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quinta-feira, 1 de julho de 2010

UMA URGÊNCIA



O relógio na parede marca 2h da manhã, quando entra, passo rápido e apressado, olhar em redor como procurando algo.


Fixa o olhar num canto, onde várias pessoas, sós ou a falar, mostram inquietação. Volta novamente a olhar em torno de si, e revela uma expressão de alívio ao fixar o olhar num vidro com uma fila de pessoas a aguardar.

A sua agitação revela uma ansiedade, aliás, comum à maioria das pessoas que permanecem naquele espaço. Indiferentes aos sons, de vozes sussurrantes, vozes alteradas e mesmo agressivas, portas que se abrem e fecham, passos de corrida, gritos, televisões colocadas em diferentes sítios e com diferentes canais sintonizados, choros, ressonares, e uma voz que, de quando em vez, soletra nomes quase indecifráveis no som do altifalante. Na rua ouvem-se vozes, passos, travões, chiar de pneus, diferentes viaturas a circular, portas que batem violentamente, sirenes…

De repente, olha e vê-se frente ao vidro onde alguém vestido de branco lhe pergunta:

- Boa noite. Tem o cartão de saúde? O nome e o motivo por que vem à urgência…

Rapidamente, responde:

- Boa noite. Tenho o cartão. O meu nome é Alzira… e há uma hora que ando de carro a percorrer bombas de gasolina, sempre fechadas, e preciso que me troque dinheiro para tirar um café na máquina!



(post da Cláudia Tonelo  escrito em  5 Junho 2002    22.05h)

 
Rui Veloso no Passeio Dos Alegres do Júlio Isidro Anos 80. - Um Café e Um Bagaço
 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

BALADA PARA ANA



Não me recordo já em que momento nos conhecemos mas lembro-me de ti como a minha melhor amiga na primeira classe do Colégio.

Provavelmente conhecemo-nos naquele dia do inicio de Outubro de 1969 quando chegámos ao Colégio para o primeiro dia de aulas.

Recordo-me desse dia como se fosse hoje. Agarrado às saias da minha mãe, pela última vez chorando de medo e a D. Esperança a dizer:

- Então? Um rapazinho dessa idade a chorar?! Nunca vi nada assim! Já são todos uns homenzinhos!

E a levar-me gentilmente para a minha carteira enquanto a minha mãe, escondendo a preocupação, se despedia com um sorriso.

Para trás ficavam os anos do jardim-escola da Misericórdia no Bairro da Ponte, ao lado do terreiro onde às segundas-feiras se realizava a feira semanal, onde vacas e burros eram vendidos com as galinhas, batatas e vergas.

Para trás iria ficar o sorriso acolhedor da Isabel, a ternura da Alicinha e as brincadeiras da Filomena e da Gracinha Jordão.

Começava a Primária!

Lembro-me como desde logo as nossas diabruras no corredor nos levavam ao gabinete do Padre Albino cuja tumefacção proeminente na testa nos assustava inicialmente e divertia depois.

Lembro-me de te atirar caramelos Vaquinha do outro lado do bar passando por cima da D. Luisa.

(Lembras-te que os bares eram separados para os rapazes e raparigas cada um tendo o seu acesso pelo respectivo recreio?)

O famoso bar onde nas tardes de Verão comíamos os célebres gelados feitos com refresco Dawa, Alsa ou Royal em cuvetes e que levavam um palito espetado e onde a D. Luisa nos servia ao almoço os famosos ovos estrelados de codorniz!

Nessa primeira classe ainda conseguimos guardar reminiscências desses tempos. À tarde com a D. Dora, no intervalo grande ou à saída antes de entrarmos no autocarro, enfim , em todos os locais onde nos pudéssemos juntar, rapazes e raparigas, na verdade meninos e meninas ainda, fazíamos uma grande roda e entoávamos as cantigas do jardim-escola. E lá cantávamos o Ai ai ai minha machadinha e o Que linda falua… afinal a nossa infância não podia acabar por decreto!

O ano foi passando e éramos cada vez mais amigos até que me deste noticia que irias voltar para África (S. Tomé? Angola?)

Eu então ganhei talento e coragem, alento e descaramento, e escrevi-te cartas contando o que se passava no colégio enquanto tu permanecias no meio da selva. As minhas primeiras cartas de amor ! Aos sete anos, imagina!

(Depois a Kika Gancho recebeu outras em Lourenço Marques mais tarde! Digo isto porque se não a Kika vai já fazer o respectivo comentário!!!LOL!)

Quando voltaste ao colégio trazias contigo o teu primo Nuno e para casa um enorme pastor alemão militar, o Pilão!

O Nuno estava gravemente doente e entre ambos repartimos a sua protecção e companhia. Que saudades eu tenho do Nuno! Com ele senti pela primeira vez a perda de um amigo!

Nós continuávamos nas nossas maluqueiras, contigo a saltar diariamente as vedações que separavam os dois recreios ou a encontrar-nos em zona neutra, entre as duas vedações junto à porta nobre do ginásio!

Desta vez era o Padre Xico que nos aturava e lá íamos ao seu gabinete enfrentar desta vez o seu sorriso tolerante. E como nós gostávamos do Padre Xico! Lembras-te de nós a fingirmos que éramos muito úteis a ajudá-lo na construção do seu barco nas traseiras do colégio? Naquela garagem ao lado do acesso às caves onde o Sr. Luis criava as codornizes?

Perdeste o famoso Magusto de 1971, onde pela primeira vez bebi à socapa um gole de água-pé, apareço ainda em algumas fotos com um ar muito santinho a pilar uma castanha. Logo depois escrevi-te uma carta a contar as peripécias!

As aulas de ginástica, tu com a D. Rosa e eu com o Prof. Silva Bastos e mais tarde com o Prof. Berjano eram mais um pretexto para nos metermos um com o outro. Lembras-te de nós de sapatilhas brancas e t-shirts brancas com uma faixa no peito com o nosso nome a preto?

Quando não eram nessas aulas, era na sala da D. Esperança que suspirava de resignação, mesmo quando íamos buscar o esqueleto que estava guardado na arrecadação em frente e colocávamo-lo na sala com um chapéu de feltro na cabeça.

Nas aulas da tarde e ainda antes de passarmos para a sala da D. Dora (aquela por baixo do telheiro do recreio dos rapazes, saindo para a rua à direita e cuja porta de vidro foi um dia trespassada pelo Frederico Granja!) fazíamos jogos de aprendizagem no quadro de ardósia, bem pertinho da Mariazinha, a régua alva e grossa (que só experimentei por uma vez porque um dia fui indelicado o suficiente para desafiar a D. Esperança a dar-me umas reguadas para ver se doía!) e nesses jogos desenhávamos a forca com palavras escondidas em tracinhos que determinavam o número de letras, e cada vez que falhávamos as letras desenhávamos um componente do homem enforcado. Lembras-te como eu sempre escrevia palavras que eram mensagens para ti ou tinham a ver com algo entre nós? Um segredo, uma brincadeira?

Depois arriscávamos as aulas de Canto-Coral com o Padre Renato a ver quem desafinava mais até que ele nos mandava para o recreio e nós ficávamos enfim juntos a brincar enquanto decorriam as aulas.

Saíamos do colégio e antes de embarcar no autocarro dos Claras que nos levava de regresso a casa, dizíamos adeus ao Sr. Luis e ao Sr. António que estavam diante da sua pequena casa à entrada, não sem antes irmos dar pão aos peixes que nadavam no pequeno tanque no fim da rua do colégio ( junto ao portão que dava para o recreio dos rapazes) ou nos sentarmos dentro do BMW 700 da D. Anita Nascimento invariavelmente estacionado junto às escadas da saída, à direita de quem desce. Depois entrávamos na camioneta. A D. Clarisse, irmã da Alicinha do meu jardim-escola, à frente, na primeira fila, a D. Dora atrás do condutor e nós… o mais para trás possível!

Repartíamos os tempos de escola e os tempos livres. E no casino, depois de termos comprado uns fios de couro com um símbolo em metal a uns hippies no parque, formámos com o Pedro e a Kikas Gama, o grupo Paz e Amor, fosse lá o que isso fosse!

Depois crescemos e fomos para o ciclo preparatório mas mantivemo-nos juntos. Um dia os teus pais foram jantar lá a casa e decidiram mostrar aos meus uns slides de África e fomos os dois num pulo a tua casa. Eu adorava a tua casa cheia de artefactos africanos! Tu entraste e não abriste a luz pois sabias de cor onde estavam os slides mas o Pilão sentindo o seu domínio ameaçado atirou-se a mim e ferrou-me uma dentada na barriga que me doeu como o caraças (o sacana do cão no dia seguinte já estava a brincar comigo atrás da igreja (onde jogávamos à bola e com ela partíamos os vidros ao pobre do Sr. Manuel) como se nada fosse!

