Mostrar mensagens com a etiqueta Moçambique. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Moçambique. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - A MAIS BELA DE TODAS AS MISSES



Poucas noites de televisão nos prendiam a atenção no inicio dos anos 70. A televisão era a preto e branco e embora existindo já a partir dos finais dos anos 60 o segundo canal, este era muito pouco interessante para os da nossa idade.

Das séries de televisão e até dos anúncios da altura já dei conta neste espaço e os seus vídeos estão disponíveis no blog.

Para além das séries, recordo-me bem do programa de folclore ‘’Danças e Cantares’’ de Pedro Homem de Mello, ‘’Se bem me Lembro’’ de Vitorino Nemésio, ‘’Cartaz de TV’’ com o Jorge Alves, ‘’Sangue na Estrada’’ com o Joaquim Filipe Nogueira, ‘’DÓ-LÁ-SI’’ com Maria José Guerra, ‘’Tv Rural’’ com o Eng. Sousa Veloso, ‘’A Música e o Silêncio’’ e ‘’Histórias da Música’’ com o Maestro Vitorino de Almeida, também os programas do Maestro José Atalaya e de David Mourão Ferreira. Longe iam os tempos do Zip-Zip!

Francamente, para além do DÓ-LÁ-SI, os restantes prendiam-me tanto a atenção como a mira técnica.

Os únicos programas de televisão que realmente nos juntavam em família ao serão eram os inevitáveis Festivais da Canção e o Concurso de Miss Portugal.

Ao longo dos anos fomos habituados a ver as transmissões do concurso a partir do Casino Estoril cuja sala nos recordava sempre o anúncio da pasta medicinal Couto (recordam-se de um sujeito de origem africana a fazer rodar uma cadeira presa entre os dentes? ‘’ É um artista português e usa pasta medicinal Couto’’) e tínhamos um passatempo preferido.

O meu pai tinha um grande amigo que não perdia uma única presença, ao vivo e a cores, na cerimónia da Miss Portugal e o meu divertimento e o das minhas irmãs era ver quem primeiro o conseguia descortinar durante a transmissão.

Geralmente estava sentado a uma mesa muito perto da passerelle, num dos melhores lugares e era só preciso esperar pelo desfile das concorrentes para o vislumbrar com o seu impecável smoking e o seu bonito cabelo puxado para trás com brilhantina (na altura não havia gel!).

Henrique Mineiro, um enorme amigo da família, uma excelente pessoa de quem recordo com muita saudade através de memórias que me levam aos courts de ténis do parque, às mesas da Zaira e finalmente aos vários passeios à Foz no seu deslumbrante Peugeot 404 cabriolet, um dos poucos descapotáveis que apareciam na altura nas Caldas e que me faziam sentir como um príncipe quando nele viajava com ele e com o meu pai ao seu lado.

Nesses concursos de beleza assistimos à coroação de Ana Maria Lucas (1970) e de Riquita (1971) mas também ao desfile da Helena Isabel que mais tarde ficaria mais conhecida como actriz e pelas suas participações nos Festivais da Canção onde se iniciou em 1974 e que é incrível que passados todos estes anos ainda esteja tão bonita e de ar tão jovem!

No ano de 1972 realizou-se um novo concurso e teve como estrela convidada Juliette Greco. Leio agora que a cerimónia foi envolta em grande polémica, desde activistas protestando com cartazes diante do casino contra a descriminação das mulheres (‘’Queremos respeito pela dignidade da mulher’’; ‘’Raparigas, não são mercadoria turística’’’’Não queremos este tipo de promoção’’;’’não ao mercado da beleza’’; ‘’Não à coisificação da mulher’’) até aos protestos do público sobre sabe-se lá o quê (eu se estivesse lá só protestaria pelo tamanho dos fatos de banho das concorrentes!) e de algumas concorrentes desagradadas com a atribuição do título de Miss Portugal Jovem a uma das rivais e que causou uma cena de estaladas entre as misses da metrópole e as das colónias. No final a Vera Lagoa, jornalista da RTP, colonista social do Diário Popular e que era a imagem da organização do concurso e presidente do Júri respondeu às vaias no mesmo tom e gerou-se uma peixeirada!

Contudo, o que ficou para a história e que chamou a atenção foi a enorme beleza da recém eleita Miss Portugal, Iris Maria Rosário dos Santos.

Iris Maria, Miss Cabo Delgado, Miss Moçambique e finalmente Miss Portugal era uma das várias representantes de Moçambique, oriunda do norte da colónia da Ilha do Ibo e radicada em Porto Amélia (actual Pemba) e tinha os mais belos olhos verdes que alguma vez vi e foi talvez a coroada mais indiscutível da história do concurso. Aliás o concurso de Moçambique desse ano de 1972 originou um documentário de 100 minutos intitulado Miss Moçambique 1972 – Retrato de uma Eleição com realização de Courinha Ramos e Eurico Ferreira.

Existe um poema da grande poetisa Glória de Sant’Anna sobre Porto Amelia (Pemba) que fala de umas sereias de olhos verdes que vinham à praia, de certeza que a Íris era descendente de uma delas!

