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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

NÃO É PRECISO CORAGEM


Para escrever não é preciso talento
É preciso coragem
Coragem para começar
Coragem para continuar.

Quando falamos de nós e não dos outros
É preciso coragem
Coragem para nos expor
Coragem para partilhar!

Para ser solidário não é preciso talento
É preciso coragem
Coragem para começar
Coragem para continuar

Quando damos algo de nós e não dos outros
É preciso coragem
Coragem para dispor
Coragem para partilhar!

Em ambos os casos
o que é preciso é começar
Depois, continuar

E finalmente veremos que a nossa coragem
Só é mesmo necessária
Se formos os únicos.
Se estivermos sós!



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UMA PEQUENA ARAGEM SOBRE O MAR

CARTA DA AJUDA BERÇO



É TEMPO DE AGIR






UMA PEQUENA ARAGEM SOBRE O MAR

Eu cresci a acreditar que os acasos da vida sempre corrigiriam o que estava errado. Que a pobreza, o abandono, as doenças que via na televisão seriam erradicadas um dia pelo linear da vida.

Acreditava sinceramente que as coisas se modificariam até eu ser grande e que no entretanto a nossa sociedade seria mais justa, mais equitativa e tecnologicamente mais desenvolvida para acabar com todas as incorrecções do mundo.

Ao crescer vi que me enganara e que não será uma força etérea que transformará o mundo mas o nosso esforço.

Compreendi também que se tentarmos abranger o todo, seremos sufocados pela imensidão de problemas… e desanimaremos perante a nossa própria incapacidade de mudar o mundo, pela nossa impotência perante a injustiça.

Gradualmente comecei a compreender que não podemos ter a veleidade de mudar tudo e não podemos corrigir tudo de uma vez.

Mas compreendi também que se focalizarmos o nosso esforço para corrigir algo que esteja ao nosso alcance, algo que seja mensurável e possível de mudar, então teremos a capacidade de fazer a diferença.

Lao Tse, um filósofo chinês, disse um dia que uma grande caminhada começa sempre com um pequeno passo. A muralha da China começou pela primeira pedra e sou daqueles que acreditam que uma ligeira lufada de ar cria uma pequena ondulação na água que acaba por se transformar numa enorme onda.

Nós podemos fazer sempre a diferença se algum dia começarmos!

E nós vamos começar.

Dia 11 de Dezembro, em Óbidos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O SENHOR DO ADEUS

Sim, eu sei que este texto nada tem a ver com a minha, com a nossa adolescência. Mas os valores que hoje professo, os afectos que hoje dispenso, foram-me incutidos pela minha familia e moldados pela minha vivência com os meus amigos. Se hoje sou o que sou, sou-o pelo contacto com os outros. Pelo contacto convosco. Para o bem ou para o mal, eu também sou o que os outros fizeram de mim.



O SENHOR DO ADEUS

Foi com uma grande tristeza que soube à hora de almoço pelas notícias na tv que morreu o Senhor do Adeus.


João Manuel Serra não dirá nada para muitos e no entanto a sua morte recebeu honras de noticiário na tv, jornais e internet, ao nível de uma grande figura da nossa política ou da cultura.


Eu passava por ele umas duas vezes por semana, no Restelo, onde passava uma boa parte do dia, sempre na mesma esquina (o resto do dia passava-a no Saldanha) e durante anos habituei-me ao seu acenar e ao seu enorme sorriso.


Por vezes ao buzinar para o cumprimentar acenava-me de tal forma esfusiante que saltava no passeio. Até parecia que me reconhecia!


Cumprimentei-o sempre, quer fosse sozinho ou acompanhado, em silêncio ou a conversar.


Como a grande maioria dos passantes, eu julgava que o senhor sofria de um qualquer desequilíbrio mental pois passar o dia a acenar aos condutores não é de gente sã!


