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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DIAS DA FOZ


O meu pai estacionou o Peugeot 403 no parque do Hotel do Facho à falta de espaço no aterro de areia que ficava diante do largo onde terminava a estrada.

Fui com ele enquanto ia tomar café ao bar do hotel. Entrámos pela porta principal, à direita o balcão de atendimento e atrás de si, pregadas na parede as fotos a preto e branco do Hotel da Urjeiriça.

Seguímos em frente pelo hall e depois virámos à esquerda no corredor, entrando na porta à esquerda. O bar fascinava-me com todos aqueles copos de dezenas de formatos pendurados sobre o balcão. Adorava o mobiliário e os quadros da parede que me levavam pelos mares, para longe dali.



O meu pai deixava-me ir à tarde ao bar pedir um ginger ale mas apenas quando não viesse da praia. Teria que vir vestido!

Enquanto o meu pai tomava café, entrou um velho e conhecido casal de ingleses e a sua implicante, loira e gorda filha, a Debbie. Já sabia que estavam por perto. Era Agosto e o seu Triumph Herald azul descapotável com a grelha para as malas sobre o porta-bagagem estava estacionado no exterior.


Furtei-me ao cumprimento com a loura gaiteira. Infelizmente o pai da Debbie padece de uma doença grave na laringe e está com uma voz muito rouca.

Saí então para a sala de jantar que estava já a ser posta para eventuais almoços. Um dia vim aqui jantar a convite de amigos de Évora que conhecera na praia e fiquei deslumbrado pelo facto de servirem dois pratos às refeições, um de peixe e outro de carne!

Cá fora no terraço olhei invejoso para a casa dos senhores Stoop que se debruçava sobre a praia. Esperei impaciente pelo meu pai para poder ir para a praia onde já avistava os meus amigos.


O mar convidava, azul e manso. Estava maré baixa e podia-se ir tranquilamente às rochas para tentar apanhar polvos ou mexilhão ou então, construir castelos na areia mesmo junto à àgua que varria a praia em pequenas ondinhas.

Estávamos no inicio dos anos 70!

Descemos então as escadas de madeira ao lado do ‘’Mar à Vista’’ e o meu pai foi ter com a mulher do José Luis, o banheiro, para lhe pedir da arrecadação de madeira o saco de pano que guardava os nossos baldes, pás, ancinhos e boias.

- Não se esqueça de guardar quatro bancos de madeira e dois estrados extra pois o meu sogro vem almoçar à praia. – recomendou-lhe o meu pai.

- Fique descansado – disse a senhora – dois bancos já lá estão, depois mando o meu filho entregar o resto aí sendo meio-dia!

Dirigimo-nos então para a nossa barraca. A minha mãe tinha vindo à frente com as minhas irmãs e esperou-me para me untar por completo de creme Nívea. Fiquei todo branco!


- Queres vir à praia das rochas ou tomar banho à lagoa, perguntaram-me uns amigos que se preparavam para a partida para o banho com os seus pais.

- Não, obrigado. Vou tomar banho com o meu pai. Vai ensinar-me a fazer carreirinhas!


À beira-mar o meu pai encontra logo velhos amigos. O Fernando Baptista mete-se comigo.

- Então Paulo Rogério, já não tens ‘’mê’’?! – pergunta-me ele sorrindo. Num Verão anterior quis levar-me para a água mas eu recusei e aparentemente dizia:

- Tenho mê, tenho mê! - Como quem diz ‘’tenho medo!’’.

Depois do banho venho secar-me para a barraca. Chega a senhora dos bolos, vestida de branco e dedos calejados pela agricultura de inverno. Fico indeciso entre um pacote transparente de batatas fritas caseiras e um dos bolos. Escolho uma bola-de-berlim com creme. Só mesmo na praia têm aquele sabor!


Vamos depois todos em grupo até à lagoa, na zona da aberta. Os rapazes com as barbatanas e os óculos de borracha azuis ou pretos, as raparigas de toalha e de toucas.

Nas águas tranquilas da lagoa, os miúdos brincam aos cachos sobre velhas câmaras de ar de pneus de camião, as meninas preferem sentir os embalos da pequena ondulação deitadas em pequenos colchões insufláveis.
O banho dura horas para podermos aproveitar bem a ida à lagoa. Nunca sabemos se voltaremos mais uma vez nesse dia.

Depois desafiam-me para jogar ao prego que eu ainda mal aprendi, farpa, palmas, costas, murro, garfo, sino, flechas, depois os martelinhos!