Calculem como fiquei quando o meu pai alguns dias depois me disse que levaria a Lisboa, à Nutrifil a feira do sector alimentar antecessora da Alimentária e organizada na instalações da FIL na Junqueira, para ir não só visitar o grande stand da nossa empresa, como para assistir ao sorteio final do passatempo nacional que tinha tido a participação de dezenas de milhares de consumidores de todo o país.

As cabeças de cartaz desse sorteio que teve a cobertura de vários títulos da imprensa, eram justamente a Miss Portugal 1972, Íris Maria, e a Miss Portugal Jovem 1972, Ana Paula Carvalho.

Imaginem a emoção de um garoto de 9 ou 10 anos de ir conhecer uma Miss e estrela da TV, ainda por cima vinda daquela longínqua e fascinante colónia de África que eu imaginava à luz dos filmes de Tarzan. Lembram-se como muitos dos que vieram de África eram confrontados com a inevitável pergunta de se havia leões nas suas cidades?

No dia aprazado, ao final da tarde e após as aulas, parti para Lisboa com a ansiedade própria do miúdo que eu era.

O stand ainda era maior do que eu imaginava, com várias salas para exposição e para reunião. Ao centro tinha sido colocada uma encenação de cozinha com o mobiliário e electrodomésticos. No meio a ‘’piéce de resistance’’, um grande frigorífico completamente atestado de produtos Frami. Não me recordo qual era verdadeiramente o prémio, se toda a cozinha ou o frigorifico e um lote de artigos que dariam para abastecer uma casa por um ano mas competiria às misses efectuar os diversos sorteios.

Elas chegaram como pintainhos atrás da galinha, Vera Lagoa. Esta veio de forma completamente desabrida, atirando ordens a torto e direito para os fotógrafos, cabeleireiros e maquilhadores. Uma autêntica generala! Viria a constatar isso mesmo uns anos depois quando Vera Lagoa, pseudónimo da jornalista Armanda Falcão, ela própria natural de Moçambique, fundou o semanário ‘’O Diabo’’ que se celebrizou sobretudo pela investigação ao processo ‘’Camarate’’ pelas suas crónicas e pelas caricaturas afiadas de Augusto Cid.

Mas a Íris foi a estrela noite! Em oposição à Ana Paula, mais jovem e muito tímida, a bela moçambicana espalhou simpatia e o seu lindo sorriso rapidamente encantou não só os colaboradores da empresa mas também a enorme massa de público que de imediato demandou dos quatro cantos da feira para se aglomerar diante do nosso stand.

A Íris em poucos minutos tinha-me adoptado e segurando-me pela mão não mais me largou durante toda a sua permanência que deverá ter durado umas duas horas. Nas fotos aparecem além dos meus pais outros colaboradores da empresa donde destaco duas pessoas de quem guardarei sempre um enorme carinho, o saudoso Fernando Baptista e o José Rocha Gonçalves que muito me ensinou no inicio da minha vida profissional. É com muito gosto que vejo filhos de ambos a repartirem aqui o nosso grupo.

Fiquei ainda mais fascinado pela Miss agora que a conhecera ao vivo, ainda mais bonita do que já parecia na televisão e ainda mais contente fiquei quando ela no decorrer de uma digressão pelo país, veio visitar a nossa empresa e a nossa bela cidade.

Acompanhei-a durante todo o dia e lembro-me da grande vaidade e orgulho com que apareci com ela no Casino e a levei ao salão de baile onde por aquela hora da tarde ensaiavam os Xaranga Beat. Recordo-me da forma como interromperam de imediato os ensaios para a conhecer e da sua permanente simpatia para com todos.

Ao longo da minha vida fui conhecendo outras Miss Portugal, por motivos profissionais tive a possibilidade de conhecer várias, mantendo a amizade com duas delas. São todas muito bonitas e na maioria bastante simpáticas mas nunca voltei a ver nenhuma tão bonita e tão atenciosa como a Íris Maria!

Após o concurso de Miss Universo e de ainda algum tempo de estadia na metrópole voltou para a sua terra de sempre, Moçambique. Tenho fotos suas tiradas da internet com amigos e simpatizantes na Ilha do Ibo, são as últimas provas que tenho da sua existência. Nunca mais se ouviu falar dela mas eu nunca mais a esqueci.

Casou-se com o José Eduardo, um piloto da DETA, os transportes aéreos de Moçambique antes da independência e que soube-o agora, recentemente se reformou da TAP como piloto dos Airbus A310. Mas da Íris eu nunca mais ouvi falar. Diz-se que foi para a África do Sul após a independência, diz-se que não, que ficou por lá.

Dão-se alvíssaras pelo seu paradeiro! :)



Helena, Pedro, Teresa, esta também é para vós.








