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terça-feira, 10 de agosto de 2010

CAÇADA NA MATA REAL



A população das Caldas vive hoje de costas para a Mata Rainha D. Leonor e no entanto nem sempre foi assim.

Quando eu era jovem passeava muito com os amigos pela mata e lembro-me de existirem vários pontos de confraternização da população mais idosa. Grupos de reformados juntavam-se assiduamente em bancos de jardim para jogarem à bisca e à sueca e o parque das merendas era todos os fins de semana ocupado por excursionistas ou pelos piqueniques da população local.

Claro que haveriam muito mais pessoas a ir assistir aos jogos do Caldas mas isso só influenciava a frequência um domingo em cada dois e no Verão, durante o defeso, nem havia jogos de futebol.

O momento mais alto do ano era a feira do 15 de Agosto que se organizava nesse tempo justamente na mata.

Recordo-me de entrar pelo portão junto ao Hospital (por trás da monumental obra Jardim da Água de Ferreira da Silva que muitos teimam em não conhecer) ou pelo que fica junto ao Palácio Real, por trás da igreja de Nossa Senhora do Pópulo. E as veredas que se iniciam nesses portões logo eram ladeadas pelas barracas dos feirantes que se estendiam até à alameda principal junto ao campo de futebol.

A mata nesses dias estava polvilhada de pessoas com um movimento só igualado pela Feira da Fruta que se realizaria mais tarde no Parque D. Carlos I.

Eu avançava pela mão dos meus pais ou avós e mais tarde na companhia de amigos, olhando deslumbrado a diversidade de brinquedos quase artesanais que eram colocados à venda: os jogos do Loto e do antepassado do Sabichão, os aviões, barcos, locomotivas, carros e motas de todos os géneros em latão, uns de empurrar e outros de corda, os brinquedos de madeira articulados, alguns munidos de rodinhas e com um varão para empurrar, os móveis e objectos de cozinhas e os piões grandes em latão com múltiplas cores e que se punham a rodopiar premindo um eixo/veio central, as espingardas que disparavam dardos com ventosas, as pistolas com fitinhas de fulminantes que assustavam os idosos e sobretudo as bolas de serraduras cobertas de prata colorida e presas por um elástico, os ioiô daqueles tempos!

Ao cimo da mata desembocava-se no campo de futebol, em terra branca, agora transformado em parque de diversões e aqui poderíamo-nos perder por horas.

Não faltavam as barraquinhas de tiro ao alvo para ganhar uma ginjinha (no nosso caso um pirolito!), os jogos da bola escondida entre 3 caixas, as barracas de algodão doce e de farturas e as tascas improvisadas para comermos os frangos ou sardinhas assadas.

O enorme chapiteau do circo (Mariano, Cardinalli, Americano) era a estrela principal, apresentando o célebre palhaço Quinito, o mais famoso de Portugal (que eu viria a conhecer mais tarde através do seu irmão Zeca)!

Mas em seu redor erguiam-se outras estruturas de nos pôr a boca aberta de admiração. O labirinto de espelhos que nos desfiguravam o reflexo, as barracas com tiro ao alvo com bolas de ténis para acertarmos numas latas empilhadas, os diversos carrosséis, os carrinhos de choque, o peso que se elevava com a força da martelada que lhe dávamos e que se atingisse um determinado nível fazia tocar uma campainha e ganhávamos um prémio, a tenda que apresentava a mulher barbuda e a mulher-sereia (com um soutien de armação reforçada!), a tenda com o Gigante de Moçambique ou de Manjacaze com 2,45 metros de altura (eles falavam em 3,5 metros!) e com o anão Toninho de Arcozelo e ainda o espantoso Poço da Morte cujos motociclistas desafiavam a gravidade e a vida cruzando-se vezes sem conta a alta velocidade nas paredes de um poço de madeira!

Íamos para a mata logo que a feira começava e só saíamos quando era hora de jantar. Depois voltávamos de novo para a ‘’sessão’’ da noite!

Procurámos sempre desfrutar do melhor que a mata nos dava e isso significava, ao longo da adolescência, a prática de actividades desportivas e outras… também desportivas!

Mas a mata era também sinónimo de aventura (pois, para a prática desportiva também era uma aventura!) e serviu para pregar inúmeras partidas aos amigos que desconheciam os hábitos e a fauna caldense.

