Mostrar mensagens com a etiqueta excursão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta excursão. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de agosto de 2010

DESVENTURAS DE UM ESTUDANTE EM TORREMOLINOS EXCURSÃO DE 1980 - PARTE 3



Resumo dos capítulos anteriores:

Estamos na Páscoa de 1980. Os finalistas do Liceu das Caldas partem em excursão para Torremolinos. Mal chegámos e já estávamos a correr as discotecas da cidade. No regresso ao nosso apartamento em Benalmadena, descobrimos que a piscina do complexo está cheia e que uma das banhistas era a minha namorada do Verão de 1979. Ao debruçar-me para a beijar, o Filipe do Pó atira-me para dentro de água, todo vestido.

No dia seguinte fomos ao Corte Inglês de Malaga e assistimos a uma cena de histerismo das fans de Pedro Marin. Para acabar o dia fomos afastados de um jantar no apartamento de umas amigas da onça mas o feitiço voltou-se contra o feiticeiro.

Perceberam? Não? Então leiam os capítulos anteriores que a mim já me basta ter de arranjar tempo para escrever este!

Parte três:

Os dias sucederam-se a um ritmo vertiginoso e depressa demais para o nosso gosto. Dormíamos pouquíssimo e apenas nas horas mortas por forma a estender ao máximo o nosso tempo útil de diversão.

Dividiamo-nos em grupos e enquanto uns iam às praias do Lido, de Bajondillo e de La Carihuela ou permaneciam na piscina, outros passavam a tarde nas esplanadas da Calle de San Miguel ou participavam em excursões a Mijas, Marbella e Puerto Banus.

À noite percorríamos as discotecas de Torremolinos e regressávamos a pé a Benalmadena. Muitos estudantes de outras localidades optavam por alugar motocicletas e conduziam-nas com dois e três passageiros sem qualquer tipo de protecção.

Uma noite regressávamos a Benalmadena pela Avenida de Palma de Mallorca e a meio caminho recebemos a noticia de um trágico acidente de mota envolvendo dois estudantes de Torres Vedras. Por uma vez a noite acabou triste e pesarosa para todos, perdendo nós a vontade de a estender nas nossas farras nocturnas que normalmente teminavam com o nascer do sol.

Num final de tarde um grupo vem a correr até à piscina para nos chamar. Entre risadas contam que estavam a vaguear pelas calles quando entraram num bar chamado Bonanza, entre eles estavam o João Gancho e a acompanhá-los o Padre Eduardo.

O barman era um transformista chamado Miguel, Miguel do Bonanza como era conhecido e que quando se transvestia assumia o personagem de ''Agata''.

O João Gancho picou-o para se ir mudar e o Miguel do Bonanza ficou todo dengoso com o João que se fartou de gozar incitando-o a encarnar o seu personagem. O bom do Padre Eduardo bem que tentou afastar o grupo do bar mas o mais que conseguiu foi ele próprio se retirar deixando o grupo entregue à sua diversão.

Fomos a correr assistir ao pagode e ainda apanhámos a ‘’Agata’’ a dançar umas sevilhanas para o João. No final da tarde tivemo-lo que o proteger das insistências do travesti que queria à força dançar mais umas músicas para o João.

Nessa noite fizemos mais uma rodada pelas discotecas, acabando como sempre no Piper’s.

Há muitas noites que um grupo de miúdas de Oviedo, nas Astúrias, também em excursão de finalistas, rondavam um dos grupos de rapazes do liceu das Caldas, metendo conversa com eles e sistematicamente pegando nas suas bebidas para irem matando a sede sem ter pagar as suas próprias bebidas, bem, ou era essa a razão, ou encontraram assim uma forma de se colarem ao grupo. Era vê-las sempre a dançar junto aos caldenses no patamar diante do famoso biombo das dançarinas e nunca entrando nas pistas de dança.

Este grupo era formado entre outros pelo Tó Zé Faustino do Bombarral, pelo Paulo Renato Castro e pelo José da Silva. A determinada altura já fartos da insistência das raparigas em pegar os copos das suas mãos e bebericarem deles, decidiram pregar-lhes uma partida.

De cada lado dos três ou quatro degraus que davam para esse patamar, haviam uns pequenos lagos com nenúfares e algumas trepadeiras. Invariavelmente esses pequenos lagos terminavam a noite apinhados de copos pois à falta de outro local para os pousar e uma vez vazios, era aí que todos os depositavam.

A água continha muitos elementos vegetais em suspensão dando-lhe uma cor verde. Assim numa noite, os rapazes decidiram encher os copos com essa água sabendo o que aconteceria pouco depois.

E assim foi! Uns minutos depois eis que chega o grupo de espanholas e recomeça a dança, com elas a bambulearem-se à sua volta e a pedirem-lhes os copos para bebericarem.

‘’ - Tiene un color hermoso. ¿qué es?’’

‘’- Pisang Ambon!’’ – retorquiram os rapazes com um tom meio enfadado, meio contido.

As raparigas beberam e não se desfizeram! – Uma até disse que era muito bom.

Tivemos que nos virar para esconder o riso! Não me recordo já se lhes serviu de remédio ou se os rapazes lhes ofereceram por uma vez as bebidas.

Ai! Longas eram as noites!