Hoje, ao ler a noticia da sua morte, soube que afinal João Serra, o Senhor do Adeus, estava perfeitamente lúcido e consciente do que fazia. Dizia ele que se apercebera que o seu comportamento, o acenar para as pessoas, deixavam estas felizes na sua ida para o trabalho.


Foi ainda com alguma resistência que aceitei esta constatação. Afinal quem no seu estado normal passa o dia a acenar e a cumprimentar com um largo sorriso, como de um amigo de largos anos, as pessoas que circulavam nos seus automóveis?!


Meu Deus! Onde foi que eu me transformei? Onde foi que eu perdi a fé na bondade das pessoas? Como podia eu alguma vez pensar que o Senhor do Adeus o fazia por genuína bondade, por vontade de tornar as pessoas um pouco mais felizes?


E no entanto, faz agora sentido que alguém que vivia sozinho e provavelmente com a maioria dos amigos longe ou já falecidos preferisse estar junto dos seus amigos automobilistas, a fazê-los felizes do que a permanecer em casa agarrado a um televisor. Faz todo o sentido optar por ajudar os outros quando se tem algum tempo do que a desperdiçar o tempo a embrutecer defronte do televisor.


João, desculpa eu não ter acreditado.


Daqui te aceno e obrigado por teres tornado os meus dias mais felizes.


Que o teu exemplo floresça em nós e nos torne melhores e mais solidários.




quinta-feira, 1 de julho de 2010

UMA URGÊNCIA



O relógio na parede marca 2h da manhã, quando entra, passo rápido e apressado, olhar em redor como procurando algo.


Fixa o olhar num canto, onde várias pessoas, sós ou a falar, mostram inquietação. Volta novamente a olhar em torno de si, e revela uma expressão de alívio ao fixar o olhar num vidro com uma fila de pessoas a aguardar.

A sua agitação revela uma ansiedade, aliás, comum à maioria das pessoas que permanecem naquele espaço. Indiferentes aos sons, de vozes sussurrantes, vozes alteradas e mesmo agressivas, portas que se abrem e fecham, passos de corrida, gritos, televisões colocadas em diferentes sítios e com diferentes canais sintonizados, choros, ressonares, e uma voz que, de quando em vez, soletra nomes quase indecifráveis no som do altifalante. Na rua ouvem-se vozes, passos, travões, chiar de pneus, diferentes viaturas a circular, portas que batem violentamente, sirenes…

De repente, olha e vê-se frente ao vidro onde alguém vestido de branco lhe pergunta:

- Boa noite. Tem o cartão de saúde? O nome e o motivo por que vem à urgência…

Rapidamente, responde:

- Boa noite. Tenho o cartão. O meu nome é Alzira… e há uma hora que ando de carro a percorrer bombas de gasolina, sempre fechadas, e preciso que me troque dinheiro para tirar um café na máquina!



(post da Cláudia Tonelo  escrito em  5 Junho 2002    22.05h)

 
Rui Veloso no Passeio Dos Alegres do Júlio Isidro Anos 80. - Um Café e Um Bagaço
 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