As minhas irmãs jogam ao ringue junto às barracas. Está uma manhã serena e quase sem vento. Um dia perfeito de Verão, aqueles dias únicos e raros que transformam a Foz na melhor praia para todos nós, isso e o reencontro anual com os amigos.


Enquanto jogo olho à distância a fachada branca imponente do Palacete dos Viscondes de Sacavém que nós alugávamos ao ano e onde passávamos todo o Verão e a maioria dos fins de semana do ano.

A imagem trouxe-me de volta às recordações de um Verão anterior, o de 1970.

Passava as manhãs a brincar às touradas com os amigos. As tábuas que serviam de tampos de mesa nas barracas, na época em que se levava tupperwares para a praia com comida quente e se almoçava quase como em casa, eram enterrados ao alto na areia utilizados como burladeros e com as toalhas toureávamos os ‘’touros’’ e fazíamos pegas de caras e de cernelha. Os mais fortes ou robustos faziam de touro ou de rabejadores e os mais leves de toureiros ou de forcados.

Nas pausas íamos apanhar as caricas que atiravam para o areal debaixo do ‘’Tábuas’’. Este era o nome porque era conhecido o restaurante Mar à Vista por ser construído em madeira, com tábuas pintadas de azul. Por causa da eventualidade das marés vivas, o restaurante fora construído sobre estacas e existia um enorme espaço vazio sob a casa que servia para guardar as grades de refrigerantes e cervejas e as botijas de gás. Nesse areal, húmido e sem sol, juntavam-se centenas de caricas que colectávamos para as nossas colecções. Depois, desenhávamos circuitos automobilísticos no areal entre as barracas e fazíamos corridas de caricas nomeando-as com os nome dos nossos pilotos preferidos. Jackie Stewart, Jochen Rindt, Jean-Pierre Beltoise, Jacky Ickx, Pedro Rodriguez, Graham Hill.


Quando conseguíamos dos nossos pais íamos ao Tábuas beber gasosas e laranjadas da Rical e comer caranguejos enquanto nos divertíamos com os esguichos de água que saíam das amêijoas e berbigões expostos em tabuleiros de plástico branco sobre o balcão de entrada.

Éramos corridos das casas de banho ou ao pedir um copo de água sem fazer despesa mas isso já fazia parte da tradição de cada Verão.

Pelas tardes jogávamos ao ringue ou ao mata, jogávamos ao prego ou ao galo com pedrinhas brancas e pretas e fazíamos castelos na areia. Alguns de nós tinham uns aviões de plástico que se compravam na Tália e que eram constituídos por um corpo em forma de fuso amarelo, duas asas presas com arame em plástico azul e que zumbiam com a força do vento. Estes aviões eram presos por um fio de nylon enrolado a um carreto verde e fazíamos acrobacias aéreas e voos rasantes sobre os cabelos das nossas amigas.

Num dia de manhã segui como habitualmente com o meu pai até ao Hotel do Facho onde o esperava um amigo dos tempos do Colégio Moderno, abraçaram-se no reencontro e o meu pai apresentou-me ao seu amigo. A única coisa que fui capaz de dizer foi:

- Ó pai, o teu amigo tem um dente partido!

O meu pai nem soube onde se meter, naquele tempo uma criança não deveria ter estas tiradas, era considerado uma grande falta de educação e afinal, a responsabilidade dessa falha era dos pais!

O meu pai embaraçado pediu desculpa ao amigo e deu-me um sermão dos antigos. O amigo realmente tinha uma pequenina falha num dos incisivos e de cada vez que o voltei a reencontrar nos anos seguintes ele lembrar-me ia dessa história. O seu nome? David Mourão Ferreira.

Nesse Verão, a Foz recebera como habitualmente a visita de muitos amigos do meu pai, sobretudo militares em comissão em África que vinham de férias e ficavam alojados na FNAT. Traziam consigo a reboque nos seus pequenos minis, Fiat 850 e Renault 8, vistosos barcos desportivos em madeira com volante e motor fora de borda. Passavam tardes a competir entre si ou a particar ski.