Coroação de Miss Portugal 1973


Ana Paula Carvalho - Miss Portugal Jovem 1972

Os Xaranga Beat

Baía de Pemba

Pemba é uma baía com água verde e azul
De um lado há mangais e do outro as rochas são de coral
Nas árvores dos mangais há pássaros brancos com penas de renda
Nas rochas de coral há peixes de muitas cores e tamanhos
A baía abraça a cidade que forma península e ficou com o nome que a baía lhe deu
Pemba fica no Índico. Aquele oceano que molha a costa oriental de África até
Ao Cabo que Bartolomeu Dias dobrou. Esse mesmo – o da Boa Esperança
A água de Pemba nunca é igual, todos os dias
Se há vento, enruga e faz espuma.
Se não há vento, parece um espelho de metal
Se as acácias rubras estão em flor e há muito sol, brilha como um anel
Se chove, parece uma almofada redonda de veludo, cheia de alfinetes
De manhãzinha é cor-de-rosa.
À noite, as estrelas descem lá para molhar os pés
Sabias que pode haver um lugar assim tão bonito? Mas há outras coisas
Tubarões com dentes aguçados, golfinhos alegres que saltam para o ar
Génios mágicos e esguios que se escondem na água
e chamam pelos nossos nomes na lua cheia,
e sereias de olhos verdes
que espalham conchas de madrepérola pelas praias.
Isto tudo e as pessoas também
As pessoas que vivem em casas maticadas ou em blocos de cimento
E que fazem os seus trabalhos nas repartições
E que vendem coisas variadas nas lojas,
E que pescam nos seus barquinhos – camarão, lagosta, caranguejo e peixes
E que são alfaiates cosendo roupa nas suas máquinas
E que são carpinteiros e pedreiros e engenheiros e enfermeiros e médicos
E professores e escultores de madeira e marfim
E que dançam e cantam ao som do batuque quando há uma festa
Tudo isto e sempre muitas crianças.

(Conto de Glória de Sant’Anna)


Charlie Rich - The Most Beautiful Girl In The World


IRIS NO IBO
(ainda antes de ser coroada Miss Portugal 1972)


ILHA DO IBO


PERDIDA NO MAR E NA HISTÓRIA

Do ''Livro das Andanças'' de Camilo de Araújo Correia

Em Porto Amélia raramente se dizia a ilha do IBO; dizia-se, muito sim­plesmente, o IBO. Foi ao IBO, veio do IBO, vive no IBO...

Naquele falar e falajar do entardecer nas deliciosas varandas colo­niais, fui ouvindo história daquela ilha da costa de Moçambique, entre o Lúrio e o Rovuma. O mistério ia, pouco a pouco, aguçando a minha curiosidade. O próprio café do Ibo, que o senhor Ferreira nos servia no «Botão de Rosa», ajudava ao mistério. Era um café delgadinho, acasta­nhado, de cheiro e sabor muito estranhos. Mas acabamos por gostar dele e precisar dele. Era revigorante e tirava a ideia de deitar em horas de andar a pé. E quem quisesse ler ou escrever pela noite fora, era só tomar um cafèzinho do Ibo, depois de jantar. Insónia assegurada.

Quando a curiosidade começou a inquietar-me, não tive outro remédio se não reparti-la com o meu inesquecível companheiro Simões Coelho. O Dr. Manuel Simões Coelho, grande cirurgião e grande pianista, veio a falecer em Portugal, meses depois de ser desmobilizado.

Não foi difícil entusiasmá-lo. Ele também já andava mortinho por conhecer o Ibo. Difícil foi arranjar transporte que nos levasse pela costa acima, até ao ponto da travessia. O jeep do Hospital Militar 338, a que pertencíamos, estava mesmo a calhar, mas a viagem era paisana demais para o podermos usar sem dar nas vistas...

Acabámos por aceitar a oferta de um indiano - um velho Opel sempre a torrar ao sol implacável da Av. Jerónimo Romero. Só depois de aceitar­mos, com muitas mesuras de parte a parte, é que soubemos do estado lastimoso do carro. A cor era o menos, mas sempre lhes direi que ia do vermelho alaranjado, nas pregas mais protegidas, ao diospiro podre nas superfícies mais expostas.

Depois de uma revisão que, afinal, só serviu para nos afirmar que era uma temeridade partir, assim, com duas senhoras e duas crianças, lá fomos aos primeiros raios daquele sol que se erguia do lado do mar e se punha do lado da terra.

Logo aos primeiros quilómetros, o Opel triplicou os barulhos da partida e começou a cambar para o lado esquerdo. Por sua vez, as senhoras iam fechando a cara, daquela maneira que só as esposas contrariadas sabem fazer... O que nos valia, a mim e ao Simões Coelho, era a grande satisfação dos nossos filhos, o João e o Jorge. Riam e batiam palmas de cada vez que um macaco-cão atravessava a estrada, solene e atrevido.

— Ó papá, tu não apitas nas curvas?! — estranhou a certa altura o Jorge.

— Ó filho, tornáramos nós encontrar alguém, mesmo contra a mão! — respondeu, galhofeiro, o Simões Coelho.

Naquela fita de terra vermelha, marcada pelas tempestades e pelos aventureiros, naquela solidão que parecia vir do princípio do mundo, buzinar seria uma ingenuidade e um sacrilégio.

A certa altura o “diospiro” cambou perigosamente para o lado de que vinha a queixar-se desde Porto Amélia — o esquerdo.

— O feixe de molas está a dar o berro! — informou o Simões Coelho, de rabo para o ar, meio metido debaixo do carro.

— E agora? - perguntei com a nítida sensação de ser ridículo naquele ermo.


- Vamos andando devagarinho... Mahate deve estar perto! - sossegou o Simões Coelho a bater as mãos, vermelhas de terra.