UM CAMINHO



Era uma vez um miúdo cheio de afectos, de sentimentos, que a dada altura da sua vida deixou de perceber onde os podia encaixar e a viver situações que o fizeram acreditar que tinha de mudar isso dentro de si... Entretanto descobriu que havia umas cenas que lhe "adormeciam" essa sua parte a que já não sabia dar uso... Viveu então o período de crescimento a procurar desesperadamente mostrar o quanto era um durão e um sobrevivente, não precisando de nada do que implicasse outros, pois isso parecia-lhe ser uma demonstração de fraqueza... e metade da sua vida passou assim, evitando viver tudo o que lhe parecesse "perigoso", mas ao mesmo tempo fazendo outras "perigosidades"...
Um dia (e só ele sabe, ou não sabe, porquê) resolveu desafiar os seus medos e enfrentar-se a si e a tudo o que andara a procurar evitar... acreditando finalmente que não tinha nada de errado e "merecia" uma oportunidade de paz com a Vida, de poder ser a pessoa bonita que sempre fora, por trás daquela máscara de durão... que também podia ser amado e amar, fazer os outros felizes e deixar-se ser feliz junto dos outros... sentir que pertencia a algo, amigos, família, namorada... e que outros pertenciam à sua vida... deixar de ser um solitário a explodir de coisas boas para partilhar... Assim começou o seu caminho... Pelos olhos dos que o rodeavam, muito bem e sem razões para se queixar, com tudo o que se pode desejar, etc., etc.... Mas, começou também a descoberta de uma pessoa com quem vivera esses anos todos e que lhe era afinal quase totalmente desconhecida, já que lhe fugira sempre que pudera... ele próprio, com os seus sentimentos!
E descobriu então que a adrenalina pode estar simplesmente no dia-a-dia de se ir aprendendo a viver o melhor que somos capazes, em cada momento... e que só assim se faz caminho... como dizia o poeta "Caminhante não há caminho, o caminho faz-se caminhando"
Começou a observar em seu redor, a ouvir à sua volta, e a olhar-se e ouvir-se a si próprio, e descobriu afinal que isto de vivermos é um caso complicado... mas também muito gostoso!
Percebeu que havia muitas formas de se fazer esse caminho... que cada um fala de uma maneira (e, às vezes, até vive de outra completamente diferente!) e, que à sua volta, enquanto ele estivera a representar o papel de durão outros viveram outras coisas... e que ele não tinha essas vivências para partilhar... como se tivesse um buraco no seu percurso...
Então começou a sentir outros sentimentos, uma angústia de como resolver dentro de si aquele buraco... Se aceitando-se com o seu caminho (se calhar, mesmo perdoando-se pelas escolhas que tinha feito!) e viver a partir daqui em paz consigo...
Se procurar viver o que lhe tinha faltado, embora não consiga descobrir o botão da vida que faz imagem acelerada, para não perder muito tempo.
Descobriu então que isto de termos a responsabilidade da nossa vida é uma tarefa difícil porque depois não podemos responsabilizar os outros pelos momentos menos bons (mais difícil do que decidir se fazemos um piercing!)... Mas que também tem a vantagem de que se a decisão nos faz sentir bem esse sentimento é maior ainda por nos sentirmos responsáveis por ele... e que se nos fizer sentir menos bem podemos sempre vir a aprender para outras ocasiões estarmos mais atentos a nós próprios...
Qual é o fim da história, cada um que imagine o seu... quanto a mim mantenho a certeza que tenho, desde o dia em que o conheci, de que uma pessoa bonita assim é difícil de encontrar, por isso, sejam quais forem os caminhos que vá caminhando irá sempre, em algum momento, cruzar-se com o meu para continuar a ter o privilégio de ver os seus olhos a sorrirem-me...

(post da Cláudia Tonelo, escrito em 19 Fevereiro 2005 02.30h)



