tentou!
Como praticou rugby em Lisboa, jogava connosco ao fim de semana após os acontecimentos descritos em ‘’Rugby nas Amoreiras’’.
Era um dos participantes nas carrinhas de rolamentos de ‘’O Fim da Infância’’ e um dos membros de ‘’A Resistência’’.
Seguia muitas vezes connosco nas expedições diurnas ao Jardim-Cinema e nocturnas às discotecas dos arredores de Lisboa, como descrito em ‘’Um Vinho do Porto Com Mais de 30 Anos’’ e foi em sua casa que se alojou o grupo de amigos de Cascais que participaram comigo no retiro mencionado em ‘’Em Busca da Espiritualidade’’, quando uns tempos mais tarde decidiram nos vir visitar às Caldas.
Referi-me a si na crónica ‘’A Amizade está ao virar de uma Árvore’’ mencionando as nossas corridas de bicicleta no parque.
Era com ele também que corria para a ‘’Velha Esplanada’’ para comprar gelados.
Se colocasse no blog uma etiqueta com o seu nome seria certamente um dos títulos mais mencionado. Um amigo sempre presente em todas as ocasiões, por vezes nem percebíamos como ele lá tinha ido parar! O Diogo fazia-se convidado para a minha vida e hoje lamento amargamente que não tenha vindo para ficar!
Já passaram 20 anos desde que o Diogo morreu. De uma forma estúpida, trágica, malvada, ridícula, sem sentido, ilógica, absurda!
E eu estupidamente nem uma só foto tenho para o recordar perante vós. Como é possível que a nossa comunhão de vida de tantos anos não tenha sido registada por uma única vez?!
O Diogo contudo estará sempre na minha memória e não há dia que passe que não me veja obrigado a recordá-lo. Um local que visito, uma pessoa que reencontro, um facto que me é mencionado, uma das suas inúmeras broncas, manias, cenas estapafúrdias, palhaçadas, partidas, agora doces lembranças que me são recordadas!
O Diogo vivia em Lisboa, no Campo Grande, mesmo junto ao Colégio Moderno, mas tendo a sua família casa nas Caldas, não perdia um segundo para vir para cá. Apanhava uma boleia – às vezes punha-se em plena auto-estrada na Portela à boleia! – ou apanhava a camioneta da Rodoviária e antes do jantar de sexta-feira já por cá cirandava. Adorava as Caldas e só ia a Lisboa para frequentar as aulas. Todo o tempo que se libertava era passado nas Caldas.
Apesar de na maioria das vezes os seus pais não o poderem acompanhar, isso não atrapalhava o Diogo pois haveria sempre uma casa amiga para lhe dar as refeições que necessitava, em contrapartida a sua enorme casa estava sempre à disposição dos amigos.
O Diogo tinha características muito especiais, era uma criança grande, um miúdo que não queria crescer mantendo as virtudes - a que na altura chamaríamos por certo defeitos - da infância, a ingenuidade perante terceiros, a confiança total no próximo, a falta de cerimónia com os amigos.
Estas características valeram-lhe muitas partidas inofensivas que lhe pregávamos mas também muitas reprimendas pelos seus exageros e nem compreendia a razão do sermão. Tinha um enorme apetite e podia almoçar ou jantar tantas vezes quantas as refeições que lhe eram oferecidas. Detinha também o recorde de enfardamento de papo-secos das Teixeira. A imagem do Diogo a chegar à praia com a toalha numa mão e um saco de plástico com uma dúzia de papo-secos com manteiga e fiambre, é-me recorrente!
Não vou aqui dizer quantas sardinhas comeu uma vez no Casal dos Crespos, tendo sido mandado parar para que chegassem para todos. Foram dezenas e dezenas mas vocês nem acreditariam no número. Uma vez em casa da nossa tia por afinidade, Carlota Mendonça, uma linda moradia na Avenida, tentou comer todas as trouxas-de-ovos que tinham ficado do jantar por considerar que iriam ficar para se estragar uma vez que a Tia Carlota vivia sozinha, eram algumas dúzias!
