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terça-feira, 5 de outubro de 2010

CRÓNICA DOS PALHAÇOS DOS ANOS 70-80

Os Palhaços faziam e fazem as delícias das crianças e adultos quando é possível assistir a um espectáculo de um qualquer circo que, orbita de terra em terra nas datas festivas e tradicionais.

Apesar da máscara e da figura do Palhaço serem conhecidas nem sempre eram bem representadas visto que os fatos, sapatos e tintas não estavam ao alcance de todos.

É por aqui que consigo escorar esta máscara na vida Caldense especialmente nos pais de alguns amigos que cresceram comigo, tendo mais tarde vindo a continuar a tradição familiar.

Os talvez pioneiros dessa máscara de uma forma mais similar do real circense, foram o Loiça Fina, José David, Pai Pimenta, Carlos Feliciano, Sanches, Pai Felizardo, Pedro Margarido, Viola, José Augusto Nicolau, Carlos Norberto e mais tarde o Leitão, (com o seu Hilman dourado que entrava normalmente no Corso das Caldas da Rainha) César e João Domingos.

Numa das idas carnavalescas aos toiros o Pai Felizardo arranjou umas motas antigas Norton, para chegarem á corrida de toiros de terça-feira de carnaval nas Caldas da Rainha.

Essas motas sofreram uma tropelia do José David que valeu uma grande pancada da perna do Felizardo no passeio no momento de a tentar por a funcionar. Apesar de ser verdadeira toda a gente pensava que era uma brincadeira montada para o efeito, fazendo com que ninguém ajudasse o mascarado, provocando uma risada geral a quem estava por perto.

Mas de todos estes pioneiros o Loiça Fina, era o único que gostava de andar sozinho, sempre com muita graça pelo carnaval, sendo todos os outros adeptos de grupo e de bailes de nomeada na altura, organizados nos seus grupos.

O grupo do Pai Pimenta veio inclusive a receber alguns prémios sendo um deles entregue no Pinheiro Chagas pelo desempenho e visual do grupo no Corso das Caldas da Rainha, outro dos prémios foi ganho no Casino do Estoril pelo grupo, Pai Pimenta, Pedro Margarido, Viola, Nicolau, José David Carlos Feliciano tendo sido aqui que o Joca Pimenta pequenote fez talvez o seu debute nos palhaços.

Esse prémio constou de uma enorme jantarada para todos No Salão Preto e Prata do Casino do Estoril.

Nesses tempos as cabeleiras e alguns adereços eram alugados em Lisboa para serem usados nos dias de carnaval.

Outras personagens tentaram seguir o andamento deste grupo nos carnavais mas rapidamente desistiam após as primeiras núpcias no jantar. Era realmente dura aquela vida.

Existia no entanto algo que para a época era realmente inovador.

Organizavam-se de forma a serem transportados por um condutor de seu nome Vasco Leal, que com a sua paciência e amizade acompanhava sempre o grupo, mantendo-se em condições de fazer a viagem de regresso sem grandes percalços, o que digamos para aquela época era realmente inovador.

A inovação continuou com a forma e o tipo de fatos, com o uso de tintas de teatro e os famosos sapatos compridos, feitos e cozidos à mão pacientemente pelos sapateiros amigos do grupo nas Caldas da Rainha.


Esta comunhão das duas gerações é de facto necessária não só para me enquadrar no tempo e na máscara de Palhaço nas Caldas da Rainha, como para fazer um elo de ligação capaz de juntar várias gerações que usufruíram da incrível onda carnavalesca desse tempo, que nos foi sendo passada no decorrer de todos estes anos.

Num dos dias que nada tínhamos para fazer, andávamos a jogar futebol nas traseiras da Igreja, corria o ano de 1979, sempre preocupados com o Padre Guerra pois não gostava que, os irrequietos jogadores de futebol da altura por ali assentassem arraiais.

Realmente muitos vidros partidos apareceram nas vidraças sem responsável por perto, tal a velocidade com que nos pirávamos após o infame acto de partir um vidro da Igreja, que na altura estavam protegidos por umas encaracoladas grelhas de protecção em ferro pintadas de preto.

No Carnaval, era comum os mais novos darem largas à sua folia com umas máscaras mais ou menos elaboradas, valendo as horas que saltávamos ou no Corso que o Sr. Alberto Saramago e os seus amigos conseguiram manter durante anos em funcionamento como um dos melhores desfiles alegóricos e críticos da região centro (na altura o carnaval de Torres Vedras era já um dos melhores) ou nos variados bailes que se realizavam na altura, adaptados a todos os tipos de bolsos, (Casino, Lisbonense, Bombeiros, Columbófila, Pimpões entre outros)

Foi nesse dia que reparamos na passagem de dois palhaços, viria a saber mais tarde que um era o Sr. º César e o Sr. Leitão. Aquele momento catalisou-me a curiosidade para aquela máscara que me viria a marcar durante imensos anos.

No dia seguinte e numa conversa com o meu amigo Joca Pimenta, soube que ele se mascarava regularmente com o grupo do Pai.

Passei uma tarde a ouvir o resultado das diabruras das noites de carnaval desses tais grupos, que era marcado pelo Pai Pimenta, e mais tarde pelo Leitão, que além de entrarem no Corso faziam a sua passagem com o bestial Hilman Dourado descapotável do Leitão pelas Caldas durante a noite, fazendo depois uma passagem em quase todas as capelinhas de diversão nessa época .

Após alguns acertos e desacertos, arranjámos um fato de palhaço que teria de ir buscar a um dos elementos desse grupo que me valeu uma espera, diria mais uma seca de 4 horas sentado num sofá à espera que alguém acordasse, até que finalmente o fato me apareceu à minha frente.

Foi nessa noite o meu baptismo de mascarado na personagem de palhaço, com as pinturas, jantar e respectiva indumentária feitos na garagem da casa do Leitão, onde se respirava Carnaval e esta dinâmica de mascarados.



Nessa noite foi um mergulho na arte de rir e de fazer rir, tais as gargalhadas que soltei, ao ver o desenrolar dos elementos do grupo, que estavam a 55 rpm e completamente adaptados à máscara com a respectiva voz digna do Palhaço Quinito do Circo Mariano.

Após as pinturas e a tripulação composta do famoso Hilman dourado com umas portas dignas, feitas de umas cordas grossas brancas com terminais de ganchos também eles dourados, fomos descendo desde a Encosta do Sol até pararmos na Praça da Fruta, sítio de paragem obrigatória, onde os mascarados se encontravam, antes de definir para onde se encaminhavam.

Decidiram rumar até ao baile da Columbófila, que era feito no pavilhão quase novo por detrás das instalações antigas. Entradas pagas e fórmula 1 estacionado, (que era quase sempre necessário empurrar, pois o tempo que ficava parado durante o ano deixava marcas) entrámos no ringue do pavilhão onde se fazia o Baile.

No meio de músicas brasileiras e casais de dançarinos que saltitavam entre empurrões e gritos produto dos encontrões e espetadelas dos ornamentos de carnaval das máscaras uns nos outros, fomos deslizando pela zona de dança como podíamos, até encontrar alguém que nos guardasse a panóplia de adereços.

