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terça-feira, 27 de julho de 2010

DESVENTURAS DE UM ESTUDANTE EM TORREMOLINOS EXCURSÃO DE 1980 - PARTE 2



Resumo do capítulo anterior:


Estamos na Páscoa de 1980. Os finalistas do Liceu das Caldas partem em excursão para Torremolinos. Mal chegámos e já estávamos a correr as discotecas da cidade. No regresso ao nosso apartamento em Benalmadena, descobrimos que a piscina do complexo está cheia e que uma das banhistas era a minha namorada do Verão de 1979. Ao debruçar-me para a beijar, o Filipe do Pó atira-me para dentro de água, todo vestido.


Parte 2

A Paula não consegue parar de rir com o meu mergulho e é assim que me apresenta às suas amigas. É assim, molhado e ainda dentro da piscina que as cumprimento. O Filipe afasta-se a rir, evitando receber o mesmo tratamento. Então a Paula convida-me a ir ao apartamento que divide com as amigas, na condição de eu ir primeiro trocar de roupa, claro.

Enquanto eu me dirijo para o meu apartamento na companhia do João Miguel Dinis e do João Gancho, conto-lhes a forma insólita como conheci a Paula.

Em Setembro do ano anterior, fui como era hábito então, na companhia da minha família passar umas semanas de férias à Torralta no Alvor. Comigo ia também o meu primo Bernardo.

Como chegámos tarde no primeiro dia, decidimos sair de casa muito cedo na manhã seguinte. Fomos directos para a piscina, mesmo junto à praia. Seriam umas 8h30 da manhã e a piscina estava aparentemente deserta. Na realidade, ao aproximarmo-nos verificamos que está um mergulhador, inteiramente equipado, com garrafa e tudo, a nadar no fundo da piscina.

‘’- Que coisa mais estranha’’- pensámos nós.

Vimos que estavam já três espreguiçadeiras montadas com colchão, uma estava ocupada com uma toalha e um saco de praia e deitámo-nos nas outras duas. Pouco depois, o mergulhador saiu da água e começa a tirar o fato.

Qual não é o nosso espanto quando de dentro do esponjoso vestuário sai uma ninfa com um biquíni super-reduzido e um corpo muito bem torneado para os 15, 16 anos que teria. Como nós!

Parecia a Ursula Andress a sair da água no Dr. No do James Bond! Só que em versão de cabelos castanhos!

A sereia, olha para nós com ar de que éramos transparentes e arrumou os artefactos, vindo-se deitar na espreguiçadeira onde deixara a toalha. Eu e o Bernardo ficámos mudos e quedos tentando olhar para todo o lado menos directamente para a menina.

Então a jovem deitou-se languidamente no colchão perante o nosso olhar meio disfarçado pelos óculos de sol, e ficámos a acompanhar a sinuosidade do seu corpo desde a pontinha da unha do dedo do pé até à madeixa clara que lhe cobria parte do rosto.

Depois tirou um livro do saco e ficámos mais aliviados quando vimos que era uma edição em francês de uma obra da Agatha Christie. A miúda era francesa ou belga, já podíamos falar à vontade!

E o que falámos, Mon Dieu! Como ela era isto e aquilo, como um de nós gostaria de a convidar a sair. Enfim, podem imaginar o tipo de conversa!

Entretanto a piscina ia enchendo-se de gente e por volta das 9h30 já estava a meia lotação e nós sem descolar a vista da nossa vizinha que pacificamente lá ia lendo o livro sem se dignar a olhar para nós.

Um pouco mais tarde, eis que chega uma senhora na casa dos cinquenta que se dirige à donzela. E não é que lhe começa a falar em português? Sem sotaque! Sem pinga de boulevards e de quartiers!

Ficamos para morrer! E mais ainda quando ela finalmente olha para nós directamente e nos lança um sorriso de gozo! Tinha escutado impávida e serena toda a nossa conversa. Nem sabíamos onde nos meter!

A mãe perguntou-lhe se queria ir com ela para a praia e ela olhando a sorrir para nós respondeu-lhe que não, que estava ali bem!

Minha Nossa Senhora!

