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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - LINGUAGENS SECRETAS


Entrei na sala de aula e vi a Teresa Lamy passar meio às escondidas à Marina um papelinho dobrado em quatro.

Não gostei! A Teresa não costumava esconder-me muitas coisas e pensei logo que estivesse a guardar um segredo naquela troca de correspondência.

Julgo que durante todo o dia, eu e os outros rapazes tentámos obter da Marina aquela mensagem. Não tivemos qualquer sucesso em arrancá-lo da nossa colega mas eu consegui vislumbrar o texto quando ela o abriu durante uma aula.

Não consegui entender nada do que estava escrito e pensei que era apenas uma partida das raparigas.


Nos outros dias começaram a circular cada vez mais papéis entre as raparigas e as aulas do Ciclo agitaram-se entre trocas de mensagens e risadas de cumplicidade entre as colegas.

Começámos a ficar fartos de sermos gozados com a situação e não descansámos até compreender o que se passava.

Um olhar de esguelha por cima do ombro da colega da frente mostrávamo-nos um texto escrito numa linguagem desconhecida. De inicio pensávamos sinceramente que estavam a gozar connosco mas percebemos que elas realmente entendiam o conteúdo das mensagens e faziam uma verdadeira troca de correspondência entre si. Será que elas tinham aprendido com alguém uma língua nova para além do Francês que estudávamos? Inglês sabíamos que não era pois começáramos a aprender algumas palavras nesta língua. Espanhol também não. Seria alemão?


Virámo-nos para o António José que vivera na Alemanha e pedimos que escrevesse umas frases nessa língua. Nã! Não era nada parecido! Que mistério se passava pelos corredores, recreios e salas de aula da Escola Comercial?

Finalmente o Luis Rebelo Sancho ou o Tó-Zé Cavaco, não lembro quem, conseguiu arrancar das mãos da Luisa Branco um desses malfadados papeis e trouxe-o vitorioso até nós!

Não compreendemos nada à primeira e pensámos que definitivamente estavam apenas a gozar connosco, até que um olhar mais atento do Joaquim Franco trouxe a descoberta.


- Elas estão a utilizar os ‘’pês’’ depois de cada sílaba. Escrevem ‘’pê’’ e depois as vogais da sílaba anterior! Vêem?! – Exclamou ele com um sorriso triunfante.

‘’Enpenconpontranpanmopo-nospos àpá sapaípidapa’’

Olhámos todos para o papel, soletrando as sílabas e finalmente entendemos a cifra.

Elas não falavam outra língua. Era a mesma coisa, só que cada sílaba começava com “pê”. Nada mais tolo!

Decifrado o mistério decidimo-nos vingar e encarregámos o Franco de encontrar uma linguagem cifrada só para nossa utilização.


Um dia depois surgiu com um texto e o seu código. Algo simples mas que servia para a nossa vingança:

1S M2N3N1S T2M 1 M1N31 Q52 S14 2SP2RT1S M1S N4S S4M4S M2LH4R2S!

Era tão simples de traduzir (conseguem fazê-lo?) e contudo as raparigas levaram dias a decifrá-lo (ok. estou a exagerar! Foi apenas um dia....umas horas, tá bem , pronto! Foi uma questão de minutos!) e de qualquer maneira o Joaquim Franco todos os dias aparecia com uma nova linguagem cifrada. Uma por exemplo consistia em iniciar um texto com um digito ( 3, por exemplo) e um sinal de + ou de -, escrever nas letras que fossem três números à frente ou atrás consoante a indicação. Assim:

(3+) COMPREENDERAM A MENSAGEM? FRPSUHHQGHUDP D PHQVDJHP?


Bem, mas enquanto nós desenvolvíamos linguagem cada vez mais encriptadas e mais difíceis de entender e de escrever (até por nós!) as raparigas passaram a utilizar uma nova linguagem em que a vogal ‘’a’’ era complementada com o sufixo ‘’aix’’, o ‘’e’’ com o ‘’eber’’, o ‘’i’’ com ‘’ifix’’, o ‘’o’’ com ‘’ober’’ e o ‘’u’’ com ‘’ufux’’.

Assim,

Ober meberufux naixmoberraixdober eber maixsifixs gifixrober qufuxeber ober teberufux!
(O meu namorado é mais giro que o teu!)

Enfim! Uma guerra sem quartel!

Aos poucos e poucos a moda foi alastrando e até brincadeiras da língua inglesa como a Pig Latin foram utilizadas por alguns.



O Pig Latin consiste em colocar a primeira letra da palavra no final desta e acrescentar a partícula +ay.  A razão desta mudança talvez seja para obter uma melhor sonoridade, já que a língua inglesa não é uma língua latina.


Por exemplo: I like to speak Pig Latin.    Ficaria:  Iay Ikelay otay peaksay Igpay Atinlay.



