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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TRINTA ANOS DE GREEN HILL



In Gazeta das Caldas, edição de 24 de Setembro de 2010


Trinta anos de actividade para uma discoteca como a Green Hill, na Foz do Arelho, representam milhares de histórias passadas ao som da música.

Avós, pais e netos já dançaram na mesma pista de dança, fosse ao som de um slow ou das batidas mais fortes da música electrónica.

A Green Hill nasceu em 1980 na Foz do Arelho, numa aldeia que hoje é vila e tornou-se discoteca ao nível nacional. Nestes 30 anos só houve um único fim-de-semana, no ano 2000, em que não funcionou (devido a trabalhos de remodelação).

Para além de muitos encontros e desencontros que aconteceram naquele espaço, o Green Hill é também a história de uma familia.

Luis Romão e Filomena Félix eram casados quando inauguraram a discoteca. Ricardo Romão, o único filho do casal, tinha apenas três anos.

Actualmente e após várias vicissitudes e dramas familiares, mãe e filho gerem a discoteca em conjunto.


O SONHO DE LUIS ROMÃO

Filomena Félix nasceu em 1955 na Foz do Arelho, onde continua a viver. Os seus pais (já falecidos) eram os proprietários do restaurante Lagoa Bar, em frente ao Inatel, do qual fazia parte um posto de combustível.

‘’Toda a gente conhecia a casa do Zé Félix. De Julho a Setembro passavam diariamente milhares de pessoas pelo restaurante’’, lembrou. Filomena Félix começou a trabalhar no restaurante dos seus pais desde pequena, apesar de ter estudado até ao ensino superior, ‘’Estive no ISLA e só não acabei o curso por um ano’’, contou.

Filomena chegou a pensar sair de Portugal para trabalhar na área do seu curso (Secretariado) mas quando se casou com Luis Romão, em 1975, abandonou os estudos e decidiu ficar.



Luis Romão é natural de Rio Maior, onde nasceu em 1954. O casal residia na Foz do Arelho e Luis insistia em concretizar o sonho de abrir uma discoteca. Chegaram a pensar em avançar com o projecto na garagem da casa dos pais de Filomena Félix mas como esta estava mesmo no centro da Foz, mudaram de ideias.

O edificio onde agora funciona a Green Hill era à época um pequeno armazém, que era utilizado pelo pai da Filomena para criação de galinhas e de porcos. Na parte da frente tinha os frangos e na parte de trás funcionava a pecuária.

Foi o próprio Luis Romão, com um pedreiro, quem fez as obras. Enquanto isso, Filomena Félix dedicava-se à parte burocrática. ‘’Já naquela altura era muito complicado tratar dos papéis e quem me ajudou muito foi o João Santos, que agora é o secretário do Presidente da Cãmara’’.

O investimento inicial na altura foi de cerca de dois mil contos (10 mil euros). ‘’O meu irmão estava nos Estados Unidos e trouxe a aparelhagem de som de lá’’, adiantou Filomena Félix.

A empresária deu voltas à cabeça antes de encontrar o nome certo para a discoteca. ‘’Como aquilo era uma zona verde e eu sou sportinguista e como, ainda por cima, ficava numa colina, fui ao dicionário e achei piada ao nome – Green Hill’’.

Naquela altura a discoteca ficava ‘’no meio das fazendas’’ conta Mena. Ainda não havia a rotunda (hoje conhecida pela rotunda do Green Hill) nem o acesso à praia pelo lado do mar e até a estrada Atlântica não estava toda alcatroada.

O estabelecimento abre com a designação oficial de ‘’bar dancing’’ e foram muitas as dificuldades para licenciar a casa. Trinta anos depois, Filomena continua a queixar-se de ter que enfrentar muita burocracia de cada vez que quer fazer alterações no edifício.

A empresária não percebe por que há tantas casas do género que abrem de qualquer maneira e para a sua discoteca seja necessário apresentar tantos projectos de cada vez que precisa de fazer obras.



UMA INAUGURAÇÃO ESTRONDOSA

Quando a Green Hill abriu portas, a 30 de Maio de 1980, tinha uma pequena pista de dança, uma cabine de som e um bar. De todo o edifício, o balcão do vestiário é o único elemento que se mantém desde a inauguração.

Antes da abertura ao público, na noite anterior, fizeram uma pré-inauguração com alguns amigos* mas no primeiro sábado tiveram logo casa cheia. ‘’Parecia haver uma necessidade enorme de um espaço destes. Foi uma inauguração estrondosa e as pessoas nem cabiam todas’’, lembrou.

Apesar do início auspicioso, os primeiros anos foram difíceis. ‘’Sempre fui muito selectiva á porta, mesmo quando tinha a casa vazia’’, disse a empresária, que durante muitos anos fez questão de estar à porta, logo a seguir ao porteiro.

Com 25 anos, Mena continava a trabalhar no restaurante dos pais e mantinha o negócio da discoteca aos fins-de-semana.

Na discoteca trabalhava com Luis Romão (que era o DJ), um segurança, dois barmen e poucos mais funcionários. ‘’Éramos meia dúzia e atendíamos toda a gente quanto atendem 45 funcionários’’, referiu.



Entre 1991, quando se divorciou de Luis Romão, até 1997, Filomena Félix esteve afastada da Green Hill. Voltou um ano depois do assalto ao seu ex-marido, na sequência do qual Luis Romão ficou incapacitado. O empresário sofreu graves lesões neurológicas ao ser agredido depois de oferecer resistência a um assalto, na madrugada de 8 de Setembro.

Este foi o episódio mais negro da história da discoteca e que ainda hoje é difícil de abordar por parte da família. (...)


Artigo de Gazeta das Caldas – Pedro Antunes - 24.09.2010





A Green Hill marcou a nossa geração e muitas foram as noites inolvidáveis que lá passei.

Contudo o inicio de actividade da discoteca não foi para mim nada auspicioso. Pelo contrário, a primeira noite ficou marcada pela tragédia.

* Na noite da pré-inauguração, jantei com a Filomena Félix e o Luis Romão em casa do casal Dinis, Joaquim e Alice, pais do João Miguel, no andar que ficava por cima dos correios da Foz, onde os meus amigos residiam pelo facto da mãe do João Miguel ser a Chefe dos Correios locais. Aliás o bilhete acima exposto marca a ida à Green Hill, a 12 de Julho, para festejar o aniversário do João Miguel nesse ano.

Na noite da inauguração a que eu fui com as minhas irmãs, o nosso pai veio chamar-nos à discoteca por volta das duas da manhã com um ar muito sério. O nosso amigo Fernando Barardo, despistara-se na curva da Fábrica do Sabão quando na companhia da sua noiva se dirigia para a Green Hill e morrera no acidente. O resto da nossa noite foi passada junto à porta da morgue do Hospital Distrital das Caldas com os seus familiares, nossos amigos.



Em várias crónicas que publiquei mencionei ‘’O Green Hill’’ ou ‘’A Green Hill’’ conforme diferentes pessoas se referem a esse local que foi de culto para os dos anos 80.

Mencionei-o em ‘’Cruzando os Anos em Poucos Dias – Diário de um Estudante’’, em ‘’Em Busca da Espiritualidade’’, em ‘’O Fim da Adolescência’’ e voltei a esse tema em ‘’Em Serviço Público’’.

Na realidade poderia referir-me ao Green Hill em dezenas de crónicas minhas, se me lembrasse de cada noite, porque cada uma daria uma crónica ou pelo menos uma página de um diário!

A abertura do Green Hill, em 1980, apanhou-me no final do meu 11º ano, tinha acabado de largar umas canadianas devido a um acidente a jogar voleibol com o Paulo Gaspar, o Paulo Mateus, o Paulo Jorge, entre outros que não se chamavam Paulo. Foi no ginásio do primeiro andar do Liceu, recordam-se? Havia outro no segundo andar e ainda tínhamos a Parada como alternativa nos dias de sol!