O Joca mais habituado a estes andamentos, encaminhava-me pelo meio dos dançarinos entre apalpões e toques na cabeleira que naquela altura já me fazia sentir uma panela de pressão tal o calor que aquilo me fazia.

Após umas horas e umas belas minis a voz rouca comum nos palhaços começou a despontar de tal modo que até eu me admirei da voz. As músicas, calor, odores e gargalhadas foram a minha companhia por algum tempo.

Houve tempos que deixei de estar em contacto com o Joca e o resto da trupe, que passada uma centena de músicas e de danças com quem não conhecia (o importante era dançar) deram comigo e apanharam-me pelo cachaço pois de modo algum as vozes que eram necessárias para me convencerem a ir para casa eram interiorizadas por mim.



Bom…… foi um baptismo de máscara de palhaço, violento que me valeu um dia inteiro a dormir com as tintas muito mal tiradas da cara e um acordar doloroso com a voz da minha mãe a perguntar se queria jantar ou se ficaria naqueles preparos o resto da noite.

Desde esse dia ficou enraizado este costume de máscara de Palhaço no carnaval, que me tem vindo a acompanhar com o passar do tempo, somente com uma interrupção de alguns anos.

No ano seguinte, mascarámo-nos na casa do Luís Barreto. O grupo era composto pelo Joca Pimenta, Luís Barreto, Carlana e Jaime Amante, que viria a ser mais tarde o “ Bombero Torero” da trupe de Anões Espanhóis, trupe essa que viria a ter imenso sucesso, durante anos.



O engraçado de tudo isto, começa com o debute dele (Jaime Amante) nesse ano, pois não manifestava nenhum jeito para a “coisa”, manifestando mesmo uma depreciativa ideia da máscara. Jamais imaginaria que iria ser um dos seus sucessos no futuro.

O Jaime Amante era um amigo do Grupo de Forcados das Caldas que estava ligado ao mundo do espectáculo dos Toiros e dos matadores de Toiros, nomeadamente como moço de espadas. Visitava as Caldas nas fases festivas ou de dias de corridas com o Grupo.

Nesse ano na novilhada de Carnaval fomos para a Trincheira, onde nos metemos num burladero que nos serviu de base para a secção de escárnio e maldizer, pois que o estado de aceleração em que já orbitávamos, não deixou passar em branco algumas pernas e alguns sorrisos mais atrevidos, só desculpados pela data que vivíamos.


Recordo-me que alguém nos tirou uma fotografia no final da novilhada à porta dos Cavalos. Essa tarde foi algo atribulada já que fomos despachando para as bancadas os nossos apetrechos de mão, bem como parte dos sapatos.

Mas o Carlana apareceu com duas vassouras, fundamentais para nos equilibrar uns nos outros na altura após o final da novilhada ficando o pachorrento e paciente do Luís Barreto, com as mãos nos bolsos no meio do grupo, mas com o disco riscado na parte da pergunta ao fotógrafo….tenho de pagar a fotografia? …tenho de pagar a fotografia…tenho de pagar a fotografia…. Estando ainda hoje à espera da resposta que não lhe foi dada.

Nesse ano o carnaval foi passado com este grupo, por sítios que eram normais nessa altura, Corso, Green Hill, Inferno da Azenha, Ferro velho, Bombeiros entre outros.

Todos os anos a partir da passagem de ano a conversa era muitas vezes direccionada para os preparativos do carnaval. O sítio de eleição era a porta da Câmara que ficava imediatamente a seguir à porta da Zaira.



Nesse ano tudo estava a decorrer normalmente, quando o carnaval surgiu no calendário. A primeira saída era sempre na sexta-feira, dia esse que era de poucos mascarados mas servia para nos adaptar à época, fazendo-nos deambular pelas Caldas sempre depois de um jantar de início de festas, mascarados a rigor.

È nesse ano que o Presidente da Associação Planalto da Nazaré telefonou ao meu amigo Joca, em desespero, visto que a trupe de animação que iria ter a sua apresentação no domingo de carnaval na praça da Nazaré tinha sofrido um acidente de viação em Espanha, não podendo vir fazer a sua actuação.

Nesse telefonema sondou a possibilidade de se arranjar outra solução para a situação visto que já estavam muito próximo da data. Essa sugestão apareceu com a disponibilidade do Joca em falar comigo para uma possível actuação nesse Carnaval na praça da Nazaré.

Bom, quando me foi proposto a hipótese fiquei receoso, pois nunca nenhum de nós se tinha dado a esses andamentos, mas enfim, aceitámos e ficou decidido que à hora e no dia definido de Domingo de Carnaval lá estaríamos.

Depois da proposta aceite, para a referida actuação na praça da Nazaré na tarde de Domingo de Carnaval, prontamente catalisada pelo Pai Pimenta sempre disposto a essas brincadeiras. Recordo-me que eu e o Joca, que nessa fase já andávamos pelo Forcados, nos rirmos com a ideia.

Mas após as perguntas que achamos necessárias com base na nossa inexperiência nestas andanças, ficámos a saber que iríamos ter como suporte uma panóplia de equipamentos de actuação na arena, tais como:

Baloiços, Barris, Bidões de 200 litros, Cavalos de Madeira feitos com cabos de vassoura, Baldes com pó de talco, Tesouras, Pentes e Navalhas de barba gigantes para a referida operação à vaca que nos iria calhar em sorte.

No dia D, preparámo-nos e vestimo-nos nas Caldas. Como não tínhamos ainda carta de condução o Carlos Feliciano foi-nos levar à Nazaré, seria o nosso Apoderado. Após algumas combinações a caminho da Nazaré com o nosso afamado apoderado ficou no ar que iria ser algo de que decerto nos iríamos lembrar durante muitos anos, logo não seria necessário preocuparmo-nos com o que nos iria sair na praça. Decidimos não ir ver a vaca aos curros pois poderíamos ter algum receio depois de a ver.

Ao entrar na Praça de Touros pela porta dos cavalos, logo se ouviu a pronúncia nazarena “….. Ahhh…Joãoooooooooo deixem passar os Artistasssss ohhhhhhhhhhhhh…… “

A praça estava cheia, o barulho de fundo era de alegria e de sons de cornetas, rocas e martelos de carnaval.

Mantivemo-nos por aquela zona pois teríamos de ir fazer as cortesias com os respectivos sapatos xxxxxxxllllllllll. O Inteligente, (Director da corrida) mandou tocar para a saída das cortesias.

Lá fomos saindo quando chegou a nossa vez, eu com o meu andar desengonçado, não ficando atrás o Joca com os seus pés “Dez para as duas “e as respectivas barbatanas nos pés e as tintas de Teatro na cara que nessa tarde usámos, para que não ficassem esborratadas.

Quando chegou finalmente a nossa vez, que aconteceu após um toque de cornetim, com uma melodia mais voltada para a época de Carnaval, entrámos na arena por um dos burladeros que existia na altura para a actuação.

O baloiço tinha sido montado no centro da praça mesmo em frente aos curros de onde sairia a Vaca.

O baloiço era do tipo de alavanca somente com um braço em que cada um de nós se agarrava a uma ponta e rezava para que o outro pendurado no outro extremo o puxasse.

