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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

EM JEITO DE CRÓNICA - PASSAGEM DE TESTEMUNHO


Por vezes perguntam-me se todas as minhas estórias são verdadeiras, eu respondo que sim, que faço absoluta questão nesse ponto. É essa condição que me torna aliciante este tipo de escrita em contraponto às escritas ficcionais.

Mas é também um factor extremamente limitativo, estou condicionado pela veracidade dos factos, como se não bastasse já as duas outras condicionantes às minhas crónicas, terem uma relação com a minha terra e reportarem a um determinado período de tempo muito específico, dez anos que vão de 1972 a 1982, a data da minha ida para Lisboa.

Farei apenas uma excepção a esta regra, pois os factos relatados são determinante para enquadrar a estória e dar-lhe sentido. Será na crónica com que fecharei este ciclo e terá o título ‘’O Fim da Adolescência’’.

A minha caricatura da autoria de Luis Anglin de Castro (obrigado Luis e Cristina e obrigado Teresa Lamy), que foi colocada à entrada do Sitio da Várzea na festa de sábado e foi uma boa partida que me foi pregada pela minha irmã Xinha e por alguns amigos queridos trouxe-me à memória uma outra caricatura, essa já com quarenta e quatro anos!

Em meados dos anos sessenta, nas longas noites de Verão, os meus pais frequentavam o Casino das Caldas e isso fazia com que eu por vezes tivesse que apanhar valentes secas a aguardar que acabasse o serão para poder regressar a casa. Um dia já desesperado de sono, gatinhei para baixo de uma mesa de jogo da canasta onde jogavam a minha mãe, a minha avó materna, a D.Laurinda Cardoso e a D. Maria da Natividade (avó do João e da Kika Gancho, do Pedro e da Ritinha Bernardo, do Miguel e do Ricardo Hipólito, entre outros netos) e decidi dar uma mordidela no tornozelo da minha mãe para lhe fazer ver que a minha birra era mesmo para levar a sério.

Não sei como aconteceu mas enganei-me na canela e acabei a morder o tornozelo da D. Maria da Natividade.

Um dos mais queridos e renomados artistas caldenses, o Dr. Leonel Cardoso antecipou o que iria acontecer na minha vida de peripécias. E arriscou editando uma caricatura e um poema a mim dedicados numa edição da Gazeta das Caldas onde durante tantos e tantos anos publicou semanalmente e desta forma humorística, uma dedicatória às mais ilustres personalidades caldenses.

Ficou assim para a posteridade e duma forma quase surpreendente, um retrato de um miúdo, praticamente anónimo, face à enorme notoriedade dos outros retratados.

Como poderão ler nos seus versos, já naquela altura, com dois ou três anos, eu não seria uma pêra doce, ao ponto de merecer um reparo no principal órgão de comunicação caldense!

E depois verifico que no blog dos Antigos Alunos do Colégio Ramalho Ortigão é dado grande ênfase a um Magusto efectuado em 1971 como momento alto de convívio entre os alunos do Colégio. E lá apareço eu, à socapa e como quem não quer a coisa, em três fotografias. Recordo-me que foi nesse Magusto realizado num casal entre a zona do Casal Belver e a Quinta da Boneca que provei pela primeira vez àgua-pé. Tinha sete anos!

Vocês viram o filme Forrest Gump com o Tom Hanks? Pois!

Falando agora a sério, na realidade eu não vivi mais estórias do que qualquer um de vós. Eu apenas as valorizo e faço delas uma elegia à vida e à amizade! Pensem nisso!

Voltando à crónica ‘’O Fim da Adolescência’’ esta será editada em três pequenas partes nos dias 10, 12 e 14 de Setembro e concluirá, como referi, o fim deste ciclo de crónicas.

Não que não haja mais estórias para contar, desde a estória da Biblioteca Gulbenkian do parque e de uma carrinha da biblioteca itinerante que acabou como nosso principal ponto de namoro à porta de uma conhecida discoteca; às estórias do segundo andar do Diogo Sampaio Guimarães; ao segundo sótão do Kiko e ao relato das passagens pelas Caldas da conhecida actriz Alexandra Lencastre e da cantora Ana Deus (ex. Ban, ex. Três Tristes Tigres); do inicio da prática de Baseball e do Windsurf nas praias da Foz e ao dia em que nos idos de 1977 mulheres nuas desfilaram pelas Ruas das Montras; até aquele dia em que um famoso actor de telenovela brasileira dos tempos do Bem Amado e de Dancin Days, me sai pela porta da casa de banho lá de casa, ainda molhado por um duche acabado de tomar, perante a estupefacção de toda a minha família que não conhecia o homem senão da televisão, nem sabia como é que raio ele teria entrado lá em casa!