Resistência ao Vivo - Nasce Selvagem

quinta-feira, 10 de junho de 2010

OS DIAS E AS NOITES



Todas as histórias começam com era uma vez… mas a vida não era, a vida é, vive-se a cada momento… Com este pensamento ocupava a sua mente enquanto ouvia música e passava por uma cidade que em nada se assemelhava com a memória que insistia em preservar, de umas árvores há muito abatidas pela ganância do cimento. Afinal que personagem representava naquela realidade em que cada dia se sentia mais desajustada? Respostas sabia que não encontrava, e, muito menos, que alguém lhe daria! Conduzia o carro de forma automática, como acontece a quem percorre as mesmas estradas há anos, alheada dos locais por onde passava, que eram simultaneamente os da sua vida e aqueles em que se sentia uma estranha.
O tempo era algo estranho, um conceito tão concreto e ao mesmo tempo tão abstracto. Olhou para o relógio do carro e percebeu que circulava sem destino, simplesmente a poluir o ambiente e a rodar, como se a sua cabeça pudesse rodar com os pneus do carro.
Parou à porta de casa, sem saber porquê, mas provavelmente porque aí parava sempre, ou mesmo porque não havia mais nenhum local para parar. Aquele era o seu espaço, onde, por opção, cada vez permanecia mais tempo sozinha. As pessoas eram o eterno dilema da sua vida, com uma constante relação de atracção e afastamento. Eternamente a fascinariam pelas suas surpresas, pelas suas contradições. Ela própria era um belo exemplo dessa raça humana, que vive uma vida inteira procurando um sentido para a sua existência. E teria de existir um sentido? A vida não existiria simplesmente para ser saboreada, o melhor que cada um consegue em cada momento? Afinal todos corriam atrás da felicidade de forma tão ocupada que os momentos de prazer eram habitualmente vividos de modo angustiado, perdendo o seu prazer, e tornando-se em insatisfação incompreendida… Não tinha o privilégio de ser detentora de uma fé por um ser superior, metafísico, o que acreditava dava conforto à vida, aos vazios que todos sentem em alguns momentos.
Foi a pensar nessa fé que, após longas horas de insónia, acabou por adormecer.
Adormecer e descansar apenas eram sinónimos em algumas noites pontuais, e essa não foi uma delas. Sonhou com o que a atormentava, acordou, o corpo estava cansado, como se não fosse capaz de verdadeiramente repousar.

Quando o telemóvel tocou, para despertar, a sensação era de que sempre estivera desperta. Deixou-se ficar estendida, a pensar o porquê de todo este turbilhão de sentimentos que a invadiam, o porquê de não conseguir dar uma volta por cima e tornar-se numa outra pessoa, embora não soubesse bem em quem, ou em quê, concretamente. Só identificava o mau estar, sem encontrar soluções. Por enquanto procurava ocupar a mente com tarefas práticas, e com música, mas sabia que isso em nada alteraria esta sua dificuldade de viver esta vida que percorria. Era o preço de escolher estar sempre sóbria, pensava por vezes… O desejo de se alhear era cada vez mais constante, mas sabia que esse milagre não existe, por isso era um pensamento como outro qualquer, sem qualquer consequência.
Levantou-se e dirigiu-se para o duche. Muitas vezes o duche significava um desejo de limpeza, como se a pudesse libertar… fazendo-lhe recordar os relatos das pessoas violadas que se esfregam sucessivamente como que desejando que a água lhes retire o que viveram, o que sentiram… mesmo sabendo a impossibilidade de tal acontecer! O desejo de não existir para não sentir, tantas vezes ouvido em relatos de outras vidas… E as vidas que trazia dentro de si eram realmente intermináveis, e difíceis de digerir, eram sofrimentos e pequenas alegrias a que ninguém dera valor.
Saiu do duche e pensou onde estava o seu positivismo que lhe orientava os princípios de vida? Curioso, há muito que tinha uma atitude de vida positiva, mas os seus anos de zanga prevaleciam na imagem de si, nos olhos dos outros a maior parte das vezes via-se a mesma pessoa zangada, e esse retorno incomodava, minava interiormente. Então o que fazer? Nada, era a resposta imediata. Sentia-se como diz o poeta, cansada, cansaço só pelo cansaço…
A sua vida fora essencialmente passada naquela cidade, naquele espaço físico, mas as pessoas sempre tinham entrado e saído, aparecido e desaparecido… permanecendo na sua maioria apenas na sua memória, nas suas recordações, procurando guardar de cada uma os melhores momentos, aquilo em que contribuíram para que se sentisse uma pessoa melhor. E será que se tornava verdadeiramente uma melhor pessoa? Convencia-se que sim, de que isso sucedia com o passar dos anos. Mas, por vezes duvidava, de si, da pessoa que era, do sentido da sua vida. Quem era afinal? Um personagem diferente, consoante os olhos de cada um. Para uns uma estranheza, uma complicação difícil de entender, para outros uma insatisfeita eterna, para outros ainda, a força que em alguns momentos precisavam… e mais uma infinidade de atribuições. E afinal quem se sentia ser? Por vezes não o sabia, e agora era um desses momentos.