Nesse Verão a minha mãe deu a festa dos seus 30 anos na casa que alugávamos para férias, o Palacete dos Viscondes de Sacavém e recordo-me de todos os seus amigos de África a chegar a casa. Esta tinha dois pisos e no rés-do-chão as várias salas distribuíam-se em redor de um átrio central. No primeiro piso, o dos quartos, havia uma enorme abertura protegida por uma balaustrada que dava para esse átrio central. Fomos mandados para a cama cedo e lembro-me de estar em pijama, sentado no chão e a cabeça entre os pilares em madeira torneada, olhando para baixo e admirando as pessoas que chegavam e o clima de festa.

Num desses dias os meus pais levaram-me a almoçar ao Félix, o mais afamado restaurante da Foz embora no Verão sofresse também a concorrência do Vasques que ficava onde hoje é o Cais da Praia e do Solar da Paz onde se comia um fantástico ensopado de enguias no Verão e um belíssimo Cozido à Portuguesa no Inverno.

A ementa era extensa mas invariavelmente optávamos entre a caldeirada e o ensopado de enguias. Eu pouco apreciava os pratos pois em criança detestava peixe e tudo o que viesse do mar excepto mariscos e moluscos. Do que eu gostava mesmo era do pão frito que acompanhava esses pratos! Praticamente o meu almoço consistia em comer fatias desse pão cobertas de molho da caldeirada ou do ensopado e encostar para as bordas do prato todo o peixe que me serviam com o pretexto de que tinha muitas espinhas. Na realidade todos nós, miúdos, aguardávamos o momento de poder atacar a famosa Montanha Russa, um doce de claras em castelo que vinha com um apetitoso creme de ovos a escorrer.

Assim que tínhamos permissão saímos da mesa e corríamos pelo campo em terra batida até ao cais de madeira para ver os barcos aí atracados.


Ao lado, deitada no areal estava a velha bateira do meu avô paterno, a Albatroz. O meu avô Chico ainda me levou umas noites à pesca do candeio, aos polvos, solhas e linguados. O meu avô morrera no ano anterior e a bateira ali ficara abandonada.

Quando não tínhamos autorização para ir ao cais íamos jogar matraquilhos no telheiro diante da lagoa ou num outro que ficava junto à porta da cozinha, do lado que dava para as bombas de gasolina.

Nessa tarde, o movimento era grande, realizava-se a Rampa da FNAT e eram muitos os carros que se alinhavam na estrada esperando a sua vez de entrar em acção. A rampa tinha poucas centenas de metro e percorria, com cronometragem ao segundo, a ladeira que ía do portão da FNAT até ao seu ponto mais alto. Com o seu espírito desportivo, os amigos do meu pai, decidiram, também eles, participar na competição.

Fernando Santa-Bárbara em Hillman Imp - Rampa FNAT 1970

 

A fila de carros dos participantes era tão grande que se estendia até à casa branca da D. Júlia, a quem a minha mãe comprava sacos de batatas.


O clima era de festa e nessa noite, após o jantar de distribuição de prémios na própria FNAT realizava-se um baile. Nós, os mais pequenos, contudo tivemos como alternativa uma sessão do cinema ao ar livre no baldio que ficava (e fica) diante dos muros da FNAT.


No dia seguinte íamos à missa na pequena capela diante dos Vasques, mesmo ao lado do torreão onde antes fora a casa dos falcoeiros marroquinos que Francisco Grandella mandara construir.

E os dias continuavam, constantes e iguais, vibrantes e imemoráveis até ao fim do Verão.


Em memória do Fernando Baptista e de todos aqueles que me fazem valer a pena recordar a minha infância.

Fernando, o mar já não me mete medo. O meu único medo é perder os amigos como tu.





Natércia Barreto - Óculos de Sol




Ronnie Cord - Biquini às Bolinhas Amarelas


Gino Paoli - Sapore di Sale

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O FIM DA ADOLESCÊNCIA



1ª PARTE – DO BANANAS AO JAMAICA

Em 1981 fui estudar para Lisboa mas mantive sempre a minha estreita ligação a Caldas que nunca se perdeu até aos dias de hoje.

De resto, mesmo quando comecei a ganhar novas amizades na grande cidade e a entrosar-me com o ambiente nocturno da capital nunca deixei de repartir os fins-de-semana entre as duas cidades, procurando o melhor de cada uma.

Cafés ou gelatarias como a Versailles, o Galeto, a Ceuta, a Mexicana e a Roma, o Tic-Tac e a Suprema, a Biarritz, a Suiça, a São Remo, a Londres e a Surf faziam as vezes da Zaira, Taiti, Machado, Maratona, Central ou Gato Preto.

Locais de diversão diurna como o Jardim-Cinema substituíam o Camaroeiro.