Na tarde do último dia chego aos apartamentos e encontro no hall do meu piso um grupo de colegas formado pela Rosa e pela Paula da Columbeira, pelas Susanas, pela Fátima, pela Teresa Requeijo, pela Margarida Rosa e pela Heloísa. Algumas delas, não me lembro de quais, pois os seus apartamentos eram anexos, tinham ficado do lado de fora do seu apartamento pois repartiam-no com uma colega e esta tinha vindo mais cedo da piscina com as chaves e agora não lhes abria a porta.

Batiam na porta, tocavam à campainha e nada!

- Têm a certeza que ela está aí dentro? – perguntei eu.

Que sim, responderam-me. Se tivesse saído teria deixado a chave na recepção como era habitual.

- Deve estar a tomar banho e não vos ouve! – conclui eu.

Que não, reponderam elas. Já estavam a bater há muito tempo e ela sem abrir. Começavam a ficar preocupadas.

Nisto, uma delas lembrou-se que tanto a sua janela que dava para a varanda como a janela do apartamento do lado estavam abertas.

- Paulo! – pediram-me elas lançando-me o seu ar mais charmoso! – Eras um querido se passasses de uma varanda para a outra e nos abrisses a porta.

- Devem estar malucas, ainda caio lá em baixo!

- Não cais nada! Saltas pela divisória! – disse-me uma com ar despreocupado (pudera, não era ela a saltar!) – E se alguma coisa tiver acontecido é melhor seres tu a dar com ela!

- Ai parva! – interrompeu logo uma, vendo que o argumento não me iria convencer – Ela deve é estar a dormir ferrada!

Acabei por aceder ao pedido e fui até à varanda do apartamento que algumas ocupavam, mesmo ao lado do apartamento trancado. As varandas estavam divididas por muros que impediam a vista de uma para a outra, resguardando a privacidade não só das varandas mas também dos quartos e salas. O pior é que entre cada varanda havia ainda um pequeno espaço de alguns centimetros e podia mesmo ser perigoso se não saltássemos junto à parede.

Bem, lá foi o Paulo armado em Arsene Lupin, e toca de subir a uma espreguiçadeira e daí para o muro.

Quando estou no topo do pequeno muro descubro a razão porque a menina não ouvia o bater da porta.

Ao saltar por cima do muro deparo-me com uma visão fantástica!

Uma linda moçoila de olhos fechados a apanhar sol em topless, com duas meias cascas de tangerina a proteger as partes mais vulneráveis ao sol. A sério, foi lindo!

O que fazer? Volto para trás e corro o risco de ser apanhado de costas ou entro rapidamente para a sala que estava mesmo ali à mão?

Decido-me por esta alternativa. E esgueiro-me em bicos dos pés para a sala, não sem antes deitar uma última olhadela à Vénus Adormecida.

Abro depois a porta e deixo-as entrar perdido de riso. Mais uma vez fico guardião de um segredo da excursão! Quem seria a misteriosa dama do monoquini?

Haveremos de nos encontrar todos uma hora mais tarde.

Não sei como começou mas sei no que deu!

Estávamos no nosso apartamento a recuperar forças para o que seria a nossa ultima noite quando ouvimos uma grande algazarra. Saímos de imediato do apartamento e deparamos como uma autêntica cena de guerra, por todo o lado e em todos os pisos haviam rapazes e raparigas a degladiarem-se com extintores de incêndio. Era uma fumarada ou melhor uma polvilhada tal que parecia que os halls estavam imersos em nevoeiro!

Toda a gente parecia moleiros, enfarinhados de alto a baixo!

Foi o bom e o bonito! Não havia nada a fazer pois quem não entrava na festa só tinha duas alternativas: ou reentrava nos apartamentos e esperava pelo fim do motim ou deixava-se fumegar passivamente!

A brincadeira acabou com a chegada dos seguranças e uma convocatória geral para o hall da recepção onde nos esperavam a administração do empreendimento, que nos pretendia (a todos, de todas as escolas) expulsar na hora, os professores que acompanhavam as diversas escolas e ainda um corpo policial.

Enfim, a última grande reprimenda da minha vida!

À chegada, quando fizemos o check-in, alguns de nós, tinha visto o seu BI retido na recepção como garantia para evitar ou compensar eventuais danos. Bem, eles não estavam a pensar neste tipo de danos!

Às tantas já tinhamos algumas raparigas a telefonar para os pais a dizerem que iriamos todos ser expulsos de Espanha... e sem bilhetes de identidade!

Lembro-me que alguns pais estavam mesmo dispostos a meter-se a caminho para resgatarem as suas filhas das garras dos nossos ‘’captores’’!

Os que fazíamos parte da Associação de Estudantes começámos achar tudo aquilo um exagero e tanto mais que os estudantes das Caldas eram dos menos culpados da situação. Fizemos tudo em legitima defesa!LOL!

Com a ajuda dos nossos professores e do responsável da agência de viagens conseguimos dialogar com os administradores do empreendimento e lá conseguimos que libertassem todos os BI com excepção do meu e não sei se do Paulo Lemos que era o Presidente da Associação e que teve um papel de destaque nessas negociações. Deveria ter ido para a carreira diplomática, o nosso Paulo!

No final lá passei clandestino a fronteira. Julgo que foi a primeira vez na história que um português passou a fronteira na clandestinidade...

...no sentido Espanha-Portugal!
