Cada um de nós agarrou-se a um dos extremos do baloiço esperando pela abertura da porta dos sustos, esperando pela decisão de investida da vaca.

A Vaca saiu finalmente após a abertura da porta dos sustos, saindo com todo o gás que tinha em direcção ao baloiço, escolhendo o Joca para a sua primeira investida.

Claro está que a partir dali foi um sobe e desce até que as forças e o hilariante da situação nos começaram a atraiçoar e começaram a surgir uns “puxaaaaaaaaa…puxa…..puxaaaa” mais aguerridos pois começámos a levar de todos os lados que a vaca vinha.

Já não tínhamos força para nos puxar um ao outro o que provocava gargalhadas e gozo nas bancadas, até que, numa das vezes que a Vaca saiu da zona do baloiço deu tempo para me esconder dentro de um bidão.


A vaca não perdeu a oportunidade para responder, com mais uma boa dezena de investidas que me valeu quase uma volta à arena com a vaca a empurrar-me.

Recordo-me que quando parou, estava completamente tonto, tendo ficado agarrado uns segundos à trincheira até recuperar o equilíbrio, enquanto o bandarilheiro de serviço fazia passar a vaca pelo capote e o Joca fazia uns quites á vaca, num jogo de aparece e esconde.

Depois de recuperado começámos a tourear a vaca com um capote, em que o movimento feito por nós ao afastarmo-nos deixava a vaca passar pelo meio, altura em que lhe dávamos umas palmadas, escondendo-nos rapidamente atrás do capote para que a vaca voltasse a investir do mesmo modo.

Entre marradas, desequilíbrios e corridas para a trincheira, tivemos de pegar a vaca pois estava previsto uma barrela à barba da Vaca e não havia outro modo, pega feita e imobilização da Vaca executada, isto tudo feito com as gargalhadas a saírem-nos sem controlo.

Iniciámos o escanhoar com uma pasta branca que nos foi dada pela organização, tendo terminado a função após o respectivo barbear com a navalha de barba gigante e um novo penteado no pelo da vaca onde deixámos presos com um elástico uns óculos de sol de plásticos verdes que fazia parte do kit, desorganizado de uma mala enorme.

Estávamos no fim da actuação e naturalmente começámos a agradecer ao público dando a volta à arena após toda aquela loucura, quando, com alguma surpresa nossa, recebemos um toque de aviso do director da corrida, dizendo-nos que teríamos de pôr um par de bandarilhas na vaca de modo que fosse considerada lidada…Bom, isso não estava previsto por nós.

Por sorte e após o final dos treinos dos Forcados simulávamos estes kits em amena brincadeira, pois eram necessários para enganar a vaca de modo que nos desse tempo para a bandarilhar.

Após algumas falhas de propósito com as respectivas bandarilhas espetadas no chão da arena o Joca, fez um kit á Vaca que a deixou á minha frente e zás, bandarilhas espetadas e loucura terminada, após a vaca ter entrado nos curros outra vez.

Aí sim, demos uma volta à arena agradecendo àquele público da Nazaré tremendamente carnavalesco, que nos brindou com a sua alegria. O nosso cachet foi seis mil escudos quiçá a maior quantidade de dinheiro que ganhei a rir-me.

Durante anos o grupo de Palhaços, ia tendo pessoas diferentes, umas por afastamento profissional, outras por modificação familiar ou estado civil e outras ainda pelo afastamento geográfico que tornava difícil a junção nessa data.

É por essa altura que começaram a aparecer grupos de palhaços mais ou menos organizados, sendo um dos seus promotores o Joca Pimenta, Luís Rocha, Eu, Agapito filho, Felizardo filho, estou a referir-me a grupos de palhaços da nossa geração, pois outros grupos continuavam, mas com pessoas da geração dos nossos pais, penso que o Loiça Fina deixou de se mascarar á poucos anos.



O Joca Pimenta foi talvez o indivíduo da minha geração que mais catalisou a máscara de palhaço, não só pelo início mas pelo seu contacto com pessoas que convidava a partilhar daquela festa. Seja-lhe feita Justiça, pois que por razões de trabalho deixou de ser possível de nos acompanhar, pois era o disco jokey da Bonnie and Clyde.

O nosso grupo, nesse ano começou uma rotina que viria a durar mais de uma dezena de anos sempre com os mesmos personagens, Paulo Renato, Eu, Rocha e Viticó. Tivemos como base nesse ano o apartamento do meu primo Viticó na Foz do Arelho. Os fatos foram feitos ao nosso gosto em modistas diferentes. Nesse ano ficámos nas Caldas e nas redondezas, pois o Viticó e o Paulo Renato estavam a iniciar-se e foram “apalpar” o carnaval na pele de palhaço.

No ano seguinte o meu amigo Pina, decidiu também mascarar-se o que para nós foi uma surpresa, pois tinha-lhe mordido o sindroma da “ bétisse ” e não o estávamos a ver mascarado de palhaço.

Mas depois de finais de Janeiro, juntámo-nos para decidir o sítio que iria servir de base nesse ano bem como a cor dos fatos e onde os mandaríamos fazer. A minha modista de serviço aceitou de bom grado a entrada de mais dois fatos, mas o Pina decidiu mandar fazer o fato a outra modista.



O grupo de carnaval tinha ficado com mais um elemento, sendo agora necessário baptizar os ditos palhaços. O meu nome desde o início sempre foi “ Croquete ”( os meus sapatos mais pareciam uns croquetes gigantes do que uns sapatos de palhaço ) o Paulo Renato foi baptizado com “ Trotinete “ o Viticó com “ Trompete”, mas para o Pina não conseguíamos arranjar um nome interessante o que nos levou a ficar com esta missão até quase ao carnaval.

Num dos fins-de-semana em que andávamos de casa em casa, calhou em sorte ficarmos na casa do Pina, um apartamento na altura no Avenal. O referido apartamento ainda não estava totalmente mobilado e viríamos a constatar mais tarde que o construtor tinha deixado um erro terrível na instalação eléctrica da sua casa.

O pseudo erro eléctrico ganhava forma com “…A tomada do candeeiro do quarto dele estava ligado á campainha da porta e sempre que alguém tocava à dita campainha a “luz” do candeeiro do meu amigo Pina apagava-se. Esta situação durou anos a deixar de ser assunto de aperto para ele.”

Após uma longa tarde a ouvir música e a cruzar informação das namoradas e dos flirts que entretanto iam acontecendo, decidimos sair em direcção à Zaira. Nesse percurso o Pina desabafa connosco no carro……” estou mesmo entusiasmado com o apartamento só me falta comprar mais uns” Etrómésticos”. Olhámos uns para os outros, soltando de seguida uma magistral gargalhada, tinha surgido ali o nome com que iria ficar baptizado enquanto palhaço “Etróméstico”, mas as surpresas não terminaram pelo nome.

A base nesse ano foi a casa do Pina, onde acampámos durante três noites. A nossa mala era atafulhada com fatos de outros anos e o respectivo fato novo (todos os anos mandávamos fazer um), cabeleiras e apêndices para fazer uns truques trapalhões dignos da personagem de palhaço, tornando o chão do espaço onde nos mascarávamos numa feira de roupa de palhaço, meias, cabeleiras, caixas com tintas, bases, lápis pretos e a imprescindível afiadeira.