OU ISTO OU AQUILO


de: Cecilia Meireles

Oupou sepe tempem chupuvapa epe nãopão sepe tempem solpol
Oupo sepe tempem solpol epe nãopão sepe tempem chupuvapa!
Oupo sepe calpalçapa apa lupuvapa epe nãopão sepe põepõe opo apanelpel,
Oupou sepe põepõe opo apanelpel epe nãopão sepe calpalçapa apa lupuvapa!
Quempem sopobepe nospos arespares nãopão fipicapa nopo chãopão
Quempem fipicapa nopo chãopão nãopão sopobepe nospos arespares!
Épé upumapa granpandepe pepenapa quepe nãpão sepe popossapa espestarpar
Aopao mespesmopo tempempopo nospos doispois lupugaparespes!

(…)



Conseguiste decifrar? PAPARAPABÉNSPÉNS!




OU ISTO OU AQUILO

De: Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.




Mas falar com os Pês tem muito que se lhe diga. Há muito tempo surgiu um texto de autor anónimo que não utilizava a linguagem dos Pês mas fazia uma autêntica elegia à letra Pê.

PEDRO PAULO PEREIRA PINTO

Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor, português, pintava portas, paredes, portais. Porém, pediu para parar porque preferiu pintar panfletos.
Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir.
Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém posteriormente pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido,porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris.
Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente,pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedirem pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas.
Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo.
Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo…
Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses.
- Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo. -Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.
Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província.
Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai. Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu:
- Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior.
Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?
- Papai, – proferiu Pedro Paulo – pinto porque permitiste, porém, preferindo,poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.
Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro! Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando. Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus.
Partindo pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos. Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas.
Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando… Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar… Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

Postado por Paulo (papaupulopo capaiapiadopo)


Quanpandopo eupeu eperapa criprianpançapa, upusapavapa muipuitopo apa linpingupuapa dopo Pêpê paparapa fapalarpar compom aspas mipinhaspas irpirmãspãs.

Bopoaspas repecorpordapaçõpõespes!


Da Wikipédia:

No Brasil a lingua dos Pês é escrita ao contrário. Consiste em se introduzir a consoante P seguida pela vogal precedente (e algumas consoantes - como o m, n, r, s, etc) de cada um dos fonemas da frase.

Por exemplo a frase: Quando eu era criança, usava muito a língua do P para falar com meus irmãos.
Ficaria: Panquan podo peueu pee para picri panan paça, puu pasa pava puimui poto paa pinlin puagua podo pePe papa para pafa parlar pomcom peme pusus pirir pãmã posos.


História da Lingua dos Pês:

Pesua peoperipegem perrepemonpeta pea Pessepegunpeda Pegueperra Pemunpedipeal, pequanpedo pessolpedapedos peapelipeapedos, peprepecipesanpedo pede peupema peforpema pede pesse pecopemupenipecar pecom pesseus pecompepapenheiperos pessem pesseperem peenpetenpedipedos pepepelos peipenipemipegos, pecripeaperam peupema pelínpegua peque pesseperia peepexapetapemenpete peipegual pea pelínpegua penapetipeva pedepeles, pepoperém peapecrespecenpetanpedo pea pessípelapeba pepe peanpetes pede pecapeda pessípelapeba pede pecapeda pepapelapevra pea pesser pedipeta.




No mundo cultural germânico existem várias formas de línguas infanto-juvenís similares a nossa Língua do Pê.
Na Alemanha, por exemplo, a mais conhecida e celebrada delas se chama Löffelsprache (Löleföf elefel spralefach elefe) que traduzido literalmente quer dizer Língua da Colher (Löffel = colher + Sprache = língua). Já na Suíça alemã existe uma língua similar em sua natureza que se chama Matteänglisch ou Mattenenglisch (Itteme-Inglische) que quer dizer 'língua falada num lugar chamado Matte'.
Vale notar que até existe literatura produzida nestas línguas. Também existem clubes de aficionados. Apesar de terem surgido na Europa, e no caso do Matteänglish mais especificamente na área de Berna, na Suíça, existem falantes desses idiomas 'construídos' em vários países do mundo para onde imigraram europeus de origem teuta (i.e. Brasil, Estados Unidos, etc.).




TEXTO COMPLEMENTAR À CRÓNICA
‘’A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA- LINGUAGENS SECRETAS''


Sabiam que existem realmente língua artificiais que são faladas por milhares de pessoas em todo o mundo? Desde o século 17 que se criam idiomas artificiais. E não se trata apenas das falas do quotidiano modificadas devido ao calão, e sim de idiomas completamente lógicos e complexos. Contudo a maioria não caiu no gosto popular.


No livro In The Land of Invented Languages (“Na Terra das Línguas Inventadas”) Arika Okrent cita mais de 500 idiomas extintos por falta de utilizadores. Mas entre esses idiomas artificiais alguns ainda permanecem hoje com milhares de falantes, desses que não morreram os mais populares são:


Esperanto

Criado por: L.L. Zamenhof, em 1887.