São outras estórias mirabolantes que ficarão para outra altura!

Agora é tempo de descansar, de um ritmo constante e quase diário da escrita, de ter mais disponibilidade para a família, de no pouco tempo livre viver mais tempo para o presente do que para recordar o passado.

Mais tarde voltarei com mais um novo ciclo de crónicas mas sem a exigência a que me auto-impus de editar crónicas ao ritmo necessário para manter o vosso interesse neste espaço. Vejam isto como as temporadas das séries americanas. Agora vai acabar a primeira temporada e mais tarde, se houver audiência que o justifique, será transmitida a segunda temporada.

Logo no inicio da criação deste grupo fiz um apelo para a participação de todos. Como referi então, eu não participei em todas as vivências, não tenho todas as memórias. Não posso recordar locais, pessoas e factos que não conheci mas que existiram. Nem tão pouco quero relatar factos de que ouvi falar ou de que me falam mas que não vivi.

As minhas memórias são apenas uma fracção de como se vivia naquele tempo. Insuficientes contudo para gerar um retrato completo daquela geração. Compete a vós ir completando a estória e escrever a História.

Já somos mais de 600! Se todos escreverem um único texto, derem testemunho de apenas um facto, lembrarem uma só pessoa que mereça ser recordada, então poderemos manter este grupo por mais dez anos.

Agora passo esse testemunho, não a outro mas a todos vós. Bastará uma estória por semana, façam uma a cada 10 anos, e o grupo e o que ele representa, não morrerá! O movimento de reunião, de aglutinação, de pacificação, de compreensão, que encetámos aqui, não pode parar. Vocês sabem disso!

Eu não peço muito, todos têm certamente estórias engraçadas para contar, amigos para recordar. Não é importante que escrevam bem ou que não dêem erros. O que importa é o conteúdo, não a forma. O importante é não deixarem este espaço morrer. Seria uma pena!

Pensem na nossa Festa, quase 900 amigos em celebração, pensem em todas aquelas emoções que sentimos durante aquela noite. Quando falei em ser uma noite mágica pensei na magia que estaria no ar e que a maior parte de nós iria apanhar. Para alguns foi apenas mais uma noite, talvez tenham já perdido um pouco da sua inocência, talvez precisem de voltar a ser Peter Pan, lembrarem-se da genuinidade dos seus afectos em criança e na juventude. Talvez tenham deixado que a vida adulta lhes tenha tirado por ora a magia. Mas ela vai voltar, certamente e através da convivência neste espaço.

Se tudo correr bem, se o grupo começar a interagir e houver maior participação então este espaço sobreviverá facilmente à ausência das minhas crónicas e se viermos a constatar que este espaço realmente nos importa, então ainda voltarei a tempo com um novo ciclo de crónicas e quem sabe, poderemos vir a ter uma festa ainda maior no próximo ano. Ideias não me faltam! Eu prometo!



Quero agradecer sobretudo à Cláudia Tonelo, ao Albano, à Élia, à Sissi, ao João Paulo Feliciano, à Luisa Pires, ao António Vidigal, à Lena Mendes, ao Nuno Aniceto (Parrila), à Maria João Menino, ao Tó Castro, ao Paulo Arnaldo e a todos os que têm colaborado activamente neste espaço.

Obrigado a todos por terem estado comigo nesta aventura.


No sábado houve magia no ar e ela foi criada por todos nós que partilhámos aquele momento!


Paulo Caiado



Onde quer que nos encontremos,
são os nossos amigos
que constituem o nosso mundo.