Esperámos que a mamã fosse para a praia e um pouco a medo lá me meti com ela e devagarinho e apesar das suas respostas irónicas lá fomos partindo o gelo. Afinal tudo tinha uma explicação, o mergulho na piscina era para praticar a respiração com garrafa, pois estava a tirar o curso de mergulho lá na Torralta e não tinha autorização para ir sozinha para o mar. Recebera contudo permissão para praticar na piscina, antes da chegada dos utilizadores comuns. Quanto ao livro em francês, estava a praticar para o exame da Alliance Francaise que teria em breve!

Tudo explicado e nós ficámos expostos como um livro aberto. Mas afinal tudo correu bem, o Bernardo, já com a ajuda da Paula, conheceu nessa tarde, na piscina do Hotel D. João II, a Cristina, uma loirinha bailarina de ballet que iria nesse Inverno praticar para Londres e logo combinámos sair nessa noite. O pior foi quando fomos buscar a Paula ao seu apartamento e a mãe nos diz com o ar mais sisudo do mundo:

- Eu deixo-a sair mas é porque tenho muita confiança nela! A vocês não vos conheço de lado nenhum! – mal sabia ela a missa à metade!

Bem, estou a divagar!

Lá ia eu com os meus amigos a caminho do nosso apartamento para mudar de roupa.

Chegámos ao apartamento e esperava-me uma surpresa, o meu quarto estava ocupado e só faltava ter uma placa de NOT DISTURB pendurado na porta! Logo na primeira noite?! Chiça que o rapaz é rápido!

Mas eu tinha mesmo que trocar de roupa pois estava encharcado da cabeça aos pés! Então, como quem não quer a coisa, fui entrando de mansinho, pedindo mil desculpas, quase dizendo para continuarem e fazerem como se eu não estivesse ali, essas coisas que dizemos quando não queremos incomodar, e fui buscar uns jeans e um pólo, tentando sair o mais rapidamente possível o que não foi fácil considerando que ainda não tinha desfeito a mala.

Quando saí do quarto e perante o gozo dos outros, dou-me conta que não tinha trazido os sapatos, tive que voltar outra vez!

- Desculpem lá! Esqueci-me dos sapatos!

- %&$#(/%$#=!)O#”!!!!

- Pois, tens razão! Mas que queres, esqueci-me, pronto!

Já ia porta fora de novo, quando ouço de lá de dentro.

- Vê lá se não te esqueceste de mais nada?

‘’Shit! Esqueci-me da roupa interior!’’

A rapariga rebolava-se de riso, tentando já com pouco esforço esconder a cara. Vi que me era completamente estranha! Conquista de primeira noite em Espanha. O rapaz era mesmo maganão!

Lá voltei uma terceira vez ao quarto e tentei encontrar no meio da mala, na quase completa escuridão, as peças de roupa que me faltavam.

Finalmente consigo me vestir e parto para o apartamento da Paula. Com o meu quarto ocupado peço-lhe guarida e é no meio de 5 raparigas desejosas de ouvir as nossas estórias que passo a noite. Parecia eu no Colégio de Santa Clara ou das Quatro Torres (leiam Enid Blyton, um clássico!)!

No dia seguinte, com um par de horas mal dormidas, consigo finalmente entrar no meu quarto e dar um arrumo às coisas.

Decidimo-nos a ir jogar ténis nuns courts de piso sintético que víramos na véspera junto à marginal.

O piso é afinal de cimento e muito abrasivo, dou cabo das solas das minhas novas Sanjo num instante. Vou ter que comprar umas sapatilhas novas!

Nessa tarde decidimo-nos a ir a Málaga ao El Corte Inglês. Vamos a Torremolinos apanhar o autocarro e chegamos mesmo em cima da hora da partida. Com isso não comprámos bilhetes, habituados que estávamos a comprá-los dentro do autocarro na carreira para a Foz.

Quando aparece um revisor, foi uma festa tentando escapulir para as traseiras. Felizmente nenhum de nós foi apanhado, entre os rapazes ia eu, o João Miguel, o Rafael, o João Gancho, o Paulo Lemos, a Isabel Marques e alguns outros.

Ao chegarmos a Málaga temos a primeira certeza. Tinha havido uma ameaça de atentado pela ETA e os arruamentos em redor do Corte Inglês estão barricados e isolados pelos militares. Temos de dar uma grande volta para entrar nos armazéns.