Origem: Construído a partir de palavras semelhantes em várias línguas, o esperanto foi criado para servir de idioma universal e promover a paz e a fraternidade entre as nações. Daí o nome, que significa “esperançoso”.
Inspiração: Vocabulários das línguas latinas, pronúncia das línguas eslavas.
Falantes: 200 mil.


Klingon

Criado por: Mark Okrand, em 1982.

Origem: Feita por encomenda para o 3° filme da série Star Trek – os produtores queriam que a raça guerreira dos Klingons falasse uma língua completa em vez dos grunhidos de sempre. Com os fãs, o idioma ganhou vida própria. Existe até o Instituto da Língua Klingon, que publicou uma tradução de Hamlet.
Inspiração: Sons guturais, com a intenção de soar alienígena.
Falantes: 20 mil


Sindarin

Criado por: J.R.R. Tolkien, 1920-1940.

Origem: Criar línguas era um passatempo do jovem Tolkien, que a partir delas inventou um mundo inteiro: o universo mítico de O Senhor dos Anéis, onde Sindarin é apenas o mais falado dos vários idiomas da raça dos elfos.
Inspiração: Galês.
Falantes: 10 mil



quinta-feira, 10 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - A OESTE DO OESTE DA EUROPA


Lembro-me de sair de casa, na Rua do Jardim e ver o Chico Cera a namorar da rua a Anabela que só podia ir à janela para namorar e dos Bonécios, o João e a Fátinha a saírem desse prédio. Lembro-me do sapateiro no fim da rua, gordo e forte como um touro, que um dia doara sangue para a minha mãe. Lembro-me da drogaria à frente do meu prédio e da alegria da proprietária quando o filho regressou da Guiné. Lembro-me dos Rolins a namorarem ao cimo da rua e da empregada de farda a sair da pensão com as lancheiras empilhadas num portador ao domicilio.
Lembro-me da escola da D. Perpétua, na Rua do Jardim e do temível quarto escuro. Lembro-me que ao lado ficava a casa dos irmãos Albuquerque, já idosos e de quem se dizia serem descendentes do famoso Mabilio de Albuquerque. Lembro-me da taberna a meio da rua com as portas de batente e as pipas por trás do balcão.
Lembro-me de ir pela Leão Azedo, passar em frente da casa dos Costa, do Zé e da Anita com os seus 8 filhos, Ana Maria, Ião, Manuela , Filipe, Lóló, Bébé, Miguel e Kika. Lembro-me de acenar ao Paulo Bastos e de ir brincar com o Pedro Pires usando os chapéus da farda de gala do seu pai, comandante da GNR.
Lembro-me de levar uma maçã do expositor da ZáZá uma frutaria que ficava na esquina em frente ao Montepio. Lembro-me de entrar na loja Albino das Solas e perguntar pela Bibú para irmos juntos para a escola. De dizer-me que a Bibú estava com a Bé, sua mãe, na sua Boutique Camaroeiro, na Filipe de Sousa. Lembro-me de passar junto ao muro que dava para o pátio e pomares das traseiras da minha avó Mimi onde brincava com as Canela Lopes, a Isabel, a Luisa e a LaiLai, com o Zé Manel Mota. O iate de madeira, um vaurien azul escuro, ainda lá estava, a apodrecer no pátio. Lembro-me de me encontrar com a Bibú e de aparecer o Jorge Humberto, um ano mais velho, que nos fez companhia até à escola.
Lembro-me de passar as recauchutagens, de cumprimentar o Sr. Faustino e o pai do João Carlos Marques.
Lembro-me de entrar na Escola.
E de que te lembras tu?

Foi o tempo de amizades que desapareceram no tempo, o Eduardo Mago dos Reis e o Zé Paulo, o seu irmão, a Marina, a Isabel Prego, a Anita Antunes, o Jesuino, o Madruga, o Botas, o Sancho, o João Paulo e a Teresa Ascenso, a Leonor Raposo e a irmã - que ainda me acompanharam na adolescência - e tantas outras caras de que me recordo e cujo nome perdi. Foi o tempo das batas brancas e das fitas no cabelo.
Lembras-te das aulas de Matemática do Prof. Lalanda e do Prof. Baptista? Da exigência em Português do Prof. Saraiva e da nossa expressão de alivio ‘’Alimpa-te Saraiva!’’. Um professor a que devemos agradecer a formação que nos deu? Lembras-te da doçura da Profª. Antonieta de História, e da seriedade da Prof. Maria José de Ciências Naturais?
Lembras-te da mãe do João Paulo Ascenso a dar aulas de Desenho e do Prof. Mateus e da Ana Maria Vieira Lino (que linda que era!) a ensinar-nos a fazer fantoches com pasta de papel?
Lembras-te do Je Commence? Do Mr. e Mme. Dupont? do Je suis Nicole, Je suis Robert. C'est Papatapouf, Patapouf est un chien?
Lembras-te do Mestre Mamede e do Padre Zé Maria?
De que te lembras tu?