William James






LEONEL CARDOSO



Leonel de Parma Cardoso

Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, nasceu a 9 de Setembro de 1898, em Caldas da Rainha. Durante quase toda a sua vida, marcada pela longevidade, exerceu fecunda e heterogénea actividade artística, que se desenvolveu em duas vertentes principais letras e artes plásticas. O seu primeiro contacto com o público data de Setembro de 1917 numa exposição de Caricaturas nas Caldas da Rainha a que se seguirão muitas outras individuais e colectivas. E de salientar o seu poder imaginativo que se revela através da criação de numerosas figuras de Cerâmica que reflectem a influência do meio em que nasceu. O Humorismo é uma constante na sua obra expressa sobretudo na caricatura.


Não, isto não basta!

Terei que dizer que o Dr. Leonel Cardoso e a sua esposa D. Laurinda eram dos maiores amigos dos meus avôs maternos e foram sempre extremamente afectuosos comigo.

E que esse carinho continuou através dos seus filhos e respectivos cônjuges, o Almirante Leonel Cardoso e a minha querida Dôdô que sempre me telefona pelos anos e que mesmo quando vivia em Londres não se esquecia de me trazer os meus gatinhos e carrinhos de chocolate, o seu filho Néné que me ensinou também a jogar ténis e o General Pedro Cardoso e a Teresinha de quem nunca vi sem um sorriso nos lábios, o que aliás o seu filho, o nosso querido e saudoso Pedro herdou, a Zitinha e o Jorge Sottomayor, o mais bonito par do casino e o seu filho Luis Miguel (Gé-Gé para os amigos), um grande amigo e um dos meus primeiros professores de ténis.

Uma família atingida por constantes infortúnios mas sempre mantendo um sorriso nos lábios para receber e confortar os amigos. Uma família, um nome, que honra o país, as Caldas e a nós seus amigos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - O PRIMEIRO SOTÃO DO KIKO


No segundo prédio à esquerda de quem sobe a Rua do Parque, a que nós chamávamos naquele tempo a Rua dos Burros, devido ao elevado número de estrebarias que existiam nessa rua, em áreas agora ocupadas pelas lojas de Móveis Ferreira, ficava o primeiro sótão do Kiko.

Ao contrário do que muitos da minha geração supõem, o Kiko teve dois sótãos distintos, cada um num prédio da família.

A família materna do Kiko (Francisco Miguel) Pessoa e Costa, os Machado, tinha grandes raízes nas Caldas e era proprietária de vários prédios na Rua do Parque e na Rua de Camões, o nome da Pastelaria Machado deriva do facto de ter sido um seu familiar o primeiro proprietário da provavelmente mais conhecida pastelaria caldense.

O avô materno do Kiko, vivia na linda casa que existia então na esquina da Rua de Camões com a Rua do Parque, à entrada tinha um bonito portão de ferro que dava para um pequeno pátio onde cresciam seculares buganvílias roxas que davam uma cor pitoresca àquele ponto da rua, depois subia-se umas escadinhas de poucos degraus para a porta principal. Julgo que por altura do primeiro sótão, esta casa estava dividida em duas fracções vivendo no piso de baixo a avó materna da Bibú e da Vani Castro.

Seria nessa casa de esquina, onde mais tarde foi a sede do Partido Socialista, que o Kiko criou o segundo sótão por onde muitos passaram na sua adolescência.

Mas desse sótão nos ocuparemos numa outra crónica. Para esta o que interessa é contar as aventuras do primeiro sótão.

O Kiko vivia em Lisboa, na Rua Santana à Lapa, só mais tarde se mudou para Carcavelos, mas todos os fins de semana, fosse Inverno ou Verão, vinha para as Caldas com os seus pais e os seus dois irmãos mais velhos. Claro que as férias escolares também eram passadas nas Caldas.

À espera da família tinham a dedicada e amiga Amélia que tratava da lida da casa e muito ajudou na criação do Kiko. Recordo-me de ir almoçar e passar uma tarde na casa da Amélia, no Bairro da Ponte e ver o seu pai ou marido, não me recordo bem de qual, a utilizar um pequeno pião para fazer o Totobola. O pião tinha quatro faces, como um cubo com uma pequena pega em cima e um ponteiro em baixo, uma das faces estava em branco ou tinha um qualquer logótipo, mas a outras três faces tinham os três símbolos do Totobola, ou um 1 ou um X ou um 2. O senhor punha o pião a girar e conforme o lado que ficava para cima quando o pião tombava, era colocado o respectivo símbolo no boletim do Totobola. Não sei se o fazia para todos os jogos ou apenas para aqueles que lhe ofereciam dúvidas. Nós olhávamos maravilhados para aquele sistema que desconhecíamos e aguardávamos que nos fosse oferecida a possibilidade de fazer rodar por uma vez o pião. Era muito engraçado!