Apesar do Green Hill continuar sempre aberto, eu dei por fim à minha temporada no final dessa década mas esses dez anos valeram por uma vida pois foram centenas as noites ali passadas.

Namoros iniciados, namoros acabados, casos de uma noite e casos que nem começaram por timidez minha ou por desinteresse da visada! Assim se fazia a vida de um jovem adolescente!



As noites do Green Hill marcarão para sempre as memórias de todos os que partilham este espaço e é difícil imaginar o que teriam sido essas noites da nossa adolescência sem a existência do Green Hill. Dizem que foi a existência deste que matou as outras discotecas das Caldas. Dizem até que o Ferro Velho, já na gerência do Luis Romão, foi encerrado para fortalecer a clientela do Green Hill. Histórias e conjunturas sem confirmação e que se desvanecem perante o facto do Green Hill ter sido o que foi para a minha geração.


Eu era dos que marcava sempre o ponto e mesmo em noites que fazíamos maratonas de discotecas, começando no Kiay em Marinhas ou no Eurosol em Leiria, descendo depois à Princess ou ao Sunset em Alcobaça ou ao Moinho nos Montes, indo ainda ao Jeans Rouge na Nazaré ou ao Bonnie & Clyde em S. Martinho do Porto ou ainda ao Snoopy em Salir e  ao Dreamer's na Foz, era certo que lá para as 4 da manhã estaríamos a marcar presença no Green Hill.

Deve-se abrir aqui um interregno para explicar às gerações mais novas que nós não nos deitávamos à meia-noite para pôr o despertador para as 4h00 da manhã e para então irmos ás discotecas. Pelo contrário, se fosse por nós , comíamos discotecas à sobremesa. Às 23h00 começávamos a debandar para os dancings e em alguns casos até desfrutávamos de um show pré-abertura, como era o caso do Eurosol em Leiria, que apresentava, acabadinho de chegar de Londres numa das malas de um tripulante da TAP, o vídeo com o UK TOP 40 CHART semanal.

Isto no tempo em que não existiam praticamente programas de música na RTP que começava naquele ano a transmitir integralmente a cores. ( e o primeiro canal privado só surgiria 12 anos depois). E os vídeo-clips das músicas do top londrino eram passadas numa tela em contagem decrescente até à meia-noite, altura em que se iniciava o show de lasers ao som de ‘’Also sprach Zarathrusta’’ de Richard Strauss que os menos relacionados com a música clássica poderão reconhecer como fazendo parte da banda sonora do filme 2001 Odisseia no Espaço.


Algumas destas músicas de abertura ou de encerramento ficaram para sempre nas nossas memórias e durante muito tempo o Green Hill encerrava com alarmes tipo sirenes e luzes a baixarem de intensidade até ao som final dos Europe com The Final Countdown.




Nem era muito de dançar. Aliás pouca gente se recordará de mim a dançar, excepto os slows, claro! O fim dos slows foi o fim de uma Era!


Abro de novo aqui um interregno para explicar aos putos que um slow era uma forma de dança antiga, um pouco mais recente que as valsas e as polcas, em que os casais dançavam, aos pares (que estranho!) e agarrados (que horror!).


Citando e parafraseando o Joe do blog Classe de 70, um slow, antes de tudo o mais, tinha de ser uma canção de amor lamechas. Não bastava ter um tempo lento, propiciando o arrastamento de pés; a temática devia também ser propícia às caricias da face na face, ao correr dos lábios pelas orelhas e nuca ou pescoço e ao deslizar de mãos. Não passava pela cabeça de ninguém chamar slow a coisas como o Fade to Grey ou o Tokyo Song.

Depois, um slow tinha que ser uma coisa simples, que entrasse bem no ouvido e que tivesse uma mensagem clara, tipo “me Tarzan, you Jane”. Slows com muita poesia distraíam do essencial; e com uma música complicada perturbavam o piloto automático. Um slow tinha que ser 100% pop, sem grandes pretensões artísticas.


Estou a imaginar-me todo compenetrado em conquistar a rapariga durante o slow Love Hurts dos Nazareth e ela a afastar-me ligeiramente, fitar-me muito seriamente e dizer-me:

- Tenho estada atenta a ouvir a letra desta canção e realmente toca-me bem fundo! – e ao dizer isto faz um daqueles estalidos de língua de quem está mesmo chateada com qualquer coisa ou com alguém que lhe toca fundo e que não serei eu!

Pronto! Dança estragada!



O Amor Machuca


O amor machuca, o amor deixa cicatrizes, o amor fere e prejudica
Qualquer coração que não seja resistente ou forte o suficiente
Para aguentar muita dor, aguentar muita dor.
O amor é como uma nuvem, contém muita chuva.


O amor machuca, oh, oh, o amor machuca


Sou jovem, eu sei, mas mesmo assim
Eu sei que uma coisa ou duas, que eu aprendi com você.
Eu realmente aprendi muito, realmente aprendi muito.
O amor é como uma chama: ele te queima quando é ardente.


O amor machuca... Ooh, ooh, o amor machuca.


Alguns tolos pensam em felicidade, suprema alegria, união.
Alguns tolos enganam a si mesmos, eu acho,
Mas eles não estão enganando a mim.
Eu sei que não é verdade, eu sei que não é verdade.
O amor é apenas uma mentira criada para te deixar triste.


O amor machuca... Ooh, ooh, o amor machuca...


Oh, oh, o amor machuca (3x)


Oh, oh

(Love Hurts - Nazareth)

Nazareth - Love Hurts (1975)

Sejamos claros, era um tipo de canção com uma função específica, e essa função não era fazer-nos pensar no sentido da vida.

Mais do que isso: tinha que ser, no mínimo, ligeiramente azeiteiro. Coisas como o I Know It's Over, o Killing Moon ou o Are You Ready To Be Heartbroken não servíam, são demasiado boas. Mas há, evidentemente, casos de fronteira – por exemplo, o Souvenir devia ou não ser admitido a concurso? Inclino-me para o não, embora com dúvidas.

Finalmente, só é um slow a sério uma canção que toda a gente conheça. Nada de faixas escondidas ou de lados-B desconhecidos. Tem que ser como a pasta medicinal Couto e andar na boca de toda a gente. Tem que ser um single, e de sucesso. Daqueles que agora pode passar nos programas da noite da RFM ou no Rádio Clube Português.

Sei que alguns de vós me vão perguntar como é que assim conseguiam esbracejar e atirar com uma perna para cada lado e sobretudo acenar firmemente com a cabeça sem correr o risco de partir a testa ao seu par! Pois bem, não podiam. Tinham que ficar quietinhos e fazer o mínimo de gestos possíveis salvo os necessários para não parecer mal! Isso incluía um ligeiro movimento rotativo de pés e os únicos movimentos mais frequentes eram feitos com suavidade com os dedos, faces, às vezes lábios a roçarem pela cara… enfim, definitivamente a posição de slow para além de ser uma segura fonte de contágio de gripe A é também impossível de adequar à música house. (para saber mais sobre os slows ler no blog a crónica: ‘’Slows e alguns Termos Náuticos’’).

Geralmente ocupava, em conjunto com o meu grupo de amigos, um lugar quase pré-definido junto ao balcão de entrada, diante da primeira pista de dança e junto à porta que dava acesso a um segunda sala e por aí, à segunda pista de dança.

Daí controlávamos todo o ambiente, incluindo quem entrava e as caras novas, e facilitava muito o nosso reabastecimento constante de gin tónicos, sempre Gordon’s!

Existe um grupo no Facebook denominado ‘’Ai o que eu curti na pista de Rock do Green Hill’’, da primeira vez que o vi lembrei-me logo de criar um outro grupo denominado ‘’Ai o que eu curti FORA da pista de Rock do Green Hill’’. Francamente, dançar era (e é!) óptimo, mas perdíamos a nossa vida de adolescente se não saíssemos da pista. Então acham que eu teria estórias para contar se me ficasse pela pista?!