Quando estamos a mostrar os fatos do ano, eis que chega a vez do Pina que nos deslumbra com um fato digno do sindroma em que estava mergulhado (bétisse), um fato de palhaço em que o casaco tinha um corte de asa de grilo com um padrão de fundo cor-de-rosa com bolas brancas de alguma dimensão, esse casaco era acompanhado com uns calções verdes florescente debruado com uma fita no seu final do tecido do casaco às bolas, claro está que lhe moemos a cabeça nessa noite especialmente durante as viagens entre os sítios de divertimento.



Esse Carnaval foi marcado pelo debute do Pina que tínhamos de o trazer de todos os sítios quase pelo pescoço pois ele não parava e as tintas e a cabeleira eram mero adereço de ocasião. Nesse ano o grupo ficou mais forte pois funcionámos muito bem.

Nos anos seguintes fomos deambulando de casa em casa, entre cabeleiras feitas dos mais estranhos materiais (esfregonas e carpetes felpudas, por exemplo), jantares e saídas diabólicas para todos os Corsos e festas na zona desde a Nazaré até Torres Vedras que nessa altura, já era o melhor carnaval da zona Oeste, onde as matronas na altura eram já o seu cartão-de-visita.

È sensivelmente nesta fase que a máscara de Palhaço se torna quase obrigatória aos foliões, pelo menos no sábado de carnaval nas Caldas da Rainha. Recordo-me de tentar ver uma máscara diferente na Praça da Fruta e não conseguir, ou seja a máscara de palhaço, foi adoptada por quase todos os foliões durante cerca de três anos.



Num desses anos criámos a nossa base de carnaval na minha casa no Montijo, cidade onde decidi viver por razões profissionais.

Esse ano viria a ser um dos mais diabólicos carnavais de que me lembro. O Viticó, Renato e Pina, apareceram na sexta-feira à tarde, faltando o Luís Rocha que por razões profissionais não poderia ir, prometendo que apareceria na segunda-feira à noite, promessa que aliás cumpriu.

Após as farpelas estarem devidamente acomodadas no chão da sala e dos quartos fomos jantar e apalpar o andamento do carnaval por Alcochete e Montijo, na Renault 4 branca do Paulo Renato sempre conduzida pelo Pina que nessa altura era o único que não bebia umas minis …Nessa noite decidimos não nos mascarar aproveitando para descansar para o outro dia após umas horas de conversa pelo Alcache em Alcochete.

Essa noite valeu uma manhã inteira a dormir, só se ouvindo os primeiros passos por volta da uma da tarde. Esse dia foi o inicio das hostilidades carnavalescas para nós, por terras do Porco.

Após uma tarde em que fizemos as últimas compras necessárias para as pinturas, começámos a mascarar-nos por volta das 19h00, para jantar no Tia Maria, restaurante na altura no centro do Montijo.

Ao entrar no restaurante os empregados fuzilaram-nos com o seu olhar de reprovação, pois de facto não estavam habituados a servir grupos de palhaços.

Mas com os nossos sorrisos e gestos mais adequados à máscara, conseguimos descongelar o olhar e expressão facial dos empregados, que lá nos encaminharam para nos sentar numa das mesas do canto com ampla vista para todo o restaurante.

Lembro-me ainda da sobremesa, um doce fenomenal que comi, de nome serradura real, que me fez tomar por mais umas vezes o caminho desse restaurante após o carnaval.



Nessa noite após o jantar fomos para Alcochete, parámos num bar que ainda hoje existe de nome Alcache que nos fez as honras de carnaval, já que, éramos os únicos mascarados da ocasião, entre uns copos, gargalhadas e umas assobiadelas, lembro-me que houve um grupo de miúdas que se meteu connosco, tendo terminado com umas fotografias já com o Pina dentro do carro a querer sair pelo vidro da 4L.

A noite evoluiu com a nossa passagem pela Banda Democrática e pelo Portugal duas das mais afamadas discotecas na altura pelos lados do Montijo.

O dia seguinte começou mais cedo do que o costume. Decidimos que iríamos ao Corso do Montijo com a nossa arma secreta desse ano. Essa tal arma secreta tinha um nome devidamente adaptado ao seu modo de actuação O “FeroZZZ” .

Um cão em esponja pintado de preto suportado por uma vara de aço que o fazia vibrar e deslizar na estrada tal como um cão de pequeno porte. Após as pinturas e pequenos-almoços despachados, entrámos no Corso, com os respectivos adereços, gaiolas, Ferozz, vara de equilíbrio da garrafa de mini, havendo sempre um que só levava um chapéu de varetas para o suporte do grupo.

O digno fiel tratador da nossa fera nesse dia foi o Pina “ Etróméstico” que com a sua voluntariosa e incisiva energia deambulou pela assistência ao desfile, fazendo soltar gritos de susto a algumas senhoras mais impressionáveis, sendo prontamente acalmadas pelos digníssimos, Croquete, Trotinete e Trompete ora mostrando o imaginável canário na gaiola de porta aberta, ou distribuindo umas festinhas com as luvas de algodão de cor branca.

Esse foi o dia de Corso Carnavalesco que mais sucesso nos proporcionou.

Inclusive tivemos honras de primeira página no Correio da Manhã, com várias fotos na capa e no artigo com o famoso “Feroz” ,a indubitável fera em actuação animada pelo “Etróméstico”, tal foi a empatia que fomos criando conforme as voltas do desfile iam acontecendo.

Essa tarde acabou num café de nome César que ainda hoje existe na praça do centro do Montijo a comer uns pregos. Mas claro a noite estava a entrar e ainda havia muito para foliar, após uma passagem pela base de carnaval, fomos em direcção a Setúbal para a nostálgica Seagull, situada na serra da Arrábida um pouco antes da Figueirinha que infelizmente ardeu há um bom par de anos.

Ai aconteceu o inesperado. Embrenhamo-nos de tal maneira na pista de dança que nos perdemos uns dos outros. Foi preciso passar mais de uma hora para que nos voltássemos a reunir e combinar a nossa saída e regresso de Setúbal para o Montijo.

Bom, sei que chegámos, que nos deitámos, mas ainda hoje não sei como o fizemos, nem mesmo o “Etróméstico” o nosso fiel condutor nos confessou como chegou. Nestas andanças há sempre algo que fica, uma delas foi verificar no dia seguinte que o Trotinete tinha-se entretido a encher a gaiola dos virtuais pássaros de copos durante a noite no Seagull decidindo fazer a viagem de regresso a casa com a respectiva gaiola cheia de copos nessa noite.

Foi uma noite e uma manhã de recuperação que foi interrompida pelo Luís Rocha, fazendo-nos uma visita tal como tinha prometido. A partir daquele momento o “Clarão”, tornou-se num furacão, pois estava de baterias carregadas e cheio de energia para se mascarar.