Vestiu-se sem qualquer cuidado com as peças de roupa que escolhia. Como era possível sentir tanta capacidade de vida dentro de si, de criar, de fazer, e ao mesmo tempo tanto desejo de desistir, de falta de sentido para o que quer que fosse? Só queria desaparecer por uns tempos e quando voltasse, ser alguém menos complicado. Queria o impossível, e ao pensar nisso, sorriu por entre o choro convulsivo que não parava. Chorar era como despejar a dor. A dor de existir, de sentir, de um vazio que nem ela própria entendia, a dor pela dor. Pelo menos as suas dores de estômago, essas eram físicas, socialmente aceitáveis! Quando pensou isto sentiu o peso da palavra socialmente. O peso de estar inserida nesse social que a maioria das vezes acreditava em pressupostos muito diferentes dos seus. Estranho, porque também ela crescera nesse mesmo social! Em que momento passara a estar à deriva desse rio que todos pressupunham que naturalmente percorresse. Em que momento passara a viver um rafting em quedas de água? Sorria com esta analogia, já que essas adrenalinas nunca foram as suas, era o que se chama uma medrosa sem espírito de aventuras dessas. Aliás, pensou, como é que se pode transmitir uma imagem de controlo de todas as situações, tornar-se incómoda por se transmitir essa forma de estar, e, interiormente se sentir numa tempestade, sem vislumbrar um farol que anuncie um porto de abrigo?!
Enquanto se ocupava com tarefas manuais, procurava perceber o impercebível, porque construíra um personagem fortaleza, frequentemente invasivo da vida dos outros, que o viam cheio de certezas, quando desde sempre se lembrara de si como cheia de dúvidas e de carências, até mesmo aquilo que vulgarmente se chama de lamechas?! Esta dúvida trazia dentro de si desde que percebeu que afastara de si alguém que amava, e acabara sufocado pela sua estranha forma de amar. Depois desse momento muitas vezes julgou ter mudado, a imagem que transmitia aos outros, e a sua estranha forma de amar… e mudara, dentro de si sentia as suas mudanças, mas que na prática se traduziam em formas semelhantes de se dar a sentir aos outros! Que estranho personagem era este, que sem qualquer dúvida transmitia para os outros, e com quem afinal pouco se identificava? De tanto olhar dentro dos outros perdera a possibilidade de olharem dentro de si? Ou de tanto se obrigar a não se revelar aqueles dentro de quem olhava, passara a ter uma barreira para com aqueles que desejava a olhassem e entendessem no seu interior? Tinha a capacidade de atrair as pessoas, e depois de as sufocar, de as afastar. Este era um facto que verificava constantemente.
Parou as suas tarefas, e sentada, a beber um café, pensou na importância da memória e das palavras ditas. Porque teria esta capacidade de memória de elefante, como lhe chamavam frequentemente? E porque não seria capaz de conter as palavras, as frases, mesmo quando antecipadamente pensava que se dissesse determinado comentário iria criar confusão no seu entendimento com os outros? Mais uma vez, pensava no tal do botão do off que também no seu discurso verbal lhe seria útil. E, repentinamente, ocorreu-lhe que o botão do off está dentro de cada um de nós, como diria o Fernão Capelo Gaivota, personagem com que se identificara desde que lera a sua história na adolescência… E, então “voou” por uma série de perguntas que a inquietavam. Porque se havia de repetir o que o bando desde sempre fez? Porque não ir mais além, dentro de nós? E porque se assustava “o bando” por alguém ser diferente? Porque a diferença do que se instituiu ser a norma tanto incomodava “a norma”? Sentia isso no seu trabalho, o seu afastamento por algum tempo, confirmando que tanto havia para se fazer, tinha desafiado o comodismo e o medo instituído. Por vezes, sentia que os outros não entenderam o seu voo de liberdade como exclusivamente um processo seu, mas também como mais uma vez estando a pôr em causa os que sempre falaram e nunca se ausentaram. Sentia isso na sua vida, na forma como geria os seus acontecimentos de vida e nas escolhas que fazia. Porque incomodaria tanto os outros as suas escolhas não corresponderem à desejabilidade do “bando”, quando em nada interferia com as suas vidas? Porque lhe faziam sentir esse incómodo? Não teria o direito de “voar” livremente procurando viver os seus momentos de felicidade? Gostaria de que o incómodo que lhe transmitiam não tivesse a capacidade de a incomodar, de a condicionar.
Com o Fernão Capelo no pensamento, e a consciência do “peso do bando”, nessa noite deitou-se, desejando o impossível, a oportunidade de ser livre, de viver momentos de felicidade, de rir à gargalhada até às lágrimas, de gostar e ser uma pessoa gostada… Dias e noites!

(post da Cláudia Tonelo, escrito em Maio 2005)



Sétima Legião - Por Quem Não Esqueci (ao vivo)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA FOLHA



Uma caneta a tocar o papel, hesitante e pouco firme. A mão, a tremer, pousa a caneta na mesa de madeira e segura o papel por uns instantes... fecha os dedos e, violentamente amarrota o pedaço de papel.

Novamente segura a caneta, mão trémula a escrever numa folha branca, reluzente, aguardando manchas de tinta preta. Inseguras, surgem letras desenhadas, procurando formar palavras... mas as mãos seguram a folha e rasgam-na violentamente. Com menos firmeza a caneta toca numa outra folha branca e preenche-a com letras trémulas... para de seguida pegar fogo e reduzi-la a cinzas.

Após algumas horas, a caneta é fechada com mãos trémulas e guardada num bolso, enquanto o cinzeiro transborda de restos de folhas violentamente destruídas... palavras destruídas.

Levantou-se, afastou a cadeira, e desapareceu calma e serenamente.

Na mesa, numa folha, viam-se as palavras:
amo-te. Até logo, quando nos reencontramos.


(post de Claúdia Tonelo, escrito em 26 Abril 2002 01.30h)

Jorge Palma - Estrela do Mar

sábado, 5 de junho de 2010

UM RELÓGIO




Medir o tempo é um exercício de exactidão aparentemente simples e óbvio.
O tempo suscita os mais diversos sentimentos, prolonga-os, acelera-os.
Quando se espera, o tempo é longo.
Quando se deseja, o tempo é curto.
Procura-se tempo para tudo, e perde-se tempo com tudo.
Fala-se de tempo, enquanto o tempo decorre.
Agarra-se o tempo, quando se sabe que não pára. Enquanto o tempo decorre pensa-se no tempo, e o momento presente era agora mensmo futuro, e é já passado! Enquanto procuramos preencher o tempo, este já nos preencheu...
Pensava tudo isto no tempo em que terminava a tarefa minuciosa de arranjar aquele relógio que lhe deixaram com um expresso pedido de urgência, por não ter tempo a perder. No final, confirmou peça a peça, ouviu no silêncio o seu trabalhar e, sorrindo de satisfação dirigiu-se de relógio na mão para aquela pessoa ansiosa.
Partiu o relógio violentamente no chão e, perante o olhar surpreso e indignado que o fitava... sorriu, dizendo:
- O tempo afinal, não se mede!

(post da Cláudia Tonelo - texto de 29 Maio 2003)



Paulo de Carvalho - Flor Sem Tempo (Festival RTP 1971)