A Green Hill inicialmente não era mais que essa primeira sala com o bar, a pista de dança, tendo a cabine em frente junto a uma outra sala de piso um pouco mais elevado tanto uma como outra sala tinham umas balaustradas divisórias para a pista de dança.

Só mais tarde sofreu as pequenas alterações com a passagem da cabine do Dj para a direita e o aumento para o fundo com a criação das casas de banho, o corredor nas traseiras que dava para a sala lateral, a tal que dava para a segunda pista de dança e para um dos pátios, o segundo a ser construído pois o primeiro foi aberto à esquerda da nova cabine do Dj.

Mais tarde seria construído o primeiro andar com o seu bar com música ao vivo e entrada exterior privativa e daí em diante a Green Hill transfigurou-se em cada ano sendo hoje um espaço completamente diferente, certamente mais adequado às expectativas da nova clientela.



Da pequena discoteca ao amplo e moderno espaço de hoje decorreram três décadas, uma eternidade para muitas discotecas. Viu nascer e morrer muitas discotecas na Foz e na zona Oeste mas manteve-se e hoje continua a ser a referência da Região Oeste.

Mas a apesar de todas as mudanças a Green Hill ainda conserva a patine que lhe é dada pelas nossas recordações.

Momentos inesquecíveis com amigos de sempre e com amigos já desaparecidos que recordo com muita saudade e já começam a ser muitos, demasiados! Quantos morreram a caminho ou no regresso do Green Hill? Quantas notícias trazidas a meio da noite ou apenas na manhã seguinte. Podia escrever aqui uma lista maldita de tantos que se perderam entre as árvores e as curvas da malfadada estrada velha.

Mas prefiro puxar a minha memória para os melhores momentos.

Noites com o Sr. Beja e com a Mena à porta, com o Luis Romão, o Zé Manel, o Tó, o Paulo Toyota a pôr musica, o Carlos no bar, noites de Inverno, Passagens de Ano, festas de Carnaval, do 15 de Agosto, de Aniversário, Festa da Porca e do Parafuso e tantas outras.

Paulo ''Toyota'' Aguiar na Green Hill em 1990
(fotos cedidas por Paulo Aguiar)

Cada remodelação, o novo bar no primeiro andar, com música ao vivo, os terraços exteriores, a segunda pista de dança, tudo acompanhei ao longo dos anos 80 e o Green Hill, o ‘’Granel’’ como lhe chamávamos, testemunhou mais de dez anos da minha vida, do dia da pré-inauguração até um dia em que me senti como um dos anacrónicos clientes que censurava dez anos atrás. Quando me senti demasiado velho para o frequentar entre os miúdos adolescentes que agora enchiam as suas pistas de dança. E que teriam menos dez-doze anos que eu. O bastante!

Não porque não continuasse de gostar de discotecas mas porque me sentia mais enquadrado entre os da minha geração e isso só poderia encontrar então em discotecas de Lisboa.

Momentos únicos, aquelas noites iniciadas em Óbidos, na Cave do Vale, na Biquinha, no Ibn Rex, no Badanaite ou na Foz, no Café Tabaco e mais tarde no Solar da Paz, no Sitio da Várzea, no Sopa Doce, no Let’s ou em outras discotecas de outras localidades e terminadas invariavelmente no pão quente de alguns locais das Caldas ou das Gaeiras ou a tomar um duche rápido e a seguir de imediato para a praia para poder aproveitar ao máximo o Verão, esse mesmo Verão que nos traziam os amigos de sempre e novas caras que se tornaram amigos para toda a vida.

Encontros de Verão que se renovavam de ano a ano e muitos amigos que perdi de vista com o fim das nossas idas ao Green Hill, lembro-me de famílias inteiras de irmãos e irmãs, de grupo enormes de amigos que vinham em excursão, corrijo, em peregrinação ao Green Hill, vindos de Torres Novas, Torres Vedras, Cartaxo e Almeirim, Santarém, Alpiarça, Leiria e Alcobaça, de Lisboa e até de Évora. Recordo-me de todos eles pelos nomes, recordo-me das suas caras e da alegria do reencontro.



Talvez um dia tenha a capacidade de fazer uma festa de reencontro que os atraia a todos, que deixem os filhos com a família, os afazeres profissionais para trás, que deixem as preocupações e a falta de vontade de sair ou de cobrir a distância de lado e respondam ao apelo e que pelo menos, por uma vez, tenhamos de novo uma noite daquelas no Green Hill.





TOP 100 - 1980 BILLBOARD


1. Another One Bites The Dust - Queen
2. Call Me - Blondie
3. Do That To Me One More Time - Captain & Tennille
4. Lady - Kenny Rogers
5. Upside Down - Diana Ross
6. Another Brick In The Wall - Pink Floyd
7. Rock With You - Michael Jackson
8. Woman In Love - Barbra Streisand
9. Crazy Little Thing Called Love - Queen
10. (Just Like) Starting Over - John Lennon
11. Magic - Olivia Newton-John
12. Coming Up (Live At Glasgow) - Paul McCartney & Wings
13. Please Don't Go - KC & The Sunshine Band
14. It's Still Rock And Roll To Me - Billy Joel
15. Funkytown - Lipps, Inc.
16. Little Jeannie - Elton John
17. Ride Like The Wind - Christopher Cross
18. Cruisin' - Smokey Robinson
19. Master Blaster (Jammin') - Stevie Wonder
20. Lost In Love - Air Supply
21. All Out Of Love - Air Supply
22. More Than I Can Say - Leo Sayer
23. The Rose - Bette Midler
24. Working My Way Back To You/Forgive Me Girl - Spinners
25. Coward Of The County - Kenny Rogers
26. Sexy Eyes - Dr. Hook
27. Biggest Part Of Me - Ambrosia
28. Cupid/I've Loved You For A Long Time - Spinners
29. Emotional Rescue - The Rolling Stones
30. Hungry Heart - Bruce Springsteen
31. Steal Away - Robbie Dupree
32. Don't Fall In Love With A Dreamer - Kenny Rogers/Kim Carnes
33. Shining Star - The Manhattans
34. Yes, I'm Ready - Teri DeSario w/ KC
35. He's So Shy - Pointer Sisters
36. Too Hot - Kool & The Gang
37. Drivin' My Life Away - Eddie Rabbitt
38. Sailing - Christopher Cross
39. Hit Me With Your Best Shot - Pat Benatar
40. Cars - Gary Newman
41. This Is It - Kenny Loggins
42. Longer - Dan Fogelberg
43. Take Your Time (Do It Right) - S.O.S. Band
44. You've Lost That Lovin' Feeling - Daryl Hall & John Oates
45. Late In The Evening - Paul Simon
46. Stomp! - The Brothers Johnson
47. Ladies Night - Kool & The Gang
48. Never Knew Love Like This Before - Stephanie Mills
49. More Love - Kim Carnes
50. Desire - Andy Gibb
51. Give Me The Night - George Benson
52. The Wanderer - Donna Summer
53. Fame - Irene Cara
54. Whip It - Devo
55. Against The Wind - Bob Seger
56. With You I'm Born Again - Billy Preston & Syreeta
57. I'm Coming Out - Diana Ross
58. Special Lady - Ray, Goodman & Brown
59. We Don't Talk Anymore - Cliff Richard
60. The Long Run - Eagles
61. I Can't Tell You Why - Eagles
62. Hurt So Bad - Linda Ronstadt
63. Let's Get Serious - Jermaine Jackson
64. How Do I Make You - Linda Ronstadt
65. Daydream Believer - Anne Murray
66. On The Radio - Donna Summer
67. Brass In Pocket (I'm Special) - The Pretenders
68. Into The Night - Benny Mardones
69. Lookin' For Love - Johnny Lee
70. Fire Lake - Bob Seger
71. Real Love - Doobie Brothers
72. I'm Alright - Kenny Loggins
73. Him - Rupert Holmes
74. You May Be Right - Billy Joel
75. Cool Change - Little River Band
76. Dreaming - Cliff Richard
77. She's Out Of My Life - Michael Jackson
78. Better Love Next Time - Dr. Hook
79. Don't Do Me Like That - Tom Petty & The Heartbreakers
80. Jesse - Carly Simon
81. An American Dream - Dirt Band
82. Hot Rod Hearts - Robbie Dupree
83. The Second Time Around - Shalamar
84. Sara - Fleetwood Mac
85. Tired Of Toein' The Line - Rocky Burnette
86. Let Me Love You Tonight - Pure Prairy League
87. Xanadu - Olivia Newton-John
88. Let My Love Open The Door - Pete Townshend
89. One Fine Day - Carole King
90. Off The Wall - Michael Jackson
91. I Wanna Be Your Lover - Prince
92. Romeo's Tune - Steve Forbert
93. Breakdown Dead Ahead - Boz Scaggs
94. Look What You've Done To Me - Boz Scaggs
95. Jane - Jefferson Starship
96. Don't Let Go - Isaac Hayes
97. Pilot Of The Airwaves - Charlie Dore
98. All Over The World - Electric Light Orchestra
99. You'll Accomp'ny Me - Bob Seger
100. Refugee - Tom Petty & The Heartbreakers