Eu julgo que foi desta convivência com a Amélia e das suas refeições e estadias em casa desta que nasceu a amizade do Kiko com aqueles rapazes do Bairro da Ponte que deram origem a uma renovada SAPEC-BX (esta já existia há muitas décadas constituída por outras gerações) e que culminou com a criação do segundo sótão que foi um local de convívio partilhado quer por estes seus novos amigos quer pelos seus amigos de infância do tempo do Casino e que criaram o Sotão dos Crespos.

Voltemos ao Sótão do Kiko. O prédio onde se situava o primeiro sótão, era como referi, o segundo do lado esquerdo de quem começa a subida da rua vindo do lado do parque. Na realidade era por aí que geralmente vínhamos, pois os encontros eram invariavelmente feitos no Casino e daí saíamos pelo primeiro portão à direita, mesmo diante da casa do seu avô.

É inútil procurarem hoje por esses dois prédios pois foram vendidos e demolidos em bloco para dar origem a um novo edifício. E com isso se perderam duas casas lindas e pitorescas que embelezariam as nossas Ruas de Camões e do Parque.

Na casa do Kiko entrava-se por uma estreita porta e deparava-se-nos de imediato umas escadas íngremes que davam para um corredor, as primeiras duas portas, à direita e à esquerda conduziam a salas.

Era por este corredor e nestas salas que eu e o Kiko fazíamos intermináveis corridas de automóveis em circuitos delineados com lápis de cor alinhados em fila indiana.

O Kiko tinha uma colecção de carrinhos bem melhor do que a minha, na sua maioria eram modelos da Norev (a Solido só apareceria uns tempos depois!) à escala 1/43 e comprados no Turita, enquanto os meus carros eram da Matchbox ou da Majorette à escala 1/72 comprados na Tália e na Átila. Recordo-me do meu orgulho quando apareci com os primeiros dois carros da Corgi Toys, então à escala 1/43, comprados naquela grande loja que vendia também kits de modelismo e aparelhos de pesca e que ficava diante da Farmácia Freitas, na Rua da Liberdade. Eram o Yardley-MacLaren M19 do Denny Hulme e o JPS-Lotus 72 do Emerson Fittipaldi, ambos do Campeonato do Mundo de F1 de 1971, mais tarde o João Gancho haveria de me dar o seu Oxo- Surtees TS9A do mesmo campeonato.


Os carros do Kiko eram mais pesados e rodavam menos que os meus levezinhos da Matchbox mas estes eram incontroláveis e invariavelmente despistavam-se nas curvas mais apertadas dos circuitos.

Estas corridas duravam dias e os carros tinham de ficar na mesma posição de um dia para o outro, fazendo com que toda a família tivesse que ter muito cuidado onde punham os pés enquanto caminhavam pela casa!

Então, a pedido da Zé, mãe do Kiko, passámos o nosso campeonato para o Sotão.

O já falado corredor desembocava na cozinha e à esquerda, dentro da cozinha, ao lado da grande chaminé do fogão, abria-se uma porta que dava para as estreitas escadas de madeira que conduziam ao sótão.

Este era esconso nas extremidades, embora sempre com um grande pé direito, tinha uma divisão junto às escadas mas de resto era amplo e recheado de mobílias e de quadros e retratos antigos. Um desses retratos iria servir-nos de inspiração mais tarde!

