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sábado, 27 de novembro de 2010

ÉRAMOS ENDIABRADOS - AS MEMÓRIAS DA MARIA JOÃO



Desde que comecei a ler as crónicas do Paulo pensei escrever qualquer coisa, mas a vida agitada, o excesso de trabalho e essencialmente, o não ter a certeza do que gostaria de partilhar que constituísse memória dos anos em causa, levaram-me sempre a arrepiar caminho.

Lembro-me de inúmeras peripécias desses tempos, que envolveram amigos e colegas de escola em situações mais ou menos caricatas. Do que me lembro essencialmente é que constituíamos uma geração engraçada e algo provocadora, numa época em que se estabelecia a transição entre as educações rígidas que a maioria de nós teve, e as bastante menos rígidas, já para não dizer, talvez um pouco facilitadoras demais, que a maioria de nós acabou por dar aos filhos.

No nosso tempo não se questionavam as opiniões e ordens dos mais velhos e cumpria-se um sem fim de regras, que agora nos parecem na sua maioria obsoletas. Até nos rimos quando recordamos que tivemos de implorar e batalhar pelo direito de ir a pé para a escola, ao passo que agora, os nosso filhos nem imaginam a possibilidade de não serem transportados para todo o lado por pais, avós ou quem quer que tenha alguma disponibilidade.


A minha irmã dizia-me há uns anos que por vezes se sentia um híbrido entre táxi e multibanco e parece-me que muitos de nós já tiveram essa sensação, nem que fosse por uma vez. Os nossos filhos convencem-se por vezes de que fomos um grupo ordeiro que jamais deixava de cumprir aquilo que estava estipulado e, embora em grande medida fosse isso que era de nós esperado, o facto é que nem sempre assim acontecia.


A grande diferença em relação ao que hoje se passa, era que nós fazíamos imensas coisas que não eram bem aquilo que entre aspas, deveríamos, mas sempre com alguma consciência dos limites que não se podiam mesmo ultrapassar.

Hoje em dia, penso que muitos miúdos se esquecem desses limites e isto é uma questão absolutamente transversal em termos sociais. Não é um problema de ricos e pobres, ou de mais ou menos cultos e educados, mas algo que se tem vindo a enraizar na sociedade de tal maneira, que mesmo os pais que têm noção de que as coisas não estão muito bem, acabam por ter dificuldade em remar contra uma maré que se avoluma e ganha força de dia para dia. É o conceito do “eu mereço”, que se difundiu num clip publicitário de um leite qualquer, mas se traduziu entretanto, na ideia de que tudo merecemos e a tudo temos direito, quando de facto nem tudo merecemos e muito menos, a tudo temos direito.

De qualquer forma, e voltando ao tema inicial, nós éramos endiabrados e muito nos divertimos com isso. Por isso e para que os participantes se lembrem e riam, e os não participantes também se possam rir, aqui ficam alguns registos de peripécias mais ou menos amalucadas de que me recordo.

A primeira que me ocorre é sem dúvida uma célebre noite no Inferno da Azenha em que estava com as amigas de sempre: a Lúcia, a Isabel, a Minela, a Sami e de certeza mais umas quantas. Estávamos no primeiro andar e todas ou quase todas já um bocadinho entornadas, quando de repente dou com a Minela a descer as escadas muito devagarinho, e a cada degrau que descia, dizia uma célebre frase que ficou para a História: “Minela, uma senhora nunca se embebeda.”, e lá descia mais um degrau…

Foto de Margarida Araújo

Outra peripécia engraçada mas bem mais antiga, remonta ao meu sétimo ou oitavo ano, quando decidi com a Anita não ir a uma aula qualquer, que entretanto já tinha começado. O problema foi que tínhamos os livros e cadernos dentro da sala e precisávamos de os tirar de lá, de forma que, achámos por bem pormo-nos de gatas e, quando o professor abriu a porta, puxar-lhe pelas pernas das calças e pedir-lhe que se afastasse, que íamos só lá dentro buscar uma coisa… e lá fomos nós de gatas ao outro lado da sala buscar os nossos pertences, e de novo até à porta, perante o olhar estupefacto de professor e colegas. Penso que o Prof. ainda hoje deve pensar porque carga de água não reagiu…

Também me lembro de passar uma aula de inglês inteira a mudar a fralda a um rato de pano com a Anita. Usámos um lenço de papel e conseguimos boicotar completamente o trabalho da desgraçada que teve e infelicidade de nos ter na turma. O problema era que ainda por cima éramos alunas de vinte a inglês e portanto as represálias não eram fáceis de exercer. Enfim, as coisas que os professores aguentavam… eram pelo menos mais divertidas que as que aguentam hoje, e bastante menos graves.