Queen - Another One Bites the Dust

Blondie - Call Me

Captain & Tennille - Do That To Me One More Time

Kenny Rogers - Lady

Diana Ross - Upside Down


Pink Floyd - Another Brick in the Wall


Michael Jackson - Rock With You


Barbra Streysand - Woman in Love


Queen - Crazy Little Thing Call Love


John Lennon - (Just Like) Starting Over

domingo, 12 de setembro de 2010

BANANA POWER FENÓMENO DOS ANOS 80


Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook

TEXTO DE APOIO À CRÓNICA : O FIM DA ADOLESCÊNCIA


Discoteca. Frequentada por ministros, diplomatas...


por Rita Roby Gonçalves 07 Fevereiro 2009

Certa noite o então primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, chegou com a namorada, Tita Presas, para mais uma noite de descontracção e muita dança. Ao deparar-se com Manecas Mocelek, um donos da boite, Balsemão disse em tom de brincadeira: " Então Manecas como vai a noite?". O outro retorquiu em tom irónico: " A noite vai bem, não sei é como vai o dia. Você trate do dia que eu trato da noite". A gargalhada foi geral e o episódio ficou para a história do Banana Power conhecido, simplesmente, como Bananas.

Inaugurado a 1 de Junho de 1981, em Alcântara (onde se encontra actualmente a discoteca Twins), o Bananas representou um balão de oxigénio para uma sociedade ávida por descontrair após as tensões do pós 25 de Abril. Verdadeiro fenómeno, desde a primeira noite arrastou multidões de todas as idades que não se importavam de esperar numa fila que se arrastava por 300 metros e chegava ao largo de Alcântara. Hoje, os saudosistas dizem: "nunca mais houve nada assim".

A história do Banana Power tem raízes ainda antes da revolução. No início da década de 70, Manecas Mocelek, Jorge Caiado e Diogo Saraiva e Sousa fundaram a boite Stone's. Mas em 1975, perante ameaças de bomba e outros contratempos próprios desse ano quente, Mocelek fugiu para Angola, depois para o Brasil e acabou a trabalhar como director da discoteca Via Brasil, em Paris, propriedade do seu amigo Gui Casteja. Mais tarde foi convidado para dirigir o famoso Regine's no Rio de Janeiro e em Salvador.


Manecas Mocelek


Preparado para regressar a Portugal, no início dos anos 80, Mocelek desembarcou em Lisboa com muitas ideias inovadoras.

" Ele queria fazer um espaço como tinha visto lá fora: com boite, clube privado e restaurante", contou ao DN Jorge Caiado um dos sócios fundadores do Bananas (os outros eram Hermano Margarido, Miguel Polignac, Luís Nogueira e António Ferreira de Almeida).

A estética de John Travolta, globos de espelhos cintilantes, disco sound e o filme Saturday Night Fever tiveram uma influência determinante na criação do Bananas. Os hits internacionais chegavam aos decks do DJ pela mão do pessoal de bordo da TAP que viajava com uma lista de encomendas musicais pedida expressamente pelos donos da boite.

Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook

Os tempos eram outros e os discos chegavam a Portugal nessa altura com muitos meses ou até anos de atraso em relação ao seu lançamento na maior parte dos outros países da Europa, que então parecia longínqua em tantos aspectos.

"Tínhamos amigos em companhias aéreas a quem pedíamos a lista semanal de hits da revista Billboard. Chegávamos a ter discos que a Valentim de Carvalho só tinha à venda três ou quatro meses depois", contou Jorge Caiado.
Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook


À porta o critério de selecção era muito rígido. Vítor, o porteiro, sabia bem o tipo de clientela que agradava a Manecas Mocelek. "Não havia elitismos. Queríamos era gente gira e divertida. Provavelmente muitas das pessoas que hoje aparecem nas revistas cor-de-rosa não entrariam no Bananas naquela altura", confessou Jorge Caiado.

Oscar e o meu amigo Vitor , os porteiros do Bananas
Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook

Bilhete de 28 de Junho de 1981
Foto de Johnnie Seguro Simões - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook


Na rua lateral à entrada principal, outra porta mais discreta dava acesso a um bar e restaurante, separados do resto da boite por uma divisão em vidro, a que se convencionou chamar "o privado". Era esse o espaço dos amigos dos donos, um lugar exclusivo a que só um grupo reduzido de pessoas tinha acesso.

O ''Privado''
Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook


Para entrar era preciso ter um cartão ou ser convidado por um membro daquele "clube" restrito. Em dois anos, foram distribuídos 600 cartões de acesso ao "privado".

Foto de Carlos Abreu - Grupo de Fans do Banana Power no Facebook



A decadência chegou depois. Três anos e meio após a inauguração, um novo grupo de sócios juntou-se a Manecas Mocelek e a Jorge Caiado.

Entre os novos investidores encontrava-se Tomás Taveira. Com a construção das torres das Amoreiras, o arquitecto estava na berra e tinha conseguido entrar em certos círculos da alta sociedade. Todos juntos à frente dos desígnios do Bananas duraram pouco. Primeiro saíram Manecas Mocelek e Jorge Caiado, depois o escândalo sexual que envolveu o arquitecto e a abertura da discoteca Alcântara-mar a poucos metros de distância encarregaram-se de afastar a clientela e de acabar com a boite mais famosa de Lisboa.

Vitor Paixão, Bininho, Vitor ''Fantástico'' e José Augusto, os Barmen
Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook


Os Vitores no ''Privado''
Foto de Carlos Abreu - Espaço de Fans do Banana Power no Facebook



In Diário de Noticias

domingo, 22 de agosto de 2010

AS MEMÓRIAS GRÁFICAS DA MAIS AMADA GINA






A Revista Gina 
(artigo in Correio da Manhã - 22 de Março de 2009 - Por Maria Ramos Silva)

Texto de apoio à crónica ''Leituras, Texturas e outras Literaturas''


Nos anos 70 e 80 o ioiô e a Spectrum ferviam nas mãos dos adolescentes. A ‘Gina’ também. Entre 74 e 2005, ano em que gemeu de prazer pela última vez, Mário Gomes, das edições Pirâmide, traduziu a revista pornográfica mais popular em Portugal.

Foram 196 números quentes que revolucionaram o País dos brandos costumes. Para eles. E, sim, também para elas!

Mário Gomes nunca foi tão fotografado como para esta história. Mais flashes, 'só no dia do meu casamento', garante, entre risos. A insistência da lente faz sentido, porque as recordações que enchem a cave do prédio na Buraca, onde pouco funcionam as edições Pirâmide, escrevem--se com imagens. Muitas e bem explícitas. 'Ainda hoje, não deve haver um homem ou mulher com mais de vinte anos que não saiba o que é a ‘Gina’'.