Eu sigo directo para o piso do vestuário para homem e decido-me a comprar (final da década de 70, o que é que querem!) umas jardineiras de bombazina brancas, a grande moda em Torremolinos! Só tem um problema, estão grandes e é necessário fazer a bainha mas para isso teria de as deixar para o dia seguinte. Nem pensar! Arranjarei quem as faça entre as minhas amigas. Depois vou ao piso do calçado para comprar umas substitutas para as minhas sapatilhas desfeitas e hesito entre umas John Smith e uma Converse All Stars, no final acabo por comprar umas sapatilhas espanholas todas brancas e sem cano que ligariam muito bem com as jardineiras.

Jardineiras brancas, t-shirt branca e sapatilhas brancas, vou parecer o homem dos gelados! Imaginem o efeito sob a luz negra das discotecas!!! Um horror!

É neste ponto que eu tenho de fazer uma tradução para os mais jovens. Aqui nas Caldas e nos anos 70 e 80 ‘’sapatilhas’’ significavam ‘’ténis’’ e ténis era apenas um desporto!

Nisto começamos a ouvir uma enorme gritaria (literalmente!), a ver uma grande algazarra e dezenas de jovens a correr para as escadas rolantes que levam para baixo!

Pensamos que é uma ameaça da ETA, mas não ouvimos nenhuma explosão. Será que disseram alguma coisa nos altifalantes que nós não percebemos?!

Afinal de contas, espanhol cerrado não era a nossa especialidade e nós não tínhamos aquela apetência para línguas que demonstrava a avó dos meus amigos Ricardo e Agnello que com mais de 80 anos ainda fazia uma viagem anual com as amigas e julgava saber todas as línguas. Ia a Inglaterra e agradecia com um ‘’Obrigadation’’, em França dizia ‘’Obrigadacion’’ e por aí fora!

Uma vez, neste mesmo Corte Inglês de Málaga, chamou a balconista e disse que pretendia um ‘’casaquito cinziento’’ (chaqueta gris em espanhol), a empregada dizia-lhe que não entendia, perante o ar de espanto e indignação da senhora que só conseguia articular ‘’não intiendo, não intiendo’’, até que a empregada decide chamar o supervisor que ouve as primeiras palavras da avó dos meus amigos ‘’

- Sabe, estou mui embaraçada (grávida em espanhol), porque ninguém mi intiende!’’. - O homem fica a olhar para a velha de oitenta anos e tentar perceber como é que poderia estar ‘’muito grávida’’.

Bem esta e outras estórias da avó , que ainda conheci com a sua bengala, contadas pelos netos, são de ir às lágrimas!

Então estávamos nós em alerta máximo perante a histeria que enfrentávamos e decidimo-nos a seguir a multidão de jovens até ao piso 0.

Afinal era a grande estrela da canção espanhola daquele Inverno que estava na zona de discoteca a dar autógrafos. Pedro Marin de seu nome. Os seus êxitos ‘’Aire’’ e ‘’Que No’’ eram passados pelo menos umas três vezes por noite nas pistas do Piper’s. Dois meses depois, em pleno Verão português haveria de atingir também aqui o primeiro lugar do top de vendas!

Não se riam, afinal tinha sido apenas há 3 anos que o Art Sullivan cumprira a mesma proeza e enchia os estádios de Portugal com 40.000 pessoas a ouvirem "Ensemble", "Petite Fille Aux yeux Bleus", "Donne Donne Moi" e "Petite Demoiselle"!

Anos 70! Nem todas eram ‘’músicas intemporais’’!

As miúdas espanholas estavam verdadeiramente histéricas, só tinha visto uma cena daquelas nos antigos documentários sobre os Beatles. Resolvemos então participar na festa e começámos a gritar também, a puxar das camisas e dos cabelos. As amigas que estavam connosco alinharam na fita e fizeram igualmente a sua parte, com o pobre do Pedro Marin de sorriso de orelha a orelha a acreditar na genuinidade da nossa emoção. Saímos de lá com autógrafos nos braços e a jurar que nunca mais tomariamos banho para que o autógrafo não saísse!