Também me lembro de um célebre sardão que o Mota largou no liceu… Deu um frufru medonho, houve senhoras em cima das mesas aos gritos e finalmente, quando o sardão foi apanhado e barbaramente encarcerado, pelo Padre Eduardo se não estou em erro, que há-de ter sido o único que lhe conseguiu mexer, os felizes proprietários do animal vieram-me pedir emprestada a pastora alemã para proceder ao resgate. Lá emprestei o bicho mas fiz questão de os avisar que não era grande defesa pessoal de tão amaricada a tínhamos feito. Não se importaram muito, alegando que o Padre não sabia dessas fraquezas da cadela e lá foram, exigir a devolução do sardão, sob pena de atiçarem o cão. Penso que ainda hoje poucos sabem que a pastora era um doce, habituada a brincar com crianças e incapaz de fazer mal a uma mosca. Ehehehe!


Ainda no Liceu, lembro-me bem de saltar pelas janelas dos laboratórios do rés-do-chão para ir laurear a pevide para o Parque; lembro-me também que laurear a pevide significava entre outras coisas, passeios de barco no lago com os pés descalços dentro de água, passar a tarde deitada na relva a roer uma palhinha, muito namoro e alguns passeios para a Foz e S. Martinho, esses mais tarde, já de carro e de mota.

Com a Anita lembro-me de no Carnaval deitarmos estalinhos da janela do terceiro andar da casa dela cá para baixo, e ficarmos deliciadas a ver as senhoras aos gritos e os collants a ficarem cheios de malhas com as faíscas pequeninas que aquilo deitava.

Por essa altura também tínhamos o hábito de ouvir música num volume de som tal que qualquer pessoa que passasse na rua três andares abaixo, poderia identificar claramente as músicas que ouvíamos. Quantas vezes a vizinhança se queixou e quantas vezes a mãe dela se exasperou connosco…

Voltando ao Liceu, lembram-se de quando um professor bem-intencionado se lembrou de dar umas aulas de educação sexual e da raia que isso deu? O infeliz quase foi expulso por estar a corromper as criancinhas e as criancinhas permaneceram tão desinformadas como estavam antes. Os puritanos da época regozijaram-se e à conta disso possivelmente, mais uma ou outra rapariga engravidou a destempo, mais um casalinho se formou prematuramente e mais uns avós tiveram de ajudar a criar netos de filhos adolescentes. Não é que a coisa não continue a acontecer, mas penso (espero..) que já não passaria pela cabeça de nenhum de nós achar que os meninos devem ser mantidos na ignorância.

Também me lembro de uma célebre professora de Português que decidiu dar gramática ditando o conteúdo de uma gramática. Já na altura eu tinha algum sentido prático e perguntei-lhe se aquilo que estava a ler era uma gramática, porque nesse caso se não se importasse, podia dar-me a referência da dita e eu trataria de a comprar e ler, em vez de estar a escrever definições no caderno. Escusado será dizer que ficou absolutamente furiosa e aí… ai que há gente que tem mesmo falta de sorte… não é que me disse que agarrasse nas pernas e fosse para a rua. Quem lá estava deve lembrar-se: saí mesmo agarrada aos joelhos… mais uma aula transformada num circo.