Lembras-te de colocarmos umas batatas a entupir os escapes dos carros dos professores do Conselho Directivo?
Lembro-me da minha timidez com a Profª. Aurilia nas aulas de francês por ser mãe da Teresa, mas nunca a deixar de a cumprimentar, na escola, na rua e em sua casa, com um ‘’Bonjour Madame!’’ fosse de manhã, à tarde ou à noite!
Lembro-me desta nos deixar de dar aulas no 2º ano do ciclo porque a sua filha Teresa transferira-se para a nossa turma e considerar que seria pouco ético ser professora e avaliar a sua própria filha!
Lembro-me das tardes passadas em casa da Margarida Arroz com a Júlia (Ó Júlia Florista!) e das tardes passadas em casa da Teresa com a sua empregada e de metermo-nos com esta por causa das suas fotonovelas Capricho, Ilusão e radionovela Simplesmente Maria. (e de lermos aquele livro, lembras-te Teresa?)
Lembro-me de pagar 5 tostões ao Jorge Bandeira Duarte para acompanhar a casa a Margarida Arroz, minha namorada do 2º ano, porque lhe ficava em caminho na Encosta do Sol.
Lembro-me do Paulo e do Manel Tuna , do Quintino e dos Marques, do Gamela, da Ana Paula e do Fernando Paulo Duarte do grupo que vivia na encosta do Sol. Do Miguel, da Isabel e da Patricia Ballu Loureiro.
Lembro-me de ter feito um trabalho ‘’jornalistico’’ com o Quim Franco sobre a remoção da estátua do Marechal Carmona em que andámos dias a fotografar a estátua de vários ângulos, incluindo do cimo da torre da igreja no momento em que os sinos começaram a tocar e por isso ter ficado surdo por um dia! De ir de gravador a tiracolo e microfone na mão, entrevistar os soldados que faziam guarda à estátua enquanto se discutia a sua remoção e ter aprendido tudo sobre o manuseamento de uma G3.
E tu, de que te lembras?

Lembras-te de jogar à barra e gritarmos ‘’Fogo’’ só para ver todos a correrem de uma vez e tentarem apanhar o lenço.
De jogarmos ao ‘’Aqui vai alho!’’ com oito ou dez dos nossos?
Lembras-te de fazermos uma roda, sentados no chão, rapazes entre raparigas, enquanto uma corria em volta com um lenço na mão, cantando:

No alto daquela serra
no alto daquela serra
está um lenço
está um lenço a acenar

Está dizendo viva viva
está dizendo viva viva
morra quem
morra quem não sabe amar

Do outro lado do monte
do outro lado do monte
tem meu pai
tem meu pai um castanheiro

Dá castanhas em Outubro
dá castanhas em Outubro
uvas brancas
uvas brancas em Janeiro’’

Lembras-te de um dia de chuva intensa e de enchentes e de termos que arranjar forma de trocar de roupa, encharcada pela travessia com água pela cintura, junto à Garagem Caldas?
Lembras-te do aluno que morreu ao cair de um dos telheiros com painéis de acrílico que ficavam junto ao ginásio e à sala de aulas de Coral e da angústia da sua irmã e do nosso desespero por nada podermos fazer? O sermos confrontados com o fim de uma vida pela primeira vez?
Lembro-me do Botas a dar 80 voltas ao circuito de atletismo e da minha equipa de basquetebol ‘’Os Invenciveis’’ da Turma A vencer os ‘’Dragões Vermelhos’’ da Turma B capitaneados pelo Eduardo Mago dos Reis.
Lembro-me do Dia da Espiga e das primeiras eleições para a Assembleia Constituinte com as urnas instaladas na escola. Lembro-me do pai da Nini Velhinho ser o primeiro Presidente da Câmara após o 25 de Abril, de forma provisória, antes das primeiras autárquicas .
De que te lembras tu?

Lembras-te do bar no rés do chão, num canto do hall situado a seguir ao vestuário? Lembras-te do sabor das arrufadas de coco que comiamos no intervalo grande?
Lembras-te de comermos em self-service no ginásio ao almoço?
Lembras-te da construção dos pavilhões e dos murais que pintámos no 1º aniversário do 25 de Abril?
Lembro-me do Mini do Té e do BMW artilhado de uma professora que era linda e loura como a outra professora, Clara de nome.
Lembro-me da primeira RGA no 2º ano e de nem perceber ao que ia.
Lembro-me sobretudo da confusão que me fazia ter uma aula em cada sala após anos na mesma sala do Colégio.
E tu, de que te lembras?

Lembras-te da velha professora de Canto Coral a ensinar-nos solfejo e hinos nacionalistas e da Mocidade Portuguesa antes do 25 de Abril?
Lembro-me da letra de um desses hinos e da quadra inicial de um outro:

A oeste da Europa
Mesmo junto ao oceano
Fica o nosso Portugal
Lindo Torrão Lusitano

É pequeno em continente
Em domínios o terceiro
O mais valente na guerra
Em descobrir o primeiro

Dos portugueses valentes
Reza a velha história
Contra mouros e castelhanos
Alcançam sempre a vitória

Nos mares abrem caminhos
Em todas as direcções
Mostrando novos rumos
Às conhecidas nações

Sinto orgulho de ser filho
De tão formosa nação
Tão bonita, tão bonita
Que a trago no coração

Sinto orgulho na minha pátria
Mas não por causa mesquinha
Sinto orgulho na minha pátria
Porque é minha, muito minha!