A nossa primeira utilização para o sótão foram as ditas corridas de carrinhos e alguns jogos que dariam origem mais tarde aos Jogos Olímpicos do Casino, organizados pelo Kiko e que consistiam em jogos de salão disputados no sotão, jogos de laranjinha e tiro com arco disputados no jardim do Casino, jogos de ténis e de ping-pong realizados no parque, corridas a pé na versão curta (do casino ao coreto, dando a volta e regressando), média (volta ao lago com partida e chegada no casino) e longa (volta ao parque com partida do casino pela aldeia dos macacos até ao ténis, correndo sempre junto aos muros em direcção ao parque de campismo, passando por trás do museu em direcção ao portão que dá para a Bordallo Pinheiro, tornando pelo palmeiral, por trás da casa dos guardas, passando o Salão Ibéria e seguindo em frente de novo em direcção ao Casino). Realizavam-se ainda corridas de bicicleta no recinto das bicicletas (onde se alugavam bicicletas que vinham daquela oficina que ficava na Rua de Camões) e mais umas provas na praia (prego, ring, badminton, etc. - Tudo menos natação porque o Kiko não sabia nadar e as provas eram sempre à sua medida!).

Com o passar do tempo haveríamos de dar um novo uso ao Sotão. Em 1969 os três irmãos Barreiros, do Porto, formaram com um amigo um conjunto chamado Mini-Pop. Actuaram em 1971 em Vilar de Mouros e em 1973 participaram no Festival da Canção. Tinham na altura da sua formação entre 7 e 11 anos. Gravaram dois singles e o seu maior sucesso foi uma versão de "A Casa" (Era Uma Casa Muito Engraçada), julgo que da Pandilla. Mais tarde, já crescidinhos haveriam de formar os Jáfumega!

Claro que ficámos fãs dos Mini-Pop e decidimos formar nós próprios um grupo musical. Os Mini-Glow, a verdade é que nos chamávamos Mini-Glo mas como isso não quer dizer nada, eu agora fiz a devida correcção! Era constituído, na maioria das vezes por mim, o Kiko, o Diogo, o João Gancho, o Ricardo Ramos (Geada ou Rato conforme as estações do ano!), o Jaime e no Verão pelo Pedro e o Miguel Calisto.

Não percebíamos nada de música nem tínhamos instrumentos mas há boa maneira de alguns grupos vocais que ouvíamos na rádio ou no programa Dó-Lá-Si aos sábados à tarde, tocávamos com as vozes.

Arranjámos alguns instrumentos para o karaoke. Eu tinha uma viola de brincar comprada ainda nos Armazéns do Chiado que ficavam ao fundo da Praça onde agora fica o Banco Millenium, arranjámos umas pandeiretas com desenhos de dançarina minhota numa loja da praça, umas gaitas compradas na feira da mata e construímos o nosso instrumento preferido, uma bateria! Era constituída por vários tambores de cartão de detergentes Skip e Renamatic e a fazer de pratos tínhamos umas latas de bolachas litografadas em latão!

O Kiko era simultaneamente baterista e vocalista (o microfone era o cabo de uma vassoura!), prerrogativas do dono da casa!

Passávamos as tardes a ensaiar e nos intervalos, entre refrescos Dawa e bolachas Maria, desfrutávamos da leitura das revistas Photo e (o mais ousado para a época) Oui! gamadas à socapa ao Zé Pedro e ao João Luis, irmãos do Kiko.

Cantávamos covers como o Closorais, versão de quem não sabe falar inglês do All My Loving dos Beatles! (ouçam-na e depois percebem porquê!), do My Bonnie e de outras músicas que ouvíamos então nas matines do casino cantadas pelos Xaranga Beat.

Contudo o cover mais tocado era o grande clássico:

São pipocas ao almoço
São pipocas ao jantar
Mas o raio das pipocas
Não há meio de acabar!

Algum tempo depois o nosso John Lennon/Ringo Starr apareceu com umas letras e finalmente começámos a ter alguns originais. Bem, meio originais já que a música vinha sempre de qualquer lado!

Ora experimentem este grande clássico dos Mini-Glo com a música do anúncio da Laranjina C que está algures por aí arquivado no nosso blog:

Uma pomba caiu do céu
Vinha a cantar e a dançar
Vinha a brincar com um papel
Um papel para embalar

A crítica social também não nos escapava e o objecto de todas as nossas partidas era o pobre do contínuo do Casino que teve de nos aturar durante anos a fio, o Sr. José Solteiro.

Solteiro mas casado
Pela terceira vez
Da primeira viúvo
Da segunda divorciado
Será que há terceira é de vez?