Um desses amigos foi um inolvidável holandês amigo e repetidamente hóspede de férias da família Calisto, o nosso inesquecível Martin, companheiro de aventuras e fotógrafo amador das corridas de touros protagonizadas por alguns dos membros da gangue! O bom do Martin queria à viva força entrosar-se com o nosso grupo de amigos (o que aliás conseguiu rapidamente graças à sua simpatia e fair-play) e revelava-se sempre pronto para participar nas nossas brincadeiras, mesmo que ele fosse a vítima escolhida.

Ora os primos Pedro Calisto e Miguel Calisto Pereira Monteiro, anfitriões do Martin, decidiram um dia informá-lo que existia uma espécie rara e endógena de animais a habitar a mata real, uma colónia de animais tão escassa quanto esquiva, sendo muito difícil caça-los, nomeadamente à noite, quando saiam das suas tocas para caçar.

De uma forma vaga foram dizendo que se tratava de um mamífero roedor arraçado de pássaro.

E que se chamavam gambuzinos!

Claro que o Martin não descansou enquanto não fossemos com ele à mata ver e mesmo caçar os tão famosos gambuzinos.

Então numa noite, reunimo-nos na grande casa dos avós Calisto na Rua dos Bombeiros, um enorme grupo composto por todos os Calistos e ramificações (Pedro, Miguel, provavelmente já o Gonçalo, o Asdrubal e talvez o Jorge, os Titos ou seja o Chico, o Tony e o João), eu, o Diogo Sampaio Guimarães, o João Moreira, o Luis Castelo Branco, talvez o Luis Castro, o Ricardo Ramos, talvez o Kiko Pessoa e Costa, o Pedro Cardoso, o João Gancho, o Helder Vasconcelos ‘’o Peliculas’’, talvez o Tomix, e ainda alguns outros (olhando agora à distância vejo que entre forcados dos grupos das Caldas, Montemor e Vila Franca tinhamos o suficiente para pegar de caras um gambuzino de meia tonelada!), e munidos de alguns sacos de pano, daqueles para ir ao pão, lá fomos nós em direcção à mata.

Para aumentar a aventura decidimos entrar pelo portão mais afastado, ou seja, o que tem acesso pelo Largo João de Deus. O portão estava fechado pelo guarda mas saltámos o muro numa zona mais baixa e lá entrámos em direcção ao parque das merendas.

Ensinámos uma cantilena qualquer ao Martin, tipo ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’ e lá fomos ouvindo-o a cantar e a andar completamente agachado entre o mato e os arbustos à procura dos célebres gambuzinos!

E nós todos atrás a conter o riso e a levar muito a sério o nosso papel de batedores…de retaguarda!

A partida correu muito melhor do que esperávamos pois encontrámos pirilampos e alguém decidiu dizer ao Martin que eram os olhos dos gambuzinos (a patranha da mistura de mamífero roedor com pássaro tinha agora dado jeito!).


E pronto, podem imaginar o pobre do Martin a correr atrás dos pirilampos, cabelos ao vento e saco bem aberto segurado pelas duas mãos e cantando desalmadamente:

- ‘’Gambuzino p’ra’qui, Gambuzino p’ra lá! Um, dois, três, quatro, Gambuzinos ao saco!’’

Não sei quantos trambolhões, arranhões e contusões lhe valeram a correria perante as nossas gargalhadas mas no final o Martin chegou ao pé de nós, completamente desolado a pedir desculpa por não ter apanhado nenhum gambuzino!

Confortámo-lo o melhor que pudemos e pondo-lhe um braço à volta dos ombros, o Pedro Calisto sossegou-o com aquele vozeirão de forcado.

- Deixa lá! Amanhã também é dia!

E não é que no dia seguinte conseguimos convencê-lo a repetir a dose?!!!!




Feliz Aniversário Pedro. Que possamos disfrutar da nossa amizade por muitos e bons anos.
Como sempre, tens 23 dias para me chamar Puto!


Nota: Por uma feliz coincidência o Martin está neste momento de férias nas Caldas com os seus filhos. Talvez queiras de novo participar numa gloriosa caçadas para recordar os velhos tempos?!