Era também muito competitivo e esse era o seu principal handicap nos desportos. O Diogo tinha uma aptidão nata para qualquer desporto, poucos dias após começar a praticá-lo já o fazia de forma desembaraçada e bastante perfeita. Batia-me regularmente no Ténis, no Ping-Pong, no Snooker e no Bilhar, nos Matraquilhos e até nos Flippers. O truque, que usei em abundância, era picá-lo, começar a importuná-lo com bocas que o desvalorizavam. O Diogo nessa altura irritava-se, entrava em stress e acabava por perder sistematicamente os jogos perante um adversário de nível inferior como eu era.
Começámos a jogar ténis juntos aos seis anos, primeiro com o Toni Vieira Pereira como professor e depois pelos seus assistentes que estivessem disponíveis, o Néné Cardoso, o Gé-Gé Sottomayor, seu primo, o Rogério Matias e o Miguel Bento Monteiro. Mais tarde foram os seus dois irmãos, o Ai-Tó e o Miguel que nos aperfeiçoaram e corrigiram.
Também ficaram célebres as nossas corridas de bicicletas, primeiro no pátio do casino, depois no recinto das bicicletas no parque e por fim por toda a cidade e arredores. Inicialmente o Diogo tinha uma pequena bicicleta vermelha que por ter rodas pequenas exigia um enorme esforço contra a minha Vilar e a Motobecane do Kiko mas um belo dia, o seu pai Aires, apareceu com uma grande surpresa, três bicicletas clássicas, as típicas pasteleiras pretas, para cada um dos filhos rapazes e cada uma ostentava uma pequena chapa junto ao guiador com o nome de cada um deles. Foi uma festa! O Miguel chegou a ir de Caldas a Lisboa, à sua casa do Campo Grande, na sua bicicleta! Demorou seis horas, partiu às seis e chegou ao meio-dia, sempre por estradas nacionais! Ainda há pouco tempo nos encontrámos por acaso no Colombo e relembrámos esses tempos e esse episódio!
Como me faz falta um amigo como o Diogo! Nós éramos inseparáveis companheiros de desportos, salvo o caso em que uma vez me pediu emprestada uma prancha de windsurf, que por sua vez me tinha sido também emprestada e que eu repousara no areal junto à lagoa para descansar ou conversar com amigos, conseguindo me convencer que sabia velejar. Na realidade conseguiu levar com brio a prancha em linha recta quase até à outra margem, nos belgas. O pior foi que não sabia manobrar, caiu e depois de várias tentativas para se reerguer na prancha, decidiu voltar a nado e deixar a prancha à deriva! Lá tive eu que ir atravessar a lagoa a nado para recuperar a prancha!
Éramos tão inseparáveis em determinadas situações que após a sua morte esmoreceu por completo o meu gosto pelo ténis, desporto que deixei gradualmente de praticar até um acidente me impedir fisicamente de o voltar mesmo a fazer.
Jogávamos bilhar e snooker desde os nossos doze anos. Aprendemos com o meu avô materno no Marinto e prosseguimos por nossa conta nas mesas da cave do Central, no Camaroeiro, na Maratona, no Jardim-Cinema, no Foxtrot, no Pavilhão Chinês e em outros locais em Lisboa, no Caravela e no Leão na Foz do Arelho e mais tarde no Dreamers, no Solar da Paz e no Sitio da Várzea, onde jogámos as últimas partidas.
Jogávamos praticamente sempre que nos encontrávamos e após a sua morte nunca mais voltei a jogar uma partida que fosse até ao ano passado, em que de férias numa herdade no Alentejo o meu filho mais novo, Francisco, me pediu para lhe ensinar. Tal como acontecera à trinta e tal anos atrás com o meu avô João!
E entre um misto de alegria e uma enorme nostalgia pela falta que essas duas pessoas, o meu avô e o Diogo, me fazem na vida, ensinei-lhe a segurar o taco, os efeitos, a fazer pontaria.
