terça-feira, 12 de outubro de 2010

UMA VIVÊNCIA


Embora seja um pouco mais nova do que a maioria dos participantes neste espaço de recordações, que tanto prazer nos dá; gostaria de deixar aqui uma perspectiva diferente daquele tempo…

A vivência de quem cresceu nas Caldas poderá ser diversa, mas para todos os que por lá passaram existem pontos comuns: o facto de ser um meio pequeno, o facto de (melhor ou pior) todas as pessoas se conhecerem e a pressão que a “pequena” sociedade Caldense exercia nas nossas vidas…

Poderei parecer melancólica ou magoada na escrita deste testemunho, mas não o estou. Foi nas Caldas que cresci e que aprendi a lidar com todas as situações, independentemente de as mesmas serem mais ou menos agradáveis e sinto um carinho imensurável pela “minha” terra.

Pelo facto de ser neta de quem sou, as pessoas sabiam quem eu era: a neta do Prof. Rainho e da Prof. Maria Joaquina! Era difícil passar despercebida. Pelo facto de ter tido uma infância atribulada, embora feliz em muitos momentos (para quem não sabe fui criada pelos meus avós desde os 5 meses de idade); cedo comecei a querer “fazer-me grande”…

Com 14 anos de idade já andava nos percursos habituais da noite dos Caldenses: Ferro Velho, Green Hill, uma discoteca em São Martinho de que não me recordo o nome, Camaroeiro, etc. A minha avó (o meu avô já tinha falecido) sofreu bastante com os meus comportamentos, uma criança de 14 anos que achava que já sabia tudo…

Com a ausência dos meus pais e a não eficiente tentativa de controlo por parte da minha avó, lá fui “crescendo”.

A primeira vez que saí à noite foi com a minha melhor amiga. Ela foi dormir a minha casa e saímos pela janela (um rés-do-chão) a uma 6ª feira. A noite decorreu bem, fomos ao Ferro Velho e ao Green Hill (eu sempre com medo que me vissem na rua). No sábado repetimos o comportamento e no Domingo achámos que podíamos voltar a fazê-lo.




Penso que fomos só ao Ferro Velho nessa noite…por volta da uma da manhã resolvemos voltar para minha casa. Chegamos à Rua da Esperança e deparámos com o estore da janela do meu quarto fechado. O meu vizinho do lado tinha-nos visto e denunciado (ainda hoje não sei porquê!)…

A partir daí a minha avó proibiu-me de andar com essa amiga, algo que eu nunca fiz, como quem me conhece bem sabe. Os episódios foram-se sucedendo, passei por uma fase em que achava que tudo era permitido e, tal como bem sabem, nas Caldas falava-se muito sobre as pessoas…como saía muito à noite atribuíram-me um sem nº de namorados, muito álcool, drogas.

Os episódios aconteciam, uns com mais gravidade e outros com menos e eu fui sendo alvo de muitas conversas…a neta do Prof. Rainho isto ou aquilo…

Efectivamente dos meus 14 anos aos 16 a minha vida foi um furacão de experiências e de vivências, umas melhores outras piores e de nenhuma me arrependo. Tive alguns namorados, bebi algumas cervejas e experimentei algumas drogas leves (ao fim e ao cabo o que muitos de nós fizemos).

O que me custou nessa altura foi o facto de muita coisa ter sido dita sem razão. Quero dizer com isto que compreendo hoje (que tenho 40 anos) que poderia ter evitado alguns episódios, sei, no entanto também, que se não tivesse passado por algumas das experiências que passei, não seria a mulher que sou hoje.

Com este testemunho queria apenas, e não me interpretem mal, demonstrar o que senti na altura. Eu adorava e adoro as Caldas mas a dada altura a pressão foi tão grande que tive que me afastar.

É evidente que o facto de o meu apoio familiar ser escasso influenciou muitos dos meus comportamentos, no entanto, também sinto que os meus excessos foram, por vezes, exponenciados pelas conversas de café…e eu, não tinha estrutura/maturidade emocional para perceber certas coisas que hoje sei…todas as pessoas fazem asneiras e passam por fases mais ou menos complicadas (eu não era melhor nem pior que ninguém…mas senti-me pior muitas das vezes)!!!!!

Esta perspectiva parece amarga, mas garanto-vos que hoje não o é. Eu adorei crescer nas Caldas e tenho, no presente, uma pena imensa de me ter desligado de algumas pessoas de quem eu gostava muito.

A criação deste blog veio trazer-me recordações sobre as quais não pensava há muitos anos e, asseguro-vos, que o balanço é positivo. Penso poder recuperar muitas das amizades que tinha e poder continuar a recordar os bons momentos que pelas Caldas passei….pelo menos é a minha vontade. Até sempre.

 
post de Carla Rainho

1 comentário:

Alfredo disse...

Em S. Martinho do Porto, nesse tempo, havia duas discotecas, a Bonnie & Clyde, no Largo do Samar, e a Pink Phanter, na Rua 28 de Maio, Largo da Estação.