Algum tempo depois a música já não era bastante para nós e decidimo-nos a criar uma companhia de teatro. A propósito de um retrato de uma antepassada do Kiko que estava jogado a um canto do Sotão, criámos a peça ‘’O Espirito da Ti Jaquina’’, que metia uma fantasma e uma família e que conhecia uma nova versão todos os dias. Lembro-me que com o João Gancho e com o Jaime era completamente impossível de ensaiar e representar porque nos escangalhávamos a rir com as suas caretas e as suas deixas!

Por onde andará o Jaime? Estive anos sem o ver e de repente em 1998 olho para a televisão quando estava a passar uma reportagem da inauguração da Expo e reconheço-o vestido de Drag Queen cheio de lantejoulas e com um turbante com plumas roxas e violetas! Com aquele falar sissiado característico e agora com mais maneirismos, fazia uma peixeirada de todo o tamanho com a repórter, dizendo que tinha vindo de propósito da Suiça para fazer uma performance na Expo mas que estava tudo mal organizado e que assim o país não andava! Querido Jaime, antes este país de afectos que toda a organização da Suiça!

Quando enfim nos sentíamos preparados para o grande público fazíamos sessões para toda a troupe do Casino e lá vinham assistir , os primos Azevedo e Castro, a Ritinha, o Mário Filipe, a Filipa, a Mafalda e o Luis, os Calistos, a Luisa, a Ana Margarida, a Teresa e a Patricia que os outros eram muito pequenos, os titos, o Chico, o Toni e o João, a Mana Inês, os Moreiras, o João, o Marcos e a Isabel, a Carla Correia Mendes, a Guida Sousa, a Isabel Ramos Coelho, a Lúcia, o Zé Miguel, a Guida e a Graça, a Susana Ramos, a Kika Gancho e as minhas irmãs, e muitos outros, até a Debbie veio um dia, mas a Debbie e a família da Debbie dão uma outra crónica!

Foram tardes e tardes felizes e divertidas e o mais importante é que na grande maioria mantemos todos a amizade e o contacto.

Falta o Kiko que hoje pouco vem às Caldas…

e a Debbie…

e o Jaime!

Por onde andará o Jaime?! Drag Queen, Jaime?! Francamente, o que a Ti Jaquina diria?!!!



Ao Kiko, ao Jaime, ao Diogo e à Debbie, a todos os meus amigos de infância!


Kiko, Pedro Caiado, João Gancho, Paulo Caiado, Ruben Caiado

Joan Baez - Forever Young


OS MINI-POP



O conjunto Mini-Pop, composto por 4 elementos, de idades compreendidas entre os 7 e os 11 anos de idade, formou-se no ano de 1969. O grupo dos irmãos Barreiros (Pedro, Mário e Eugénio)e do amigo Abílio foi dinamizado pelo Pai Mário Barreiros.

Gravaram dois singles para a editora Zip-Zip. O maior sucesso foi uma versão de "A Casa" (Era Uma Casa Muito Engraçada).

Ao vivo o repertório do grupo nunca foi tão comercial como em disco. Actuaram com bastante sucesso no Festival de Vilar de Mouros de 1971.

Passaram para a Movieplay onde gravaram um primeiro single com os temas "Delta Queen" e "Beggars Can't Be Choosers".

Participaram depois no Festival RTP da Canção de 1973 com "Menina de Luto".

Lançaram o single "Days Of Summer/Vaya Con Dios". Gravaram novo single, "My Holiday Girl", com temas de Paulo de Carvalho e Mike Britton.

Durante 10 anos de carreira gravaram sete singles e participaram em cerca de 300 espectáculos. Também tentaram entrar em Espanha como "Tanga", o nome escolhido para a internacionalização.

Após o fim do grupo transformaram-se nos Jafumega, uma das bandas que marcou a década de 80 em termos musicais.


sexta-feira, 30 de abril de 2010

MATINÉS NO CASINO


A propósito das fotos dos bailes de máscaras que se realizavam no Casino das Caldas vieram-me à memória grandes recordações dessa época que marcou a minha infância e a minha pré-adolescência.

Desde sempre o Casino organizou bailes e soirées que alcançaram fama não só em Portugal como no estrangeiro através dos maiores nomes da canção ligeira portuguesa e europeia. As temporadas de Verão do casino e a semana do Carnaval constituíam o ponto mais forte com inúmeros bailes e concursos de misses.