Tínhamos aulas de Moral e Religião com o padre Zé Maria e eu ficava danado quando vocês todas preferiam aproveitar a sua boleia no seu BMW 2002 cor de vinho do que vir comigo a pé para casa.

Estudávamos juntos no meu quarto, tu, eu e a Luisa e os trabalhos de grupo eram sempre feitos a três!

Festejámos os teus aniversários nas casas das Caldas, de S. Martinho e até na quinta dos Vidais! Fomos de férias juntos para o Algarve, para a praia da Foz e de S. Martinho e até a S. Pedro de Moel. Ia contigo aos torneios da Marinha Grande, Lisboa, Torres Novas e Coimbra.

Mil e uma viagens, aventuras e festas de garagem, de sótão, de salas!

Até a Profissão de Fé fizemos juntos. Eu, tu e a Luisa! E que pândegas foram aquelas aulas de preparação e como se divertiram os nossos amigos a ver-nos naquelas vestes à saída da cerimónia!

(Que penteado e que roupas, meu Deus! Golas altas e bocas de sinos; os anos setenta foram mesmo o cúmulo do mau gosto!)

Temos fotos a acompanhar o desenrolar das nossas vidas, até uma que nos mostra vestidos de hippies no corso carnavalesco e que anda algures por aqui neste espaço, ficou para a posteridade!

Todas as noites aparecia em tua casa e era recebido com a voz da Rosinda na cozinha:

- Pronto, chegou o salta-pocinhas!

E ficávamos longas horas a jogar cames!

Mais tarde, já no liceu, acompanhei ao vivo e a cores a tua belíssima carreira na ginástica e na natação no clube Os Calimeros de que o teu pai foi um dos grandes impulsionadores.

Nas longas noites de inverno ficávamos nós com o Pedro e a Cláudia, com a vigilância eventual da Clarissa, a jogar ao ‘’Verdade ou Consequência’’ e a conversar nas escadas do teu prédio, até serem horas de irmos para casa.

Quando tive o acidente a jogar volei no liceu e tive de permanecer imobilizado na cama por uns tempos e foste tu que me acompanhaste em todos os teus tempos livres, fazendo-me companhia horas a fio! Uma vez amiga, sempre amiga!

Logo algum tempo depois começaste a namorar o Duarte numa relação que deu num lindo casamento até hoje, provavelmente o mais longo da nossa geração! Logo depois nasceu a bela Inês que sempre me faz ver uma versão actualizada de ti!

Nessa altura começaste a ir por mais tempo para o Baleal e eu comecei a idade dos namoros e fui para Lisboa estudar e mais tarde trabalhar para Coimbra de onde voltei praticamente casado. O normal rumo da vida encarregou-se de nos separar e já só espaçadamente nos cruzamos.

A minha vida começou a repartir-se entre Caldas e Lisboa e os filhos vieram enriquecer a minha vida familiar e tomar o meu tempo livre.

Hoje já tens também mais dois filhos e até uma neta mas continuas a Ana que eu conheci há 41 anos. Também a nossa amizade continua a mesma!

Citando Vinicius de Moraes num poema que já aqui postei:

Mesmo que as pessoas mudem
e suas vidas se reorganizem,
os amigos devem ser amigos para sempre,
mesmo que não tenham nada em comum,
somente compartilhar as mesmas recordações.

Pois boas lembranças,
são marcantes
e o que é marcante nunca se esquece!

Uma grande amizade
mesmo com o passar do tempo
é cultivada assim!



Feliz Aniversário Ana



AS NOSSAS CANTIGAS


(primeiros versos)



A saia da Carolina

A saia da Carolina
Tem um lagarto pintado
Sim Carolina ó - i - ó - ai
Sim Carolina ó - ai meu bem


Alecrim

Alecrim, alecrim aos molhos
Por causa de ti choram os meus olhos
Ai meu amor quem te disse a ti
Que a flor do monte era o alecrim.


As três galinhas

Três galinhas a cantar
Vão p'ró campo passear.
Uma à frente, é a primeira
Logo as outras, em carreira
Vão assim, a passear,
Os bichinhos procurar!



Atirei o pau ao gato

Atirei o pau ao gato to - to
Mas o gato to-to não morreu
Não morreu eu-eu
Dona Chica ca-ca assustou-se se
Com o berro, com o berro
Que o gato deu - miau.



Balão do João

O balão do João
Sobe, sobe, pelo ar
Está feliz o petiz a cantarolar
Mas o vento a soprar,
Leva o balão pelo ar,
Fica então o João a choramingar.



Barata

A barata diz que tem
Sapatinhos de veludo
É mentira da barata
O pé dela é que é peludo
AH, AH, AH, EH, EH, EH
O pé dela é que é peludo



Bola

Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Foi-se embora fugiu
Olha a bola Manel
Olha a bola Manel
Nunca mais ninguém a viu.



Cabeça, ombros, joelho e pés

Cabeça, ombros, joelho e pés
Joelho e pés, joelho e pés
Cabeça, ombros, joelho e pés
Olhos, ouvidos, boca e nariz



Caminho de Viseu

Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu
Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu
Encontrei o meu amor, ai Jesus que lá vou eu
Ora zus - trus - trus
Ora zás - trás - trás
Ora zus - trus - trus
Ora zás - trás - trás
Ora chega, chega, chega
Ora arreda lá para trás
Ora chega, chega, chega
Ora arreda lá para trás



Capuchinho Vermelho

Pela estrada fora eu vou bem sozinha
Levar estes bolos à minha avózinha.
Ela mora longe e o caminho é deserto
E o lobo mau passeia aqui por perto.



Cavalo

Era uma vez um cavalo
Que vivia num lindo carrocel
Tinha orelhas de burro
E o rabo era feito de papel
A correr chá - lá - lá
A saltar chá - lá - lá
Cavalinho não saía do lugar.



Come a papa, Joana come a papa

Come a papa, Joana come a papa
Come a papa, Joana come a papa
Joana come a papa.
1, 2, 3
Uma colher de cada vez
4, 5, 6
Era uma história de reis
E outra colher de papa.
Come a papa, Joana come a papa



Do rabo fiz navalha

Do rabo fiz navalha
Da navalha fiz sardinha
Da sardinha fiz farinha
Da farinha fiz menina
Da menina fiz uma gaiola
Prum, Pum, Pum
Que eu vou p'ra Angola



Dó-Ré-Mi

Dó - Ré - Mi - a mimi
Mi - Fá - Sol - pelo sol
Fá - Mi - Ré - vai a pé
Mi - Ré - Dó - não tem pópó
Dó - Ré - Mi - eu cozi
Mi - Fá - Sol - um pão mole
Fá - Mi - Ré - p'ro café
Mi - Ré - Dó - da minha avó



Era uma vez um rei

Era uma vez um rei
Com uma grande barriguinha
Comia, comia
E mais fome tinha.



Eu fui ao jardim celeste

Eu fui ao Jardim Celeste,
Giroflé, giroflá.
Eu fui ao Jardim Celeste,
Giroflé, flé, flá.
O que foste lá fazer
Giroflé, giroflá.
O que foste lá fazer
Giroflé, flé, flá.
Fui lá buscar uma rosa
Giroflé, giroflá.



Galinhas

Doidas, doidas, andam as galinhas
Para por o ovo lá no buraquinho
Raspam, raspam, raspam
P'ra alisar a terra
Picam, picam, picam
Para fazer o ninho



Josézito, já te tenho dito

Josézito
Já te tenho dito
Que não é bonito
Andares m'enganar
Josézito
Já te tenho dito
Que não é bonito
Andares m'enganar



Machadinha

AH, AH, AH minha machadinha
AH, AH, AH minha machadinha
Quem te pôs a mão sabendo que és minha
Quem te pôs a mão sabendo que és minha
Sabendo que és minha, também eu sou tua
Sabendo que és minha, também eu sou tua
Salta machadinha para o meio da rua
Salta machadinha para o meio da rua
No meio da rua não hei-de eu ficar
No meio da rua não hei-de eu ficar
Hei-de ir à roda escolher o meu par



Na loja do mestre André

Foi na loja do mestre André que eu comprei um pifarito.
Tiro - liro - liro, um pifarito.
Ai - ó - lé, ai - ó - lé, foi na loja do mestre André!
Foi na loja do mestre André que eu comprei um pianinho.
Plim - plim - plim, um pianinho.
Tiro - liro - liro, um pifarito.
Ai - ó - lé, ai - ó - lé, foi na loja do mestre André.
Um Tamborzinho...Tum - tum - tum, um tamborzinho
Plim - plim - plim, um pianinho.
Tiro - liro - liro, um pifarito.



