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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

EM JEITO DE CRÓNICA - PASSAGEM DE TESTEMUNHO


Por vezes perguntam-me se todas as minhas estórias são verdadeiras, eu respondo que sim, que faço absoluta questão nesse ponto. É essa condição que me torna aliciante este tipo de escrita em contraponto às escritas ficcionais.

Mas é também um factor extremamente limitativo, estou condicionado pela veracidade dos factos, como se não bastasse já as duas outras condicionantes às minhas crónicas, terem uma relação com a minha terra e reportarem a um determinado período de tempo muito específico, dez anos que vão de 1972 a 1982, a data da minha ida para Lisboa.

Farei apenas uma excepção a esta regra, pois os factos relatados são determinante para enquadrar a estória e dar-lhe sentido. Será na crónica com que fecharei este ciclo e terá o título ‘’O Fim da Adolescência’’.

A minha caricatura da autoria de Luis Anglin de Castro (obrigado Luis e Cristina e obrigado Teresa Lamy), que foi colocada à entrada do Sitio da Várzea na festa de sábado e foi uma boa partida que me foi pregada pela minha irmã Xinha e por alguns amigos queridos trouxe-me à memória uma outra caricatura, essa já com quarenta e quatro anos!

Em meados dos anos sessenta, nas longas noites de Verão, os meus pais frequentavam o Casino das Caldas e isso fazia com que eu por vezes tivesse que apanhar valentes secas a aguardar que acabasse o serão para poder regressar a casa. Um dia já desesperado de sono, gatinhei para baixo de uma mesa de jogo da canasta onde jogavam a minha mãe, a minha avó materna, a D.Laurinda Cardoso e a D. Maria da Natividade (avó do João e da Kika Gancho, do Pedro e da Ritinha Bernardo, do Miguel e do Ricardo Hipólito, entre outros netos) e decidi dar uma mordidela no tornozelo da minha mãe para lhe fazer ver que a minha birra era mesmo para levar a sério.

Não sei como aconteceu mas enganei-me na canela e acabei a morder o tornozelo da D. Maria da Natividade.

Um dos mais queridos e renomados artistas caldenses, o Dr. Leonel Cardoso antecipou o que iria acontecer na minha vida de peripécias. E arriscou editando uma caricatura e um poema a mim dedicados numa edição da Gazeta das Caldas onde durante tantos e tantos anos publicou semanalmente e desta forma humorística, uma dedicatória às mais ilustres personalidades caldenses.

Ficou assim para a posteridade e duma forma quase surpreendente, um retrato de um miúdo, praticamente anónimo, face à enorme notoriedade dos outros retratados.

Como poderão ler nos seus versos, já naquela altura, com dois ou três anos, eu não seria uma pêra doce, ao ponto de merecer um reparo no principal órgão de comunicação caldense!

E depois verifico que no blog dos Antigos Alunos do Colégio Ramalho Ortigão é dado grande ênfase a um Magusto efectuado em 1971 como momento alto de convívio entre os alunos do Colégio. E lá apareço eu, à socapa e como quem não quer a coisa, em três fotografias. Recordo-me que foi nesse Magusto realizado num casal entre a zona do Casal Belver e a Quinta da Boneca que provei pela primeira vez àgua-pé. Tinha sete anos!

Vocês viram o filme Forrest Gump com o Tom Hanks? Pois!

Falando agora a sério, na realidade eu não vivi mais estórias do que qualquer um de vós. Eu apenas as valorizo e faço delas uma elegia à vida e à amizade! Pensem nisso!

Voltando à crónica ‘’O Fim da Adolescência’’ esta será editada em três pequenas partes nos dias 10, 12 e 14 de Setembro e concluirá, como referi, o fim deste ciclo de crónicas.

Não que não haja mais estórias para contar, desde a estória da Biblioteca Gulbenkian do parque e de uma carrinha da biblioteca itinerante que acabou como nosso principal ponto de namoro à porta de uma conhecida discoteca; às estórias do segundo andar do Diogo Sampaio Guimarães; ao segundo sótão do Kiko e ao relato das passagens pelas Caldas da conhecida actriz Alexandra Lencastre e da cantora Ana Deus (ex. Ban, ex. Três Tristes Tigres); do inicio da prática de Baseball e do Windsurf nas praias da Foz e ao dia em que nos idos de 1977 mulheres nuas desfilaram pelas Ruas das Montras; até aquele dia em que um famoso actor de telenovela brasileira dos tempos do Bem Amado e de Dancin Days, me sai pela porta da casa de banho lá de casa, ainda molhado por um duche acabado de tomar, perante a estupefacção de toda a minha família que não conhecia o homem senão da televisão, nem sabia como é que raio ele teria entrado lá em casa!

São outras estórias mirabolantes que ficarão para outra altura!

Agora é tempo de descansar, de um ritmo constante e quase diário da escrita, de ter mais disponibilidade para a família, de no pouco tempo livre viver mais tempo para o presente do que para recordar o passado.

Mais tarde voltarei com mais um novo ciclo de crónicas mas sem a exigência a que me auto-impus de editar crónicas ao ritmo necessário para manter o vosso interesse neste espaço. Vejam isto como as temporadas das séries americanas. Agora vai acabar a primeira temporada e mais tarde, se houver audiência que o justifique, será transmitida a segunda temporada.

Logo no inicio da criação deste grupo fiz um apelo para a participação de todos. Como referi então, eu não participei em todas as vivências, não tenho todas as memórias. Não posso recordar locais, pessoas e factos que não conheci mas que existiram. Nem tão pouco quero relatar factos de que ouvi falar ou de que me falam mas que não vivi.

As minhas memórias são apenas uma fracção de como se vivia naquele tempo. Insuficientes contudo para gerar um retrato completo daquela geração. Compete a vós ir completando a estória e escrever a História.

Já somos mais de 600! Se todos escreverem um único texto, derem testemunho de apenas um facto, lembrarem uma só pessoa que mereça ser recordada, então poderemos manter este grupo por mais dez anos.

Agora passo esse testemunho, não a outro mas a todos vós. Bastará uma estória por semana, façam uma a cada 10 anos, e o grupo e o que ele representa, não morrerá! O movimento de reunião, de aglutinação, de pacificação, de compreensão, que encetámos aqui, não pode parar. Vocês sabem disso!

Eu não peço muito, todos têm certamente estórias engraçadas para contar, amigos para recordar. Não é importante que escrevam bem ou que não dêem erros. O que importa é o conteúdo, não a forma. O importante é não deixarem este espaço morrer. Seria uma pena!

Pensem na nossa Festa, quase 900 amigos em celebração, pensem em todas aquelas emoções que sentimos durante aquela noite. Quando falei em ser uma noite mágica pensei na magia que estaria no ar e que a maior parte de nós iria apanhar. Para alguns foi apenas mais uma noite, talvez tenham já perdido um pouco da sua inocência, talvez precisem de voltar a ser Peter Pan, lembrarem-se da genuinidade dos seus afectos em criança e na juventude. Talvez tenham deixado que a vida adulta lhes tenha tirado por ora a magia. Mas ela vai voltar, certamente e através da convivência neste espaço.

Se tudo correr bem, se o grupo começar a interagir e houver maior participação então este espaço sobreviverá facilmente à ausência das minhas crónicas e se viermos a constatar que este espaço realmente nos importa, então ainda voltarei a tempo com um novo ciclo de crónicas e quem sabe, poderemos vir a ter uma festa ainda maior no próximo ano. Ideias não me faltam! Eu prometo!



Quero agradecer sobretudo à Cláudia Tonelo, ao Albano, à Élia, à Sissi, ao João Paulo Feliciano, à Luisa Pires, ao António Vidigal, à Lena Mendes, ao Nuno Aniceto (Parrila), à Maria João Menino, ao Tó Castro, ao Paulo Arnaldo e a todos os que têm colaborado activamente neste espaço.

Obrigado a todos por terem estado comigo nesta aventura.


No sábado houve magia no ar e ela foi criada por todos nós que partilhámos aquele momento!