Depois de meia dúzia de curvas, dadas de credo na boca, Mahate apareceu como um bocejo da floresta.

Mahate era uma terra pequena e poeirenta surgida, ao que me pareceu com a exploração, naquela área, da companhia algodoeira Sagal. Para nós foi a Divina Providência que ali instalou umas oficinas capazes de reparar o nosso carrinho cambado e gemebundo. Não seria preciso, mas sempre fomos dizendo que éramos amigos do senhor Engº Guedes de Paiva, ao tempo, administrador da Sagal em Porto Amélia... Além do préstimo, os mecânicos foram de uma amabilidade inesquecível. Só tivemos de esperar um tempinho bem bom. Fomos passá-lo a uma daquelas lojas que só se encontram na África em pleno mato. Ali se vende de tudo, mas tudo cheira a tabaco e peixe seco.

Resolvemos esperar na varanda, quase ao nível da rua, a uma mesa de tampo coberto de moscas. Daquelas moscas que voltam sempre mal acaba o gesto de as afastar. Ao fundo da varanda bebia cerveja um negro gordalhufo, esgoleirado, mas bem vestido. Limpava, a espaços, um suor azulado e parecia, de olhar fixo, contar as garrafas que já bebera e tencionava beber.

É o doutor do Ibo!... — informou o pretito que nos trazia os pedidos, adivinhando em nós a estranheza de ver ali tal figura.

Ainda pensámos em abordá-lo para lhe dizermos quem éramos e onde íamos, mas o nosso colega parecia estar ao fundo de uma varanda sobre o infinito...

Do outro lado da rua havia um inacreditável campo de futebol. Apenas umas canas espetadas no chão poeirento limitavam o necessário rectângulo em cujas extremidades havia uns paus tortos a servir de balizas. O piso era de terra moída e remoída por mil pés a ir e a vir na mira do golo. Mas o campo tinha uma vaidade que ainda hoje me dói... Por cima da entrada uma tábua ressequida dizia assim numa caligrafia acabada de aprender: LEÕES DE MAHATE.

Quando pensávamos em ir ver se o carro já estava pronto, o “diospiro” apareceu, trazido por um funcionário da Sagal. Vinha todo teso e reluzente de limpeza, íamos batendo as palmas de contentamento. As nossas mulheres sorriram, finalmente. Pareciam já duas noivas em viagem de núpcias...

Dali até ao ponto de embarque para a ilha do Ibo correu tudo bem, mas tudo feito com muito cuidado por causa do piso. Quando menos se esperava surgia um pontão de troncos, ali posto para dar passagem no leito seco de um riacho efémero. Se bem me lembro, só atravessámos um curso de água permanente — o rio Montepuez.

Era em Tandanhande que se embarcava para o Ibo. Não havia povoado, nem havia cais. Apenas uma enseada minúscula acolhia o barco a motor do vai-e-vem.

Ao embarcarmos, as senhoras voltaram a fechar a cara e os rapazi­nhos a ficar mais contentes. Aquele barco pareceu-lhes, certamente, acabado de saltar de um quadradinho de banda desenhada...

A mim pareceu-me pequeno para aguentar qualquer espécie de mar. Eu não sabia que no paraíso os barcos não têm tamanho... E foi uma viagem paradisíaca aquela que fizemos, ora quebrando espelhos de mar imaculado, ora atravessando florestas de mangai, de onde se erguiam bandos de pássaros, brancos e silenciosos como a neve.

Talvez influenciado pelas histórias de Somerset, esperava encontrar na Ilha do Ibo um pequeno porto com alguma agitação de gente curiosa e mercadorias pasmadas ao sol. O cais do Ibo não passa de um pequeno patamar com escadinhas a desaparecer na água quieta. À espera, apenas um rapaz de tronco nu, muito lesto nas manobras de atracagem.

Foi esse rapaz que nos levou a casa de Wong Jan, um chinês de hos­pitalidade lendária por toda a costa de Cabo Delgado e que, em Porto Amélia nos haviam indicado como único sitio do Ibo onde poderíamos ficar.

Wong Jan recebeu-nos com as vénias de todos os chineses a que, ao que me pareceu, juntou mais algumas de homenagem ao Simões Coelho, já famoso por aquelas bandas.

Depois de um banho, tomado a golpes de púcaro pela cabeça abaixo, fomos cervejar para a varanda, íamos na segunda rodada, quando apare­ceu o “Madragoa” a esbracejar e a rir de lés a lés no carão moreno. O “Madragoa” era o Administrador da Ilha do Ibo. Não consigo lembrar-me do seu verdadeiro nome. Aliás, julgo que nunca o soube muito bem... Apesar de muito estimado e respeitado, ninguém a ele se referia de outra maneira.

— Está cá o «Madragoa”! — anunciava-se, volta e meia, em Porto Amélia.

A simpática alcunha deve ter pegado por excesso de bairrismo do Administrador. Acho que dizia por tudo e por nada:

— Sou de Lisboa e da Madragoa!

E por ser de Lisboa recordou pela noite fora com o Simões Coelho casos e recantos da saudosa terra de ambos.