Lipps Inc. - Funky Town (1980)



terça-feira, 27 de julho de 2010

DESVENTURAS DE UM ESTUDANTE EM TORREMOLINOS EXCURSÃO DE 1980 - PARTE 2



Resumo do capítulo anterior:


Estamos na Páscoa de 1980. Os finalistas do Liceu das Caldas partem em excursão para Torremolinos. Mal chegámos e já estávamos a correr as discotecas da cidade. No regresso ao nosso apartamento em Benalmadena, descobrimos que a piscina do complexo está cheia e que uma das banhistas era a minha namorada do Verão de 1979. Ao debruçar-me para a beijar, o Filipe do Pó atira-me para dentro de água, todo vestido.


Parte 2

A Paula não consegue parar de rir com o meu mergulho e é assim que me apresenta às suas amigas. É assim, molhado e ainda dentro da piscina que as cumprimento. O Filipe afasta-se a rir, evitando receber o mesmo tratamento. Então a Paula convida-me a ir ao apartamento que divide com as amigas, na condição de eu ir primeiro trocar de roupa, claro.

Enquanto eu me dirijo para o meu apartamento na companhia do João Miguel Dinis e do João Gancho, conto-lhes a forma insólita como conheci a Paula.

Em Setembro do ano anterior, fui como era hábito então, na companhia da minha família passar umas semanas de férias à Torralta no Alvor. Comigo ia também o meu primo Bernardo.

Como chegámos tarde no primeiro dia, decidimos sair de casa muito cedo na manhã seguinte. Fomos directos para a piscina, mesmo junto à praia. Seriam umas 8h30 da manhã e a piscina estava aparentemente deserta. Na realidade, ao aproximarmo-nos verificamos que está um mergulhador, inteiramente equipado, com garrafa e tudo, a nadar no fundo da piscina.

‘’- Que coisa mais estranha’’- pensámos nós.

Vimos que estavam já três espreguiçadeiras montadas com colchão, uma estava ocupada com uma toalha e um saco de praia e deitámo-nos nas outras duas. Pouco depois, o mergulhador saiu da água e começa a tirar o fato.

Qual não é o nosso espanto quando de dentro do esponjoso vestuário sai uma ninfa com um biquíni super-reduzido e um corpo muito bem torneado para os 15, 16 anos que teria. Como nós!

Parecia a Ursula Andress a sair da água no Dr. No do James Bond! Só que em versão de cabelos castanhos!

A sereia, olha para nós com ar de que éramos transparentes e arrumou os artefactos, vindo-se deitar na espreguiçadeira onde deixara a toalha. Eu e o Bernardo ficámos mudos e quedos tentando olhar para todo o lado menos directamente para a menina.

Então a jovem deitou-se languidamente no colchão perante o nosso olhar meio disfarçado pelos óculos de sol, e ficámos a acompanhar a sinuosidade do seu corpo desde a pontinha da unha do dedo do pé até à madeixa clara que lhe cobria parte do rosto.

Depois tirou um livro do saco e ficámos mais aliviados quando vimos que era uma edição em francês de uma obra da Agatha Christie. A miúda era francesa ou belga, já podíamos falar à vontade!

E o que falámos, Mon Dieu! Como ela era isto e aquilo, como um de nós gostaria de a convidar a sair. Enfim, podem imaginar o tipo de conversa!

Entretanto a piscina ia enchendo-se de gente e por volta das 9h30 já estava a meia lotação e nós sem descolar a vista da nossa vizinha que pacificamente lá ia lendo o livro sem se dignar a olhar para nós.

Um pouco mais tarde, eis que chega uma senhora na casa dos cinquenta que se dirige à donzela. E não é que lhe começa a falar em português? Sem sotaque! Sem pinga de boulevards e de quartiers!

Ficamos para morrer! E mais ainda quando ela finalmente olha para nós directamente e nos lança um sorriso de gozo! Tinha escutado impávida e serena toda a nossa conversa. Nem sabíamos onde nos meter!

A mãe perguntou-lhe se queria ir com ela para a praia e ela olhando a sorrir para nós respondeu-lhe que não, que estava ali bem!

Minha Nossa Senhora!

Esperámos que a mamã fosse para a praia e um pouco a medo lá me meti com ela e devagarinho e apesar das suas respostas irónicas lá fomos partindo o gelo. Afinal tudo tinha uma explicação, o mergulho na piscina era para praticar a respiração com garrafa, pois estava a tirar o curso de mergulho lá na Torralta e não tinha autorização para ir sozinha para o mar. Recebera contudo permissão para praticar na piscina, antes da chegada dos utilizadores comuns. Quanto ao livro em francês, estava a praticar para o exame da Alliance Francaise que teria em breve!

Tudo explicado e nós ficámos expostos como um livro aberto. Mas afinal tudo correu bem, o Bernardo, já com a ajuda da Paula, conheceu nessa tarde, na piscina do Hotel D. João II, a Cristina, uma loirinha bailarina de ballet que iria nesse Inverno praticar para Londres e logo combinámos sair nessa noite. O pior foi quando fomos buscar a Paula ao seu apartamento e a mãe nos diz com o ar mais sisudo do mundo:

- Eu deixo-a sair mas é porque tenho muita confiança nela! A vocês não vos conheço de lado nenhum! – mal sabia ela a missa à metade!

Bem, estou a divagar!

Lá ia eu com os meus amigos a caminho do nosso apartamento para mudar de roupa.

Chegámos ao apartamento e esperava-me uma surpresa, o meu quarto estava ocupado e só faltava ter uma placa de NOT DISTURB pendurado na porta! Logo na primeira noite?! Chiça que o rapaz é rápido!