Paulo Caiado



Onde quer que nos encontremos,
são os nossos amigos
que constituem o nosso mundo.


William James






LEONEL CARDOSO



Leonel de Parma Cardoso

Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, nasceu a 9 de Setembro de 1898, em Caldas da Rainha. Durante quase toda a sua vida, marcada pela longevidade, exerceu fecunda e heterogénea actividade artística, que se desenvolveu em duas vertentes principais letras e artes plásticas. O seu primeiro contacto com o público data de Setembro de 1917 numa exposição de Caricaturas nas Caldas da Rainha a que se seguirão muitas outras individuais e colectivas. E de salientar o seu poder imaginativo que se revela através da criação de numerosas figuras de Cerâmica que reflectem a influência do meio em que nasceu. O Humorismo é uma constante na sua obra expressa sobretudo na caricatura.

…

Não, isto não basta!

Terei que dizer que o Dr. Leonel Cardoso e a sua esposa D. Laurinda eram dos maiores amigos dos meus avôs maternos e foram sempre extremamente afectuosos comigo.

E que esse carinho continuou através dos seus filhos e respectivos cônjuges, o Almirante Leonel Cardoso e a minha querida Dôdô que sempre me telefona pelos anos e que mesmo quando vivia em Londres não se esquecia de me trazer os meus gatinhos e carrinhos de chocolate, o seu filho Néné que me ensinou também a jogar ténis e o General Pedro Cardoso e a Teresinha de quem nunca vi sem um sorriso nos lábios, o que aliás o seu filho, o nosso querido e saudoso Pedro herdou, a Zitinha e o Jorge Sottomayor, o mais bonito par do casino e o seu filho Luis Miguel (Gé-Gé para os amigos), um grande amigo e um dos meus primeiros professores de ténis.

Uma família atingida por constantes infortúnios mas sempre mantendo um sorriso nos lábios para receber e confortar os amigos. Uma família, um nome, que honra o país, as Caldas e a nós seus amigos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

BALADA PARA ANA



Não me recordo já em que momento nos conhecemos mas lembro-me de ti como a minha melhor amiga na primeira classe do Colégio.

Provavelmente conhecemo-nos naquele dia do inicio de Outubro de 1969 quando chegámos ao Colégio para o primeiro dia de aulas.

Recordo-me desse dia como se fosse hoje. Agarrado às saias da minha mãe, pela última vez chorando de medo e a D. Esperança a dizer:

- Então? Um rapazinho dessa idade a chorar?! Nunca vi nada assim! Já são todos uns homenzinhos!

E a levar-me gentilmente para a minha carteira enquanto a minha mãe, escondendo a preocupação, se despedia com um sorriso.

Para trás ficavam os anos do jardim-escola da Misericórdia no Bairro da Ponte, ao lado do terreiro onde às segundas-feiras se realizava a feira semanal, onde vacas e burros eram vendidos com as galinhas, batatas e vergas.

Para trás iria ficar o sorriso acolhedor da Isabel, a ternura da Alicinha e as brincadeiras da Filomena e da Gracinha Jordão.

Começava a Primária!

Lembro-me como desde logo as nossas diabruras no corredor nos levavam ao gabinete do Padre Albino cuja tumefacção proeminente na testa nos assustava inicialmente e divertia depois.

Lembro-me de te atirar caramelos Vaquinha do outro lado do bar passando por cima da D. Luisa.

(Lembras-te que os bares eram separados para os rapazes e raparigas cada um tendo o seu acesso pelo respectivo recreio?)

O famoso bar onde nas tardes de Verão comíamos os célebres gelados feitos com refresco Dawa, Alsa ou Royal em cuvetes e que levavam um palito espetado e onde a D. Luisa nos servia ao almoço os famosos ovos estrelados de codorniz!

Nessa primeira classe ainda conseguimos guardar reminiscências desses tempos. À tarde com a D. Dora, no intervalo grande ou à saída antes de entrarmos no autocarro, enfim , em todos os locais onde nos pudéssemos juntar, rapazes e raparigas, na verdade meninos e meninas ainda, fazíamos uma grande roda e entoávamos as cantigas do jardim-escola. E lá cantávamos o Ai ai ai minha machadinha e o Que linda falua… afinal a nossa infância não podia acabar por decreto!

O ano foi passando e éramos cada vez mais amigos até que me deste noticia que irias voltar para África (S. Tomé? Angola?)

Eu então ganhei talento e coragem, alento e descaramento, e escrevi-te cartas contando o que se passava no colégio enquanto tu permanecias no meio da selva. As minhas primeiras cartas de amor ! Aos sete anos, imagina!

(Depois a Kika Gancho recebeu outras em Lourenço Marques mais tarde! Digo isto porque se não a Kika vai já fazer o respectivo comentário!!!LOL!)

Quando voltaste ao colégio trazias contigo o teu primo Nuno e para casa um enorme pastor alemão militar, o Pilão!

O Nuno estava gravemente doente e entre ambos repartimos a sua protecção e companhia. Que saudades eu tenho do Nuno! Com ele senti pela primeira vez a perda de um amigo!

Nós continuávamos nas nossas maluqueiras, contigo a saltar diariamente as vedações que separavam os dois recreios ou a encontrar-nos em zona neutra, entre as duas vedações junto à porta nobre do ginásio!

Desta vez era o Padre Xico que nos aturava e lá íamos ao seu gabinete enfrentar desta vez o seu sorriso tolerante. E como nós gostávamos do Padre Xico! Lembras-te de nós a fingirmos que éramos muito úteis a ajudá-lo na construção do seu barco nas traseiras do colégio? Naquela garagem ao lado do acesso às caves onde o Sr. Luis criava as codornizes?

Perdeste o famoso Magusto de 1971, onde pela primeira vez bebi à socapa um gole de água-pé, apareço ainda em algumas fotos com um ar muito santinho a pilar uma castanha. Logo depois escrevi-te uma carta a contar as peripécias!

As aulas de ginástica, tu com a D. Rosa e eu com o Prof. Silva Bastos e mais tarde com o Prof. Berjano eram mais um pretexto para nos metermos um com o outro. Lembras-te de nós de sapatilhas brancas e t-shirts brancas com uma faixa no peito com o nosso nome a preto?

Quando não eram nessas aulas, era na sala da D. Esperança que suspirava de resignação, mesmo quando íamos buscar o esqueleto que estava guardado na arrecadação em frente e colocávamo-lo na sala com um chapéu de feltro na cabeça.

Nas aulas da tarde e ainda antes de passarmos para a sala da D. Dora (aquela por baixo do telheiro do recreio dos rapazes, saindo para a rua à direita e cuja porta de vidro foi um dia trespassada pelo Frederico Granja!) fazíamos jogos de aprendizagem no quadro de ardósia, bem pertinho da Mariazinha, a régua alva e grossa (que só experimentei por uma vez porque um dia fui indelicado o suficiente para desafiar a D. Esperança a dar-me umas reguadas para ver se doía!) e nesses jogos desenhávamos a forca com palavras escondidas em tracinhos que determinavam o número de letras, e cada vez que falhávamos as letras desenhávamos um componente do homem enforcado. Lembras-te como eu sempre escrevia palavras que eram mensagens para ti ou tinham a ver com algo entre nós? Um segredo, uma brincadeira?

Depois arriscávamos as aulas de Canto-Coral com o Padre Renato a ver quem desafinava mais até que ele nos mandava para o recreio e nós ficávamos enfim juntos a brincar enquanto decorriam as aulas.

Saíamos do colégio e antes de embarcar no autocarro dos Claras que nos levava de regresso a casa, dizíamos adeus ao Sr. Luis e ao Sr. António que estavam diante da sua pequena casa à entrada, não sem antes irmos dar pão aos peixes que nadavam no pequeno tanque no fim da rua do colégio ( junto ao portão que dava para o recreio dos rapazes) ou nos sentarmos dentro do BMW 700 da D. Anita Nascimento invariavelmente estacionado junto às escadas da saída, à direita de quem desce. Depois entrávamos na camioneta. A D. Clarisse, irmã da Alicinha do meu jardim-escola, à frente, na primeira fila, a D. Dora atrás do condutor e nós… o mais para trás possível!