Eu era tramada mesmo, tenho de reconhecer, mas também tinha por lá umas acompanhantes jeitosas. Normalmente eram a Anita e a Isabel Martins, depois juntou-se-nos a Paula Nascimento da Benedita, enfim… meninas com ideias brilhantes. Quando não nos divertíamos a fazer a vida negra aos professores, entretínhamo-nos a escolher os colegas mais tímidos da turma e fazer tudo o que pudéssemos para os fazer corar. Miguel desculpa. Não tínhamos má intenção, mas tu ficavas mesmo giro vermelho que nem um pimentão…

Mas há mais algumas engraçadas: uma das melhores foi quando os três casalinhos da vida airada (leia-se eu com o Quintino, a Anita com o Mota e a Isabel com o Clérigo) tinham o bonito hábito de namorar nas escadinhas da sala de trabalhos oficinais, por traz do Liceu. A coisa estoirou quando um belo dia de manhã a porta das traseiras apareceu fechada a sete chaves. Nunca tivemos s certeza que fosse por nossa causa, mas tudo indicou que sim, a começar nos rumores que por lá andavam. Garantidamente que foi, ou por isso, ou porque o Mota se lembrou de entrar de mota no Liceu pela porta de cima, descer as escadas todas ainda de mota e, sair triunfalmente pela porta principal lá em baixo, com uma quantidade de funcionários a correr atrás dele aos gritos…


Falando em peripécias de mota com o Mota, também me recordo de um célebre passeio de mota em que eu ia com o Quintino, e a Paula Nascimento com o Mota, até que ali para as bandas do Campo, ela lhe meteu o bolso no blusão, deu um valente grito, saltou borda fora, aterrou de rabo no chão, e o Mota parou muito chateado porque ela lhe tinha entretanto feito desaparecer a cobra que ele tinha no bolso…

Voltando às peripécias no Inferno na Azenha, lembrei-me agora de repente de mais três. A primeira foi quando fizeram lá uma rusga, eu, a Lúcia e nem sei mais quem não tínhamos idade para lá estar e nos enfiámos na casa de banho; qual não foi o nosso desconcerto quando a Belão decidiu porque decidiu, que havia de ir à casa de banho naquele momento. Ora mesmo ao lado estava a polícia, o Jorge não conseguia arranjar maneira de lhe explicar porque era que lá estávamos e ela fez um escabeche à porta da casa de banho. Lá a deixámos entrar e ela lá se calou mas ainda hoje acho que a polícia só não nos encontrou porque não quis.

Entretanto nessa altura era também hábito, sairmos da Azenha e ir passear pelas Caldas. Íamos ao pão quente, às vezes directos para a praia, eu sei lá. Lembro-me de que uma vez, andávamos de carro a passear pelas Caldas lá para as sete da manhã e começámos a ver passar as senhoras já velhotas que se levantam cedo, para passear os cãezinhos. Daí a lembrarmo-nos de nos meter com elas porque eram umas vadias, que àquela hora andavam ainda na galderice, foi um passo. Na altura elas riam-se mas se fosse nos dias que vão correndo, o mais certo era as senhoras fugirem o mais que pudessem, com medo de serem assaltadas…

Finalmente, e para terminar este conjunto de peripécias mais ou menos engraçadas, mais ou menos rocambolescas, aqui fica uma que bastante me custou e quem estava presente certamente recordará: o dia em que e minha mãe me estabeleceu uma hora para estar em casa e como não a cumpri não foi de modas – meteu-se ao caminho até à Azenha e pregou-me um valente estalo em plena pista de dança. Essa doeu, mais na alma que na cara, mas doeu. Enfim, ela tinha alguma razão…

Não penso que o fizesse mas os tempos agora também são outros, o que me leva de novo à reflexão inicial, sobre as diferenças de educação entre nós e os nossos rebentos. Ainda não sei dizer qual é melhor, se a nossa se a deles. Penso que ambas pecaram por alguns excessos, sendo que naturalmente os excessos dos nossos pais foram por nós evitados, mas em contrapartida inventámos os nossos próprios excessos. Isto de educar meninos não tem receitas e não é fácil evitar alguns erros. Nós fomos talvez educados com demasiada severidade, até porque ficou patente nas linhas acima, que sempre tivemos meios de ultrapassar a maioria das regras. Os nossos filhos tiveram talvez a vida facilitada demais e muitos sofreram por falta de preparação para o mundo real, fora da saia da mãe e da mão protectora do pai. Se os nossos filhos conseguissem evitar os erros dos pais e dos avós seria fantástico, mas infelizmente a memória de cada geração é principalmente prisioneira dos factos vividos e esses confinam-se quase exclusivamente à geração anterior.