Ao voltarmos decidimos tentar a sorte e não comprar bilhete. Apenas as raparigas não quiseram arriscar e quando o revisor apareceu foi o bom e o bonito para conseguir ir passando os bilhetes de mão em mão sem que ele o detectasse. Julgo que o João Gancho ainda foi apanhado e teve que pagar uma multa!

Ao chegar ao apartamento, encontro o maganão com um amigo e duas meninas, uma é a da véspera. Comento que tenho de arranjar quem me faça a bainha das calças e ela oferece-se com um olhar matreiro para ir comigo ao seu apartamento tratar do assunto. Estou mesmo a ver, eu vestir e a despir calças sozinho com ela. Não obrigado! Amigas dos meus amigos são irmãs para mim! (diz a raposa à lebre!)

Lembro-me então que a Margarida Arroz é a rapariga mais prevenida que eu conheço, às vezes até ao exagero o que nos levou a troçar com ela pela quantidade de medicamentos e a caixa de costura que levara para Torremolinos. Afinal acabei por necessitar dela para ambas as situações!

Vou com o João Miguel ao seu apartamento que divide com Teresa Lamy e mais algumas amigas.

Como sempre, a Margarida recebe o meu pedido com o seu ar maternal e dispõe-se à tarefa! Contudo fico espantado em ver algumas das meninas, a Margarida Nascimento, a Goretti, a Maria João, já aperaltadas cheia de enchumaços e leggings (anos 80!) enquanto outras se atropelam na cozinha.

Enquanto espero que a Margarida me faça as bainhas, fujo para a cozinha e começo a rapar a forma de massa crua de um bolo. A Teresa dá-me com a colher de pau nas mãos e tenta me afastar da cozinha.

Fico completamente fulo quando soube que estavam a preparar um jantar para oferecer a um grupo de Torres Vedras, o Zé Manel Bota-Fora e seus amigos, que tinham conhecido umas semanas antes no Green Hill.

A nós, aos seus amigos de sempre, nunca nos tinham oferecido nenhum jantar, nem nas Caldas nem em outro lugar qualquer! Francamente!!!

Saio do apartamento com as calças arranjadas mas a reclamar aos quatro ventos! Quando os outros sabem da história ficam igualmente fulos e esperamos encontrá-las à noite na discoteca para cravá-las para um jantar logo no dia seguinte!

Esperamos toda a noite no Piper’s mas elas não aparecem. Foram para outra discoteca, pensamos nós ainda mais irritados!

Só no dia seguinte soubemos o que se passou.

O leite que tinham levado estragara-se com o calor do autocarro na viagem para Espanha e tinha servido para fazer o leite-creme que era uma especialidade da Margarida que com o trabalho que teve comigo e a pressa, nem notou que o leite azedara!

No dia seguinte ninguém do grupo foi avistado nas imediações das discotecas. Os rapazes agarrados às calças e as raparigas com vergonha de os encontrar.

Deus não dorme!


(continua)
 
 

 
Calle San Miguel


 

Pedro Marin - Aire
 


Pedro Marin - Que No (audio)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A VOAR NAS ASAS DA AVENTURA

 As Famosas Sapatilhas que nos fizeram percorrer centenas de KM`s.............. :):)



Corria o ano de 1979 o Inverno não estava a ser muito frio. O primeiro período do Ano Lectivo na Rafael Bordalo Pinheiro estava a decorrer muito bem e o pós Escola estava a ser fabuloso. Treinava duas modalidades, Voleibol na casa do Benfica (Terça, Quinta e jogava aos Sábados) e Andebol no Sporting das Caldas (Segunda, Quarta e Sexta e jogava aos Domingos).

Naquela altura equipamento desportivo de topo não havia nas Caldas, todos nós continuávamos a saltar e a competir com as velhinhas Sanjo (sapatilhas) que com a sua palmilha ergonómica nos ia ou deformando os pés ou minorando os impactos com o solo.

É numa destas equipas (Sporting das Caldas) que me cruzo com o meu grande amigo Joca Pimenta, nessa altura éramos os mais novos dessa equipa de Andebol que o Nunes da pequena Papelaria entre a Tália e a Taiti da rua das Montras, teimava em manter em condições de competição, tais como o André, Pedro, Chico Carrilho, Nelson entre outros, todos eles mais velhos do que nós o que nos valeu uma época de calduços e beliscões nos treinos de ataque, defesa e permeabilidade do Pivot.