Repartíamos os tempos de escola e os tempos livres. E no casino, depois de termos comprado uns fios de couro com um símbolo em metal a uns hippies no parque, formámos com o Pedro e a Kikas Gama, o grupo Paz e Amor, fosse lá o que isso fosse!

Depois crescemos e fomos para o ciclo preparatório mas mantivemo-nos juntos. Um dia os teus pais foram jantar lá a casa e decidiram mostrar aos meus uns slides de África e fomos os dois num pulo a tua casa. Eu adorava a tua casa cheia de artefactos africanos! Tu entraste e não abriste a luz pois sabias de cor onde estavam os slides mas o Pilão sentindo o seu domínio ameaçado atirou-se a mim e ferrou-me uma dentada na barriga que me doeu como o caraças (o sacana do cão no dia seguinte já estava a brincar comigo atrás da igreja (onde jogávamos à bola e com ela partíamos os vidros ao pobre do Sr. Manuel) como se nada fosse!

Tínhamos aulas de Moral e Religião com o padre Zé Maria e eu ficava danado quando vocês todas preferiam aproveitar a sua boleia no seu BMW 2002 cor de vinho do que vir comigo a pé para casa.

Estudávamos juntos no meu quarto, tu, eu e a Luisa e os trabalhos de grupo eram sempre feitos a três!

Festejámos os teus aniversários nas casas das Caldas, de S. Martinho e até na quinta dos Vidais! Fomos de férias juntos para o Algarve, para a praia da Foz e de S. Martinho e até a S. Pedro de Moel. Ia contigo aos torneios da Marinha Grande, Lisboa, Torres Novas e Coimbra.

Mil e uma viagens, aventuras e festas de garagem, de sótão, de salas!

Até a Profissão de Fé fizemos juntos. Eu, tu e a Luisa! E que pândegas foram aquelas aulas de preparação e como se divertiram os nossos amigos a ver-nos naquelas vestes à saída da cerimónia!

(Que penteado e que roupas, meu Deus! Golas altas e bocas de sinos; os anos setenta foram mesmo o cúmulo do mau gosto!)

Temos fotos a acompanhar o desenrolar das nossas vidas, até uma que nos mostra vestidos de hippies no corso carnavalesco e que anda algures por aqui neste espaço, ficou para a posteridade!

Todas as noites aparecia em tua casa e era recebido com a voz da Rosinda na cozinha:

- Pronto, chegou o salta-pocinhas!

E ficávamos longas horas a jogar cames!

Mais tarde, já no liceu, acompanhei ao vivo e a cores a tua belíssima carreira na ginástica e na natação no clube Os Calimeros de que o teu pai foi um dos grandes impulsionadores.

Nas longas noites de inverno ficávamos nós com o Pedro e a Cláudia, com a vigilância eventual da Clarissa, a jogar ao ‘’Verdade ou Consequência’’ e a conversar nas escadas do teu prédio, até serem horas de irmos para casa.

Quando tive o acidente a jogar volei no liceu e tive de permanecer imobilizado na cama por uns tempos e foste tu que me acompanhaste em todos os teus tempos livres, fazendo-me companhia horas a fio! Uma vez amiga, sempre amiga!

Logo algum tempo depois começaste a namorar o Duarte numa relação que deu num lindo casamento até hoje, provavelmente o mais longo da nossa geração! Logo depois nasceu a bela Inês que sempre me faz ver uma versão actualizada de ti!

Nessa altura começaste a ir por mais tempo para o Baleal e eu comecei a idade dos namoros e fui para Lisboa estudar e mais tarde trabalhar para Coimbra de onde voltei praticamente casado. O normal rumo da vida encarregou-se de nos separar e já só espaçadamente nos cruzamos.

A minha vida começou a repartir-se entre Caldas e Lisboa e os filhos vieram enriquecer a minha vida familiar e tomar o meu tempo livre.

Hoje já tens também mais dois filhos e até uma neta mas continuas a Ana que eu conheci há 41 anos. Também a nossa amizade continua a mesma!

Citando Vinicius de Moraes num poema que já aqui postei:

Mesmo que as pessoas mudem
e suas vidas se reorganizem,
os amigos devem ser amigos para sempre,
mesmo que não tenham nada em comum,
somente compartilhar as mesmas recordações.

Pois boas lembranças,
são marcantes
e o que é marcante nunca se esquece!

Uma grande amizade
mesmo com o passar do tempo
é cultivada assim!



Feliz Aniversário Ana



AS NOSSAS CANTIGAS


(primeiros versos)



A saia da Carolina

A saia da Carolina
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem


Alecrim

Alecrim, alecrim aos molhos
Por causa de ti choram os meus olhos
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do monte era o alecrim.


As três galinhas

Três galinhas a cantar
Vão p'ró campo passear.
Uma à frente, é a primeira
Logo as outras, em carreira
Vão assim, a passear,
Os bichinhos procurar!



Atirei o pau ao gato

Atirei o pau ao gato to - to
Mas o gato to-to não morreu
Não morreu eu-eu
Dona Chica ca-ca assustou-se se
Com o berro, com o berro
Que o gato deu - miau.



Balão do João

O balão do João
Sobe, sobe, pelo ar
Está feliz o petiz a cantarolar
Mas o vento a soprar,
Leva o balão pelo ar,
Fica então o João a choramingar.



Barata

A barata diz que tem
Sapatinhos de veludo
É mentira da barata
O pé dela é que é peludo
AH, AH, AH, EH, EH, EH
O pé dela é que é peludo



Bola

Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Foi-se embora fugiu
Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Nunca mais ninguém a viu.



Cabeça, ombros, joelho e pés

Cabeça, ombros, joelho e pés
Joelho e pés, joelho e pés
Cabeça, ombros, joelho e pés
Olhos, ouvidos, boca e nariz



Caminho de Viseu

Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu
Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu
Encontrei o meu amor, ai Jesus que lá vou eu
Ora zus - trus - trus
Ora zás - trás - trás
Ora zus - trus - trus
Ora zás - trás - trás
Ora chega, chega, chega
Ora arreda lá para trás
Ora chega, chega, chega
Ora arreda lá para trás



Capuchinho Vermelho

Pela estrada fora eu vou bem sozinha
Levar estes bolos à minha avózinha.
Ela mora longe e o caminho é deserto
E o lobo mau passeia aqui por perto.



Cavalo

Era uma vez um cavalo
Que vivia num lindo carrocel
Tinha orelhas de burro
E o rabo era feito de papel
A correr chá - lá - lá
A saltar chá - lá - lá
Cavalinho não saía do lugar.



Come a papa, Joana come a papa

Come a papa, Joana come a papa
Come a papa, Joana come a papa
Joana come a papa.
1, 2, 3
Uma colher de cada vez
4, 5, 6
Era uma história de reis
E outra colher de papa.
Come a papa, Joana come a papa



Do rabo fiz navalha

Do rabo fiz navalha
Da navalha fiz sardinha
Da sardinha fiz farinha
Da farinha fiz menina
Da menina fiz uma gaiola
Prum, Pum, Pum
Que eu vou p'ra Angola



Dó-Ré-Mi

Dó - Ré - Mi - a mimi
Mi - Fá - Sol - pelo sol
Fá - Mi - Ré - vai a pé
Mi - Ré - Dó - não tem pópó
Dó - Ré - Mi - eu cozi
Mi - Fá - Sol - um pão mole
Fá - Mi - Ré - p'ro café
Mi - Ré - Dó - da minha avó



Era uma vez um rei

Era uma vez um rei
Com uma grande barriguinha
Comia, comia
E mais fome tinha.



Eu fui ao jardim celeste

Eu fui ao Jardim Celeste,
Giroflé, giroflá.
Eu fui ao Jardim Celeste,
Giroflé, flé, flá.
O que foste lá fazer
Giroflé, giroflá.
O que foste lá fazer
Giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa
Giroflé, giroflá.