Quando as senhoras e as crianças se foram deitar, como autómatos perdidos de sono, ficámos só os três. Melhor, os quatro. Wong Jan andava por ali, discretamente, atento à nossa sede e à nossa fome. A certa altura o Administrador insinuou que «estava mesmo a calhar» um certo pastelão de um certo marisco.

Apesar do marisco me parecer um tanto coreáceo, o pastelão, no seu conjunto, ficou delicioso. Mas esta delícia viria a estragar-me a noite... Não fiz a digestão daquele marisco tão aplaudido. De cada vez que me virava, sentia os pedacinhos inteiros a carambolar no estômago, como bolas de bilhar. E quando pela manhã, ouvi o Simões Coelho a falar no pátio com os criados, berrei-lhe, ainda da cama:

Arranja-me um pouco de aguardente!

— ‘stá bem... 'stá bem! — respondeu com certa estranheza na voz. Mas a aguardente nunca mais vinha. Passado cerca de um quarto de hora, voltei a berrar:

— Então essa aguardente, Simões Coelho!?

— Andam a tratar disso!... Tu julgas que estás na Régua? Passados mais dez minutos, um criado bateu

à porta.

— Pronto, patrão! Já tá - disse, contente, no seu riso de piano aberto.

Intrigado por não lhe ver nada nas mãos, perguntei:

- Já está o quê?

— O banho, patrão. Tem muita água!

Está visto que me andou a arranjar água quente em vez de aguardente!... Tomei um delicioso banho de bidom. O único banho quente em dois anos e meio de África.

O pequeno almoço tomou-se de fugida. Não queríamos perder o içar da bandeira naquele domingo passado tão longe.

A cerimónia foi breve mas de uma solenidade garantida pelo rigor militar dos sipaios. Nunca a nossa bandeira me pareceu tão nossa, a tremular assim naquele azul tão forte que parecia pintado.

Começamos a visita à ilha pelo Hospital. Ficava ali mesmo, naquele terreiro de árvores frondosas em redor do mastro da bandeira.

Não voltei a ver hospital tão limpo, tão arrumado e tão deserto. Apenas dois serventes negros nos fizeram as honras da casa, abrindo portas naquela solidão e respondendo baixinho às nossas perguntas. O Hospital pareceu-me apetrechado para o que desse e viesse. Viesse o quê? Apenas dois negros, muito velhos e muito magros estavam internados, mais por caridade que por doença. Nenhum respondeu às minhas perguntas. Nem os olhos mexeram, quando as repeti mais alto. Três mundos: o meu, o deles e o outro.

Ao recordar, agora, aquele deambular pelas ruas do Ibo, recordo par­alelamente o percorrer das ruínas de Pompeia, visitadas muitos anos depois. Em Pompeia tudo aconteceu há tanto tempo que nada nos comove. Dir-se-ia que, ali, o Vesúvio e os séculos silenciaram tudo de tal maneira que as nossas almas e os nossos corações já nada podem sentir.

No Ibo o pano parece-nos caído sobre a opereta da grandeza e logo erguido para mostrar o drama da decadência. Entre a descida e a subida do pano, um curto intervalo para a História poder mudar de roupa.

Não pudemos visitar toda a Fortaleza por medida de segurança. Estavam lá prisioneiros muitos negros implicados na guerra, prestes a abrir ao sangue e à intolerância. O que vimos chegou para saber que a Pátria se defendia tão bem e tão longe.

Foi confrangedor passar diante de casas senhoriais, de paredes esventradas, sem telha que as proteja e porta que as guarde. Numa delas, em plena sala de jantar, de paredes apaineladas, crescia uma árvore com indescritível descaramento. Nas fachadas de armazéns arruinados, iam-se apagando os nomes de grandes firmas comerciais e um grande silêncio parecia amarrar-se àquela fiada de argolas de prender os animais de carga.

As casas habitadas eram poucas e dispersas. As pessoas vinham às portas ver-nos passar como fantasmas de um futuro que há-de vir. E ainda não veio.

Ao virar de uma esquina apareceu o nosso simpático Administrador. Vinha num jeep cheio de mossas, roncos de motor e grandes estoiras de tudo de escape. Queria oferecer-se para uma volta mais larga pela sua ilha.

Começou por nos mostrar, muito orgulhoso, um pequeno bairro social de sua iniciativa. As casas eram pequenas, de blocos feitos ali mesmo, sem qualquer estilo, a contar com um clima sem inverno. Foi uma nota de esperança naquela terra em agonia, desde o fim da escravatura. Sim. O Ibo foi próspero, enquanto entreposto de escravos. Ali se fixaram grandes famílias da Europa, vivendo na abastança, da compra e venda de negros. Lá estão as casas senhoriais de estilo europeu a afirmá-lo e os apelidos nobres a resistir ainda aos humildes nomes indígenas: Ávila... Menezes... Carrilho... Ornelas... Alba... Coutinho...

E o sangue? oh!... o sangue... A garantir a sanidade dos cruzamentos de sangue latino e negro, temos o milagre das «brancas do Ibo”. Milagre de brancura, de elegância, de beleza, de jeito de falar e jeito de ser. Iris Maria é uma branca do Ibo. Foi Miss Portugal. Não tem havido mais porque o Ibo é longe e mau caminho...