Mas eu tinha mesmo que trocar de roupa pois estava encharcado da cabeça aos pés! Então, como quem não quer a coisa, fui entrando de mansinho, pedindo mil desculpas, quase dizendo para continuarem e fazerem como se eu não estivesse ali, essas coisas que dizemos quando não queremos incomodar, e fui buscar uns jeans e um pólo, tentando sair o mais rapidamente possível o que não foi fácil considerando que ainda não tinha desfeito a mala.

Quando saí do quarto e perante o gozo dos outros, dou-me conta que não tinha trazido os sapatos, tive que voltar outra vez!

- Desculpem lá! Esqueci-me dos sapatos!

- %&$#(/%$#=!)O#”!!!!

- Pois, tens razão! Mas que queres, esqueci-me, pronto!

Já ia porta fora de novo, quando ouço de lá de dentro.

- Vê lá se não te esqueceste de mais nada?

‘’Shit! Esqueci-me da roupa interior!’’

A rapariga rebolava-se de riso, tentando já com pouco esforço esconder a cara. Vi que me era completamente estranha! Conquista de primeira noite em Espanha. O rapaz era mesmo maganão!

Lá voltei uma terceira vez ao quarto e tentei encontrar no meio da mala, na quase completa escuridão, as peças de roupa que me faltavam.

Finalmente consigo me vestir e parto para o apartamento da Paula. Com o meu quarto ocupado peço-lhe guarida e é no meio de 5 raparigas desejosas de ouvir as nossas estórias que passo a noite. Parecia eu no Colégio de Santa Clara ou das Quatro Torres (leiam Enid Blyton, um clássico!)!

No dia seguinte, com um par de horas mal dormidas, consigo finalmente entrar no meu quarto e dar um arrumo às coisas.

Decidimo-nos a ir jogar ténis nuns courts de piso sintético que víramos na véspera junto à marginal.

O piso é afinal de cimento e muito abrasivo, dou cabo das solas das minhas novas Sanjo num instante. Vou ter que comprar umas sapatilhas novas!

Nessa tarde decidimo-nos a ir a Málaga ao El Corte Inglês. Vamos a Torremolinos apanhar o autocarro e chegamos mesmo em cima da hora da partida. Com isso não comprámos bilhetes, habituados que estávamos a comprá-los dentro do autocarro na carreira para a Foz.

Quando aparece um revisor, foi uma festa tentando escapulir para as traseiras. Felizmente nenhum de nós foi apanhado, entre os rapazes ia eu, o João Miguel, o Rafael, o João Gancho, o Paulo Lemos, a Isabel Marques e alguns outros.

Ao chegarmos a Málaga temos a primeira certeza. Tinha havido uma ameaça de atentado pela ETA e os arruamentos em redor do Corte Inglês estão barricados e isolados pelos militares. Temos de dar uma grande volta para entrar nos armazéns.

Eu sigo directo para o piso do vestuário para homem e decido-me a comprar (final da década de 70, o que é que querem!) umas jardineiras de bombazina brancas, a grande moda em Torremolinos! Só tem um problema, estão grandes e é necessário fazer a bainha mas para isso teria de as deixar para o dia seguinte. Nem pensar! Arranjarei quem as faça entre as minhas amigas. Depois vou ao piso do calçado para comprar umas substitutas para as minhas sapatilhas desfeitas e hesito entre umas John Smith e uma Converse All Stars, no final acabo por comprar umas sapatilhas espanholas todas brancas e sem cano que ligariam muito bem com as jardineiras.

Jardineiras brancas, t-shirt branca e sapatilhas brancas, vou parecer o homem dos gelados! Imaginem o efeito sob a luz negra das discotecas!!! Um horror!

É neste ponto que eu tenho de fazer uma tradução para os mais jovens. Aqui nas Caldas e nos anos 70 e 80 ‘’sapatilhas’’ significavam ‘’ténis’’ e ténis era apenas um desporto!

Nisto começamos a ouvir uma enorme gritaria (literalmente!), a ver uma grande algazarra e dezenas de jovens a correr para as escadas rolantes que levam para baixo!

Pensamos que é uma ameaça da ETA, mas não ouvimos nenhuma explosão. Será que disseram alguma coisa nos altifalantes que nós não percebemos?!

Afinal de contas, espanhol cerrado não era a nossa especialidade e nós não tínhamos aquela apetência para línguas que demonstrava a avó dos meus amigos Ricardo e Agnello que com mais de 80 anos ainda fazia uma viagem anual com as amigas e julgava saber todas as línguas. Ia a Inglaterra e agradecia com um ‘’Obrigadation’’, em França dizia ‘’Obrigadacion’’ e por aí fora!

Uma vez, neste mesmo Corte Inglês de Málaga, chamou a balconista e disse que pretendia um ‘’casaquito cinziento’’ (chaqueta gris em espanhol), a empregada dizia-lhe que não entendia, perante o ar de espanto e indignação da senhora que só conseguia articular ‘’não intiendo, não intiendo’’, até que a empregada decide chamar o supervisor que ouve as primeiras palavras da avó dos meus amigos ‘’

- Sabe, estou mui embaraçada (grávida em espanhol), porque ninguém mi intiende!’’. - O homem fica a olhar para a velha de oitenta anos e tentar perceber como é que poderia estar ‘’muito grávida’’.

Bem esta e outras estórias da avó , que ainda conheci com a sua bengala, contadas pelos netos, são de ir às lágrimas!