Galinhas

Doidas, doidas, andam as galinhas
Para por o ovo lá no buraquinho
Raspam, raspam, raspam
P'ra alisar a terra
Picam, picam, picam
Para fazer o ninho



Josézito, já te tenho dito

Josézito
Já te tenho dito
Que não é bonito
Andares m'enganar
Josézito
Já te tenho dito
Que não é bonito
Andares m'enganar



Machadinha

AH, AH, AH minha machadinha
AH, AH, AH minha machadinha
Quem te pôs a mão sabendo que és minha
Quem te pôs a mão sabendo que és minha
Sabendo que és minha, também eu sou tua
Sabendo que és minha, também eu sou tua
Salta machadinha para o meio da rua
Salta machadinha para o meio da rua
No meio da rua não hei-de eu ficar
No meio da rua não hei-de eu ficar
Hei-de ir à roda escolher o meu par



Na loja do mestre André

Foi na loja do mestre André que eu comprei um pifarito.
Tiro - liro - liro, um pifarito.
Ai - ó - lé, ai - ó - lé, foi na loja do mestre André!
Foi na loja do mestre André que eu comprei um pianinho.
Plim - plim - plim, um pianinho.
Tiro - liro - liro, um pifarito.
Ai - ó - lé, ai - ó - lé, foi na loja do mestre André.
Um Tamborzinho...Tum - tum - tum, um tamborzinho
Plim - plim - plim, um pianinho.
Tiro - liro - liro, um pifarito.



Na quinta do tio Manel

Na quinta do Tio Manel
l-A-l-A-0!
Há patinhos a granel
I-A-I-A-O!
Quá-quá-quá-quá-quá
Na quinta do Tio Manel
I-A-I-A-O!
Há vaquinhas a granel
l-A-l-A-0!
Mu-mu-mu-mu-mu



O balão do João

O balão do João
Sobe, sobe pelo ar.
'stá feliz o petiz.
A cantarolar.
Mas o vento a soprar,
Leva o balão pelo ar.
Fica, então, o João
A choramingar.



O cuco na floresta

Eu ia na floresta e pus-me a escutar
Por trás duma giesta os cucos a cantar
Cu - cu, cu - cu, cu - cu, cu - ru, cu - cu
Cu - cu, cu - cu, cu - cu, cu - ru, cu - cu
A noite estava escura e não havia luar
Ouvia-se lá ao longe os lobos a uivar
Aú - Aú - Aú - Aú - Aú
Aú - Aú - Aú - Aú - Aú



Ó malhão, malhão

Ó malhão, malhão,
que vida é a tua?
Ó malhão, malhão,
que vida é a tua?
Comer e beber, ó terrim, tim, tim,
passear na rua.
Comer e beber, ó terrim, tim, tim,
passear na rua.



O pretinho Barnabé

O pretinho Barnabé, tiro-liro-liro,
O pretinho Barnabé, tiro-liro-lé.
A saltar quebrou um pé, tiro-liro-liro,
A saltar quebrou um pé, tiro-liro-lé.
Salta agora só num pé, tiro-liro-liro,
Salta agora num só pé, tiro-liro-lé.



Ó rama, ó que linda rama

Refrão
Ó rama ó que linda rama
Ó rama da oliveira
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira
Que anda aqui na roda inteira
Aqui em qualquer lugar
Ó rama, ó que linda rama
Ó rama do olival.



Ó Rosa, arredonda a saia

Ó Rosa, arredonda a saia,
Ó Rosa, arredonda-a bem!
Ó Rosa, arredonda a saia,
Olha a roda que ela tem!
Olha a roda qu'ela tem,
Olha a roda qu'ela tinha!
Ó Rosa, arredonda bem
A tua saia redondinha!



Olha a triste viuvinha

Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
Anda a ver se encontra noivo
Para com ela casar!
Já lá leva dois cabaços
Três ou quatro há-de levar!
É bem feito, é bem feito
Não acha com quem casar!



Oliveirinha da serra

Oliveirinha da serra
O vento leva a flor.
Ó -i - ó - ai, só a mim ninguém me leva,
Ó -i - ó - ai, para o pé do meu amor!



Os olhos da Marianita

Os olhos da Marianita
São verdes da cor do limão
Os olhos da Marianita
São verdes da cor do limão
Ai sim, Marianita, ai sim
Ai não, Marianita, ai não
Ai sim, Marianita, ai sim
Ai não, Marianita, ai não
Os olhos da Marianita
São negros cor do carvão
Os olhos da Marianita
São negros cor do carvão



Papagaio louro

Papagaio louro
De bico dourado,
Leva-me esta carta
Ao meu namorado



Pastor

Quando eu era menino
Aprendi de meu pai
A guardar rebanhos
E a cantar trai-lai-lai!
Lai-lai, lai-lai, cantando vai pastor
Lai-lai, lai-lai, cantando pastor vai!



Pastorzinho

Havia um pastorzinho
Que andava a pastorecer
Saiu de casa e pôs-se a cantar:
Dó, ré, mi, fá, fá, fá
Dó, ré, dó, ré, ré, ré
Dó, sol, fá, mi, mi, mi
Dó, ré, mi, fá, fá, fá



Patinhos

Todos os patinhos sabem bem nadar,
Cabeça para baixo
Rabinho para o ar
Quando estão cansados da água
Vão sair, da água vão sair
Depois em grande fila
Para o ninho querem ir
Depois em grande fila,
Para o ninho querem ir.



Pombinhas da Catrina

As pombinhas da Catrina
Andaram de mão em mão
Foram ter à Quinta Nova
Ao pombal de São João
Ao pombal de São João
À Quinta da Roseirinha
Minha mãe mandou-me à fonte
E eu parti a canteirinha



Ponha aqui o seu pézinho

Ponha aqui o seu pézinho
Devagar, devagarinho
Se vai à ribeira grande
Eu tenho uma carta escrita
Para ti cara bonita
Não tenho por quem a mande



Que linda falua

Que linda falua, que lá vem, lá vem
É uma falua que vem de Belém
Vou pedir ao Senhor Banqueiro
Se me deixa passar,
Tenho filhos pequeninos,
Não os posso sustentar.
Passará, não passará,
Se não for a mãe à frente
É o filho lá de trás.



Rosa branca ao peito

Rosa branca ao peito,
a todos está bem.
Rosa branca ao peito,
a todos está bem.
À menina (Rosa), olaré,
melhor que a ninguém
À menina (Rosa), olaré,
melhor que a ninguém
Melhor que a ninguém,
por dentro ou por fora.



Sra. D. Anica

Sra. D. Anica venha abaixo ao seu jardim
Venha ver as lavadeiras a fazer assim - assim
Venha ver as costureiras a fazer assim - assim
Venha ver os jardineiros a fazer assim - assim
Venha ver os sapateiros a fazer assim - assim
Venha ver os carpinteiros a fazer assim - assim
Venha ver o cozinheiro a fazer assim - assim



Tia Anica de Loulé

Tia Anica, tia Anica,
Tia Anica de Loulé,
A quem deixaria ela
A caixinha do rapé?

Refrão

Olé, olá! Esta moda não 'stá má.
Olá, olé! Tia Anica de Loulé.



Tiro - Liro - Liro

Lá em cima está o tiro - liro
Cá em baixo está o tiro - liro - Ió
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó.
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó.



Três pombinhas

Lá vai uma
Lá vão duas
Três pombinhas a voar
Uma é minha
Outra é tua
Outra é de quem a apanhar.

