sexta-feira, 14 de maio de 2010

PLIÉS E BABYGROWS



Na minha adolescência, os meus pais sempre arranjaram forma de me tramar as tardes de fim de semana. Ainda antes dos tempos da natação, puseram a minha irmã Xinha no Ballet.

E eu lá ia como irmão mais velho protector, acompanhá-la ao ginásio do Ramalho Ortigão onde uma prestigiada professora e antiga bailarina, a D.Isabel Affonseca dava as suas aulas. Todas as santas tardes de sábado.

Isabel Affonseca tinha sido uma das mais famosas bailarinas portuguesas e era agora uma emérita professora de ballet. Como podem imaginar estas aulas eram uma completa seca para mim.

A senhora, que nessa altura já não ia para nova, vestia invariavelmente umas calças à la Audrey Hepburn e arregaçava os canos das calças, dobrando-os por aí a cima até ficar com os tornozelos bem à mostra. Calçava também umas sabrinas ou umas sapatilhas de meia ponta e munia-se sempre de uma pesada e grossa bengala com que marcava os ritmos dando constantes ferroadas no chão.

Acompanhava-a uma outra senhora ainda mais velha que martelava gentilmente um provecto piano.

Estou a recordar a Profª Affonseca, de costas para o palco e de frente para as alunas, muito hirta de pernas meias abertas e pés firmes no chão, de bengala na mão esquerda, a dar as suas instruções com voz grave e ar sempre zangado.

Ao fim de umas tardes fastidiosas lá descobri uma forma de aligeirar o programa e assim colocava-me em pleno palco do Ginásio (que servia igualmente de recitório), por trás da professora imitando-lhe todos os gestos perante o riso das alunas. E cada vez que a senhora olhava para trás com ar zangado e desconfiado eu fazia a pose mais angélica que poderiam esperar.

O meu único ponto de interesse naquelas aulas residia numa aluna de Alcobaça amiga da minha irmã, a Sofia Raposo Magalhães, era loura e de pele muito branca. Infelizmente considerou que eu era baixo demais para ela e afastou-me das suas atenções!

Apesar disso eu acompanhava com especial resistência e sentido altruísta aquelas lições de En l’Air! Plié! Relevé! Ronds de Jambe!Soutenu! Degagé! E por aí fora (o que eu sei, Mon Dieux!).

No final de cada ano acontecia a prova máxima. O Sarau no Teatro Tivoli em Lisboa onde todas as classes da Profª Isabel Affonseca (que dava aulas em várias localidades) se apresentavam perante uma assistência de familiares, amigos, apreciadores e outros desgraçados que tinham de gramar mais uma manhã intensa de jeitosos com malhas e esqueléticas sem peito.

A única parte aceitável do programa era o cerimonial da troca de vestuário que era feito no primeiro andar do quartel de Bombeiros que ficava nas imediações do Tivoli. Nessa altura eu misturava-me com a plebe e lá ia tendo um momento de lazer que antecipava as quatro horas de tortura porque iria passar!

Certa vez, decorria um Pas de Deux intitulado Au Claire de La Lune ( as coisas de que eu me lembro, caramba! ) e que consistia num número de dança efectuada a dois por uma elegante anoréctica e um rapazinho com baixos níveis de testosterona , quando a Prof. Affonseca verificou que lhe faltava um figurante para o número seguinte. E eis que ela crava os olhos à matador em mim, cerra os olhos e aponta-me a bengala.

–Moi?!- Pensei eu para os meus botões. - O que é que terei feito agora que estou aqui tão quietinho a contar as horas para voltar para as Caldas?!

- Tu aí, ó Caiado! – gritou a Margot Fontaine cá do burgo. – Anda cá que preciso de ti!

Bom - pensei eu no meu espírito altruísta – deve querer que faça companhia a uma das donzelas que vieram sozinhas! E lá fui eu, inocente como um cordeiro para a degola.

- Preciso que vistas uns costumes e vás para o palco fazer de figurante. – quase vociferou a senhora – Não precisas de fazer nada! Apenas fica ali até a cortina baixar! E vê se te aguentas sem te rir! – ralhou ela.

- De malhas não! – Logo fui avisando, temendo o pior!

- Porquê?!- gritou ela! – Tens medo de gostar?!

Eu ia começar um tratado sobre o meu gosto pelas malhas dos pullovers da Sidney e pelo jogo da malha que jogava na beco da taberna do Antero, pai do Paulo, mas a senhora agarrou-me firmemente por um braço e deixou-me nas mãos de uma costureira.

Foi uma experiência que escondi no mais ermo local da minha memória e que faço por não lembrar.

Pode ter sido apenas a minha imaginação mas eu iria jurar que durante o tempo que estive no palco senti os meus órgãos genitais a shrinkar… a shrinkar. Se calhar aconteceu apenas porque as calças eram muito apertadas ou porque o tempo de exposição à radioctividade, digo, ao ambiente, foi pouco, pois logo depois de tirar o traje senti-me a melhorar.

Uns tempos mais tarde o diabo da senhora decidiu fazer um novo recital, desta vez num palco improvisado no parque das bicicletas do parque. Desta vez tinha espaço suficiente para ir cirandar para longe, por exemplo… até aos prédios dos Violas!

Mas não, a minha mãe achou que era uma vergonha eu não assistir à fantástica exibição da minha irmã e insistiu que eu ficasse por ali.

Estava eu a apreciar os diversos encantos das bailarinas, quando ouço um remake do Exorcista:

– Ó Caiado, anda aqui para dar uma ajuda!

Então não é que a senhora me detectou no meio da multidão e queria que eu voltasse a repetir a gracinha do Tivoli? Só que agora parece que eu teria mesmo que vestir umas caneleiras de malha sobre um babygrow azul celeste que daria cabo da minha reputação em menos tempo que levou a Samy Figueiredo Lopes a dar-me uma chapada quando lhe beijei a cara, uma tarde no Casino.

Desatei a fugir pelas escadas que dão para o ténis, sai pelo portão do Lisbonense, passei a Rainha e só parei na Praça do Peixe.

Durante meses tive pesadelos com a senhora a apontar-me a bengala e a gritar:

- Tu aí ó Caiado! Plié! Cabrolié!Elancé! Saut d’Ange!Tour en l’air! Et maintenant triplo mortal encarpado, com uma mouche sobre a multidão!!!

E eu acho que ainda hoje tenho que olhar por trás do ombro para ver se não me apanham!


Isabel Affonseca faleceu em Abril de 2007. As suas antigas alunas recordam-na com saudade pela sua alegria e boa–disposição mas também pelo seu rigor e disciplina que fez delas melhores alunas e melhores performers. A sua contribuição para o ensino do bailado nas Caldas não foi reconhecido em devido tempo.

Não deixemos que isso volte a acontecer com quem ainda pode receber esse carinho.


3 comentários:

Lebasiaifos disse...

Fui aluna da D. Isabel no Grémio Literário e Recreativo de Leiria entre 1972 e 1982. Saudades!

Clara Leão disse...

Belíssimo texto e fantástico filme!

Helena Cunha - TEC disse...

Fui aluna da D. Isabel de 1980 a 1989 em Leiria. Foi uma boa experiência! Lembro com carinho as suas aulas e o som do piano que progressivamente foi sendo substituido por cassetes devido à idade da D. Cecília. Abraço grande a todas que por lá andaram comigo.