Não vou aqui desenvolver este tema que já está tão bem retratado no blog dos ex. alunos do Externato Ramalho Ortigão mas trazer à memória as matinés de Carnaval no casino dedicadas às famílias, incluindo as crianças.

Era um dos pontos mais fortes do ano para nós e alguns esmeravam-se na confecção ou no aluguer de trajes e máscaras que vestiam nessas matines. Lembro-me particularmente de um ano em que os primos Crespos apareceram vestidos de astronautas com o capacete com redoma de vidro e tudo. Um espanto!

Lembro-me também que as melhores festas de máscaras para crianças do Casino eram organizadas pela Bé Castro, mãe da Bibú e da Vani.


No inicio dos anos 70 a Direcção do casino contratou um conjunto que teve uma carácter mais permanente, os Xaranga Beat, esta banda tocava nos bailes de Verão (sendo o mais importante o baile de Chitas no 15 de Agosto) e do Carnaval, e faziam o frete de animar a pequenada e os adolescentes nas matines aqui referidas.


Esta banda conheceu várias formações sendo a que eu melhor me recordo (o que me aturavam nos ensaios!) o Carlos Cavalheiro (voz) , Júlio Pereira (piano, órgão e viola) (sim o talentoso músico do cavaquinho), Carlos Patricio (baixo) e Rui Venâncio (bateria) posteriormente substituído pelo Zé da Cadela.

Este grupo mudou posteriormente o seu nome para Xaranga (não confundir com o grupo de música etno-popular Charanga do Chico Carrilho) e quando gravaram os seus dois singles utilizaram a designação Xarhanga.

Foi ao som dos Xaranga e da voz do Carlos Cavalheiro que eu dancei os meus primeiros slows, a música? Michelle, Yesterday ou The Long and Winding Road dos Beatles. As damas: a Margarida Sousa e a Isabel Ramos Coelho. Tinha pouco mais de 10 anos!

Apesar do seu inglês não ser muito ‘’oxfordiano’’ lá se desenrascavam com agrado com covers dos Beatles (All My Loving era um must!) e outros grupos da época (música ligeira que a velha guarda não permitia devaneios!).

No entanto as músicas que me ficaram na memória por tanto serem cantadas ao longo das tardes, foram as suas versões de Sunny de Bobby Hebb e de My Bonnie de Tom Sheridan (que mais tarde mereceu um cover dos Boney M). Como curiosidade Tom Sheridan gravou na Alemanha uma versão de My Bonnie com um grupo chamado The Beat Brothers que não eram mais do que os Beatles.

My Bonnie lies over the ocean
My Bonnie lies over the sea
My Bonnie lies over the ocean
Oh bring back my Bonnie to me

REFRÃO

Bring back, bring back
Bring back my Bonnie to me, to me
Bring back, bring back
Bring back my Bonnie to me

Last night as I lay on my pillow
Last night as I lay on my bed
Last night as I lay on my pillow
I dreamed that my Bonnie was dead


REFRÃO

Oh blow the winds o'er the ocean
And blow the winds o'er the sea
Oh blow the winds o'er the ocean
And bring back my Bonnie to me


REFRÃO

The winds have blown over the ocean
The winds have blown over the sea
The winds have blown over the ocean
And brought back my Bonnie to me


REFRÃO



Covers dos Xharanga: Matinés no Casino

Tonny Sheridan & The Beat Brothers (Beatles) - My Bonnie


Bobby Hebb "Sunny" (1966)

THE BEATLES - ALL MY LOVING (CLOSE YOUR EYES)


Ainda em 1973 os Xaranga Beat deram a vez aos We como banda residente, um conjunto de músicos locais formados especialmente para o efeito.


Do conjunto WE podemos ver o Luís Silva, o Jaime Saez Salgado, o António João Freitas e o Carlos Silva ou Cazé. Em algumas fotos encontramos também o Carlos Sena, já falecido, que participou na actuação.



Em 4 de Setembro de 2010 na Festa do nosso Grupo, os WE  tiveram um enorme gesto de amizade para com todos nós e reuniram-se (sem o Jaime, ausente por motivos profissionais) ao fim de 30 anos para nos dar um concerto memorável numa noite memorável.