Post de Maria João Sacadura

quinta-feira, 8 de julho de 2010

UM VINHO DO PORTO COM MAIS DE TRINTA ANOS




Estávamos em 1978 na primeira Feira da Fruta realizada no parque das Caldas (Parque D. Carlos I para os que não sabem!).

Foi uma grande experiência em termos profissionais e uma verdadeira festa em termos pessoais. Adorei todos os momentos daqueles 10 dias de Feira, os stands alinhados nas alamedas e veredas nobres do parque, da Casa da Cultura (antigo casino) ao Ténis, no Parque das Bicicletas e por trás do museu e daqui até ao roseiral, da esplanada ao longo do lago circundando-o até à Casa da Cultura.

Três palcos de variedades (dois junto ao roseiral e um terceiro na ilha do lago), Rao Kyao ao vivo a tocar o álbum Bambu…

Manhãs, tardes e noites de festa, com muita gente vindo de todos os cantos do país, aproveitando a praia, a Feira do 15 de Agosto, o Torneio de Ténis com o nome do meu avô Francisco e a saison das Touradas de Caldas e Nazaré.

Meio Liceu e meia Bordalo Pinheiro estavam presentes, trabalhando nos stands ou nos serviços de apoio, quase ninguém faltou e os que não arranjaram um emprego passavam por lá o dia confraternizando e provando os petiscos e amostras de cada stand.

Mas foi também um momento de novas amizades, algumas que perduraram até hoje.

Para muitos foi apenas o inicio de um reencontro anual que fazíamos com muitos que só nos visitavam por essa altura. Lembro-me do grupo da Covilhã da Cooperativa de Orjais (Alô Número Uno!) o grupo sensacional do Porto e Coimbra que apareciam com demonstrações das avós da Bimby, os electrodomésticos multi-usos Steca – ‘’o robot da cozinha’’ (Duarte, Zé Manel Moura Guedes, Chico Pavão) e que de tão divertidos juntavam autênticas multidões diante do seu stand enquanto decorriam as demonstrações de confecção de sopas, batidos e sobremesas!

Lembro-me também do Duarte do Pavilhão da Madeira que tinha um sotaque tão cerrado que mal se fazia entender. Um dia estávamos todos a contar anedotas e no meio da conversa o Duarte – que era bem mais velho do que nós – disse que não se podia estar a rir porque alguém que lhe era familiar acabara de morrer e começou a contar os pormenores do seu falecimento. A Paulinha Nascimento não estava a entender nada e pensou que ele estava a contar uma nova anedota, como no fim ninguém se rira ela sentiu-se na obrigação de ser solidária e deu umas gargalhadas forçadas perante o nosso espanto e gozo e o ar consternado do Duarte.

O stand onde trabalhava ficava mesmo diante da esplanada e um pouco mais abaixo, ao lado da esplanada ficava o stand do Instituto da Vinha e do Vinho. Era um dos stands mais concorridos pois faziam degustações de vinhos de mesa e de Vinho do Porto. Era uma autêntica azáfama para quem nele trabalhava, a Nela, a Guida ‘’Grande’’ e a Guida ‘’Pequena’’ (era assim que eu as nomeava para as distinguir).

As três primas eram giríssimas e amorosas e acabávamos as noites sempre no seu stand a fazer degustações de vinho do Porto e a receber miniaturas de garrafas de várias marcas do dito cujo.

Essa colecção que eu formei, guardei-a durou até há um ano data em que o meu sobrinho Manel me convenceu a doá-la (dizia ele que iniciara uma colecção!Pois!). Foi emborcada em duas noites pelo Manel e seus amigos!

Salvou-se uma pequena garrafa que ficara esquecida!

Nos olhos da Margarida Grande à la Elizabete Taylor podia-se ver o céu! Mas era a Margarida Pequena quem me atraía.

