sábado, 8 de dezembro de 2012

SAUDADES DE NÓS PRÓPRIOS



Este Verão encontrei por mero acaso um casal amigo que estavam acompanhados por um outro casal , este de Santarém.
Estes amigos contaram-me que raramente vinham para estes lados e que mesmo na sua juventude eram mais frequentadores da Nazaré ou de Peniche que das Caldas ou da Foz.
Disseram-me que consideravam agora as Caldas uma cidade muito morta, sem movimento nocturno, sem algo que juntasse as pessoas nas ruas à noite.
Na realidade até se queixaram de ser difícil de encontrar no centro um café aberto após as 20h00, isto numa cidade veraneia!
Os meus amigos apressaram-se a explicar que nem sempre fora assim. Que as Caldas era antigamente conhecida pelo seu intenso movimento nocturno e que as pessoas, mesmo sem telemóveis para marcar encontros, ao sair de casa tinham a certeza de ir encontrar todos os seus amigos em locais habituais em diferentes pontos da cidade, fossem cafés, esquinas, praças e largos. 
- Antigamente é que era! – rematou o meu amigo com melancolia.
Antigamente é que era! Cada vez que morre alguém, um amigo ou um conhecido, que nos faz recordar esses tempos vemos um tempo que já lá vai partir definitivamente. Vemos pessoas que nos alegravam o espírito e traziam cor e musicalidade nas palavras às ruas, partirem!
Se antigamente é que era temos então que aceitar que o antigamente que era fantástico desaparece definitivamente com a partida dessas pessoas? Com a partida dos que animavam a praça da fruta, a praça do peixe, a rua das montras, o burlão, o largo do bairro da ponte…?
De que temos saudades então? Não estão aí praticamente os mesmos prédios, as mesmas ruas, os mesmos largos e praças?
Não é verdade que até estabelecimentos como a Zaira e tantos outros ainda há pouco tentaram ser recuperados, reanimados, reavivados e nós não correspondemos?
Não! Não é dos lugares que temos saudades pois eles mantém-se! Não é dos cafés que temos saudades pois eles acabaram pela nossa ausência!
Do que temos verdadeiramente saudades é de nós próprios. Do que fomos, do que fazíamos!
Não era preciso um concerto ao ar livre para sairmos de casa em direcção à Praça. Não era preciso a Câmara ou um clube recreativo promover uma acção de rua para sairmos de casa!
É certo que se cometeram erros gravíssimos contra a promoção e animação da cidade como a retirada das feiras do parque (basta ter ido no Verão ao Bombarral à Feira do Vinho ou a Évora à Feira de S. Pedro e assistir à animação das veredas dos seus parques e a alegria do reencontro anual de amigos para ver que a centelha iluminada que passou pela nossa cidade já estava felizmente fundida quando rondou outras cidades!)
Mas esses momentos não eram permanentes e todavia a nossa cidade permanecia animada por todos os dias e noites independentemente da estação do ano.
Culpemos então os 100 canais da Tv Cabo, os Dvds, os blogues e o Facebook, culpemos o aquecimento central e o ar condicionado. Culpemos todas as desculpas e razões que encontremos para não sair à noite como o fazíamos no passado. Mas no fim tenhamos a sensatez de admitir que os únicos culpados da falta de movimento nocturno da cidade, da animação das nossas ruas, do fecho definitivo ou demasiado cedo dos nosso cafés é exclusivamente nossa.
Não saímos à noite porque sabemos que não nos vamos encontrar! Porque eu sei que não vos vou encontrar e vocês sabem que não me vão encontrar, nem a mim, nem a todos os outros!
Na verdade, do que temos saudades não é do antigamente, não é dos cafés, das ruas e das praças.
Do que temos saudades é de nós próprios! Da nossa vontade de nos encontrarmos, de estarmos com os outros de forma física, táctil, sonora, afectiva e não de uma qualquer maneira virtual! De nos cumprimentarmos, de nos beijarmo-nos, de nos abraçarmo-nos!
Do que temos saudades, meus amigos, era da forma solidária, comunitária, sociável como nós éramos!
Fomos nós, somos nós, que demos cabo de tudo aquilo que agora nostalgicamente recordamos!
E não precisava de ser assim. Eu visito e visitei dezenas de cidades por esse mundo fora, cidades de província de dezenas de países, e em todas elas as esplanadas continuam cheias, seja Verão seja Inverno. E nesses países também há Tv Cabo, dvds, Internet. Também há temperaturas acima dos quarenta e temperaturas abaixo de zero. E de Hamburgo a Copenhaga, de Valência a Vicenza, de Avinhão a Aberdeen as ruas à noite estão cheias e as esplanadas preenchidas de gentes de todas as idades que procuram aquilo que em casa não podem ter, que nenhuma tecnologia lhes pode trazer. Confraternizar!




1 comentário:

Anónimo disse...

Gosto deste blog, mas só fala de gente bem comportada e socialmente aceite - da tribo dos betinhos, ou dos queques, como então se dizia. Da paisagem das Caldas, num mundo paralelo a este, faziam parte uma quantidade gente sem apelido de família, como o Cowboy, o Black, o Alberto Penteado, o Moreira, a Alda, e tantos outros inimigos públicos e alguns ratos de esgoto, que gostava de ver retratados num outro blog.