Por respeito à memória do Diogo, por querer preservar esses momentos únicos que se destacaram por entre as várias recordações da nossa amizade, não voltara a jogar e então, naquele instante, senti que era uma causa tão bonita, a partilha de um momento único e inesquecível entre mim e o meu filho, que se justificava a quebra do meu pacto, o Diogo haveria de compreender e de gostar!
Mas o Diogo também tinha várias coisas em comum comigo e umas delas é que sistematicamente nos interessávamos pela mesma rapariga. O facto não era apenas coincidência, na realidade normalmente só nos chamavam a atenção caras novas, geralmente amigas de amigas que com elas vinham passar férias às Caldas. E sempre que eu ficava um pouco mais de tempo a conversar com uma delas lá vinha o Diogo me dizer que eu estava a tentar roubar-lhe a namorada! Mal podia eu dizer que ‘’Namorada? Só é se ela souber!’’ Aliás uma das minhas bocas preferidas quando o Diogo me dizia que a rapariga era sua namorada era perguntar-lhe: ‘’E ela já sabe?’’
Olhando agora para trás, salvo uma única excepção, a bela brasileira Solange, prima da Bibú e da Vani Castro, nunca namorei com alguma dessas turistas mas adorava a ideia de implicar com o Diogo e foi assim com a Luisinha Castelo Branco, prima do Manel e do Luis Castelo Branco, com a irmã da Manuela Benites que nos visitou numa célebre semana em que uma baleia deu à praia na Foz, com a Micá, amiga da Isabel Moreira, neta do Dr. Ernesto Moreira e entre outras que não guardei na memória, com outra amiga da Isabel Moreira, a Xana, actualmente mais conhecida pelo seu trabalho como actriz e pelo seu nome Alexandra Lencastre!
A Xana, veio por uma ou duas vezes passar às Caldas um período das férias de Verão com a sua amiga Isabel Moreira. Era muito simpática e entrosou-se rapidamente no nosso grupo de amigos. Passava os dias connosco na praia da Foz, onde aliás todos tínhamos barracas alugadas e as noites eram repartidas entre a casa da Isabel, sobre o túnel por trás da Igreja, na Zaira ou na Taiti e no segundo andar do Diogo!
Como o Diogo passava longas temporadas sozinho nas Caldas, os seus pais, por certo, preferiam que ele permanecesse em casa ainda que na companhia de uma multidão de amigos, do que a vaguear pela rua ou a passear em carros conduzidos por jovens com pouca experiência de condução. Assim disponibilizavam-nos o segundo andar de sua casa. Este estava inteiramente mobilado pois servia de área de hóspedes ou para quando tinham toda a família nas Caldas mas tinha uma entrada independente do resto da casa, tanto do primeiro andar, a residência oficial da família, como das águas furtadas onde residia a Aurora, sua empregada de sempre e o seu marido Miguel.
Ficava e fica situado num dos edifícios mais antigos das Caldas. Se procurarmos no Google imagens da Praça da Fruta, que já foi Praça Maria Pia e desde 1910 se chama Praça da República, verificamos a sua existência desde a criação do terreiro que deu lugar à praça.
Acedia-se por umas escadas em mármore muito íngremes que estavam à esquerda da entrada, e das montras, da loja Monteiro. Subia-se ao primeiro andar, à direita ficava a porta principal para o primeiro andar e à esquerda ficava a loja de retrosaria e o atelier da costureira D. Deolinda, à frente ficava a porta que dava para um hall interior que por sua vez dava acesso às portas do fundo da casa principal, que no passado serviria para atendimento dos fornecedores da cozinha, e às escadas interiores em madeira que conduziam aos andares superiores.