Nos próximos dias publicarei três textos complementares a esta crónica:

- A Caça aos Gambuzinos
- Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?
- O Poço da Morte


Queen - Friends Will Be Friends


PARTIDAS TRADICIONAIS


GAMBUZINOS

Gambuzinos são bichos inexistentes que vivem no campo, em estado mais ou menos selvagem e têm várias utilizações, como pretexto para organizar-se uma caçada; fazer um petisco de gambuzino; pele muito bonita para casacos, etc..

Para organizar uma caçada aos gambuzinos, necessitamos de:

- dois ou mais conspiradores

- uma ou mais vítimas crédulas;

- uma saca de serrapilheira ou equivalente para cada vítima segurar e   latas e paus para cada um dos conspiradores fazerem barulho.

De início, os conspiradores escolhem as vítimas. Depois combinam com as vítimas a data e a hora da caçada. Convem ser no próprio dia e devem alertar que a caça aos gambuzinos é proibida, para que as vítimas não digam nada a alguém que as possam disuadir.

De seguida, levam-se as vítimas para o campo. Aí procuram-se arvores com tocas (buracos no tronco), buracos no solo buracos nas rochas.

A caçada consiste em:

A vítima encosta a boca da saca à toca da árvore e fica a segurar até que o gambuzino salte para dentro da saca e...

Os conspiradores afastam-se para fazerem um cerco maior e fazem barulho batendo com os paus nas latas, para assustarem os gambuzinos e obrigá-los a sairem da toca da árvore para dentro da saca.

A partida consiste nos conspiradores virem embora e deixarem a vítima no local, segurando a saca.



ELECTRICIDADE EM PÓ

É obvio que não existe.

Pede-se à vítima para ir à drogaria mais próxima e trazer uma pequena quantidade de electricidade em pó. É preferível não enviar dinheiro, pois a vítima pode vingar-se ficando com ele.

Se o fulano da drogaria também for conspirador, dirá que acabou a electricidade em pó, mas que na outra drogaria, ou na farmácia, também vendem. Conheço um caso em que a vítima foi a 6 estabelecimentos.


OSSOS DE MINHOCA

Igual à electricidade em pó.



SUOR DE POLÍCIA

Igual à electricidade em pó.



SOMBRA DE OLIVEIRA

Embora esta partida possa parecer igual às anteriores, a verdade é que sombra de oliveira existe na realidade. É um óxido metálico utilizado pelos pintores. Esta partida serve para confundir a vítima.


PEDRA-DAS-SEDAS

Igual à electricidade em pó. Contudo, se o fulano da drogaria também for conspirador, arranjará algumas pedras para a vítima carregar.



FITA DE IMPRESSORA

Quando a fita já está usada, diz-se à vitima que a fita já não imprime porque está suja. Pede-se-lhe então, o favor de a lavar. A água, o sabão e a cera da tinta fazem uma mistura que suja tudo e é difícil de limpar.



CAMPAÍNHAS - I

Basta tocar a campainha da porta da vítima e fugir. Rir é opcional.



CAMPAÍNHAS - II

Repetir a anterior as vezes necessárias. Cuidado com campaínhas III.



CAMPAÍNHAS - III

Se é a nossa campainha que estão a tocar, enche-se um balde com água e sobe-se à varanda. Quando a vítima se aproximar para tocar a campainha, despeja-se a água por cima dela. Não é necessário que seja água. Pode ser qualquer outra coisa. Que saudades do tempo em que havia penicos debaixo da cama...



CAMPAÍNHAS - IV

Espera-se que alguém venha a entrar no prédio e procede-se como na anterior. Se a vítima protestar, põe-se uma cara muito sincera e arrependida e explica-se que durante todos os dias, uns malandros fartaram-se de tocar a campainha.



BATENTES DE PORTA

As portas mais antigas, têm um batente em ferro, para bater à porta. Ata-se uma linha forte à parte móvel do batente. De longe, basta puxar a linha para bater à porta.


Paul Simon & Art Garfunkel - Scarborough Fair












AINDA SE LEMBRAM DO GIGANTE MANJACAZE?

AINDA SE LEMBRAM  DO GIGANTE DE MANJACAZE? 
 2º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''

O GIGANTE DE MANJACAZE




Fonte: Blog AQUI TAILÂNDIA


Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?