Na quinta do tio Manel

Na quinta do Tio Manel
l-A-l-A-0!
Há patinhos a granel
I-A-I-A-O!
Quá-quá-quá-quá-quá
Na quinta do Tio Manel
I-A-I-A-O!
Há vaquinhas a granel
l-A-l-A-0!
Mu-mu-mu-mu-mu



O balão do João

O balão do João
Sobe, sobe pelo ar.
'stá feliz o petiz.
A cantarolar.
Mas o vento a soprar,
Leva o balão pelo ar.
Fica, então, o João
A choramingar.



O cuco na floresta

Eu ia na floresta e pus-me a escutar
Por trás duma giesta os cucos a cantar
Cu - cu, cu - cu, cu - cu, cu - ru, cu - cu
Cu - cu, cu - cu, cu - cu, cu - ru, cu - cu
A noite estava escura e não havia luar
Ouvia-se lá ao longe os lobos a uivar
Aú - Aú - Aú - Aú - Aú
Aú - Aú - Aú - Aú - Aú



Ó malhão, malhão

Ó malhão, malhão,
que vida é a tua?
Ó malhão, malhão,
que vida é a tua?
Comer e beber, ó terrim, tim, tim,
passear na rua.
Comer e beber, ó terrim, tim, tim,
passear na rua.



O pretinho Barnabé

O pretinho Barnabé, tiro-liro-liro,
O pretinho Barnabé, tiro-liro-lé.
A saltar quebrou um pé, tiro-liro-liro,
A saltar quebrou um pé, tiro-liro-lé.
Salta agora só num pé, tiro-liro-liro,
Salta agora num só pé, tiro-liro-lé.



Ó rama, ó que linda rama

Refrão
Ó rama ó que linda rama
Ó rama da oliveira
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira
Que anda aqui na roda inteira
Aqui em qualquer lugar
Ó rama, ó que linda rama
Ó rama do olival.



Ó Rosa, arredonda a saia

Ó Rosa, arredonda a saia,
Ó Rosa, arredonda-a bem!
Ó Rosa, arredonda a saia,
Olha a roda que ela tem!
Olha a roda qu'ela tem,
Olha a roda qu'ela tinha!
Ó Rosa, arredonda bem
A tua saia redondinha!



Olha a triste viuvinha

Olha a triste viuvinha
Que anda na roda a chorar!
Anda a ver se encontra noivo
Para com ela casar!
Já lá leva dois cabaços
Três ou quatro há-de levar!
É bem feito, é bem feito
Não acha com quem casar!



Oliveirinha da serra

Oliveirinha da serra
O vento leva a flor.
Ó -i - ó - ai, só a mim ninguém me leva,
Ó -i - ó - ai, para o pé do meu amor!



Os olhos da Marianita

Os olhos da Marianita
São verdes da cor do limão
Os olhos da Marianita
São verdes da cor do limão
Ai sim, Marianita, ai sim
Ai não, Marianita, ai não
Ai sim, Marianita, ai sim
Ai não, Marianita, ai não
Os olhos da Marianita
São negros cor do carvão
Os olhos da Marianita
São negros cor do carvão



Papagaio louro

Papagaio louro
De bico dourado,
Leva-me esta carta
Ao meu namorado



Pastor

Quando eu era menino
Aprendi de meu pai
A guardar rebanhos
E a cantar trai-lai-lai!
Lai-lai, lai-lai, cantando vai pastor
Lai-lai, lai-lai, cantando pastor vai!



Pastorzinho

Havia um pastorzinho
Que andava a pastorecer
Saiu de casa e pôs-se a cantar:
Dó, ré, mi, fá, fá, fá
Dó, ré, dó, ré, ré, ré
Dó, sol, fá, mi, mi, mi
Dó, ré, mi, fá, fá, fá



Patinhos

Todos os patinhos sabem bem nadar,
Cabeça para baixo
Rabinho para o ar
Quando estão cansados da água
Vão sair, da água vão sair
Depois em grande fila
Para o ninho querem ir
Depois em grande fila,
Para o ninho querem ir.



Pombinhas da Catrina

As pombinhas da Catrina
Andaram de mão em mão
Foram ter à Quinta Nova
Ao pombal de São João
Ao pombal de São João
À Quinta da Roseirinha
Minha mãe mandou-me à fonte
E eu parti a canteirinha



Ponha aqui o seu pézinho

Ponha aqui o seu pézinho
Devagar, devagarinho
Se vai à ribeira grande
Eu tenho uma carta escrita
Para ti cara bonita
Não tenho por quem a mande



Que linda falua

Que linda falua, que lá vem, lá vem
É uma falua que vem de Belém
Vou pedir ao Senhor Banqueiro
Se me deixa passar,
Tenho filhos pequeninos,
Não os posso sustentar.
Passará, não passará,
Se não for a mãe à frente
É o filho lá de trás.



Rosa branca ao peito

Rosa branca ao peito,
a todos está bem.
Rosa branca ao peito,
a todos está bem.
À menina (Rosa), olaré,
melhor que a ninguém
À menina (Rosa), olaré,
melhor que a ninguém
Melhor que a ninguém,
por dentro ou por fora.



Sra. D. Anica

Sra. D. Anica venha abaixo ao seu jardim
Venha ver as lavadeiras a fazer assim - assim
Venha ver as costureiras a fazer assim - assim
Venha ver os jardineiros a fazer assim - assim
Venha ver os sapateiros a fazer assim - assim
Venha ver os carpinteiros a fazer assim - assim
Venha ver o cozinheiro a fazer assim - assim



Tia Anica de Loulé

Tia Anica, tia Anica,
Tia Anica de Loulé,
A quem deixaria ela
A caixinha do rapé?

Refrão

Olé, olá! Esta moda não 'stá má.
Olá, olé! Tia Anica de Loulé.



Tiro - Liro - Liro

Lá em cima está o tiro - liro
Cá em baixo está o tiro - liro - Ió
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó.
Juntaram-se os dois à esquina
A tocar a concertina
A dançar o solidó.



Três pombinhas

Lá vai uma
Lá vão duas
Três pombinhas a voar
Uma é minha
Outra é tua
Outra é de quem a apanhar.

 
 








terça-feira, 22 de junho de 2010

BAU DE MEMÓRIAS: FUNGÁGÁ DA BICHARADA

José Barata Moura "Fungágá da Bicharada (1975) + Joana Come a Papa (1971) + A Bola do Manel (1967)"
Ainda hoje canto muitas das canções do José Barata Moura... o que me recordo delas

Continuo a adorar :)
 
 
 


(post da Cláudia Tonelo)

BAU DA MEMÓRIA - O TOPO GIGIO

O Topo Gigio é um personagem de um programa infantil, criado na Itália, em 1958, por Maria Perego .





...É um rato com uma personalidade infantil, muito popular na Itália durante várias décadas. Actua regularmente no concurso Sequim D'Ouro. Fora da Itália, Topo Gigio já fez parte de outros programas de televisão como o Ed Sullivan's Show, nos EUA, ou Topo Gigio and the Missile War (1966, dir. Kon Ichikawa) e Nippon Animation (1988), um cartoon, no Japão.

Fez, também, sucesso no Brasil, em programas apresentados por Agildo Ribeiro em 1969, e em Portugal, em 1979, num programa televisivo apresentado por Rui Guedes (já falecido e que eu bem conheci a tocar piano no bar do Sheraton).

Mais recentemente, na década de 90, entrou em programas como o Big Show Sic, de João Baião.