Acedia-se por umas escadas em mármore muito íngremes que estavam à esquerda da entrada, e das montras, da loja Monteiro. Subia-se ao primeiro andar, à direita ficava a porta principal para o primeiro andar e à esquerda ficava a loja de retrosaria e o atelier da costureira D. Deolinda, à frente ficava a porta que dava para um hall interior que por sua vez dava acesso às portas do fundo da casa principal, que no passado serviria para atendimento dos fornecedores da cozinha, e às escadas interiores em madeira que conduziam aos andares superiores.
Durante uns tempos, apenas tínhamos acesso às divisões que davam para a Praça pois o andar era tão grande que se dividira em dois e a parte de trás, onde se situava a cozinha, estava arrendada a uns amigos. Quando estes partiram das Caldas, pudemos então utilizar todas as divisões da casa, embora na prática geralmente só nos mantivéssemos na grande sala com três janelas viradas para a rua.
Era aqui o centro da actividade, era como se fosse o nosso clube privado, daqueles que existem nos países anglófonos e que são em alguns casos exclusivamente para homens…ou para mulheres. Não era este o caso, pois toda a gente podia entrar se bem que na maioria das vezes as raparigas do grupo preferissem ir para outros lados do que se entediar em longas tardes de jogatanas de cartas.
Na realidade a maioria do tempo que passávamos no segundo andar do Diogo, e foram muitas as tardes e serões em que aí estivemos, era passado a jogar todo o tipo de jogos, desde o Monopólio, ao Petróleo, ao Risco e ao Cluedo, passando claro pelo xadrez e pelas damas. Também jogávamos às cartas, o King, o Crapô, à Sueca e os que sabiam jogavam à Canasta, Bridge não, pois só o João Moreira o sabia jogar! Mas o que nos retinha por mais tempo eram sem dúvida as sessões de pokeradas jogadas a feijões.
Parece que o poker é proibido de jogar fora dos casinos com o respectivo alvará, não sei se o jogo em si se jogar a dinheiro, contudo éramos todos menores de idade e passaram já trinta anos pelo que o crime, a haver crime, já deverá ter prescrito e verdade seja dita, não jogávamos senão a feijões, os de manteiga a fazerem de fichas de 1 e os feijões-frade a fazerem de fichas de 5!
Pelo sim pelo não, o melhor é não mencionar pelos nomes as dezenas de participantes que ao longo de alguns anos participaram nessas rodadas mas posso vos dizer que nos divertíamos muito mais pelas bocas dos participantes e assistentes e pelas cenas de bluff do que pelo jogo em si.
Este aliás era jogado com cartas de 7 ao Ás, eram pois retiradas as cartas do 2 ao 6 e conhecia duas variantes, aberto, ou seja eram distribuídas duas cartas aos jogadores estes tinham de as combinar nas conjugações conhecidas do poker com três das cinco cartas que eram gradualmente expostas sobre a mesa. Podiam ir apostando cada vez que se expunha uma carta na mesa e podia-se trocar uma ou outra carta até ser exposta a terceira carta sobre o tabuleiro. Na variante fechada eram distribuídas cinco cartas por cada um dos participantes que podia trocar até três cartas até à terceira rodada e depois efectuar as conjugações entre as cartas que detinha.
Mas nem só com jogos, leituras e assistência aos filmes de televisão, a preto e branco, se passavam os dias e os serões, geralmente até à meia-noite, hora de recolher.
Uma vez por outra aparecia alguma inovação e um dia o Fernando Horta e o Gentil apareceram com uma velha máquina de 8mm ou super 8 e com umas fitas para exibirem.
- Gamámos estas películas que estavam no sótão! São pornográficas! – exclamaram com ar de terem cometido uma enorme infracção e de estarem contentes por isso.