Era o Gabriel Estevão Mondlane, media 2,45 metros de altura; infelizmente já morreu em 1990, com apenas 45 anos de idade. Resolvi fazer uma pesquisa na Internet e encontrei várias referências, das quais destaco as seguintes:

1 - Vida do Gigante de Manjacaze em livro O poeta e ficcionista português, Manuel da Silva Ramos, lançou em Maputo o livro "Viagem com um Branco no Bolso", um romance sobre a vida do "Gigante de Manjacaze", Gabriel Estevão Mondlane.

A obra apresenta um outro personagem, o anão português, Toninho de Arcozelo, que contracenava com o gigante nos círculos, feiras e praças públicas. No romance, com 574 páginas, o autor faz uma análise crítica à grande exploração a que o "Gigante de Manjacaze", com cerca de 2,5 metros, foi submetido no período colonial por empresários e promotores de espectáculo da época.

O nome do anão Toninho de Arcozelo, o então homem mais curto do mundo, com 75 cm de altura, associa-se a Gabriel Mondlane pelo facto de ambos aparecerem juntos muitas vezes, no mesmo palco, como forma de evidenciar a diferença entre ambos.

O autor do livro nasceu a 13 de Setembro de 1947 na Covilhã, esteve exilado durante 17 anos na França, regressou a Portugal em 1997 e é tido como um escritor polémico e pessimista. (Notícias, 26/01/01)

2 - Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (Moçambique), foi notícia em Banguecoque em Agosto de 1989

Os jornais e a televisão falaram dele. A sua imagem junto da esposa Maria saiu nas páginas de todos os jornais, editados, na capital tailandesa. Motivo da visita: A inauguração da abertura primeiro supermercado "Makro". Gabriel estava designado como o homem mais alto no mundo no "Livro de Recordes Guinness".

Conhecíamos a história do Gabriel de quando começou a crescer, desmesuradamente, depois de ter dado uma queda, na sua aldeia, em Manjacaze, no sul de Moçambique.Perante tal fenómeno de crescimento o Gabriel, embora o não apoquentem dores, foi internado num hospital de Lourenço Marques (Maputo) para ser observado pelos médicos. De um jovem com altura normal, cresceu, cresceu e foi até à craveira de 2,42. Os médicos (segundo os jornais de Moçambique) nunca explicaram o motivo da razão do Gabriel crescer descomunalmente e o rapaz foi enviado de volta às orígens.

O Gabriel, passava os dias sentado à sombra de um cajueiro, ao redor de sua casa, a sua altura desmedida não lhe dá a oportunidade para se juntar à sua família e trabalhar na "machamba" (pequena propriedade agrícola em Moçambique). Passa a ser um Gabriel amargurado, a maldizer o crescimento e um pesadelo para a família alimentá-lo, que comia por quatro pessoas de média estatura.

Devido à publicidade dada ao caso de sua altura houve alguém se interessou em fazer dinheiro com o tamanho do Gabriel.

Começa, então o drama de um homem alto pelos anos de 1965!

Eu vivia na cidade da Beira na altura e conhecia, pelos jornais, a história do crescimento do Gabriel.

Dois homens, expeditos, residentes na capital de Manica e Sofala andavam por alí a ganhar a vida ao sabor das marés. Todo os peixes que as ondas traziam à costa lhes servia.

Um de nome pomposo o Dr. Rakar, homem para todas ocasiões. Pintor à espátula, advinho com consultório montado e viria a dar aso a confusões e divórcios, entre maridos e mulheres na Beira. Entretanto foi-lhe apontado o "dedo" pelos jornalistas de tentar o aliciamento sexual, durante as consultas, às senhoras que o visitavam para que advinhasse qual era a "dama" que lhes estava a roubar o marido.

Outro de nome Prof. Belito, artista circense, ilusionista que andava por ali a montar a barraca nos arredores da Beira a mostrar, um truque, a cabeça de um preto em cima de uma mesa, que falava e comia bananas. Lá ía governando a vida, muito mal e com os dez tostões do custo dos bilhetes de entrada.