Já o Rui Guedes ficou conhecido por ter adquirido o espólio de Florbela Espanca tendo editado um volume das suas obras completas e ainda uma fotobiografia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - O EXAME DA QUARTA CLASSE




Hoje em todo o país, dezenas de milhares de crianças concluem o ano lectivo do primeiro ciclo, antiga Primária. E destes, alguns milhares, incluindo o meu filho Francisco, concluiram a antiga quarta classe.
Em 1973, eu e os meus colegas de classe, preparámo-nos com afinco para os exames finais da quarta classe. Estudávamos no Externato Ramalho Ortigão, vulgo O Colégio, que não possuía autonomia pedagógica, razão porque esse exame teria de ser efectuado numa escola oficial.
Essa contingência aumentava a nossa preocupação e durante semanas preparámo-nos metodicamente, simulando as provas com que nos iriamos confrontar.
O grau de exigência do Colégio e a grande competência e carinho da nossa professora, a D. Esperança, atenuou contudo qualquer dificuldade na nossa preparação e sentíamo-nos perfeitamente aptos quando chegou o grande dia. Isso não fez diminuir contudo os nossos nervos!
Éramos poucos rapazes na turma, apenas quatro dos cinco que tinham iniciado a primeira classe. Eu, o grande Zé-Tó, o Luis Filipe Gomes e o Louis Borga Gomes (o Luis André tinha ido para Alcobaça no final da segunda classe). Tal como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas éramos quatro, e durante quatro anos repartimos um mundo de aventuras, fantasia e muita brincadeira.
Recordo entre as nossas colegas, a Luisinha Canela Lopes, a Teresa Ferreira, a Bibú Castro, a Xú-Xú (Cristina Vazão de Almeida), a Ana Monroy, a Kikas Gama (Ana Homem de Barros), a Luisa Jordão, a Teresa Lourenço, a Ana Paula Duarte, a Misá (Maria do Rosário Carvalho Dias) e a Paqui (Paula Almeida).
Repartíamos a sala de aulas com a segunda classe que já nos acompanhava desde o ano anterior, como era tradição no Colégio. Duas classes com a D. Esperança, duas classes com a D.Clarisse, dependendo do ano em que iniciávamos a Primária. Faziamos depois toda a Primária com a mesma professora. A D. Dora dava o apoio escolar da parte da tarde, a todas as classes.
No dia agendado reunimo-nos na Escola Primária da Policia de Trânsito, diante do antigo Parque de Campismo, no parque, por cima do ténis.
O facto dos exames serem efectuados noutra escola e por professores desconhecidos, aumentou a nossa ansiedade mas felizmente saímo-nos na perfeição. Não me recordo já do teor dos exames mas recordo-me que tínhamos uma prova de trabalhos manuais em que construí uma caravela de cartolina e arame, longamente treinada nas aulas de preparação, o nome que lhe dei guardo-o para mim mas trago na memória com carinho que a D. Esperança insistiu em guardar depois esse barco de cartolina que durante muito tempo figurou na sua sala de aulas.
Saí um pouco mais cedo dos exames e aguardei com preocupação a saída dos meus colegas, receava que por ter concluído as provas em primeiro lugar pudesse indicar que tinha falhado alguma pergunta. Sentei-me junto ao passeio na companhia dos meus pais e dos outros pais e a ansiedade aumentava a cada minuto que passava. Não deve ter contudo demorado muito tempo antes que, um por um, os meus amigos começassem a sair. O confronto de respostas dava-nos alento para aguardar pelos resultados. Após a saída do último reunimo-nos com um pouco mais de alegria e nem parecia já que esperávamos pela saída dos resultados.
Passados alguns minutos saiu da escola a D. Esperança com um sorriso de satisfação nos lábios. Tinha dialogado com os outros professores que estavam a avaliar as provas e as expectativas eram muito boas.
Finalmente sairam os resultados e juntámo-nos todos numa grande festa na rua.
Passados todos estes anos continuo a ver com alguma frequência quase todos eles. Amizades para a vida!
Éramos poucos entre alguns, passámos a ser poucos entre muitos mas os laços criados pela convivência e forte espírito de identidade desse tempo no Colégio manteve-nos unidos ao longo de todos estes anos.


A todos os meus colegas da primária no Externato Ramalho Ortigão
que contribuíram tanto para que tivesse uma infância tão feliz.

À D. Esperança.
Enquanto eu viver, viverá em mim!

Ao José Manuel Cabaços.
Obrigado por me ajudares a educar o meu filho da forma como o fizeste.

Ao meu filho Francisco.
Que a escola te continue a trazer tantos momentos felizes,
professores inesquecíveis
e tão grandes amizades como me trouxe a mim.












Jacques Brel - L'Enfance

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BAÚ DE MEMÓRIAS - MÚSICAS 70´s

Trip through the 70s - A 70's Music Video Compilation




Trip through the 70s Part 2 - A 70's Music Video Compilation


UM CAMINHO



Era uma vez um miúdo cheio de afectos, de sentimentos, que a dada altura da sua vida deixou de perceber onde os podia encaixar e a viver situações que o fizeram acreditar que tinha de mudar isso dentro de si... Entretanto descobriu que havia umas cenas que lhe "adormeciam" essa sua parte a que já não sabia dar uso... Viveu então o período de crescimento a procurar desesperadamente mostrar o quanto era um durão e um sobrevivente, não precisando de nada do que implicasse outros, pois isso parecia-lhe ser uma demonstração de fraqueza... e metade da sua vida passou assim, evitando viver tudo o que lhe parecesse "perigoso", mas ao mesmo tempo fazendo outras "perigosidades"...
Um dia (e só ele sabe, ou não sabe, porquê) resolveu desafiar os seus medos e enfrentar-se a si e a tudo o que andara a procurar evitar... acreditando finalmente que não tinha nada de errado e "merecia" uma oportunidade de paz com a Vida, de poder ser a pessoa bonita que sempre fora, por trás daquela máscara de durão... que também podia ser amado e amar, fazer os outros felizes e deixar-se ser feliz junto dos outros... sentir que pertencia a algo, amigos, família, namorada... e que outros pertenciam à sua vida... deixar de ser um solitário a explodir de coisas boas para partilhar... Assim começou o seu caminho... Pelos olhos dos que o rodeavam, muito bem e sem razões para se queixar, com tudo o que se pode desejar, etc., etc.... Mas, começou também a descoberta de uma pessoa com quem vivera esses anos todos e que lhe era afinal quase totalmente desconhecida, já que lhe fugira sempre que pudera... ele próprio, com os seus sentimentos!
E descobriu então que a adrenalina pode estar simplesmente no dia-a-dia de se ir aprendendo a viver o melhor que somos capazes, em cada momento... e que só assim se faz caminho... como dizia o poeta "Caminhante não há caminho, o caminho faz-se caminhando"
Começou a observar em seu redor, a ouvir à sua volta, e a olhar-se e ouvir-se a si próprio, e descobriu afinal que isto de vivermos é um caso complicado... mas também muito gostoso!
Percebeu que havia muitas formas de se fazer esse caminho... que cada um fala de uma maneira (e, às vezes, até vive de outra completamente diferente!) e, que à sua volta, enquanto ele estivera a representar o papel de durão outros viveram outras coisas... e que ele não tinha essas vivências para partilhar... como se tivesse um buraco no seu percurso...
Então começou a sentir outros sentimentos, uma angústia de como resolver dentro de si aquele buraco... Se aceitando-se com o seu caminho (se calhar, mesmo perdoando-se pelas escolhas que tinha feito!) e viver a partir daqui em paz consigo...
Se procurar viver o que lhe tinha faltado, embora não consiga descobrir o botão da vida que faz imagem acelerada, para não perder muito tempo.
Descobriu então que isto de termos a responsabilidade da nossa vida é uma tarefa difícil porque depois não podemos responsabilizar os outros pelos momentos menos bons (mais difícil do que decidir se fazemos um piercing!)... Mas que também tem a vantagem de que se a decisão nos faz sentir bem esse sentimento é maior ainda por nos sentirmos responsáveis por ele... e que se nos fizer sentir menos bem podemos sempre vir a aprender para outras ocasiões estarmos mais atentos a nós próprios...
Qual é o fim da história, cada um que imagine o seu... quanto a mim mantenho a certeza que tenho, desde o dia em que o conheci, de que uma pessoa bonita assim é difícil de encontrar, por isso, sejam quais forem os caminhos que vá caminhando irá sempre, em algum momento, cruzar-se com o meu para continuar a ter o privilégio de ver os seus olhos a sorrirem-me...

(post da Cláudia Tonelo, escrito em 19 Fevereiro 2005 02.30h)



Resistência ao Vivo - Nasce Selvagem

terça-feira, 15 de junho de 2010

UM PUNK BELGA




Um dia o Miguel apareceu no sótão com um álbum novo. Música francesa, disse ele com um sorriso malandro.

- Música Francesa! - Exclamámos nós com um ar de gozo.

Afinal no sótão a nossa cedência à música francesa limitava-se aos slows do Serge Gainsbourg com a Jane Birkin e às baladas do Joe Dassin (de que haveremos de falar um dia).

- Vão ver que vão gostar, é uma cena punk! E o tipo não é francês, é belga! (como se isso importasse!)

- Pois, é um novo Jacques Brel em versão punk! – atirou alguém.