Então estávamos nós em alerta máximo perante a histeria que enfrentávamos e decidimo-nos a seguir a multidão de jovens até ao piso 0.

Afinal era a grande estrela da canção espanhola daquele Inverno que estava na zona de discoteca a dar autógrafos. Pedro Marin de seu nome. Os seus êxitos ‘’Aire’’ e ‘’Que No’’ eram passados pelo menos umas três vezes por noite nas pistas do Piper’s. Dois meses depois, em pleno Verão português haveria de atingir também aqui o primeiro lugar do top de vendas!

Não se riam, afinal tinha sido apenas há 3 anos que o Art Sullivan cumprira a mesma proeza e enchia os estádios de Portugal com 40.000 pessoas a ouvirem "Ensemble", "Petite Fille Aux yeux Bleus", "Donne Donne Moi" e "Petite Demoiselle"!

Anos 70! Nem todas eram ‘’músicas intemporais’’!

As miúdas espanholas estavam verdadeiramente histéricas, só tinha visto uma cena daquelas nos antigos documentários sobre os Beatles. Resolvemos então participar na festa e começámos a gritar também, a puxar das camisas e dos cabelos. As amigas que estavam connosco alinharam na fita e fizeram igualmente a sua parte, com o pobre do Pedro Marin de sorriso de orelha a orelha a acreditar na genuinidade da nossa emoção. Saímos de lá com autógrafos nos braços e a jurar que nunca mais tomariamos banho para que o autógrafo não saísse!

Ao voltarmos decidimos tentar a sorte e não comprar bilhete. Apenas as raparigas não quiseram arriscar e quando o revisor apareceu foi o bom e o bonito para conseguir ir passando os bilhetes de mão em mão sem que ele o detectasse. Julgo que o João Gancho ainda foi apanhado e teve que pagar uma multa!

Ao chegar ao apartamento, encontro o maganão com um amigo e duas meninas, uma é a da véspera. Comento que tenho de arranjar quem me faça a bainha das calças e ela oferece-se com um olhar matreiro para ir comigo ao seu apartamento tratar do assunto. Estou mesmo a ver, eu vestir e a despir calças sozinho com ela. Não obrigado! Amigas dos meus amigos são irmãs para mim! (diz a raposa à lebre!)

Lembro-me então que a Margarida Arroz é a rapariga mais prevenida que eu conheço, às vezes até ao exagero o que nos levou a troçar com ela pela quantidade de medicamentos e a caixa de costura que levara para Torremolinos. Afinal acabei por necessitar dela para ambas as situações!

Vou com o João Miguel ao seu apartamento que divide com Teresa Lamy e mais algumas amigas.

Como sempre, a Margarida recebe o meu pedido com o seu ar maternal e dispõe-se à tarefa! Contudo fico espantado em ver algumas das meninas, a Margarida Nascimento, a Goretti, a Maria João, já aperaltadas cheia de enchumaços e leggings (anos 80!) enquanto outras se atropelam na cozinha.

Enquanto espero que a Margarida me faça as bainhas, fujo para a cozinha e começo a rapar a forma de massa crua de um bolo. A Teresa dá-me com a colher de pau nas mãos e tenta me afastar da cozinha.

Fico completamente fulo quando soube que estavam a preparar um jantar para oferecer a um grupo de Torres Vedras, o Zé Manel Bota-Fora e seus amigos, que tinham conhecido umas semanas antes no Green Hill.

A nós, aos seus amigos de sempre, nunca nos tinham oferecido nenhum jantar, nem nas Caldas nem em outro lugar qualquer! Francamente!!!

Saio do apartamento com as calças arranjadas mas a reclamar aos quatro ventos! Quando os outros sabem da história ficam igualmente fulos e esperamos encontrá-las à noite na discoteca para cravá-las para um jantar logo no dia seguinte!

Esperamos toda a noite no Piper’s mas elas não aparecem. Foram para outra discoteca, pensamos nós ainda mais irritados!

Só no dia seguinte soubemos o que se passou.

O leite que tinham levado estragara-se com o calor do autocarro na viagem para Espanha e tinha servido para fazer o leite-creme que era uma especialidade da Margarida que com o trabalho que teve comigo e a pressa, nem notou que o leite azedara!

No dia seguinte ninguém do grupo foi avistado nas imediações das discotecas. Os rapazes agarrados às calças e as raparigas com vergonha de os encontrar.

Deus não dorme!


(continua)
 
 

 
Calle San Miguel


 

Pedro Marin - Aire
 


Pedro Marin - Que No (audio)

terça-feira, 20 de julho de 2010

DESVENTURAS DE UM ESTUDANTE EM TORREMOLINOS EXCURSÃO DE 1980 - PARTE 1



Na Páscoa de 1980 realizou-se a excursão a Torremolinos, tão ansiada durante todo o ano.

Logo há chegada ao complexo Zodiaco em Benalmadena, nos arredores de Torremolinos, tivemos uma antevisão do que iria ser aquela semana, com um enorme aparato militar diante de uma das torres de apartamentos.

Uns estudantes do Maria Amália, mais acalorados tinham decidido lançar um dos electrodomésticos da cozinha pela varanda, directamente para a piscina. Como o patrulhamento da zona estava a cargo dos militares e não da Guardia Civil devido à ameaça de atentados por parte da ETA, foi mesmo com soldados em jeeps camuflados e armados de semi-automáticas que apanhámos logo pela frente.