 
 








sexta-feira, 18 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - O EXAME DA QUARTA CLASSE




Hoje em todo o país, dezenas de milhares de crianças concluem o ano lectivo do primeiro ciclo, antiga Primária. E destes, alguns milhares, incluindo o meu filho Francisco, concluiram a antiga quarta classe.
Em 1973, eu e os meus colegas de classe, preparámo-nos com afinco para os exames finais da quarta classe. Estudávamos no Externato Ramalho Ortigão, vulgo O Colégio, que não possuía autonomia pedagógica, razão porque esse exame teria de ser efectuado numa escola oficial.
Essa contingência aumentava a nossa preocupação e durante semanas preparámo-nos metodicamente, simulando as provas com que nos iriamos confrontar.
O grau de exigência do Colégio e a grande competência e carinho da nossa professora, a D. Esperança, atenuou contudo qualquer dificuldade na nossa preparação e sentíamo-nos perfeitamente aptos quando chegou o grande dia. Isso não fez diminuir contudo os nossos nervos!
Éramos poucos rapazes na turma, apenas quatro dos cinco que tinham iniciado a primeira classe. Eu, o grande Zé-Tó, o Luis Filipe Gomes e o Louis Borga Gomes (o Luis André tinha ido para Alcobaça no final da segunda classe). Tal como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas éramos quatro, e durante quatro anos repartimos um mundo de aventuras, fantasia e muita brincadeira.
Recordo entre as nossas colegas, a Luisinha Canela Lopes, a Teresa Ferreira, a Bibú Castro, a Xú-Xú (Cristina Vazão de Almeida), a Ana Monroy, a Kikas Gama (Ana Homem de Barros), a Luisa Jordão, a Teresa Lourenço, a Ana Paula Duarte, a Misá (Maria do Rosário Carvalho Dias) e a Paqui (Paula Almeida).
Repartíamos a sala de aulas com a segunda classe que já nos acompanhava desde o ano anterior, como era tradição no Colégio. Duas classes com a D. Esperança, duas classes com a D.Clarisse, dependendo do ano em que iniciávamos a Primária. Faziamos depois toda a Primária com a mesma professora. A D. Dora dava o apoio escolar da parte da tarde, a todas as classes.
No dia agendado reunimo-nos na Escola Primária da Policia de Trânsito, diante do antigo Parque de Campismo, no parque, por cima do ténis.
O facto dos exames serem efectuados noutra escola e por professores desconhecidos, aumentou a nossa ansiedade mas felizmente saímo-nos na perfeição. Não me recordo já do teor dos exames mas recordo-me que tínhamos uma prova de trabalhos manuais em que construí uma caravela de cartolina e arame, longamente treinada nas aulas de preparação, o nome que lhe dei guardo-o para mim mas trago na memória com carinho que a D. Esperança insistiu em guardar depois esse barco de cartolina que durante muito tempo figurou na sua sala de aulas.
Saí um pouco mais cedo dos exames e aguardei com preocupação a saída dos meus colegas, receava que por ter concluído as provas em primeiro lugar pudesse indicar que tinha falhado alguma pergunta. Sentei-me junto ao passeio na companhia dos meus pais e dos outros pais e a ansiedade aumentava a cada minuto que passava. Não deve ter contudo demorado muito tempo antes que, um por um, os meus amigos começassem a sair. O confronto de respostas dava-nos alento para aguardar pelos resultados. Após a saída do último reunimo-nos com um pouco mais de alegria e nem parecia já que esperávamos pela saída dos resultados.
Passados alguns minutos saiu da escola a D. Esperança com um sorriso de satisfação nos lábios. Tinha dialogado com os outros professores que estavam a avaliar as provas e as expectativas eram muito boas.
Finalmente sairam os resultados e juntámo-nos todos numa grande festa na rua.
Passados todos estes anos continuo a ver com alguma frequência quase todos eles. Amizades para a vida!
Éramos poucos entre alguns, passámos a ser poucos entre muitos mas os laços criados pela convivência e forte espírito de identidade desse tempo no Colégio manteve-nos unidos ao longo de todos estes anos.


A todos os meus colegas da primária no Externato Ramalho Ortigão
que contribuíram tanto para que tivesse uma infância tão feliz.

À D. Esperança.
Enquanto eu viver, viverá em mim!

Ao José Manuel Cabaços.
Obrigado por me ajudares a educar o meu filho da forma como o fizeste.

Ao meu filho Francisco.
Que a escola te continue a trazer tantos momentos felizes,
professores inesquecíveis
e tão grandes amizades como me trouxe a mim.












Jacques Brel - L'Enfance

quinta-feira, 27 de maio de 2010

EM BUSCA DA ESPIRITUALIDADE



Eu sabia que deveria haver alguma razão para que nos tempos da primária eu e alguns colegas do Colégio Ramalho Ortigão nos escapássemos para a sala onde se faziam as hóstias e nos atafulhássemos com as aparas e com hóstias não consagradas.
Nos anos setenta a busca pela espiritualidade deu-me forte.
Não que fosse adepto das leituras dos guias do Lobsang Rampa que enchiam os escaparates da montra da Jornália, nem que fosse particularmente influenciado pelos Meninos de Deus que pululavam na Rua das Montras, a distribuir bandas desenhadas que falavam do Pai David e tratando-me por Bhaiya (irmão) (e eu a olhar para as louras alemãs e logo a pensar ‘’Irmão, o caraças que tu com um banhinho decente em cima...!’’)
- Ó minha Rani até te levava para um Parikrama! (um género de passeio p’ró divino!)
E foi assim que segundo os historiadores começou oficialmente o Flirty Fishing*!
(vão à wikipédia que eu agora não tenho tempo para vos explicar, mas olhem que é muito interessante!)



À falta de um Samadhi ou uma revelação divina (ou um placar em néon!) que me levasse a encontrar um caminho. Decidi saciar a minha forte necessidade de encontrar um caminho, indo a todas as missas quanto possíveis. Estes factos já os relatei anteriormente mas agora aqui vão devidamente integrados no seu contexo. Em pouco tempo fiquei não só a saber todas as rezas do Pároco como as bisbilhotices mais interessantes cá do burgo!
- Ai mana, sabe que anda um professor lá pelo liceu, um tal de ‘’Borboleta’’, a distribuir preservativos nas suas aulas e levou uma boneca daquelas onde se aprende a fazer respiração boca-a-boca mas parece que a utilizou para ensinar a beijar?!’’
E a mana a persignar-se!
(se querem saber a diferença entre benzer-se e persignar-se aconselho-vos o curso para acólitos aos sábados de manhã na Igreja Paroquial)
- Cruz Credo! E o homem não foi expulso!!?? Ao que isto chegou!
- ‘Tava-se mesmo a ver! Um liceu no meio do parque, o que é que podiam esperar? Aquilo é um antro! Um antro!!!
E as ‘’noticias’’ sucediam-se metodicamente ao ritmo de cada missa dando-me uma excelente perspectiva de um desconhecido quotidiano caldense.
Passado um tempo e vendo-me o Padre Guerra em tamanha devoção, ocupando sistematicamente a primeira fila da missa, decidiu convidar-me para ajudar à missa como acólito. Desconhecia que para ser acólito era necessário tirar um curso e torci logo o nariz à ideia de ter mais uma cena para estudar mas era tarde demais e já não podia voltar atrás. Frequentei o curso e tirei o diploma com a brilhante nota de 16 valores só ultrapassado pelo devoto Zé Ricardo que já nessa altura se revelava um estudioso à altura!
(Recordo –me ainda da primeira pergunta:
- Olha lá, tu rezas antes de comeres? – picou-me o acólito-mor.
- Não, q’a minha mãe é uma boa cozinheira! – atirei-lhe eu.)

