segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

UM CONTO DE NATAL




UM CONTO DE NATAL

I

Todos nós tivemos um Natal mágico. Um Natal que nos ficou na memória como uma marca indelével do passado.

Para mim foi o Natal de 1968. Nesse ano eu apanhei varicela poucos dias antes e nessa noite fervia em febre para minha grande decepção que esperava por essa noite com enorme expectativa quer pela abertura dos presentes quer pelos momentos de brincadeira com os meus primos.

Tradicionalmente passávamos a Consoada em casa dos meus avós paternos na companhia dos meus tios, primos e tio-avós.

Então a minha mãe embrulhou-me numa manta e levaram-me ao colo para casa dos meus avós a poucas centenas de metros de distância. Tive de passar a noite de Natal deitado num sofá vendo com tristeza e inveja as minhas irmãs e primos nas correrias pela casa.

Pouco antes da meia-noite começaram a distribuição de presentes e com ansiedade aguardámos o momento da entrega dos oferecidos pelos meus avós que eram sempre os melhores.

Naquela altura recebíamos um presente por casa pelo que recebíamos no máximo uns três ou quatro por ano e eu recordo-me de todos os  que recebi dos meus avós em todos os Natais até esse ano de 1968.
 


Os presentes iam sendo entregues e eu e a minha prima Paula constatámos com tristeza que não tínhamos recebido nesse Natal qualquer presente dos meus avós. Contudo, não fizemos nenhum comentário e não nos apercebemos dos sorrisos maliciosos dos adultos.

Pouco depois mandaram-nos sair da sala para cumprir uma qualquer tradição e as luzes apagaram-se por instantes. Nos dias seguintes eu jurava aos meus colegas de jardim-escola que as luzes se tinham apagado apenas por um segundo e na minha memória realmente ainda me parece que foi tudo num ápice. Assim, um segundo depois, as luzes voltaram a acender-se e junto á enorme árvore de natal, sempre a maior e melhor decorada que eu já vi, apareceram duas bicicletas vermelhas de tamanhos diferentes. Eram os nossos presentes!

Naquele Natal tive o presente mais ansiado e aquela bicicleta durou anos.  Quando no Outono de 1973 me mudei para o Burlão a pequena bicicleta ficou para trás, não havia lugar para ela na nova casa e provavelmente os meus pais ofereceram-na a alguma instituição.



Só muitos anos mais tarde senti no rosto de alguém uma felicidade tão plena ao receber um presente como a que eu vivi naquele dia. O presente era tão insignificante perante aquela bicicleta e contudo para quem o recebeu era, naquele Natal, o mais valioso dos tesouros do mundo.

Naquele Natal aprendi duas lições.
Não é o valor das coisas que possuímos que nos dá a felicidade e que existem poucas coisas que nos poderão trazer  tanta alegria como aquela que sentimos perante a felicidade que vimos em alguém a quem damos algo verdadeiramente importante.






II

''Ele acorda momentos antes da chegada do Espírito do Natal Passado, uma criança fantasma com uma cabeça brilhante. O espírito acompanha o rabugento Scrooge numa viagem ao passado. Invisível para aqueles que ele vê, Scrooge revisita os seus dias de escola na infância, o seu aprendizado com um alegre comerciante chamado Fezziwig, e o seu noivado com Belle, uma mulher que deixa Scrooge porque o seu desejo por dinheiro se sobrepõe à sua capacidade de amar. Scrooge, profundamente comovido, derrama lágrimas de arrependimento antes do fantasma o trazer de volta à sua cama. ''

Charles Dickens - A Christmas Carol


II


Foi há mais de trinta anos. Mas eu nunca esqueci!

Eu deveria andar pelos meus 15 ou 16 anos e fazia da Zaira um dos meus pontos de encontro preferidos. De manhã ou à tarde, nos intervalos ou no fim das aulas encontrávamo-nos todos naquele café da praça, que foi o nosso quartel durante quase duas ou três décadas. Para alguns, uma herança vinda dos pais e até dos avós.

Sentávamo-nos geralmente ao fundo, de preferência nas mesas atrás do arco à esquerda, onde conseguíamos ver quem chegava antes mesmo de sermos vistos e onde os que fumavam às escondidas estavam a salvo.

Numa época sem telemóveis nem rede sociais via net, a Zaira, como foi para outros o Convívio, a Taiti, o Central, , o Camaroeiro, a Maratona, o café do Diamantino e da Ema ou o Café Creme no Bairro da Ponte ou durante o dia o Machado ou o Gato Preto, era o porto seguro, onde sabíamos ir encontrar os amigos a determinadas horas.

Era mesmo para quem chegava de fora, a certeza de reencontrar as velhas amizades ou saber de tantas outras.

Não telefonávamos, nem corríamos para um computador, que não existia. Apenas nos metíamos a caminho com a certeza do encontro.

Ali estudávamos, até nos proibirem de o fazer por estarmos a ocupar as mesas sem fazer consumo. (Um palito, um jornal e um copo de água, costumava dizer o João Gancho quando o abordavam). Ali começámos namoros, ali discutimos ideias e soubemos os mexericos. Ali nos ficávamos nas divertidas manhãs de sábado ou nas bucólicas tardes cinzentas de Inverno e dali partíamos nas noites de sexta e sábado em direcção a Óbidos, a S. Martinho ou à Foz, procurando os bares e as discotecas da época.

Eramos um grupo sólido mas muito grande e heterogéneo, era a malta da Zaira! Fieis polidores das paredes da Câmara Municipal fronteira e exímios testadores das suspensões e rigidez dos capots dos veículos estacionados em frente.

Fazíamos piscinas à Praça e à Rua das Montras e sortidas aos bilhares do Camaroeiro mas à hora de partida regressávamos à base, como os pombos do parque voltavam aos telheiros do Liceu.

Teríamos todos entre 14 e 25 anos, depois aparecia já a geração dos pais. Era raro aparecer uma criança sozinha, então à noite eu diria quase impossível.

Não me recordo porém quando apareceu o Zequinha pela primeira vez pela Zaira.

Era um miúdo muito franzino, até demais para a sua idade que era bastante indefinida. Ele nunca nos disse a sua verdadeira idade mas nós calculávamos que o fazia apenas para sua defesa. Não teria mais de 9 ou 10 anos.

O Zequinha chegou e de imediato se tornou a nossa mascote.

Quando perguntava a sua origem contavam-me diferentes histórias e na realidade julgo que ninguém o sabia verdadeiramente ou o procurou saber.

A versão que me foi contada falava-me de uma mãe que morrera e de um pai longe ou incapaz, diziam-me que o Zequinha e os seu irmãos estavam ao cuidado da irmã mais velha, de uns 14 ou 15 anos embora legal e oficialmente aparecesse registada a avó. Não sei se era realmente assim mas a história não poderia ser muito diferente, a avaliar pela forma como aparecia, sozinho, faminto e jovem, muito jovem, demasiado jovem. Uma criança!

O Zequinha para fazer algum dinheiro, com a dignidade que mantinha, e porque não pretendia viver dos bolos e sandes que lhe davam, decidiu arranjar uma caixa de sapatos, frascos de graxa e panos velhos e escovas e pedia-nos que o deixássemos engraxar os sapatos, como era habitual naquele tempo, existindo mesmo um pequeno batalhão de engraxadores do outro lado da praça.

E nós, entre a vergonha de o pôr nessa tarefa e a vontade de o ajudar, acedíamos a esse desejo, fazendo com isso o seu ganha-pão.



Muitos, na inconsciência da sua juventude, pregavam-lhe partidas, não lhe pagando os serviços, escondendo-lhe a caixa com as pequenas moedas de trocos e houve alguém, definitivamente mal-intencionado, que lhe roubou os ganhos de um dia.

Nessa noite o Zequinha chorou desalmadamente, chorou como eu nunca o tinha visto chorar!

Chorou não de auto-comiseração mas de raiva perante a vida, de desilusão perante os outros.

Infelizmente, o miúdo começou a aprender depressa e muito cedo que a vida não favorece os melhores nem os mais desprotegidos, a vida é uma lotaria aleatória que podemos forçar em nosso propósito mas no fim é sempre uma questão de sorte ou azar que nos fará feliz ou infeliz. Consigamos atingir ou não os nossos objectivos, existem sempre factores que não dominamos e que em qualquer altura nos podem cair em cima, deitando por terra tudo o que construímos seja material seja espiritualmente.

Logo ali nos juntámos e reunimos alguns cobres para atenuar a infelicidade do rapaz, já nessa altura afirmava que o dinheiro se destinava a ajudar a família, os seus irmãos. E nós não víamos razão para não acreditar!

Levávamos o Zequinha atrás para todo o lado, excepto para a vida nocturna. Lá para as dez da noite recambiávamo-lo para casa, julgo que no bairro dos Arneiros, e só então a sua figura franzina, os seus olhos estrábicos e os seus tiques nervosos, se afastavam de nós, uma caricatura de família e de grupo de amigos que parecíamos personalizar.

