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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

UM CONTO DE NATAL




UM CONTO DE NATAL

I

Todos nós tivemos um Natal mágico. Um Natal que nos ficou na memória como uma marca indelével do passado.

Para mim foi o Natal de 1968. Nesse ano eu apanhei varicela poucos dias antes e nessa noite fervia em febre para minha grande decepção que esperava por essa noite com enorme expectativa quer pela abertura dos presentes quer pelos momentos de brincadeira com os meus primos.

Tradicionalmente passávamos a Consoada em casa dos meus avós paternos na companhia dos meus tios, primos e tio-avós.

Então a minha mãe embrulhou-me numa manta e levaram-me ao colo para casa dos meus avós a poucas centenas de metros de distância. Tive de passar a noite de Natal deitado num sofá vendo com tristeza e inveja as minhas irmãs e primos nas correrias pela casa.

Pouco antes da meia-noite começaram a distribuição de presentes e com ansiedade aguardámos o momento da entrega dos oferecidos pelos meus avós que eram sempre os melhores.

Naquela altura recebíamos um presente por casa pelo que recebíamos no máximo uns três ou quatro por ano e eu recordo-me de todos os  que recebi dos meus avós em todos os Natais até esse ano de 1968.
 


Os presentes iam sendo entregues e eu e a minha prima Paula constatámos com tristeza que não tínhamos recebido nesse Natal qualquer presente dos meus avós. Contudo, não fizemos nenhum comentário e não nos apercebemos dos sorrisos maliciosos dos adultos.

Pouco depois mandaram-nos sair da sala para cumprir uma qualquer tradição e as luzes apagaram-se por instantes. Nos dias seguintes eu jurava aos meus colegas de jardim-escola que as luzes se tinham apagado apenas por um segundo e na minha memória realmente ainda me parece que foi tudo num ápice. Assim, um segundo depois, as luzes voltaram a acender-se e junto á enorme árvore de natal, sempre a maior e melhor decorada que eu já vi, apareceram duas bicicletas vermelhas de tamanhos diferentes. Eram os nossos presentes!

Naquele Natal tive o presente mais ansiado e aquela bicicleta durou anos.  Quando no Outono de 1973 me mudei para o Burlão a pequena bicicleta ficou para trás, não havia lugar para ela na nova casa e provavelmente os meus pais ofereceram-na a alguma instituição.



Só muitos anos mais tarde senti no rosto de alguém uma felicidade tão plena ao receber um presente como a que eu vivi naquele dia. O presente era tão insignificante perante aquela bicicleta e contudo para quem o recebeu era, naquele Natal, o mais valioso dos tesouros do mundo.

Naquele Natal aprendi duas lições.
Não é o valor das coisas que possuímos que nos dá a felicidade e que existem poucas coisas que nos poderão trazer  tanta alegria como aquela que sentimos perante a felicidade que vimos em alguém a quem damos algo verdadeiramente importante.






II

''Ele acorda momentos antes da chegada do Espírito do Natal Passado, uma criança fantasma com uma cabeça brilhante. O espírito acompanha o rabugento Scrooge numa viagem ao passado. Invisível para aqueles que ele vê, Scrooge revisita os seus dias de escola na infância, o seu aprendizado com um alegre comerciante chamado Fezziwig, e o seu noivado com Belle, uma mulher que deixa Scrooge porque o seu desejo por dinheiro se sobrepõe à sua capacidade de amar. Scrooge, profundamente comovido, derrama lágrimas de arrependimento antes do fantasma o trazer de volta à sua cama. ''

Charles Dickens - A Christmas Carol


II


Foi há mais de trinta anos. Mas eu nunca esqueci!

Eu deveria andar pelos meus 15 ou 16 anos e fazia da Zaira um dos meus pontos de encontro preferidos. De manhã ou à tarde, nos intervalos ou no fim das aulas encontrávamo-nos todos naquele café da praça, que foi o nosso quartel durante quase duas ou três décadas. Para alguns, uma herança vinda dos pais e até dos avós.

Sentávamo-nos geralmente ao fundo, de preferência nas mesas atrás do arco à esquerda, onde conseguíamos ver quem chegava antes mesmo de sermos vistos e onde os que fumavam às escondidas estavam a salvo.

Numa época sem telemóveis nem rede sociais via net, a Zaira, como foi para outros o Convívio, a Taiti, o Central, , o Camaroeiro, a Maratona, o café do Diamantino e da Ema ou o Café Creme no Bairro da Ponte ou durante o dia o Machado ou o Gato Preto, era o porto seguro, onde sabíamos ir encontrar os amigos a determinadas horas.

Era mesmo para quem chegava de fora, a certeza de reencontrar as velhas amizades ou saber de tantas outras.

Não telefonávamos, nem corríamos para um computador, que não existia. Apenas nos metíamos a caminho com a certeza do encontro.

Ali estudávamos, até nos proibirem de o fazer por estarmos a ocupar as mesas sem fazer consumo. (Um palito, um jornal e um copo de água, costumava dizer o João Gancho quando o abordavam). Ali começámos namoros, ali discutimos ideias e soubemos os mexericos. Ali nos ficávamos nas divertidas manhãs de sábado ou nas bucólicas tardes cinzentas de Inverno e dali partíamos nas noites de sexta e sábado em direcção a Óbidos, a S. Martinho ou à Foz, procurando os bares e as discotecas da época.