Tivemos um acordar violento que o Trotinete e o Trompete repudiaram, mandando uns sobreiros e carvalhos de boa rama ao chão. Nesse dia ou melhor nessa noite o Clarão deu largas ao seu apito, em todo o sítio onde ia criando uma má vizinhança, até que entre a passagem da discoteca Portugal para a Banda Democrática com uma passagem por Alcochete sofreu um assalto, feito pela trupe na qual o resultado foi o desaparecimento de tal instrumento de super agudos.

O Clarão ficou inconformado, ficando ainda mais rosado na sua cara redonda que era semi tapada por um chapelito digno do mais delirante ciclista do pelotão da volta a Portugal, voltando a ver o famoso apito somente no dia seguinte.

Esse ano carnavalesco terminou com a despedida destes meus amigos do sítio onde montamos a base no Montijo.

Em Dezembro desse ano o Rui Aniceto, (irmão do Parrila, que na altura era um dos sócios de uma discoteca do Montijo de seu nome Alcunhas) pediu-nos ajuda para a festa de natal das crianças da empresa onde trabalhava. Sondei o Pina para me fazer companhia na actuação.




O meu amigo Pina nem pestanejou aceitando logo no momento do convite. Esse final de tarde valeu-lhe uma enorme dose de farinha branca e água por cima da cabeleira e das calças. Essa foi sem dúvida talvez a última brincadeira mais elaborada em que participamos.

No decorrer do ano seguinte, algo viria a acontecer que iria abalar todas estas personagens.

Num dos dias mais tristes desta minha vida, um dos elementos do grupo sofreu um acidente de viação grave que lhe ceifou a vida. Foi algo que me abalou, sacudiu e fez-me mergulhar numa tristeza que me inibiu durante mais de uma dúzia de anos de me mascarar. Tínhamos perdido o “Trompete” ….Esse episódio foi marcante e castrador emocionalmente para todos nós.

A “TI” meu querido amigo Viticó dedico, esta crónica de passagens carnavalescas, sorrisos, partidas e malandrices que tão bem fazíamos e dos quais eras sempre um dos mais disponíveis para o fazeres.

Até um dia desses Primo “ VITICÓ “.


Um muito OBRIGADO ao Pai Pimenta, Mãe Pimenta e ao meu grande amigo Joca Pimenta pela ajuda necessária para conseguir sincronizar alguns anos de Carnaval entre as duas gerações.



 
Post de António J.F. Albano

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A VOAR NAS ASAS DA AVENTURA

 As Famosas Sapatilhas que nos fizeram percorrer centenas de KM`s.............. :):)



Corria o ano de 1979 o Inverno não estava a ser muito frio. O primeiro período do Ano Lectivo na Rafael Bordalo Pinheiro estava a decorrer muito bem e o pós Escola estava a ser fabuloso. Treinava duas modalidades, Voleibol na casa do Benfica (Terça, Quinta e jogava aos Sábados) e Andebol no Sporting das Caldas (Segunda, Quarta e Sexta e jogava aos Domingos).

Naquela altura equipamento desportivo de topo não havia nas Caldas, todos nós continuávamos a saltar e a competir com as velhinhas Sanjo (sapatilhas) que com a sua palmilha ergonómica nos ia ou deformando os pés ou minorando os impactos com o solo.

É numa destas equipas (Sporting das Caldas) que me cruzo com o meu grande amigo Joca Pimenta, nessa altura éramos os mais novos dessa equipa de Andebol que o Nunes da pequena Papelaria entre a Tália e a Taiti da rua das Montras, teimava em manter em condições de competição, tais como o André, Pedro, Chico Carrilho, Nelson entre outros, todos eles mais velhos do que nós o que nos valeu uma época de calduços e beliscões nos treinos de ataque, defesa e permeabilidade do Pivot.

Foi decerto um ritual entre atletas que passámos com alguma irreverência e troca de mimos. Durante os treinos, também nos “esquecíamos” de vez em quando de parar o braço ou o joelho forçando o contacto físico possível com os mais velhos, fabricantes dos calduços.

Foi por essa altura que surgiram noticias desportivas a nível internacional, poderemos mesmo dizer uma enorme surpresa, a Selecção Nacional de Voleibol Cubana sagrou-se campeã Mundial, contrariamente ás expectativas, pois a média de alturas era de 1,73m, mas saltavam e tinham uma capacidade de impulsão inacreditável, que aliado ao baixo centro de gravidade produziu uma equipa de eleição.

A imprensa desportiva empolou esse fenómeno, já que as outras equipas tinham como média de altura 1,99m, esse caso não nos passou despercebido tanto a mim como ao Joca. O que nos motivou imensas horas de conversa, empoleirados nas nossas motorizadas à porta do Pavilhão Desportivo da Mata uma Sirla com motor Casal de 5 velocidades e uma Boss com motor Casal de 2 Velocidades, kitada com um cilindro de 5 velocidades.

É numa dessas conversas que chegamos à conclusão que todos os Jogadores Cubanos contrariamente às outras equipas utilizavam, umas sapatilhas da marca Tiger (o nome Asics, já aparecia na marca, mas num tamanho muitíssimo pequeno). Foi numa dessas secções de conversa de pós treino na Mata que o Joca propôs uma ida a Badajoz em busca de umas sapatilhas dessa marca e devidamente adaptadas ao andebol que nos poria a saltar muito mais que os mais velhos…

Após amadurecida a ideia, entre nós com a parte Logística devidamente planeada, decidimos pedir aos nossos Pais, e ai começam as primeiras chatices, pois o nosso pedido para fazer uma viagem de motorizada Caldas /Badajoz, não foi bem aceite, mas após alguns forcing´s da nossa parte, lá veio o despacho positivo da entidade Paternal.

A viagem só poderia ser feita nas férias escolares, tendo ficado decidido entre nós que a iríamos iniciar numa quarta-feira, na semana de férias antes do Natal.

Nesse dia levantamo-nos cedo de modo que começássemos a viagem por volta das 9h00 da manhã e foi, realmente isso que fizemos.

Tínhamos preparado as”máquinas” na véspera, com o saco de viagem amarrado com uns elásticos no sítio do pendura, depósito de combustível cheio, níveis de óleos e pressões de pneus, no top.

Às 9h20 começamos a viagem, passamos o quartel do exército, nessa altura ainda RI 5, iniciando de seguida a subida das Gaeiras é ai que a Casal Boss do Joca decide não colaborar e pára. Bom, ficamos incrédulos, mal tínhamos saído das Caldas e já tínhamos ficado apeados. Decidimos rapidamente voltar para trás em direcção ao Pina que na altura tinha uma oficina de bicicletas e motorizadas, na rua do Parque.

Tanto lhe moemos a cabeça que ele acedeu em retirar o motor e repara-lo, com o material que tinha em stock e assim o fez, mas a meio da reparação deparasse com um valader partido que não iria permitir seleccionar as duas mudanças, tendo o Joca decidido ficar só com a segunda mudança. Almoçamos por ali mesmo, tendo como ementa o lanche para a viagem.

Durante esse tempo de reparação da Boss nada dissemos aos nossos Pais, por volta das quatro da tarde finalmente a Boss do Joca estava a trabalhar, mas somente com uma mudança, e foi assim, que nos piramos para Badajoz.