Afinal o Plastic Bertrand até cantava umas coisas e ‘’Ça Plane Pour Moi’’ e ‘’ Tout Petit La Planète’’ tornaram-se de imediato umas das nossas favoritas.

As meninas mais atentas até reconhecerão ‘’Ça Plane Pour Moi’’ das promos da série ‘’Gossip Girl’’.

Trinta e três anos depois!






Gossip Girl Season 2 Promo - Blair and Serena

Plastic Bertrand - Ca Plane Pour Moi


Plastic Bertrand - Tout Petit la Planete"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - A OESTE DO OESTE DA EUROPA


Lembro-me de sair de casa, na Rua do Jardim e ver o Chico Cera a namorar da rua a Anabela que só podia ir à janela para namorar e dos Bonécios, o João e a Fátinha a saírem desse prédio. Lembro-me do sapateiro no fim da rua, gordo e forte como um touro, que um dia doara sangue para a minha mãe. Lembro-me da drogaria à frente do meu prédio e da alegria da proprietária quando o filho regressou da Guiné. Lembro-me dos Rolins a namorarem ao cimo da rua e da empregada de farda a sair da pensão com as lancheiras empilhadas num portador ao domicilio.
Lembro-me da escola da D. Perpétua, na Rua do Jardim e do temível quarto escuro. Lembro-me que ao lado ficava a casa dos irmãos Albuquerque, já idosos e de quem se dizia serem descendentes do famoso Mabilio de Albuquerque. Lembro-me da taberna a meio da rua com as portas de batente e as pipas por trás do balcão.
Lembro-me de ir pela Leão Azedo, passar em frente da casa dos Costa, do Zé e da Anita com os seus 8 filhos, Ana Maria, Ião, Manuela , Filipe, Lóló, Bébé, Miguel e Kika. Lembro-me de acenar ao Paulo Bastos e de ir brincar com o Pedro Pires usando os chapéus da farda de gala do seu pai, comandante da GNR.
Lembro-me de levar uma maçã do expositor da ZáZá uma frutaria que ficava na esquina em frente ao Montepio. Lembro-me de entrar na loja Albino das Solas e perguntar pela Bibú para irmos juntos para a escola. De dizer-me que a Bibú estava com a Bé, sua mãe, na sua Boutique Camaroeiro, na Filipe de Sousa. Lembro-me de passar junto ao muro que dava para o pátio e pomares das traseiras da minha avó Mimi onde brincava com as Canela Lopes, a Isabel, a Luisa e a LaiLai, com o Zé Manel Mota. O iate de madeira, um vaurien azul escuro, ainda lá estava, a apodrecer no pátio. Lembro-me de me encontrar com a Bibú e de aparecer o Jorge Humberto, um ano mais velho, que nos fez companhia até à escola.
Lembro-me de passar as recauchutagens, de cumprimentar o Sr. Faustino e o pai do João Carlos Marques.
Lembro-me de entrar na Escola.
E de que te lembras tu?

Foi o tempo de amizades que desapareceram no tempo, o Eduardo Mago dos Reis e o Zé Paulo, o seu irmão, a Marina, a Isabel Prego, a Anita Antunes, o Jesuino, o Madruga, o Botas, o Sancho, o João Paulo e a Teresa Ascenso, a Leonor Raposo e a irmã - que ainda me acompanharam na adolescência - e tantas outras caras de que me recordo e cujo nome perdi. Foi o tempo das batas brancas e das fitas no cabelo.
Lembras-te das aulas de Matemática do Prof. Lalanda e do Prof. Baptista? Da exigência em Português do Prof. Saraiva e da nossa expressão de alivio ‘’Alimpa-te Saraiva!’’. Um professor a que devemos agradecer a formação que nos deu? Lembras-te da doçura da Profª. Antonieta de História, e da seriedade da Prof. Maria José de Ciências Naturais?
Lembras-te da mãe do João Paulo Ascenso a dar aulas de Desenho e do Prof. Mateus e da Ana Maria Vieira Lino (que linda que era!) a ensinar-nos a fazer fantoches com pasta de papel?
Lembras-te do Je Commence? Do Mr. e Mme. Dupont? do Je suis Nicole, Je suis Robert. C'est Papatapouf, Patapouf est un chien?
Lembras-te do Mestre Mamede e do Padre Zé Maria?
De que te lembras tu?

Lembras-te de colocarmos umas batatas a entupir os escapes dos carros dos professores do Conselho Directivo?
Lembro-me da minha timidez com a Profª. Aurilia nas aulas de francês por ser mãe da Teresa, mas nunca a deixar de a cumprimentar, na escola, na rua e em sua casa, com um ‘’Bonjour Madame!’’ fosse de manhã, à tarde ou à noite!
Lembro-me desta nos deixar de dar aulas no 2º ano do ciclo porque a sua filha Teresa transferira-se para a nossa turma e considerar que seria pouco ético ser professora e avaliar a sua própria filha!
Lembro-me das tardes passadas em casa da Margarida Arroz com a Júlia (Ó Júlia Florista!) e das tardes passadas em casa da Teresa com a sua empregada e de metermo-nos com esta por causa das suas fotonovelas Capricho, Ilusão e radionovela Simplesmente Maria. (e de lermos aquele livro, lembras-te Teresa?)
Lembro-me de pagar 5 tostões ao Jorge Bandeira Duarte para acompanhar a casa a Margarida Arroz, minha namorada do 2º ano, porque lhe ficava em caminho na Encosta do Sol.
Lembro-me do Paulo e do Manel Tuna , do Quintino e dos Marques, do Gamela, da Ana Paula e do Fernando Paulo Duarte do grupo que vivia na encosta do Sol. Do Miguel, da Isabel e da Patricia Ballu Loureiro.
Lembro-me de ter feito um trabalho ‘’jornalistico’’ com o Quim Franco sobre a remoção da estátua do Marechal Carmona em que andámos dias a fotografar a estátua de vários ângulos, incluindo do cimo da torre da igreja no momento em que os sinos começaram a tocar e por isso ter ficado surdo por um dia! De ir de gravador a tiracolo e microfone na mão, entrevistar os soldados que faziam guarda à estátua enquanto se discutia a sua remoção e ter aprendido tudo sobre o manuseamento de uma G3.
E tu, de que te lembras?

Lembras-te de jogar à barra e gritarmos ‘’Fogo’’ só para ver todos a correrem de uma vez e tentarem apanhar o lenço.
De jogarmos ao ‘’Aqui vai alho!’’ com oito ou dez dos nossos?
Lembras-te de fazermos uma roda, sentados no chão, rapazes entre raparigas, enquanto uma corria em volta com um lenço na mão, cantando:

No alto daquela serra
no alto daquela serra
está um lenço
está um lenço a acenar

Está dizendo viva viva
está dizendo viva viva
morra quem
morra quem não sabe amar

Do outro lado do monte
do outro lado do monte
tem meu pai
tem meu pai um castanheiro

Dá castanhas em Outubro
dá castanhas em Outubro
uvas brancas
uvas brancas em Janeiro’’

Lembras-te de um dia de chuva intensa e de enchentes e de termos que arranjar forma de trocar de roupa, encharcada pela travessia com água pela cintura, junto à Garagem Caldas?
Lembras-te do aluno que morreu ao cair de um dos telheiros com painéis de acrílico que ficavam junto ao ginásio e à sala de aulas de Coral e da angústia da sua irmã e do nosso desespero por nada podermos fazer? O sermos confrontados com o fim de uma vida pela primeira vez?
Lembro-me do Botas a dar 80 voltas ao circuito de atletismo e da minha equipa de basquetebol ‘’Os Invenciveis’’ da Turma A vencer os ‘’Dragões Vermelhos’’ da Turma B capitaneados pelo Eduardo Mago dos Reis.
Lembro-me do Dia da Espiga e das primeiras eleições para a Assembleia Constituinte com as urnas instaladas na escola. Lembro-me do pai da Nini Velhinho ser o primeiro Presidente da Câmara após o 25 de Abril, de forma provisória, antes das primeiras autárquicas .
De que te lembras tu?

Lembras-te do bar no rés do chão, num canto do hall situado a seguir ao vestuário? Lembras-te do sabor das arrufadas de coco que comiamos no intervalo grande?
Lembras-te de comermos em self-service no ginásio ao almoço?
Lembras-te da construção dos pavilhões e dos murais que pintámos no 1º aniversário do 25 de Abril?
Lembro-me do Mini do Té e do BMW artilhado de uma professora que era linda e loura como a outra professora, Clara de nome.
Lembro-me da primeira RGA no 2º ano e de nem perceber ao que ia.
Lembro-me sobretudo da confusão que me fazia ter uma aula em cada sala após anos na mesma sala do Colégio.
E tu, de que te lembras?

