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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TRINTA ANOS DE GREEN HILL



In Gazeta das Caldas, edição de 24 de Setembro de 2010


Trinta anos de actividade para uma discoteca como a Green Hill, na Foz do Arelho, representam milhares de histórias passadas ao som da música.

Avós, pais e netos já dançaram na mesma pista de dança, fosse ao som de um slow ou das batidas mais fortes da música electrónica.

A Green Hill nasceu em 1980 na Foz do Arelho, numa aldeia que hoje é vila e tornou-se discoteca ao nível nacional. Nestes 30 anos só houve um único fim-de-semana, no ano 2000, em que não funcionou (devido a trabalhos de remodelação).

Para além de muitos encontros e desencontros que aconteceram naquele espaço, o Green Hill é também a história de uma familia.

Luis Romão e Filomena Félix eram casados quando inauguraram a discoteca. Ricardo Romão, o único filho do casal, tinha apenas três anos.

Actualmente e após várias vicissitudes e dramas familiares, mãe e filho gerem a discoteca em conjunto.


O SONHO DE LUIS ROMÃO

Filomena Félix nasceu em 1955 na Foz do Arelho, onde continua a viver. Os seus pais (já falecidos) eram os proprietários do restaurante Lagoa Bar, em frente ao Inatel, do qual fazia parte um posto de combustível.

‘’Toda a gente conhecia a casa do Zé Félix. De Julho a Setembro passavam diariamente milhares de pessoas pelo restaurante’’, lembrou. Filomena Félix começou a trabalhar no restaurante dos seus pais desde pequena, apesar de ter estudado até ao ensino superior, ‘’Estive no ISLA e só não acabei o curso por um ano’’, contou.

Filomena chegou a pensar sair de Portugal para trabalhar na área do seu curso (Secretariado) mas quando se casou com Luis Romão, em 1975, abandonou os estudos e decidiu ficar.



Luis Romão é natural de Rio Maior, onde nasceu em 1954. O casal residia na Foz do Arelho e Luis insistia em concretizar o sonho de abrir uma discoteca. Chegaram a pensar em avançar com o projecto na garagem da casa dos pais de Filomena Félix mas como esta estava mesmo no centro da Foz, mudaram de ideias.

O edificio onde agora funciona a Green Hill era à época um pequeno armazém, que era utilizado pelo pai da Filomena para criação de galinhas e de porcos. Na parte da frente tinha os frangos e na parte de trás funcionava a pecuária.

Foi o próprio Luis Romão, com um pedreiro, quem fez as obras. Enquanto isso, Filomena Félix dedicava-se à parte burocrática. ‘’Já naquela altura era muito complicado tratar dos papéis e quem me ajudou muito foi o João Santos, que agora é o secretário do Presidente da Cãmara’’.

O investimento inicial na altura foi de cerca de dois mil contos (10 mil euros). ‘’O meu irmão estava nos Estados Unidos e trouxe a aparelhagem de som de lá’’, adiantou Filomena Félix.

A empresária deu voltas à cabeça antes de encontrar o nome certo para a discoteca. ‘’Como aquilo era uma zona verde e eu sou sportinguista e como, ainda por cima, ficava numa colina, fui ao dicionário e achei piada ao nome – Green Hill’’.

Naquela altura a discoteca ficava ‘’no meio das fazendas’’ conta Mena. Ainda não havia a rotunda (hoje conhecida pela rotunda do Green Hill) nem o acesso à praia pelo lado do mar e até a estrada Atlântica não estava toda alcatroada.

O estabelecimento abre com a designação oficial de ‘’bar dancing’’ e foram muitas as dificuldades para licenciar a casa. Trinta anos depois, Filomena continua a queixar-se de ter que enfrentar muita burocracia de cada vez que quer fazer alterações no edifício.

A empresária não percebe por que há tantas casas do género que abrem de qualquer maneira e para a sua discoteca seja necessário apresentar tantos projectos de cada vez que precisa de fazer obras.



UMA INAUGURAÇÃO ESTRONDOSA

Quando a Green Hill abriu portas, a 30 de Maio de 1980, tinha uma pequena pista de dança, uma cabine de som e um bar. De todo o edifício, o balcão do vestiário é o único elemento que se mantém desde a inauguração.

Antes da abertura ao público, na noite anterior, fizeram uma pré-inauguração com alguns amigos* mas no primeiro sábado tiveram logo casa cheia. ‘’Parecia haver uma necessidade enorme de um espaço destes. Foi uma inauguração estrondosa e as pessoas nem cabiam todas’’, lembrou.

Apesar do início auspicioso, os primeiros anos foram difíceis. ‘’Sempre fui muito selectiva á porta, mesmo quando tinha a casa vazia’’, disse a empresária, que durante muitos anos fez questão de estar à porta, logo a seguir ao porteiro.

Com 25 anos, Mena continava a trabalhar no restaurante dos pais e mantinha o negócio da discoteca aos fins-de-semana.

Na discoteca trabalhava com Luis Romão (que era o DJ), um segurança, dois barmen e poucos mais funcionários. ‘’Éramos meia dúzia e atendíamos toda a gente quanto atendem 45 funcionários’’, referiu.



Entre 1991, quando se divorciou de Luis Romão, até 1997, Filomena Félix esteve afastada da Green Hill. Voltou um ano depois do assalto ao seu ex-marido, na sequência do qual Luis Romão ficou incapacitado. O empresário sofreu graves lesões neurológicas ao ser agredido depois de oferecer resistência a um assalto, na madrugada de 8 de Setembro.

Este foi o episódio mais negro da história da discoteca e que ainda hoje é difícil de abordar por parte da família. (...)


Artigo de Gazeta das Caldas – Pedro Antunes - 24.09.2010





A Green Hill marcou a nossa geração e muitas foram as noites inolvidáveis que lá passei.

Contudo o inicio de actividade da discoteca não foi para mim nada auspicioso. Pelo contrário, a primeira noite ficou marcada pela tragédia.

* Na noite da pré-inauguração, jantei com a Filomena Félix e o Luis Romão em casa do casal Dinis, Joaquim e Alice, pais do João Miguel, no andar que ficava por cima dos correios da Foz, onde os meus amigos residiam pelo facto da mãe do João Miguel ser a Chefe dos Correios locais. Aliás o bilhete acima exposto marca a ida à Green Hill, a 12 de Julho, para festejar o aniversário do João Miguel nesse ano.

Na noite da inauguração a que eu fui com as minhas irmãs, o nosso pai veio chamar-nos à discoteca por volta das duas da manhã com um ar muito sério. O nosso amigo Fernando Barardo, despistara-se na curva da Fábrica do Sabão quando na companhia da sua noiva se dirigia para a Green Hill e morrera no acidente. O resto da nossa noite foi passada junto à porta da morgue do Hospital Distrital das Caldas com os seus familiares, nossos amigos.



Em várias crónicas que publiquei mencionei ‘’O Green Hill’’ ou ‘’A Green Hill’’ conforme diferentes pessoas se referem a esse local que foi de culto para os dos anos 80.

Mencionei-o em ‘’Cruzando os Anos em Poucos Dias – Diário de um Estudante’’, em ‘’Em Busca da Espiritualidade’’, em ‘’O Fim da Adolescência’’ e voltei a esse tema em ‘’Em Serviço Público’’.

Na realidade poderia referir-me ao Green Hill em dezenas de crónicas minhas, se me lembrasse de cada noite, porque cada uma daria uma crónica ou pelo menos uma página de um diário!

A abertura do Green Hill, em 1980, apanhou-me no final do meu 11º ano, tinha acabado de largar umas canadianas devido a um acidente a jogar voleibol com o Paulo Gaspar, o Paulo Mateus, o Paulo Jorge, entre outros que não se chamavam Paulo. Foi no ginásio do primeiro andar do Liceu, recordam-se? Havia outro no segundo andar e ainda tínhamos a Parada como alternativa nos dias de sol!

Apesar do Green Hill continuar sempre aberto, eu dei por fim à minha temporada no final dessa década mas esses dez anos valeram por uma vida pois foram centenas as noites ali passadas.

Namoros iniciados, namoros acabados, casos de uma noite e casos que nem começaram por timidez minha ou por desinteresse da visada! Assim se fazia a vida de um jovem adolescente!



As noites do Green Hill marcarão para sempre as memórias de todos os que partilham este espaço e é difícil imaginar o que teriam sido essas noites da nossa adolescência sem a existência do Green Hill. Dizem que foi a existência deste que matou as outras discotecas das Caldas. Dizem até que o Ferro Velho, já na gerência do Luis Romão, foi encerrado para fortalecer a clientela do Green Hill. Histórias e conjunturas sem confirmação e que se desvanecem perante o facto do Green Hill ter sido o que foi para a minha geração.


Eu era dos que marcava sempre o ponto e mesmo em noites que fazíamos maratonas de discotecas, começando no Kiay em Marinhas ou no Eurosol em Leiria, descendo depois à Princess ou ao Sunset em Alcobaça ou ao Moinho nos Montes, indo ainda ao Jeans Rouge na Nazaré ou ao Bonnie & Clyde em S. Martinho do Porto ou ainda ao Snoopy em Salir e  ao Dreamer's na Foz, era certo que lá para as 4 da manhã estaríamos a marcar presença no Green Hill.