Verificamos logo que nas subidas mais inclinadas a Boss não subia, o que valeu ao Joca voltar para trás varias vezes para ganhar uma velocidade que lhe permitisse voltar a subir, com sucesso aquele espaço. Com o decorrer da viagem, e passado a zona da Espinheira, Cercal, Alenquer, surgiram finalmente as rectas de Vila Franca que nos iriam, fazer descansar um pouco.

Quando passamos o Porto Alto já íamos de luz ligada, ou seja era essa a hora que tínhamos previsto chegar a Badajoz e ainda estávamos no Porto Alto. Era Inverno e essa noite estava a fazer jus à estação. Apesar de levarmos, uns casacos o frio estava ali a fazer-nos lembrar que teríamos de nos proteger ainda mais.

Continuamos a viagem sem mais paragens, em direcção a Pegões, eu ia à frente tipo batedor, pois a minha luz era mais eficiente que a da Boss que mais parecia um pirilampo irritado que não parava quieto sempre aos tremeliques

Até que de repente como que acordando de uma melancolia provocada pela recta, sempre apadrinhada pelos pinheiros mansos que ainda hoje continuam a fazer sombra à estrada, olhei para trás massssssssssssssss, o Joca não estava lá, não me seguia….voltei de imediato para trás e encontrei o Joca uns seis quilómetros atrás, com cara de poucos amigos, dizendo-me que tinha gritado e que eu não tinha ouvido…Existia então outro problema com a famosa Boss, tinha furado…a roda traseira.

Bom, para aquele problema a nossa logística tinha resposta e lá começamos a retirar a roda, só que o frio estava a marcar presença de uma forma que os nossos dedos não tinham capacidade de resposta e pouco tempo depois, deixamos a reparação do furo pois os dedos já não nos respondiam, estavam brancos….foi ai que começamos à procura de lenha para fazer uma fogueira para que conseguíssemos aquecer as mãos e aquela zona onde estávamos.

A lenha que conseguimos reunir estava molhada ou húmida e da maneira convencional com fósforos não conseguíamos fazer com que a combustão se mantivesse, foi preciso retirar o tubo de gasolina da minha Casal e canalizar alguma gasolina para cima da lenha para que finalmente a fogueira ganhasse chamas para nos aquecer, pois a hipotermia estava muito perto.

Ganha a batalha da temperatura, remendámos o furo à luz da fogueira, ficando à sua volta pelo menos meia hora, tempo suficiente para nos recompormos e secarmos a roupa molhada entretanto por um aguaceiro que nos brindou com a sua passagem.

Metemo-nos a caminho e a partir dali o Joca foi à frente, ficando eu na posição de seguidor. Foi dessa forma que seguimos por Pegões, Vendas Novas, Estremoz, Arraiolos, Terrugem (sitio onde o Pai do Joca nasceu), e finalmente chegamos a Elvas, à casa do tio do Joca, quase brancos de frio.

O tio do Joca alguns minutos depois, perguntou-nos como é que nós tínhamos ido. Explicamos ao Sr. que tínhamos ido de mota, ele ficou preocupadíssimo e desceu rapidamente, pelas escadas para nos ir guardar as famosas Bombas, mas para grande espanto nosso, voltou pouco depois, dizendo-nos” …bom naquelas bicicletas ninguém pega ….”Com a sua pronúncia alentejana.

Estávamos de tal maneira cansados que, mal nos deitámos, adormecemos tipo pedra do período jurássico. No dia seguinte, vestidinhos de novo, lá fomos fazer a famosa compra das sapatilhas Tiger, eu com um blazer e uma camisa cinzenta (completamente desajustado) o Joca de pulôver à pipi do ténis.

Nessa altura tínhamos de parar na Fronteira para mostrar os documentos, o Guarda fronteiriço que nos fez o check in, olhou para as tais “bicicletas” perguntando-nos em ar de gozo…”mas vocês vieram das Caldas da Rainha nisso?..” nós com um ar de inocência, rimos e respondemos com o capacete na cabeça, abanando-o no sentido de cima para baixo, confirmando a resposta da pergunta.

Chegados a Badajoz, era a minha primeira vez por terras do reino de Leão, descobrimos logo que não era preciso usar capacete para circular nas tais motorizadas, visitamos alguns centros comerciais que na altura achei extraordinário, mas ficamos algum tempo pelos Preciados deambulando por aqueles sectores de artigos todos eles muito mais baratos que nas Caldas. Mas de sapatilhas Tiger nada de nada….

Decidimos ir procurar nas Lojas da especialidade, começamos a nossa odisseia das lojas desportivas, até que finalmente deparamos com um representante das famosas TIGER, olhamos um para o outro com um sorriso cúmplice…finalmente elas estavam ali à mão de semear.

Entramos na Loja e remexemos em quase todos os modelos dessa marca, quase que me ia apaixonando também por umas Stan Smith, que estavam ao lado, mas como só tinha dinheiro para um par tive de manter o objectivo que já estava traçado, TIGER. Eu comprei umas Tiger de Desportos de Pavilhão Azuis e o Joca umas Tiger super leves cinzentas.

Finalmente todos inchados saímos da Loja pois tínhamos conseguido as tais Tiger que faziam, pensávamos nós os Cubanos saltar mais alto que todos os outros e além disso tínhamos conseguido o nosso objectivo.

O dinheiro nessa altura já era escasso, mas tínhamos fome, depois de sondar o mercado à volta deparamos com um carrinho de rua que vendia cachorros que eram aquecidos de uma maneira que nunca o tínhamos visto, eram introduzidos num ferro Inox bicudo, depois punham a salsicha dentro desse buraco, começamos a comer os tais cachorros, mas não tínhamos nada para beber fomos andando para baixo na rua em direcção ás “bicicletas” , quando passamos pelo Simago que na altura era Famoso pelos seus batidos, soubemos mais tarde.

Decidimos comprar 1 litro de batido de Morango para cada um que foi dificilmente bebido pelos dois, tal era a dose e a consistência do batido que misturado com o cachorro deu mais tarde muito que fazer.

Voltamos então para Portugal, onde fomos brindados com uma carga de água que nos fez ficar com a roupa toda molhada, mais parecia o festival da camisa molhada, com os bicos dos mamilos a gritarem por piedade, tendo o tal guarda da fronteira feito sinal para passarmos sem parar. O resto desse dia foi passado a adorar as sapatilhas e a secar a roupa que tínhamos toda molhada, bem com a preparar a vinda para as Caldas da Rainha pelo mesmo caminho.

Na manhã do dia seguinte começamos a viagem, sempre com o Joca à frente e agora de dia. Sempre que aparecia uma subida mais íngreme, eu esticava a perna apoiava o pé na parte de trás da Boss do Joca e empurrava-o até ao final da subida, fazendo com que chegássemos a Vila Franca mais cedo do que o previsto por nós, fazíamos 50 km/h o que nos valeu uma viagem de regresso sem percalços com umas paragens para beber agua em algumas das fontes que nessa altura ainda existiam junto às estradas

Com o aumento do trânsito, na estrada nacional que passava por Alenquer, passei num cruzamento à frente do Joca, quando cheguei à saída de Alenquer, olhei para trás e o Joca já não estava lá outra vez, esperei um pouco e lá vinha ele com a sua diabólica Boss, que fez Caldas/Badajoz e Badajoz/Caldas somente com a segunda velocidade…de facto uma resistente, tinha voltado a descer para ganhar balanço para subir a ultima parte da subida de Alenquer.