Bares como o Happening e mais tarde o Xafarix, o Berro, a Drogaria Ideal, o Procópio e o Mosaico, o Bora Bora, o Frágil, o Foxtrot, o Pavilhão Chinês, o Café-Concerto, o Saddle Room, o Deck, o Piper’s ou a Carruagem tomavam por vezes o lugar da Cave do Vale ou da Biquinha, do Café-Tabaco, do Solar e do Sitio da Várzea..

E o Banana Power, o Up and Down, o Ad Lib ou o Stones, o Jamaica, o Van Gogo e o 2001, o Seagull ou o Maria Bolachas, o Plateau (mais tarde) o Loucuras e o Stringfellows, o Roller e o Whispers, o Rock Rendez-Vous e o Noites Longas, o Skylab, o Porão da Nau e o Archote, a Primorosa de Alvalade, o Charle’s Place, o Beat e o Brown’s, o Rolls e o Juliana’s e tantos, tantos outros, iam tomando o lugar do Green Hill, do Bonnie, do Ferro Velho e da Azenha.

Mas nada, mesmo nada, substituía a emoção de estar entre amigos, de encontrar os amigos de sempre, uma emoção que só podia viver nas Caldas!

E sempre que os amigos das Caldas iam à grande cidade era uma grande farra!

Um dia convidei o Rui Rodrigues para ir lá passar uma noite para ver o ‘barulho das luzes’’ de Lisboa.

Arrancámos para o Banana Power e quando chegámos a fila para entrar devia de ter cem metros. Julgo que o Bananas foi a primeira discoteca em Portugal a implementar o conceito ‘’deixa-os secar!’’ para aumentar a curiosidade sobre a discoteca e sua atractividade. O porteiro, o Vitor, era particularmente bom no seu métier e a malta apanhava valentes secas a não ser que fosse um dos seiscentos afortunados que possuíam um cartão para entrar pelo Privé. A minha amizade com a RP valeu-me um cartão azul que não dava tanta patine como o dourado mas já me permitia entrar sem complicações.

Esse cartão foi a sorte de muitos e particularmente de um. Tinha um amigo que tinha uma grande dificuldade em ser monógamo e geralmente mantinha duas namoradas, quando não eram três. E depois não eram simples flirts, tipo uma namorada em cada porto, mas verdadeiros namoros de ir jantar com os pais das desgraçadas a suas casas.

Para a festa do 1º aniversário do Banana Power toda a gente procurou o exclusivo e limitado convite. E claro que as suas duas namoradas lhe pediram para ir! Como resolver então o problema? Bem, disse a uma que ia para fora de Lisboa por compromissos inadiáveis e levou a outra. Só que a primeira dama decidiu ir na companhia das suas amigas e só não deu de caras com o galã porque eu a vi primeiro! Tive que ir a correr avisar o desgraçado que fugiu com o meu cartão para o Privado na companhia da segunda dama (que não sabia de nada, claro!).

O pior foi quando a primeira dama decidiu ela também ir para o Privado! Nessa altura o meu amigo não teve outro remédio se não refugiar-se na casa de banho onde ficou quase toda a noite! No final acabei eu por ir dizer ao seu par que o rapaz tinha tido um desarranjo intestinal e tinha corrido para casa e tive de eu mesmo a levar para sua casa enquanto ele se mantinha na casa de banho, impossibilitado de sair, enquanto a outra namorada se mantinha por perto! Longa história, enfim!

Mas voltemos à primeira história!

Lá entrámos ao som Frankie Goes to Hollywood (Relax don't do it; When you want to to go to it; Relax don't do it; When you want to come) e a pista e todo o varandim estavam completamente apinhados. Nem sequer era divertido lá estar e por uma vez o Vitor tinha razão, alguns teriam que sair para que alguém pudesse entrar.

Frankie Goes to Hollywood - Relax

Perante isto, e após um gin tónico tomado a correr, decidimos dar um salto ao Jamaica de que o Rui ouvira muito falar.


Situado em pleno Cais do Sodré, por baixo dos arcos da Rua Nova do Carvalho e entre várias casas de alterne, o Jamaica era o centro da juventude mais ligada à actividade artistica e cultural. Como o nome indicava, a cultura reggae estava muito presente (com posters de Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff e dos Wailers um pouco por todo o lado) mas no Jamaica tocava-se de tudo, desde que fosse bom!