O esclarecimento sobre a popular revista pornográfica abona assim tanto entre as senhoras? 'Elas consumiam e muito! Por norma os homens não têm pudor em comprar mas alguns metem entre o jornal. As mulheres compram com uma revista. No Rossio e em Santa Apolónia mantinha contacto com os vendedores. Vendiam-se milhares a senhoras que estavam de passagem.'

Para os desatentos ou fiéis depositários de ignorância crónica, aqui vai a apresentação. A ‘Gina’, de apelido ‘Histórias Sexy Internacionais’, foi instituição da literatura porno, marco da libertação de costumes, ícone de uma geração, manual de iniciação a uma vida nada banal para muito jovem na flor da idade e sucedâneo de aventuras idas para gente entradota, cartilha picante, sempre no fio da navalha entre a mais conspurcada brejeirice e calinadas nos diálogos e uma rebuscada prosa com laivos de erudição. E foi o pavor de todas as Virgínias e Reginas do País, atreitas a associações galhofeiras por parte das línguas mais desabridas.

Trocado por miúdos, ou melhor, por adultos, a ‘Gina’ foi a ‘Anita’ dos crescidos – ou de todos os que cresceram com a sua leitura. A ressalva é que até a viajada ‘Anita’ ficava aquém dos périplos da ‘Gina’. A ‘Gina’, tal como as meninas más, ia para todo o lado.

Faz em Julho três anos que deixou de ser editada. Hoje, é um vestígio retro dos tempos que já lá vão. Um kitsch bibelô ressuscitado, qual sabonete Ach Brito ou pasta medicinal Couto que sobrevive sob a forma de culto.

Provando que há quem duvide com todas as ganas que fechou actividade, de vez em quando, 'homens e mulheres que querem ser ‘intérpretes’ da ‘Gina’ ainda mandam para aqui o curriculum com fotos'. Impossível. Que se saiba, os modelos eram estrangeiros e, como dizem as bocas largas de quem se cruza com um exemplar antigo: 'algumas já são avós e ainda aqui andam nas capas!'

No escritório da Buraca nunca se fizeram castings para actores porno, apesar da estética da ‘menina do calendário’ dominar a decoração.

Mário traduzia os hilariantes recortes literários. Coisa 'corriqueira', desvaloriza, sem empolgamentos. Ao início levava um dia por revista. O irmão criticou a minúcia. Pediu que aliasse o literal com o improviso. E Mário melhorou a média. Cinco a seis horas de trabalho por cada ‘Gina’. 'Em alguns casos era preciso criatividade, quando sobrava espaço depois de traduzido de francês ou do inglês. Lá saía um bocado ordinário, mas é disso que o povinho gosta!'

Povinho que é como quem diz. Democrático como poucos, o sexo convence todos os estratos sociais. E assim a senhora dona ‘Gina’ chegava a todos. Era de todos. E de ninguém. Sacudia-se a água do capote para o primo, o tio ou o vizinho quando a vergonha de a ter entre mãos suplantava o tamanho da colecção. 'Uma das primeiras era uma polícia alemã a multar um gajo num parque de estacionamento. E pronto, lá terminava em amor!' Ai, tanto eufemismo estacionava nesse parque...

A ‘Gina’ veio ao mundo português no ano da liberdade. Entre Setembro e Outubro de 1974 foram publicadas as primeiras quatro revistas. Custava 5% do ordenado mínimo nacional, 30 escudos. Rapidamente, galgou para os 50. 'Começou a ser publicada pela Palinex, editora do meu irmão mais velho, nas Vendas Novas, onde tínhamos as oficinas gráficas'. Acácio Gomes, já falecido, tornava-se o 'pioneiro das revistas porno em Portugal'. Homem de faro apurado, 'fura-vidas que podia ter sido magnata', qual Hugh Heffner lusitano, importou da Alemanha um negócio da China, directamente da feira do livro de Frankfurt. 'A revista alemã tinha o mesmo nome e grafismo. Comprámos os direitos com fotolito e tudo.'

Os números espelham o fervor pela matéria que a ditadura sem libido aplacava. 'Venderam-se uns 150 mil exemplares de cada um dos primeiros quatro números. Foi a primeira revista pornográfica com textos em balão e acho que a única. Os primeiros números foram publicados ao mesmo tempo em Portugal e na Alemanha.'
A pornografia chegava até então às curiosas mãos nacionais de forma relinchante, mas silenciosa - pela porta do cavalo. 'Uma polícia do aeroporto pedia a um piloto para lhe trazer exemplares do Norte da Europa para dar ao namorado. Custava uma fortuna'.

Em 58 nem as anedotas com biquinis venciam a prova da censura.

Mas a fome deu em fartura. 'Tudo o que era erótico ou pornográfico era impossível antes do 25 de Abril. Depois, tornou-se uma debochice autêntica. Havia revistas da ‘Gina’ expostas na rua, em qualquer estação. Passou-se do oito para o oitenta, ou melhor, para o 800!'

As páginas escancaravam-se mais ainda do que a ousadia da rainha dos títulos, que rendeu boa maquia à editora. Mário não consegue precisar o volume de escudos, mas de uma coisa se lembra. 'O meu irmão apetrechou a oficina com máquinas à custa da ‘Gina’ e das outras!' Confirma-se. ‘Gina’ não deixava os créditos por mãos alheias e fazia tudo, até emparelhar com outras publicações da casa, nada obscenas. Menos trabalhar para aquecer. 'Publicámos banda desenhada, do ‘Texas Jack’ ao ‘Homem Aranha’. Fomos os primeiros a publicar comics americanos em Portugal. Fomos pioneiros na fotonovela'. E ainda livros de cowboys e de culinária. Obras infantis e para pintar. Mais tarde, banda desenhada erótica vinda de Itália. O filão era mesmo este.

Um ano e meio depois dessa novidade, de sua graça ‘Gina’, o ‘boom’ dos conteúdos explícitos. 'Chegou a haver uns 10 a 15 títulos mensais'. Como a rival ‘Tânia’. A própria Pirâmide investiu no segmento. Chegou a deter seis títulos com conteúdos semelhantes, da ‘Top Sex’ à ‘Weekend Sexy’. Tanta concorrência resultou madrasta para a infatigável ‘Gina’. A estocada final chegou com o advento da internet, 'e do famoso canal 18'. A pornografia ficou à distância de um excitante clique.

Os iniciais milhares de exemplares vendidos decaíram para 1500 nos últimos anos. O declínio chegou à fase do ‘pacote poupança’ que empurrou a ‘Gina’ para as ruas da amargura. 'Vendiam-se 10 ao preço de cinco. Há muitos coleccionadores que escrevem para cá a pedir números em falta.'

Mário, filho de minhotos, um de cinco irmãos, deitou mãos ao trabalho com apenas 11 anos. Entrou para a editorial Íbis como moço de recados, onde o irmão mais velho era chefe de escritório. Descobriu os primeiros números da norte-americana ‘Hustler’, concorrente da ‘Playboy’ em terras do puritano mais fajuto de todos os tempos: o tio Sam. O mano Constantino também se ligou à área editorial.

Em 1965, Acácio, Rossado Pinto e Alfredo Silva fundavam a Palinex. 'Estive sempre com eles, desde 58, neste ramo'. Em 74, deitavam mãos à ‘Gina’. Em 1980, os irmãos Acácio, Mário e Constantino montavam as Edições Pirâmide e transferiam a matriarca das revistas porno para o Carmo, em Lisboa. Depois, mudaram-se para a cave da Buraca juntamente com outras publicações que celebrizaram a casa, como as revistas de crochet e ponto de cruz, os manuais de tarot ou os cromos de futebol. Menos melindrosas do que a agitadora ‘Gina’. 'O meu irmão foi condenado uma vez a uma multa de 350 contos, o que em 79 era muito. Um padre viu as revistas em Santa Apolónia e fez queixa'. Não é para menos. O hábito, em pele de fetiche, desfilou muitas vezes na ‘Gina’, rivalizando com enfermeiras, hospedeiras e outras.