Chegámos à torre onde se fazia o check-in geral, a Torre Piscis e no meio de toda a burocracia envolvendo a identificação, preenchimento de papelada e agrupamento por apartamento de todos os excursionistas, acabei com o meu BI retido como precaução da unidade hoteleira para o caso de sairmos sem pagarmos eventuais (quase certos, pronto!) danos que fizéssemos durante a estadia. Comecei bem!

E lá vamos nós! Tudo a correr para os apartamentos, a despejar o menos possível as malas e a colocar os consumíveis em qualquer lado que estivesse mais à mão, porque a nossa vida não era aquela e o tempo fugia!

Enquanto uns procuravam uns bares para comer uns cachorros ou hambúrgueres e entornar umas San Miguel, Cruzcampo ou Estrellas, outros marchavam para a piscina. As donzelas, mais ponderadas, faziam o levantamento local dos supermercados e drugstores e abasteciam-se de frutas e verduras. Quem mais se lembraria de cozinhar nos apartamentos?!

Nós pelo nosso lado estávamos bem providos de latas de salsichas da Nobre, feijoadas e chispalhadas da Frami, pão de forma e queijo flamengo, só nos teríamos que preocupar com as bebidas e com quem nos lavasse a louça!

Nessa noite fizemos a pé toda a avenida marginal até chegarmos a Torremolinos. Um percurso que passaríamos a fazer diariamente, nos dois sentidos, e logo após um jantar numa esplanada da Calle San Miguel, toca a conhecer a Movida Torremolina.

Chegamos à Avenida de Palma de Mallorca, a principal da cidade e onde se situam a maioria das discotecas, está infestada de estudantes e da belas raparigas que nos oferecem com um largo sorriso uns vouchers de desconto para discotecas. Quase escolhemos aonde ir pelas beleza das hospedeiras.

Vamos começar a primeira ronda da semana, Joy, Papillon, Gatsby, Borsalino, Eldorado, Tiffany’s, Jay-Alay, Palladium, Number One, Cleopatra, Boga-Boga (onde pela primeira vez vimos nevoeiro artificial), já não importa a quais fomos na primeira noite, foram muitas e continuámos nas outras noites, seleccionando-as e repetindo a visita às que gostámos.

Invariavelmente acabávamos na melhor de todas, o Piper’s Club.

Primeira noite, chego à porta do Piper’s e deparo-me de imediato com estudantes de Torres Vedras e com uma velha paixoneta, começamos bem, mesmo! Faz-me um sorriso enjoado e nem olhou mais para mim!

Adiante que a discoteca é grande e há mais gaivotas no ar (private joke!). Já aqui descrevi o Piper’s na crónica ‘’Poder en La Oscuridad’’ e o ambiente em Torremolinos em ‘’Durexes e Sais de Frutos’’ pelo que não me vou alongar muito nessa descrição.

Ficámos fascinados pela sua dimensão, pela sua decoração e pela tecnologia da segunda pista de dança que estava assente nuns hidráulicos o que lhe permitia subir e descer.

Faziam-se filas para ganhar um lugar numa cadeira baloiço gigante com lotação para oito pessoas e faziam-se filas no longo balcão cuja dimensão estava marcada pelo desenho da fita métrica que o decorava.

Rapidamente encontrámos um pouso certo para nos dedicarmos à ornitologia e ao birdwatching.

Como me poderia perder demasiado em detalhes irrelevantes, socorri-me a este ponto de um resumo cientifico da Spea – Sociedade Portuguesa Para o Estudo das Aves sobre a nossa actividade enquanto permanecíamos no Piper’s.


COMO IDENTIFICAR AS AVES NOCTURNAS DA ANDALUCIA

A identificação de aves no campo constitui um desafio aliciante. Embora á primeira vista possa parecer algo relativamente fácil, a verdade é que pode ser uma tarefa bastante complexa e que exige alguma paciência. A tendência natural de quem está a dar os primeiros passos neste domínio é olhar para as aves como um todo. Deste modo podem perder-se muitos detalhes fundamentais para a identificação. Cada ordem de aves apresenta geralmente características próprias que as distinguem das demais. Assim, a primeira preocupação deverá ser aprender a olhar de uma forma selectiva para as aves. Há vários aspectos a ter em conta quando somos confrontados com uma espécie desconhecida:

Tamanho:

A correcta avaliação do tamanho de uma ave constitui o primeiro passo para a sua identificação. Sempre que possível, o tamanho deve ser calculado usando outras aves mais conhecidas como termo de comparação.

Cor:

A coloração geral da ave constitui um dos aspectos mais importantes a ter em conta. Convém notar que, sob luz desfavorável, as cores podem parecer diferentes daquilo que na realidade são.

Marcas particulares:

A maior parte das aves possui características particulares de plumagem que as distinguem das outras. Deve pois procurar-se qualquer marca que se saliente da plumagem. Se não existir, qualquer outra saliência evidente na silhueta produzirá o mesmo efeito.

Forma e silhueta:

A forma e a silhueta das aves constituem também boas características para auxiliar à identificação. A sua correcta avaliação permitirá, à partida, eliminar várias hipóteses.

Comportamento:

Muitas espécies de aves têm comportamentos característicos. A sua observação cuidada poderá constituir um bom indício para a identificação.

Cantos e chamamentos:

A maior parte das aves emite cantos e chamamentos distintivos. Escutar os sons produzidos pelas aves constitui uma das formas mais seguras de as identificar.