Olhámo-nos todos com ar de cúmplices. Ainda bem que não estavam raparigas presentes. Para muitos de nós, eu incluído, era a primeira vez que iríamos ver um filme pornográfico. Lembrem-se que na altura não existiam vídeos, nem canais por cabo. Apenas o Bar 25 na Rua do Coliseu e uma sala perto do Parque Mayer e ainda não os tínhamos descobertos! Na realidade tínhamos visto por engano do projectista umas apresentações no Salão Ibéria quando nos preparávamos para ver um filme de cowboys ou do Tarzan mas tinham sido apenas uns poucos minutos do Western Porno (ler a crónica ‘’O Piolho e as Reprises’’), do Mandigo e julgo que do Último Tango em Paris mas nada que nos elucidasse bem da questão!
Os rapazes da Amoreira lá puseram a bobine a rolar projectando o filme contra a parede nua.
Bem, nua era apenas a parede! As fitas em acetato estavam completamente degradadas pela humidade e fungos de anos de armazenamento e não se conseguia ver absolutamente nada. Apenas me recordo de uma cena com velas de aniversário e estrelinhas na parte final do filme. Podia ser apenas uma película caseira de uma festa de aniversário da família, vai-se lá saber!
Muito nos divertíamos no segundo andar do Diogo!
E quanto à Alexandra Lencastre perguntam vocês? Bom, a Xana era na realidade muito bonita e pretendida por todos os rapazes. De resto todos tentámos, sem sucesso, a nossa sorte. Viria a ter um serão de conversa a dois com ela enquanto os outros todos estavam entretidos com qualquer coisa e é só disso que me lembro. Disso e de que era muito simpática mas tinha de ter uma paciência de santa para nos aturar a todos! Ainda estive com ela por várias vezes no Restelo, na Rua Tristão Vaz, em casa da Isabel mas depois só a voltei a ver por uma vez, em meados de 80 numa paragem de autocarro no Saldanha.
As idas ao segundo andar do Diogo diminuíram com o aparecimento do Sotão dos Crespos e acabaram quando terminámos o liceu. Agora já não tínhamos tantas tardes livres nem os fins-de-semana nas Caldas podiam ser gastos enfiados em casa. Havia novas paragens por descobrir!
O Diogo continuou a ser meu companheiro quase diário dos serões de Lisboa e mantivemo-nos sempre por perto, durante toda a década de 80 até à minha ida para Coimbra em 1987. E foi aí que recebi, uns anos mais tarde, um dos mais tristes telefonemas da minha vida.
O Diogo permaneceu sempre dentro de cada um de nós, seus amigos. E talvez por isso, a sua mãe, a querida Tia Bia, sempre que me encontra, faz uma enorme festa, enchendo-me de beijos e abraços. Ela sabe que é um pouco do seu filho Diogo (e também por certo do Ai-Tó!) que ela reencontra em mim e eu, da mesma forma quando a encontro, abraço-a como estando a abraçar os seus filhos, meus amigos para a vida!
Ao Diogo
Publicada por
Paulo Caiado
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sábado, 27 de novembro de 2010
ÉRAMOS ENDIABRADOS - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO
Desde que comecei a ler as crónicas do Paulo pensei escrever qualquer coisa, mas a vida agitada, o excesso de trabalho e essencialmente, o não ter a certeza do que gostaria de partilhar que constituísse memória dos anos em causa, levaram-me sempre a arrepiar caminho.
Lembro-me de inúmeras peripécias desses tempos, que envolveram amigos e colegas de escola em situações mais ou menos caricatas. Do que me lembro essencialmente é que constituíamos uma geração engraçada e algo provocadora, numa época em que se estabelecia a transição entre as educações rígidas que a maioria de nós teve, e as bastante menos rígidas, já para não dizer, talvez um pouco facilitadoras demais, que a maioria de nós acabou por dar aos filhos.
No nosso tempo não se questionavam as opiniões e ordens dos mais velhos e cumpria-se um sem fim de regras, que agora nos parecem na sua maioria obsoletas. Até nos rimos quando recordamos que tivemos de implorar e batalhar pelo direito de ir a pé para a escola, ao passo que agora, os nosso filhos nem imaginam a possibilidade de não serem transportados para todo o lado por pais, avós ou quem quer que tenha alguma disponibilidade.