Até às Caldas, não mais perdi o Joca, tive muito trabalho pelas subidas da Espinheira e Cercal. A minha Casal passou o teste e ainda conseguimos ajudar, devagar é um facto, a Boss do Joca a suplantar as dificuldades das subidas.

As sapatilhas fizeram um furor na altura, aliás acho que somente as descalçava quando tinha que dormir …..mas a tal questão de ajudar a saltar mais alto ..”essa” infelizmente não nos serviu de muito.

Há alguns dias, em conversa com o Joca, verificamos que ainda temos na garagem as famosas “Bicicletas”…quem sabe se não nos iremos por a caminho outra vez, afinal de contas foi há trinta anos …..Como o tempo passa como se nada fosse ……e uma boa aventura é sempre boa de repetir. Bom o elenco está um pouco mais pesado ….e o guarda roupa já não existe….mas há a jovialidade de sorrirmos com isto outra vez ……


Lanço um desafio .....Deixem as vossas crias continuarem a voar............eu fartei-me de Voar nas Asas da aventura...

Equipa de Voleibol da Casa do Benfica

.Nesta foto: Pedro Vilaça, Vilaça, Rui Pedro, Buiça, Paulo Nascimento,
António J F Albano, Paulo Zelú, Adelino, Almeida, Zé Matias, Querido,
António Querido, Nelson, Nelson Verissimo
 
Equipa de Andebol do Sporting das Caldas

.Nesta foto: Manuel Nunes, André, Chico Carillho,
António J F Albano, Nelson, Pedro
 
(post do António José Albano)

sábado, 5 de junho de 2010

RUA DO JARDIM



Cresci a correr, a diabrar e a saltar na Rua do Jardim. Aquela pequena rua (Alexandre Herculano normalmente chamada de Rua do Jardim), foi como que o meu recreio no pós aulas e em algumas partes das férias, jogávamos horas e horas futebol, ora nas sarjetas, ora tendo as portas de um dos lados da rua e do outro como balizas

Chegávamos por vezes a jogar com balizas na forma das portas dos prédios do mesmo lado da rua, pois os carros não nos deixavam espaço depois de estacionados para as tais jogatanas de portas feitas balizas, isto tudo decorria com o transito normal de carros a passar pela rua.

Tínhamos um grito peculiar, quando saiamos de casa, para brincar na rua, tipo Tarzan. …aliás foi nessa época que começou a passar alguns dos filmes das aventuras do Tarzan do Walt Disney na RTP e decerto foi ai que descobrimos as nossas valências para aquele grito de arrepiar qualquer barítono ou tenor mais medíocre, mas funcionava inacreditavelmente, pois que se alguém estivesse na rua era prontamente respondido, com outro grito parecido mas de duração mais curta, era essa a forma de nos reunirmos e combinar o que fazer nos próximos momentos.

A rua servia de acesso à Leão Azedo e à Heróis da Grande Guerra e possuía no topo (mas noutra rua) uma bomba de gasolina, da BP que nos cativava algumas vezes pela passagem de carros que iam abastecer de combustível que para nós na altura eram incríveis.

Lembro-me de uns BMW pequenos (que mais tarde viríamos a alcunhar de sapos) que tinham um design de chassis revolucionário para a época com duas rodas á frente, mas tendo as de trás, com a particularidade de estarem juntas, formando um conjunto que tinha como função dar direcção ao carro.

Possuía umas portas que abriam de uma forma estranha para a época, abriam da frente para trás que mais pareciam uma cápsula lunar, com um enorme vidro panorâmico que deixava ver os dois apertados e pequenos bancos de cores fortes em que o branco, azul e vermelho faziam a sua comunhão , dando-nos uma ideia do volante de cor branca de que o carro afinal também tinha direcção.

Recordo-me que esse carro ficava, enumeras vezes estacionado na Rua e que nos cobiçou o olhar e o imaginário de tal forma que a dona, uma Senhora alta de rosto escorrido e de cabelos muito bonitos mas por vezes muito despenteados, vestia-se com uns vestidos diferentes onde a cor e os decotes marcavam a diferença, nos apanhou algumas vezes a adorar o carro onde estava estacionado.

As primeiras vezes não achou piada alguma, mas com o tempo e as vezes que lhe ficávamos a guardar o carro•J… ela começou a gostar de nós, tendo inclusive nos oferecido por vezes alguns caramelos espanhóis que era tipo caviar JJ.

Passaram imensos anos até que um dia descobri quem era essa Senhora, o seu nome era Helena Pinto Bastos.….Alguém decididamente fora da época para melhor que facilmente, se notava tal a força da presença da senhora.

Outros dos carros eram os VW baixos e compridos, tipos Porsche, que achávamos engraçados deixando-nos cheios de inveja quando passavam por nós tipo espadas do James Dean, deixando-nos a sonhar com grandes velocidades e grandes rally´s que todos nós imaginávamos.

No inicio da rua existia na altura uma das lojas que principalmente nas segundas-feiras tinha um corrupio de gente que nos chamava a atenção, a loja do avô da Margarida e Vanda Simões.

Nessas segundas feiras, a convergência das pessoas dava-se porque era ali que se vendia, fatos de macaco, botas e fatos para a chuva de borracha, capotes para o frio e chuva e outra roupa de trabalho e agasalho como ceroulas brancas e grossas que marcavam uma das partes da loja, destoando com a sua cor branca no meio de tanto azul de ganga, verde e preto das roupas de trabalho, que estavam pendurados nos cabides altos e nas portas de entrada que davam para as duas ruas.

Essa loja tinha também uma particularidade de vez em quando, viamos entrar pessoas que de modo algum seriam das aldeias que circundavam as Caldas pois vestiam-se de fato e gravata e traziam consigo uma mala, que nos deixava com a pulga atrás da orelha.

Após a entrada dessas pessoas na loja nunca se dirigiam para o balcão mas passavam para trás do balcão ficando horas a falar com alguém que tinha uma secretária que recebia a luz da Rua do Jardim que um vidro de textura martelada deixava passar.

Bom… andámos, rodopiamos, ficamos sentados horas nos carros que estavam estacionados na rua do Tomás dos Santos, até que percebemos que aqueles senhores trocavam moedas e selos, deixando por terra a ideia de que algo se estava a passar e que os famosos detectives da rua do jardim iriam descobrir, não era nada mais que outra vertente de negócio que por ali se passava.

Somente mais tarde começamos a ficar cativados pelos selos que trocávamos entre nós fazendo-nos ir em busca de novidades a correr ao Silva Santos na praça da fruta, uma papelaria que existia ao lado da Frami que tinha um balcão coçado de madeira e resmas de livros mal arrumados atrás do balcão,

Onde se vendi-a uns cadernos que na altura chamávamos de capa de ferro com um senhor já de idade, que com uma paciência de santo, nos aturava nestas idas em busca de selos novos. Ia buscar os seus selos repetidos numa caixinha pequena de papelão dava-nos 10 selos se lhe trocássemos algum que ele não tivesse ele era na altura coleccionador que mais selos, possuía pelo menos que nós conhecêssemos.