Em voo:

Muitas vezes apenas é possível observar as aves em voo. Normalmente, neste tipo de observações, tudo se passa muito depressa. A identificação tem de ser feita imediatamente pois, regra geral, não há segunda hipótese. O tipo de voo (planado ou batido, por exemplo) e a forma como se desenrola (em linha recta ou circular, por exemplo) constituem também elementos importantes.

Plumagens:

Em muitas espécies, as juvenis e imaturas têm plumagens diferentes das aves adultas e os machos têm plumagem diferente das fêmeas (excepto na Tailândia!). Para além disso, muitas espécies mudam de aparência consoante a época do ano, apresentado uma plumagem mais vistosa durante a época nupcial e ficando depois com um aspecto mais discreto durante o resto do ano (ou do casamento!)


O local escolhido foi então um patamar situado mesmo diante do bar e estrategicamente colocado junto ao famoso biombo translúcido.

Para os que andam por aqui a fazer turismo e não lêem as crónicas (agora temos um blog, sabiam? Podem aceder às crónicas e outros posts pelos títulos ou temas!) volto a descrever o famoso biombo e a sua finalidade.

Durante a noite várias dançarinas iam dançar à vez por trás de um biombo com painéis feitos num qualquer tecido translúcido o que permitia ver a silhueta da bailarina e os seus movimentos insinuantes.

Se no inicio o nosso interesse residia em ver as bailarinas ao vivo e a cores já que elas acediam às traseiras do biombo por uma porta aí situada e a sua passagem não era visível de outro ponto da discoteca, já ao fim de alguns dias o atrevimento era tal que nos permitia ir dançar com elas para trás do biombo quando não o deitávamos abaixo, com um ‘’ups, foi sem querer!’’ e um olhar rápido para os gorilas da segurança que nos marcaram logo muito cedo!


Voltaremos ao Piper’s numa outra noite.

Nessa mesma noite voltámos a pé para Benalmadena, fazendo ainda uma curta paragem numa ou outra discoteca situada pelo caminho. Sempre a beber um gin tónico para cobrir o consumo mínimo. Tivemos assim suficiente combustível para fazer os escassos 4 kms de marginal que mediavam entre as duas localidades.

Ao chegarmos ao Zodiaco fomos surpreendidos pela algazarra que vinha das zonas da piscina e como quem não quer a coisa fomos fazer uma patrulha para avaliar a situação.

A piscina estava com mais movimento que a piscina de S. Pedro de Muel num dia de Agosto! Dezenas de miúdas dentro de água e muitas sem se preocupar com o Dress Code apropriado!

Já esfregávamos as mãos … com o bronzeador, pensando em ir ao apartamento vestir um fato de banho, quando ouço alguém a chamar por mim de dentro da piscina. Olhei para o grupo de raparigas e não reconheci nenhuma, a menos que fosse alguma das que se escondiam por trás das outras ou que tinham submergido nesse momento. Decididamente era difícil passar anónimo na noite espanhola!

Aproximo-me da piscina e finalmente vejo quem me chamara. Uma bela morena de olhos verdes e uma estranha coloração branca nas pestanas. A Paula G. Tínhamos tido um curto namoro de Verão no ano anterior na Torralta do Alvor. Sem telemóveis ou net, acontecera o mesmo que aos outros namoricos de Verão fora da Foz. Adeus e até um dia!

Ela abre-me os braços com um enorme sorriso pretendendo-me abraçar e encharcar-me de alto a baixo. Tento não cair nessa mas agacho-me junto à beira da piscina para a beijar.

Quando dou por mim estou completamente debaixo de água, todo vestido e calçado!

O Filipe Monteiro do Pó, em excursão pela sua escola, o Colégio Manuel Bernardes, não encontrou melhor forma de me dar conta da sua presença e de como estava contente por me ver, senão dar-me um encontrão para dentro de água!

Ok. Ainda agora chegámos e já tinha meia Torremolinos a rir-se da minha situação!

Já não bastava a gaivota de Torres Vedras!


(continua)









M - Pop Musik 

sexta-feira, 18 de junho de 2010

DUREXES E SAIS DE FRUTOS




O pai do João Miguel Dinis tinha um armazém de produtos farmacêuticos e assim, na véspera da nossa partida para a excursão de finalistas a Torremolinos, decidimo-nos abastecer de ‘’utilidades’’. Pegámos numas caixas de aspirina e de sais de fruto (na altura não conhecíamos os Kompensan), uns comprimidos para a gripe e estava tudo arrumado quando um de nós (não fui eu!) se lembrou dos preservativos.
- É pá aquilo vai estar cheio de miúdas de outras terras e temos de estar preparados!
Rimo-nos uns para os outros e um pouco a medo o João lá colocou uma caixa de Durexes no embrulho.
Nos dias seguintes as nossas expectativas sobre a viagem iam crescendo e de cada vez que em grupo antevíamos o ‘’programa’’ lá vinha alguém dizer ao João Miguel que se calhar era melhor pôr mais uma caixa na mala.
Passaram-se entretanto umas semanas e lá partimos para Torremolinos. Ao chegarmos, quando abrimos a mala descobrimos numa enorme gargalhada que o João Miguel tinha literalmente atestado a mala de durexes.
Claro que éramos todos uns tansos armados em artistas e as miúdas bem comportadas e chegámos ao final da estadia sem termos dado uso aos preservativos (alguns de nós, pelo menos, que eu sei bem que … cala-te boca!).
Então no último dia decidimos convidar a malta amiga e dar uma grande festa no nosso apartamento e os preservativos foram enchidos como balões e deram uma linda decoração!