Como habitualmente antes de entrarmos fomos ganhar ânimo ao Flor do Alecrim, uma taberna louca, louca, onde metíamos uns valentes pernaltas!

O Jamaica tinha o Dj mais popular de Lisboa, o homem da rádio Mário Dias, mas naquele dia da semana era habitual a presença de Luis Filipe Barros e não podíamos perder a oportunidade.

Mal entrámos, o Rui deu de caras com uma moça bastante avantajada que sentada em cima do balcão à direita da porta de entrada olhou para ele, abre a camisa e mostra-lhe os seus belos seios!

- São giros não são?! – perguntou-lhe ela quase gritando-lhe ao ouvido. O Rui olhou para mim de braços abertos e cara de espanto. A coisa começava bem! Bem vindo ao Jamaica!!!

A noite até acabou por ser bastante agradável e alegre não fora o facto da dita moçoila no final da noite vir meter-se de novo com o Rui mas pelo facto de estar completamente embriagada e convictamente mal disposta, lhe ter vazado da pior maneira o jantar em cima do colo! Bem digamos que as calças tiveram que ir para lavar e o que vale é que tínhamos ido no seu carro!

Mas as noites de tour turístico para os amigos caldenses não acabaram por aí!


Fim da 1ª Parte



2ª PARTE - UMA MEMÓRIA FRÁGIL


Uns tempos mais tarde o meu querido amigo João Pedro Correia, João ‘’Mas’’ para os íntimos, decidiu visitar-me e conhecer ele também as noites lisboetas.

‘Bora para o Frágil!

Na altura o Frágil seria um dos bares mais em voga em Lisboa. Rumámos ao Bairro Alto e lá fomos tentar entrar no bar. Vá Lá! Tivemos sorte! A Margarida Martins (sim a agora Presidente da Abraço!) era a porteira do Frágil e tornara-se famosa por querer imitar os porteiros do Studio 54 em Nova Iorque, ou seja, só deixava entrar quem queria e de uma maneira muuuuuito subjectiva! Mas devia ter um novo amor naquele dia e estava particularmente bem disposta, deixando-nos entrar.

Medley Top 1984 - Parte 1

A noite foi óptima e recordo-me de ter visto o ex. ministro da cultura francês Jack Lang, de jeans, numa amena cavaqueira com alguém famoso cá do burgo.

Conhecemos então duas moçoilas e após muita conversa e alguns copos a coisa compôs-se e elas convidaram-nos para ir a sua casa.

Um parênteses aqui para explicar que eu nunca fazia más figuras quando estava com os copos, aliás ninguém conseguia saber quando eu estava com os copos excepto quando as coisas se sucediam. O meu único sintoma de bebedeira era esquecer-me por completo do que estava a fazer e ligar o piloto automático que me levava em segurança, e sem eu saber como, até casa! Só quando davam pela minha falta, presumindo que eu não andava a vadiar, os meus amigos sabiam o que tinha acontecido, e isso geralmente só podia ser confirmado na manhã seguinte (e é claro que muitas vezes essa desculpa me deu um jeitão!).

Medley Top 1984 - Parte 2


Bem, por volta das quatro da manhã saímos os quatro do Frágil. Elas tinham o seu carro na Rua Nova da Trindade e eu no Príncipe Real. O João Pedro ficou a acompanhá-las enquanto eu ia, já meio zombie presumo, buscar o meu carro.





Eram seis e meia da manhã toca-me a campainha de casa!

- Que raio! - Pensei eu. – Quem é que me está a tocar à porta a esta hora?! Espero que não seja alguém a dar-me uma má noticia! – Sempre que o telefona toca a horas despropositadas penso no pior.

- Quem é? – Pergunto pelo intercomunicador meio ensonado e com a cabeça a doer como um raio!

- João Pedro! – Respondem-me de baixo.

- Que raio?! – Estranhei. – Então mas ele não está já deitado? O que é que ele faz na rua?

Tento me lembrar do fim da noite mas não consigo.

O João Pedro entra-me em casa mas não vem muito zangado, apenas intrigado.

- Então pá?! O que é que te aconteceu? – Abre os braços inquisitivos. – Deixaste-me pendurado com as duas miúdas! Ficaram a pensar que tu és louco. Aliás que somos os dois loucos! – A irritação começou a transparecer na sua voz. – Fartámo-nos de esperar! Fomos á tua procura, preocupados, e finalmente deixaram-me ali plantado e foram para casa furiosas.