As coisas até que começaram bem. Lá ia fazendo a minhas quatro missitas por dia mais uns baptizadozitos e casamentos e os domingos iam passando.
Numa manhã as coisas começaram a descarrilar! Não sei porque carga d’água mas em vez de encher o jarrito do galheteiro com o vinho de mesa, troquei-o e enchi-o de vinagre de vinho tinto. Podem imaginar o tamanho da careta que o Padre Guerra fez em plena missa do meio-dia!
Mas o homem era um santo e escapei com uma pequena advertência. Mas a coisa pôs-me nervoso!
No domingo seguinte, de novo na missa do meio-dia, venho com o galheteiro todo lampeiro para o altar, quando piso a minha própria túnica, dou um enorme tropeção e o galheteiro voou pelos ares para aterrar em completo ‘’estol’’ na mesa do altar!
Minha Santa Maria da Feira!
Fez-se um silêncio sepulcral na igreja, eu devo ter corado mais do que a pobre da Teresa Miguel das Doce quando lhe caiu o cai-cai de pele de leopardo no palco, em pleno Burlão e no meio do ‘’Uma da manhã, ei! Bem bom, duas da manhã, ei…’’ .
(Era por essa e por outras que chamávamos àquela peça de vestuário os ‘’tomara que caia!’’)
Enfim uma experiência única mas que teria sido mais esclarecedora se a protagonista fosse a Lena Coelho!
Por fim, o Padre Guerra com ar zangado e sobrancelhas franzidas, lá prosseguiu com a missa, enquanto eu me escapulia para o canto que dava para a porta da sacristia.
E foi assim o fim da minha carreira de acólito na igreja das Caldas. Mais um grande talento desperdiçado por falta de condições de trabalho!

Mas eu não me dei por vencido e alguns meses depois, lá estava eu de comboio a caminho de Coimbra com mais um grupo de jovens bem-intencionados e prontos a mergulhar num novo momento de grande espiritualidade.
Juntámo-nos os manos lá de casa, mais os primos de Setúbal, e mais uns tantos amigos das Caldas (que eu não nomeio aqui porque são pais e mães de familia e não os quero embaraçar!), um grupo do Estoril e outro da Figueira todos rumo a Coimbra, Seminário Velho, para fazer um Retiro de Jovens. (Tipo Verão Azul mas sem as bicicletas, nem a praia, nem a banda sonora, nem a professora, nem a traineira em cima da falésia, nem… enfim, perceberam a ideia!).
O comboio levou-nos até à bifurcação de Lares (ou coisa que o valha!) e depois tomámos outro comboio rumo a Coimbra B. À nossa espera um grupo de amigos habituais das férias nas Caldas, mas que viviam em Coimbra, e os dois casais organizadores do Retiro.
Primeiro dia, sessão de trabalho, jantar frugal com os frades franciscanos e recolha às celas individuais para meditação.

(momento de pausa para meditação)




Estava-se mesmo a ver!
Não sei quem foi o culpado (eu não fui!!!) mas um dos rapazes saiu da sua cela e pé ante pé foi batendo às portas de cada uma das celas dos rapazes e desafiou-nos para irmos fumar um cigarrito ao claustro! Depois até algumas das raparigas se juntaram a nós e acabámos a escapar pelas traseiras para ir ao Raul das Tostas comer tostas de galinha e penalties de vinho verde à pressão para compensar o jantar dos frades.
Palavra puxa palavra, mãozinha puxa mãozinha, uma coisa leva a outra, a Ladeira do Seminário leva ao rio e a ponte da Portagem levou-nos ao Scotch. Finalmente entrámos em êxtase! O Scotch era a melhor discoteca de Coimbra e fez mais pelas nossas relações de grupo que todas aquelas horas da tarde!
Eram altas horas quando regressámos e subimos devagarinho, pé ante pé, as escadarias que nos levariam de volta às celas. Chegámos a tirar os sapatos para que os tacões não ressoassem na pedra de granito.
Nisto, quando estávamos a chegar a um dos patamares, salta-nos vindo do nada um frade com o hábito franciscano.
Ai Minha Nossa Senhora, apanhámos o maior cagaço das nossas vidas!
- Ai Pecadores! Estais perdidos! – gritou ele visivelmente furioso. (juro que é verdade!) – Como ousais?
Agarra-nos pelos pulsos e toca de levar toda a gente para a sala do refeitório. Mandou-nos esperar quietinhos que iria chamar o Frade Superior e os adultos laicos responsáveis pela organização do retiro. Começamos a rezar a todos os santinhos nossos conhecidos (Santo António dos Cavaleiros, São Bartolomeu de Messines, São João do Estoril, …).
Esperámos uma hora até que os civis chegassem e formou-se um verdadeiro conclave, mais, um verdadeiro tribunal da Inquisição. Aonde foram? O que fizeram? Não têm vergonha? Ao menos estão arrependidos?
O Frade Superior era um velho bondoso e compreensivo e estava pronto a relevar o incidente mas o raio de um outro frade mais jovem e mais ortodoxo fez de Torquemada e estava decidido a convencê-lo a expulsar-nos e terminar o retiro de imediato.
Valeu-nos a compreensão e solidariedade do casal organizador para convencer o Frade Superior a dar-nos mais uma oportunidade para que o retiro não terminasse por ali.
E assim, após uma noite mal dormida, na manhã seguinte reunimo-nos ao pequeno-almoço no refeitório do Convento e lá iniciámos mais uma manhã de discussão, oração, trabalhos de grupo e meditação. Após o almoço era tempo de recolhermos de novo às nossas celas para meditar sobre os nossos actos e o caminho que queríamos levar para a vida!

(nova pausa para meditação)



Eu juro pela santinha que não fui eu!
Eu até estava a dormitar na camita para recuperar a noite mal dormida e curar-me da ressaca das Cuba Libres e dos penalties emborcados!
Nisto ouço bater à porta e eram os do Estoril encabeçados pelo Vasco Sampaio que com ar de gozo cheio de cumplicidade entram-me pela cela dentro.
- ‘Bora lá bater uma poquerada! – Disse um deles. – Temos cartas e sacámos umas pedritas dos vasos.
Ainda nem eu tivera tempo para me recompor e já as cartas estavam sobre a cama e distribuídas entre todos.
Não demorou muito para que perante as nossas gargalhadas e exclamações os outros se juntassem e o caldo ficou outra vez entornado!
Lá apareceu de novo o Torquemada e desta vez nem São João da Pesqueira nos safou!
Acabou-se logo o retiro. Fomos todos despachados para casa no primeiro comboio a partir de Coimbra!


Passaram-se uns meses e na praia da Foz julguei ter finalmente encontrado a espiritualidade nas mãos de uma moçoila dinamarquesa que se interessou muito pelo meu Yang e adorava estudar os meus chakras, particularmente o manipura! O problema é que há boa maneira nórdica trazia com ela dois espanadores por baixo dos braços e como fazia campismo a higiene não devia ser muita. Um dia fomos ao Green Hill e quando começámos a dançar slows escapou-me:
- Du tust parfüm Schneewittchen. Nicht du? (Tu usas perfume Branca de Neve, não usas?)
- Wie Sie entdeckt? (Como soubeste?)
- Sie haben einen kleinen Zwerg unter den Arm getötet! (Deves ter um anãozinho morto por baixo do braço!)
Assim, foi sol de pouca dura e estava a começar a desesperar com o meu Karma!


Chegámos a Setembro e a família partiu para o Algarve.
Ao fim do primeiro dia conhecemos um casal e os seus filhos. E adivinhem? O pai de família era médium e fazia sessões espíritas!
- Começamos bem! - Pensei eu para os meus botões!
O fulano levava a cena bem a sério. Fazia espiritismo nas horas vagas mas com tanto entusiasmo e devoção que à partida para as suas férias anuais, aconchegava toda a família mais a bagagem no seu pequeno Mini e atava a sua mesa de pé de galo ao tejadilho da bomba.
Dá para imaginar a cena do Mini pelo Alentejo abaixo com quatro marmanjos e uma mesa atada ao tejadilho de pernas para cima!
Logo nessa tarde fomos informados que iria ser realizada uma sessão espírita em casa dos nossos novos amigos mas que estes estavam mais interessados em ir para a discoteca e eram os seus pais que se juntariam com mais dois casais de meia-idade.
O meu primo Bernardo, sempre pronto para a galhofa perguntou logo se poderíamos participar pois éramos muito crentes!
O casal olhou-nos com desconfiança mas perante a seriedade simulada do Bernardo lá nos deram autorização para irmos lá a casa.
Como imaginávamos, os nossos amigos tinham-se baldado para a discoteca e fomos recebidos pelos seis outros participantes na sessão.