Em Chelas, onde ainda funciona o armazém da Pirâmide, sobrevivem cerca de 150 mil exemplares da ‘Gina’. As edições mais recentes vêm em invólucro de plástico. Forma inovada, o conteúdo de sempre. 'Em dois anos destruo aquilo tudo. Cada coisa tem a sua época. Ainda cá temos o ponto de cruz e o livro de S. Cipriano. Porque continuam a haver bruxos!' Tendo em conta que também continua a haver sexo, talvez a ‘Gina’ merecesse melhor sorte.

HISTÓRIAS INTERNACIONAIS EM 196 NÚMEROS

Mário Gomes descobriu o primeiro número da revista numa das gavetas do irmão Constantino. Uma ‘Gina’ bem descolorada, 34 anos depois. Não era a primeira edição. Atesta-o o preço de capa, 50 escudos, vinte escudos mais do que a inicial. A procura foi tanta que a inflação não demorou. A ‘Gina’ suspirou pela última vez no n.º 196

'ÉS MUITA LINDA'

Faz em Julho três anos que a ‘Gina’ deixou de ser publicada. Refundidas em alguns quiosques, aqui e ali na internet, nas mãos de alfarrabistas ou de particulares, ainda é possível descobrir exemplares antes de ligar para as edições Pirâmide. O culto sobrevive. A banda ‘The Great Lesbian Show’ veste a camisola da ‘Gina’ - literalmente - em concertos. A publicidade revivalista de trazer por casa não fica por aqui. Os Ena Pá 2000 usaram uma das imagens da célebre revista na capa do álbum ‘És muita linda’. A lenda continua a dar música


Maria Ramos Silva

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A CAÇA AOS GAMBUZINOS

A CAÇA AOS GAMBUZINOS 
 1º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''


1º Texto Complementar à crónica ''Caçada na Mata Real''




GAMBOZINOS


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Os gambozinos são seres imaginários que, segundo a superstição popular, vivem no campo, embora algumas espécies já tenham se adaptado e hoje também se possam encontrar nos recantos sombrios e húmidos dos parques de algumas cidades.

No dicionário, são descritos como uma espécie de pássaros ou peixes, embora haja quem ache que possam ser parecidos com o pirilampo, com o dragão marinho (Phycodurus eques) ou com o ouriço. Há quem ache que são seres da família dos vegetais que vivem debaixo da terra; no começo do século XX houve quem os descrevesse apenas como “pequenos bolbos de uma espécie de lírio” que podem ser comidos. A ideia que se faz destes seres varia conforme a imaginação de cada um.

O glossário escutista define estes seres como um “animal de características especiais, nocturno, e que é muito difícil de caçar. Normalmente caçam-se nos acampamentos.

”A caça aos gambozinos faz-se geralmente de noite, é muito popular em Portugal e em várias regiões da Espanha, como na Galiza, onde a estação de caça está aberta o ano inteiro, e não requer nenhuma licença especial para a prática desta actividade.

A caça ao gambozino não visa a obtenção de alimento mas a conservação de tradições, é por isso considerada um desporto. Tradicionalmente são usados sacos de sarapilheira para os capturar. É tradição organizar caçadas aos gambozinos e convidar pessoas ingénuas para ir junto. Frequentemente são levados nestas caçadas irmãos ou sobrinhos mais novos; é por isso visto como um desporto de família.

A caça aos gambozinos é considerada uma prática ancestral, e, conforme conta Ferraz (1895) no fim do século XIX, quando alguém concordava em ir à caça dos gambozinos “[…] levavão-na uma noite sombria a um sitio escuro e medonho, e collocavão-na com um sacco aberto ao pé de um buraco, como para agarrar nella os gambozinos, que costumavam sahir por alli; e assim deixavam ficar o incauto, ás vezes, até pela manhã indo-se embora, sob qualquer pretexto, a pessoa que o lá levou”.

Em algumas regiões do País a tradição conta também que se deve levar uma lanterna a qual, quando se chega ao lugar desejado, é apagada deixado o ingénuo às escuras e saindo logo de seguida quem para lá o levou.

Para atestar a antiguidade da tradição, Ferraz comenta ainda que “[…] d’este costume se não contão casos modernos, mas antigos, não se apontando mesmo ninguém que se tenha sujeitado a semelhante caçada”.

Embora não haja notícia de alguém que alguma vez tenha visto um gambozino, é "frequente" ouvir um ou outro fanfarrão dizer que já caçou dois ou três gambozinos, só para se vangloriar.

Acredita-se que o canto de algumas espécies de gambozinos têm propriedades especiais, que podem ser identificadas nos seguintes versos de João Monge:


“O teu coração parece

Uma pedra sem destino

Dizem que só amolece

Ao canto de um gambozino”


No Entre-Douro-e-Minho este animal imaginário também é conhecido por Pio-Pardo. No Baixo Alentejo é conhecido por Gramuzilho.

AINDA SE LEMBRAM DO GIGANTE MANJACAZE?

AINDA SE LEMBRAM  DO GIGANTE DE MANJACAZE? 
 2º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA ''CAÇADA NA MATA REAL''

O GIGANTE DE MANJACAZE




Fonte: Blog AQUI TAILÂNDIA


Ainda se lembram do Gigante de Manjacaze?


Era o Gabriel Estevão Mondlane, media 2,45 metros de altura; infelizmente já morreu em 1990, com apenas 45 anos de idade. Resolvi fazer uma pesquisa na Internet e encontrei várias referências, das quais destaco as seguintes:

1 - Vida do Gigante de Manjacaze em livro O poeta e ficcionista português, Manuel da Silva Ramos, lançou em Maputo o livro "Viagem com um Branco no Bolso", um romance sobre a vida do "Gigante de Manjacaze", Gabriel Estevão Mondlane.

A obra apresenta um outro personagem, o anão português, Toninho de Arcozelo, que contracenava com o gigante nos círculos, feiras e praças públicas. No romance, com 574 páginas, o autor faz uma análise crítica à grande exploração a que o "Gigante de Manjacaze", com cerca de 2,5 metros, foi submetido no período colonial por empresários e promotores de espectáculo da época.

O nome do anão Toninho de Arcozelo, o então homem mais curto do mundo, com 75 cm de altura, associa-se a Gabriel Mondlane pelo facto de ambos aparecerem juntos muitas vezes, no mesmo palco, como forma de evidenciar a diferença entre ambos.

O autor do livro nasceu a 13 de Setembro de 1947 na Covilhã, esteve exilado durante 17 anos na França, regressou a Portugal em 1997 e é tido como um escritor polémico e pessimista. (Notícias, 26/01/01)

2 - Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze (Moçambique), foi notícia em Banguecoque em Agosto de 1989

Os jornais e a televisão falaram dele. A sua imagem junto da esposa Maria saiu nas páginas de todos os jornais, editados, na capital tailandesa. Motivo da visita: A inauguração da abertura primeiro supermercado "Makro". Gabriel estava designado como o homem mais alto no mundo no "Livro de Recordes Guinness".

Conhecíamos a história do Gabriel de quando começou a crescer, desmesuradamente, depois de ter dado uma queda, na sua aldeia, em Manjacaze, no sul de Moçambique.Perante tal fenómeno de crescimento o Gabriel, embora o não apoquentem dores, foi internado num hospital de Lourenço Marques (Maputo) para ser observado pelos médicos. De um jovem com altura normal, cresceu, cresceu e foi até à craveira de 2,42. Os médicos (segundo os jornais de Moçambique) nunca explicaram o motivo da razão do Gabriel crescer descomunalmente e o rapaz foi enviado de volta às orígens.

O Gabriel, passava os dias sentado à sombra de um cajueiro, ao redor de sua casa, a sua altura desmedida não lhe dá a oportunidade para se juntar à sua família e trabalhar na "machamba" (pequena propriedade agrícola em Moçambique). Passa a ser um Gabriel amargurado, a maldizer o crescimento e um pesadelo para a família alimentá-lo, que comia por quatro pessoas de média estatura.