Foi decerto um ritual entre atletas que passámos com alguma irreverência e troca de mimos. Durante os treinos, também nos “esquecíamos” de vez em quando de parar o braço ou o joelho forçando o contacto físico possível com os mais velhos, fabricantes dos calduços.

Foi por essa altura que surgiram noticias desportivas a nível internacional, poderemos mesmo dizer uma enorme surpresa, a Selecção Nacional de Voleibol Cubana sagrou-se campeã Mundial, contrariamente ás expectativas, pois a média de alturas era de 1,73m, mas saltavam e tinham uma capacidade de impulsão inacreditável, que aliado ao baixo centro de gravidade produziu uma equipa de eleição.

A imprensa desportiva empolou esse fenómeno, já que as outras equipas tinham como média de altura 1,99m, esse caso não nos passou despercebido tanto a mim como ao Joca. O que nos motivou imensas horas de conversa, empoleirados nas nossas motorizadas à porta do Pavilhão Desportivo da Mata uma Sirla com motor Casal de 5 velocidades e uma Boss com motor Casal de 2 Velocidades, kitada com um cilindro de 5 velocidades.

É numa dessas conversas que chegamos à conclusão que todos os Jogadores Cubanos contrariamente às outras equipas utilizavam, umas sapatilhas da marca Tiger (o nome Asics, já aparecia na marca, mas num tamanho muitíssimo pequeno). Foi numa dessas secções de conversa de pós treino na Mata que o Joca propôs uma ida a Badajoz em busca de umas sapatilhas dessa marca e devidamente adaptadas ao andebol que nos poria a saltar muito mais que os mais velhos…

Após amadurecida a ideia, entre nós com a parte Logística devidamente planeada, decidimos pedir aos nossos Pais, e ai começam as primeiras chatices, pois o nosso pedido para fazer uma viagem de motorizada Caldas /Badajoz, não foi bem aceite, mas após alguns forcing´s da nossa parte, lá veio o despacho positivo da entidade Paternal.

A viagem só poderia ser feita nas férias escolares, tendo ficado decidido entre nós que a iríamos iniciar numa quarta-feira, na semana de férias antes do Natal.

Nesse dia levantamo-nos cedo de modo que começássemos a viagem por volta das 9h00 da manhã e foi, realmente isso que fizemos.

Tínhamos preparado as”máquinas” na véspera, com o saco de viagem amarrado com uns elásticos no sítio do pendura, depósito de combustível cheio, níveis de óleos e pressões de pneus, no top.

Às 9h20 começamos a viagem, passamos o quartel do exército, nessa altura ainda RI 5, iniciando de seguida a subida das Gaeiras é ai que a Casal Boss do Joca decide não colaborar e pára. Bom, ficamos incrédulos, mal tínhamos saído das Caldas e já tínhamos ficado apeados. Decidimos rapidamente voltar para trás em direcção ao Pina que na altura tinha uma oficina de bicicletas e motorizadas, na rua do Parque.

Tanto lhe moemos a cabeça que ele acedeu em retirar o motor e repara-lo, com o material que tinha em stock e assim o fez, mas a meio da reparação deparasse com um valader partido que não iria permitir seleccionar as duas mudanças, tendo o Joca decidido ficar só com a segunda mudança. Almoçamos por ali mesmo, tendo como ementa o lanche para a viagem.

Durante esse tempo de reparação da Boss nada dissemos aos nossos Pais, por volta das quatro da tarde finalmente a Boss do Joca estava a trabalhar, mas somente com uma mudança, e foi assim, que nos piramos para Badajoz.

Verificamos logo que nas subidas mais inclinadas a Boss não subia, o que valeu ao Joca voltar para trás varias vezes para ganhar uma velocidade que lhe permitisse voltar a subir, com sucesso aquele espaço. Com o decorrer da viagem, e passado a zona da Espinheira, Cercal, Alenquer, surgiram finalmente as rectas de Vila Franca que nos iriam, fazer descansar um pouco.

Quando passamos o Porto Alto já íamos de luz ligada, ou seja era essa a hora que tínhamos previsto chegar a Badajoz e ainda estávamos no Porto Alto. Era Inverno e essa noite estava a fazer jus à estação. Apesar de levarmos, uns casacos o frio estava ali a fazer-nos lembrar que teríamos de nos proteger ainda mais.