Ou ainda:

Minhas botas velhas cardadas
Palmilhando léguas sem fim
Quanto mais velhinhas e estragadas
Quanto mais vigor sinto em mim…

Sabiamos lá nós com dez anos de idade o que era a Mocidade ou o Estado Novo!

De que nos lembramos nós?


Lembram-se?

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

Lembram-se de tudo o que se passou depois? Como fomos atirados para a nossa adolescência?


Mas lembro-me sobretudo de não perceber depois o que se estava a passar. De não perceber porque tudo era tão importante que levava famílias a separem-se, casais a divorciarem-se, irmãos de costas voltadas, amizades de uma vida a terminar. Porque é que quando o desejo de liberdade de cada um era genuíno e solidário, se criava uma tremenda muralha de ódio apenas porque se divergia no caminho a seguir.
Lembram-se da beleza das palavras e da melodia?

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo cualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.



Hoje, olhando para trás e vendo os anos que se perderam de inimizades, de rupturas de famílias e perdas de amigos e agora que vivemos num clima de maior compreensão pela opinião dos outros e em que o valor da família, da amizade, do humanismo e das causas sociais se sobrepõem às divergências politicas, pergunto-me se terá valido a pena essa cisão que durou anos. Se para alcançarmos aquilo que somos hoje teríamos que passar pelo purgatório da intolerância.
Eu sei que não, a importância da família e dos amigos é demasiada para poder perder um dia que seja da minha vida sem eles.

E disso eu não vou nunca me esquecer!


Dedicado a todos os que viram mais além.


Paulo de Carvalho - E Depois Do Adeus



A Gaivota - Ermelinda Duarte




Randy Crawford - Imagine

terça-feira, 1 de junho de 2010

ACENDALHAS



Verdade verdadinha que me estou a tornar uma "adict" deste grupo!
Ontem mesmo dei por mim de sorriso aberto a contar aos meus filhos como era esse tempo, tao longe e tao perto... ontem mesmo, foi ontem mesmo que vivi. Enqto eles me ouviam de sorriso amarelo e mais novo me perguntava: " e a tua PSP ainda era das grandes?".
Num ápice absurdo de associação de ideias., lembrei que a unica sigla PSP que eu conhecia era a da polícia, que temia como se tivesse sempre qualquer delito nos meus segredos. PSP!... lembrei... q vi o mitico "Cowboy da meia noite" ser detido por 2 policias em plena Praça da Fruta, qdo ser "drógado" era um estatuto . E daí em frente veio -me um chorrilho de recordações que deixo aqui. Pode ser que alguem de boa escrita queira pegar...
As melhores calças eram as LOIS preferencialmente combinadas com as sapatilhas (nao tenis) Sanjo. Quem não tinha, estava fora ( a mágoa que eu tinha de na altura nao ter rabo nem pernas para encher as calças sob pena de me ficarem pelos joelhos). Os sapatos deveriam ser comprados na Felix, vendidos por aquela sª de cabelo sp arrumadinho (a Dª Luisa Justiça).
A rua das Montras era o mundo a atingir e uma vez conquistado... a bandeirinha era mm passar por lá à noite. Nem o DRUGSTORE e o self-service Menú conseguiam suplantar
Mas... a noite tinha o inconveniente de não ter as pipocas vendidas na carrocinha do sr "gadinhas" e da Venézia fechar cedo ( de verão, gelados; de inverno, churros).
E por falar em doces (nos nao tinhamos problemas de obesidade) ? Quem é que nao foi alertado pelos pais para não comprar os chupas e rebuçados de calda de acucar à porta da escola comercial, àquele sr. que tinha uma "terrivel doença de pele", hum???

ah, e por favor alguem os cigarros fumados atras dos pavilhões pre-fabricados na "técnica" onde eu tinha aula de frances com a Prof Lamy, onde os miudos do ciclo se deviam quedar , nada de ir para o edificio principal que era do pessoal crescido. ( Não vou esquecer a profª Marilde - temivel catequista - comígo plo braço a berrar: "Malditos retornados que vêm para aqui quase nus" (preciso dizer que eu estava de camisola de alças)... " nao sabes que nao podes andar por estes corredores??" enquanto eu num acesso de rebeldia encorajada pelo olhar "daquele rapaz", gritava: " eu nao sou retornada, o meu pai é tropa!"
Esse foi o dia do climax e do anti-climax junto "desse rapaz". Foi quando ele se abeirou de mim e perguntou se o meu pai era mesmo tropa.. Orgulhosamente respondo que sim, e mais... resolvo aumentar a patente ao meu pai. talvez as probabilidades da conquista fossem maiores. E digo com a minha melhor prosapia: Sim, é sargento... sargento-ajudante! Ao que ele responde: ahahahah é ´so ajudante , nem a sargento chega!!!... Que dor!!! Pequenas lições de vida


(post da Lena Mendes)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - RUGBY NAS AMOREIRAS



Ainda tenho presente o cheiro distintivo das sapatilhas e dos tacos de madeira encerados do ginásio e dos balneários do Colégio Ramalho Ortigão.