Lembras-te da velha professora de Canto Coral a ensinar-nos solfejo e hinos nacionalistas e da Mocidade Portuguesa antes do 25 de Abril?
Lembro-me da letra de um desses hinos e da quadra inicial de um outro:

A oeste da Europa
Mesmo junto ao oceano
Fica o nosso Portugal
Lindo Torrão Lusitano

É pequeno em continente
Em domínios o terceiro
O mais valente na guerra
Em descobrir o primeiro

Dos portugueses valentes
Reza a velha história
Contra mouros e castelhanos
Alcançam sempre a vitória

Nos mares abrem caminhos
Em todas as direcções
Mostrando novos rumos
Às conhecidas nações

Sinto orgulho de ser filho
De tão formosa nação
Tão bonita, tão bonita
Que a trago no coração

Sinto orgulho na minha pátria
Mas não por causa mesquinha
Sinto orgulho na minha pátria
Porque é minha, muito minha!

Ou ainda:

Minhas botas velhas cardadas
Palmilhando léguas sem fim
Quanto mais velhinhas e estragadas
Quanto mais vigor sinto em mim…

Sabiamos lá nós com dez anos de idade o que era a Mocidade ou o Estado Novo!

De que nos lembramos nós?


Lembram-se?

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

Lembram-se de tudo o que se passou depois? Como fomos atirados para a nossa adolescência?


Mas lembro-me sobretudo de não perceber depois o que se estava a passar. De não perceber porque tudo era tão importante que levava famílias a separem-se, casais a divorciarem-se, irmãos de costas voltadas, amizades de uma vida a terminar. Porque é que quando o desejo de liberdade de cada um era genuíno e solidário, se criava uma tremenda muralha de ódio apenas porque se divergia no caminho a seguir.
Lembram-se da beleza das palavras e da melodia?

Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo cualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.



Hoje, olhando para trás e vendo os anos que se perderam de inimizades, de rupturas de famílias e perdas de amigos e agora que vivemos num clima de maior compreensão pela opinião dos outros e em que o valor da família, da amizade, do humanismo e das causas sociais se sobrepõem às divergências politicas, pergunto-me se terá valido a pena essa cisão que durou anos. Se para alcançarmos aquilo que somos hoje teríamos que passar pelo purgatório da intolerância.
Eu sei que não, a importância da família e dos amigos é demasiada para poder perder um dia que seja da minha vida sem eles.

E disso eu não vou nunca me esquecer!


Dedicado a todos os que viram mais além.


Paulo de Carvalho - E Depois Do Adeus



A Gaivota - Ermelinda Duarte




Randy Crawford - Imagine

OS DIAS E AS NOITES



Todas as histórias começam com era uma vez… mas a vida não era, a vida é, vive-se a cada momento… Com este pensamento ocupava a sua mente enquanto ouvia música e passava por uma cidade que em nada se assemelhava com a memória que insistia em preservar, de umas árvores há muito abatidas pela ganância do cimento. Afinal que personagem representava naquela realidade em que cada dia se sentia mais desajustada? Respostas sabia que não encontrava, e, muito menos, que alguém lhe daria! Conduzia o carro de forma automática, como acontece a quem percorre as mesmas estradas há anos, alheada dos locais por onde passava, que eram simultaneamente os da sua vida e aqueles em que se sentia uma estranha.
O tempo era algo estranho, um conceito tão concreto e ao mesmo tempo tão abstracto. Olhou para o relógio do carro e percebeu que circulava sem destino, simplesmente a poluir o ambiente e a rodar, como se a sua cabeça pudesse rodar com os pneus do carro.
Parou à porta de casa, sem saber porquê, mas provavelmente porque aí parava sempre, ou mesmo porque não havia mais nenhum local para parar. Aquele era o seu espaço, onde, por opção, cada vez permanecia mais tempo sozinha. As pessoas eram o eterno dilema da sua vida, com uma constante relação de atracção e afastamento. Eternamente a fascinariam pelas suas surpresas, pelas suas contradições. Ela própria era um belo exemplo dessa raça humana, que vive uma vida inteira procurando um sentido para a sua existência. E teria de existir um sentido? A vida não existiria simplesmente para ser saboreada, o melhor que cada um consegue em cada momento? Afinal todos corriam atrás da felicidade de forma tão ocupada que os momentos de prazer eram habitualmente vividos de modo angustiado, perdendo o seu prazer, e tornando-se em insatisfação incompreendida… Não tinha o privilégio de ser detentora de uma fé por um ser superior, metafísico, o que acreditava dava conforto à vida, aos vazios que todos sentem em alguns momentos.
Foi a pensar nessa fé que, após longas horas de insónia, acabou por adormecer.
Adormecer e descansar apenas eram sinónimos em algumas noites pontuais, e essa não foi uma delas. Sonhou com o que a atormentava, acordou, o corpo estava cansado, como se não fosse capaz de verdadeiramente repousar.

Quando o telemóvel tocou, para despertar, a sensação era de que sempre estivera desperta. Deixou-se ficar estendida, a pensar o porquê de todo este turbilhão de sentimentos que a invadiam, o porquê de não conseguir dar uma volta por cima e tornar-se numa outra pessoa, embora não soubesse bem em quem, ou em quê, concretamente. Só identificava o mau estar, sem encontrar soluções. Por enquanto procurava ocupar a mente com tarefas práticas, e com música, mas sabia que isso em nada alteraria esta sua dificuldade de viver esta vida que percorria. Era o preço de escolher estar sempre sóbria, pensava por vezes… O desejo de se alhear era cada vez mais constante, mas sabia que esse milagre não existe, por isso era um pensamento como outro qualquer, sem qualquer consequência.
Levantou-se e dirigiu-se para o duche. Muitas vezes o duche significava um desejo de limpeza, como se a pudesse libertar… fazendo-lhe recordar os relatos das pessoas violadas que se esfregam sucessivamente como que desejando que a água lhes retire o que viveram, o que sentiram… mesmo sabendo a impossibilidade de tal acontecer! O desejo de não existir para não sentir, tantas vezes ouvido em relatos de outras vidas… E as vidas que trazia dentro de si eram realmente intermináveis, e difíceis de digerir, eram sofrimentos e pequenas alegrias a que ninguém dera valor.
Saiu do duche e pensou onde estava o seu positivismo que lhe orientava os princípios de vida? Curioso, há muito que tinha uma atitude de vida positiva, mas os seus anos de zanga prevaleciam na imagem de si, nos olhos dos outros a maior parte das vezes via-se a mesma pessoa zangada, e esse retorno incomodava, minava interiormente. Então o que fazer? Nada, era a resposta imediata. Sentia-se como diz o poeta, cansada, cansaço só pelo cansaço…
A sua vida fora essencialmente passada naquela cidade, naquele espaço físico, mas as pessoas sempre tinham entrado e saído, aparecido e desaparecido… permanecendo na sua maioria apenas na sua memória, nas suas recordações, procurando guardar de cada uma os melhores momentos, aquilo em que contribuíram para que se sentisse uma pessoa melhor. E será que se tornava verdadeiramente uma melhor pessoa? Convencia-se que sim, de que isso sucedia com o passar dos anos. Mas, por vezes duvidava, de si, da pessoa que era, do sentido da sua vida. Quem era afinal? Um personagem diferente, consoante os olhos de cada um. Para uns uma estranheza, uma complicação difícil de entender, para outros uma insatisfeita eterna, para outros ainda, a força que em alguns momentos precisavam… e mais uma infinidade de atribuições. E afinal quem se sentia ser? Por vezes não o sabia, e agora era um desses momentos.