Eramos um grupo sólido mas muito grande e heterogéneo, era a malta da Zaira! Fieis polidores das paredes da Câmara Municipal fronteira e exímios testadores das suspensões e rigidez dos capots dos veículos estacionados em frente.

Fazíamos piscinas à Praça e à Rua das Montras e sortidas aos bilhares do Camaroeiro mas à hora de partida regressávamos à base, como os pombos do parque voltavam aos telheiros do Liceu.

Teríamos todos entre 14 e 25 anos, depois aparecia já a geração dos pais. Era raro aparecer uma criança sozinha, então à noite eu diria quase impossível.

Não me recordo porém quando apareceu o Zequinha pela primeira vez pela Zaira.

Era um miúdo muito franzino, até demais para a sua idade que era bastante indefinida. Ele nunca nos disse a sua verdadeira idade mas nós calculávamos que o fazia apenas para sua defesa. Não teria mais de 9 ou 10 anos.

O Zequinha chegou e de imediato se tornou a nossa mascote.

Quando perguntava a sua origem contavam-me diferentes histórias e na realidade julgo que ninguém o sabia verdadeiramente ou o procurou saber.

A versão que me foi contada falava-me de uma mãe que morrera e de um pai longe ou incapaz, diziam-me que o Zequinha e os seu irmãos estavam ao cuidado da irmã mais velha, de uns 14 ou 15 anos embora legal e oficialmente aparecesse registada a avó. Não sei se era realmente assim mas a história não poderia ser muito diferente, a avaliar pela forma como aparecia, sozinho, faminto e jovem, muito jovem, demasiado jovem. Uma criança!

O Zequinha para fazer algum dinheiro, com a dignidade que mantinha, e porque não pretendia viver dos bolos e sandes que lhe davam, decidiu arranjar uma caixa de sapatos, frascos de graxa e panos velhos e escovas e pedia-nos que o deixássemos engraxar os sapatos, como era habitual naquele tempo, existindo mesmo um pequeno batalhão de engraxadores do outro lado da praça.

E nós, entre a vergonha de o pôr nessa tarefa e a vontade de o ajudar, acedíamos a esse desejo, fazendo com isso o seu ganha-pão.



Muitos, na inconsciência da sua juventude, pregavam-lhe partidas, não lhe pagando os serviços, escondendo-lhe a caixa com as pequenas moedas de trocos e houve alguém, definitivamente mal-intencionado, que lhe roubou os ganhos de um dia.

Nessa noite o Zequinha chorou desalmadamente, chorou como eu nunca o tinha visto chorar!

Chorou não de auto-comiseração mas de raiva perante a vida, de desilusão perante os outros.

Infelizmente, o miúdo começou a aprender depressa e muito cedo que a vida não favorece os melhores nem os mais desprotegidos, a vida é uma lotaria aleatória que podemos forçar em nosso propósito mas no fim é sempre uma questão de sorte ou azar que nos fará feliz ou infeliz. Consigamos atingir ou não os nossos objectivos, existem sempre factores que não dominamos e que em qualquer altura nos podem cair em cima, deitando por terra tudo o que construímos seja material seja espiritualmente.

Logo ali nos juntámos e reunimos alguns cobres para atenuar a infelicidade do rapaz, já nessa altura afirmava que o dinheiro se destinava a ajudar a família, os seus irmãos. E nós não víamos razão para não acreditar!

Levávamos o Zequinha atrás para todo o lado, excepto para a vida nocturna. Lá para as dez da noite recambiávamo-lo para casa, julgo que no bairro dos Arneiros, e só então a sua figura franzina, os seus olhos estrábicos e os seus tiques nervosos, se afastavam de nós, uma caricatura de família e de grupo de amigos que parecíamos personalizar.

Chegou o Natal, talvez de 1980 ou 81. O Zequinha veio ao pé de nós com uma caixa de cartão e um ainda maior empenho em nos engraxar os sapatos.

- Quero comprar um transístor! Não, um rádio daqueles maiores em que eu posso apanhar todas as estações e que funciona a pilhas! – explicou-nos ele.

- E quanto custa isso? – perguntámos.

- Cento e vinte escudos!

- É pá! - disse o José Vargas colocando-lhe a mão ao ombro e fazendo aquele seu habitual sorriso irónico. – Vais ter muito que foçar! A cinco tostões a engraxadela vais ter que alargar o teu metier aos outros cafés se não, não te safas!

Mas o Zé, que atrás daquele ar de gozo permanente tem muito bom coração, começou de imediato a cravar toda a gente para ajudar o Zéquinha.

O miúdo, mesmo assim teve de trabalhar no duro mas todos os dias chegava ao pé de nós, com as suas contas e sentia-se feliz, cada vez mais perto do objectivo. Um sorriso de esperança invadia-lhe agora o rosto!

Era Natal! Era isto que era suposto acontecer!