Ao som daquele jeep rebentado percorremos boa parte da ilha com o nosso “Madragoa” a gesticular indicações com o braço livre do volante. Nada me pareceu cultivado com regra ou entusiasmo. Toda aquela agricul­tura de subsistência tinha o mesmo ar espontâneo do capim, mas toda aquela desolação definitiva não impedia o nosso Administrador de gesticu­lar grandes projectos de abastança. Quando se punha de pé, de braço estendido a traçar lonjuras de cultivo, chegava a ouvi-lo como um eco de D. Quixote...

Porventura a marca mais profunda que me ficou daquele passeio a esmo pela ilha, foi a visão das sepulturas individuais e familiares que íamos encontrando perdidas no capim. Mal se desligava o motor para irmos ver mais perto, caía sobre elas um silêncio quase doloroso. Que grande senhor negreiro estaria ali comido dos bichos e dos remorsos? Que formosura virginal teria acabado ali os sonhos de donzela?

Um ventinho de murmúrio respondia do infinito. Um grande silêncio respondia a toda a gente.

Outra vez o cais... outra vez o barco... outra vez o mangai no mar quieto... outra vez os pássaros brancos e silenciosos como a neve...

E a Ilha do Ibo lá ficou, perdida no mar e na História.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

AINDA SE LEMBRAM DO GIGANTE MANJACAZE?

AINDA SE LEMBRAM  DO GIGANTE DE MANJACAZE? 
 2º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''

O GIGANTE DE MANJACAZE




Fonte: Blog AQUI TAILÂNDIA


Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?


Era o Gabriel Estevão Mondlane, media 2,45 metros de altura; infelizmente já morreu em 1990, com apenas 45 anos de idade. Resolvi fazer uma pesquisa na Internet e encontrei várias referências, das quais destaco as seguintes:

1 - Vida do Gigante de Manjacaze em livro O poeta e ficcionista português, Manuel da Silva Ramos, lançou em Maputo o livro "Viagem com um Branco no Bolso", um romance sobre a vida do "Gigante de Manjacaze", Gabriel Estevão Mondlane.

A obra apresenta um outro personagem, o anão português, Toninho de Arcozelo, que contracenava com o gigante nos círculos, feiras e praças públicas. No romance, com 574 páginas, o autor faz uma análise crítica à grande exploração a que o "Gigante de Manjacaze", com cerca de 2,5 metros, foi submetido no período colonial por empresários e promotores de espectáculo da época.

O nome do anão Toninho de Arcozelo, o então homem mais curto do mundo, com 75 cm de altura, associa-se a Gabriel Mondlane pelo facto de ambos aparecerem juntos muitas vezes, no mesmo palco, como forma de evidenciar a diferença entre ambos.

O autor do livro nasceu a 13 de Setembro de 1947 na Covilhã, esteve exilado durante 17 anos na França, regressou a Portugal em 1997 e é tido como um escritor polémico e pessimista. (Notícias, 26/01/01)

2 - Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (Moçambique), foi notícia em Banguecoque em Agosto de 1989

Os jornais e a televisão falaram dele. A sua imagem junto da esposa Maria saiu nas páginas de todos os jornais, editados, na capital tailandesa. Motivo da visita: A inauguração da abertura primeiro supermercado "Makro". Gabriel estava designado como o homem mais alto no mundo no "Livro de Recordes Guinness".

Conhecíamos a história do Gabriel de quando começou a crescer, desmesuradamente, depois de ter dado uma queda, na sua aldeia, em Manjacaze, no sul de Moçambique.Perante tal fenómeno de crescimento o Gabriel, embora o não apoquentem dores, foi internado num hospital de Lourenço Marques (Maputo) para ser observado pelos médicos. De um jovem com altura normal, cresceu, cresceu e foi até à craveira de 2,42. Os médicos (segundo os jornais de Moçambique) nunca explicaram o motivo da razão do Gabriel crescer descomunalmente e o rapaz foi enviado de volta às orígens.

O Gabriel, passava os dias sentado à sombra de um cajueiro, ao redor de sua casa, a sua altura desmedida não lhe dá a oportunidade para se juntar à sua família e trabalhar na "machamba" (pequena propriedade agrícola em Moçambique). Passa a ser um Gabriel amargurado, a maldizer o crescimento e um pesadelo para a família alimentá-lo, que comia por quatro pessoas de média estatura.

Devido à publicidade dada ao caso de sua altura houve alguém se interessou em fazer dinheiro com o tamanho do Gabriel.

Começa, então o drama de um homem alto pelos anos de 1965!

Eu vivia na cidade da Beira na altura e conhecia, pelos jornais, a história do crescimento do Gabriel.

Dois homens, expeditos, residentes na capital de Manica e Sofala andavam por alí a ganhar a vida ao sabor das marés. Todo os peixes que as ondas traziam à costa lhes servia.

Um de nome pomposo o Dr. Rakar, homem para todas ocasiões. Pintor à espátula, advinho com consultório montado e viria a dar aso a confusões e divórcios, entre maridos e mulheres na Beira. Entretanto foi-lhe apontado o "dedo" pelos jornalistas de tentar o aliciamento sexual, durante as consultas, às senhoras que o visitavam para que advinhasse qual era a "dama" que lhes estava a roubar o marido.