Os balneários ficavam por baixo das escadas que davam acesso ao bar/refeitório orientado pela D. Luisa.Este bar era ponto de encontro obrigatório da parte da manhã para comprarmos os fantásticos queques que a D. Luisa fazia e os caramelos Vaquinha a 3 tostões a unidade (lembras-te Luis Gama?).

Quando almoçávamos, a D. Luisa fazia-nos as delícias com os seus ovos de codorniz estrelados com duas gemas.

Nas tardes de Verão preparava os seus famosos gelados caseiros feitos com refresco Alsa ou Royal que eram colocados em cuvetes no congelador e em cujos cubos espetava um palito. No intervalo grande da tarde sorvíamos estes cubos até não restar mais do que um cubo de gelo, já sem sabor.

No ginásio esforçávamo-nos para aprender os saltos no bock, cada vez mais alto, e para aguentar os exercícios no alto dos espaldares. Os nossos professores de ginástica, primeiro o Prof. Silva Bastos e depois o Prof. Berjano (os rapazes) e a Profª Rosa (as meninas) permitiam-nos, quando o tempo melhorava, ter os exercícios de ginástica nos recreios (ainda separados por sexo) e aí tivemos também as nossas primeiras provas de desporto com o basquetebol e o futebol à cabeça.

Dois dias por semana e ao final da tarde corria ainda para o antigo quartel dos Bombeiros, situado na Rua Miguel Bombarda (ainda hoje conhecida pela Rua dos Bombeiros) onde é hoje o Caldas Shopping.

Nessa altura, os Bombeiros removiam as suas vetustas viaturas do quartel cedendo o espaço para as aulas extra de ginástica. Também o cheiro dos tacos de madeira do quartel e das manchas de óleo cobertas de serradura me ficaram para sempre na memória.

Na Primavera realizava-se o Sarau de ginástica na Praça de Touros onde nos exibíamos por classes etárias e todos sem excepção tínhamos direito a uma medalha ou a um pequeno crachá com o símbolo dos Bombeiros. Recordo-me que os crachás variavam do ouro, prata e bronze ao latão conforme o desempenho que tivéssemos no Sarau e sendo o último dado a título de presença.

A ida para o ciclo na Escola Industrial e Comercial trouxe-nos maiores oportunidades de praticar desportos, iniciando-nos na prática do voleibol e do andebol e desenvolvendo as nossas aptidões na prática do basquetebol e do atletismo (corrida e saltos) com a participação em torneios intra e inter-escolares. Eram os desportos tradicionais que se praticavam em todo o país e para os quais as escolas estavam preparadas em termos de infraestruturas.

Mas no segundo ano do ciclo tivemos uma grande surpresa!

O Prof. Antero ‘’Té’’ Mil Homens era o professor de educação física preferido e mais carismático nos meados dos anos 70. Pelas meninas falem elas, pelos rapazes por causa do seu Mini Cooper S superturbinado com dois carburadores duplos Weber, com paralamas alargados e jantes minilite de 10’, com uma aparelhagem de som de top que incluía uns descomunais headphones daqueles com os auriculares almofadados à anos 70. Mais mais tarde seria o seu VW-Porsche 914 e a sua Honda 750 Four azul a despertar a admiração de todos!

Nas traseiras da Bordalo Pinheiro, onde hoje fica a D. João II, existia um enorme baldio, bastante desnivelado e semeado por algumas amoreiras, donde colhíamos as folhas para os nosso bichos da seda (será que os miúdos ainda os criam?) e que era utilizado por nós para fazer as provas de corta-mato (onde o Mário Fialho ‘’Botas’’ e o Albano limpavam tudo!).

Um dia, o Té chamou-nos a todos e declarou que as próximas aulas de educação física (e também os nossos tempos livres) seriam dedicadas ao verdadeiro trabalho físico.

E toca de nos fazer arrancar e queimar as plantas, aplanar o terreno (à força de pazadas e de baldes (sem máquinas!) e torná-lo apropriado para daí fazer um campo (de futebol, pensávamos nós!). Arranjámos ancinhos, pás , baldes, caixotes, enfim tudo o que servisse para limpar e nivelar o campo.

Ao fim de um trimestre tínhamos a obra concluída e uma surpresa à nossa espera. Um belo dia, um camião chegou trazendo duas enormes balizas de rugby e com a nossa ajuda estas foram erguidas nas extremidades do terreno. Tinha nascido o primeiro campo de rugby das Caldas!