Vestiu-se sem qualquer cuidado com as peças de roupa que escolhia. Como era possível sentir tanta capacidade de vida dentro de si, de criar, de fazer, e ao mesmo tempo tanto desejo de desistir, de falta de sentido para o que quer que fosse? Só queria desaparecer por uns tempos e quando voltasse, ser alguém menos complicado. Queria o impossível, e ao pensar nisso, sorriu por entre o choro convulsivo que não parava. Chorar era como despejar a dor. A dor de existir, de sentir, de um vazio que nem ela própria entendia, a dor pela dor. Pelo menos as suas dores de estômago, essas eram físicas, socialmente aceitáveis! Quando pensou isto sentiu o peso da palavra socialmente. O peso de estar inserida nesse social que a maioria das vezes acreditava em pressupostos muito diferentes dos seus. Estranho, porque também ela crescera nesse mesmo social! Em que momento passara a estar à deriva desse rio que todos pressupunham que naturalmente percorresse. Em que momento passara a viver um rafting em quedas de água? Sorria com esta analogia, já que essas adrenalinas nunca foram as suas, era o que se chama uma medrosa sem espírito de aventuras dessas. Aliás, pensou, como é que se pode transmitir uma imagem de controlo de todas as situações, tornar-se incómoda por se transmitir essa forma de estar, e, interiormente se sentir numa tempestade, sem vislumbrar um farol que anuncie um porto de abrigo?!
Enquanto se ocupava com tarefas manuais, procurava perceber o impercebível, porque construíra um personagem fortaleza, frequentemente invasivo da vida dos outros, que o viam cheio de certezas, quando desde sempre se lembrara de si como cheia de dúvidas e de carências, até mesmo aquilo que vulgarmente se chama de lamechas?! Esta dúvida trazia dentro de si desde que percebeu que afastara de si alguém que amava, e acabara sufocado pela sua estranha forma de amar. Depois desse momento muitas vezes julgou ter mudado, a imagem que transmitia aos outros, e a sua estranha forma de amar… e mudara, dentro de si sentia as suas mudanças, mas que na prática se traduziam em formas semelhantes de se dar a sentir aos outros! Que estranho personagem era este, que sem qualquer dúvida transmitia para os outros, e com quem afinal pouco se identificava? De tanto olhar dentro dos outros perdera a possibilidade de olharem dentro de si? Ou de tanto se obrigar a não se revelar aqueles dentro de quem olhava, passara a ter uma barreira para com aqueles que desejava a olhassem e entendessem no seu interior? Tinha a capacidade de atrair as pessoas, e depois de as sufocar, de as afastar. Este era um facto que verificava constantemente.
Parou as suas tarefas, e sentada, a beber um café, pensou na importância da memória e das palavras ditas. Porque teria esta capacidade de memória de elefante, como lhe chamavam frequentemente? E porque não seria capaz de conter as palavras, as frases, mesmo quando antecipadamente pensava que se dissesse determinado comentário iria criar confusão no seu entendimento com os outros? Mais uma vez, pensava no tal do botão do off que também no seu discurso verbal lhe seria útil. E, repentinamente, ocorreu-lhe que o botão do off está dentro de cada um de nós, como diria o Fernão Capelo Gaivota, personagem com que se identificara desde que lera a sua história na adolescência… E, então “voou” por uma série de perguntas que a inquietavam. Porque se havia de repetir o que o bando desde sempre fez? Porque não ir mais além, dentro de nós? E porque se assustava “o bando” por alguém ser diferente? Porque a diferença do que se instituiu ser a norma tanto incomodava “a norma”? Sentia isso no seu trabalho, o seu afastamento por algum tempo, confirmando que tanto havia para se fazer, tinha desafiado o comodismo e o medo instituído. Por vezes, sentia que os outros não entenderam o seu voo de liberdade como exclusivamente um processo seu, mas também como mais uma vez estando a pôr em causa os que sempre falaram e nunca se ausentaram. Sentia isso na sua vida, na forma como geria os seus acontecimentos de vida e nas escolhas que fazia. Porque incomodaria tanto os outros as suas escolhas não corresponderem à desejabilidade do “bando”, quando em nada interferia com as suas vidas? Porque lhe faziam sentir esse incómodo? Não teria o direito de “voar” livremente procurando viver os seus momentos de felicidade? Gostaria de que o incómodo que lhe transmitiam não tivesse a capacidade de a incomodar, de a condicionar.
Com o Fernão Capelo no pensamento, e a consciência do “peso do bando”, nessa noite deitou-se, desejando o impossível, a oportunidade de ser livre, de viver momentos de felicidade, de rir à gargalhada até às lágrimas, de gostar e ser uma pessoa gostada… Dias e noites!

(post da Cláudia Tonelo, escrito em Maio 2005)



Sétima Legião - Por Quem Não Esqueci (ao vivo)

POEMA de Charles Chaplin



Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima....

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.

Hoje sei que o nome disso é... Respeito.


Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco ao serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!

(post de Cláudia Tonelo, escrito por Charles Chaplin)


NAT KING COLE - Smile

quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA FOLHA



Uma caneta a tocar o papel, hesitante e pouco firme. A mão, a tremer, pousa a caneta na mesa de madeira e segura o papel por uns instantes... fecha os dedos e, violentamente amarrota o pedaço de papel.

Novamente segura a caneta, mão trémula a escrever numa folha branca, reluzente, aguardando manchas de tinta preta. Inseguras, surgem letras desenhadas, procurando formar palavras... mas as mãos seguram a folha e rasgam-na violentamente. Com menos firmeza a caneta toca numa outra folha branca e preenche-a com letras trémulas... para de seguida pegar fogo e reduzi-la a cinzas.

Após algumas horas, a caneta é fechada com mãos trémulas e guardada num bolso, enquanto o cinzeiro transborda de restos de folhas violentamente destruídas... palavras destruídas.

Levantou-se, afastou a cadeira, e desapareceu calma e serenamente.

Na mesa, numa folha, viam-se as palavras:
amo-te. Até logo, quando nos reencontramos.


(post de Claúdia Tonelo, escrito em 26 Abril 2002 01.30h)

Jorge Palma - Estrela do Mar

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - A VELHA ESPLANADA


(sobre foto de Pedro Olivença)



Descia a correr em bando com os amigos o troço da Aldeia dos Macacos que ia do Casino à Esplanada.
Como habitualmente, no meio de uma jogatana de futebol ou de tiros e flechas dos caubois e índios (eu era o Faca Negra, chefe da tribo dos Facas) eu avistara o meu avô João a subir a alameda na companhia dos seus amigos.
Era já uma tradição diária. Pelas quatro e meia, cinco da tarde, o meu avó e os seus amigos terminavam uma das suas grandes voltas ao parque que se iniciara naquele mesmo local, perto do coreto, e subiam a alameda em direcção Casino. Viravam depois à direita, passando então diante da Biblioteca Gulbenkian, dos Pavilhões do Parque (o antigo quartel que viria a ser Liceu), do Salão Ibéria, dos amigos a bater uma sueca no pavilhão de tiro, pelo roseiral, retornando para a frente do Museu, passando junto à casa dos barcos e parando por um tempo em conversa com outro grupo de amigos.




Depois continuando sob a pérgola até ao parque das bicicletas e descendo as escadinhas do ténis. Voltavam a parar para apreciar os amigos tenistas e os seus filhos, o Prof. Barreto, o Dr. Calheiros Viegas, o Henrique Mineiro e o Dr. Saudade e Silva, o José Augusto, o Dr. Alcino Coelho, o Sr. Barreto do tribunal (pai do Manel e do Luis da Azenha) o Pinto Ribeiro, o Sena, o Tony Vieira Pereira, o Ramiro e o Paulino, o Néné e o seu primo Gégé, o pai deste, Jorge Sottomayor, o Jorge Salles, o Eurico, o Ai-Tó e o Miguel Sampaio Guimarães, o Chico Carrilho e o Miguel Bento Monteiro e o Rogério Matias, entre tantos outros.


Viravam em direcção ao pequeno lago, onde estão agora mais dois courts de ténis e depois passavam ao longo da rede dos courts do lado do Lisbonense subiam pelas outras escadinhas e entravam na alameda principal, torneando o parque infantil com o seu grande escorrega-castelo de três descidas, o escorrega vermelho mais pequeno, as avionetas vermelhas em baloiço, os outros baloiços, o sobe-e-desce e o carrossel dos cavalinhos, o comboio à entrada, à esquerda, ao lado do trapézio e das argolas sob um suporte azul. E no meio de tudo, o velho ringue de patinagem agora de dimensões mais reduzidas do que outrora fora.
Subiam então a Aldeia dos Macacos passando pela esplanada e pelo coreto onde paravam ganhando forças para um novo circuito.
Eram tardes soalheiras de fim de semana de Verão. A minha mãe e a minha avó jogavam canasta com as amigas no casino e lá em baixo a esplanada enchia-se de outras mães de família em conversa amena enquanto tricotavam uns naperons e pelo canto do olho zelavam pelos seus filhos (os Morgado, Horta, Pereira, Batista e muitos outros) que às dezenas brincavam nas imediações.
O ritual era sagrado. Manhã na praia, aproveitando as marés baixas e caminhando pelas rochas, ou banhos pela mão (o molhar o pé) nas grandes ondas das marés cheias. Manhãs de capacete a brincar às touradas ou a jogar ao prego ou manhãs de sol a comer uma Bola-de-Berlim e a beber uma gasosa no Tábuas azul, junto às escadas de madeira que davam para o largo do Facho. O José Luis , banheiro, montava as barracas brancas com números a cor de vinho e a sua mulher zelava pelo casebre onde depositávamos os enormes sacos de pano onde guardávamos os baldes, pás e colchões de água.
Se almoçávamos na praia tínhamos de ir a correr procurar os pequenos bancos de madeira e os largos estrados de madeira que faziam de tampo de mesa para que os meus avós pudessem comer sentados.
Depois era hora de voltar às Caldas não sem antes ir apanhar mais umas dezenas de caricas no areal por baixo do Tábuas.
Subíamos então as velhas escadas, carcomidas pelo sol, pelo sal e pela areia, passávamos pelo casebre conhecido pela casa dos barcos, onde ainda se alinhavam os dois velhos salva-vidas de madeira, agora destituidos das suas funções pelo asfaltamento da estrada que conduzia ao largo do Facho e pela construção do muro de segurança ao longo da ravina que levava à praia. Seriam precisos oito homens para os remarem e muitos mais para os levar ao areal, à falta dos bois que o faziam originalmente.