Sentaram-nos à volta da famosa mesa. Tinham posto a sala às escuras e apenas uma vela acesa no centro da mesa iluminava a divisão. O médium fecha os olhos e começa a entrar em transe pedindo-nos que fechássemos igualmente os olhos e que déssemos as mãos. Foi o princípio do fim!
Comecei a espreitar por um olho mal fechado e vi o Bernardo à minha frente também a olhar por uma nesga de um olho e de mãos dadas com um dos casais. Os dois começámos a tentar conter um quase incontrolável riso.
O espírita pediu-nos para fazer força, muita força de mente e eu fiz tanta força como um alferes-miliciano com prisão de ventre!
O médium abriu os olhos e reprovou:
- Estão na sala alguns descrentes! Enquanto aqui estiverem o espírito não virá!
-Ah pois! – Contestou o meu primo – Se ele não vem, então é que nunca acreditaremos mesmo!
E desatámo-nos os dois a rir a bandeiras despregadas.
Como podem imaginar fomos convidados ‘’cordialmente’’ a sair da casa e perdi a minha chance de encontrar um sinal.

Não desisti e no regresso às aulas ingressei na Católica. Pensei que aí eu poderia estar mais perto de encontrar a tão ansiada espiritualidade.
As coisas pareciam bem encaminhadas quando na praxe é eleita Miss Católica uma bela ruiva de olhos verdes que estava na minha turma.



Perante aquela nomeação e a beleza da personagem julguei eu que ela teria certamente encarnado algo divino (nesse tempo silicone, o botox e a lipoaspiração ainda eram coisas do futuro!)!
Fiz-lhe os rituais de idolatração, ofereci-lhe incenso, mirra e ouro (tá bem, eram Brise e Ferrero Rocher mas tiveram o mesmo efeito!), dediquei-lhe alguns mantras e começamos a namorar. Durante um ano lectivo procurei arduamente saciar a minha busca pela espiritualidade mas infelizmente os únicos sinais que recebi foram o de beco sem saída e o de inversão de marcha!
Se havia umas luzes na Católica elas estavam meio fundidas e fui encontrar maior iluminação no Farol em Cascais e no Archote ao Arco do Cego!
Mas persistência é o meu mote!
Uma amiga muito dada a estas coisas do Yin e Yang disse-me para eu parar de procurar a espiritualidade nas coisas externas mas olhasse para o meu interior, para o meu innermost being.
Ok. Mas como iria eu fazer isso? Com uma sonda? Um duplo J? Um laparoscópio?
- Meu São Brás de Alportel! A procura iria ser mais dolorosa do que eu previa!
Felizmente alguns acontecimentos na minha vida vieram em meu auxílio. No decorrer dos anos seguintes fui sujeito a uma série de cirurgias em diferentes partes do corpo e ao acordar de cada anestesia invariavelmente perguntava ao cirurgião se tinha encontrado algo estranho.
Nada! Nicles batatoide! Agora só me faltava mesmo verificar nos pés. E até podia ser que estivesse por aí. Que a minha espiritualidade se encontrasse nos meu pés. Estava certo que o mesmo acontecia com o Cristiano Ronaldo, como a espiritualidade do Jardel estava na cabeça, a do Roger Federer está nos braços e a do Zé Castelo-Branco está no…, enfim!
Desde então tenho procurado a espiritualidade em todo o lado, já fui ao Budha Bar, conheci os Santos & Pecadores, os Anjos (mas foi com as Tentações que me senti mais perto de encontrar o sentido da vida), fui à Catedral da Luz ver o Jesus e até fui à repartição do BES do Burlão! E até agora nada!
Minha Santa Kshanti!
Não desisto. Continuarei a procurar a minha espiritualidade. Um dia vou encontrá-la e convidá-la para tomar um copo.
Ainda nos vamos rir os dois!



Chris Rea - Puppet singing Tell Me There's A Heaven

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - RUGBY NAS AMOREIRAS



Ainda tenho presente o cheiro distintivo das sapatilhas e dos tacos de madeira encerados do ginásio e dos balneários do Colégio Ramalho Ortigão.

Os balneários ficavam por baixo das escadas que davam acesso ao bar/refeitório orientado pela D. Luisa.Este bar era ponto de encontro obrigatório da parte da manhã para comprarmos os fantásticos queques que a D. Luisa fazia e os caramelos Vaquinha a 3 tostões a unidade (lembras-te Luis Gama?).

Quando almoçávamos, a D. Luisa fazia-nos as delícias com os seus ovos de codorniz estrelados com duas gemas.

Nas tardes de Verão preparava os seus famosos gelados caseiros feitos com refresco Alsa ou Royal que eram colocados em cuvetes no congelador e em cujos cubos espetava um palito. No intervalo grande da tarde sorvíamos estes cubos até não restar mais do que um cubo de gelo, já sem sabor.

No ginásio esforçávamo-nos para aprender os saltos no bock, cada vez mais alto, e para aguentar os exercícios no alto dos espaldares. Os nossos professores de ginástica, primeiro o Prof. Silva Bastos e depois o Prof. Berjano (os rapazes) e a Profª Rosa (as meninas) permitiam-nos, quando o tempo melhorava, ter os exercícios de ginástica nos recreios (ainda separados por sexo) e aí tivemos também as nossas primeiras provas de desporto com o basquetebol e o futebol à cabeça.

Dois dias por semana e ao final da tarde corria ainda para o antigo quartel dos Bombeiros, situado na Rua Miguel Bombarda (ainda hoje conhecida pela Rua dos Bombeiros) onde é hoje o Caldas Shopping.

Nessa altura, os Bombeiros removiam as suas vetustas viaturas do quartel cedendo o espaço para as aulas extra de ginástica. Também o cheiro dos tacos de madeira do quartel e das manchas de óleo cobertas de serradura me ficaram para sempre na memória.

Na Primavera realizava-se o Sarau de ginástica na Praça de Touros onde nos exibíamos por classes etárias e todos sem excepção tínhamos direito a uma medalha ou a um pequeno crachá com o símbolo dos Bombeiros. Recordo-me que os crachás variavam do ouro, prata e bronze ao latão conforme o desempenho que tivéssemos no Sarau e sendo o último dado a título de presença.

A ida para o ciclo na Escola Industrial e Comercial trouxe-nos maiores oportunidades de praticar desportos, iniciando-nos na prática do voleibol e do andebol e desenvolvendo as nossas aptidões na prática do basquetebol e do atletismo (corrida e saltos) com a participação em torneios intra e inter-escolares. Eram os desportos tradicionais que se praticavam em todo o país e para os quais as escolas estavam preparadas em termos de infraestruturas.

Mas no segundo ano do ciclo tivemos uma grande surpresa!

O Prof. Antero ‘’Té’’ Mil Homens era o professor de educação física preferido e mais carismático nos meados dos anos 70. Pelas meninas falem elas, pelos rapazes por causa do seu Mini Cooper S superturbinado com dois carburadores duplos Weber, com paralamas alargados e jantes minilite de 10’, com uma aparelhagem de som de top que incluía uns descomunais headphones daqueles com os auriculares almofadados à anos 70. Mais mais tarde seria o seu VW-Porsche 914 e a sua Honda 750 Four azul a despertar a admiração de todos!

Nas traseiras da Bordalo Pinheiro, onde hoje fica a D. João II, existia um enorme baldio, bastante desnivelado e semeado por algumas amoreiras, donde colhíamos as folhas para os nosso bichos da seda (será que os miúdos ainda os criam?) e que era utilizado por nós para fazer as provas de corta-mato (onde o Mário Fialho ‘’Botas’’ e o Albano limpavam tudo!).

Um dia, o Té chamou-nos a todos e declarou que as próximas aulas de educação física (e também os nossos tempos livres) seriam dedicadas ao verdadeiro trabalho físico.

E toca de nos fazer arrancar e queimar as plantas, aplanar o terreno (à força de pazadas e de baldes (sem máquinas!) e torná-lo apropriado para daí fazer um campo (de futebol, pensávamos nós!). Arranjámos ancinhos, pás , baldes, caixotes, enfim tudo o que servisse para limpar e nivelar o campo.