TOP-10 SONGS ''1980'' (BILLBOARD)



Chart Sweep -- Billboard Hot 100, 1980

domingo, 2 de maio de 2010

VIAGEM FINALISTAS 1983



Estudantes finalistas às compras à porta da Discoteca Piper's






(post do Nuno Aniceto / Parrila)

PODER EN LA OSCURIDAD


No ano lectivo de 1979/1980 a lista B encabeçada pelo Paulo Lemos voltou a vencer as eleições para a associação de estudantes do Liceu. Dela faziam parte, entre outros, o António Eduardo ‘’Dadinho’’ (que tinha o pelouro de fazer o jornal ‘’Perspectiva’’, ainda feito com stencil e com a colaboração gráfica do João Paulo Feliciano), o Rafael, a Teresa Requeijo, a Nônô,a Teresa Lamy e eu.

Eu e a Teresa ficámos com as funções de ‘’Relações Públicas’’ (pois!) e competia-nos acolher as delegações desportivas ou de outro teor das outras escolas e representar no exterior o liceu das Caldas.Também fomos incumbidos de angariar fundos para a excursão de finalistas que iríamos promover na Páscoa de 1980. (estávamos feitos!)

Arranjámos uns patrocinadores que nos davam as bebidas (cervejas, águas e sumos) para os convívios e ainda uns prémios para sortear e conseguimos obter umas taças para promover uns campeonatos de vários desportos.

Decidimos organizar um primeiro convívio que decorreu no grande átrio do primeiro andar do Liceu e que teve um enorme sucesso. O segundo convívio foi organizado no hall da entrada do Liceu e cada vez conseguíamos ter mais gente.

Fomos então ainda mais afoitos e decidimos pedir autorização à Administração do Hospital Termal para nos ceder a esplanada do parque, que nessa altura estava encerrada, e foi aí que organizámos mais dois convívios, um deles com música ao vivo.

Lembro-me que conseguimos angariar o suficiente para toda a gente levar dinheiro de bolso para a excursão e pagá-la àqueles que não tinham dinheiro para ir.

Na Páscoa, e na companhia do padre Eduardo e da Profª Fátima, lá fomos nós para a nossa primeira viagem sem os pais.

A semana em Torremolinos foi um estrondo, na verdadeira acepção da palavra. Logo que chegámos uns alunos do Maria Amália atiram com um frigorífico pela janela fora enquanto outros fizeram uma limpeza completa a um dos supermercados, enfim!

Eu fui entretanto e compulsivamente ‘’nomeado’’ responsável pelo grupo do nosso liceu e tive que entregar o bilhete de identidade na recepção para o caso de no final haver algumas contas por pagar devido a eventuais estragos.

Ficámos alojados em Benalmadena no complexo Zodíaco e eu reparti um apartamento na torre Piscis (o nome que lhe dávamos era outro!) com o Paulo Lemos, o João Miguel Dinis, o Mário João Carvalho e o Rafael que de tanto comer queijo flamengo e conservas ficou doente ao fim de uns dias e só melhorou em Portugal!

Foi uma semana espantosa com autênticas maratonas sem dormir e a correr non-stop todas as capelinhas, o Borsalino, o Gatsby, o Joy, a Cleópatra e, o melhor de todos, o New Piper’s com as suas três pistas de dança, uma que subia e descia (e cada vez que subia roubávamos os focos do tecto!), um biombo translúcido onde víamos a silhueta de uma bailarina que dançava enquanto não atirávamos o biombo abaixo e nos atirávamos à bailarina.

Um balcão tão grande que tinha desenhado uma fita métrica e um grande baloiço entre as pistas. Duas Harley Davidson, um automóvel antigo e um charrete completavam a decoração!

Foram noites fantásticas aqui passadas com muitas estórias para contar. Recordo-me que nos fartávamos de rir com as apresentações que o DJ fazia das músicas, sempre com a habitual tradução para espanhol (não as referia nunca em inglês!) e os grandes êxitos eram Poder en la Oscuridad (Power in the Darkness) de los Tom Robinson Band e Otro ladrillo en la Pared (Another Brick in the Wall) do álbum El Muro (The Wall) de los Pink Floyd (que nós cantávamos com uma letra convenientemente adaptada!)

Numa das noites decidiram alguns dos nossos meninos e meninas fazer uma guerra de extintores no hall central e pelos apartamentos da torre Piscis numa guerra Rapazes vs. Raparigas que só acabou com a chamada da segurança.

Escusado será dizer que à partida tivemos problemas na check-out e o meu BI ficou lá retido, tendo eu voltado clandestino para Portugal. (grande cena na fronteira de Badajoz!)

Uns anos depois em passagem por Torremolinos com o Rui Rodrigues, as minhas irmãs e a Cristina Machado voltámos a ir ao Piper’s (agora com um grande cubo de água no interior a fazer de piscina!) e lembrei-me de ir mostrar às minhas irmãs ‘’ a cena do crime’’.

O meu BI continuava pregado, juntamente com outros, na parede por trás da recepção! Safa!


(1980)


Poder en la Oscuridad

tom robinson band - power in the darkness


Otro Ladrillo en la Parede

Pink Floyd - Another Brick in the Wall