Outro de nome Prof. Belito, artista circense, ilusionista que andava por ali a montar a barraca nos arredores da Beira a mostrar, um truque, a cabeça de um preto em cima de uma mesa, que falava e comia bananas. Lá ía governando a vida, muito mal e com os dez tostões do custo dos bilhetes de entrada.

Os dois deslocaram-se a Manjacaze e trazem o Gabriel para a Beira, encomendaram uma "fatiota" por encomenda; uns sapatos para uns pés de 50 centimetros. Adquirem uma aparelhagem sonora de 100 watts cujo som, berrado, chegava a 10 quilómetros de distância. O Gabriel é enfiado numa barraca feita de pano de toldo, em locais da Beira e arredores, há bichas de pessoas para verem de perto o Gabriel.

O negócio foi correndo para o Razak e o Belito. Percorreu numa caixa de camião, aspirando o pó da picada, para outras terras de Moçambique.

Os moçambicanos e os "muzungos" (nome que os nativos davam aos portugueses de pele branca), depois de conhecer o Gabriel ao vivo não o pretendem ver mais.

O negócio começou a não ser rentável para os empresários Razak e o Belito.

Eles eram homens de imaginação e não se deram por vencidos.

Mandar o Gabriel de volta a Manjacaze, com a "fatiota", os sapatos e cotão no bolso em vez de umas notas em dinheiro, não era nada relevante para os seus protectores.

Se o Razak o Belito o pensaram melhor o fizeram!

Porque não ir mostrar o Gabriel de Manjacaze aos angolanos? Claro que sim e a ideia era genial! Fazer ver aos angolanos: Embora vocês tenham "pacaças" no mato, que Moçambique não tem, nós temos o homem mais alto do mundo e a dança do rabo de cadeira a "Marrabenta" !

Ajustam com a TAP, na Beira, o preço e o espaço da cadeira para transportar o Gabriel no "Super Constelation" para Luanda. O Gigante de Manjacaze, aterra na capital angolana, metido num espaço apropriado para a sua medida. Os jornais dão o "lamiré" e começa, como em Moçambique a ser exibido numa barraca.

O negócio foi correndo ao Razak, ao Belito e aos seus agentes.

Bem depois de ser visto e revisto e a figura do gigante deixar de ter interesse foi abandonada em Angola.Passou por lá misérias, os jornais de Moçambique deram conta do estado de vida degradado do Gabriel em Angola e regressa a Moçambique à estaca zero.

Porém, o Gabriel, aquele rapaz humilde já habituado aos ambientes do público, de ser admirado pelas crianças dentro de uma "barraca", começou a sentir-se (apesar de grande) "pequeno" em Manjacaze.

Nova fase de vida principia para o Gabriel, mas agora, com alguma dignidade.

Um empresário, circense, contrata-o e leva-o para Portugal.Corre Portugal de lés-a-lés, acomodado numa caravana (o próprio Gabriel me informou), onde dentro havia qualidade de vida e na hora que lhe estava destinada a exibir-se perante o público.

O "Gigante de Manjacaze" não foi explorado e amealhava uns "dinheiros".

Entre os caminhos "circenses" do Gabriel, uma mulher de 1,54 ( cuja altura dava-lhe pela cintura) de nome Maria, apaixonou-se por um homem de tamanha altura e 150 quilos de peso.

Maria começou acompanhar o marido, gigante, por todo Portugal e teve um filho. Um rapaz "mulato" que teria uns 10 ou 11 anos de quando estiveram em Banguecoque e me mostraram a foto do rapaz.

Maria está ao lado de Gabriel, adquiriram uma cave nos arredores de Lisboa e fazem uma vida de um casal normal.

A altura do Gabriel Monjane chegou ao livro "dos recordes Guiness" e está lançado no mundo como o homem mais alto do globo. Das picadas de Moçambique e de Angola, da tenda de lona o "Gigante de Manjacaze", começa a ser solicitado para publicidade e ser apresentado ao mundo.

Foi por este motivo que a empresa multinacional "Makro" convidou o Gabriel, o inglês Cris Greener, de 2,28 e outros homens, tailandeses (como anões junto do Gabriel e o Cris Green), para estarem, presentes, na abertura da primeira grande superfície na "Cidade dos Anjos".

Milhares de pessoas correram ao parque "Happy Land" para admirarem o "Gigante de Manjacaze", que embora nascido em Moçambique, dizia que era português!

Serviu de interprete entre o Gabriel e os jornalistas, a Esperança Rodrigues (ela e eu somos os portugueses mais antigos residentes na Tailândia), que traduzia as palavras do Gabriel em português para a língua tailandesa.

O Gabriel, meu amigo, partiu de Banguecoque, como um herói.

Passado uns poucos anos, uma delegação, moçambicana, que acompanhou o Primeiro Ministro Mário da Graça Machungo, em visita oficial à Tailândia, depois de lhes falar na história do Gabriel em Banguecoque, de volta recebi a triste notícia: " O Gabriel ao entrar na cave onde residia, escorregou, caiu e morreu". Fiquei triste por eu tinha lidado de perto com o Gabriel em Banguecoque e tínhamos ficado amigos.


O GABRIEL EM BANGUECOQUE

No dia 1 de Agosto de 1989 era um dia igual a muitos outros anteriores. Saí de casa para a Embaixada de Portugal, às seis da manhã, comprei o jornal e fui lê-lo para uma esplanada, junto ao rio Chao Praiá, onde todas as manhãs se sentavam à minha mesa uns "amigos e amigas", cáusticos: o Zebreu, judeu com uma lapidaria de pedras preciosa; o Miko, canadiano e fotógrafo para uma agência de publicidade, a Porno estudante universitária de economia e a Plá, secretária do gerente da Sony (Thailand). Não se discutia futebol, nem política mas "coisas" alegres e antes de começarmos um novo dia de trabalho.

Na primeira página do "Bangkok Post" estava inserida a foto do Gabriel Monjane e hospedado no "Montien Hotel", a uns dois quilómetros onde me quedava. Não fazia a mínima ideia aonde o Gabriel parava se em Moçambique ou noutro país. Ora eu conhecia a história, infeliz, do começo da sua carreira e da tragédia que tinha sido envolvido. Tinham passado (mais ou menos) 11 anos que lhe tinha perdido o rasto de sua vida. Às dez da manhã dei uma "saltada" ao "Hotel Montien" e oferecer-lhe os meus préstimos em Banguecoque. Da recepção do hotel telefonei para o quarto (cinco estrelas) e fui atendido pela D. Maria, sua esposa. Fomos breves na apresentação e subi no elevador.

Naquela manhã eu era para o Gabriel o seu anjo da guarda e comer um pequeno-almoço decente e não as torradas, com manteiga, marmelada e o sumo de laranja. O Gabriel desejava um bom prato de sopa de arroz com uns pedaços de carne e nunca as comidas "hoteleiras" que lhe tinham levado ao quarto. A D. Maria e o Gabriel não falavam, palavra que fosse, da língua inglesa e quando pediam, aos criados, sopa de arroz em português, sorriam-se e voltavam-lhe as costas.

Os pequenos-almoços do Gabriel desde logo ficaram resolvidos e não tardou um criado entrar no quarto puxando um "carrinho" com uma terrina de sopa, bem cheirosa, para um pequeno almoço decente e digno para um homem de 2,42 (dois metros e 42 centímetros).

Todos os dias, ao fim da tarde, durante a permanência do "Gigante de Manjacaze" em Banguecoque estava junto a ele. Sentava-se num banco especial, no "lobby" do hotel, junto ao cartaz que anunciava os eventos de sábado e domingo. O "lobby" do hotel passou a ser um centro de romaria. Os jornais, em língua inglesa e tailandesa, tinham dado cariz à presença do Gabriel em Banguecoque e todos querem apreciar a sua altura e tirar foto com ele. No princípio de uma noite teve duas visitas, especiais, de duas princesas reais: Soamsawali e filha Bajrakitiyabha que lhe foram fazer uma visita, particular, ao "Montien Hotel" cumprimentaram-no e tiraram fotos juntos.

Ofereci uma "boleia", no meu Volvo 244, já um carro bem "coçado", ao Gabriel para lhe mostrar Banguecoque à noite, as luzes de neon e todo aquele movimento nocturno. O carro era espaçoso e estudei a melhor forma de o transportar. Retirei-lhe o assento da frente, o Gabriel sentou-se no banco de trás, dobrou os joelhos e apreciou Banguecoque e não só atravessei a grande ponte, Rei Rama IX, e olhou a cidade lá do alto.Ao Gabriel, meu amigo, desejamos que esteja no céu, porque um homem simples e bom, igual a ele não tem lugar no purgatório, nem no inferno.

O Inferno já o tinha experimentado na vida terrena.

"Kanimambo" Gabriel Monjane



José Martins - 17 de Maio de 2007




domingo, 6 de junho de 2010

ROMÃO FÉLIX - O PARAFUSO EM LISBOA


Para cumprir uma promessa à Lena Mendes e também dedicado a todos os meus amigos que vieram de África (mesmo os que vieram de outras paragens que não Moçambique) , a Sabrina, a Denise, a Cibele, a Ana, a Kika e o João, a Susana, o Hazakis, a João e a Isabel, a Teresa e a Juca e tantos outros, aqui vai uma recordação que por certo já se esqueceram mas que marcou os nossos anos 70.

Em meados da década de 70 Portugal vivia a euforia da liberdade e uma série de transformações sociais motivadas pelo regresso de milhares de portugueses vindos das ditas "ex-colónias".
Mas nem o constrangimento motivado por esta situação evitou o sucesso de um humorista moçambicano, Romão Félix, que, com piadas simples mas certeiras, traçou, ao longo dos seus textos e interpretações, um retrato caricato da vida lisboeta.
Neste áudio o "Parafuso" telefona para casa, Moçambique, e descreve, de forma hilariante, o que tem visto na capital portuguesa, coisas novas para ele, como o metro, a televisão, a publicidade, etc.
Este vinil rodou em muitos gira-discos da época e as emissoras de rádio mais populares passaram-no até à exaustão.
"O Parafuso" foi gravado em disco a partir de uma apresentação televisiva. No início da gravação pode ouvir-se a apresentação feita por Fialho Gouveia.






Podem ver mais em:


Parafuso em Lisboa (Parte 1/2)




Parafuso em Lisboa (Parte 2/2)