No trimestre seguinte, já nem queríamos outra coisa, as aulas masculinas (as meninas tinham aulas com a D. Rosa que isto das misturas ficou para mais tarde!) passaram a ter como principal componente a prática de rugby e termos como tackle, knock-on, drop-kick, scrum ou try (ensaio) passaram a fazer parte do nosso vocabulário diário.

Estávamos no Inverno de 1974/1975 e as minhas costas nunca mais foram as mesmas!



Ao meu querido amigo António Vidigal que hoje completa umas tantas Primaveras (e melhores Verões!) e a todos os que desde o tempo do Té se empenharam para que o Rugby, a modalidade desportiva que melhor exalta o espirito de camaradagem, se mantenha e se dinamize na nossa cidade.



"Rugby is a beastly game played by gentlemen; football is a gentlemen’s game played by beasts; american football is a beastly game played by beasts."

Henry Blaha

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A MINHA PRIMEIRA ESCOLA FOI NA PRAÇA DO PEIXE .........



Desde que li o manifesto do Paulo fiquei, de tal modo agradado que conseguiram fazer-me deslizar para tempos, onde decididamente tínhamos o privilégio de brincar e traquinar na rua, onde hoje o meu filho não o pode fazer nem o quer fazer, em que um simples autocolante dos Rollings Stones era sucesso garantido entre o grupo que cresceu comigo (na rua do jardim).

Também eu cresci na rua do jardim, onde havia um Tó-zé grande (eu), o Tó-zé Pequeno, o Rui da Sapataria América e o irmão Carlos, o Berto, o Paulo do Antero e o Badaró. Todos nós jogamos á bola tendo como balizas as sarjetas, da rua Leão Azedo e o Portão do Serrano no beco do Borralho (Antero), não me esqueço do olhar triste do Ricardo Pimenta por não poder fazer o mesmo, pois os avós não o deixavam jogar na rua, ficando na janela a ver-nos.

Passamos tardes e tardes a ler o Nody, a jogar Monopoly e Bolsa, enfim fomos crescendo e fomos nos separando, cada um para a sua escola a mim coube-me em sorte a escola da praça do peixe, onde tive o Prof. Norte como primeiro professor, Prof. Martinho e a Prof. Josélia sem dúvida daquelas personagens que não me irei esquecer, tal como o meu colega de turma com 15 anos que continuava na 1ªClasse, em grande guerra na captura das letras que para os outros era facílimo, mas que para ele era uma tortura.

Recordo-me com um sorriso da chegada do intervalo onde saltávamos pelas escadas em direcção á praça do peixe, apesar dos gritos da Continua Hermínia, que nos mandava descer devagar, tentativa diária vã, tal a velocidade de descida de todos nós. Com duas únicas ideias, comprar uma bola de plástico na loja onde hoje é uma agencia de viagens por 1$50 (em que todos entravamos com os nossos tostões de momento) ou tentar convencer um vendedor de enguias da lagoa (Às segundas feiras era o mote mais pedido entre os meus colegas) a oferecer-nos uma, para a fazermos deslizar pelas aguas que deslizavam da plataforma da praça para as pequenas valas de canalização de aguas excedentes da lavagem dos peixes em direcção às sarjetas adjacentes.

Acreditem, não havia campainha e nem todos tínhamos relógio….mas de bata branca vestida, lá estávamos 45 minutos depois, sentados nas famosas carteiras de barras verticais de ferro fundido com o buraco para o tinteiro a desafiar-nos para introduzirmos os lápis e canetas que rapidamente o Professor nos punha, em “su sitio”.

Alguns meses mais tarde e por razões profissionais da minha mãe, tive de ir para o colégio de Porto de Mós, Colégio incrível para aquela altura. A sala de desenho no último andar abria o tecto para que a luz natural fosse a eleita para que todos trabalhassem nos seus desenhos, foi sem duvida uma das coisas que me deixou de boca aberta nas primeiras aulas de desenho que tinha com o Libelinha e o João Manuel ao meu lado, foi ai que me cruzei com o professor Perpétua, na altura director do colégio (penso que mais tarde viria a ser professor no Liceu e de muitos de vocês) bem como a sua mulher Sr.ª Esmeralda, conheci também Tó Freitas, o irmão Pedro Freitas bem como o Lucinio médico nas Caldas e o Arnaldo Santos.

Após o terminus da minha passagem por Porto de Mós, vim então de novo para as Caldas e é aí que conheço alguns de vocês, na Turma do Ciclo Preparatório no 1º A, lembro-me ainda de algumas pessoas. Foram tempos em que tínhamos de ficar formados á frente da porta da sala, miúdos de um lado e miúdas do outro, antes de o professor chegar, vou tentar recordar-me: (Peço desculpa por não me lembrar de todos) Ana Monroy, Teresa Lamy e Marina (2º ano), Nini Velhinho, Cristina, Margarida Arroz, Luísa Branco, Leonor, Luísa Caiado, Cristina Maduro, Helena, Mário Fialho, Paulo Caiado, Paulo Lemos, António Albano, Cristina Aleixo, Jorge Bandeira, João Ascenso, Bebé Gomes, Luís Sancho, Tó Zé, Quim Franco, João Paulo Feliciano, Buiça…

Há algumas coisas que me lembro desses tempos no pós escola, as inúmeras tardes que passávamos a desenhar aviões e guerras em folhas de papel A4 na casa do Paulo Lemos, em que o nosso imaginário fluía para guerras e combates intermináveis, das tardes a jogar futebol no jardim do Jorge Bandeira que nos deixava de rastos.