Chegou o Natal, talvez de 1980 ou 81. O Zequinha veio ao pé de nós com uma caixa de cartão e um ainda maior empenho em nos engraxar os sapatos.

- Quero comprar um transístor! Não, um rádio daqueles maiores em que eu posso apanhar todas as estações e que funciona a pilhas! – explicou-nos ele.

- E quanto custa isso? – perguntámos.

- Cento e vinte escudos!

- É pá! - disse o José Vargas colocando-lhe a mão ao ombro e fazendo aquele seu habitual sorriso irónico. – Vais ter muito que foçar! A cinco tostões a engraxadela vais ter que alargar o teu metier aos outros cafés se não, não te safas!

Mas o Zé, que atrás daquele ar de gozo permanente tem muito bom coração, começou de imediato a cravar toda a gente para ajudar o Zéquinha.

O miúdo, mesmo assim teve de trabalhar no duro mas todos os dias chegava ao pé de nós, com as suas contas e sentia-se feliz, cada vez mais perto do objectivo. Um sorriso de esperança invadia-lhe agora o rosto!

Era Natal! Era isto que era suposto acontecer!

Grão a grão, sapato a sapato, o Zéquinha foi angariando as moedas necessárias para comprar o seu rádio. Muitos ajudavam-no dando-lhe uma gorjeta. Muitos gozavam-no, escondiam-lhe a caixa, pediam-lhe dinheiro emprestado para o café, dinheiro que não devolviam. Mas apesar da falta de generosidade de muitos, do sarcasmo de outros, dos adultos que o mandavam para casa e para a escola mas que o não ajudavam, apesar de todas as dificuldades, um dia foi Natal para o Zéquinha!

Um dia, a criança chegou ao pé de nós ostentando triunfante o seu rádio Phillips. Conseguira!

A sua perseverança dera resultado! O Zéquinha conseguira engraxar dezenas de sapatos, conseguira resistir a todas as provocações e rejeições. A todo o desprezo e escárnio, e ultrapassara a adversidade!



Quando olho para trás agora, e vejo a idade que ele teria, imagino o meu filho Francisco que tem agora 10 anos. E imagino-o naquela situação, rondando os cafés e pedindo o favor de engraxar os sapatos, o favor de se ajoelhar perante os afortunados com dinheiro para cafés, cigarros, bolos e pastilhas e é difícil evitar que as lágrimas me caiam, é difícil evitar a pena, a raiva de toda aquela situação!

É difícil evitar pensar que deveríamos todos ter feito alguma coisa naquela altura. Eu teria a obrigação de saber mais sobre o Zéquinha, de saber o que necessitava, onde morava e o que poderia fazer para que o Zéquinha tivesse uma infância menos infeliz, mais próxima do que era suposto uma criança ter.

Todos esperámos que os outros o fizessem, que entidades assumissem o seu dever, que uma qualquer força etérea viesse em seu auxílio.

Deveria ter agido! E não fiz! Não o fizemos todos!

Um ano depois eu fui para Lisboa.

Fui vendo o Zéquinha mais espaçadamente e notei alguma degradação física. Disseram-me que tinha começado a andar com más companhias e andava a cheirar cola. Eu vira na Tv algo sobre o assunto referente aos moleques de rua no Brasil e pensava que era um fenómeno muito localizado. Estava completamente a leste do assunto e pensei que era uma fase. Que mais tarde ou mais cedo, o Zéquinha entraria no caminho correcto.

No caminho correcto! É tão bom quando nos confortamos com um bom pensamento e com um laivo de esperança e nos alheamos dos problemas. É tão bom quando podemos seguir em frente e deixar as incorrecções do mundo para com Deus ou outros. É tão bom poder dormir sem escrúpulos, sabendo que fizemos a nossa parte que é não fazer mal aos outros e tratar toda a gente com respeito, que é não roubar, nem ser desleal, que nem conseguimos ver a verdadeira realidade.

E escudamo-nos em frases feitas e ideias pré-concebidas, em exemplos raros de sucesso sem atender às estatísticas, à realidade da vida. A vida verdadeira, não a vida dos filmes e novelas em que os maus são maus e os bons são bons e que os maus pagam sempre e que os bons são sempre compensados.

A vida é cinzenta, todos somos santos e pecadores e quem diz que o sol quando nasce é para todos então deveria de ver o negrume de muitos dias em que o sol não nasceu e em que muitos ficaram à espera!

O Zéquinha conheceu um dia o Natal mas ele nunca mais voltou.

Imagino o meu filho sem ajuda, numa família desestruturada, sem dinheiro nem para tomar o pequeno-almoço numa altura em que as escolas ainda não tinham programas de apoio, sem dinheiro para livros nem exemplos em casa. Sem ajuda nos estudos nem um adulto que o aconselhasse, o rectificasse, lhe puxasse as orelhas ou lhe desse um beijo.

Sem um estímulo, um incentivo, um afecto!

Canso-me de ver expostos os exemplos dos que subiram a pulso na vida. São exemplares mas estudando a fundo cada situação verifica-se sempre que houve em determinada altura um apoio, um golpe de sorte, algo que os impulsionou. Mas canso-me sobretudo de tomarem a árvore pela floresta, de pensar que o Zéquinha teria sempre a obrigação de evitar as ameaças da vida, de evitar as tentações, de evitar os maus exemplos que lhe eram dados pelos únicos que o acompanhavam.

Uma criança sem afectos, sem apoio, sem dinheiro, sem educação, sem nada!

É tão fácil nesta situação tomar o caminho mais fácil, por vezes o que parece ser o mais feliz, o caminho da alienação, da alheação da realidade, o caminho dos sonhos! Do já não quero saber!

Hoje encontro o Zéquinha com mais frequência. Ele não me reconhece ou parece não me reconhecer, mesmo quando lhe sorrio.

Os outros parecem condená-lo. Parecem culpabilizá-lo pelo caminho que tomou como se ele tivesse tido opções. Muitos estarão dispostos a refutar a minha opinião, contestando-me com a verdade dos exemplos, os tais exemplos que são uma gota de água no oceano. Mesmo quem passou pela negritude dos dias me dirá que há sempre opção.

Talvez haja. Agora! Não naqueles dias de infância perdida, não naqueles dias de dez ou doze ou catorze anos de idade em que a experiência de vida era nula e quando a vida nos parece um longo caminho de penitência até ao dia de partir.

Talvez agora haja opções. Se o Zéquinha ainda tiver forças para lutar e vontade de recomeçar e se sobretudo lhe dermos essas opções.

Opções que não lhe foram dadas quando foi preciso.

E talvez, talvez, possa haver um outro Natal para o Zéquinha. Tão feliz como aquele de há trinta e tal anos!




O Zéquinha é um nome fictício, vocês sabem. A dignidade humana deverá ser sempre preservada a todo o custo. Todos temos o direito ao bom nome e ninguém, no que respeita à dignidade humana, tem um valor menor perante a sociedade enquanto merecer viver nessa mesma sociedade.


Band Aid - Do They Know It's Christmas - 1984

Feliz Natal para todos e não se esqueçam de apoiar a Oeste Solidário e a Operação Gorro Verde. Para que não hajam mais Zéquinhas!

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA I


Ao escrever Praça da Fruta outras memórias me surgiram. As recordações são como um novelo por desfiar!

A Góia não foi a primeira loja do João e do Adelino. Na realidade eles começaram numa loja situada num primeiro andar de um  prédio da Praça do Peixe e posteriormente tiveram uma outra loja num prédio muito antigo do outro lado da rua onde se localizava a Góia. Vendiam roupa quase ao desbarato e que se expunha empilhada sobre caixas, mesas e balcões, também servia esta loja para despachar os restos de colecção e os monos da Góia. O nome da loja conforme recordou o Chico-Zé Ferreira era ‘’Bom Preço’’ mas a minha mãe referia-se a ela como sendo o ‘’barateiro’’.

Ao lado ficava a loja dupla do JL Barros. Do lado esquerdo ficava a secção de artigos de pesca, a área de espingardaria e de venda de taças para competições desportivas.

Na montra eu admirava as raquetes de ténis da Tretorn, Slazenger, Wilson (Jack Kramer, Matchpoint), Dunlop (Maxplay), Prince, Donnay e Spalding. A minha primeira Tretorn, uma pequena raquete adequada aos meus 6 ou 7 anos foi comprada aí. Posteriormente passei a comprar o equipamento de ténis, sobretudo raquetes e bolas, num primeiro andar sobre, salvo erro, a ourivesaria da praça, antes da Frami.

Lembro-me quando o meu pai me comprou a minha primeira (e última!) cana de pesca no JL Barros, e que era pequena, fininha e branca, comprei também no momento, o isco, pois quis ir logo pescar para o cais da lagoa. As minhocas vinham ainda na lama embrulhada em papel de jornal!

Do outro lado ficava a restante zona de venda, sobretudo de vestuário e calçado desportivo que se estendia ao primeiro andar e até à rua das traseiras. A particularidade desta loja é que tinha um balcão de pagamento autónomo com uma caixeira. Mesmo ao lado da porta de saída. Uma originalidade que hoje vimos em algumas farmácias mas que era pouco comum nas Caldas.

Mais abaixo ficava uma loja de móveis e de alcatifas e depois da Cascata, o talho do Sr. Silvino que mereceu, coitado, muitos telefonemas nossos a perguntar se tinha pés de porco e mãos de vaca!

Voltando à loja inicial do João e do Adelino, o prédio não tinha placa e o tecto da loja começava a ficar abaulado. Contudo nada que se comparasse com o tecto da sapataria Macadi (de MArio CArvalho DIas) que tinha alguns tectos já muito curvados como se recordam certamente a Mizá e o Graciano que estão por aqui neste grupo.

E voltando de novo à Góia, posteriormente foi aberta uma segunda casa, que ainda existe, no edifício Franjinhas, na Rua Braancamp em Lisboa.

Uma das funcionárias da Góia (não me lembrava do nome mas o Chico-Zé lembrou-me que era Alice) viria a abrir a discoteca Queen’s que ficava na Rua Heróis da Grande Guerra onde agora é a Lanidor ou ao lado e que já foi um restaurante chinês.

Ao cimo da praça, na Calçada Frei Jorge de São Paulo, existia um funileiro. Um dos últimos que me lembro, os outros eram na Travessa da Cova da Onça, ao cimo da Rua de Jardim ou já na Cap. Filipe de Sousa,, na Rua do Jasmim, perto do C.C. da Avenida e outro na Rua António Lopes Júnior. Provavelmente espalhados pela cidade haveriam outros.

Também ao cimo da Praça e por trás do posto da PSP ficava o quartel da GNR e as suas cavalariças, de que ainda resta o portão. Davam para a Rua Diário de Noticias diante das estrebarias que ficavam sob os prédios do inicio desta rua. A GNR tinha um corpo equestre, o equivalente aos Subaru de agora!

Pelo menos não tinham de andar com uns lenços a tapar a boca e o nariz por causa dos fumos no habitáculo! Os odores eram outros!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

PRAÇA DA FRUTA



I

Percorro a Praça da Fruta e penso o quanto é vital para a cidade. Ela é o coração que irriga energia para as outras artérias, o pólo de atracção que encaminha as pessoas para o centro e daí as reconduz pelas várias ruas circundantes. Facilmente reparamos na quietude do centro da cidade após terminar o mercado, lá para as duas da tarde.

Sempre foi assim, desde os tempos em que era a Praça do Pelourinho (demolido já no século XIX), Praça do Comércio e Rossio da cidade até ser calcetada com o patrocínio de Faustino da Gama no século XIX e passar a chamar-se Praça D. Maria Pia. Com a instauração da República passou a denominar-se Praça da República. Mas sempre foi, e sempre será a nossa Praça da Fruta.

A praça é muito mais que o ex-libris da cidade. Na realidade só o é nas horas da realização do mercado. São as gentes que vendem as frutas e os hortícolas, as flores e as vergas, as cerâmicas, os enchidos, os queijos e os bolos que dão colorido à praça e que são realmente importantes para a vitalidade e divulgação da cidade.

No dia em que a praça da fruta desaparecer, em nome de uma qualquer modernidade, a cidade morrerá. Vão por mim.

Só quem fez vida fora da província, só quem faz a vida num grande subúrbio percebe o perigo eminente que paira sobre a nossa cidade.

Se um dia se impuser, a troco de melhores condições de higiene, segurança e de conforto a mudança do mercado para um recinto fechado e em simultâneo se instaurar ainda maiores centros comerciais na cidade, esta vai mudar, vai perder identidade e sobretudo vai perder vida, a vida que é gerada todos os dias pela realização do mercado.

Contra mim falo que beneficio profissionalmente do aparecimento de novas grandes superfícies, mas talvez por isso, por ter vivido tanto a situação de outras cidades sei os perigos que acarreta para uma pequena cidade, uma tão grande modificação nos hábitos quotidianos.

A troco de uma modernidade representada pelo surgimento de umas dezenas de lojas de marca, as pessoas mudam. E mudam drástica e inexoravelmente.

As visitas a um centro comercial de grandes dimensões passam a servir como actividade lúdica substituindo os reencontros nas ruas, nas praças, nos cafés, no parque. Passam a servir como actividade ‘’cultural’’ roubando tempo livre às visitas a museus e exposições. Passam a servir como actividade desportiva, sobretudo quando as populações, vestindo os seus fatos de treino de marca, decidem ir fazer jogging para o shopping e seus supermercados.

Viram? Ainda nem mencionei a razia que se faz no comércio tradicional e ruas sem comércio são ruas sem vida, sem segurança, sem atracção.

Eu não sou contra os shoppings quando devidamente enquadrados na cultura de uma cidade e não como normalizador dos hábitos populacionais. A sua presença é útil quando gera mais do que actividade comercial, como centro de cultura e de lazer que complemente a cidade mas que não substitua o que a caracteriza, o que a individualiza.

Uma combinação perigosa de factores de risco paira sobre as Caldas. Imaginem a nossa cidade sem o seu mercado diário e com o centro esvaziado de uma população que passa a correr para o shopping.

Caldas morrerá. Passará a existir uma outra cidade com o mesmo nome, em nada diferente a uma cidade dos subúrbios de Lisboa. Descaracterizada, meramente habitacional, sem vida!

Os passeios à Foz e S. Martinho, à Nazaré, Alcobaça e Peniche serão substituídos por idas ao shopping. Não acreditam? Perguntem o que aconteceu à Figueira da Foz após a abertura dos shoppings em Coimbra, o mesmo à linha do Estoril, Sesimbra, foz do Porto.

Os encontros diários com os amigos nos cafés e praças passarão a ser substituídos por encontros ocasionais nos pisos dos shoppings e todos deixarão de confluir à praça da fruta alimentando as artérias circundantes. Não acreditam? Então porque é que as outras ruas das Caldas estão já hoje vazias? É verdade que está instalada uma crise económica que faz diminuir o consumo mas queremos nós potenciar ainda mais o fecho de mais lojas de rua, apresentando o desolador aspecto que descaracteriza e nada dignifica a nossa cidade?

No dia em que a Praça da Fruta morrer passará a ser apenas a Praça da República, a versão pós 14h00 do nosso Rossio. Bonita, já descaracterizada do ponto de vista arquitectónico e sobretudo sem as pessoas que lhe dão vida.

Os que nos visitarem encontrar-nos-ão nos modernos centros comerciais. Não verão ninguém a caminhar pelas ruas e francamente, se vierem de grande metrópole, sentir-se-ão mais do que nunca em casa!

E depois o nosso ex-libris serão algumas lindas balconistas das lojas de marca de um grande centro comercial. Não terão rugas nem marcas de uma vida de trabalho no campo, serão perfeitas com todas as certificações ISO9000 e atestados da ASAE mas serão certamente esquecidas em muito menos tempo!



II

É sábado de manhã, o meu momento preferido da cidade. Reencontro os amigos e sei das novidades, compro aquilo que só a praça me dá e esvazio a cabeça do stress da semana. Hoje não vou ter que ir para Lisboa, hoje posso desfrutar da qualidade de vida que consigo manter para o resto da família.

Venho do lado do Chafariz e uns passos adiante, de uma posição ligeiramente mais elevada, contemplo a praça na sua plenitude. A minha memória volta de novo atrás no tempo.

Contorno os baixos edifícios que moldam o lado este da praça e onde no século XIX e anteriores existiu a ermida de Nossa Senhora do Rosário, demolida cerca de 1834. Voltei mesmo atrás no tempo, tenho agora a certeza pois já não existem estas casas, uma drogaria, uma ourivesaria,  e o que existe agora em 2010 é um inexplicável parque de estacionamento que deforma o topo da praça.


Desço à praça e percorro-a pelo lado esquerdo, de este para oeste. Passo a loja de ferragens e pelo Banco e pelo café Central, vejo jovens a saírem da porta que dá acesso à cave do café depois de um jogo de bilhar. Passo  a loja de tecidos a metro, mantas e colchas do Sr. Carvalho, avô do Pedro e do Ricardo Ferreira, vejo crianças a entrarem na Pelicano para procurarem pequenos cartões de horários escolares para a colecção e chego à confluência com a Rua da Liberdade. Admiro umas pandeiretas que estão penduradas à porta da casa Girão e ainda entro nessa rua para admirar nas montras da loja seguinte os aparelhos de pesca, as miniaturas e os kits de montar da Revell, Heller, Airfix, Tamiya, Hasegawa e Matchbox. Uma das lojas que mais me fascinam!

Retorno à Praça da Fruta e tenho de ziguezaguear entre os populares encostados na parede do armazém de apoio à farmácia Freitas, cuja fachada dá para a praça, e os quatro ou cinco engraxadores que se alinham à sua frente, mesmo antes do Banco de Portugal.

As minhas memórias vão e vêem no tempo e este anda para trás e para a frente. Passo à Polana e encomendo um livro para a escola e cumprimento o meu tio-avô Joaquim Baptista à porta da sua loja.

Ao lado, na Rua do Parque, sobem e descem burros a caminho das suas estrebarias. O cheiro é característico como o que encontrei no cimo da praça junto aos edifícios do antigo Hotel Rosa.

Diante de mim está agora o café Lusitano, entro para comprar cigarros, cumprimento o Sr. Silvino e o Sr. Silva. No café ao lado, o Flor de Lis, vejo mais caras conhecidas.


O tempo volta de novo para trás e estou a entrar nos Grandes Armazéns do Chiado, subo a um piso de cima para admirar os brinquedos que não encontro em mais nenhuma casa da cidade, nem mesmo as lojas da Rua das Montras, a Tália, o Turita ou a Átila têm brinquedos assim.


O tempo volta a adiantar-se, desço um pouco abaixo para passar diante da Bongosto, a loja de frivolidades e ver as minhas irmãs a comprarem contas e missangas para fazerem uns colares para venderem às amigas da minha mãe. Passo diante do Talho Central do Sr. Nogueira, aceno à Vanda e passo para o outro lado da rua. Hoje tenho uma consulta com o Dr. Mário de Castro. O seu consultório fica por cima  da loja de roupas do Sr. Neto, pai do Zé, que foi meu professor de ginástica no liceu, e da Célia. À esquerda desta loja fica uma outra que vende sementes. Do outro lado da porta de entrada fica a drogaria. Cruzo-me com o Henrique que traz as compras da esposa do estimado médico, a D. Rita, da Zaira para o consultório. A sua cabeça contorce-se no seu gesto incontido enquanto me cumprimenta.

Mais para a frente, ao fundo da praça estão os armazéns de mercearias de José Gomes Rodrigues e as lojas de móveis do Sr. João Ramos na esquina com a Rua Dr. Júlio Lopes. Nesta rua abriu a primeira verdadeira boutique das Caldas, a Góia. Vêm clientes de todo o lado para comprarem peças de vestuário exclusivas ou que só podem ser encontradas em Lisboa.

Um pouco mais abaixo na mesma rua, ao lado do talho abriu um restaurante, a Cascata, da D. Gina, cuja atracção principal é mesmo uma pequena cascata no centro da sala.


Quando saio do consultório é quase uma da tarde e por momentos o tempo avança ao passar diante da loja do Armando Maria ‘’Ça Va’’, a Belle Epoque, que mais tarde mudou o nome para Julio's. Antes havia aqui um armazém de mercearias. Segue-se uma pequena loja de electrodomésticos e umas portas à frente o Convivio acabado de abrir.

Cumprimento o Sr. Manel Enxuto que me pergunta se gostei do jantar da véspera. O Convivio, acabado de abrir, tinha como grande atracção um bife à Convivio com molho de café e umas entradas de camarão-tigre de que só ouvira falar aos meus amigos regressados de Moçambique.

O tempo continua a fazer das suas e passo diante da Padaria Taboense e do Banco Pinto de Magalhães, estou de volta a um passado mais distantes quando aí existiam dois edifícios com a volumetria correcta.



Chego diante da Farmácia Central, o Sr. António avia pacotes de papel de bicarbonato de sódio, e sentado pacificamente num banco está o Sr. Ferreira, decano da cidade e prestes a completar 100 anos.

Vou pesar-me na curiosa balança fazendo os pesos deslizar pelas varetas horizontais para contrabalançar o meu peso. Divertida forma de verificar o meu peso. 57 quilos! Não há dúvida que estou de volta ao passado!

No primeiro andar do prédio devoluto ao lado da farmácia ficava o salão de cabeleireiros de Casimiro Campos Silva e gerido pela sua prima Estrela. Casimiro e a sua mulher Maria Adelaide Saguer são um dos casais mais famosos nas Caldas pela sua vivência com o jet-set. O cabeleireiro chegou a pentear algumas estrelas de cinema e membros da realeza europeia.

Chego à Zaira. À porta, junto à balança que serve para pesagens públicas (com moedas de cinco tostões) está encostado o taxista que vive por cima do café. O seu táxi está como habitualmente estacionado diante da câmara municipal, mesmo antes da passadeira e junto aos semáforos, recentemente colocados para regular o trânsito que vem da rua das montras.

No lugar daquela balança esteve durante muitos anos um engraxador que a pedido dos fregueses da Zaira ia engraxar os seus sapatos enquanto estes tomavam café sentados a uma mesa.


A Zaira a esta hora ainda tem alguns dos seus habituais frequentadores. Na mesa de entrada junto à janela, o Dr. Calheiros Viegas e o Prof. Barreto, meus ídolos no ténis pela pujança na sua veterania, conversam em amena cavaqueira enquanto desfolham o Diário de Noticias e a Bola, ambos os jornais do tamanho de lençóis! Mais atrás numa outra mesa o Dr.Alcino Coelho e o Dr. Augusto Saudade e Silva. O João e o Jorge rendem agora o Romão. Entro rapidamente para cumprimentar alguns amigos que decidiram almoçar o pequeno–almoço standard da Zaira.

Num cartão amarelo por baixo dos tampos de vidro das mesas pode ler-se : galão ou chá, pão, torradas ou croissants, compota, geleia ou mel (que são servidas em tacinhas de vidro) e manteiga (que chega num pires enrolada em pequenos rolos). As memórias do Sr. César Tempero e mais tarde do Sr. Januário vêm-me à cabeça quando o tempo de novo avança.

Saio apressadamente, tenho de aguardar a luz verde de peão para atravessar a rua das montras e rapidamente passo diante da casa que vende bombas agrícolas e pela casa Monteiro.

Ouço o pregão de fundo do velho Henrique, o mais popular ardina da cidade. Descortino-o no meio da praça junto à banca de queijos da mãe da Luisa Jordão. Ali está ele com o seu habitual fato de macaco de sarja azul e a sua boina basca. Ao canto da boca a eterna beata. Nessa tarde, como em tantas outras, encontrá-lo-ei a vender jornais no parque e a gritar na sua voz de bagaço : Olhó República, Popular, Capital, Lisboa , enquanto nos piscava o olho malandro!

Só anos mais tarde percebi a sua ironia!

Passo ainda por outras lojas de tecido a metro e vestuário de baixo preço e diante de mais um prédio que irá ser demolido, era onde ficava o armazém de mercearias Frias & Gonçalves, o que virá a seguir?

O encontro com mais um amigo detém-me no passeio e fico a admirar a praça no seu esplendor. Absorvo as essências e os sons que emanam do terreiro. Sinceramente agrada-me todo aquele colorido. Diante de mim está a mãe da minha colega Mila Ferreira e a sua banca de cerâmica regional.

Um carro com altifalantes passa a anunciar as 20 voltas em ciclismo às Gaeiras cujo percurso se faz passando a praça, subindo a Rua Diário de Noticias em direcção ao Imaginário, Matoeira, virando à direita para as Gaeiras e virando aí de novo à direita pela estrada nacional até às Caldas, passando pelo moinho Saloio, quartel e Rainha.


Os nomes de Firmino Bernardino, Fernando Mendes, Venceslau Fernandes, Joaquim Andrade e outros são gritados em destaque. Melhor só os carros que anunciam as touradas!

Eu sou mais fã do automobilismo e uma vez por ano a praça assiste à passagem dos concorrentes ao Rallie de Portugal-Vinho do Porto.

Sigo a caminhada na companhia do amigo, passo em frente da Ourivesaria do Sr. Augusto e da Frami. A Carolina e a América afadigam-se a atender os clientes, vendendo caixas de folhados por rechear, marmelada a quilo, drops e rebuçados, frascos de pêra em calda e bolos de todo o tipo.

Ao lado, o velho Silva Santos encerra a porta da sua papelaria, a loja com maior variedade de artigos de papelaria que possa existir nas Caldas mas ao mesmo tempo a mais anárquica em organização. Raramente saímos de lá com algo pretendido se não for algo de primeira necessidade, temos sempre que voltar ‘’um pouco mais tarde’’!

Passo diante do café Invicta, da casa Pardal e da Havaneza. Depois o Bocage. Vejo o Franco e o Sr. Bonécio e o Sr.Prego perto do balcão. Numa das garagens do pátio das traseiras, onde a família Jordão aluga quartos a enfermeiras e professoras, a Isabel Prego deu a sua última festa de anos antes de partir para Setúbal.

Atravesso depois a rua em frente da ermida de S. Sebastião e deparo-me com a entrada para as escadas que dão para o wc público subterrâneo que dá apoio aos feirantes, ao lado das escadas, a placa de pedra dando indicação dos quilómetros para a Matoeira.

Nesse ano a Gazeta das Caldas publicou como mentira do dia 1 de Abril que estava a ser construído o Metro nas Caldas e a primeira linha seria para a Matoeira. Quem via pela primeira vez aquelas escadas e a placa da Matoeira corria as ruas da cidade elogiando a iniciativa camarária!

Ao lado da entrada do wc e encostado à parede da ermida está o casinhoto de madeira onde trabalha um engraxador, no passado trabalhavam aí vários, lado a lado.

Regresso ao ponto de partida, o meu tempo volta a ser o presente. As pessoas, os lugares e os eventos voltam a fazer parte do passado. Não há lugar à nostalgia, apenas a experiência e recordação de quem presenciou e continua a presenciar os acontecimentos. A modernidade e a melhoria da qualidade de vida devem ser recebidas de braços abertos e devidamente enquadradas na cultura de cada lugar.

As pessoas que partiram serão devidamente recordadas e homenageadas e outros tomarão os seus lugares na memória das novas gerações, os lugares serão gradualmente substituídos por outros mais adequados às necessidades e hábitos que se forem desenvolvendo.

Mas há algo perene e que será sempre insubstituível. A alma da cidade!

Uma vez perdida não seremos mais do que um qualquer subúrbio puramente habitacional sem nada que nos una, que nos prenda, que nos faça sentir orgulhosos e únicos.


Fonte de histórico: ''Praça da Fruta'' de Carlos Marques Querido




Nota: O João Miguel Cortez recordou, e bem, que a loja na Rua da Liberdade que vendia os kits de montar, os aparelhos de pesca, as miniaturas de automóveis, etc, era do Sebastiãozinho, uma figura característica pelo seu bigode à escovinha e a sua voz anasalada. Lembrou também que o taxista que vivia por cima da Zaira era o Sr. Virgilio.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MEGAFESTA ANOS 70 E 80 DE APOIO À AJUDA DE BERÇO

O BEIJO DA ARTISTA



Um dia vêm ter comigo a correr.

- Anda ver depressa, andam umas miúdas nuas pela Rua das Montras e está tudo no maior reboliço.

Entreolhei o amigo surpreendido mas nem por momentos pensei que me estaria a pregar uma partida. Corri atrás dele até à Rua das Montras.

Afinal a multidão já tinha dispersado e apenas ficaram pequenos grupos de foliões comentando o tema.

Lamentei não ter estado presente mas mal sabia eu que teria outras ocasiões nessa semana para assistir ao momento mais controverso que a pacata cidade assistira desde a remoção da estátua do Marechal Carmona do Burlão.

Voltemos alguns dias atrás no tempo.

Entre 1974 e 1977 realizaram-se os “Encontros Internacionais de Arte” (Valadares, Viana do Castelo, Póvoa de Varzim e Caldas da Rainha), promovidos por Egídio Álvaro e Jaime Isidoro da Galeria Alvarez do Porto.

Nesse ano de 1977 decorreram nas Caldas numa iniciativa conjunta da Casa da Cultura, Museu José Malhoa e outras entidades, os IV Encontros Internacionais da Arte.

Pretendeu-se efectuar uma exposição dinâmica que interagisse com a população mostrando o multifacetismo da arte com exposições, instalações e palestras sobre formas artísticas tão diversas como a escultura, a pintura, a literatura, a arquitectura e até o cinema.


‘’ A exposição é para Egídio Álvaro o espaço concreto no qual o pensamento e a sua prática artística se encontram onde, em diálogo permanente, artistas e crítico-comissário definem o seu pensamento visual, político e social.

Através das exposições que comissariou e sobre as quais escreveu profusamente – EXPO-AICA-SNBA (1972/1974); III Encontros Internacionais de Arte (1976) e Identidade Cultural, Massificação e Originalidade (1977) – afirmou uma postura crítica e curatorial, que consideramos indissociáveis e que se situam na charneira das mudanças que caracterizam a crise do modelo museal dos anos 70 e a afirmação de uma nova fórmula expositiva que privilegia a inserção da obra de arte em contexto vivo – numa aproximação ao espaço da vida social.’’

Ana Luisa Barão: Egidio Álvaro: O Critico como Comissário


Na realidade Egídio Álvaro concebeu as exposições como espaços em que o momento de produção e de exibição fossem simultâneos, daí a extraordinária multiplicidade de instalações, de happenings, de perfomances e de produções que se efectuaram naqueles dias em que ocorrera o Encontro. Um espírito de vanguarda e absoluto experimentalismo dominou todo o evento.

Nele participaram, entre outros, Artur Bual, Túlia Saldanha, Alvess (Manuel Nogueira Alves), Abilio José Santos, o Grupo Puzzle (João Dixo), Carlos Carreiro, Albuquerque Mendes, Dario Alves, Armando Azevedo, Graça Morais, Jaime Silva, Pedro Rocha, Pinto Coelho, Gerardo Burmester) e o Grupo Acre (Alfredo Queiroz Ribeiro, Clara Meneres, Lima Carvalho), ambos dedicados a pinturas de rua, o Grupo de Animação ANIMA com Bernardo Silvestre Pestana, Seme Lutfi, Ernesto Melo Castro, sua mulher Alberta e a filha Eugénia Melo e Castro, Orlan Sans, Louis Orrocha, o grupo espanhol ‘’A-Por-No-Gráfico’’.

Existem poucas notícias da época e muito menos recordações daqueles dias mas estes foram, apesar de tudo inesquecíveis para os jovens de 14 ou 15 anos como eu.

Os eventos até começaram de forma pacata com palestras e exposições no Museu José Malhoa e na Casa da Cultura mas as diferentes intervenções urbanas dos vários artistas presentes começou a dar literalmente um colorido especial às ruas da cidade.

Em diversos pontos das Caldas começaram a aparecer sinais da sua presença com grafittis, pinturas no asfalto e nas calçadas, murais, intervenções escultóricas, cenas teatrais e declamações poéticas em plenas vias e praças públicas.

Uma intervenção mais ousada inflamou os ânimos na Praça de Peixe e originou um desacato sério, não me lembro se com um grupo de comerciantes ciganos se com peixeiras e pescadores.

A pouco e pouco as intervenções começaram a ser mais provocativas e vanguardistas reagindo a população ora com humor ora em choque.

E é neste espírito que a artista francesa Orlan Sans e um grupo de assistentes femininas efectuou um conjunto de intervenções que para sempre iriam ficar na memória dos jovens (e menos jovens!) caldenses!

No dia seguinte estava com uns amigos na Zaira quando alguém entrou e nos veio chamar para vermos o que se passava na Rua das Montras.


Desta vez Orlan Sans fazia-se acompanhar de mais algumas jovens e como vestais desfilando em Roma, trajavam finas túnicas e véus, com algumas parecenças no estilo que não nos tecidos, com os hábitos de freiras.

Os mantos só vagamente cobriam os corpos despidos. Ainda assim, menos mal que na véspera!

O cómico da situação é que Orlan seguia refastelada no único transporte apropriado que encontrara para o evento. À falta de uma liteira de vestal, as jovens empurravam um velho carrinho de jardineiro, certamente levado do parque (o Tobias, jardineiro do parque, não deve ter achado graça à ideia!)

E assim, no meio das instalações de outros artistas, ziguezagueando entre as pinturas efémeras da calçada que outros colegas artistas produziam no momento, a artista francesa e o seu séquito avançavam, de peito feito – literalmente! – e grande aprumo, rumo à Rua dos Herois da Grande Guerra donde retornavam de novo até à outra extremidade da Rua das Montras, junto á Praça.

O desfile das jovens desnudadas ainda durou algumas piscinas de ida e volta perante o deleite da população masculina, o riso de alguns e as palavras de desdém e de ira de outros.

Finalmente, um elemento da Policia foi chamado a intervir mas este, após tentar dialogar sem sucesso com as artistas que se refugiavam no seu francês para fingir ignorar o que lhes era dito, acabou a chamar reforços.

Veio enfim um corpo policial de quatro elementos para põr fim à situação e foi de forma humorada que se assistiu às tentativas dos policias para tapar a nudez visivel das performers enquanto as conduziam de volta ao Parque de onde partia toda a acção.

Orlan Sans não se deu por satisfeita e e como grande parte do público acompanhou o grupo sob escolta, decidiu criar mais um happening, decidindo medir a área do ‘’Céu de Vidro’’ do edificio da Casa da Cultura com o seu próprio corpo. Sendo um recinto privado, a policia limitou-se a acompanhar os eventos a partir da porta, acompanhando a população que se divertia com a excentricidade da artista francesa que se deitava no chão de azulejos do lindo salão, enquanto uma das suas acompanhantes fazia a marcação com um giz.