Deve-se abrir aqui um interregno para explicar às gerações mais novas que nós não nos deitávamos à meia-noite para pôr o despertador para as 4h00 da manhã e para então irmos ás discotecas. Pelo contrário, se fosse por nós , comíamos discotecas à sobremesa. Às 23h00 começávamos a debandar para os dancings e em alguns casos até desfrutávamos de um show pré-abertura, como era o caso do Eurosol em Leiria, que apresentava, acabadinho de chegar de Londres numa das malas de um tripulante da TAP, o vídeo com o UK TOP 40 CHART semanal.

Isto no tempo em que não existiam praticamente programas de música na RTP que começava naquele ano a transmitir integralmente a cores. ( e o primeiro canal privado só surgiria 12 anos depois). E os vídeo-clips das músicas do top londrino eram passadas numa tela em contagem decrescente até à meia-noite, altura em que se iniciava o show de lasers ao som de ‘’Also sprach Zarathrusta’’ de Richard Strauss que os menos relacionados com a música clássica poderão reconhecer como fazendo parte da banda sonora do filme 2001 Odisseia no Espaço.


Algumas destas músicas de abertura ou de encerramento ficaram para sempre nas nossas memórias e durante muito tempo o Green Hill encerrava com alarmes tipo sirenes e luzes a baixarem de intensidade até ao som final dos Europe com The Final Countdown.




Nem era muito de dançar. Aliás pouca gente se recordará de mim a dançar, excepto os slows, claro! O fim dos slows foi o fim de uma Era!


Abro de novo aqui um interregno para explicar aos putos que um slow era uma forma de dança antiga, um pouco mais recente que as valsas e as polcas, em que os casais dançavam, aos pares (que estranho!) e agarrados (que horror!).


Citando e parafraseando o Joe do blog Classe de 70, um slow, antes de tudo o mais, tinha de ser uma canção de amor lamechas. Não bastava ter um tempo lento, propiciando o arrastamento de pés; a temática devia também ser propícia às caricias da face na face, ao correr dos lábios pelas orelhas e nuca ou pescoço e ao deslizar de mãos. Não passava pela cabeça de ninguém chamar slow a coisas como o Fade to Grey ou o Tokyo Song.

Depois, um slow tinha que ser uma coisa simples, que entrasse bem no ouvido e que tivesse uma mensagem clara, tipo “me Tarzan, you Jane”. Slows com muita poesia distraíam do essencial; e com uma música complicada perturbavam o piloto automático. Um slow tinha que ser 100% pop, sem grandes pretensões artísticas.


Estou a imaginar-me todo compenetrado em conquistar a rapariga durante o slow Love Hurts dos Nazareth e ela a afastar-me ligeiramente, fitar-me muito seriamente e dizer-me:

- Tenho estada atenta a ouvir a letra desta canção e realmente toca-me bem fundo! – e ao dizer isto faz um daqueles estalidos de língua de quem está mesmo chateada com qualquer coisa ou com alguém que lhe toca fundo e que não serei eu!

Pronto! Dança estragada!



O Amor Machuca


O amor machuca, o amor deixa cicatrizes, o amor fere e prejudica
Qualquer coração que não seja resistente ou forte o suficiente
Para aguentar muita dor, aguentar muita dor.
O amor é como uma nuvem, contém muita chuva.


O amor machuca, oh, oh, o amor machuca


Sou jovem, eu sei, mas mesmo assim
Eu sei que uma coisa ou duas, que eu aprendi com você.
Eu realmente aprendi muito, realmente aprendi muito.
O amor é como uma chama: ele te queima quando é ardente.


O amor machuca... Ooh, ooh, o amor machuca.


Alguns tolos pensam em felicidade, suprema alegria, união.
Alguns tolos enganam a si mesmos, eu acho,
Mas eles não estão enganando a mim.
Eu sei que não é verdade, eu sei que não é verdade.
O amor é apenas uma mentira criada para te deixar triste.


O amor machuca... Ooh, ooh, o amor machuca...


Oh, oh, o amor machuca (3x)


Oh, oh

(Love Hurts - Nazareth)

Nazareth - Love Hurts (1975)

Sejamos claros, era um tipo de canção com uma função específica, e essa função não era fazer-nos pensar no sentido da vida.

Mais do que isso: tinha que ser, no mínimo, ligeiramente azeiteiro. Coisas como o I Know It's Over, o Killing Moon ou o Are You Ready To Be Heartbroken não servíam, são demasiado boas. Mas há, evidentemente, casos de fronteira – por exemplo, o Souvenir devia ou não ser admitido a concurso? Inclino-me para o não, embora com dúvidas.

Finalmente, só é um slow a sério uma canção que toda a gente conheça. Nada de faixas escondidas ou de lados-B desconhecidos. Tem que ser como a pasta medicinal Couto e andar na boca de toda a gente. Tem que ser um single, e de sucesso. Daqueles que agora pode passar nos programas da noite da RFM ou no Rádio Clube Português.

Sei que alguns de vós me vão perguntar como é que assim conseguiam esbracejar e atirar com uma perna para cada lado e sobretudo acenar firmemente com a cabeça sem correr o risco de partir a testa ao seu par! Pois bem, não podiam. Tinham que ficar quietinhos e fazer o mínimo de gestos possíveis salvo os necessários para não parecer mal! Isso incluía um ligeiro movimento rotativo de pés e os únicos movimentos mais frequentes eram feitos com suavidade com os dedos, faces, às vezes lábios a roçarem pela cara… enfim, definitivamente a posição de slow para além de ser uma segura fonte de contágio de gripe A é também impossível de adequar à música house. (para saber mais sobre os slows ler no blog a crónica: ‘’Slows e alguns Termos Náuticos’’).

Geralmente ocupava, em conjunto com o meu grupo de amigos, um lugar quase pré-definido junto ao balcão de entrada, diante da primeira pista de dança e junto à porta que dava acesso a um segunda sala e por aí, à segunda pista de dança.

Daí controlávamos todo o ambiente, incluindo quem entrava e as caras novas, e facilitava muito o nosso reabastecimento constante de gin tónicos, sempre Gordon’s!

Existe um grupo no Facebook denominado ‘’Ai o que eu curti na pista de Rock do Green Hill’’, da primeira vez que o vi lembrei-me logo de criar um outro grupo denominado ‘’Ai o que eu curti FORA da pista de Rock do Green Hill’’. Francamente, dançar era (e é!) óptimo, mas perdíamos a nossa vida de adolescente se não saíssemos da pista. Então acham que eu teria estórias para contar se me ficasse pela pista?!

A Green Hill inicialmente não era mais que essa primeira sala com o bar, a pista de dança, tendo a cabine em frente junto a uma outra sala de piso um pouco mais elevado tanto uma como outra sala tinham umas balaustradas divisórias para a pista de dança.

Só mais tarde sofreu as pequenas alterações com a passagem da cabine do Dj para a direita e o aumento para o fundo com a criação das casas de banho, o corredor nas traseiras que dava para a sala lateral, a tal que dava para a segunda pista de dança e para um dos pátios, o segundo a ser construído pois o primeiro foi aberto à esquerda da nova cabine do Dj.

Mais tarde seria construído o primeiro andar com o seu bar com música ao vivo e entrada exterior privativa e daí em diante a Green Hill transfigurou-se em cada ano sendo hoje um espaço completamente diferente, certamente mais adequado às expectativas da nova clientela.



Da pequena discoteca ao amplo e moderno espaço de hoje decorreram três décadas, uma eternidade para muitas discotecas. Viu nascer e morrer muitas discotecas na Foz e na zona Oeste mas manteve-se e hoje continua a ser a referência da Região Oeste.

Mas a apesar de todas as mudanças a Green Hill ainda conserva a patine que lhe é dada pelas nossas recordações.

Momentos inesquecíveis com amigos de sempre e com amigos já desaparecidos que recordo com muita saudade e já começam a ser muitos, demasiados! Quantos morreram a caminho ou no regresso do Green Hill? Quantas notícias trazidas a meio da noite ou apenas na manhã seguinte. Podia escrever aqui uma lista maldita de tantos que se perderam entre as árvores e as curvas da malfadada estrada velha.

Mas prefiro puxar a minha memória para os melhores momentos.

Noites com o Sr. Beja e com a Mena à porta, com o Luis Romão, o Zé Manel, o Tó, o Paulo Toyota a pôr musica, o Carlos no bar, noites de Inverno, Passagens de Ano, festas de Carnaval, do 15 de Agosto, de Aniversário, Festa da Porca e do Parafuso e tantas outras.

Paulo ''Toyota'' Aguiar na Green Hill em 1990
(fotos cedidas por Paulo Aguiar)

Cada remodelação, o novo bar no primeiro andar, com música ao vivo, os terraços exteriores, a segunda pista de dança, tudo acompanhei ao longo dos anos 80 e o Green Hill, o ‘’Granel’’ como lhe chamávamos, testemunhou mais de dez anos da minha vida, do dia da pré-inauguração até um dia em que me senti como um dos anacrónicos clientes que censurava dez anos atrás. Quando me senti demasiado velho para o frequentar entre os miúdos adolescentes que agora enchiam as suas pistas de dança. E que teriam menos dez-doze anos que eu. O bastante!

Não porque não continuasse de gostar de discotecas mas porque me sentia mais enquadrado entre os da minha geração e isso só poderia encontrar então em discotecas de Lisboa.

Momentos únicos, aquelas noites iniciadas em Óbidos, na Cave do Vale, na Biquinha, no Ibn Rex, no Badanaite ou na Foz, no Café Tabaco e mais tarde no Solar da Paz, no Sitio da Várzea, no Sopa Doce, no Let’s ou em outras discotecas de outras localidades e terminadas invariavelmente no pão quente de alguns locais das Caldas ou das Gaeiras ou a tomar um duche rápido e a seguir de imediato para a praia para poder aproveitar ao máximo o Verão, esse mesmo Verão que nos traziam os amigos de sempre e novas caras que se tornaram amigos para toda a vida.

Encontros de Verão que se renovavam de ano a ano e muitos amigos que perdi de vista com o fim das nossas idas ao Green Hill, lembro-me de famílias inteiras de irmãos e irmãs, de grupo enormes de amigos que vinham em excursão, corrijo, em peregrinação ao Green Hill, vindos de Torres Novas, Torres Vedras, Cartaxo e Almeirim, Santarém, Alpiarça, Leiria e Alcobaça, de Lisboa e até de Évora. Recordo-me de todos eles pelos nomes, recordo-me das suas caras e da alegria do reencontro.



Talvez um dia tenha a capacidade de fazer uma festa de reencontro que os atraia a todos, que deixem os filhos com a família, os afazeres profissionais para trás, que deixem as preocupações e a falta de vontade de sair ou de cobrir a distância de lado e respondam ao apelo e que pelo menos, por uma vez, tenhamos de novo uma noite daquelas no Green Hill.





TOP 100 - 1980 BILLBOARD


1. Another One Bites The Dust - Queen
2. Call Me - Blondie
3. Do That To Me One More Time - Captain & Tennille
4. Lady - Kenny Rogers
5. Upside Down - Diana Ross
6. Another Brick In The Wall - Pink Floyd
7. Rock With You - Michael Jackson
8. Woman In Love - Barbra Streisand
9. Crazy Little Thing Called Love - Queen
10. (Just Like) Starting Over - John Lennon
11. Magic - Olivia Newton-John
12. Coming Up (Live At Glasgow) - Paul McCartney & Wings
13. Please Don't Go - KC & The Sunshine Band
14. It's Still Rock And Roll To Me - Billy Joel
15. Funkytown - Lipps, Inc.
16. Little Jeannie - Elton John
17. Ride Like The Wind - Christopher Cross
18. Cruisin' - Smokey Robinson
19. Master Blaster (Jammin') - Stevie Wonder
20. Lost In Love - Air Supply
21. All Out Of Love - Air Supply
22. More Than I Can Say - Leo Sayer
23. The Rose - Bette Midler
24. Working My Way Back To You/Forgive Me Girl - Spinners
25. Coward Of The County - Kenny Rogers
26. Sexy Eyes - Dr. Hook
27. Biggest Part Of Me - Ambrosia
28. Cupid/I've Loved You For A Long Time - Spinners
29. Emotional Rescue - The Rolling Stones
30. Hungry Heart - Bruce Springsteen
31. Steal Away - Robbie Dupree
32. Don't Fall In Love With A Dreamer - Kenny Rogers/Kim Carnes
33. Shining Star - The Manhattans
34. Yes, I'm Ready - Teri DeSario w/ KC
35. He's So Shy - Pointer Sisters
36. Too Hot - Kool & The Gang
37. Drivin' My Life Away - Eddie Rabbitt
38. Sailing - Christopher Cross
39. Hit Me With Your Best Shot - Pat Benatar
40. Cars - Gary Newman
41. This Is It - Kenny Loggins
42. Longer - Dan Fogelberg
43. Take Your Time (Do It Right) - S.O.S. Band
44. You've Lost That Lovin' Feeling - Daryl Hall & John Oates
45. Late In The Evening - Paul Simon
46. Stomp! - The Brothers Johnson
47. Ladies Night - Kool & The Gang
48. Never Knew Love Like This Before - Stephanie Mills
49. More Love - Kim Carnes
50. Desire - Andy Gibb
51. Give Me The Night - George Benson
52. The Wanderer - Donna Summer
53. Fame - Irene Cara
54. Whip It - Devo
55. Against The Wind - Bob Seger
56. With You I'm Born Again - Billy Preston & Syreeta
57. I'm Coming Out - Diana Ross
58. Special Lady - Ray, Goodman & Brown
59. We Don't Talk Anymore - Cliff Richard
60. The Long Run - Eagles
61. I Can't Tell You Why - Eagles
62. Hurt So Bad - Linda Ronstadt
63. Let's Get Serious - Jermaine Jackson
64. How Do I Make You - Linda Ronstadt
65. Daydream Believer - Anne Murray
66. On The Radio - Donna Summer
67. Brass In Pocket (I'm Special) - The Pretenders
68. Into The Night - Benny Mardones
69. Lookin' For Love - Johnny Lee
70. Fire Lake - Bob Seger
71. Real Love - Doobie Brothers
72. I'm Alright - Kenny Loggins
73. Him - Rupert Holmes
74. You May Be Right - Billy Joel
75. Cool Change - Little River Band
76. Dreaming - Cliff Richard
77. She's Out Of My Life - Michael Jackson
78. Better Love Next Time - Dr. Hook
79. Don't Do Me Like That - Tom Petty & The Heartbreakers
80. Jesse - Carly Simon
81. An American Dream - Dirt Band
82. Hot Rod Hearts - Robbie Dupree
83. The Second Time Around - Shalamar
84. Sara - Fleetwood Mac
85. Tired Of Toein' The Line - Rocky Burnette
86. Let Me Love You Tonight - Pure Prairy League
87. Xanadu - Olivia Newton-John
88. Let My Love Open The Door - Pete Townshend
89. One Fine Day - Carole King
90. Off The Wall - Michael Jackson
91. I Wanna Be Your Lover - Prince
92. Romeo's Tune - Steve Forbert
93. Breakdown Dead Ahead - Boz Scaggs
94. Look What You've Done To Me - Boz Scaggs
95. Jane - Jefferson Starship
96. Don't Let Go - Isaac Hayes
97. Pilot Of The Airwaves - Charlie Dore
98. All Over The World - Electric Light Orchestra
99. You'll Accomp'ny Me - Bob Seger
100. Refugee - Tom Petty & The Heartbreakers





Queen - Another One Bites the Dust

Blondie - Call Me

Captain & Tennille - Do That To Me One More Time

Kenny Rogers - Lady

Diana Ross - Upside Down


Pink Floyd - Another Brick in the Wall


Michael Jackson - Rock With You


Barbra Streysand - Woman in Love


Queen - Crazy Little Thing Call Love


John Lennon - (Just Like) Starting Over

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

EM SERVIÇO PÚBLICO

OBRIGADO SENHOR GULBENKIAN

Ainda hoje não consigo entender muito bem as razões porque Calouste Gulbenkian se decidiu a ficar em Portugal e dedicar toda a sua fortuna à instrução, formação e cultura do povo português.

Para quem conhece pouco a sua história direi que era um rico comerciante arménio nascido em Scutari, Turquia e que por disposição testamentária, antes de morrer em Lisboa, determinou que a maior parte de sua fortuna, acumulada na indústria e no comércio do petróleo, além de quadros e objetos de arte, fossem destinadas para uma fundação em Portugal, a Fundação Gulbenkian (1955), cujo objectivo seria promover a caridade, a educação, a arte e a ciência.

Cônsul-geral do Irão em Paris, no início da segunda guerra mundial refugiou-se em Portugal (1942), onde fixou residência.

Era conhecido como "senhor cinco por cento" devido à sua participação de 5% na Iraq Petroleum Company.

Em Abril de 1942, entrou em Portugal pela primeira vez, convidado pelo embaixador de Portugal em França.

Inicialmente, Lisboa seria apenas uma escala numa viagem a Nova Iorque, mas o empresário adoeceu e acabou por ficar mais tempo do que planeara, agradado com a paz que em Portugal se vivia durante o conflito que devastava o resto da Europa. Sentindo-se bem acolhido, estabeleceu residência permanente em Lisboa, no Hotel Aviz. Acabou por se instalar definitivamente em Portugal até à sua morte em 1955.


O testamento, datado de 18 de Junho de 1953, criou a fundação com o seu nome que ficou herdeira do remanescente da sua fortuna, e que tem fins caritativos, artísticos, educativos e científicos, elegendo Portugal para a sua fixação - agradecendo, postumamente, o acolhimento que teve num momento crítico da história da Europa e sabendo o respeito que em Portugal haveria pelo escrupuloso cumprir da sua vontade.

Já ouvi testemunhos de Mário Soares e de Jorge Sampaio que foram seus advogados e que referem que o facto de Gulbenkian ter permanecido no nosso país quando de inicio estaria apenas em trânsito para um exílio nos Estados Unidos, foi o facto das pessoas o cumprimentarem sempre com um sorriso e um bom dia no elevador do Hotel e nos cafés sem mesmo saber quem ele era. Dizia que isso era raro nos outros países que visitara.

Um bom dia com um sorriso fez com que Portugal beneficiasse por mais de 50 anos da sua generosidade, da sua solidariedade.

A minha crónica de hoje, ‘’EM SERVIÇO PÚBLICO’’ fala de mais um episódio pitoresco da minha adolescência, fala da minha paixão pelos livros, fala dos momentos que eu deixava a minha mente voar para os mundos dos piratas do Capitão Morgan e do Sandokan, para a selva de Tarzan, para as sete partidas do mundo de Júlio Verne e até para os fantásticos lanches dos Cinco! Fala da Biblioteca Gulbenkian instalada no parque D. Carlos I!

Devo muito à biblioteca Gulbenkian em termos de instrução, formação e lazer. Os seus livros ajudaram-me tanto a superar aqueles dias tristes de chuva de inverno que, por fim, já ansiava por eles.

Olhando agora para trás, vejo que também eu beneficiei da generosidade, da bondade de um refugiado estrangeiro, que apenas procurava abrigo de um mundo em guerra.

Ainda hoje existe quem procure abrigo de uma sociedade desequilibrada. Mas muitos não têm os meios de Calouste Gulbenkian.

E assim e agora, chegou também a minha vez de retribuir a generosidade de Calouste Gulbenkian, ajudando quem mais necessita.

Por isso no dia 11 de Dezembro estarei em Óbidos na Festa Anos 70 e 80 em Apoio à Instituição AJUDA DE BERÇO.






EM SERVIÇO PÚBLICO

Já anteriormente, em outras crónicas, abordei a importância que a Biblioteca Gulbenkian, instalada num dos pavilhões do parque, teve não só para mim mas para toda a população das Caldas e muito particularmente para os jovens da minha geração.

Adquirir livros não era um acto tão corriqueiro quanto o é hoje e o poder económico das familias nos anos 60 e 70 não era grande. Apesar de existirem várias livrarias nas Caldas como a Parnaso, a Pelicano, a Polana e a Tertúlia e a Tália também vendiam livros algumas papelarias como a Áurea, o Silva Santos, a Átila e ainda a Jornália. Contudo comprar livros ao ritmo da sua leitura era despesa completamente impensável quando o rendimento familiar era contado até aos tostões.

Daí que no seguimento da biblioteca instalada em 1962 num pavilhão do parque já com leitura domiciliária, foi inaugurada oficialmente em 1969 a biblioteca nº 156 da Fundação Gulbenkian. Esta biblioteca da Gulbenkian passava agora a ser fixa depois de anos em que serviu as Caldas com serviço itinerante.

E assim, a partir de meados dos anos 70 passei a frequentar assiduamente a biblioteca, tornando-me um utilizador frequente e constante e foi graças a esta biblioteca que pude aceder às obras que ilustraram a minha adolescência. Primeiro as obras de Julio Verne, Emilio Salgari, Enyd Blyton, Edgar Rice Burroughs, Leslie Charteris, Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle, George Simenon, Paul Feval, Erle Stanley Gardner, Ellery Queen, Alexandre Dumas e depois os autores portugueses, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão.


Entrava na biblioteca e depois de apresentar o meu cartão à bibliotecária sentada à direita de quem entra e apresentar os livros que levara para casa, disparava para as prateleiras situadas imediatamente à esquerda da porta de entrada.

Sabía que iria aí encontrar os livros indicados para a minha idade. A forma de classificação da biblioteca era bastante interessante com etiquetas coloridas na lombada de cada livro. Cada cor indicava o limite mínimo de idade a que podíamos aceder ao título. Os livros estavam dispostos por cores e eu sabia quais as prateleiras que continham os livros que podia levar para casa. Eram as à esquerda da porta. Só à medida que fui crescendo pude aceder às outras prateleiras, primeiro às do centro e depois às do fundo. Nunca cheguei às da direita e muito menos à sala do fundo onde estavam as preciosas encadernações resguardadas das mãos das crianças. No inicio dos anos oitenta quando parti para Lisboa já pouco utilizava a biblioteca que contudo se manteve em funcionamento até 1997.

O meu gosto pela leitura ficou mas ainda hoje me custa pegar em livros que não são meus, com receio de os estragar, com pena de não os manter!

A biblioteca cedeu o seu lugar à Biblioteca Municipal, erigida na Rua Vitorino Froes mas ainda hoje ao passar diante da porta da antiga biblioteca sinto uma grande nostalgia desses momentos passados no seu interior em busca de um novo título ou de quando quase corria para o parque logo após a hora de abertura para verificar se já fora entregue o livro que eu perseguia há semanas.

E ao olhar para aquela porta interrogo-me como teriam sido diferentes aquelas tardes de inverno chuvosas se não tivesse a companhia de todos aqueles livros cuja leitura a biblioteca me proporcionou.


E pergunto-me também como terão passado os outros jovens mais velhos do que eu se não fosse o serviço que a biblioteca e a Fundação Gulbenkian proporcionou à população caldense.

A história do serviço bibliotecário nas Caldas é interessante. Só nos finais dos anos 40 se instalou a primeira biblioteca nas Caldas quando uma comissão sob o nome de Grupo de Amigos da Biblioteca conseguiu reunir suficientes donativos e obras suficientes para constituir uma primeira biblioteca que ficou guardada no Sindicato dos Caixeiros.

Depois conseguiu-se instalar provisoriamente num dos arruamentos do Parque, por trás da estátua de Ramalho Ortigão, uma biblioteca de apoio ao jardim apenas com uma estante e uma mesa. Os livros tinham de ser lidos no local e devolvidos antes do encerramento.

Biblioteca instalada no Jardim Teófilo Braga (Jardim da Parada) em Campo de Ourique.
A biblioteca do Parque D.Carlos I deveria ser semelhante a esta que data da mesma altura.

Só em 1962 se inaugurou uma biblioteca com serviço domiciliário num dos pavilhões do parque, calculo que no mesmo local onde se situou a Biblioteca Gulbenkian que lhe sucedeu em 1969.

Esta biblioteca substituiu o serviço itinerante que a Gulbenkian já proporcionava à população local.

Os serviços bibliotecários itinerantes da Gulbenkian foram criados em 1953 e eram constituidos por unidades móveis, carrinhas Citroen Hy especialmente adaptadas para o efeito que transportavam no seu interior mais de 2000 livros.


Passaram a servir a população das Caldas e concelhos limítrofes a partir do inicio dos anos sessenta e as suas distintivas carrinhas Citroen ‘’Rinoceronte’’ tornaram-se famosas por todo o país.

Mal saberia a Gulbenkian que utilidade teria uma dessas carrinhas após a sua merecida reforma!


No inicio dos anos 80, um nosso amigo,o Luis Oom, apareceu um dia na Foz, onde a sua familia ainda hoje mantém uma casa de férias, com uma dessa carrinhas que tinha adquirido não me lembro em que circunstâncias.

A carrinha mantinha a iluminação original ou fora-lhe instalada um género de gambiarra e no seu interior foram montados uns divãs e uma mesa com banqueta. Parecia uma autocaravana rudimentar!

O Luis mostrou-a orgulhoso a todos os seus amigos e todos tivemos direito a dar uma volta. Finalmente, no sábado seguinte, o Luis decidiu ir nela até à Green Hill.

Estacionou-a triunfante perto da entrada, com a frente a dar para a parede à direita da entrada onde pediu ao Sr. Beja que lhe fosse deitando um olho.

Nessa mesma noite um seu amigo, conhecido por todos os que desde sempre frequentaram a noite da Foz, veio pedir-lhe um grande favor. Queria namorar à vontade com a sua namorada de há muito e gostaria de poder estar mais em privado com ela na carrinha Citroen.

No inicio o Luis recusou veemente mas depois ainda que relutante aquiesceu ao pedido do seu amigo mas encheu-o de recomendações e alertas para manter a decência.

Que sim, afiançou-lhe o amigo. Não haveria lugar a nenhuma falta de respeito, seria tal e qual o namoro no interior da discoteca mas ao abrigo dos olhares e das bocas dos amigos.

O Luis ainda se manteve muito preocupado. Tinha medo do que poderia acontecer e do que isso poderia ter como consequências para si próprio como proprietário da carrinha. E ficou ainda mais de pé atrás quando o amigo lhe garantiu que não aconteceria nada mais do que normalmente acontecia no interior de qualquer outra viatura estacionada no parque da Green Hill. O que ele foi dizer!!!


Finalmente com a garantia da jovem namorada ele lá entregou as chaves da Citroen e o casalinho lá foi todo lampeiro para a viatura.

Mas o Luis continuava inquieto e acho que só sossegou quando o Rodrigo, o ‘’Batata’’, subiu ao tejadilho da carrinha e espreitou pela claraboia que aí existia, certificando-lhe que tudo se mantinha dentro dos limites da decência.

A partir dessa vez foram muitas as noites que a carrinha esteve estacionada à porta da Green Hill e foram também muitos os pedidos que o Luís teve para ceder a viatura por alguns minutos. O Luís mostrou-se algumas vezes irredutível mas a verdade é que de vez em quando lá a voltava a emprestar. Contudo, os pedidos eram tantos que sugerimos que começasse a cobrar e a determinar o período de tempo de utilização para dar lugar a todos.
Foi o suficiente para o Luis desaparecer com a carrinha e até hoje não voltei a pôr-lhe a vista em cima!

Que será feito dela? Terá a Gulbenkian consciência do enorme serviço público que aquela Citroen continuou a prestar ao longos desses anos após a sua reforma?






AS BIBLIOTECAS ITINERANTES DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN (1958-2002)
Texto Complementar à crónica ''Em Serviço Público''


Para o início efectivo das bibliotecas móveis em Portugal é apontado a data de 1953, referente ao início dos serviços de uma biblioteca-circulante, implementada por Branquinho da Fonseca, no Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, onde na altura exercia funções de conservador-bibliotecário. Esse carro-biblioteca deslocava-se até “às associações, escolas e lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo domiciliário, o acesso ao livro pela população.” [Neves, pág. 3]. Era de carácter gratuito e o acesso às estantes era livre.

Biblioteca móvel, do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, de Cascais
(ver fonte no fim do post)

Em 1958 a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) criou, por sugestão do mesmo Branquinho da Fonseca, um serviço similar ao de Cascais, mas que almejava abranger todo o território nacional, incluindo mesmo os arquipélagos. Surgiu assim o Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI), que B. da Fonseca dirigiu até à sua morte (1974). Este tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” [Neves, pág. 3] Afigurava-se como tal um serviço de leitura pública moderna.

O público a quem era mais dirigido o serviço era sobretudo aquele que era mais parco no acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mas desfavorecidas. estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia será no público mais jovem que este serviço terá melhor acolhimento, apesar de se pretender contemplar de modo símile todas as idades. (ver [Melo, 2004a])

“As bibliotecas itinerantes ou carros-biblioteca levavam a bordo cerca de dois mil volumes arrumados nas estantes. Nas prateleiras de baixo, encontram-se os livros para crianças, nas prateleiras do meio a literatura de ficção, de viagens e biografias e, por fim, nas de cima os livros menos procurados, de filosofia, poesia, ciência e técnica. Circulavam por territórios que abrangiam mais do que um concelho, permitindo, após o cumprimento das formalidades de inscrição e requisição, o empréstimo dos livros por períodos de um mês, prorrogáveis, sendo até possível efectuar reservas.” [Neves, pág. 3 e 4]

A opção inicial por bibliotecas itinerantes foi motivada sobretudo pelo facto de grande parte das populações nunca antes terem tido contacto com este tipo de serviço e como tal revelava-se essencial ser a biblioteca a deslocar-se até elas, até em razão dos potenciais leitores possuírem poucos tempos livres, e de os meios de deslocação dos mesmos serem escassos. Com os veículos móveis era possível chegar ao Portugal mais profundo, dos pequenos lugarejos, de habitações mais dispersas (e uma grande parte destes povoados nem se localizava propriamente no interior do país). Indubitavelmente o cerne deste serviço era o leitor e as suas efectivas necessidades, o que era algo incomum nas bibliotecas mais tradicionais portuguesas. (ver [Melo, 2004b, pág. 282-83 e 330-331])

Este serviço era em muitos casos o único contacto com os livros que se possibilitava a muitas populações. Todavia, observa-se o cuidado de não atender apenas à leitura lúdica (embora seria esta a mais saliente) mas também à leitura informativa e formativa, abarcando o maior número de temáticas possíveis (e também incluindo nestes manuais de estudo, oficiais). A escolha do fundo documental obedecia a critérios bem definidos, por uma comissão, e era publicado num catálogo, actualizado regulamente (o primeiro, de 1960, possuía 1674 títulos diferentes). No acervo das obras disponíveis foram-se incluindo mesmo, embora lentamente e com certas reservas, algumas obras que não eram muito do agrado dos dirigentes políticos do Estado Novo. Ressalva-se, todavia que o empréstimo deste tipo de obras, era restrito a certas pessoas. (ver [Melo, 2004a])

Bibliotecas Itinerantes (Citröen) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Inicialmente, em 1958, foram colocadas em circulação 15 bibliotecas itinerantes (sobretudo na região de Lisboa e litoral), mas o seu crescimento inicial foi deveras acentuado, sendo que em 1961 já circulava pelo país (estendendo-se ao interior) um total de 47 veículos de marca Citröen. (ver [Melo, 2004b, pág. 334]) “No que concerne ao pessoal que assegurava o funcionamento destas unidades móveis, era constituído por dois elementos: o auxiliar e o encarregado, responsável pela biblioteca, a quem competia orientar o leitor nas suas escolhas de leitura”. [Neves, pág. 4] O encarregado “não tinha de de ter nenhum curso específico, nem sequer de ser diplomado, apenas precisando de ser alfabetizado, evidenciar alguma cultura geral, gosto pelo livro e predisposição para o contacto com o público”. Entre eles incluíram-se “grande número de intelectuais reconhecidos” como Alexandre O’Neill ou Herberto Hélder [Melo, 2004b, pág. 285]

A FCG estabeleceu parcerias com as autarquias, em que estas cediam instalações para depósitos de livros (cada carrinha tinha o espólio no interior e mais o dobro de reserva num espaço exterior) e pontualmente contribuíam para o pagamento das despesas, ao passo que à FGC arcava com o grande ónus das expensas (fornecer o acervo de obras, o biblio-carro, pagar os honorário do pessoal, o combustível, despesas de manutenção e conservação, etc). (ver [Melo, 2004b, pág. 283-84]) A Gulbenkian teve assim a incumbência de se substituir em grande parte ao Estado a sua função de criar uma rede de bibliotecas, até pelo facto de o Estado não estar muito interessado na formação de cidadãos plenamente esclarecidos e informados. Por outro lado, e reportando somente ao valor material do livro, o seu corrente acesso era na época apenas factível a classes mais favorecidas.

Este serviço itinerante teve desde o seu começo uma elevada recepção, sendo que somente três anos volvidos, em 1961, o número de leitores inscritos era de cerca de 250 mil e foram requisitados cerca de 2,5 milhões de livros. Apenas para se observar a acentuada evolução, no ano seguinte o número de leitores inscritos era já de cerca de 350 mil e foram requisitados cerca de 3,5 milhões de livros (ver [Melo, 2004b, pág. 334])

Gradualmente, desde o 2º semestre de 1959, foram-se instalando algumas bibliotecas fixas, sobretudo em locais de maior centralidade e inseridas em organismos públicos, o que induziu, pelo menos a um acréscimo mais paulatino dos efectivos móveis. Em 1962 já existiam 36 bibliotecas fixas e 47 móveis, o que já evidenciava uma razoável cobertura do país. “Em 1963 introduziram-se as bibliotecas itinerantes e fixas nos Açores e na Madeira. Em 1967 contabilizavam-se 205 bibliotecas (61 móveis e e 144 fixas) (ver [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Ainda assim, só em 1972, é que a própria FCG deu por «concluída» a sua rede de bibliotecas itinerantes e fixas, totalizando, respectivamente, 62 e 166 unidades” Nesse ano existiam cerca de 475 mil leitores inscritos e foram requisitados cerca de 6 milhões de livros. [Melo, 2004b, pág. 291 e 334]. As Bibliotecas móveis sempre serviram aos povoados mais pequenos e periféricos ao inverso das fixas.

Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Desde o início da década de 70 o projecto SBI vê a sua sustentação fragilizada no seio da FCG, pois esta pretendia que as despesas (bastante elevadas e com um 'retorno' algo dúbio) fossem repartidas com o poder central e local. Em 20-2-1974 chegou mesmo a existir uma reunião onde se discutiu a extinção da SBI, contudo a eclosão do 25 de Abril, mudou o panorama global e o serviço manteve-se, sofrendo algumas reestruturações.

No período (1981-1996) em que Vergílio Ferreira foi director do SBI, foi enfatizado a animação da leitura e a difusão literária e cultural. Deste modo forami reforçadas as actividades de promoção da leitura e dos livros (exposições, debates, encontros com autores, leitura de contos e poesia, etc.) nas bibliotecas Gulbenkian. Em 1983 o SBI foi renomeado SBIF (Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian).

Vergílio Ferreira”foi um defensor da manutenção do projecto de bibliotecas FCG, pois entendia que a proposta lançada pelo IPLL não era uma alternativa completa, dado não cobrir então todo o pais (excluía as regiões autónomos) e por não ter um serviço de unidades itinerantes.” [Melo, 2004b, pág. 302].

A implementação gradual do Programa Nacional de Leitura Pública, a partir de 1987, que visava a construção de bibliotecas de feição mais moderna de acordo com os princípios de Manifesto da UNESCO contribui para o decréscimo progressivo do número de efectivos da SBIF que se vinha registando desde o início da década da década, sobretudo de móveis que rapidamente se extinguiram (ver[Melo, 2004b, pág. 294-298]. Por outro lado muitas das novas biblioteca da Rede Nacional de Leitura Pública começaram a integrar o serviço de biblioteca itinerante. Contudo em muitos dos casos a gradual ausência das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian das povoações, não foi colmatada pelos novos serviços móveis, sobretudo nos povoados mais periféricos.

Em 1993 o SBIF passava a SBAL (Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura) e em 19 de Dezembro de 2002 era definitivamente extinto.

Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

No total, segundo aponta Manuel Carmelo Rosa, director do Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Gulbenkian, o serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da FCG emprestou ao longo de quarenta e quatro (1958-2002) anos cerca de 97 milhões de livros e, chegou a quase 29 milhões de leitores, distribuídos por cerca de três mil novecentas povoações. Para cumprir com sucesso esse serviço adquiriu ao longo dos anos mais de cinco milhões de livros. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Estes números são muito diferentes do que Daniel Melo apresenta. Relativamente ao número de empréstimos, e apenas entre 1958 e 1989, este regista 140 862 248 livros emprestados; e no mesmo período de tempo relativamente a livros adquiridos regista 7 849 749 livros. [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Na mesma obra de Daniel Melo é registado que apenas entre 1958 e 1990 o número total de leitores foi 46 423 881. Desses, cerca de 36 551 663 (78,7%) foram crianças e adultos [Melo, 2004b, pág. 343]. Estes valores evidenciam a enorme importância que este serviço da Gulbenkian assumiu em Portugal e espelham de modo singular o elevado sucesso que granjeou no seio do povo português.

A propósito, Carmelo Rosa lembra que quando uma biblioteca móvel era substituída por uma fixa todo o acervo da móvel (quer do seu interior, quer em depósito) era oferecido ao município. Em Dezembro de 2002 com a extinção do programa praticamente todo o acervo bibliográfico e documental transitou para as autarquias. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Saliente-se que a Fundação Gulbenkian continua a prestar um fundamental apoio às bibliotecas portugueses, sobretudo Públicas e Escolares, agora não através de unidades físicas (fixas ou móveis), mas de programas, serviços, diversas iniciativas, apoio financeiro e material, etc. que lhes concede; e de eventos e iniciativas (conferências concursos, formações, etc.) que produz nos e a partir dos seus espaços. E como lembra Carmelo Rosa "no seu website tem disponível mais de 30 mil fichas de leitura relativas ao que mais importante se publicou desde a década de 60".

Biblioteca Itinerante (renovada) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Se desde finais da década de 80 o número de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian diminuiu, essa redução foi sendo contrabalançada com o acréscimo sucessivo, de novas unidades referentes às bibliotecas não pertencentes à rede Gulbenkian. Estes bibliomóveis apresentam-se, regra geral, melhor apetrechados, incorporando já sistemas multimédia e informáticos. Por outro lado tem se vindo a diversificar o tipo de serviços móveis prestados, com a inclusão de bibliocaixas, bibliomalas, etc. A edificação de pólos e extensões das bibliotecas públicas não tem sido muito significativa, não servindo assim efectivo contraponto a este serviço. Na actualidade existem várias dezenas de bibliotecas públicas que prestam este serviço itinerante.

Na generalidade dos países da UE ou da OCDE, e basta olharmos para os nuestros hermanos, existe uma considerável profusão de redes de bibliotecas móveis. E na generalidade dos casos, não se tratam apenas de meros princípios verbais assinados num documento ou pontuais intercâmbios de serviços, produtos ou recursos humanos. São efectivas redes onde em muitos casos a mesma unidade móvel movimenta-se um raio de acção supra-concelhio, orientada por políticas de promoção da leitura e da literacia digital de âmbito regional.


Referências bibliográficas:

MELO, Daniel

2004a Leitura e leitores nas bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957-1987). [em linha] [consultado em 23/12/2006]

2004b A Leitura Pública no Portugal contemporâneo : 1926-1987. Lisboa : Imprensa de Ciências Sociais. ISBN 972-671-137-1

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato word-pdf)

Gulbenkian emprestou 97 milhões de livros – notícia da Agência Lusa/RTP 18-7-2005

Fonte das imagens (referenciadas acima):

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Disponível em www:

Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato ppt)


Publicada por Fernando Vilarinho no blog ''Bibliotecas de Portugal'' em 12/24/2006

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O FIM DA ADOLESCÊNCIA



1ª PARTE – DO BANANAS AO JAMAICA

Em 1981 fui estudar para Lisboa mas mantive sempre a minha estreita ligação a Caldas que nunca se perdeu até aos dias de hoje.

De resto, mesmo quando comecei a ganhar novas amizades na grande cidade e a entrosar-me com o ambiente nocturno da capital nunca deixei de repartir os fins-de-semana entre as duas cidades, procurando o melhor de cada uma.

Cafés ou gelatarias como a Versailles, o Galeto, a Ceuta, a Mexicana e a Roma, o Tic-Tac e a Suprema, a Biarritz, a Suiça, a São Remo, a Londres e a Surf faziam as vezes da Zaira, Taiti, Machado, Maratona, Central ou Gato Preto.

Locais de diversão diurna como o Jardim-Cinema substituíam o Camaroeiro.

Bares como o Happening e mais tarde o Xafarix, o Berro, a Drogaria Ideal, o Procópio e o Mosaico, o Bora Bora, o Frágil, o Foxtrot, o Pavilhão Chinês, o Café-Concerto, o Saddle Room, o Deck, o Piper’s ou a Carruagem tomavam por vezes o lugar da Cave do Vale ou da Biquinha, do Café-Tabaco, do Solar e do Sitio da Várzea..

E o Banana Power, o Up and Down, o Ad Lib ou o Stones, o Jamaica, o Van Gogo e o 2001, o Seagull ou o Maria Bolachas, o Plateau (mais tarde) o Loucuras e o Stringfellows, o Roller e o Whispers, o Rock Rendez-Vous e o Noites Longas, o Skylab, o Porão da Nau e o Archote, a Primorosa de Alvalade, o Charle’s Place, o Beat e o Brown’s, o Rolls e o Juliana’s e tantos, tantos outros, iam tomando o lugar do Green Hill, do Bonnie, do Ferro Velho e da Azenha.

Mas nada, mesmo nada, substituía a emoção de estar entre amigos, de encontrar os amigos de sempre, uma emoção que só podia viver nas Caldas!

E sempre que os amigos das Caldas iam à grande cidade era uma grande farra!

Um dia convidei o Rui Rodrigues para ir lá passar uma noite para ver o ‘barulho das luzes’’ de Lisboa.

Arrancámos para o Banana Power e quando chegámos a fila para entrar devia de ter cem metros. Julgo que o Bananas foi a primeira discoteca em Portugal a implementar o conceito ‘’deixa-os secar!’’ para aumentar a curiosidade sobre a discoteca e sua atractividade. O porteiro, o Vitor, era particularmente bom no seu métier e a malta apanhava valentes secas a não ser que fosse um dos seiscentos afortunados que possuíam um cartão para entrar pelo Privé. A minha amizade com a RP valeu-me um cartão azul que não dava tanta patine como o dourado mas já me permitia entrar sem complicações.

Esse cartão foi a sorte de muitos e particularmente de um. Tinha um amigo que tinha uma grande dificuldade em ser monógamo e geralmente mantinha duas namoradas, quando não eram três. E depois não eram simples flirts, tipo uma namorada em cada porto, mas verdadeiros namoros de ir jantar com os pais das desgraçadas a suas casas.

Para a festa do 1º aniversário do Banana Power toda a gente procurou o exclusivo e limitado convite. E claro que as suas duas namoradas lhe pediram para ir! Como resolver então o problema? Bem, disse a uma que ia para fora de Lisboa por compromissos inadiáveis e levou a outra. Só que a primeira dama decidiu ir na companhia das suas amigas e só não deu de caras com o galã porque eu a vi primeiro! Tive que ir a correr avisar o desgraçado que fugiu com o meu cartão para o Privado na companhia da segunda dama (que não sabia de nada, claro!).

O pior foi quando a primeira dama decidiu ela também ir para o Privado! Nessa altura o meu amigo não teve outro remédio se não refugiar-se na casa de banho onde ficou quase toda a noite! No final acabei eu por ir dizer ao seu par que o rapaz tinha tido um desarranjo intestinal e tinha corrido para casa e tive de eu mesmo a levar para sua casa enquanto ele se mantinha na casa de banho, impossibilitado de sair, enquanto a outra namorada se mantinha por perto! Longa história, enfim!

Mas voltemos à primeira história!

Lá entrámos ao som Frankie Goes to Hollywood (Relax don't do it; When you want to to go to it; Relax don't do it; When you want to come) e a pista e todo o varandim estavam completamente apinhados. Nem sequer era divertido lá estar e por uma vez o Vitor tinha razão, alguns teriam que sair para que alguém pudesse entrar.

Frankie Goes to Hollywood - Relax

Perante isto, e após um gin tónico tomado a correr, decidimos dar um salto ao Jamaica de que o Rui ouvira muito falar.


Situado em pleno Cais do Sodré, por baixo dos arcos da Rua Nova do Carvalho e entre várias casas de alterne, o Jamaica era o centro da juventude mais ligada à actividade artistica e cultural. Como o nome indicava, a cultura reggae estava muito presente (com posters de Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff e dos Wailers um pouco por todo o lado) mas no Jamaica tocava-se de tudo, desde que fosse bom!

Como habitualmente antes de entrarmos fomos ganhar ânimo ao Flor do Alecrim, uma taberna louca, louca, onde metíamos uns valentes pernaltas!

O Jamaica tinha o Dj mais popular de Lisboa, o homem da rádio Mário Dias, mas naquele dia da semana era habitual a presença de Luis Filipe Barros e não podíamos perder a oportunidade.

Mal entrámos, o Rui deu de caras com uma moça bastante avantajada que sentada em cima do balcão à direita da porta de entrada olhou para ele, abre a camisa e mostra-lhe os seus belos seios!

- São giros não são?! – perguntou-lhe ela quase gritando-lhe ao ouvido. O Rui olhou para mim de braços abertos e cara de espanto. A coisa começava bem! Bem vindo ao Jamaica!!!

A noite até acabou por ser bastante agradável e alegre não fora o facto da dita moçoila no final da noite vir meter-se de novo com o Rui mas pelo facto de estar completamente embriagada e convictamente mal disposta, lhe ter vazado da pior maneira o jantar em cima do colo! Bem digamos que as calças tiveram que ir para lavar e o que vale é que tínhamos ido no seu carro!

Mas as noites de tour turístico para os amigos caldenses não acabaram por aí!


Fim da 1ª Parte



2ª PARTE - UMA MEMÓRIA FRÁGIL


Uns tempos mais tarde o meu querido amigo João Pedro Correia, João ‘’Mas’’ para os íntimos, decidiu visitar-me e conhecer ele também as noites lisboetas.

‘Bora para o Frágil!

Na altura o Frágil seria um dos bares mais em voga em Lisboa. Rumámos ao Bairro Alto e lá fomos tentar entrar no bar. Vá Lá! Tivemos sorte! A Margarida Martins (sim a agora Presidente da Abraço!) era a porteira do Frágil e tornara-se famosa por querer imitar os porteiros do Studio 54 em Nova Iorque, ou seja, só deixava entrar quem queria e de uma maneira muuuuuito subjectiva! Mas devia ter um novo amor naquele dia e estava particularmente bem disposta, deixando-nos entrar.

Medley Top 1984 - Parte 1

A noite foi óptima e recordo-me de ter visto o ex. ministro da cultura francês Jack Lang, de jeans, numa amena cavaqueira com alguém famoso cá do burgo.

Conhecemos então duas moçoilas e após muita conversa e alguns copos a coisa compôs-se e elas convidaram-nos para ir a sua casa.

Um parênteses aqui para explicar que eu nunca fazia más figuras quando estava com os copos, aliás ninguém conseguia saber quando eu estava com os copos excepto quando as coisas se sucediam. O meu único sintoma de bebedeira era esquecer-me por completo do que estava a fazer e ligar o piloto automático que me levava em segurança, e sem eu saber como, até casa! Só quando davam pela minha falta, presumindo que eu não andava a vadiar, os meus amigos sabiam o que tinha acontecido, e isso geralmente só podia ser confirmado na manhã seguinte (e é claro que muitas vezes essa desculpa me deu um jeitão!).

Medley Top 1984 - Parte 2


Bem, por volta das quatro da manhã saímos os quatro do Frágil. Elas tinham o seu carro na Rua Nova da Trindade e eu no Príncipe Real. O João Pedro ficou a acompanhá-las enquanto eu ia, já meio zombie presumo, buscar o meu carro.





Eram seis e meia da manhã toca-me a campainha de casa!

- Que raio! - Pensei eu. – Quem é que me está a tocar à porta a esta hora?! Espero que não seja alguém a dar-me uma má noticia! – Sempre que o telefona toca a horas despropositadas penso no pior.

- Quem é? – Pergunto pelo intercomunicador meio ensonado e com a cabeça a doer como um raio!

- João Pedro! – Respondem-me de baixo.

- Que raio?! – Estranhei. – Então mas ele não está já deitado? O que é que ele faz na rua?

Tento me lembrar do fim da noite mas não consigo.

O João Pedro entra-me em casa mas não vem muito zangado, apenas intrigado.

- Então pá?! O que é que te aconteceu? – Abre os braços inquisitivos. – Deixaste-me pendurado com as duas miúdas! Ficaram a pensar que tu és louco. Aliás que somos os dois loucos! – A irritação começou a transparecer na sua voz. – Fartámo-nos de esperar! Fomos á tua procura, preocupados, e finalmente deixaram-me ali plantado e foram para casa furiosas.

Eu fiz um trejeito de surpresa. Não me lembrava absolutamente de nada.

- Lembro-me de ter ido buscar o carro sim mas a partir daí estou com uma branca! – Tentei explicar. – Não me lembro de mais nada, pensei que tínhamos vindo os dois para casa.

- E não te lembras das miúdas? Estragaste uma grande noite, foi o que foi!

Eu encolhi os ombros, não conseguia mesmo me lembrar de nada.

- Ainda por cima eu não conheço Lisboa, não sabia o nome da tua rua, só o número da porta e do andar. – Continuava o João Pedro – Só sabia que ficava perto do Campo Pequeno e que o teu prédio é cor-de-rosa com uma arquitectura esquisita à Taveira e tinha duas portas, o nr. 20 e o nr. 22! Tive que apanhar um táxi para o Campo Pequeno e depois lá dei com a rua e com a casa! – Nessa altura já ele descia as escadas em direcção ao quarto.

Já não disse mais nada para não agravar a situação.



No dia seguinte íamos a sair para tomar o pequeno almoço ao Tic-Tac, na Avenida de Roma, quando me cruzo com o porteiro do prédio, o velho e educado Sr. Brettes, um retornado da Índia e depois de Moçambique a quem a vida fora madrasta.

- Boa tarde Sr. Caiado. – Cumprimentou-me com um sorriso muito divertido. – Então a noite ontem foi boa, hem!

- Como?! – Inquiri surpreendido.

- Bem, ontem durante a noite vim à rua fumar um cigarrinho e passear o cão e vi-o a chegar. – Explicou – Estranhei que não estivesse estacionado na garagem como é habitual e até subiu depressa demais o lancil ali do estacionamento!

Continuei a olhar para ele à espera da sua conclusão.

- Depois ficou uns bons dez minutos a olhar para o prédio como que a pensar qual era a porta por onde entrar! – Deu uma grande gargalhada! – Tive que o convidar a entrar!

Nossa Senhora da Agrela! Que vergonha! Juro que nunca mais me meto numa assim!


Fim da 2ª Parte

 
3ª PARTE - SARA
 
Passaram-se dois anos.

Vinte anos desde que o Dr. Leonel Cardoso me escrevera os versos, quinze anos desde o Magusto do Ramalho Ortigão, treze anos desde o exame da quarta-classe, das matinés do Casino, desde o meu encontro com a Iris. Tinham-se passado onze anos desde que o Miguel recebera a moto e seis anos tinham passado desde a excursão de finalistas.

O Verão estava agora a terminar.

Acabara uma intempestiva relação com uma menina que se viria a tornar uma das caras mais conhecidas do jet set nacional. E do jet oito!

Tentara esticar a minha adolescência até onde pudera. Trabalhava e estudava em simultâneo mas o espírito era o mesmo. Salvo nos períodos de exames e de frequências e/ou de maior aperto no trabalho, continuava a desfrutar bem das noites e dos fins-de-semana e sobretudo dos períodos de férias. Sentia-me ainda o mesmo adolescente que estudara no liceu do Parque e que fora uns anos antes para Lisboa.

Naquele Verão lancei-me numa corrida desenfreada de namoros por uma semana, de sábado à noite a sexta à noite! Tentava esquecer algo ou pressentia que era o fim de uma era?

Num sábado à noite do inicio de Setembro saio com uma amiga, a Luisa. Começamos pela Cave do Vale, depois Sitio da Várzea, está calor e vimos para a varanda, cá para fora. À minha frente na escuridão da noite estão o picadeiro e o velho court de ténis que eu inaugurei no dia em que a Daisy Ruano , dona da casa das palmeiras no centro da Foz , estreou as suas cavalariças e o seu court de ténis. Como a filha não conhecia ninguém das Caldas, pediram-me para vir jogar ténis com ela. Que seria feito dela, de todos eles?