Devido à publicidade dada ao caso de sua altura houve alguém se interessou em fazer dinheiro com o tamanho do Gabriel.

Começa, então o drama de um homem alto pelos anos de 1965!

Eu vivia na cidade da Beira na altura e conhecia, pelos jornais, a história do crescimento do Gabriel.

Dois homens, expeditos, residentes na capital de Manica e Sofala andavam por alí a ganhar a vida ao sabor das marés. Todo os peixes que as ondas traziam à costa lhes servia.

Um de nome pomposo o Dr. Rakar, homem para todas ocasiões. Pintor à espátula, advinho com consultório montado e viria a dar aso a confusões e divórcios, entre maridos e mulheres na Beira. Entretanto foi-lhe apontado o "dedo" pelos jornalistas de tentar o aliciamento sexual, durante as consultas, às senhoras que o visitavam para que advinhasse qual era a "dama" que lhes estava a roubar o marido.

Outro de nome Prof. Belito, artista circense, ilusionista que andava por ali a montar a barraca nos arredores da Beira a mostrar, um truque, a cabeça de um preto em cima de uma mesa, que falava e comia bananas. Lá ía governando a vida, muito mal e com os dez tostões do custo dos bilhetes de entrada.

Os dois deslocaram-se a Manjacaze e trazem o Gabriel para a Beira, encomendaram uma "fatiota" por encomenda; uns sapatos para uns pés de 50 centimetros. Adquirem uma aparelhagem sonora de 100 watts cujo som, berrado, chegava a 10 quilómetros de distância. O Gabriel é enfiado numa barraca feita de pano de toldo, em locais da Beira e arredores, há bichas de pessoas para verem de perto o Gabriel.

O negócio foi correndo para o Razak e o Belito. Percorreu numa caixa de camião, aspirando o pó da picada, para outras terras de Moçambique.

Os moçambicanos e os "muzungos" (nome que os nativos davam aos portugueses de pele branca), depois de conhecer o Gabriel ao vivo não o pretendem ver mais.

O negócio começou a não ser rentável para os empresários Razak e o Belito.

Eles eram homens de imaginação e não se deram por vencidos.

Mandar o Gabriel de volta a Manjacaze, com a "fatiota", os sapatos e cotão no bolso em vez de umas notas em dinheiro, não era nada relevante para os seus protectores.

Se o Razak o Belito o pensaram melhor o fizeram!

Porque não ir mostrar o Gabriel de Manjacaze aos angolanos? Claro que sim e a ideia era genial! Fazer ver aos angolanos: Embora vocês tenham "pacaças" no mato, que Moçambique não tem, nós temos o homem mais alto do mundo e a dança do rabo de cadeira a "Marrabenta" !

Ajustam com a TAP, na Beira, o preço e o espaço da cadeira para transportar o Gabriel no "Super Constelation" para Luanda. O Gigante de Manjacaze, aterra na capital angolana, metido num espaço apropriado para a sua medida. Os jornais dão o "lamiré" e começa, como em Moçambique a ser exibido numa barraca.

O negócio foi correndo ao Razak, ao Belito e aos seus agentes.

Bem depois de ser visto e revisto e a figura do gigante deixar de ter interesse foi abandonada em Angola.Passou por lá misérias, os jornais de Moçambique deram conta do estado de vida degradado do Gabriel em Angola e regressa a Moçambique à estaca zero.

Porém, o Gabriel, aquele rapaz humilde já habituado aos ambientes do público, de ser admirado pelas crianças dentro de uma "barraca", começou a sentir-se (apesar de grande) "pequeno" em Manjacaze.

Nova fase de vida principia para o Gabriel, mas agora, com alguma dignidade.

Um empresário, circense, contrata-o e leva-o para Portugal.Corre Portugal de lés-a-lés, acomodado numa caravana (o próprio Gabriel me informou), onde dentro havia qualidade de vida e na hora que lhe estava destinada a exibir-se perante o público.

O "Gigante de Manjacaze" não foi explorado e amealhava uns "dinheiros".

Entre os caminhos "circenses" do Gabriel, uma mulher de 1,54 ( cuja altura dava-lhe pela cintura) de nome Maria, apaixonou-se por um homem de tamanha altura e 150 quilos de peso.

Maria começou acompanhar o marido, gigante, por todo Portugal e teve um filho. Um rapaz "mulato" que teria uns 10 ou 11 anos de quando estiveram em Banguecoque e me mostraram a foto do rapaz.

Maria está ao lado de Gabriel, adquiriram uma cave nos arredores de Lisboa e fazem uma vida de um casal normal.

A altura do Gabriel Monjane chegou ao livro "dos recordes Guiness" e está lançado no mundo como o homem mais alto do globo. Das picadas de Moçambique e de Angola, da tenda de lona o "Gigante de Manjacaze", começa a ser solicitado para publicidade e ser apresentado ao mundo.

Foi por este motivo que a empresa multinacional "Makro" convidou o Gabriel, o inglês Cris Greener, de 2,28 e outros homens, tailandeses (como anões junto do Gabriel e o Cris Green), para estarem, presentes, na abertura da primeira grande superfície na "Cidade dos Anjos".

Milhares de pessoas correram ao parque "Happy Land" para admirarem o "Gigante de Manjacaze", que embora nascido em Moçambique, dizia que era português!

Serviu de interprete entre o Gabriel e os jornalistas, a Esperança Rodrigues (ela e eu somos os portugueses mais antigos residentes na Tailândia), que traduzia as palavras do Gabriel em português para a língua tailandesa.

O Gabriel, meu amigo, partiu de Banguecoque, como um herói.

Passado uns poucos anos, uma delegação, moçambicana, que acompanhou o Primeiro Ministro Mário da Graça Machungo, em visita oficial à Tailândia, depois de lhes falar na história do Gabriel em Banguecoque, de volta recebi a triste notícia: " O Gabriel ao entrar na cave onde residia, escorregou, caiu e morreu". Fiquei triste por eu tinha lidado de perto com o Gabriel em Banguecoque e tínhamos ficado amigos.


O GABRIEL EM BANGUECOQUE

No dia 1 de Agosto de 1989 era um dia igual a muitos outros anteriores. Saí de casa para a Embaixada de Portugal, às seis da manhã, comprei o jornal e fui lê-lo para uma esplanada, junto ao rio Chao Praiá, onde todas as manhãs se sentavam à minha mesa uns "amigos e amigas", cáusticos: o Zebreu, judeu com uma lapidaria de pedras preciosa; o Miko, canadiano e fotógrafo para uma agência de publicidade, a Porno estudante universitária de economia e a Plá, secretária do gerente da Sony (Thailand). Não se discutia futebol, nem política mas "coisas" alegres e antes de começarmos um novo dia de trabalho.

Na primeira página do "Bangkok Post" estava inserida a foto do Gabriel Monjane e hospedado no "Montien Hotel", a uns dois quilómetros onde me quedava. Não fazia a mínima ideia aonde o Gabriel parava se em Moçambique ou noutro país. Ora eu conhecia a história, infeliz, do começo da sua carreira e da tragédia que tinha sido envolvido. Tinham passado (mais ou menos) 11 anos que lhe tinha perdido o rasto de sua vida. Às dez da manhã dei uma "saltada" ao "Hotel Montien" e oferecer-lhe os meus préstimos em Banguecoque. Da recepção do hotel telefonei para o quarto (cinco estrelas) e fui atendido pela D. Maria, sua esposa. Fomos breves na apresentação e subi no elevador.

Naquela manhã eu era para o Gabriel o seu anjo da guarda e comer um pequeno-almoço decente e não as torradas, com manteiga, marmelada e o sumo de laranja. O Gabriel desejava um bom prato de sopa de arroz com uns pedaços de carne e nunca as comidas "hoteleiras" que lhe tinham levado ao quarto. A D. Maria e o Gabriel não falavam, palavra que fosse, da língua inglesa e quando pediam, aos criados, sopa de arroz em português, sorriam-se e voltavam-lhe as costas.