Grão a grão, sapato a sapato, o Zéquinha foi angariando as moedas necessárias para comprar o seu rádio. Muitos ajudavam-no dando-lhe uma gorjeta. Muitos gozavam-no, escondiam-lhe a caixa, pediam-lhe dinheiro emprestado para o café, dinheiro que não devolviam. Mas apesar da falta de generosidade de muitos, do sarcasmo de outros, dos adultos que o mandavam para casa e para a escola mas que o não ajudavam, apesar de todas as dificuldades, um dia foi Natal para o Zéquinha!

Um dia, a criança chegou ao pé de nós ostentando triunfante o seu rádio Phillips. Conseguira!

A sua perseverança dera resultado! O Zéquinha conseguira engraxar dezenas de sapatos, conseguira resistir a todas as provocações e rejeições. A todo o desprezo e escárnio, e ultrapassara a adversidade!



Quando olho para trás agora, e vejo a idade que ele teria, imagino o meu filho Francisco que tem agora 10 anos. E imagino-o naquela situação, rondando os cafés e pedindo o favor de engraxar os sapatos, o favor de se ajoelhar perante os afortunados com dinheiro para cafés, cigarros, bolos e pastilhas e é difícil evitar que as lágrimas me caiam, é difícil evitar a pena, a raiva de toda aquela situação!

É difícil evitar pensar que deveríamos todos ter feito alguma coisa naquela altura. Eu teria a obrigação de saber mais sobre o Zéquinha, de saber o que necessitava, onde morava e o que poderia fazer para que o Zéquinha tivesse uma infância menos infeliz, mais próxima do que era suposto uma criança ter.

Todos esperámos que os outros o fizessem, que entidades assumissem o seu dever, que uma qualquer força etérea viesse em seu auxílio.

Deveria ter agido! E não fiz! Não o fizemos todos!

Um ano depois eu fui para Lisboa.

Fui vendo o Zéquinha mais espaçadamente e notei alguma degradação física. Disseram-me que tinha começado a andar com más companhias e andava a cheirar cola. Eu vira na Tv algo sobre o assunto referente aos moleques de rua no Brasil e pensava que era um fenómeno muito localizado. Estava completamente a leste do assunto e pensei que era uma fase. Que mais tarde ou mais cedo, o Zéquinha entraria no caminho correcto.

No caminho correcto! É tão bom quando nos confortamos com um bom pensamento e com um laivo de esperança e nos alheamos dos problemas. É tão bom quando podemos seguir em frente e deixar as incorrecções do mundo para com Deus ou outros. É tão bom poder dormir sem escrúpulos, sabendo que fizemos a nossa parte que é não fazer mal aos outros e tratar toda a gente com respeito, que é não roubar, nem ser desleal, que nem conseguimos ver a verdadeira realidade.

E escudamo-nos em frases feitas e ideias pré-concebidas, em exemplos raros de sucesso sem atender às estatísticas, à realidade da vida. A vida verdadeira, não a vida dos filmes e novelas em que os maus são maus e os bons são bons e que os maus pagam sempre e que os bons são sempre compensados.

A vida é cinzenta, todos somos santos e pecadores e quem diz que o sol quando nasce é para todos então deveria de ver o negrume de muitos dias em que o sol não nasceu e em que muitos ficaram à espera!

O Zéquinha conheceu um dia o Natal mas ele nunca mais voltou.

Imagino o meu filho sem ajuda, numa família desestruturada, sem dinheiro nem para tomar o pequeno-almoço numa altura em que as escolas ainda não tinham programas de apoio, sem dinheiro para livros nem exemplos em casa. Sem ajuda nos estudos nem um adulto que o aconselhasse, o rectificasse, lhe puxasse as orelhas ou lhe desse um beijo.

Sem um estímulo, um incentivo, um afecto!

Canso-me de ver expostos os exemplos dos que subiram a pulso na vida. São exemplares mas estudando a fundo cada situação verifica-se sempre que houve em determinada altura um apoio, um golpe de sorte, algo que os impulsionou. Mas canso-me sobretudo de tomarem a árvore pela floresta, de pensar que o Zéquinha teria sempre a obrigação de evitar as ameaças da vida, de evitar as tentações, de evitar os maus exemplos que lhe eram dados pelos únicos que o acompanhavam.

Uma criança sem afectos, sem apoio, sem dinheiro, sem educação, sem nada!

É tão fácil nesta situação tomar o caminho mais fácil, por vezes o que parece ser o mais feliz, o caminho da alienação, da alheação da realidade, o caminho dos sonhos! Do já não quero saber!

Hoje encontro o Zéquinha com mais frequência. Ele não me reconhece ou parece não me reconhecer, mesmo quando lhe sorrio.

Os outros parecem condená-lo. Parecem culpabilizá-lo pelo caminho que tomou como se ele tivesse tido opções. Muitos estarão dispostos a refutar a minha opinião, contestando-me com a verdade dos exemplos, os tais exemplos que são uma gota de água no oceano. Mesmo quem passou pela negritude dos dias me dirá que há sempre opção.

Talvez haja. Agora! Não naqueles dias de infância perdida, não naqueles dias de dez ou doze ou catorze anos de idade em que a experiência de vida era nula e quando a vida nos parece um longo caminho de penitência até ao dia de partir.

Talvez agora haja opções. Se o Zéquinha ainda tiver forças para lutar e vontade de recomeçar e se sobretudo lhe dermos essas opções.