Após as 3 das tarde, então sim íamos para o parque, para o casino, onde ficaríamos até serem horas de jantar.
Longas tardes no parque. Pessoas a banhos que alugavam casas e quartos nas imediações do Hospital Termal sentavam-se nas avionetas, os famosos bancos inclinados, ao longo das alamedas. Muitas vezes traziam os filhos, geralmente os netos, com quem estabelecíamos fortuitas amizades de Verão. Vinham as famílias de África onde os pais cumpriam comissões de serviço, e falava-se dos usos e costumes de Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e mesmo de Timor. Vinham os caldenses residentes nas colónias deixar os filhos com os avós durante as férias ou a preparar o novo ano lectivo. Vinham emigrantes e excursionistas, vinham de todo o lado, visitar as Caldas.
A Aldeia dos Macacos, a velha alameda principal, enchia-se de gente passeando entre os plátanos seculares, jovens estudantes, empregadas domésticas em dia de folga ou fardadas cuidando das crianças e sempre merecendo a atenção dos jovens recrutas do R.I.5, muitos de partida para África e querendo ganhar um novo laço com a metrópole. Madrinhas de guerra, namoradas de guerra!


Por vezes tínhamos a surpresa de um teatro de fantoches, de Robertos, que uns artistas montavam de improvisação, de outra vez era um cigano com um urso amestrado, de unhas limadas e focinho ançaimado ou um tocador de realejo com um macaquinho saguim vestido de paquete de hotel, a recolher as moedas que os adultos lhe deixavam.
Então eu os meus amigos parávamos junto ao grupo do meu avô e eu dava-lhe um forte abraço e o meu avô, como sempre, dava-me um beijo na testa e dizia:
- Deus te proteja e te abençoe!
Nunca me faltou com aquela bênção mesmo que lhe desse mil beijos num dia! Mesmo quando estudava na Universidade e morava na sua casa na Estefânia.
Depois o meu avô levava a mão ao bolso e retirava um pequeno porta moedas de pele castanha e tirava uma moeda de 10 ou de 25 tostões que me dava. Depois voltava a guardar o porta-moedas no bolso para junto de outra carteira onde trazia a fotografia da sua mãe Francisca e uma pequena oração do Padre Cruz. Mesmo ali perto da medalhinha da Nossa Senhora de Fátima que trazia sempre pregada com um pequeno alfinete de dama à camisola interior.
Corríamos então para a esplanada. De cada lado existia um pequeno stand. O primeiro vendia gelados Olá e os pauzinhos podiam conter um prémio, um boneco monocromático dos personagens do Carrocel Mágico, a Anica, o seu cão Franjinhas, o caracol Ambrósio, o feiticeiro mau Saltitão, a vaca Rosália, o coelho Flávio, o Tio Realejo, os amigos Joana e Chico…
O prémio maior era um livro de histórias do Carrocel Mágico ou o próprio Carrocel.
No stand de baixo, no fim da varanda, vendiam-se os gelados da Rajá (É Rajá! É Rajá!) e aqui o prémio eram astronautas e alienígenas sendo o grande prémio (que nunca consegui) a nave espacial que os poderia albergar a todos.
Escolha difícil que tinha que de fazer todos os dias!
Os anos foram passando, agora já não corria para o meu avô. Ia a andar que um jovem de 10 anos tem que manter a postura!
As jogatanas de futebol no jardim do casino mantinham-se, entre corridas de carrinhos Matchbox e Corgy Toys no céu de vidro e corridas da minha Vilar contra a Motobecane do Kiko e a pasteleira do Diogo.
A moeda do dia servia agora para ir à esplanada beber uma groselha ou um capilé ou comer um iogurte natural Ucal, Primor, Veneza ou Lisboa, servidos sempre em boião de vidro.
Na juke box da esplanada ouvia-se o Ob-la-di Ob-la-dá e o Can’t Buy Me Love dos Beatles e o Unchained Melody dos Rigtheous Brothers mas também muitos outros êxitos da Dalida, Rita Pavone, Silvie Vartan, Claude Francois, Charles Aznavour, Sacha Distel e Adamo.
Na entrada Este surgiu mais tarde uma máquina electrónica com um simulador de Fórmula 1 com volante e acelerador. Poucas moedas e tantos bónus!
Já começava a conhecer os miúdos da esplanada e já nos misturávamos nos nossos jogos de ping-pong e nas incursões pelo palmeiral da parada.
Entrei na adolescência e a esplanada foi entreameando períodos abertos com outros fechados, viríamos uma vez reabri-la para fazer os nossos convívios de angariação de fundos para a excursão de finalistas de 1980. Panos pretos nas janelas e limpeza geral e chão encerado em poucas horas! Depois voltou a reabrir e já não era o meu avô João que eu via a passear com os seus amigos. Agora era o meu pai com os seus primos direitos e alguns amigos. O dinheiro que lhe pedia era agora para o café ou para os cigarros às escondidas!
De adolescente tornei-me adulto e agora sento-me na velha e sempre renovada esplanada, de Expresso ou Exame na mão, gozando o sol das meias estações e as sombras dos plátanos, enquanto os meus filhos correm para o parque infantil. As pastilhas que me pedem já não são Pirata, são agora Bubli”$E#%&£#/ qualquer coisa! Os Fruto Real, Laranjina C, Vitasumo, Carbo Cidral e Ginger Ale são agora néctares de pêssego ou alperce e Ice Teas. E até os bolos e sandes já não têm o sabor de outrora. Mas o prazer de estar na esplanada e na velha Aldeia dos Macacos, agora despida de muitos dos seus plátanos, mantém-se intocáveis.



Enquanto isso anseio pela dinamização do parque, pelos concertos Promenade que nunca vêm, pelo Maestro José Atalaya que me encheu a infância e a adolescência, que o parque se torne o nosso Central Park, o nosso Hyde Park, o nosso Serpentine, o nosso Vonderlpark, o nosso Englischer Garten… que nos tornemos uma Brighton e aproveitemos o coreto, a ilha do parque, o roseiral ou os magníficos relvados do parque e os nossos estupendos fins de tarde para incentivarmos e formarmos os nossos filhos no caminho da música e das artes.
O parque já não é o local onde costumava passar todos os meus tempos livres, fosse Verão ou Inverno, fizesse sol ou chuva. Já não é o local onde andava de bicicleta na infância ou jogava ténis na adolescência, onde namorava nos Invernos dos fins de setenta ou tinha aulas nos relvados nas tardes de Primavera. Já não tenho o cinema para ir ver o Trinitá nem a biblioteca para ler o Sandokan ou o Capitão Morgan.
Mas o parque ainda lá está, em todo o seu esplendor, o melhor jardim de Portugal, uma situação única em que uma boa parte da área da cidade é ocupada por um jardim. O parque com o seu lago continua a ter um enorme potencial e a esplanada, tal como a Praça da Fruta para a cidade, é a sua alma, o seu coração.
Já lá estava antes de eu nascer, já lá estava antes do meu pai nascer, já lá estava antes do meu avô nascer! Será testemunha silenciosa da história da minha família, das nossas brincadeiras e dos passeios com os amigos em amena e sorridente cavaqueira e dos nosso passeios bucólicos, solitários e introspectivos.
Um dia serei eu o avô a passear com os amigos (e como irei desfrutar as Caldas!) e serão os meus netos a correrem para mim. E quem sabe se não sentirei então a necessidade de os acolher com um:
- Deus te proteja e te abençoe!
(1971)


(1974)












O Carrocel Mágico - Genérico


Cat Stevens - Father and Son Original