Não tendo a certeza no tempo, mas penso que foi na altura no 2º Ano Ciclo que o Té Mil Homens na altura Professor de educação física, nos encaminhou para o inicio do núcleo de rugby da escola tendo decidido que o sítio do futuro campo seria onde viria a ser a Escola do Ciclo Preparatório agora Escola do segundo ciclo, e ai começamos a arrancar as plantas e ervas alta que naquele terreno existiam, tendo conseguido “desmatar” o terreno e iniciar os treinos e os jogos do então núcleo de rugby da escola que nos iria permitir ir a Coimbra defrontar outras escolas, onde o barulho dos pitons das outras equipas me surpreendeu a mim e aos outros da equipa pois nenhum de nós possuía na altura tal tipo de equipamento desportivo, aquando da saída dos balneários, claro está que levamos uma coça magistral, tal era a nossa inexperiência•.

Outro dos assuntos de escárnio e gozação nos intervalos tinha como alvo uma contínua pequenina que trabalhava nos balneários femininos de qual não me recordo o seu nome verdadeiro, tal a força da alcunha com que a brindamos. A sua alcunha era TéTé, como se não fosse suficiente usávamos uma pseudo - conjugação do verbo,” …il y a TéTé, il y a Ovo, il y a Galinhas,…” o que a deixava furibunda da vida. Essa irrequietude valeu-nos algumas corridas mais longas á frente dela de maneira que não apanhássemos com a vassoura que certeiramente tentava sempre lançar, mas sempre foi guerreira e nunca nos levou ao Director da Escola…..

Passei pelo 16 de Março sem ter a noção do que se estava a passar a não ser que algo se estava a decorrer fora do normal, que motivou a saída dos militares e o cerco da altura do RI5. Para mim foi um agora chamado ATL magnífico, pois passeei-me por entre as trincheiras exteriores que hoje algumas ainda existem escondidas, tapadas pelos tojos no pinhal circundante á agora Escola de Sargentos do Exercito, tendo mantido amena cavaqueira com os militares que ali estavam há mais de 24h e que acharam piada á minha insistência de estar por ali tanto tempo tendo – me deixado mexer nas armas de que disponham na altura, o que para mim foi algo inimaginável para um miúdo de 12 anos.

Umas semanas mais tarde, viria a acontecer o 25 de Abril, tendo-me ficado gravado muito bem de como, local e momento em que tive contacto com a noticia. Tínhamos aulas às 8h30 e estava a subir a escadas para a sala 5A, quando me cruzo com a Teresa Lamy que entretanto vinha a descer as escadas e me disse ….” Não há aulas ouve umas confusões em Lisboa com os Militares e hoje não há aulas ”……bem….foi um dia bestial de divertimento e jogos tendo ido para casa ao almoço sem nada entender do que se estava a passar…Mas que foi um dia de longa brincadeira essa lembro-me e muitíssimo bem.

Outras das recordações do ciclo são os jogos, do fogo, e de uma roda enorme que corríamos por fora da roda com um lenço, deixando cair normalmente atrás de quem gostávamos, era de certo nesses jogos que naturalmente estávamos a descobrir toda a magnitude da pré puberdade, lembro-me curiosamente de algumas meninas bonitas e que hoje continuam, umas mais doces, outras mais endiabradas, não me vou adiantar neste assunto, mas que houve …love in the air… foi uma verdade J.Eu pelo menos sempre me senti muito mais atraído por Arroz do que por Massa …é um facto.

Alguns dos professores ficaram gravados, uns pelo lado positivo outros pelo lado negativo. Quem não se lembra dos gritos do Professor Saraiva a português? Da Professora de Ciências Manuela, que nos demonstrava aquelas experiencias básicas de coloração de líquidos com anilinas naquele anfiteatro.

Quem não se lembra das aulas de canto coral e do ritmo seguido com o bater dos pés no soalho da sala bem como do chiar do pedal do órgão que a professora teimosamente empurrava para baixo, do professor de matemática do qual não me lembro o nome mas que nos levava pelo reino dos números de um modo sereno e sem barulho com a sua fina figura de magrizela.

Do Professor Vendas que nos deu educação física, da Mãe da Teresa Lamy, Professora Aurília que nos levou até ao reino “Bonjour Paris”. Enfimmmmm, tempos que tivemos a sorte de brincar na rua, de sair da escola e vir para casa sozinhos, a correr para não perder a serie dos Pequenos Vagabundos ……

(post do António José Albano)


Supertramp - School