Os dois deslocaram-se a Manjacaze e trazem o Gabriel para a Beira, encomendaram uma "fatiota" por encomenda; uns sapatos para uns pés de 50 centimetros. Adquirem uma aparelhagem sonora de 100 watts cujo som, berrado, chegava a 10 quilómetros de distância. O Gabriel é enfiado numa barraca feita de pano de toldo, em locais da Beira e arredores, há bichas de pessoas para verem de perto o Gabriel.

O negócio foi correndo para o Razak e o Belito. Percorreu numa caixa de camião, aspirando o pó da picada, para outras terras de Moçambique.

Os moçambicanos e os "muzungos" (nome que os nativos davam aos portugueses de pele branca), depois de conhecer o Gabriel ao vivo não o pretendem ver mais.

O negócio começou a não ser rentável para os empresários Razak e o Belito.

Eles eram homens de imaginação e não se deram por vencidos.

Mandar o Gabriel de volta a Manjacaze, com a "fatiota", os sapatos e cotão no bolso em vez de umas notas em dinheiro, não era nada relevante para os seus protectores.

Se o Razak o Belito o pensaram melhor o fizeram!

Porque não ir mostrar o Gabriel de Manjacaze aos angolanos? Claro que sim e a ideia era genial! Fazer ver aos angolanos: Embora vocês tenham "pacaças" no mato, que Moçambique não tem, nós temos o homem mais alto do mundo e a dança do rabo de cadeira a "Marrabenta" !

Ajustam com a TAP, na Beira, o preço e o espaço da cadeira para transportar o Gabriel no "Super Constelation" para Luanda. O Gigante de Manjacaze, aterra na capital angolana, metido num espaço apropriado para a sua medida. Os jornais dão o "lamiré" e começa, como em Moçambique a ser exibido numa barraca.

O negócio foi correndo ao Razak, ao Belito e aos seus agentes.

Bem depois de ser visto e revisto e a figura do gigante deixar de ter interesse foi abandonada em Angola.Passou por lá misérias, os jornais de Moçambique deram conta do estado de vida degradado do Gabriel em Angola e regressa a Moçambique à estaca zero.

Porém, o Gabriel, aquele rapaz humilde já habituado aos ambientes do público, de ser admirado pelas crianças dentro de uma "barraca", começou a sentir-se (apesar de grande) "pequeno" em Manjacaze.

Nova fase de vida principia para o Gabriel, mas agora, com alguma dignidade.

Um empresário, circense, contrata-o e leva-o para Portugal.Corre Portugal de lés-a-lés, acomodado numa caravana (o próprio Gabriel me informou), onde dentro havia qualidade de vida e na hora que lhe estava destinada a exibir-se perante o público.

O "Gigante de Manjacaze" não foi explorado e amealhava uns "dinheiros".

Entre os caminhos "circenses" do Gabriel, uma mulher de 1,54 ( cuja altura dava-lhe pela cintura) de nome Maria, apaixonou-se por um homem de tamanha altura e 150 quilos de peso.

Maria começou acompanhar o marido, gigante, por todo Portugal e teve um filho. Um rapaz "mulato" que teria uns 10 ou 11 anos de quando estiveram em Banguecoque e me mostraram a foto do rapaz.

Maria está ao lado de Gabriel, adquiriram uma cave nos arredores de Lisboa e fazem uma vida de um casal normal.

A altura do Gabriel Monjane chegou ao livro "dos recordes Guiness" e está lançado no mundo como o homem mais alto do globo. Das picadas de Moçambique e de Angola, da tenda de lona o "Gigante de Manjacaze", começa a ser solicitado para publicidade e ser apresentado ao mundo.

Foi por este motivo que a empresa multinacional "Makro" convidou o Gabriel, o inglês Cris Greener, de 2,28 e outros homens, tailandeses (como anões junto do Gabriel e o Cris Green), para estarem, presentes, na abertura da primeira grande superfície na "Cidade dos Anjos".

Milhares de pessoas correram ao parque "Happy Land" para admirarem o "Gigante de Manjacaze", que embora nascido em Moçambique, dizia que era português!

Serviu de interprete entre o Gabriel e os jornalistas, a Esperança Rodrigues (ela e eu somos os portugueses mais antigos residentes na Tailândia), que traduzia as palavras do Gabriel em português para a língua tailandesa.

O Gabriel, meu amigo, partiu de Banguecoque, como um herói.