Matt Bianco - Yeh-Yeh

Finalmente o Dreamers. Entro ao som do Matt Bianco ‘’Yeh Yeh’’! Entro pelo corredor à esquerda e vou cumprimentando aqueles com quem me cruzo, vou ainda beijar umas amigas que estão numa mesa sob a varanda em baixo. Digo adeus aos jogadores de snooker. Subo então com a minha amiga os poucos degraus que me separam da placa diante do bar e em frente da pista de dança dou de caras com o João Mas e uma amiga. A vida começa a pegar em algumas pontas!

O João Pedro vai para me apresentar a sua amiga mas eu nem o deixo terminar.

Como eu me lembrava dela! Há tantos anos atrás, com os seus quinze ou dezasseis anos, sentada no muro em frente ao Caravela na companhia dos irmãos e dos amigos! Como eu me lembrava do seu pólo azul e dos seus calções curtinhos de ganga cheios de remendos de gangas de outras cores (era assim que se usava!). Como eu me lembrava dos prolongados olhares trocados no Ferro Velho e no Green Hill. Ela, disse-mo depois, não reagia aos olhares pois pensava que eu era muito mais velho e estaria certamente mais interessado noutra que deveria estar nas proximidades, por outro lado as irmãs advertiam-na para a fama que eu tinha de não assentar!

Iria finalmente conhecê-la! Era certo que já conhecia um seu irmão e uma sua irmã, mas a ela perdera-a de vista pela sua ausência em Verões consecutivos.

Naquela noite penso que a Luisa acabou por estar muito mais tempo a falar com o João Pedro do que comigo pois eu aproveitara a oportunidade e parecia estar a tentar recuperar todo o tempo perdido, numa prolongada conversa com a amiga do João Pedro.

No final da noite ela disse-nos que na quarta-feira seguinte iria dar um jantar muito informal, após a praia, para alguns amigos, na sua casa de praia junto ao Palácio dos Viscondes de Morais. Por gentileza convida-nos a todos!

Na quarta-feira seguinte vejo-a na praia, está frio e o céu encoberto. Calções de caqui do tempo da tropa do seu pai, devidamente ajustados, claro, e mantém-se o gosto pelos pólos. Fico a observá-la à distância, vejo os seus gestos, o modo como brinca com as crianças. E o seu riso genuíno. Que riso feliz!



Aproximo-me para a cumprimentar, faz-me um largo sorriso e cumprimenta-me como a um velho amigo.

- Vais lá logo à noite jantar. Não vais?

Eu encolho os ombros. Explico-lhe que recebi o seu convite como uma gentileza, uma cortesia por estar diante do João Pedro quando o convidou. De qualquer modo o João Pedro estava naquele dia em Lisboa e não voltava a tempo do jantar e a Luisa partira para o Redondo.

- Que disparate! Eu convidei-te por ti, não por estares com o João Pedro – ralhou ela. – Tenho muito gosto em que venhas!

Anui com a cabeça.

– Então vou! – E fiquei-me ao pé dela pelo máximo de tempo possível.

O dia não descobriu e ela regressou a casa e eu voltei para os amigos na minha barraca, terceira fila a contar do inicio.

À noite chego a sua casa. Abre-me a porta a Bedi, no corredor cumprimento a Bébé que não vejo há um ano, depois aparecem os Sottomayor. Venho a encontrá-la na cozinha, à volta com os tachos e uma panela. Spaghetti al dente. Bonito, detesto spaghetti al dente!

O jantar contudo correu de forma excelente apesar de me sentir ainda um pouco deslocado nas conversas pois não fazia habitualmente parte daquele grupo mas cada sorriso dela dava-me alento para mais uns minutos. Devem ter sido muitos sorrisos!

No dia seguinte telefonei-lhe a agradecer e convidei-a para jantar no sábado seguinte.

Fomos ao Foz Praia, o Jaime, cozinheiro do Páteo da Rainha, mudara-se para aqui e com ele a sua famosa receita de arroz de tamboril. Vinho branco a acompanhar e a menina a ficar com as faces ruborizadas pelo vinho que nunca bebera.

Depois fomos ao Green Hill e encontrámos o Rui com as minhas irmãs, o circulo completara-se! Do Jamaica ao Frágil, do Dreamers ao Green Hill!

O Green Hill estava a abarrotar como era hábito nas noites de sábado, embora fosse já Setembro. Bebemos uns gins e circulamos sem dançar. Está quente e muito fumo. Ela detesta ambientes cheios de fumo! O cheiro agarra-se aos cabelos e não sai com o ar fresco!

Decidimo-nos pelo Dreamers e vamos todos em grupo. Pergunta-me se vale a pena levar a carteira. Digo-lhe que não. Não há necessidade e escusamos de estar na fila do bengaleiro no fim.

Cumprimento o Ranhadas e peço depois um whisky da minha garrafa, a número 8, o Rui tem a número 7. As raparigas ficam pelos vodca laranja mas ela não bebe álcool e fica-se por um sumo de laranja.

Matt Bianco - More Than I Can Bear

A companhia é tão boa que a noite prolonga-se. A pouco e pouco todos os amigos vão saindo e ficamos os dois, a sós, no meio da multidão. Estamos os dois no varadim, à esquerda da pista, a ver os que resistem na pista de dança e que ainda são muitos. Matt Bianco canta ‘’More Than I Can Bear’’ Digo-lhe que vou num instante à casa de banho. No bolso levo o dinheiro e a senha das bebidas.

Passam-se 10 minutos, meia hora. E eu não volto.

Preocupada pede a um rapaz que entre na casa de banho e veja se eu estou bem.

Não está ninguém!

Percorre toda a discoteca entre surpreendida e zangada mas não me encontra. Volta à entrada e pergunta por mim.

- Já saiu, há uma boa meia hora! – diz-lhe o Jorge que estava de serviço à porta.

Fica então furiosa. Boa! Como vai agora sair sem dinheiro e sem a senha das bebidas? Sem carteira e sem transporte?!

O que vale é que a casa é perto e os porteiros, o Jorge e o Zeca, são amigos. Explica-lhe a situação e o Jorge sorri-lhe. A conta já está paga, pode sair à vontade!



Conta-me depois que saiu disparada em passada larga em direcção a casa. Olha se morasse nas Caldas?! Nem quer pensar. Conta-me ainda que os primeiros engraçadinhos que pararam para se meterem com ela levaram com o maior chorrilho de asneiras que alguma vez disse e que não voltou a utilizar.

O que é que me tinha dado!

No dia seguinte acordo cedo, de cabeça um pouco pesada mas bem disposto. Faço uma visita à praça e perto da hora de almoço telefono-lhe para o fixo, ainda estavam longe os telemóveis!

- Mas que lata a tua!!! Que bicho te deu? És parvo ou quê? Como é que tu me deixas sozinha na discoteca? E com a conta por pagar! Onde está a minha carteira?

Fico completamente surpreso, só me lembro da noite até à altura em que fui à casa de banho. Depois é um vazio. Meu Deus! Entrei de novo em piloto automático! Há quantos anos isso não me acontecia. Lembrei-me daquela vez no Frágil com o João Pedro.

Voei para a Foz, enchi-me de mil desculpas, expliquei-lhe o que acontecera. Intercedi por mim e jurei que não deixaria que aquilo me voltasse a acontecer! Jurei, jurei e pedi desculpas até que ela acreditou em mim.

No sábado seguinte saímos de novo e enquanto eu ia no carro a subir para o Green Hill disse-lhe que um dia me casaria com ela. Ela riu-se, ainda nem sequer namorávamos! Eu nunca dissera isso antes a uma mulher, nem sequer o pensara, mas também nunca tivera uma convicção tão forte.

Eu tinha a certeza que aquilo iria acontecer como quando oito anos mais tarde eu lhe disse com a mesma convicção e sem nunca o ter dito ou tentado antes, que iria deixar de fumar naquele mesmo momento, com um SG Gigante nos dedos e 19 cigarros no maço! Até hoje!

Simply Red- The Right Thing

Entrámos no Green Hill, cumprimentámos o Sr. Beja na entrada e dançámos ao som dos Simply Red ‘’The Right Thing’’.

Nessa mesma noite, em casa da Célia Vibaldo, ouvíamos Cock Robin ‘’The Promise You Made’’, mais uma das músicas que me lembrarei para sempre e que ficaram como sendo uma das ‘’nossas músicas’’, músicas que não escolheramos mas que marcaram os momentos inesquecíveis dessa semana. Pensei então para comigo ‘’ou vai ou racha!’’ e beijei-a.

Naquela noite, vim depois a perceber, terminara a minha adolescência!

Cock Robin - The Promise You Made

Faz hoje exactamente vinte e quatro anos!

Uma nova fase da minha vida começara, mais responsável, menos agitada, mas muito mais gratificante.

Uma vida com grandes alegrias e pequenas tristezas que me fazem muito mais querer prosseguir para o capítulo seguinte do que voltar às memórias de um passado distante. Uma vida a dois, a quatro e depois a seis, com momentos inesquecíveis, sofridos ou felizes que para transcrever com maior exactidão teria de recorrer não a crónicas mas a poemas!


Aos meus filhos

para saberem como fui
para saberem como foi


FIM



Fleetwood Mac - Sarah

Jefferson Airplane - Sarah