Eu fiz um trejeito de surpresa. Não me lembrava absolutamente de nada.

- Lembro-me de ter ido buscar o carro sim mas a partir daí estou com uma branca! – Tentei explicar. – Não me lembro de mais nada, pensei que tínhamos vindo os dois para casa.

- E não te lembras das miúdas? Estragaste uma grande noite, foi o que foi!

Eu encolhi os ombros, não conseguia mesmo me lembrar de nada.

- Ainda por cima eu não conheço Lisboa, não sabia o nome da tua rua, só o número da porta e do andar. – Continuava o João Pedro – Só sabia que ficava perto do Campo Pequeno e que o teu prédio é cor-de-rosa com uma arquitectura esquisita à Taveira e tinha duas portas, o nr. 20 e o nr. 22! Tive que apanhar um táxi para o Campo Pequeno e depois lá dei com a rua e com a casa! – Nessa altura já ele descia as escadas em direcção ao quarto.

Já não disse mais nada para não agravar a situação.



No dia seguinte íamos a sair para tomar o pequeno almoço ao Tic-Tac, na Avenida de Roma, quando me cruzo com o porteiro do prédio, o velho e educado Sr. Brettes, um retornado da Índia e depois de Moçambique a quem a vida fora madrasta.

- Boa tarde Sr. Caiado. – Cumprimentou-me com um sorriso muito divertido. – Então a noite ontem foi boa, hem!

- Como?! – Inquiri surpreendido.

- Bem, ontem durante a noite vim à rua fumar um cigarrinho e passear o cão e vi-o a chegar. – Explicou – Estranhei que não estivesse estacionado na garagem como é habitual e até subiu depressa demais o lancil ali do estacionamento!

Continuei a olhar para ele à espera da sua conclusão.

- Depois ficou uns bons dez minutos a olhar para o prédio como que a pensar qual era a porta por onde entrar! – Deu uma grande gargalhada! – Tive que o convidar a entrar!

Nossa Senhora da Agrela! Que vergonha! Juro que nunca mais me meto numa assim!


Fim da 2ª Parte

 
3ª PARTE - SARA
 
Passaram-se dois anos.

Vinte anos desde que o Dr. Leonel Cardoso me escrevera os versos, quinze anos desde o Magusto do Ramalho Ortigão, treze anos desde o exame da quarta-classe, das matinés do Casino, desde o meu encontro com a Iris. Tinham-se passado onze anos desde que o Miguel recebera a moto e seis anos tinham passado desde a excursão de finalistas.

O Verão estava agora a terminar.

Acabara uma intempestiva relação com uma menina que se viria a tornar uma das caras mais conhecidas do jet set nacional. E do jet oito!

Tentara esticar a minha adolescência até onde pudera. Trabalhava e estudava em simultâneo mas o espírito era o mesmo. Salvo nos períodos de exames e de frequências e/ou de maior aperto no trabalho, continuava a desfrutar bem das noites e dos fins-de-semana e sobretudo dos períodos de férias. Sentia-me ainda o mesmo adolescente que estudara no liceu do Parque e que fora uns anos antes para Lisboa.

Naquele Verão lancei-me numa corrida desenfreada de namoros por uma semana, de sábado à noite a sexta à noite! Tentava esquecer algo ou pressentia que era o fim de uma era?

Num sábado à noite do inicio de Setembro saio com uma amiga, a Luisa. Começamos pela Cave do Vale, depois Sitio da Várzea, está calor e vimos para a varanda, cá para fora. À minha frente na escuridão da noite estão o picadeiro e o velho court de ténis que eu inaugurei no dia em que a Daisy Ruano , dona da casa das palmeiras no centro da Foz , estreou as suas cavalariças e o seu court de ténis. Como a filha não conhecia ninguém das Caldas, pediram-me para vir jogar ténis com ela. Que seria feito dela, de todos eles?


Matt Bianco - Yeh-Yeh

Finalmente o Dreamers. Entro ao som do Matt Bianco ‘’Yeh Yeh’’! Entro pelo corredor à esquerda e vou cumprimentando aqueles com quem me cruzo, vou ainda beijar umas amigas que estão numa mesa sob a varanda em baixo. Digo adeus aos jogadores de snooker. Subo então com a minha amiga os poucos degraus que me separam da placa diante do bar e em frente da pista de dança dou de caras com o João Mas e uma amiga. A vida começa a pegar em algumas pontas!