Passado uns poucos anos, uma delegação, moçambicana, que acompanhou o Primeiro Ministro Mário da Graça Machungo, em visita oficial à Tailândia, depois de lhes falar na história do Gabriel em Banguecoque, de volta recebi a triste notícia: " O Gabriel ao entrar na cave onde residia, escorregou, caiu e morreu". Fiquei triste por eu tinha lidado de perto com o Gabriel em Banguecoque e tínhamos ficado amigos.


O GABRIEL EM BANGUECOQUE

No dia 1 de Agosto de 1989 era um dia igual a muitos outros anteriores. Saí de casa para a Embaixada de Portugal, às seis da manhã, comprei o jornal e fui lê-lo para uma esplanada, junto ao rio Chao Praiá, onde todas as manhãs se sentavam à minha mesa uns "amigos e amigas", cáusticos: o Zebreu, judeu com uma lapidaria de pedras preciosa; o Miko, canadiano e fotógrafo para uma agência de publicidade, a Porno estudante universitária de economia e a Plá, secretária do gerente da Sony (Thailand). Não se discutia futebol, nem política mas "coisas" alegres e antes de começarmos um novo dia de trabalho.

Na primeira página do "Bangkok Post" estava inserida a foto do Gabriel Monjane e hospedado no "Montien Hotel", a uns dois quilómetros onde me quedava. Não fazia a mínima ideia aonde o Gabriel parava se em Moçambique ou noutro país. Ora eu conhecia a história, infeliz, do começo da sua carreira e da tragédia que tinha sido envolvido. Tinham passado (mais ou menos) 11 anos que lhe tinha perdido o rasto de sua vida. Às dez da manhã dei uma "saltada" ao "Hotel Montien" e oferecer-lhe os meus préstimos em Banguecoque. Da recepção do hotel telefonei para o quarto (cinco estrelas) e fui atendido pela D. Maria, sua esposa. Fomos breves na apresentação e subi no elevador.

Naquela manhã eu era para o Gabriel o seu anjo da guarda e comer um pequeno-almoço decente e não as torradas, com manteiga, marmelada e o sumo de laranja. O Gabriel desejava um bom prato de sopa de arroz com uns pedaços de carne e nunca as comidas "hoteleiras" que lhe tinham levado ao quarto. A D. Maria e o Gabriel não falavam, palavra que fosse, da língua inglesa e quando pediam, aos criados, sopa de arroz em português, sorriam-se e voltavam-lhe as costas.

Os pequenos-almoços do Gabriel desde logo ficaram resolvidos e não tardou um criado entrar no quarto puxando um "carrinho" com uma terrina de sopa, bem cheirosa, para um pequeno almoço decente e digno para um homem de 2,42 (dois metros e 42 centímetros).

Todos os dias, ao fim da tarde, durante a permanência do "Gigante de Manjacaze" em Banguecoque estava junto a ele. Sentava-se num banco especial, no "lobby" do hotel, junto ao cartaz que anunciava os eventos de sábado e domingo. O "lobby" do hotel passou a ser um centro de romaria. Os jornais, em língua inglesa e tailandesa, tinham dado cariz à presença do Gabriel em Banguecoque e todos querem apreciar a sua altura e tirar foto com ele. No princípio de uma noite teve duas visitas, especiais, de duas princesas reais: Soamsawali e filha Bajrakitiyabha que lhe foram fazer uma visita, particular, ao "Montien Hotel" cumprimentaram-no e tiraram fotos juntos.

Ofereci uma "boleia", no meu Volvo 244, já um carro bem "coçado", ao Gabriel para lhe mostrar Banguecoque à noite, as luzes de neon e todo aquele movimento nocturno. O carro era espaçoso e estudei a melhor forma de o transportar. Retirei-lhe o assento da frente, o Gabriel sentou-se no banco de trás, dobrou os joelhos e apreciou Banguecoque e não só atravessei a grande ponte, Rei Rama IX, e olhou a cidade lá do alto.Ao Gabriel, meu amigo, desejamos que esteja no céu, porque um homem simples e bom, igual a ele não tem lugar no purgatório, nem no inferno.

O Inferno já o tinha experimentado na vida terrena.

"Kanimambo" Gabriel Monjane



José Martins - 17 de Maio de 2007