A minha irmã dizia-me há uns anos que por vezes se sentia um híbrido entre táxi e multibanco e parece-me que muitos de nós já tiveram essa sensação, nem que fosse por uma vez. Os nossos filhos convencem-se por vezes de que fomos um grupo ordeiro que jamais deixava de cumprir aquilo que estava estipulado e, embora em grande medida fosse isso que era de nós esperado, o facto é que nem sempre assim acontecia.
A grande diferença em relação ao que hoje se passa, era que nós fazíamos imensas coisas que não eram bem aquilo que entre aspas, deveríamos, mas sempre com alguma consciência dos limites que não se podiam mesmo ultrapassar.
Hoje em dia, penso que muitos miúdos se esquecem desses limites e isto é uma questão absolutamente transversal em termos sociais. Não é um problema de ricos e pobres, ou de mais ou menos cultos e educados, mas algo que se tem vindo a enraizar na sociedade de tal maneira, que mesmo os pais que têm noção de que as coisas não estão muito bem, acabam por ter dificuldade em remar contra uma maré que se avoluma e ganha força de dia para dia. É o conceito do “eu mereço”, que se difundiu num clip publicitário de um leite qualquer, mas se traduziu entretanto, na ideia de que tudo merecemos e a tudo temos direito, quando de facto nem tudo merecemos e muito menos, a tudo temos direito.
De qualquer forma, e voltando ao tema inicial, nós éramos endiabrados e muito nos divertimos com isso. Por isso e para que os participantes se lembrem e riam, e os não participantes também se possam rir, aqui ficam alguns registos de peripécias mais ou menos amalucadas de que me recordo.
A primeira que me ocorre é sem dúvida uma célebre noite no Inferno da Azenha em que estava com as amigas de sempre: a Lúcia, a Isabel, a Minela, a Sami e de certeza mais umas quantas. Estávamos no primeiro andar e todas ou quase todas já um bocadinho entornadas, quando de repente dou com a Minela a descer as escadas muito devagarinho, e a cada degrau que descia, dizia uma célebre frase que ficou para a História: “Minela, uma senhora nunca se embebeda.”, e lá descia mais um degrau…
Foto de Margarida Araújo
Outra peripécia engraçada mas bem mais antiga, remonta ao meu sétimo ou oitavo ano, quando decidi com a Anita não ir a uma aula qualquer, que entretanto já tinha começado. O problema foi que tínhamos os livros e cadernos dentro da sala e precisávamos de os tirar de lá, de forma que, achámos por bem pormo-nos de gatas e, quando o professor abriu a porta, puxar-lhe pelas pernas das calças e pedir-lhe que se afastasse, que íamos só lá dentro buscar uma coisa… e lá fomos nós de gatas ao outro lado da sala buscar os nossos pertences, e de novo até à porta, perante o olhar estupefacto de professor e colegas. Penso que o Prof. ainda hoje deve pensar porque carga de água não reagiu…
Também me lembro de passar uma aula de inglês inteira a mudar a fralda a um rato de pano com a Anita. Usámos um lenço de papel e conseguimos boicotar completamente o trabalho da desgraçada que teve e infelicidade de nos ter na turma. O problema era que ainda por cima éramos alunas de vinte a inglês e portanto as represálias não eram fáceis de exercer. Enfim, as coisas que os professores aguentavam… eram pelo menos mais divertidas que as que aguentam hoje, e bastante menos graves.
Também me lembro de um célebre sardão que o Mota largou no liceu… Deu um frufru medonho, houve senhoras em cima das mesas aos gritos e finalmente, quando o sardão foi apanhado e barbaramente encarcerado, pelo Padre Eduardo se não estou em erro, que há-de ter sido o único que lhe conseguiu mexer, os felizes proprietários do animal vieram-me pedir emprestada a pastora alemã para proceder ao resgate. Lá emprestei o bicho mas fiz questão de os avisar que não era grande defesa pessoal de tão amaricada a tínhamos feito. Não se importaram muito, alegando que o Padre não sabia dessas fraquezas da cadela e lá foram, exigir a devolução do sardão, sob pena de atiçarem o cão. Penso que ainda hoje poucos sabem que a pastora era um doce, habituada a brincar com crianças e incapaz de fazer mal a uma mosca. Ehehehe!