No último dia da Feira iniciou-se uma tradição que se estendeu até ao fim das feiras no parque. Após o encerramento da Feira, os expositores distribuíam tudo o que tinham nos stands pelos seus colegas dos outros stands e cada um fazia um cabaz de víveres que levava para casa. Antes disso, juntávamo-nos todos na ilha do lago e fazíamos uma grande festa de confraternização com música ao vivo e uma churrascada.

Nessa noite as primas brindaram-me com uma garrafa de Vinho do Porto e eu fui para a ilha com a Margarida Gaspar e os seus primos, o Fernando, o Pedro e o Armando Vila Verde e a garrafa por baixo do braço.

O pior foi que, na maluqueira dos nossos 15 anos, para me armar à frente da Margarida decidi abrir a garrafa e ir bebendo. Despejei a garrafa toda naquela noite!

Podem imaginar a bebedeira e o tamanho da ressaca. Acreditam que essa ressaca dura até hoje e não que consegui mais beber vinho do Porto?

Bem mas a minha amizade com aquelas meninas e os seus primos dura até aos dias de hoje, nem parece que foi há já trinta e dois anos!

Nem parece que foi há trinta anos que a mãe e a tia da Margarida nos punham aos dois a lavar os pratos sempre que eu ia jantar à sua casa de férias em S.Martinho. Era galhofa certa toda a noite e a louça demorava três horas a ser lavada!

Nem parece que foi há trinta anos que pus a Margarida sentada à amazona no quadro da minha bicicleta para irmos a casa do Tó e da Gúgú e nos espetámos contra a senhora que vendia bolacha americana na praia de S. Martinho e lhe partimos as bolachas todas!

Nem parece que foi há quase trinta anos que nos juntávamos, eu a Margarida, o Nuno Cardoso Lemos e o Diogo Alpoim, a Sofia Pinto Coelho, a Xú-Xú e a Paula Antunes, todos na Toyota Hiace da Sofia Fonseca para irmos ao Deck e ao 2001 ou ao Seagull!

Parece impossível pensar que foi ainda ontem que a Margarida vivia em casa dos seus pais na Rua de S. João Nepumeceno e que eu ainda hoje me lembre do seu número de telefone!

Uma amizade tão longa e e calorosa quanto um bom Vinho do Porto.

Hoje a Margarida faz anos (finalmente Margarida lembrei-me disso em tempo útil!) e como excepção, vou abrir a pequena garrafa de Vinho do Porto que me restou e bebê-la, fazendo um brinde à nossa antiga, genuína, doce, calorosa e especial amizade de trinta e tal anos.

Como um bom Vinho do Porto!

À nossa amizade Margarida. Feliz Aniversário!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

CATS



Nos finais dos anos 70 foram criados os OTL – Ocupação dos Tempos Livres – e muitos de nós viram nisso uma oportunidade de ganhar uns cobres durante as férias de Verão. Uns elementos da Câmara Municipal encarregavam-se de distribuir as tarefas pelas várias equipas de jovens.

Já não me recordo de todos os elementos que constituíam a minha equipa de uns 6 ou 7 mas estava de certeza a Teresa Lamy, a Ana Paula Lopes e o Luís Filipe ‘’Cat’’. Pintámos nesse Verão todo o gradeamento do lago, o gradeamento do coreto e uma boa parte do gradeamento da rua da Machado. Ajudámos a montar os stands da 1ª Feira da Cerâmica onde trabalhámos posteriormente como guia-intérpretes para os turistas que nos visitavam.

A Ana Paula e o Cat estavam muito apanhadinhos um pelo outros mas coitadinhos, dava-lhes a timidez e não havia meio daquilo se desatar! Puxávamos por um, puxávamos por outro, e nada! Cada um achava que o outro não estava interessado.

Um certo dia, estávamos a pintar o gradeamento junto ao portão do parque que fica para a Machado, e eu já farto daquele anda-não anda, peguei no pincel com tinta verde e sem que ela se apercebesse, pintei nas costas da bata branca da Ana Paula um enorme ‘’I Love Cat’’. Ela andou que tempos com a bata vestida sem se aperceber da situação. Foi remédio santo e o Luis Filipe lá ganhou coragem para a declaração.