Ao fim de um trimestre tínhamos a obra concluída e uma surpresa à nossa espera. Um belo dia, um camião chegou trazendo duas enormes balizas de rugby e com a nossa ajuda estas foram erguidas nas extremidades do terreno. Tinha nascido o primeiro campo de rugby das Caldas!

No trimestre seguinte, já nem queríamos outra coisa, as aulas masculinas (as meninas tinham aulas com a D. Rosa que isto das misturas ficou para mais tarde!) passaram a ter como principal componente a prática de rugby e termos como tackle, knock-on, drop-kick, scrum ou try (ensaio) passaram a fazer parte do nosso vocabulário diário.

Estávamos no Inverno de 1974/1975 e as minhas costas nunca mais foram as mesmas!



Ao meu querido amigo António Vidigal que hoje completa umas tantas Primaveras (e melhores Verões!) e a todos os que desde o tempo do Té se empenharam para que o Rugby, a modalidade desportiva que melhor exalta o espirito de camaradagem, se mantenha e se dinamize na nossa cidade.



"Rugby is a beastly game played by gentlemen; football is a gentlemen’s game played by beasts; american football is a beastly game played by beasts."

Henry Blaha

sexta-feira, 14 de maio de 2010

PLIÉS E BABYGROWS



Na minha adolescência, os meus pais sempre arranjaram forma de me tramar as tardes de fim de semana. Ainda antes dos tempos da natação, puseram a minha irmã Xinha no Ballet.

E eu lá ia como irmão mais velho protector, acompanhá-la ao ginásio do Ramalho Ortigão onde uma prestigiada professora e antiga bailarina, a D.Isabel Affonseca dava as suas aulas. Todas as santas tardes de sábado.

Isabel Affonseca tinha sido uma das mais famosas bailarinas portuguesas e era agora uma emérita professora de ballet. Como podem imaginar estas aulas eram uma completa seca para mim.

A senhora, que nessa altura já não ia para nova, vestia invariavelmente umas calças à la Audrey Hepburn e arregaçava os canos das calças, dobrando-os por aí a cima até ficar com os tornozelos bem à mostra. Calçava também umas sabrinas ou umas sapatilhas de meia ponta e munia-se sempre de uma pesada e grossa bengala com que marcava os ritmos dando constantes ferroadas no chão.

Acompanhava-a uma outra senhora ainda mais velha que martelava gentilmente um provecto piano.

Estou a recordar a Profª Affonseca, de costas para o palco e de frente para as alunas, muito hirta de pernas meias abertas e pés firmes no chão, de bengala na mão esquerda, a dar as suas instruções com voz grave e ar sempre zangado.

Ao fim de umas tardes fastidiosas lá descobri uma forma de aligeirar o programa e assim colocava-me em pleno palco do Ginásio (que servia igualmente de recitório), por trás da professora imitando-lhe todos os gestos perante o riso das alunas. E cada vez que a senhora olhava para trás com ar zangado e desconfiado eu fazia a pose mais angélica que poderiam esperar.

O meu único ponto de interesse naquelas aulas residia numa aluna de Alcobaça amiga da minha irmã, a Sofia Raposo Magalhães, era loura e de pele muito branca. Infelizmente considerou que eu era baixo demais para ela e afastou-me das suas atenções!

Apesar disso eu acompanhava com especial resistência e sentido altruísta aquelas lições de En l’Air! Plié! Relevé! Ronds de Jambe!Soutenu! Degagé! E por aí fora (o que eu sei, Mon Dieux!).

No final de cada ano acontecia a prova máxima. O Sarau no Teatro Tivoli em Lisboa onde todas as classes da Profª Isabel Affonseca (que dava aulas em várias localidades) se apresentavam perante uma assistência de familiares, amigos, apreciadores e outros desgraçados que tinham de gramar mais uma manhã intensa de jeitosos com malhas e esqueléticas sem peito.

A única parte aceitável do programa era o cerimonial da troca de vestuário que era feito no primeiro andar do quartel de Bombeiros que ficava nas imediações do Tivoli. Nessa altura eu misturava-me com a plebe e lá ia tendo um momento de lazer que antecipava as quatro horas de tortura porque iria passar!

Certa vez, decorria um Pas de Deux intitulado Au Claire de La Lune ( as coisas de que eu me lembro, caramba! ) e que consistia num número de dança efectuada a dois por uma elegante anoréctica e um rapazinho com baixos níveis de testosterona , quando a Prof. Affonseca verificou que lhe faltava um figurante para o número seguinte. E eis que ela crava os olhos à matador em mim, cerra os olhos e aponta-me a bengala.

–Moi?!- Pensei eu para os meus botões. - O que é que terei feito agora que estou aqui tão quietinho a contar as horas para voltar para as Caldas?!

- Tu aí, ó Caiado! – gritou a Margot Fontaine cá do burgo. – Anda cá que preciso de ti!

Bom - pensei eu no meu espírito altruísta – deve querer que faça companhia a uma das donzelas que vieram sozinhas! E lá fui eu, inocente como um cordeiro para a degola.

- Preciso que vistas uns costumes e vás para o palco fazer de figurante. – quase vociferou a senhora – Não precisas de fazer nada! Apenas fica ali até a cortina baixar! E vê se te aguentas sem te rir! – ralhou ela.

- De malhas não! – Logo fui avisando, temendo o pior!

- Porquê?!- gritou ela! – Tens medo de gostar?!

Eu ia começar um tratado sobre o meu gosto pelas malhas dos pullovers da Sidney e pelo jogo da malha que jogava na beco da taberna do Antero, pai do Paulo, mas a senhora agarrou-me firmemente por um braço e deixou-me nas mãos de uma costureira.

Foi uma experiência que escondi no mais ermo local da minha memória e que faço por não lembrar.

Pode ter sido apenas a minha imaginação mas eu iria jurar que durante o tempo que estive no palco senti os meus órgãos genitais a shrinkar… a shrinkar. Se calhar aconteceu apenas porque as calças eram muito apertadas ou porque o tempo de exposição à radioctividade, digo, ao ambiente, foi pouco, pois logo depois de tirar o traje senti-me a melhorar.

Uns tempos mais tarde o diabo da senhora decidiu fazer um novo recital, desta vez num palco improvisado no parque das bicicletas do parque. Desta vez tinha espaço suficiente para ir cirandar para longe, por exemplo… até aos prédios dos Violas!

Mas não, a minha mãe achou que era uma vergonha eu não assistir à fantástica exibição da minha irmã e insistiu que eu ficasse por ali.

Estava eu a apreciar os diversos encantos das bailarinas, quando ouço um remake do Exorcista:

– Ó Caiado, anda aqui para dar uma ajuda!

Então não é que a senhora me detectou no meio da multidão e queria que eu voltasse a repetir a gracinha do Tivoli? Só que agora parece que eu teria mesmo que vestir umas caneleiras de malha sobre um babygrow azul celeste que daria cabo da minha reputação em menos tempo que levou a Samy Figueiredo Lopes a dar-me uma chapada quando lhe beijei a cara, uma tarde no Casino.

Desatei a fugir pelas escadas que dão para o ténis, sai pelo portão do Lisbonense, passei a Rainha e só parei na Praça do Peixe.

Durante meses tive pesadelos com a senhora a apontar-me a bengala e a gritar:

- Tu aí ó Caiado! Plié! Cabrolié!Elancé! Saut d’Ange!Tour en l’air! Et maintenant triplo mortal encarpado, com uma mouche sobre a multidão!!!

E eu acho que ainda hoje tenho que olhar por trás do ombro para ver se não me apanham!


Isabel Affonseca faleceu em Abril de 2007. As suas antigas alunas recordam-na com saudade pela sua alegria e boa–disposição mas também pelo seu rigor e disciplina que fez delas melhores alunas e melhores performers. A sua contribuição para o ensino do bailado nas Caldas não foi reconhecido em devido tempo.

Não deixemos que isso volte a acontecer com quem ainda pode receber esse carinho.