Continuamos a viagem sem mais paragens, em direcção a Pegões, eu ia à frente tipo batedor, pois a minha luz era mais eficiente que a da Boss que mais parecia um pirilampo irritado que não parava quieto sempre aos tremeliques

Até que de repente como que acordando de uma melancolia provocada pela recta, sempre apadrinhada pelos pinheiros mansos que ainda hoje continuam a fazer sombra à estrada, olhei para trás massssssssssssssss, o Joca não estava lá, não me seguia….voltei de imediato para trás e encontrei o Joca uns seis quilómetros atrás, com cara de poucos amigos, dizendo-me que tinha gritado e que eu não tinha ouvido…Existia então outro problema com a famosa Boss, tinha furado…a roda traseira.

Bom, para aquele problema a nossa logística tinha resposta e lá começamos a retirar a roda, só que o frio estava a marcar presença de uma forma que os nossos dedos não tinham capacidade de resposta e pouco tempo depois, deixamos a reparação do furo pois os dedos já não nos respondiam, estavam brancos….foi ai que começamos à procura de lenha para fazer uma fogueira para que conseguíssemos aquecer as mãos e aquela zona onde estávamos.

A lenha que conseguimos reunir estava molhada ou húmida e da maneira convencional com fósforos não conseguíamos fazer com que a combustão se mantivesse, foi preciso retirar o tubo de gasolina da minha Casal e canalizar alguma gasolina para cima da lenha para que finalmente a fogueira ganhasse chamas para nos aquecer, pois a hipotermia estava muito perto.

Ganha a batalha da temperatura, remendámos o furo à luz da fogueira, ficando à sua volta pelo menos meia hora, tempo suficiente para nos recompormos e secarmos a roupa molhada entretanto por um aguaceiro que nos brindou com a sua passagem.

Metemo-nos a caminho e a partir dali o Joca foi à frente, ficando eu na posição de seguidor. Foi dessa forma que seguimos por Pegões, Vendas Novas, Estremoz, Arraiolos, Terrugem (sitio onde o Pai do Joca nasceu), e finalmente chegamos a Elvas, à casa do tio do Joca, quase brancos de frio.

O tio do Joca alguns minutos depois, perguntou-nos como é que nós tínhamos ido. Explicamos ao Sr. que tínhamos ido de mota, ele ficou preocupadíssimo e desceu rapidamente, pelas escadas para nos ir guardar as famosas Bombas, mas para grande espanto nosso, voltou pouco depois, dizendo-nos” …bom naquelas bicicletas ninguém pega ….”Com a sua pronúncia alentejana.

Estávamos de tal maneira cansados que, mal nos deitámos, adormecemos tipo pedra do período jurássico. No dia seguinte, vestidinhos de novo, lá fomos fazer a famosa compra das sapatilhas Tiger, eu com um blazer e uma camisa cinzenta (completamente desajustado) o Joca de pulôver à pipi do ténis.

Nessa altura tínhamos de parar na Fronteira para mostrar os documentos, o Guarda fronteiriço que nos fez o check in, olhou para as tais “bicicletas” perguntando-nos em ar de gozo…”mas vocês vieram das Caldas da Rainha nisso?..” nós com um ar de inocência, rimos e respondemos com o capacete na cabeça, abanando-o no sentido de cima para baixo, confirmando a resposta da pergunta.

Chegados a Badajoz, era a minha primeira vez por terras do reino de Leão, descobrimos logo que não era preciso usar capacete para circular nas tais motorizadas, visitamos alguns centros comerciais que na altura achei extraordinário, mas ficamos algum tempo pelos Preciados deambulando por aqueles sectores de artigos todos eles muito mais baratos que nas Caldas. Mas de sapatilhas Tiger nada de nada….

Decidimos ir procurar nas Lojas da especialidade, começamos a nossa odisseia das lojas desportivas, até que finalmente deparamos com um representante das famosas TIGER, olhamos um para o outro com um sorriso cúmplice…finalmente elas estavam ali à mão de semear.