Já não me lembro do resultado da medição, nem sei tão pouco se ficou para a história, mas certamente deu um determinado número de corpos de Orlan Sans de cumprimento por tantos de largura!


Fotos extraídas do Blog: 100SentidosComSentidos de Margarida Araújo
No sábado seguinte, Orlan voltou à carga! Desta vez tirou uma foto sua nua, de corpo inteiro e à escala natural e colou-a numa placa de contraplacado que mandou recortar.

Prevenida, já não era ela pessoalmente mas a sua imagem que desfilava agora pela Rua das Montras. Era persistente, a francesa!

A imagem foi erguida sobre o já célebre carrinho de mão e a policia desistiu de a persuadir.

Finalmente, a artista para estimular o público que começava a acomodar-se ao espectáculo e a reagir de forma mais desinteressada, mandou cortar a placa em várias partes, desmembrando o seu corpo fotografado.

Fotos extraídas do Blog: 100SentidosComSentidos de Margarida Araújo
As placas mostravam agora partes do seu corpo, braços, pernas, torso, que a artista decidiu leiloar em praça pública. Mais uma vez a expressão tinha uma forma literal já que o leilão foi feito na Praça da Fruta, em plena hora de mercado, ao sábado de manhã.

No domingo iria terminar o Encontro e Orlan faz a apresentação da instalação que conhecera estreia mundial na FIAC em Paris e que tinha agora preparado para este evento. Tudo o resto tinha servido para se dar a conhecer e desencadear reacções da parte do público, neste caso da população local.

“O beijo da artista” (Le baiser de l'artiste) causa polémica com a simulação do seu corpo como uma máquina automática de vender beijos. O utilizador colocava a moeda do respectivo valor numa pequena ranhura que a artista usava ao peito e esta recompensava-o com um beijo.


A instalação foi colocada no salão magno do Museu José Malhoa junto às grandes estátuas de Francisco Franco e Leopoldo de Almeida.

Os mais afoitos foram os velhos artistas boémios caldenses que tomaram, com notável sentido de humor, a iniciativa de serem os primeiros a receber os calorosos beijos da artista, a troco de uma moeda que depositavam num dispositivo da instalação. Isto perante uma plateia de populares ora divertidos ora escandalizados pela audácia e despudor de alguns dos nomes mais sonantes da vida artística caldense, bem entrados na vida e que, assumiam eles, com idade suficiente para ter mais siso!

Que grandes figuras! Que gente boa!


E o que me ficou na memória, foi o ambiente de quase festa e de bom humor com que terminou o Encontro. Ia o ano de 1977!





ORLAN DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Texto Complementar à crónica ''O Beijo da Artista''


por: Eunice Gonçalves Duarte


ORLAN/ORLON

“J'ai donné mon corps à l'art”

Orlan


Não é uma afirmação mas o titulo de uma performance. Uma das muitas performances coreografadas, preparadas e realizadas por Orlan durante a Reincarnação de St. Orlan.

Em 1977, “O beijo da artista” (Le baiser de l'artiste) causa polémica com a simulação do seu corpo como uma máquina automática de vender beijos; o utilizador colocava a moeda do respectivo valor numa pequena ranhura que a artista usava ao peito e esta recompensava-o com um beijo. Este foi o ponto de partida para uma mulher que 6 anos antes se havia baptizado com o nome artístico de St. Orlan, ao “mascarar”-se com materiais como o vinil e a pele. Encena a vida dos santos em forma de performance integrando fotos, colagens, vídeos. Esta incarnação centrava-se na denúncia da hipocrisia da sociedade tradicional na forma como tratava a imagem feminina, colocando-a sempre entre a santa e a prostituta.

Influenciada pela obra de Duchamp e pelas correntes revolucionárias do Maio de 68, Orlan trabalha performances blasfémicas onde o seu corpo encarna e molda diferentes personagens, numa espécie de retratos vivos das acções que se passam. Uma gravidez extra-uterina fez com que fosse operada de emergência; através de uma anestesia local, pôde ser espectadora da sua operação como se a parte do corpo a ser operada não lhe pertencesse. Montou uma única câmara na sala de operações e assim que a primeira cassete terminou foi enviada de imediato para o Centro de Arte Contemporânea de Lion para ser exibida, numa performance quase em simultâneo. Mas foi só pelo seu 43.º aniversário, em 1990, que fez a primeira de nove operações da performance Reincarnação de St. Orlan. Através de acessórios e cenários vários tinha representado as suas esculturas e performances; agora Orlan passa a esculpir na sua própria carne, agindo impiedosamente sobre ela através de operações plásticas. Não seriam operações normalizadas feitas à porta fechada, mas sim sob a forma de performance mediática e ensaiada onde se mistura música, literatura e dança. A sala é decorada de acordo com uma cenografia específica e os figurinos são feitos por costureiros famosos, numa mistura do barroco, grotesco e kitsch. Cuidadosamente estudada e estruturada, começa pela desconstrução da imagem mitológica feminina, construída através da história da arte. Assim concebeu um retrato feito com o nariz da escultura de Diana, a boca de Europa de Boucher, a testa da Mona Lisa de Leonardo da Vinci, o queixo da Vénus de Botticelli e os olhos da Psyché de Gerome. A escolha de cada uma destas personagens tem uma razão específica: não foram escolhidas pela sua beleza artística ou pelo facto de serem mundialmente conhecidas mas pelo seu peso histórico e mitológico que as tornou parte da história e cultura ocidental. A escolha de Diana deve-se a esta ser a deusa da caça, agressiva e aventureira, que não se submetia aos homens, Psyché devido à sua necessidade de amor e de beleza espiritual, um oposto a Diana, Europa por esta ter olhado para outro continente e se ter aventurado num futuro desconhecido, Vénus pela sua caracterização mitológica como deusa do amor, da fertilidade e da criatividade, e Mona Lisa pelo mistério e pela lenda de que este é um auto-retrato do pintor.


Cada performance é registada em fotos e vídeos e a partir de certa altura começa a ter transmissões em directo, via satélite, para todo o mundo. Os espectadores podem telefonar para a artista colocando as mais diversas perguntas, sempre com um estilo diferente. Ao misturar estas personagens mitológicas faz surgir uma personagem híbrida que não procura a beleza ou a juventude; ao escolhê-las Orlan não deseja entrar para o livro de recordes em operações plásticas nem sequer ser parecida com as personagens, como é acusada pelos vários meios da comunicação da especialidade. Elas são uma inspiração pelo seu contexto histórico e pelo seu valor representativo.

Os textos constituem uma parte importante nestas performances, já que estas são feitas com base em textos filosóficos, psicoanaliticos e literários de autores como Antonin Artaud, Michel Serres, Eugenie Lemoine-Luccioni, Alphonse Allais, Elisabeth Betuel Fiebig, Raphael Cuir, Julia Kristeva e ainda textos hindus em sânscrito. Tudo é feito pela artista de maneira consciente já que as anestesias são dadas a nível local e não geral, o que lhe permite gerir o que se passa à sua volta assim como os materiais que registaram a sua performance para futuras exibições. Orlan, tal como qualquer artista, toma uma certa posição em relação a uma ideologia artística que quer ver materializada.

A sua posição artística não é contra as intervenções plásticas mas contra os padrões de beleza e o domínio destas ideologias que se entranham cada vez mais na carne dos homens e das mulheres. Orlan explica que com a idade se tende a estranhar a aparência no espelho; algumas pessoas não aguentam essa ideia e as operações plásticas são sem dúvida a melhor solução, numa sociedade que valoriza e idolatra a juventude. As operações plásticas não são naturais ao corpo humano, assim como outros medicamentos e cosméticos utilizados, que acabam por ser assimilados como “extensão” e se tornam necessários à sobrevivência.

“Dei o meu corpo à arte” e é na arte que ele ficará, já que pretende doá-lo a um museu após a sua morte, mumificado ou moldado com resina, sendo a peça mais importante de uma instalação vídeo interactiva. De momento Orlan dedica todos os seus esforços para que seja reconhecida judicialmente a sua nova identidade relacionando-a com a sua nova imagem.



O CORPO PARA ORLAN

“This is my body, This is my software.”

Orlan

Bragança de Miranda classifica o corpo como um feixe de ligações prejudiciais à nossa vontade. Já para Deleuze e Guattari o corpo é uma unidade uniforme. Orlan afirma que o seu corpo é o seu software, esta é a sua frase de apresentação, como se se tratasse de um cartão de visitas. O corpo é uma espécie de bolsa onde está a matéria que permite a Orlan trabalhar sobre ele tornando-o uma metamorfose. “Este corpo é obsoleto”, diz, “não está preparado para a velocidade exigida hoje em dia e cada vez mais exigida”.