O João Pedro vai para me apresentar a sua amiga mas eu nem o deixo terminar.

Como eu me lembrava dela! Há tantos anos atrás, com os seus quinze ou dezasseis anos, sentada no muro em frente ao Caravela na companhia dos irmãos e dos amigos! Como eu me lembrava do seu pólo azul e dos seus calções curtinhos de ganga cheios de remendos de gangas de outras cores (era assim que se usava!). Como eu me lembrava dos prolongados olhares trocados no Ferro Velho e no Green Hill. Ela, disse-mo depois, não reagia aos olhares pois pensava que eu era muito mais velho e estaria certamente mais interessado noutra que deveria estar nas proximidades, por outro lado as irmãs advertiam-na para a fama que eu tinha de não assentar!

Iria finalmente conhecê-la! Era certo que já conhecia um seu irmão e uma sua irmã, mas a ela perdera-a de vista pela sua ausência em Verões consecutivos.

Naquela noite penso que a Luisa acabou por estar muito mais tempo a falar com o João Pedro do que comigo pois eu aproveitara a oportunidade e parecia estar a tentar recuperar todo o tempo perdido, numa prolongada conversa com a amiga do João Pedro.

No final da noite ela disse-nos que na quarta-feira seguinte iria dar um jantar muito informal, após a praia, para alguns amigos, na sua casa de praia junto ao Palácio dos Viscondes de Morais. Por gentileza convida-nos a todos!

Na quarta-feira seguinte vejo-a na praia, está frio e o céu encoberto. Calções de caqui do tempo da tropa do seu pai, devidamente ajustados, claro, e mantém-se o gosto pelos pólos. Fico a observá-la à distância, vejo os seus gestos, o modo como brinca com as crianças. E o seu riso genuíno. Que riso feliz!



Aproximo-me para a cumprimentar, faz-me um largo sorriso e cumprimenta-me como a um velho amigo.

- Vais lá logo à noite jantar. Não vais?

Eu encolho os ombros. Explico-lhe que recebi o seu convite como uma gentileza, uma cortesia por estar diante do João Pedro quando o convidou. De qualquer modo o João Pedro estava naquele dia em Lisboa e não voltava a tempo do jantar e a Luisa partira para o Redondo.

- Que disparate! Eu convidei-te por ti, não por estares com o João Pedro – ralhou ela. – Tenho muito gosto em que venhas!

Anui com a cabeça.

– Então vou! – E fiquei-me ao pé dela pelo máximo de tempo possível.

O dia não descobriu e ela regressou a casa e eu voltei para os amigos na minha barraca, terceira fila a contar do inicio.

À noite chego a sua casa. Abre-me a porta a Bedi, no corredor cumprimento a Bébé que não vejo há um ano, depois aparecem os Sottomayor. Venho a encontrá-la na cozinha, à volta com os tachos e uma panela. Spaghetti al dente. Bonito, detesto spaghetti al dente!

O jantar contudo correu de forma excelente apesar de me sentir ainda um pouco deslocado nas conversas pois não fazia habitualmente parte daquele grupo mas cada sorriso dela dava-me alento para mais uns minutos. Devem ter sido muitos sorrisos!

No dia seguinte telefonei-lhe a agradecer e convidei-a para jantar no sábado seguinte.

Fomos ao Foz Praia, o Jaime, cozinheiro do Páteo da Rainha, mudara-se para aqui e com ele a sua famosa receita de arroz de tamboril. Vinho branco a acompanhar e a menina a ficar com as faces ruborizadas pelo vinho que nunca bebera.

Depois fomos ao Green Hill e encontrámos o Rui com as minhas irmãs, o circulo completara-se! Do Jamaica ao Frágil, do Dreamers ao Green Hill!

O Green Hill estava a abarrotar como era hábito nas noites de sábado, embora fosse já Setembro. Bebemos uns gins e circulamos sem dançar. Está quente e muito fumo. Ela detesta ambientes cheios de fumo! O cheiro agarra-se aos cabelos e não sai com o ar fresco!

Decidimo-nos pelo Dreamers e vamos todos em grupo. Pergunta-me se vale a pena levar a carteira. Digo-lhe que não. Não há necessidade e escusamos de estar na fila do bengaleiro no fim.

Cumprimento o Ranhadas e peço depois um whisky da minha garrafa, a número 8, o Rui tem a número 7. As raparigas ficam pelos vodca laranja mas ela não bebe álcool e fica-se por um sumo de laranja.

Matt Bianco - More Than I Can Bear

A companhia é tão boa que a noite prolonga-se. A pouco e pouco todos os amigos vão saindo e ficamos os dois, a sós, no meio da multidão. Estamos os dois no varadim, à esquerda da pista, a ver os que resistem na pista de dança e que ainda são muitos. Matt Bianco canta ‘’More Than I Can Bear’’ Digo-lhe que vou num instante à casa de banho. No bolso levo o dinheiro e a senha das bebidas.

Passam-se 10 minutos, meia hora. E eu não volto.

Preocupada pede a um rapaz que entre na casa de banho e veja se eu estou bem.

Não está ninguém!

Percorre toda a discoteca entre surpreendida e zangada mas não me encontra. Volta à entrada e pergunta por mim.

- Já saiu, há uma boa meia hora! – diz-lhe o Jorge que estava de serviço à porta.

Fica então furiosa. Boa! Como vai agora sair sem dinheiro e sem a senha das bebidas? Sem carteira e sem transporte?!

O que vale é que a casa é perto e os porteiros, o Jorge e o Zeca, são amigos. Explica-lhe a situação e o Jorge sorri-lhe. A conta já está paga, pode sair à vontade!



Conta-me depois que saiu disparada em passada larga em direcção a casa. Olha se morasse nas Caldas?! Nem quer pensar. Conta-me ainda que os primeiros engraçadinhos que pararam para se meterem com ela levaram com o maior chorrilho de asneiras que alguma vez disse e que não voltou a utilizar.

O que é que me tinha dado!

No dia seguinte acordo cedo, de cabeça um pouco pesada mas bem disposto. Faço uma visita à praça e perto da hora de almoço telefono-lhe para o fixo, ainda estavam longe os telemóveis!

- Mas que lata a tua!!! Que bicho te deu? És parvo ou quê? Como é que tu me deixas sozinha na discoteca? E com a conta por pagar! Onde está a minha carteira?

Fico completamente surpreso, só me lembro da noite até à altura em que fui à casa de banho. Depois é um vazio. Meu Deus! Entrei de novo em piloto automático! Há quantos anos isso não me acontecia. Lembrei-me daquela vez no Frágil com o João Pedro.

Voei para a Foz, enchi-me de mil desculpas, expliquei-lhe o que acontecera. Intercedi por mim e jurei que não deixaria que aquilo me voltasse a acontecer! Jurei, jurei e pedi desculpas até que ela acreditou em mim.

No sábado seguinte saímos de novo e enquanto eu ia no carro a subir para o Green Hill disse-lhe que um dia me casaria com ela. Ela riu-se, ainda nem sequer namorávamos! Eu nunca dissera isso antes a uma mulher, nem sequer o pensara, mas também nunca tivera uma convicção tão forte.

Eu tinha a certeza que aquilo iria acontecer como quando oito anos mais tarde eu lhe disse com a mesma convicção e sem nunca o ter dito ou tentado antes, que iria deixar de fumar naquele mesmo momento, com um SG Gigante nos dedos e 19 cigarros no maço! Até hoje!

Simply Red- The Right Thing

Entrámos no Green Hill, cumprimentámos o Sr. Beja na entrada e dançámos ao som dos Simply Red ‘’The Right Thing’’.

Nessa mesma noite, em casa da Célia Vibaldo, ouvíamos Cock Robin ‘’The Promise You Made’’, mais uma das músicas que me lembrarei para sempre e que ficaram como sendo uma das ‘’nossas músicas’’, músicas que não escolheramos mas que marcaram os momentos inesquecíveis dessa semana. Pensei então para comigo ‘’ou vai ou racha!’’ e beijei-a.

Naquela noite, vim depois a perceber, terminara a minha adolescência!

Cock Robin - The Promise You Made

Faz hoje exactamente vinte e quatro anos!

Uma nova fase da minha vida começara, mais responsável, menos agitada, mas muito mais gratificante.

Uma vida com grandes alegrias e pequenas tristezas que me fazem muito mais querer prosseguir para o capítulo seguinte do que voltar às memórias de um passado distante. Uma vida a dois, a quatro e depois a seis, com momentos inesquecíveis, sofridos ou felizes que para transcrever com maior exactidão teria de recorrer não a crónicas mas a poemas!


Aos meus filhos

para saberem como fui
para saberem como foi


FIM



Fleetwood Mac - Sarah

Jefferson Airplane - Sarah