Passado algum tempo lá me fizeram vir de propósito e de madrugada do Algarve, onde gozava férias, para vir ao seu belo casamento. Depois da celebração na Igreja do Pópulo seguiu-se uma looooooooooooooooooonga sessão de fotos...no parque, onde havia de ser?!

Será que alguém se lembrou que aqueles gradeamentos que se viam de fundo foram a causa daquela união?

À noite lá voltei eu para o Algarve pela estrada fora, que naquele tempo ainda não havia autoestrada ou pelo menos perdi-me dela em Setúbal e nunca mais a encontrei!

Hoje continuam alegremente casados e foram avôs aos quarenta e poucos anos.

Alguém me está ainda a dever um copo!



I say a little prayer for you (My best friend's wedding)



Cats Musical - Memory

segunda-feira, 21 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

A AMIZADE ESTÁ AO VIRAR DE UMA ÁRVORE



Olhei para o relógio. Eram 15h30 de hoje. Ainda tinha uma hora e meia antes do inicio do Grande Prémio do Canadá.
Decidi-me por ir ao parque e tirar finalmente algumas fotos dos recantos que me marcaram a adolescência, antes que fosse tarde de mais, como o Salão ibéria ou o lago junto aos courts de ténis.
Estacionei junto à Fábrica da Bordallo Pinheiro. Constatei que felizmente a loja tinha gente de visita. Vamos ver se aguenta! A alma das Caldas está morrer e há muitos que não estão a dar por isso.
Entrei pelo bosque em direcção à Parada, onde está o muro que trepávamos na infância? As bancadas onde beijei a C. com os meus 15 anos? O ring onde reaprendi a andar de patins depois de ver a Paula, então namorada do Toni, a fazer incriveis piruetas?
(a primeira vez que andei de patins, recordei, era uma criança de 6 anos e fora no velho ring do Jardim Zoológico com um africano já idoso, vestido de fraque e cartola, professor a tempo inteiro no Zoológico dos anos 60 e inicio de 70).
Recordei o Sr. Zé, pai do Zé Moura, do seu falar duro mas um coração grande como o mundo.
Recordei os jogos de andebol das nossas aulas de educação fisica e os duelos de hoquei em patins e basquetebol que presenciei, sempre em apoio a equipas das Caldas.



Hoje a parada está a ser arrelvada e tive que a contornar. Passei pelo lindo palmeiral onde recriava as aventuras de Tarzan quando tinha os meus 8 anos.


Passei pelo local onde haviam umas árvores de tilia, de onde eu colhia as folhas e ia vender às amigas da minha avó para fazerem chá. Tilia tormetosa é o seu nome cientifico e eu recordei os tormentos que passei para conseguir conquistar a E. e foi ali, junto a uma delas que eu a beijei pela única vez. Tinha 16 anos. Da árvore apenas resta um toco a sair da terra.



Passei pelas casas dos guardas e virei à direita pelas escadas de troncos e terra. A meio patamar olhei melancólico para a esquerda recordando uma lancharada que fizemos no último dia de aulas do meu primeiro ano de liceu, com a Paula e a São no comando. A Paula reencontrei-a vender fruta no Pó, está na mesma! A São, nunca mais a vi!


Subi ao terreiro de cima e vi-me de novo à sombra da árvore a ler ‘’Viagem ao Mundo da Droga’’, teria uns 14 anos!


Virei de novo à esquerda olhando com tristeza as as portas e janelas emparedadas dos velhos pavilhões. Passei as estufas do parque e o pavilhão onde se praticava judo com o Prof. Coutinho ou com o Eusébio e dei por mim na velha esquina relembrando os intervalos que descrevi em ‘’Cruzando os anos em poucos dias’’. A minha adolescência estava ali, naquelas paredes vigorosas de um edificio decadente. Um dos ex.libris da cidade jaz ao abandono à espera que a Câmara, a direcção do hospital e algum ministério se entendam! Não é preciso definir o seu destino para recomeçar as obras de conservação.