Opções que não lhe foram dadas quando foi preciso.

E talvez, talvez, possa haver um outro Natal para o Zéquinha. Tão feliz como aquele de há trinta e tal anos!




O Zéquinha é um nome fictício, vocês sabem. A dignidade humana deverá ser sempre preservada a todo o custo. Todos temos o direito ao bom nome e ninguém, no que respeita à dignidade humana, tem um valor menor perante a sociedade enquanto merecer viver nessa mesma sociedade.


Band Aid - Do They Know It's Christmas - 1984

Feliz Natal para todos e não se esqueçam de apoiar a Oeste Solidário e a Operação Gorro Verde. Para que não hajam mais Zéquinhas!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

HISTÓRIA DO LADO OESTE



As rivalidades entre grupos de jovens que referi na crónica ‘’A Manjedoura’’ tiveram origem muitas décadas atrás.
Inicialmente nos anos 40 e 50 essa rivalidade foi criada entre os jovens que cessavam a sua actividade estudantil após a quarta classe e ingressavam logo após na vida activa (recordo que não havia legislação que impedisse o trabalho antes dos 16 anos) e os estudantes que ingressavam na Escola Industrial e Comercial para os cursos técnicos.
Mesmo dentro da Escola fazia-se sentir a rivalidade entre os alunos ‘’limpinhos’’ da área comercial e os alunos ‘’cheios de óleo’’ da área industrial, cada um com as suas batas características e adequadas aos seus estudos.
Com a necessidade de ser criada uma escola que permitisse aos alunos o grau de preparação para ingressarem no ensino superior e na ausência de um liceu, foram criados vários colégios privados sendo o mais famoso e perene o Externato Ramalho Ortigão que conheceu várias localizações.
A rivalidade dos alunos da Escola Industrial e Comercial transferiu-se então para os alunos do Ramalho Ortigão.
Surgiram entretanto alguns factores exógenos a manter essa rivalidade. Os alunos da Escola Industrial e Comercial pretendiam efectuar cursos técnicos que lhes dariam acesso imediato à actividade profissional, os alunos do colégio seguiam um grau de ensino intermédio que lhes daria acesso ao ensino superior, às licenciaturas.
Existe pois um factor social e económico a condicionar a escolha do tipo de ensino. Os alunos oriundos das famílias mais pobres eram condicionados a tirar um curso rápido que lhes daria acesso à actividade profissional a curto prazo e não tinham recursos para poder ir para as grandes cidades e manter-se aí na condição de estudantes. Com algumas excepções, os estudantes oriundos das famílias mais abastadas iam para o colégio e os das famílias com menos recursos iam para a escola.
Entretanto e em termos demográficos verifica-se que a expansão das Caldas faz-se para Oeste com a criação do Bairro do Além da Ponte e mais tarde do Bairro dos Arneiros, povoados sobretudo pelas classe operárias; e para Este, na Encosta do Sol, que será habitada sobretudo por pequenos empresários e profissionais liberais. A própria tipologia das casas assim o demonstra.
A estratificação social vincada dos anos 40 a 70 condiciona as relações entre alunos e os próprios namoros de casais oriundos de escolas diferentes não são vistos com bons olhos!
Em meados dos anos setenta surge o Liceu e por via disso é extinto o Colégio. A população tinha agora acesso ao ensino intermédio oficial e estatal de carácter gratuito.
E a rivalidade entre escolas transfere-se agora para o Liceu.
A rivalidade entre alunos das áreas industriais e comerciais da Escola começa a diluir-se na partilha de uma identidade comum e essa rivalidade é apontada exclusivamente ao Liceu.
Quem ainda viveu esses tempos dos anos 70 em que a ida a um dos convívios organizados pela escola rival gerava algumas ‘’susceptibilidades’’ que eram agravadas quando nos metíamos com alunas da outra escola, sabe do que eu estou a falar!
E nem vale a pena esconder muito o sol com a peneira, as clivagens no período do pós-25 de Abril aumentaram com as opções de ordem política.
A própria Praça da Fruta era um micro-cosmos que reflectia a realidade caldense da altura. Se os jovens dos anos 60 agora repartiam-se entre os Cafés Central (os ‘’intelectualoides de esquerda’’!) e a Zaira (o ‘’ninho das víboras’’ e os ‘’fascistas’’!), os dos anos 70 mantinham a sua divisão entre a Zaira e o Convivio. Neste ponto apenas o Camaroeiro Real (os rapazes) e a Machado (as raparigas) os unia!
Entretanto, mesmo no interior do Liceu e com a criação do ensino unificado começam a ser criadas facções, agora já não pela tipologia do curso mas pela área de residência.
A democracia, a melhoria das condições económicas e sociais, a diluição progressiva da estratificação social, permitiu que os alunos oriundos das famílias menos abastadas e residentes nas áreas da zona oeste, acedessem também ao Liceu e com isso trouxessem a rivalidade – baseada sobretudo na sua identidade cultural e até politica – para o interior do próprio Liceu.
Não é uma rivalidade baseada em disputas fisicas ou em actos de segregação total no espaço escolar mas num espirito de grupo, de clã, que os coloca em diferentes lados da barreira na convivência fora dessas portas.
E é nesse momento da história da juventude caldense que se passam os factos relatados na minha crónica ‘’A Manjedoura’’.


Streets Of Fire Theatrical Trailer




Diane Lane - Tonight Is What It Means To Be Young

sábado, 8 de maio de 2010

CRUZANDO OS ANOS EM POUCOS DIAS - DIÁRIO DE UM ESTUDANTE


É Domingo.

Acordo com a rádio e com as vozes do Carlos Cruz e do Rolo Duarte no Pão com Manteiga. Levanto-me para ir para o ténis. Como um pão com Tulicreme e abalo para o parque.
Encontro-me com o Zé Manel Cabaços, o Senra, o Roxo, o Leonel e o Zé Ricardo e jogamos durante duas horas. No outro court estão a jogar o Henrique Mineiro com o José Augusto.
Volto para casa e tomo banho para ir almoçar com os meus pais à Pensão Cristina.

À tarde arranco para o sotão. Chego atrasado e a festa já começou. Cruzo-me nas escadas com a Elza, a Milai, a Ju, a Gracinha, a Lena e a Elsinha Magalhães. A entrar já está a Paula da Malveira e a irmã. Quando entro vejo que temos muita gente de fora. A Guida Sousa, a Isabel de Cascais e uma amiga chamada Bárbara que conquista logo a atenção dos rapazes. Dou um beijo à Susana e uma palmada no Ricardo. Trato-o por Rato e ele manda-me dar uma volta. Chega o Pedro Cardoso com os primos Moreira, o João, o Marco e a Isabel, vem o Peliculas e todos os Calisto incluindo os três Titos, o Xico, o Tony e o João. Vêm depois o João Paulo Ascenço, a Teresa e a Leonor Raposo. Atrás chega o Luis Jardim com a Mana Inês.

Ao fim da tarde tenho que sair antes de todos para ir à missa das seis. Quase que adormeço na homilia do Padre Guerra. À saida vejo a Graça, o Saloio, a Fátima e o Camané. Reencontro o Mário Rui que veio do seminário. Cumprimento o Dr. Fernando Palma que fala com o Dr. José Mota.
– Entã Compadre? – sauda-me este como sempre o faz.
O meu pai conversa em tertúlia no passeio á frente da casa com o Zé Lamy e com o David Duarte Ribeiro e o José Monroy.

À noite fico-me por casa a ver o Colombo.


Segunda-feira.

Saio de casa ao mesmo tempo do Jorge e do Cá-Jó, juntam-se a Paula Melo e a Cristina Caramelo da nossa rua e vamos juntos para o liceu.
Começo bem o dia com a aula de Sociologia do Frederico Costa, o meu professor preferido. Ele chega ao mesmo tempo e já está a estacionar o seu carocha laranja no largo do hospital.
Então? – pergunto-lhe eu – Continua comunista?
Comunista não, UDP! – responde-me ele com um largo sorriso – E tu? Continuas fascista? - Eu devolvo-lhe o sorriso e entramos juntos no liceu enquanto ele me conta como passou a noite a fazer vaporizações para a filha que estava com gripe.
Entro no Liceu ao mesmo tempo que o Manta e a São Teles. O Alexandre e o Pedro Gonçalves cumprimentam-me no hall. De súbito lembro-me que me esqueci de alguns livros na sala da associação. O costume! Viro à direita e subo pelas escadas de pedra cumprimentando a Sara e o Clemente que vêm a descer. Viro à esquerda, passo a correr pela sala dos professores, viro à direita e passo diante do bar onde está a Vanda Nogueira a conversar com a Guida Nascimento e os mais novos, o Mário Filipe, a Nucha e o primo Zé Miguel com a namorada. Digo-lhes adeus e atravesso o hall do 1º andar, felizmente a Teresa Requeijo e a Susana estão na associação. Quando entro a correr para apanhar os livros elas abanam a cabeça sorrindo e num gesto de reprovação. Sou um caso perdido! Desço agora pelas escadas de madeira e cruzo-me com a Rosa e a Paula da Columbeira, corro de novo pelo corredor vira na segunda à esquerda e entro pela última porta à direita. Estou finalmente na sala!
No intervalo grande, passo pelos três Baltasares que estão com o Manel, a Ana Monroy e a Bébé a recordar o fim de semana no Baleal com o Ivo e o Vasconcelos e Sá. A Xinha mostra uma cassete do Jackson Browne que lhe gravara o Jean-Jacques no Verão.
Entro de novo na sala de aulas com o João Buiça, a Manuela, a Anisabel e a Anabela, altas e lindas.

À hora de almoço, a caminho de casa, cruzo-me na rua com uns amigos do meu pai. O Vasconcelos a meter-se com o Juca, o Cap. Pires e o Rogério Matias. Páro para cumprimentá-los.
- Olá Paulo Rogério! – sauda-me o Cap. Pires utilizando o meu segundo nome como só ele o faz.
- Estás bom Tempero!? – cumprimenta-me o Rogério Matias utilizando uma private joke.
Desvio-me na Cova da Onça, cumprimento o funileiro e vou ao Caldinho dar um beijo aos meus avós que chegaram de Lisboa. Dou um beijo à Lila e cumprimento o Rui Aniceto. Os filhos, Rui e Nuno, o Parrila, chegam atrás de mim.
Sigo para casa a reboque do Pedro Miguel do Rosário, da Sandrinha e dos Morgados que fazem o mesmo percurso. Meto-me com o Nuno pelo seu recente namoro com a Vanda.

À tarde volto para o Liceu. Entro no átrio e vejo a minha irmã Teresa a trocar segredos com a João Horta e a Isabel Thiran. Os irmãos Valente passam por mim, também a Sara e o Clemente. A Xinha conversa com a Manuela Ferreira, a Bibú e a Vani e o Pedro Ferreira. A Xana deverá andar por aí com a Cristina Machado, a Alexandra Palma e o Inho.


O Gil passa por mim no corredor e espeta-me um carolo enquanto o Isidro olha-me com cara de gozo. Boa! Esta tarde começa bem. Ao fim do dia passo à biblioteca da Gulbenkian e devolvo o livro que levara para o fim de semana. Saio e cai-me caca de pombo no meu ombro. Merda! Este não é o meu dia! Olho com tristeza para o edificio entaipado da Casa da Cultura recordando os tempos do Casino. Volto ao liceu para me limpar e depois vou com a malta do Bombarral comer umas chamuças á Colher de Pau antes de apanharem o comboio.

Ao jantar juntam-se a Cristina Machado e a Kika Costa, já quase residentes da casa. Depois é hora da telenovela mas eu já estou farto de Gabrielas, Escravas Isauras, Casarões, Dancing Days e Astros. Vou para o meu quarto ler banda desenhada e ouvir o ‘’Quando o telefone toca’’ do Matos Maia. Não sei como esta gente gosta tanto do Tony de Matos! Decido-me pelo Jackson Browne.


Terça-feira.

Acordo com o Diário Rural e o anúncio ao Piquenicão. O Cá-Zé e a Cami descem comigo no elevador e paramos no 1º andar para apanhar o Rui e a Nica.
Paro no Nutripol para comprar pastilhas Pirata e vou com a Kika Gancho até ao liceu. À chegada faço as entregas do dia, devolvo o livro da Christiane F. à Margarida Arroz e um album dos Yes à Teresa Lamy e começo as aulas.

À tarde vou comprar umas sapatilhas John Smith ou All Star à Macadi e converso com a Mizá e com o Graciano. Depois apanho a Cristina Aleixo à saída da Drogaria e vamos juntos para o liceu. Cruzo-me com as quatro da vida airada, a Vanda, a Tita, a Ana e a Paula. À porta do Falcão estão a Cristina e a Rita a falar com a Leonor Vaz Pato e a Orlanda. O dia decorre lentamente até à hora de jantar. O Pedro Furriel dá-me uma boleia de mota até casa.

À noite vou à Zaira e tomo um café na mesa de entrada com a Libânia, a Cristina Romão e a Rosa Amélia. Encontro casualmente a Teresa Fialho do Bombarral e ficamos a falar até serem onze. Passam por mim os três primos Horta, a Cristina Coutinho, o Luis e a Estela. É hora de ir para casa.


É quarta-feira.

Hoje só tenho aulas de manhã. Acordo ao som da rádio como habitualmente. Vou num ápice para o Liceu. No hall cruzo-me com o Dr. Lalanda e a sua mulher Leonor, mais à frente o Prof. Serafim e o Padre Naia. A primeira aula do dia é de História com a Sotora Fernanda Bernardes, segue-se Inglês com o Daniel Filipe e Filosofia com o Prof. Vasco a que carinhosamente tratamos por ‘’abajour’’ devido ao seu excêntrico penteado.
No intervalo grande, subo ao átrio do segundo andar pelas escadas de madeira no fundo do liceu. A meio patamar saem uns miúdos disparados da sala de Trabalhos Oficais e quase caiem pelos degraus. Viro à direita e entro na casinha da Associação. O Paulo, o Anibal e a Susana, o Dadinho e o Brasuca, a Luisa Branco, a Nônô e o João Paulo atropelam-se naquele pequeno espaço tão entretidos estão com o stencil para o jornal.
O hall está uma confusão, com a Margarida Palma e uma colega a jogarem badminton no meio de toda a gente. O Foca, o Zé da Burra e o Cá-Zé, conferenciam a um canto com ar de gozo. A Minô, a Filó e as Ferreira entopem o bar.


A porta da rua está aberta e a Teresa, a Ana Margarida, a Nini Velhinho, o Cabaços, o João Librax, o Artur, o Tó Zé Faustino, a Paula Couto, a Zita, a Ivone Mil-Homens e o Jose Luis do Bombarral, as Carmitas, a Élia com o Paulo Renato e a Paula Ribas entopem a saída. À parte de trás chega o grupo das motos, o Miguel Crespo com a sua mini-Casal, o Zé Vargas e o Bairradas com as suas Casal Trial, o Jorge Magalhães e a Nini Gouveia com as suas Suzuki e Yamaha, o Cavim com a Gilera, o seu irmão Jô com a Nicha atrás, o Pêpê e o Rui Bento do O. A Orlanda, a Paqui e a Cristina chamam pela Nini para irem treinar voley.
Cravo o terceiro cigarro da manhã à Mila Ferreira - hoje vale tudo, é SG Filtro, Ritz ou Português Suave - e subo para a aula de 2 horas de Educação Física. No andar de cima está o grupo do Cadaval, a Paula, o Luis, o João e o Duarte. O João Miguel conversa com a Di.

Hoje estou por minha conta. Saio do liceu e vou comer uma crise ao Tric. Depois de almoço subo ao Camaroeiro Real para ir jogar flippers. São quase três da tarde.


Passo à Taiti e subo ao primeiro andar. Já lá estão todos. Peço ao Sr. Saul um café e um pampilho e cravo um novo cigarro à Anabela Elias e mando uma boca ao Joca e à Paula. Às quatro da tarde rumamos ao Queens para aproveitar a matiné de quarta-feira, único dia em que abre à tarde durante a semana. Nem nós nem os da Escola Comercial têm aulas à quarta à tarde!
Dou um beijo à Paula Lopes e à Cristina que vêm da Académica, os seus grandes olhos sobressaem carregados de rímel e de lápis. Juntamo-nos todos nas traseiras do Montepio antes de entrar.
Grande tarde! A Joana não me ligou nenhuma mas isso também já é habitual! Há mais peixe no mar!
Após o fecho, às sete, vamos um grupo ao beco dos Teixeiras, à fábrica de bolos. A mesa de matraquilhos está ocupada e decidimo-nos por ir à Floresta. Entramos pelo longo corredor. Amofino o papagaio como habitualmente e delicio-me a ver as sandes de salada de polvo e de coentrinhos de orelha de vaca que nunca como! Um grupo de veteranos está a jogar à laranjinha e nós escapulimo-nos para o pomar das traseiras. As mesas estão livres mas cobertas de caca de pombo. As bolas estão todas picadas pelos pássaros e a mesa empenada, mas é o que há!
Às oito regresso finalmente a casa para jantar. Cruzo-me com a Anabela Venâncio que me pergunta pelo Tó-Zé Lemos e pela Paula de Alvorninha do nosso tempo do 7º ano. Trabalhos de casa e passagem rápida pela Zaira. O João e o Romão estão de serviço e eu pago um café que fiquei a dever ao Jorge no dia anterior.

Acabo o dia a ouvir a 24ª Hora na Rádio Comercial. No meu quarto só se ouve Rádio Comercial em FM.


Quinta-feira.

Hoje só tenho aulas mais tarde. De manhã ainda ouço o TNT- Todos no Top (com o patrocínio dos Shampoos Timothey!) com o Jorge Pego e a Manuela Moura Guedes. Passo à MagicSom para ver o que saíu e sigo para o Liceu. Tenho Alemão com a S’tora Alice Grilo, Moral e Religião com o Padre Eduardo e mais uma catrefada de aulas.

No intervalo do almoço venho a casa e passo nas escadas da Traviata para comprar o Falcão e o Mundo de Aventuras. Começo a contar os tostões para ver se ainda dá para ir ao Diário de Noticias comprar o Motor ou o Automundo, a semanada vai acabar-se num ápice.
No intervalo da tarde temos reunião na Associação, estamos a tratar dos contactos com a Touricoop e com a Top Tours para ver quem faz o melhor preço para a excursão, ainda me cruzo pelo caminho com o Albano e a Xana, as minhas irmãs conversam em grupo com a Blica, as Palma, as Vaz Pato e a Isabel Nunes, a Ritinha e a Cláudia.


Ao fim da tarde vou ao Machado comer um russo com uns amigos e as colegas nazarenas, a Teresa, a Maria João e a Luisa. Desafiam-me para ir aos matraquilhos do café ao lado mas prefiro ir jogar bilhar com o João Gancho para a cave do Central. Passo mais tarde pelo Carlos e a Elsa na Duarte Pacheco e entro no Franco para tomar uma imperial com o Quim, o Tó-Zé e o Luis Rebelo ‘’Sancho’’ e vou para casa jantar.

À noite fico a ver Os Anjos de Charlie e a ouvir o Morrison Hotel do Rui Morrison.


Thanks God it’s Friday!

Tenho duas horas de Educação Física sempre a jogar Voley com o Paulo Mateus e o Paulo Jorge, o Pedro Sebastião e o marrão do Alcides. Depois uma sucessão de aulas até ao almoço. O Sr. Hermínio vem-me azucrinar por deixar sempre os livros no liceu. Vou tomar um café ao Gato Preto e sigo para casa na companhia do Joca e do Toni que vão pelo mesmo caminho. Tenho que fazer um TPC. Ligo a Rádio e os meus programas preferidos vão passando com as horas. O Vapor com o José La Féria, a Discoteca com o Adelino Gonçalves e as crónicas de Londres do Corte-Real, o Rock em Stock com o Luis Filipe Barros e a Ana Bola.

É dia de semanada. Vou comer um prego ao Convivio onde encontro a Zé, a Clara e o Paulo Gaspar e vou tomar café à Zaira. Juntamo-nos alguns para ir à Cave do Vale e depois à festa da Azenha.
Vou no Fiat 850 do Norberto com a Maria João e o Sérgio. Desço as escadas e cumprimento o Sr. Montês e a D. Maria pedindo um Toupeiro. Brinco pela milésima vez com a cera das velas e juntam-se ao grupo o Manel Luis, o Manel Zé e o João Manel e ainda a Paulinha, a Rosarinho e a Guida. Um grupo de Óbidos na sala das vergas está particularmente ruidoso, o Paulo Cardoso, o Banana e a Carmita, o José António, o Oscar, a Teresa e a Rosário, o David e a namorada . Chegam depois as Alpoim Calvão. O Octávio eo Zé Mineiro estão na mesa ao lado da minha com duas holandesas. O costume!
Enquanto o grupo com quem fui segue para a Usseira, vou com os Maneis para a Azenha. A nós ainda se juntam o Quim Maria, o Carlos João e o Fernando Berardo. Sou o mais novo do grupo, o que já se torna habitual.
Está o Jorge na entrada. No bar estão hoje o Henrique, o Rui e o Helder. Encontramos um grupo grande de amigos e pedimos Cuba Libre e whiskys. A música é boa mas tive azar de entrar ao som do Voulez-Vous dos Abba. As miúdas adoram e vão para a pista de dança. Fazem muito bem! No piso de baixo só me apanham se for para ir namorar para as mesas debaixo da cabine.
Estão lá o Luis Faria, o Hernani, a Rosa de Portalegre e a prima Guida das Gaeiras.
O Rui aparece com o Paulo e o Pedro Maluco mas vão cedo para outras paragens.
Aparecem milhentas caras conhecidas. Revejo os irmãos ‘’Torralta’’, a Sónia, o Luis e o Paulo Rua que aparecem nessa noite vindos de Lisboa. Vêm também de Lisboa a Gisela e o Teorias. Chega um grande grupo da Foz com o Salomão, o Batata, os Batalha Reis e os Araújo, o Zé, o Fernando e a Marina, os Picaretas, o Cristiano abraçado ao Manel Severino e os Sottomayor com as Hermanas. Chegam os Pessoa de Carvalho com alguns do grupo de forcados, o Hazakis, o Lameiras, o Vasco, o Camané Sequeira e o Luis Valério. Reencontro as manas Vazão, envaideço-me com a Xuxu, minha primeira namorada dos tempos da primária e vejo como a Paula está cada vez mais bonita, a Teresa olha-me com timidez. Mais gente que vem de Lisboa, o grupo da Rua Raul Proença traz o Carlos ‘’Caralhete’’ e mais umas caras desconhecidas. Chegam os do Cartaxo, o Paulo Vieira Dias com a São e a Sameirinho, o Pira e o Miguel, o João Paulo e o Rui Paulo, a Xana e a Bébé Rocha Homem. Chegaram os do Bombarral, os Figueiras com o Titico, de Almeirim veio o Nozes, o Sérgio, o Zé e o Mário Dinis Lucas. Chegaram também os de Torres Vedras com o Zé Manel Bota Fora à cabeça. Que festa!
Passam-se as horas. Muitos começam a partir. Tenho uma porcaria de uma paragem de digestão e começo a ficar enjoado. Ninguém está para me levar a casa e não me apetece regressar sozinho a pé. É o Zé Godinho que me traz na Peugeot mas não sem parar primeiro no Oasis para comer um pão quente, e eu enjoado no carro. Longas são as noites!


Finalmente chega o Sábado, o meu dia preferido.

Começo com um pequeno-almoço de duas vianinhas quentes e uma arrufada dos Teixeira. Na rádio passa a Grafonola Ideal com o Júlio Isidro. Vou à Goia para comprar uns jeans e sigo para a Zaira. Tenho de dar um beijo a centena e meia de amigas da minha mãe e da minha avó, opto por uma cumprimento rápido e apenas beijo a D. Leonarda, a minha avó, a Maria da Natividade, a Cristina e a Maria Helena Jales que estão na primeira mesa. A outras que se considerem cumprimentadas. Fujo para a mesa dos meus amigos, como habitualmente ao fundo da sala, à esquerda por trás do arco.


Damos umas passas meio às escondidas enquanto tomamos o café. Os meus pais hoje vão almoçar uma caldeirada com as minhas irmãs ao Félix mas nem a ideia de comer a Montanha Russa me seduz. Decidimos ir depois de almoço a S. Martinho, ao Feelings. Mas antes ainda vou jogar uma hora de ténis com o Diogo e o Kiko que chegaram de Lisboa.

Tomamos café no Pão de Ló de Alfeizerão e eu ironizo com algumas das músicas da Juke Box (Adamo, Silvie Vartan, James Last, Claude François, Sérgio e Madi, Duo Ouro Negro,…). Passamos à Viamar mas está fechada aos sábados e seguimos para S. Martinho.
Quando descemos à cave já os acordes do Born To Be Alive se fazem ouvir. A malta que tem casa de férias em S. Martinho, os Palma, os Gomes, as Gama, já lá está toda e acabamos por formar um grupo de trinta. Terminamos a comer pastéis de nata junto aos Bombeiros.

Nova noite, nova corrida. Hoje o programa inclui chouriço assado na Biquinha e depois Ferro Velho.
Sr. Zé diga aos Morenos para irem abrindo a porta que estamos para chegar!


A todos os que viveram comigo a adolescência
A todos os amigos
A todos os que já partiram mas que ainda vivem
Em mim!





Terry Jacks - Seasons in the sun 1974