Os pequenos-almoços do Gabriel desde logo ficaram resolvidos e não tardou um criado entrar no quarto puxando um "carrinho" com uma terrina de sopa, bem cheirosa, para um pequeno almoço decente e digno para um homem de 2,42 (dois metros e 42 centímetros).

Todos os dias, ao fim da tarde, durante a permanência do "Gigante de Manjacaze" em Banguecoque estava junto a ele. Sentava-se num banco especial, no "lobby" do hotel, junto ao cartaz que anunciava os eventos de sábado e domingo. O "lobby" do hotel passou a ser um centro de romaria. Os jornais, em língua inglesa e tailandesa, tinham dado cariz à presença do Gabriel em Banguecoque e todos querem apreciar a sua altura e tirar foto com ele. No princípio de uma noite teve duas visitas, especiais, de duas princesas reais: Soamsawali e filha Bajrakitiyabha que lhe foram fazer uma visita, particular, ao "Montien Hotel" cumprimentaram-no e tiraram fotos juntos.

Ofereci uma "boleia", no meu Volvo 244, já um carro bem "coçado", ao Gabriel para lhe mostrar Banguecoque à noite, as luzes de neon e todo aquele movimento nocturno. O carro era espaçoso e estudei a melhor forma de o transportar. Retirei-lhe o assento da frente, o Gabriel sentou-se no banco de trás, dobrou os joelhos e apreciou Banguecoque e não só atravessei a grande ponte, Rei Rama IX, e olhou a cidade lá do alto.Ao Gabriel, meu amigo, desejamos que esteja no céu, porque um homem simples e bom, igual a ele não tem lugar no purgatório, nem no inferno.

O Inferno já o tinha experimentado na vida terrena.

"Kanimambo" Gabriel Monjane



José Martins - 17 de Maio de 2007




O POÇO DA MORTE

O POÇO DA MORTE 
 3º TEXTO COMPLEMENTAR
À CRÓNICA '' CAÇADA NA MATA REAL''




O POÇO DA MORTE

Reportagem do Jornal do Algarve


Adelino Henriques percorre as feiras algarvias com o seu poço da morte


A arte de ganhar a vida a brincar com a morte "Nunca soube o que é o medo", afirma Adelino Henriques, o famoso artista do Poço da Morte. Tem 79 anos, mas a idade não é um impedimento para continuar a fazer aquilo que mais gosta. Apaixonado desde sempre pelo Poço da Morte um "divertimento" que tem tanto de sedutor como de arriscado, em que um pequeno deslize pode ser fatal. Uma "paixão cega" que fez com que este homem passasse a vida a brincar com a morte.

Ana Rosa - 13 de Novembro de 2009


O famoso Poço da Morte, uma das diversões mais antigas do país, anda a percorrer as feiras algarvias. E se o espectáculo já é por si só um verdadeiro "show" de emoções e adrenalina, o que se dirá quando o artista principal tem 79 anos. Adelino Henriques, é a estrela deste espectáculo único que deixa o público com aquele "nervoso miudinho". O J A aproveitou a presença do artista na região e foi conhecer um pouco melhor o "homem sem medo".

Natural de Mangualde, concelho de Viseu, Adelino teve o primeiro contacto com o Poço da Morte aos oito anos, na feira de São Mateus, em Viseu.

"Na altura não fazia bem ideia do que isto era, mas comecei a sonhar todos os dias que era um dos artistas do poço", recorda. Aos 18 anos, numa feira em Aveiro, surgiu-lhe a oportunidade com que tanto sonhara. Começou a andar no Poço da Morte primeiro com uma bicicleta a pedal e logo depois com uma motorizada, aprendendo também a trabalhar na Esfera da Morte. Aqui o espectáculo é feito numa bola redonda feita de ferro.

Aos 40 anos mandou construir o seu próprio poço e, desde aí, este passou a ser o seu ganha-pão, acompanhando-o de norte a sul do país. Passados 40 anos, continua a ganhar a vida com o Poço da Morte.

"Nunca me imaginei a fazer mais nada", frisa.

Para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de assistir ao extraordinário espectáculo, que desafia todas as leis da gravidade, o J A levanta aqui a "pontinha do véu".


O Poço da Morte é uma estrutura feita em madeira com cerca de sete metros de altura. Em redor do poço é montado um estrado, de onde o público poderá assistir ao espectáculo. Os artistas ao volante de uma motorizada movem-se em círculos à volta do poço, a cerca de sete metros do chão.

Não são utilizados capacetes, colchões ou qualquer outra protecção, o que significa que qualquer deslize pode resultar numa queda que pode ser fatal. As motos atingem velocidades de 90 quilómetros por hora.

E como se não bastasse a espectacularidade do momento, os artistas vão ainda mais longe. Sempre com os motores a trabalhar, ousam tirar os braços do guiador e mesmo a tapar os olhos com vendas. O objectivo aqui é impressionar e para isso vale tudo, até brincar com a morte. Actualmente, Adelino e o seu companheiro de cena fazem o espectáculo com uma Suzuki e uma Yamaha.

"Estas são motos vulgares, sem qualquer tipo de apetrecho ou modificação", explica o artista do Poço da Morte. "Apaixonei-me pelo Poço da Morte"


Adelino Henriques contou até há bem pouco tempo com a colaboração de um dos seus netos, que o acompanhava nas destemidas aventuras. Hoje é Carlos Silva, de 30 anos, um "velho" amigo da família que acompanha o experiente artista nas suas actuações.

"As actuações em dupla são ainda mais espectaculares aos olhos do público", diz Adelino.

O artista é actualmente o homem mais idoso do mundo a fazer o Poço da Morte. E apesar da insistência dos quatro filhos, que, preocupados, tentam convencê-lo a mudar de vida, Adelino não se dá por vencido: "Espero continuar a fazer o Poço da Morte enquanto a minha saúde o permitir". Mas o que leva uma pessoa a arriscar assim a vida, perguntam alguns. Pois foi essa a questão que o J A colocou a Adelino Henriques, que respondeu simplesmente:

"Faço isto porque gosto. Apaixonei-me pelo Poço da Morte! Nunca senti medo, não sei o que é o medo. Sinto-me muito bem quando estou lá dentro, gosto de ouvir os aplausos das pessoas", revela.

Apesar de nunca ter "apanhado um grande susto", já deu umas valentes quedas.

"Já fracturei braços e pernas várias vezes. Tenho uma placa de platina na perna. Mas nada de grave!" Ossos do ofício! O artista revelou ainda ao JA factos curiosos, como por exemplo que nunca houve uma companhia de seguros que fizesse um seguro a um artista do Poço da Morte. Créditos à habitação e outros bens também não são permitidos a estes artistas. Vivem no limite, sem qualquer tipo de seguro!

"Já cheguei a entrar dentro do poço agarrado a duas muletas"

Adelino continua com a mesma destreza, apesar dos seus quase oitenta anos. Embora o problema do reumatismo lhe ande a trocar as voltas. "Já cheguei a entrar dentro do poço agarrado a duas muletas. As pessoas pensavam que era maluco", conta, divertido.Contudo, Adelino Henriques sabe que o dia em que terá que abandonar o seu "amado" poço não tarda.

"Gostava muito que isto continuasse. Os meus filhos aprenderam todos a andar no Poço da Morte", mas acabaram por enveredar por outras profissões".

"É uma pena que os jovens de hoje não queiram aprender um ofício. Esta é uma profissão como outra qualquer", diz. Com o senão de que cada dia pode ser o último!

Já houve quatro Poços da Morte em Portugal. O primeiro chegou pelas mãos de uns italianos, que depois o venderam a uns portugueses. O poço de Adelino Henriques é, actualmente, o único Poço da Morte no país, e também o maior poço que alguma vez existiu em Portugal. Apesar de actuar mais frequentemente na zona norte do país, Adelino e o seu poço decidiram descer este ano ao Algarve e já passaram pelas feiras de Olhão, Tavira, Vila Real de Santo António e Silves.