Primeiro faz-se, depois logo se vê! Se foi assim com o pavilhão de Portugal na Expo porque não será com um dos dois maiores monumentos arquitectónicos das Caldas?
Continuei a tirar as fotos pretendidas e desci pelo mesmo caminho, em direcção à fonte onde numa brincadeira estúpida parti um dente ao Kiko quando tinhamos uns 8 anos.


Vi o lago onde o João Gancho caiu à água ainda nos tempos do casino e onde mergulhámos após queimarmos os cadernos na comemoração do fim do Liceu. Velhos ritos que cairam no esquecimento!
Vi o espaço onde ficava o Salão Ibéria que descrevi em ‘’O Piolho e as Reprises’’, os pátios interiores do Liceu que nunca mereceram o nosso aproveitamento e a porta da biblioteca Gulbenkian onde eu lia os livros do Emilio Salgari e de Edgar Rice Burroughs.


Virei à direita, entre o Casino/Casa da Cultura e o velho Liceu. Vi-me no meu primeiro dia de liceu onde recebi a praxe, recordei o Ricardinho Calisto a apresentar-me a Maria Martinho da Benedita, a miúda mais bonita do liceu, finalista e quatro anos mais velha, e eu todo babado por conhecê-la! Revia-a uma vez em Coimbra, no inicio dos noventa, mas não me reconheceu 17 anos depois!


Sai pelo portão em frente ao hospital termal e olhei para trás para ver uma vez mais a imagem que tinha todos os dias ao chegar ao liceu.


No largo revi de novo o Frederico Costa na recordação que descrevi em ‘’Cruzando os anos em poucos dias’’. Fotografei a renovada fachada do antigo casino e entrei pelo novo Céu de Vidro, agora mais comprido que originalmente. Recordei as ‘’Matinés no Casino’’ e as brincadeiras de criança. No jardim que era privativo mantêm-se os plátanos onde gravei tantas iniciais e corações e os espaços das minhas brincadeiras de infância.


Desci então a velha Aldeia dos Macacos em direcção ao coreto e à esplanada. O velho coreto de que pintei as grades numa crónica que está por contar (Cat e Ana Paula, adiram ao fb para eu a poder contar!), vi as avionetas vermelhas que descrevi em ‘’A Velha Esplanada’’ e revi com actualização as mães a conversarem e as crianças a brincarem. Já lá não estão os stands de gelados nem a velha jukebox mas a magia que emana da esplanada mantém-se inigualável.


Ia em direcção ao parque infantil mas decidi virar à esquerda em direcção ao parque das bicicletas recordando as corridas com o Diogo, o Luis Castelo Branco e o Kiko e a cena de ‘’Pliés e Babygrows’’.