Ainda no Liceu, lembro-me bem de saltar pelas janelas dos laboratórios do rés-do-chão para ir laurear a pevide para o Parque; lembro-me também que laurear a pevide significava entre outras coisas, passeios de barco no lago com os pés descalços dentro de água, passar a tarde deitada na relva a roer uma palhinha, muito namoro e alguns passeios para a Foz e S. Martinho, esses mais tarde, já de carro e de mota.
Ainda no Liceu, lembro-me bem de saltar pelas janelas dos laboratórios do rés-do-chão para ir laurear a pevide para o Parque; lembro-me também que laurear a pevide significava entre outras coisas, passeios de barco no lago com os pés descalços dentro de água, passar a tarde deitada na relva a roer uma palhinha, muito namoro e alguns passeios para a Foz e S. Martinho, esses mais tarde, já de carro e de mota.
Com a Anita lembro-me de no Carnaval deitarmos estalinhos da janela do terceiro andar da casa dela cá para baixo, e ficarmos deliciadas a ver as senhoras aos gritos e os collants a ficarem cheios de malhas com as faíscas pequeninas que aquilo deitava.
Por essa altura também tínhamos o hábito de ouvir música num volume de som tal que qualquer pessoa que passasse na rua três andares abaixo, poderia identificar claramente as músicas que ouvíamos. Quantas vezes a vizinhança se queixou e quantas vezes a mãe dela se exasperou connosco…
Voltando ao Liceu, lembram-se de quando um professor bem-intencionado se lembrou de dar umas aulas de educação sexual e da raia que isso deu? O infeliz quase foi expulso por estar a corromper as criancinhas e as criancinhas permaneceram tão desinformadas como estavam antes. Os puritanos da época regozijaram-se e à conta disso possivelmente, mais uma ou outra rapariga engravidou a destempo, mais um casalinho se formou prematuramente e mais uns avós tiveram de ajudar a criar netos de filhos adolescentes. Não é que a coisa não continue a acontecer, mas penso (espero..) que já não passaria pela cabeça de nenhum de nós achar que os meninos devem ser mantidos na ignorância.
Também me lembro de uma célebre professora de Português que decidiu dar gramática ditando o conteúdo de uma gramática. Já na altura eu tinha algum sentido prático e perguntei-lhe se aquilo que estava a ler era uma gramática, porque nesse caso se não se importasse, podia dar-me a referência da dita e eu trataria de a comprar e ler, em vez de estar a escrever definições no caderno. Escusado será dizer que ficou absolutamente furiosa e aí… ai que há gente que tem mesmo falta de sorte… não é que me disse que agarrasse nas pernas e fosse para a rua. Quem lá estava deve lembrar-se: saí mesmo agarrada aos joelhos… mais uma aula transformada num circo.
Eu era tramada mesmo, tenho de reconhecer, mas também tinha por lá umas acompanhantes jeitosas. Normalmente eram a Anita e a Isabel Martins, depois juntou-se-nos a Paula Nascimento da Benedita, enfim… meninas com ideias brilhantes. Quando não nos divertíamos a fazer a vida negra aos professores, entretínhamo-nos a escolher os colegas mais tímidos da turma e fazer tudo o que pudéssemos para os fazer corar. Miguel desculpa. Não tínhamos má intenção, mas tu ficavas mesmo giro vermelho que nem um pimentão…
Mas há mais algumas engraçadas: uma das melhores foi quando os três casalinhos da vida airada (leia-se eu com o Quintino, a Anita com o Mota e a Isabel com o Clérigo) tinham o bonito hábito de namorar nas escadinhas da sala de trabalhos oficinais, por traz do Liceu. A coisa estoirou quando um belo dia de manhã a porta das traseiras apareceu fechada a sete chaves. Nunca tivemos s certeza que fosse por nossa causa, mas tudo indicou que sim, a começar nos rumores que por lá andavam. Garantidamente que foi, ou por isso, ou porque o Mota se lembrou de entrar de mota no Liceu pela porta de cima, descer as escadas todas ainda de mota e, sair triunfalmente pela porta principal lá em baixo, com uma quantidade de funcionários a correr atrás dele aos gritos…
Falando em peripécias de mota com o Mota, também me recordo de um célebre passeio de mota em que eu ia com o Quintino, e a Paula Nascimento com o Mota, até que ali para as bandas do Campo, ela lhe meteu o bolso no blusão, deu um valente grito, saltou borda fora, aterrou de rabo no chão, e o Mota parou muito chateado porque ela lhe tinha entretanto feito desaparecer a cobra que ele tinha no bolso…
Voltando às peripécias no Inferno na Azenha, lembrei-me agora de repente de mais três. A primeira foi quando fizeram lá uma rusga, eu, a Lúcia e nem sei mais quem não tínhamos idade para lá estar e nos enfiámos na casa de banho; qual não foi o nosso desconcerto quando a Belão decidiu porque decidiu, que havia de ir à casa de banho naquele momento. Ora mesmo ao lado estava a polícia, o Jorge não conseguia arranjar maneira de lhe explicar porque era que lá estávamos e ela fez um escabeche à porta da casa de banho. Lá a deixámos entrar e ela lá se calou mas ainda hoje acho que a polícia só não nos encontrou porque não quis.
Entretanto nessa altura era também hábito, sairmos da Azenha e ir passear pelas Caldas. Íamos ao pão quente, às vezes directos para a praia, eu sei lá. Lembro-me de que uma vez, andávamos de carro a passear pelas Caldas lá para as sete da manhã e começámos a ver passar as senhoras já velhotas que se levantam cedo, para passear os cãezinhos. Daí a lembrarmo-nos de nos meter com elas porque eram umas vadias, que àquela hora andavam ainda na galderice, foi um passo. Na altura elas riam-se mas se fosse nos dias que vão correndo, o mais certo era as senhoras fugirem o mais que pudessem, com medo de serem assaltadas…
Finalmente, e para terminar este conjunto de peripécias mais ou menos engraçadas, mais ou menos rocambolescas, aqui fica uma que bastante me custou e quem estava presente certamente recordará: o dia em que e minha mãe me estabeleceu uma hora para estar em casa e como não a cumpri não foi de modas – meteu-se ao caminho até à Azenha e pregou-me um valente estalo em plena pista de dança. Essa doeu, mais na alma que na cara, mas doeu. Enfim, ela tinha alguma razão…
Não penso que o fizesse mas os tempos agora também são outros, o que me leva de novo à reflexão inicial, sobre as diferenças de educação entre nós e os nossos rebentos. Ainda não sei dizer qual é melhor, se a nossa se a deles. Penso que ambas pecaram por alguns excessos, sendo que naturalmente os excessos dos nossos pais foram por nós evitados, mas em contrapartida inventámos os nossos próprios excessos. Isto de educar meninos não tem receitas e não é fácil evitar alguns erros. Nós fomos talvez educados com demasiada severidade, até porque ficou patente nas linhas acima, que sempre tivemos meios de ultrapassar a maioria das regras. Os nossos filhos tiveram talvez a vida facilitada demais e muitos sofreram por falta de preparação para o mundo real, fora da saia da mãe e da mão protectora do pai. Se os nossos filhos conseguissem evitar os erros dos pais e dos avós seria fantástico, mas infelizmente a memória de cada geração é principalmente prisioneira dos factos vividos e esses confinam-se quase exclusivamente à geração anterior.
Post de Maria João Sacadura
Publicada por
Paulo Caiado
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21:48
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