Quando da sua pesquisa e preparação para a Reincarnação de St. Orlan, consultou um psicanalista que ao saber o que iria fazer lhe disse que iria cometer um suicídio, proibindo-a de prosseguir o trabalho, afirmando que este tipo de mudanças no corpo através de operações plásticas deve apenas ser utilizado em situações de ausência do orgânico ou então em caso de acidente e não para práticas de metamorfose artística. Ao reformular estas noções e ao explorar as novas possibilidades de actividade artística faz dessas performances um “ready-made”; assim como Duchamp readaptou objectos quotidianos e John Cage fez do silêncio música, Orlan faz de operações plásticas a sua obra.

Para alguns críticos o seu corpo é a sua obra de arte final mas para a artista não é o resultado final que importa, e sim esse ritual de passagem que faz em cada performance. Da discussão de valores que são abalados e que surgem em torno das questões por ela colocadas, acrescenta ainda que na sua vida a relação com os outros não depende do seu corpo mas do contexto e das histórias produzidas pelo seu corpo.

Esta foi a primeira e única artista a utilizar as operações plásticas como performance, designando o seu trabalho como «Carnal Art», um auto-retrato feito com o uso de tecnologias avançadas que lhe dão a possibilidade de ter o corpo “aberto” sem sofrimento e ver o seu interior. As suas ideias e conceitos artísticos encarnaram na carne o valor do corpo na sociedade ocidental e o seu futuro nas gerações vindouras face ao avanço tecnológico e às manipulações genéticas. O confronto entre esta fragilidade do corpo e o avanço tecnológico é a base de todo este trabalho, isto é, saber como eles se podem relacionar ou se o tecnológico acabará por prevalecer sobre o biológico.

Na continuação deste trabalho, pensa em operar o seu nariz, aumentando-o tanto quanto possível anatomicamente. O seu trabalho não desrespeita o seu corpo, pelo contrário denúncia a sua fragilidade e a decadência que mais tarde ou mais cedo todos acabamos por notar.



RELAÇÃO COM O ESPECTADOR

Além das imagens mitológicas que Orlan adaptou para a sua reincarnação, as suas performances têm uma aproximação muito forte ao espectador.

As tragédias gregas, pelo seu carácter de rito e de representação da vida de personagens mitológicas, emocionavam plateias, fazendo-as reagir como se fosse real o que se passava em cena. A barreira que separava o real da ficção era quase inexistente, com excepção do espaço físico onde decorria a acção, os anfiteatros gregos.

As performances cirúrgicas de Orlan destroem por completo essa barreira entre real e ficção, já que o espaço utilizado é uma sala cirúrgica, que apesar de decorada e cenografada de acordo com a performance, não perde o seu carácter “operatório” associado a médicos, a bisturis e ao cheiro de desinfectante, e a acção realmente acontece, não é representação ou apresentação de algo, é o escortanhar do corpo e a substituição de certos elementos por outros. No meio de sangue e de entranhas começa o desenrolar da acção, ou o inicio da reincarnação.

Durante muito tempo Orlan assumiu uma série de representações teatrais usando figurinos e máscaras para a ilusão do real. A partir da década de 90, a ilusão deixou de o ser e o seu corpo passou a conter em si essas máscaras, em acções onde o sujeito passa a ser o objecto e o público e o privado se confundem com a expansão dos meios de comunicação.

Muitos artistas fazem estas experiências de se colocarem perante o perigo com a intenção de perturbar quem vê, absorvendo os limites entre a realidade e ficção e entre vida e morte, colocando o espectador não só no meio do naufrágio mas tentando afogá-lo também, para tal utilizando meios que pareçam o mais reais possíveis e de difícil representação. Ao passarem a transmitir as suas performances em directo, tornou-se possível uma interactividade e uma aproximação maior do espectador.

Para esta artista a arte é só por si uma questão de vida ou de morte e assim em cada operação corre um risco, já que insiste em estar consciente durante todo o processo. As anestesias são dadas ao nível da espinha e com isso corre cada vez mais o risco de ficar paralítica, além das deformações que pode sofrer ou até mesmo a morte.


Orlan acha que corre tanto perigo como um piloto de corridas, o risco não está nas suas acções cirúrgicas mas na aceitação das mesmas pela sociedade, que está sempre pronta para inventar inquisições e regras de ética. Teme mais as violências verbais da crítica do que as do corpo, o grande risco é o não poder voltar atrás, mesmo que queira. Assim que termina a sua performance espera-se pelo sarar das cicatrizes e que prepare a produção da próxima intervenção.

Estas acções trazem uma atenção maior por parte dos media do que o normal nas práticas artísticas. Estes acontecimentos mediáticos obrigam o público a reagir, a concordar, a discordar, a tentar ver se o artista realmente consegue cortar o seu próprio corpo, a procurar razões e identificar semelhanças com outros casos; em suma não é só um público que vê. Será um retorno à magia que a arte sempre proporcionou ao espectador?

Para Konstantin Stanislavski a melhor técnica de representação, a mais real possível, seria o recorrer à memória, à recordação de acções passadas, para que as emoções desse momento possam ser utilizadas para se incorporar uma personagem. Mas Orlan tatua não só a sua memória mas também o seu próprio corpo com personagens específicas, componentes da e conectadas com a sua prática artística.

A arte absorve a vida já que deixa de haver o distanciamento ilusório e a morte não é entendida como um fim mas como mais uma metamorfose. Não significará antes a possibilidade de o espectador experimentar arte?


ORLAN NO CONTEXTO DA ARTE CONTEMPORÂNEA

Chama a sua arte “Carnal Art” e não “Body Art”, como já referi num capítulo anterior; no entanto não nega influências. A referência de Marcel Duchamp está presente no seu trabalho: através da sua obra começou a perceber que o negócio do belo não é nada mais do que um negócio. Andy Warhol é outra das referências por deixar que na sua arte apareçam os meios com que as realiza, e principalmente Joseph Beuys, no seu papel de shaman cujas feridas representam os males da sociedade como um vazio ainda não perceptível pelos outros. A sua arte absorve também influências de Herman Nitsch e do grupo vienense “Aktionismus”, da década de 60, que espantava os espectadores com imagens reais de rituais de sacrifícios do próprio corpo. Dos artistas desta corrente artística destaca-se Rudolf Schwarzkogler que se fotografou a cortar o seu pénis em fatias, o que lembra algumas das fotos de Orlan durante o seu processo de cura e transição para as novas operações. A grande distinção entre este grupo e a artista em questão residia num fingimento teatral não real, com o espaço como elemento determinante. O espaço de Orlan é uma sala de operações enquanto os espaços desse grupo eram os mais variados; além disso a maior parte dos documentos fotográficos era, quase sempre, encenada.

De momento, identifica o seu trabalho com o de artistas como Sterlac e Hans Haacke. Sterlac apresenta um tipo de arte que lhe agrada por ter declarado o corpo obsoleto e ter substituído uma série de membros para ultrapassar os limites da sua simples carne, propondo a si mesmo objectivos muito ambiciosos sem se afastar do complemento crítico que faz à sociedade. De Hans Haacke interessa mencionar o seu trabalho de pesquisa sobre a lavagem do dinheiro.

Ao contrário do que se poderia pensar, sente-se distante em relação à maioria das obras realizadas com as novas tecnologias. Acha que são só demonstrações técnicas ou da qualidade da definição de imagens; poucas obras têm um verdadeiro conteúdo pessoal e artístico. Apesar de utilizar as novas tecnologias para expansão do corpo, deixa claro que isso nada tem de semelhante às instalações electrónicas e tecnológicas exploradas em todos os festivais ciber.

Além deste nomes, destacam-se ainda Jeffrey Shaw, Daniel Buren, Rebecca Horn, Marina Abramovic, Annie Sprinkle, Guillaume Bijl, Andreas Serrano, Cindy Sherman, Damien Hirsh, Fabrice Hybert, Walter de Maria e Mattthew Barney.


Podemos ainda associá-la também ao movimento da arte informe em que a estrutura deixa de existir e a obra de arte aparece sempre como inacabada, como um contínuo, sem um limite material. Mesmo dentro de um frasquinho, ou algo parecido, deixa sempre adivinhar uma história passada e uma possível história futura, onde não existe um fim específico. Não há necessidade de haver obra, basta apenas haver conceito. Sob este aspecto, Orlan contribui para o movimento da desmaterialização da obra de arte e para o aparecimento de novos paradigmas de intervenção artística ao colocar a arte num local incómodo, não num “site specific” mas em todo lado onde ela estiver, podendo ser observada como um elemento politico, biólogico e de intervenção na sociedade circundante.



LUCROS E DINHEIRO

Já que se trata de uma arte efémera em que a escultura está inserida no corpo da artista, de que maneira se dá a comercialização dos seus trabalhos?

Orlan tem consciência da dificuldade de comercialização das obras de qualquer artista, principalmente quando se trata de um tipo de trabalho como o seu. Sabe também da pouca comercialização dos trabalhos do grupo de Viena, como Gina Pane, que só se tornou interessante quando se soube da iminência da sua morte, e mesmo assim poucas obras dela hoje são compradas. Os coleccionadores não estão interessados em adquirir parte de líquidos do corpo, excepto se estes estiverem associados a uma prática artística muito forte e a um grande jogo de divulgação, como Orlan sabe fazer. Sabe que, como disse Andy Warhol, “arte é negócio” e cada vez mais as peças artísticas são assimiladas a mercadorias comerciais e os artistas não negam um bom preço pelas suas obras, muito menos os herdeiros destes se incomodam com este facto e o mesmo se passa com as galerias.

Como já foi referido, cada performance cirúrgica é registada em vídeo e fotografada, além disso durante essas intervenções a artista faz uma série desenhos com o seu sangue e gordura que depois são comercializados. As entrevistas que dá são pagas a peso de ouro, assim como as conferências e as aparições nos diferentes festivais. Apresenta em exposições, como produto das suas performances, amostras dos líquidos (carne e sangue). Para além do seu trabalho como artista, é docente da Escola de Belas Artes de Dijon.

Um dos seus trabalhos, de momento, consiste na angariação de uma agência de publicidade que a rebaptize com um nome artístico e um logótipo, identificando-se com uma política comercial em que ela é o próprio produto.




CONCLUSÃO

Corpo cortado, aberto, mapeado, examinado, violentado, exposto, comercializado, idolatrado… Que corpo é este que nos aparece hoje? Obsoleto? Talvez! Coberto de véus que esconde o que de mais abominável existe? É possivel! Dificilmente olhamos para carne viva, descoberta, mesmo que seja só e apenas um pequeno corte. Como nos relacionarmos com um corpo sem órgãos? Ou como nos relacionarmos com um corpo com órgãos cada vez mais fragilizados?

Qual noiva do monstro de Frankenstein, Orlan deixa para trás as suas encenações teatrais e decide trabalhar directamente na carne, gravar no seu corpo máscaras. Ao contrário da história de Mary Shelley, Orlan é simultaneamente criadora e ser criado.

A história e a cultura mapeou o nosso corpo com regras e leis que moldam o nosso comportamento; a partir do século XI começa a haver uma repugnância com o corpo e as práticas a ele associadas: iniciaram-se as proibições, as punições e as perseguições. Era uma altura em que se morria muito e tal não assustava a população que parecia estar sempre preparada para a chegada da morte. Estavam certos de encontrar outra vida, fosse ela num inferno ou num paraiso, mas ela continuava, não acabava com o material. No século XX a esperança de vida aumentou e ninguém quer morrer, já não se acredita nessa vida como continuum e teme-se pela velhice e pelas consequências que se seguem, por isso é mais do que aceitável que haja este culto do corpo saudável, da juventude e do belo.

Na arte, tudo muda, há muito que se descobriu que o verdadeiro impacto da arte na vida quotidiana não era o mostrar o belo mas o desvendar do feio e das técnicas.

Ao realizar este trabalho, Orlan colocou em cena esse confronto com a morte e com o feio, mostrando olhos inchados, cicatrizes na cara, uma mostruosidade que impressiona: olha-se por momentos mas não mais do que isso; ver mais perturba-nos. A artista sabe disso e faz disso a sua motivação artística. A vida fica aniquilada por este zelo de arte, de ideologias artísticas, políticas e estéticas como um cristo que defende a sua identidade de “filho de Deus” e por ela dá a vida. O importante deste trabalho é que dele se fale.



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

QUE VIVAS PARA SEMPRE! - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO


Isto de escrever num blogue ou num grupo deveria, parece-me a mim, obedecer a alguma planificação e ser feito em horas e datas marcadas. Julgo perceber que o Paulo publica as suas crónicas à segunda-feira e de facto acho que faz sentido ter alguma periodicidade. No entanto, é-me praticamente impossível agendar assim uma actividade que me surge quando surge, pelo que deixo ao critério do Paulo decidir quando pôr no blogue, enquanto eu vou pondo no site do grupo, mais ou menos quando me apetece, o que quer mais ou menos dizer, quando me surge qualquer coisa interessante de que falar.


Esta memória, não poderá certamente ser lida com o riso nos lábios visto tratar-se de algo bem menos divertido, mas não deixa de ser uma memória pela qual todos ou quase todos nós passámos. Lembrei-me de tudo isto quando dei com um pedido de amizade da Filomena Diogo no Facebook. De aceitar o pedido a bisbilhotar-lhe as fotografias foi um passo e, ao dar com algumas bem antigas, ainda dos tempos de escola primária, vi-me de repente avassalada por lembranças desse tempo.


Andámos as duas numa professora particular, que a esta hora já deve ter morrido. Daquele tempo e, especificamente daquela turma, lembro-me, além da Filomena, do Pedro Gonçalves, do CáZé Costa Faro, do João que morava na praça do peixe, do CáMané, da Fátinha e de um sem número de pessoas de quem recordo as caras e não consigo lembrar os nomes. O que recordo melhor é o medo.


A professora tinha uma régua de madeira a que dava uso regularmente, de acordo com regras por si estabelecidas e que hoje nos pareceriam dignas de filme de terror, mas na época eram bem reais.


Eu era boa aluna e nunca apanhei muito, mas o que via passar-se diariamente debaixo do meu nariz era suficientemente aterrador, para sentir por ela um misto de ódio e medo, que nunca me abandonou o resto da vida.


Desde aí, ganhei o hábito de roer os dedos à volta das unhas e só recentemente consegui quase livrar-me disso. Mesmo assim, em momentos de tensão, lá vai um dedito…


Quando a encontrei mais tarde, já muito velha e claramente debilitada, lembro-me de lhe ter desejado cá dentro, que vivesse para sempre, para que tivesse a oportunidade de sofrer todas as maleitas da velhice até à última consequência.


Mas então o que se passava assim de tão traumatizante para as crianças? Bem, nem sei bem por onde começar, mas talvez pela regra do “cada erro cada reguada”. Esta era a regra dos ditados e cheguei a ver um colega levar 60 reguadas de seguida. Apre, que e mulher tinha genica e gostava de bater…


Escusado será dizer que a maioria dos miúdos dava incomensuravelmente mais erros do que daria se não fosse a espada de Democles sistematicamente pendente sobre as suas cabeças. Como davam mais erros apanhavam mais e tinham cada vez mais medo o que os levava a dar cada vez mais erros… Enfim, uma pescadinha de rabo na boca.


Quanto à aprendizagem, também não me parece nada que melhorasse com o método.


Também recordo que uma colega usava normalmente o relógio com o mostrador virado para a face interna do pulso. Então, a professora pegava-lhe na mão com a palma virada para cima e os dedos bem dobrados para baixo, de forma a expor a palma e o pulso, explicava mais uma vez que não se responsabilizava por relógios partidos (a aluna que o pusesse noutra posição) e toca de bater com quanta força tivesse, na palma da mão e na parte da frente do pulso, até acabar por lhe partir mais um relógio. Não me lembro quantos lhe partiu assim, mas penso que mais que um certamente. Mesmo que tenha sido só um já foi demais.


Também era digno de ver quando um(a) aluno(a), depois de levar umas valentes reguadas, ia a chorar para a carteira e o choro se misturava com o ranho, depois era tudo devidamente fungado.




Não sei o que provocava nos meus colegas, mas acredito que terá provocado o mesmo que em mim: profunda pena do ou da infeliz, e cada vez mais ódio pela professora. Agora o que eu nunca consegui perceber era como é que os pais deixavam que estas coisas acontecessem.


Dos meus não me posso queixar, que nunca permitiram estes abusos, mas outros houve que nunca vi levantarem um dedo para defenderem os filhos de semelhante barbárie. Dos meus lembro-me bem do dia em que a minha irmã levou nove reguadas: como era bem branquinha apareceu em casa com as mãos roxas, o que noutros miúdos só aconteceria com muitas mais, mas os meus pais meteram-se no carro e lá rumaram a casa da professora para pôr os pontos nos is e os traços nos tês.

Pelo caminho o meu pai dizia à minha mãe: “Teresa não te enerves, deixa-me ser eu a falar”. Quando lá chegaram, às tantas já ele estava aos gritos com a professora que lhe dizia, “O senhor não grita na minha casa”, e ele respondia, “Então vamos lá para fora porque vai ter de me ouvir, quer goste quer não”.


Disto tudo que conclusões devo tirar quando se sabe que hoje em dia os miúdos batem nos professores, ameaçam-nos e fazem deles gato-sapato?



Acho que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Se hoje os professores atravessam uma crise de autoridade e dispõem de poucas ferramentas para disciplinar meninos muitas vezes bem mal-educados, naquele tempo os professores estavam apenas um pequenino degrau abaixo da divindade e tudo lhes era permitido. Também posso concluir, à laia de remate para a minha crónica anterior, que talvez devido a estes excessos no nosso passado, tantos de nós enveredaram por uma via por vezes demasiado facilitadora, quando chegou a nossa vez de educar.

post de Maria João Sacadura