Ao virar a esquina da vereda surge-me o Oliveira com um amigo. Faz-me um amplo sorriso e olha para o seu amigo com um olhar cúmplice.
-Nem sabes a coincidência! – Diz-me numa gargalhada pondo-me a mão no ombro.
Fico à espera da noticia. Somos amigos há mais de trinta anos, partilhando a amizade comum de um amigo que recordamos com saudade, o Luis Morgado (que ia a sair da Zaira em ‘’Cruzando os anos...’’) mas raramente nos vemos, talvez uma vez por ano, cruzando-nos fortuitamente na rua e com um cumprimento sincero mas sempre apressado. Por essas e por outras escrevo o que escrevo e que muitos não entendem. Qundo temos tempo para dizer aos amigos o quanto os estimamos? E quando iremos ainda a tempo?
O Oliveira tira não sei de onde um pequeno embrulho de papel almaço que me entrega!
Tem colado no exterior uma fotografia do meu pai a receber qualquer coisa, uma foto velha e amarelada. Não entendo o que é? Serão postais?
- É uma placa de zincografia!
O embrulho contém uma velha placa de zincografia, de madeira e zinco, e a foto colada no pacote mostra a impressão que se produz por aquela placa.
(Definição: ZINCOGRAFIA é a técnica através da qual se imprimem gravuras a partir de chapas como o zinco ou alumínio. O desenho é realizado com uma tinta especial sobre a superfície em alto-relevo, por meio da reacção ácida das partes não protegidas, que vai transformá-lo numa matriz, pronta para ser impressa.)
Estas placas eram utilizadas para efectuar impressões de fotografias nos velhos jornais entre os caracteres das letras que compunham, um a um, o corpo do texto em tipografia.
A fotografia mostra afinal o meu pai a receber um prémio. Tem uma legenda e um apontamento escrito á mão, tem data de 15 de Janeiro de 1981. Há 29 anos!
Sei de que se trata apesar de ter sido no meu primeiro ano de Lisboa. Foi em Madrid e o meu pai está a receber uma distinção para a empresa que tanto amava. Não um prémio individual mas para a empresa. Para cada um dos seus funcionários, para cada um dos individuos que constituíam a essência daquela empresa. E como o meu pai sempre me disse, uma empresa é como uma igreja. Não é um edificio, não são quatro paredes por mais belas que sejam. Uma empresa são as pessoas, é com elas que contamos, é com elas que podemos recomeçar! Por isso acredito que o meu pai não via aquelas distinções como um reconhecimento do seu mérito individual mas pelo esforço de todos (há um poema de Bertold Brecht lindissimo sobre isso!) e de certeza por isso sente cada pessoa que com ele trabalhou como alguém próximo, muito mais importante que todos os vips que foi conhecendo ao longo de uma vida.
Olhei para o Oliveira emocionado. Entre o objecto que me entregou com um sorriso e o acto que praticou não sei qual terá mais valor como prova da sua amizade.
- Está ali a decorrer uma feira de velharias! – disse-me apontando para o parque das bicicletas. – Parece que se realiza ao segundo domingo de cada mês. – Continuou ele. – Estava a passear entre as bancas e deparei-me com um monte destes pacotes todos empilhados! Perguntei o que era e explicaram-me que eram velhas placas de zincografia mas nem sabiam de que jornal nem de que localidade. Comecei a cuscar por curiosidade e no meio de dezenas que me passaram pelas mãos, encontrei esta com o teu pai! Nem sabia quando te viria a encontrar nem tinha o teu contacto mas ia guardá-la até que nos voltássemos a encontrar e dava-ta depois!
Fiquei a olhar emocionado para o Oliveira. Conhecemo-nos há trinta anos mas nos últimos vinte cruzámo-nos umas tantas vezes sempre de forma apressada e casual (sim, eu sei que já vos disse isto mas tenho que o enfatizar!) e agora ali estava um amigo a provar que a amizade não se mede pelo tempo em que estamos juntos nem pela distância a que estamos um do outro, na realidade nem sei como se mede mas sei que consigo reconhecer o tamanho da amizade quando me confronto com ela!
Directamente dos anos 80 para hoje, ali estava um reencontro com o passado da mais bela forma!


Despedimo-nos e eu segui com interesse para a feira das velharias. Não havia mais placas de zincografia que me interessasse mas reencontrei-me com o passado. Para o meu bau de recordações ficaram os dois vinis dos Santa Esmeralda que como recordei anteriormente foram as primeiras músicas a tocar no Sotão (não JP, não encontrei o Disco Amarelo, bem que o procurei!), os dois livros que mais me marcaram na adolescência ‘’Viagem ao Mundo da Droga e ‘’Os Filhos da Droga’’ de Christiane F. e ainda, imaginem uma velha View Master com fotogramas de filmes da Disney e de cidades europeias!


Voltei ao carro pelo cais, vi com satisfação que os barcos estavam todos alugados e que diante da Casa dos Barcos, agora espaço de exposições, mantinha-se a animação de sempre com muita gente.


Foi com tristeza que vi que a minha estátua preferida do parque está agora escondida pela copa de uma árvore e que assim ninguém a vê. Fica ainda mais bela naquele seu recanto-esconderijo mas é uma pena que não a possam desfrutar. Vejam, logo a seguir aos cais, de quem vem do lado da esplanada, a bela estátua. Não lhes direi onde está. Vão lá e percam uns segundos em contemplação, recebendo em troca a paz que emana daquele local.


Sai do parque pelo velho roseiral lançando ainda uma última vista ao velho liceu, do mesmo local vi a mesma imagem que serve de layout a este espaço.


Não foi há trinta anos, não foi ontem. Foi hoje mesmo!






 
PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht