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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DIAS DA FOZ


O meu pai estacionou o Peugeot 403 no parque do Hotel do Facho à falta de espaço no aterro de areia que ficava diante do largo onde terminava a estrada.

Fui com ele enquanto ia tomar café ao bar do hotel. Entrámos pela porta principal, à direita o balcão de atendimento e atrás de si, pregadas na parede as fotos a preto e branco do Hotel da Urjeiriça.

Seguímos em frente pelo hall e depois virámos à esquerda no corredor, entrando na porta à esquerda. O bar fascinava-me com todos aqueles copos de dezenas de formatos pendurados sobre o balcão. Adorava o mobiliário e os quadros da parede que me levavam pelos mares, para longe dali.



O meu pai deixava-me ir à tarde ao bar pedir um ginger ale mas apenas quando não viesse da praia. Teria que vir vestido!

Enquanto o meu pai tomava café, entrou um velho e conhecido casal de ingleses e a sua implicante, loira e gorda filha, a Debbie. Já sabia que estavam por perto. Era Agosto e o seu Triumph Herald azul descapotável com a grelha para as malas sobre o porta-bagagem estava estacionado no exterior.


Furtei-me ao cumprimento com a loura gaiteira. Infelizmente o pai da Debbie padece de uma doença grave na laringe e está com uma voz muito rouca.

Saí então para a sala de jantar que estava já a ser posta para eventuais almoços. Um dia vim aqui jantar a convite de amigos de Évora que conhecera na praia e fiquei deslumbrado pelo facto de servirem dois pratos às refeições, um de peixe e outro de carne!

Cá fora no terraço olhei invejoso para a casa dos senhores Stoop que se debruçava sobre a praia. Esperei impaciente pelo meu pai para poder ir para a praia onde já avistava os meus amigos.


O mar convidava, azul e manso. Estava maré baixa e podia-se ir tranquilamente às rochas para tentar apanhar polvos ou mexilhão ou então, construir castelos na areia mesmo junto à àgua que varria a praia em pequenas ondinhas.

Estávamos no inicio dos anos 70!

Descemos então as escadas de madeira ao lado do ‘’Mar à Vista’’ e o meu pai foi ter com a mulher do José Luis, o banheiro, para lhe pedir da arrecadação de madeira o saco de pano que guardava os nossos baldes, pás, ancinhos e boias.

- Não se esqueça de guardar quatro bancos de madeira e dois estrados extra pois o meu sogro vem almoçar à praia. – recomendou-lhe o meu pai.

- Fique descansado – disse a senhora – dois bancos já lá estão, depois mando o meu filho entregar o resto aí sendo meio-dia!

Dirigimo-nos então para a nossa barraca. A minha mãe tinha vindo à frente com as minhas irmãs e esperou-me para me untar por completo de creme Nívea. Fiquei todo branco!


- Queres vir à praia das rochas ou tomar banho à lagoa, perguntaram-me uns amigos que se preparavam para a partida para o banho com os seus pais.

- Não, obrigado. Vou tomar banho com o meu pai. Vai ensinar-me a fazer carreirinhas!


À beira-mar o meu pai encontra logo velhos amigos. O Fernando Baptista mete-se comigo.

- Então Paulo Rogério, já não tens ‘’mê’’?! – pergunta-me ele sorrindo. Num Verão anterior quis levar-me para a água mas eu recusei e aparentemente dizia:

- Tenho mê, tenho mê! - Como quem diz ‘’tenho medo!’’.

Depois do banho venho secar-me para a barraca. Chega a senhora dos bolos, vestida de branco e dedos calejados pela agricultura de inverno. Fico indeciso entre um pacote transparente de batatas fritas caseiras e um dos bolos. Escolho uma bola-de-berlim com creme. Só mesmo na praia têm aquele sabor!


Vamos depois todos em grupo até à lagoa, na zona da aberta. Os rapazes com as barbatanas e os óculos de borracha azuis ou pretos, as raparigas de toalha e de toucas.

Nas águas tranquilas da lagoa, os miúdos brincam aos cachos sobre velhas câmaras de ar de pneus de camião, as meninas preferem sentir os embalos da pequena ondulação deitadas em pequenos colchões insufláveis.
O banho dura horas para podermos aproveitar bem a ida à lagoa. Nunca sabemos se voltaremos mais uma vez nesse dia.

Depois desafiam-me para jogar ao prego que eu ainda mal aprendi, farpa, palmas, costas, murro, garfo, sino, flechas, depois os martelinhos!

As minhas irmãs jogam ao ringue junto às barracas. Está uma manhã serena e quase sem vento. Um dia perfeito de Verão, aqueles dias únicos e raros que transformam a Foz na melhor praia para todos nós, isso e o reencontro anual com os amigos.


Enquanto jogo olho à distância a fachada branca imponente do Palacete dos Viscondes de Sacavém que nós alugávamos ao ano e onde passávamos todo o Verão e a maioria dos fins de semana do ano.

A imagem trouxe-me de volta às recordações de um Verão anterior, o de 1970.

Passava as manhãs a brincar às touradas com os amigos. As tábuas que serviam de tampos de mesa nas barracas, na época em que se levava tupperwares para a praia com comida quente e se almoçava quase como em casa, eram enterrados ao alto na areia utilizados como burladeros e com as toalhas toureávamos os ‘’touros’’ e fazíamos pegas de caras e de cernelha. Os mais fortes ou robustos faziam de touro ou de rabejadores e os mais leves de toureiros ou de forcados.

Nas pausas íamos apanhar as caricas que atiravam para o areal debaixo do ‘’Tábuas’’. Este era o nome porque era conhecido o restaurante Mar à Vista por ser construído em madeira, com tábuas pintadas de azul. Por causa da eventualidade das marés vivas, o restaurante fora construído sobre estacas e existia um enorme espaço vazio sob a casa que servia para guardar as grades de refrigerantes e cervejas e as botijas de gás. Nesse areal, húmido e sem sol, juntavam-se centenas de caricas que colectávamos para as nossas colecções. Depois, desenhávamos circuitos automobilísticos no areal entre as barracas e fazíamos corridas de caricas nomeando-as com os nome dos nossos pilotos preferidos. Jackie Stewart, Jochen Rindt, Jean-Pierre Beltoise, Jacky Ickx, Pedro Rodriguez, Graham Hill.


Quando conseguíamos dos nossos pais íamos ao Tábuas beber gasosas e laranjadas da Rical e comer caranguejos enquanto nos divertíamos com os esguichos de água que saíam das amêijoas e berbigões expostos em tabuleiros de plástico branco sobre o balcão de entrada.

Éramos corridos das casas de banho ou ao pedir um copo de água sem fazer despesa mas isso já fazia parte da tradição de cada Verão.

Pelas tardes jogávamos ao ringue ou ao mata, jogávamos ao prego ou ao galo com pedrinhas brancas e pretas e fazíamos castelos na areia. Alguns de nós tinham uns aviões de plástico que se compravam na Tália e que eram constituídos por um corpo em forma de fuso amarelo, duas asas presas com arame em plástico azul e que zumbiam com a força do vento. Estes aviões eram presos por um fio de nylon enrolado a um carreto verde e fazíamos acrobacias aéreas e voos rasantes sobre os cabelos das nossas amigas.

Num dia de manhã segui como habitualmente com o meu pai até ao Hotel do Facho onde o esperava um amigo dos tempos do Colégio Moderno, abraçaram-se no reencontro e o meu pai apresentou-me ao seu amigo. A única coisa que fui capaz de dizer foi:

- Ó pai, o teu amigo tem um dente partido!

O meu pai nem soube onde se meter, naquele tempo uma criança não deveria ter estas tiradas, era considerado uma grande falta de educação e afinal, a responsabilidade dessa falha era dos pais!

O meu pai embaraçado pediu desculpa ao amigo e deu-me um sermão dos antigos. O amigo realmente tinha uma pequenina falha num dos incisivos e de cada vez que o voltei a reencontrar nos anos seguintes ele lembrar-me ia dessa história. O seu nome? David Mourão Ferreira.

Nesse Verão, a Foz recebera como habitualmente a visita de muitos amigos do meu pai, sobretudo militares em comissão em África que vinham de férias e ficavam alojados na FNAT. Traziam consigo a reboque nos seus pequenos minis, Fiat 850 e Renault 8, vistosos barcos desportivos em madeira com volante e motor fora de borda. Passavam tardes a competir entre si ou a particar ski.


Nesse Verão a minha mãe deu a festa dos seus 30 anos na casa que alugávamos para férias, o Palacete dos Viscondes de Sacavém e recordo-me de todos os seus amigos de África a chegar a casa. Esta tinha dois pisos e no rés-do-chão as várias salas distribuíam-se em redor de um átrio central. No primeiro piso, o dos quartos, havia uma enorme abertura protegida por uma balaustrada que dava para esse átrio central. Fomos mandados para a cama cedo e lembro-me de estar em pijama, sentado no chão e a cabeça entre os pilares em madeira torneada, olhando para baixo e admirando as pessoas que chegavam e o clima de festa.

Num desses dias os meus pais levaram-me a almoçar ao Félix, o mais afamado restaurante da Foz embora no Verão sofresse também a concorrência do Vasques que ficava onde hoje é o Cais da Praia e do Solar da Paz onde se comia um fantástico ensopado de enguias no Verão e um belíssimo Cozido à Portuguesa no Inverno.

A ementa era extensa mas invariavelmente optávamos entre a caldeirada e o ensopado de enguias. Eu pouco apreciava os pratos pois em criança detestava peixe e tudo o que viesse do mar excepto mariscos e moluscos. Do que eu gostava mesmo era do pão frito que acompanhava esses pratos! Praticamente o meu almoço consistia em comer fatias desse pão cobertas de molho da caldeirada ou do ensopado e encostar para as bordas do prato todo o peixe que me serviam com o pretexto de que tinha muitas espinhas. Na realidade todos nós, miúdos, aguardávamos o momento de poder atacar a famosa Montanha Russa, um doce de claras em castelo que vinha com um apetitoso creme de ovos a escorrer.

Assim que tínhamos permissão saímos da mesa e corríamos pelo campo em terra batida até ao cais de madeira para ver os barcos aí atracados.


Ao lado, deitada no areal estava a velha bateira do meu avô paterno, a Albatroz. O meu avô Chico ainda me levou umas noites à pesca do candeio, aos polvos, solhas e linguados. O meu avô morrera no ano anterior e a bateira ali ficara abandonada.

Quando não tínhamos autorização para ir ao cais íamos jogar matraquilhos no telheiro diante da lagoa ou num outro que ficava junto à porta da cozinha, do lado que dava para as bombas de gasolina.

Nessa tarde, o movimento era grande, realizava-se a Rampa da FNAT e eram muitos os carros que se alinhavam na estrada esperando a sua vez de entrar em acção. A rampa tinha poucas centenas de metro e percorria, com cronometragem ao segundo, a ladeira que ía do portão da FNAT até ao seu ponto mais alto. Com o seu espírito desportivo, os amigos do meu pai, decidiram, também eles, participar na competição.

Fernando Santa-Bárbara em Hillman Imp - Rampa FNAT 1970

 

A fila de carros dos participantes era tão grande que se estendia até à casa branca da D. Júlia, a quem a minha mãe comprava sacos de batatas.


O clima era de festa e nessa noite, após o jantar de distribuição de prémios na própria FNAT realizava-se um baile. Nós, os mais pequenos, contudo tivemos como alternativa uma sessão do cinema ao ar livre no baldio que ficava (e fica) diante dos muros da FNAT.


No dia seguinte íamos à missa na pequena capela diante dos Vasques, mesmo ao lado do torreão onde antes fora a casa dos falcoeiros marroquinos que Francisco Grandella mandara construir.

E os dias continuavam, constantes e iguais, vibrantes e imemoráveis até ao fim do Verão.


Em memória do Fernando Baptista e de todos aqueles que me fazem valer a pena recordar a minha infância.

Fernando, o mar já não me mete medo. O meu único medo é perder os amigos como tu.





Natércia Barreto - Óculos de Sol




Ronnie Cord - Biquini às Bolinhas Amarelas


Gino Paoli - Sapore di Sale

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A CAMINHO DA ADOLESCÊNCIA - O PRIMEIRO SOTÃO DO KIKO


No segundo prédio à esquerda de quem sobe a Rua do Parque, a que nós chamávamos naquele tempo a Rua dos Burros, devido ao elevado número de estrebarias que existiam nessa rua, em áreas agora ocupadas pelas lojas de Móveis Ferreira, ficava o primeiro sótão do Kiko.

Ao contrário do que muitos da minha geração supõem, o Kiko teve dois sótãos distintos, cada um num prédio da família.

A família materna do Kiko (Francisco Miguel) Pessoa e Costa, os Machado, tinha grandes raízes nas Caldas e era proprietária de vários prédios na Rua do Parque e na Rua de Camões, o nome da Pastelaria Machado deriva do facto de ter sido um seu familiar o primeiro proprietário da provavelmente mais conhecida pastelaria caldense.

O avô materno do Kiko, vivia na linda casa que existia então na esquina da Rua de Camões com a Rua do Parque, à entrada tinha um bonito portão de ferro que dava para um pequeno pátio onde cresciam seculares buganvílias roxas que davam uma cor pitoresca àquele ponto da rua, depois subia-se umas escadinhas de poucos degraus para a porta principal. Julgo que por altura do primeiro sótão, esta casa estava dividida em duas fracções vivendo no piso de baixo a avó materna da Bibú e da Vani Castro.

Seria nessa casa de esquina, onde mais tarde foi a sede do Partido Socialista, que o Kiko criou o segundo sótão por onde muitos passaram na sua adolescência.

Mas desse sótão nos ocuparemos numa outra crónica. Para esta o que interessa é contar as aventuras do primeiro sótão.

O Kiko vivia em Lisboa, na Rua Santana à Lapa, só mais tarde se mudou para Carcavelos, mas todos os fins de semana, fosse Inverno ou Verão, vinha para as Caldas com os seus pais e os seus dois irmãos mais velhos. Claro que as férias escolares também eram passadas nas Caldas.

À espera da família tinham a dedicada e amiga Amélia que tratava da lida da casa e muito ajudou na criação do Kiko. Recordo-me de ir almoçar e passar uma tarde na casa da Amélia, no Bairro da Ponte e ver o seu pai ou marido, não me recordo bem de qual, a utilizar um pequeno pião para fazer o Totobola. O pião tinha quatro faces, como um cubo com uma pequena pega em cima e um ponteiro em baixo, uma das faces estava em branco ou tinha um qualquer logótipo, mas a outras três faces tinham os três símbolos do Totobola, ou um 1 ou um X ou um 2. O senhor punha o pião a girar e conforme o lado que ficava para cima quando o pião tombava, era colocado o respectivo símbolo no boletim do Totobola. Não sei se o fazia para todos os jogos ou apenas para aqueles que lhe ofereciam dúvidas. Nós olhávamos maravilhados para aquele sistema que desconhecíamos e aguardávamos que nos fosse oferecida a possibilidade de fazer rodar por uma vez o pião. Era muito engraçado!

Eu julgo que foi desta convivência com a Amélia e das suas refeições e estadias em casa desta que nasceu a amizade do Kiko com aqueles rapazes do Bairro da Ponte que deram origem a uma renovada SAPEC-BX (esta já existia há muitas décadas constituída por outras gerações) e que culminou com a criação do segundo sótão que foi um local de convívio partilhado quer por estes seus novos amigos quer pelos seus amigos de infância do tempo do Casino e que criaram o Sotão dos Crespos.

Voltemos ao Sótão do Kiko. O prédio onde se situava o primeiro sótão, era como referi, o segundo do lado esquerdo de quem começa a subida da rua vindo do lado do parque. Na realidade era por aí que geralmente vínhamos, pois os encontros eram invariavelmente feitos no Casino e daí saíamos pelo primeiro portão à direita, mesmo diante da casa do seu avô.

É inútil procurarem hoje por esses dois prédios pois foram vendidos e demolidos em bloco para dar origem a um novo edifício. E com isso se perderam duas casas lindas e pitorescas que embelezariam as nossas Ruas de Camões e do Parque.

Na casa do Kiko entrava-se por uma estreita porta e deparava-se-nos de imediato umas escadas íngremes que davam para um corredor, as primeiras duas portas, à direita e à esquerda conduziam a salas.

Era por este corredor e nestas salas que eu e o Kiko fazíamos intermináveis corridas de automóveis em circuitos delineados com lápis de cor alinhados em fila indiana.

O Kiko tinha uma colecção de carrinhos bem melhor do que a minha, na sua maioria eram modelos da Norev (a Solido só apareceria uns tempos depois!) à escala 1/43 e comprados no Turita, enquanto os meus carros eram da Matchbox ou da Majorette à escala 1/72 comprados na Tália e na Átila. Recordo-me do meu orgulho quando apareci com os primeiros dois carros da Corgi Toys, então à escala 1/43, comprados naquela grande loja que vendia também kits de modelismo e aparelhos de pesca e que ficava diante da Farmácia Freitas, na Rua da Liberdade. Eram o Yardley-MacLaren M19 do Denny Hulme e o JPS-Lotus 72 do Emerson Fittipaldi, ambos do Campeonato do Mundo de F1 de 1971, mais tarde o João Gancho haveria de me dar o seu Oxo- Surtees TS9A do mesmo campeonato.


Os carros do Kiko eram mais pesados e rodavam menos que os meus levezinhos da Matchbox mas estes eram incontroláveis e invariavelmente despistavam-se nas curvas mais apertadas dos circuitos.

Estas corridas duravam dias e os carros tinham de ficar na mesma posição de um dia para o outro, fazendo com que toda a família tivesse que ter muito cuidado onde punham os pés enquanto caminhavam pela casa!

Então, a pedido da Zé, mãe do Kiko, passámos o nosso campeonato para o Sotão.

O já falado corredor desembocava na cozinha e à esquerda, dentro da cozinha, ao lado da grande chaminé do fogão, abria-se uma porta que dava para as estreitas escadas de madeira que conduziam ao sótão.

Este era esconso nas extremidades, embora sempre com um grande pé direito, tinha uma divisão junto às escadas mas de resto era amplo e recheado de mobílias e de quadros e retratos antigos. Um desses retratos iria servir-nos de inspiração mais tarde!

A nossa primeira utilização para o sótão foram as ditas corridas de carrinhos e alguns jogos que dariam origem mais tarde aos Jogos Olímpicos do Casino, organizados pelo Kiko e que consistiam em jogos de salão disputados no sotão, jogos de laranjinha e tiro com arco disputados no jardim do Casino, jogos de ténis e de ping-pong realizados no parque, corridas a pé na versão curta (do casino ao coreto, dando a volta e regressando), média (volta ao lago com partida e chegada no casino) e longa (volta ao parque com partida do casino pela aldeia dos macacos até ao ténis, correndo sempre junto aos muros em direcção ao parque de campismo, passando por trás do museu em direcção ao portão que dá para a Bordallo Pinheiro, tornando pelo palmeiral, por trás da casa dos guardas, passando o Salão Ibéria e seguindo em frente de novo em direcção ao Casino). Realizavam-se ainda corridas de bicicleta no recinto das bicicletas (onde se alugavam bicicletas que vinham daquela oficina que ficava na Rua de Camões) e mais umas provas na praia (prego, ring, badminton, etc. - Tudo menos natação porque o Kiko não sabia nadar e as provas eram sempre à sua medida!).

Com o passar do tempo haveríamos de dar um novo uso ao Sotão. Em 1969 os três irmãos Barreiros, do Porto, formaram com um amigo um conjunto chamado Mini-Pop. Actuaram em 1971 em Vilar de Mouros e em 1973 participaram no Festival da Canção. Tinham na altura da sua formação entre 7 e 11 anos. Gravaram dois singles e o seu maior sucesso foi uma versão de "A Casa" (Era Uma Casa Muito Engraçada), julgo que da Pandilla. Mais tarde, já crescidinhos haveriam de formar os Jáfumega!

Claro que ficámos fãs dos Mini-Pop e decidimos formar nós próprios um grupo musical. Os Mini-Glow, a verdade é que nos chamávamos Mini-Glo mas como isso não quer dizer nada, eu agora fiz a devida correcção! Era constituído, na maioria das vezes por mim, o Kiko, o Diogo, o João Gancho, o Ricardo Ramos (Geada ou Rato conforme as estações do ano!), o Jaime e no Verão pelo Pedro e o Miguel Calisto.

Não percebíamos nada de música nem tínhamos instrumentos mas há boa maneira de alguns grupos vocais que ouvíamos na rádio ou no programa Dó-Lá-Si aos sábados à tarde, tocávamos com as vozes.

Arranjámos alguns instrumentos para o karaoke. Eu tinha uma viola de brincar comprada ainda nos Armazéns do Chiado que ficavam ao fundo da Praça onde agora fica o Banco Millenium, arranjámos umas pandeiretas com desenhos de dançarina minhota numa loja da praça, umas gaitas compradas na feira da mata e construímos o nosso instrumento preferido, uma bateria! Era constituída por vários tambores de cartão de detergentes Skip e Renamatic e a fazer de pratos tínhamos umas latas de bolachas litografadas em latão!

O Kiko era simultaneamente baterista e vocalista (o microfone era o cabo de uma vassoura!), prerrogativas do dono da casa!

Passávamos as tardes a ensaiar e nos intervalos, entre refrescos Dawa e bolachas Maria, desfrutávamos da leitura das revistas Photo e (o mais ousado para a época) Oui! gamadas à socapa ao Zé Pedro e ao João Luis, irmãos do Kiko.

Cantávamos covers como o Closorais, versão de quem não sabe falar inglês do All My Loving dos Beatles! (ouçam-na e depois percebem porquê!), do My Bonnie e de outras músicas que ouvíamos então nas matines do casino cantadas pelos Xaranga Beat.

Contudo o cover mais tocado era o grande clássico:

São pipocas ao almoço
São pipocas ao jantar
Mas o raio das pipocas
Não há meio de acabar!

Algum tempo depois o nosso John Lennon/Ringo Starr apareceu com umas letras e finalmente começámos a ter alguns originais. Bem, meio originais já que a música vinha sempre de qualquer lado!

Ora experimentem este grande clássico dos Mini-Glo com a música do anúncio da Laranjina C que está algures por aí arquivado no nosso blog:

Uma pomba caiu do céu
Vinha a cantar e a dançar
Vinha a brincar com um papel
Um papel para embalar
…

A crítica social também não nos escapava e o objecto de todas as nossas partidas era o pobre do contínuo do Casino que teve de nos aturar durante anos a fio, o Sr. José Solteiro.

Solteiro mas casado
Pela terceira vez
Da primeira viúvo
Da segunda divorciado
Será que há terceira é de vez?
…

Algum tempo depois a música já não era bastante para nós e decidimo-nos a criar uma companhia de teatro. A propósito de um retrato de uma antepassada do Kiko que estava jogado a um canto do Sotão, criámos a peça ‘’O Espirito da Ti Jaquina’’, que metia uma fantasma e uma família e que conhecia uma nova versão todos os dias. Lembro-me que com o João Gancho e com o Jaime era completamente impossível de ensaiar e representar porque nos escangalhávamos a rir com as suas caretas e as suas deixas!

Por onde andará o Jaime? Estive anos sem o ver e de repente em 1998 olho para a televisão quando estava a passar uma reportagem da inauguração da Expo e reconheço-o vestido de Drag Queen cheio de lantejoulas e com um turbante com plumas roxas e violetas! Com aquele falar sissiado característico e agora com mais maneirismos, fazia uma peixeirada de todo o tamanho com a repórter, dizendo que tinha vindo de propósito da Suiça para fazer uma performance na Expo mas que estava tudo mal organizado e que assim o país não andava! Querido Jaime, antes este país de afectos que toda a organização da Suiça!

Quando enfim nos sentíamos preparados para o grande público fazíamos sessões para toda a troupe do Casino e lá vinham assistir , os primos Azevedo e Castro, a Ritinha, o Mário Filipe, a Filipa, a Mafalda e o Luis, os Calistos, a Luisa, a Ana Margarida, a Teresa e a Patricia que os outros eram muito pequenos, os titos, o Chico, o Toni e o João, a Mana Inês, os Moreiras, o João, o Marcos e a Isabel, a Carla Correia Mendes, a Guida Sousa, a Isabel Ramos Coelho, a Lúcia, o Zé Miguel, a Guida e a Graça, a Susana Ramos, a Kika Gancho e as minhas irmãs, e muitos outros, até a Debbie veio um dia, mas a Debbie e a família da Debbie dão uma outra crónica!

Foram tardes e tardes felizes e divertidas e o mais importante é que na grande maioria mantemos todos a amizade e o contacto.

Falta o Kiko que hoje pouco vem às Caldas…

e a Debbie…

e o Jaime!

Por onde andará o Jaime?! Drag Queen, Jaime?! Francamente, o que a Ti Jaquina diria?!!!



Ao Kiko, ao Jaime, ao Diogo e à Debbie, a todos os meus amigos de infância!


Kiko, Pedro Caiado, João Gancho, Paulo Caiado, Ruben Caiado

Joan Baez - Forever Young


OS MINI-POP



O conjunto Mini-Pop, composto por 4 elementos, de idades compreendidas entre os 7 e os 11 anos de idade, formou-se no ano de 1969. O grupo dos irmãos Barreiros (Pedro, Mário e Eugénio)e do amigo Abílio foi dinamizado pelo Pai Mário Barreiros.

Gravaram dois singles para a editora Zip-Zip. O maior sucesso foi uma versão de "A Casa" (Era Uma Casa Muito Engraçada).

Ao vivo o repertório do grupo nunca foi tão comercial como em disco. Actuaram com bastante sucesso no Festival de Vilar de Mouros de 1971.

Passaram para a Movieplay onde gravaram um primeiro single com os temas "Delta Queen" e "Beggars Can't Be Choosers".

Participaram depois no Festival RTP da Canção de 1973 com "Menina de Luto".

Lançaram o single "Days Of Summer/Vaya Con Dios". Gravaram novo single, "My Holiday Girl", com temas de Paulo de Carvalho e Mike Britton.

Durante 10 anos de carreira gravaram sete singles e participaram em cerca de 300 espectáculos. Também tentaram entrar em Espanha como "Tanga", o nome escolhido para a internacionalização.

Após o fim do grupo transformaram-se nos Jafumega, uma das bandas que marcou a década de 80 em termos musicais.