Entramos na Loja e remexemos em quase todos os modelos dessa marca, quase que me ia apaixonando também por umas Stan Smith, que estavam ao lado, mas como só tinha dinheiro para um par tive de manter o objectivo que já estava traçado, TIGER. Eu comprei umas Tiger de Desportos de Pavilhão Azuis e o Joca umas Tiger super leves cinzentas.

Finalmente todos inchados saímos da Loja pois tínhamos conseguido as tais Tiger que faziam, pensávamos nós os Cubanos saltar mais alto que todos os outros e além disso tínhamos conseguido o nosso objectivo.

O dinheiro nessa altura já era escasso, mas tínhamos fome, depois de sondar o mercado à volta deparamos com um carrinho de rua que vendia cachorros que eram aquecidos de uma maneira que nunca o tínhamos visto, eram introduzidos num ferro Inox bicudo, depois punham a salsicha dentro desse buraco, começamos a comer os tais cachorros, mas não tínhamos nada para beber fomos andando para baixo na rua em direcção ás “bicicletas” , quando passamos pelo Simago que na altura era Famoso pelos seus batidos, soubemos mais tarde.

Decidimos comprar 1 litro de batido de Morango para cada um que foi dificilmente bebido pelos dois, tal era a dose e a consistência do batido que misturado com o cachorro deu mais tarde muito que fazer.

Voltamos então para Portugal, onde fomos brindados com uma carga de água que nos fez ficar com a roupa toda molhada, mais parecia o festival da camisa molhada, com os bicos dos mamilos a gritarem por piedade, tendo o tal guarda da fronteira feito sinal para passarmos sem parar. O resto desse dia foi passado a adorar as sapatilhas e a secar a roupa que tínhamos toda molhada, bem com a preparar a vinda para as Caldas da Rainha pelo mesmo caminho.

Na manhã do dia seguinte começamos a viagem, sempre com o Joca à frente e agora de dia. Sempre que aparecia uma subida mais íngreme, eu esticava a perna apoiava o pé na parte de trás da Boss do Joca e empurrava-o até ao final da subida, fazendo com que chegássemos a Vila Franca mais cedo do que o previsto por nós, fazíamos 50 km/h o que nos valeu uma viagem de regresso sem percalços com umas paragens para beber agua em algumas das fontes que nessa altura ainda existiam junto às estradas

Com o aumento do trânsito, na estrada nacional que passava por Alenquer, passei num cruzamento à frente do Joca, quando cheguei à saída de Alenquer, olhei para trás e o Joca já não estava lá outra vez, esperei um pouco e lá vinha ele com a sua diabólica Boss, que fez Caldas/Badajoz e Badajoz/Caldas somente com a segunda velocidade…de facto uma resistente, tinha voltado a descer para ganhar balanço para subir a ultima parte da subida de Alenquer.

Até às Caldas, não mais perdi o Joca, tive muito trabalho pelas subidas da Espinheira e Cercal. A minha Casal passou o teste e ainda conseguimos ajudar, devagar é um facto, a Boss do Joca a suplantar as dificuldades das subidas.

As sapatilhas fizeram um furor na altura, aliás acho que somente as descalçava quando tinha que dormir …..mas a tal questão de ajudar a saltar mais alto ..”essa” infelizmente não nos serviu de muito.

Há alguns dias, em conversa com o Joca, verificamos que ainda temos na garagem as famosas “Bicicletas”…quem sabe se não nos iremos por a caminho outra vez, afinal de contas foi há trinta anos …..Como o tempo passa como se nada fosse ……e uma boa aventura é sempre boa de repetir. Bom o elenco está um pouco mais pesado ….e o guarda roupa já não existe….mas há a jovialidade de sorrirmos com isto outra vez ……


Lanço um desafio .....Deixem as vossas crias continuarem a voar............eu fartei-me de Voar nas Asas da aventura...

Equipa de Voleibol da Casa do Benfica

.Nesta foto: Pedro Vilaça, Vilaça, Rui Pedro, Buiça, Paulo Nascimento,
António J F Albano, Paulo Zelú, Adelino, Almeida, Zé Matias, Querido,
António Querido, Nelson, Nelson Verissimo
 
Equipa de Andebol do Sporting das Caldas

.Nesta foto: Manuel Nunes, André, Chico Carillho,
António J F Albano, Nelson, Pedro
 
(post do António José Albano)