A rua apesar de estreita e curta, fervilhava de vida, um pouco mais abaixo, estava a mercearia do senhor Joaquim, onde imensa gente se ia abastecer, sendo tudo “aviado” sem dinheiro, tudo era escrito num livro alto, grosso e estreito.

No final de cada mês as folhas eram riscadas pelo pagamento da divida, esse método era utilizado por grande parte das famílias na altura, era normal irmos buscar algo que faltasse na dispensa em casa e não pagar. A decoração era quase sempre a mesma um balcão com rebuçados e chupa-chupas á vista da criançada, uma balança de cor branca e pratos cromados, com uns compartimentos de madeira e vidro para o açúcar branco e ruço, as quantidades ainda eram pesados a granel e metidos nos famosos pacotes de papel, onde o feijão e o grão ainda era vendido às quartas e onde eu e os meus amigos iamos comprar $50 de bolachas Maria ou torradas (eram normalmente 10) que nos deliciava nos intervalos das tropelias.

Existia também, aliás acho que ainda existe um portão alto em rede pintado de branco e preto, que dava acesso a uma garagem, que era utilizado por nós e especialmente para jogar voleibol ou algo parecido, que nos consumia as energias horas a fio durante horas, os mais fervorosos jogadores desse jogo era eu e o Rui que ainda vive nas Caldas e é cunhado do Paulo Caiado.

Este portão fica paredes meias com a pensão da Dona Alice era um dos pontos daquela rua que me “ocupava” mais tempo, há algumas coisas que continuam bem vivas por aqui •…. O famoso cágado que nunca aparecia mas que sempre viveu por ali, aproveitava o pequeno canteiro que existia entre a casa e o armazém para se esconder e fugir ás tropelias dos Tózés grandes e pequenos e á sobrinha Elsa que não a vejo á pelo menos 30 anos,

Foram horas e horas a jogar ás cartas com todos os que nos desafiavam, há algumas coisas que me recordo, que me cativaram a curiosidade por algum tempo, uma delas era uma antena de rádio tipo mola em material ferroso que ocupava na totalidade do comprimento a parte de cima do túnel que ligava a parte da frente á parte de trás da pensão, por onde nós passávamos, para ter acesso a uma cozinha que era dominada por um fogão a lenha e uma mesa de mármore enorme onde batiam a massa e faziam os melhores rissóis que alguma vez comi na vida.

Essa parte da casa dava acesso então a duas salas de refeições. Uma mais convencional e formal que tinha acesso para a rua, para hóspedes esporádicos e outra que tinha acesso somente pela cozinha onde os hóspedes tradicionais comiam a comida que a Dona Alice, cozinhava.

Lembro-me de um senhor que se chamava Silva que não tinha cabelo na cabeça, e sobrancelhas, mas sempre sorridente nos dizia para nos portar bem, piscando-nos o olho como que a desafiar-nos para o contrário.

Mais abaixo existia uma funerária Neves, que estava quase sempre aberta e nos fazia ver que afinal a vida não é eterna, lá íamos a correr saber quem tinha morrido, claro está que nunca sabíamos quem era, mas era como que uma romaria obrigatória ao ver entrar mais um caixão para aquele carro funerário enorme que possivelmente tinha sido importado dos Estados Unidos,

A Dona Zita tal como a tratávamos (Era para nós fora de propósito tratar alguém por Sr.ª dona) ….estava sempre a dizer, que estão para aqui a fazer, vão brincar , qual quê …de pedra e cal lá ficávamos a olhar par o deslizar do caixão para dentro do carro.

Apesar de um pouco macabro, não induzíamos nada mais, aqueles momentos.Até aqui a rua era mais ou menos tranquila, mas a partir daqui era como que mudássemos de mundo.

Existia na altura um tribunal de trabalho, uma parteira, e um stand da Skoda ( na altura fez um enorme fervor, mas não durou mais de alguns anos ali, sendo substituída pelo Inácio abegão de produtos eléctricos), que coabitavam paredes meias com a taberna do David.

Era nessa parte da rua que quando vinha a época dos Santos Populares, que montávamos a nossa banca, ao lado de um dos locais que era quase obrigatório para nós passar diariamente o sapateiro (adorava ciclismo), tinha uma pequena divisão com uma bancada pequena e quatro bancos pequenos encostados á parede que serviam para as pessoas que iam lá por a conversa em dia pudessem se sentar, seria porventura alguns dos sítios onde se dizia mal, da mulher menos convencional e do regime de um modo mesclado com o futebol onde o Benfica nessa altura não dava hipóteses a nenhum clube.

Mas a possibilidade de ler a bola era para nós um doce e claro, naturalmente por lá ficávamos até o silêncio correr connosco daquele sítio.

Reuníamos algumas das coisas que não queríamos e fazíamos umas rifas para conseguir fazer algum dinheiro extra, Eu (Tó-zé grande) e Tó-zé (pequeno), Berto, Rui da Sapataria, Carlos e mais tarde o mano Zé e o Rui, organizávamo-nos em turnos pois não nos era possível, estar o dia todo naqueles preparos a tentar vender umas rifas a quem passava.

À segunda-feira era sem duvida o mais produtivo, pois as pessoas que vinham das aldeias fazer compras e se deixavam ficar para mais tarde acabavam naquela taberna a beber um copo de tinto pois tinham deixado os seus animais guardados nas cocheiras da subida do chafariz das cinco bicas e tempo era coisa que ainda não era unidade de medida.

Era ai que os esperávamos como que em comissão de recepção da rua e lhes conseguíamos vender duas ou três rifas, muitas vezes os prémios que ganhavam, eram-nos oferecido de novo.

De vez em quando a venda corria mal, pois o nível de alcoolemia era elevado. Mas houve algumas vezes que conseguimos sentar algumas dessas pessoas um pouco maltratadas pelo vinho, na nossa banca a vender rifas, estando nós sempre por perto da outra parte da rua sentados tipo abutres á espera que cai-se do banco….éramos realmente uns artistas nesse campo do negócio.

As pessoas passavam e ficavam incrédulas com a nossa performance… mas passando os santos populares não havia mais emoção, voltando ao normal da rua os gritos á Tarzan e ao mostrar de algo novo que algum comprava com o dinheiro que entretanto ganhávamos.

Havia a partir dessa zona, uma professora que dava explicações que nunca me lembro do nome dela, a casa do Berto e do Tó-zé pequeno eram vizinhos, uma tipografia e uma senhora que detestávamos e que nos culpava de tudo o que acontecia na rua que morava em frente a essa professora que tinha a casa na esquina,

Era problemático o frenesim que a senhora produzia, com os seus ralhetes, quando saia á rua com o seu cabelo armado e os seus óculos de lentes grossas.

No inicio alguns de nós ainda paravam para a ouvir mas depois começou a ser normal, pura e simplesmente ignorá-la o que a provocava de sobremaneira e claro, quando chegávamos a casa já lá estava a nota de culpa á nossa espera

A Tipografia,tinha umas maquinas impressoras que faziam um barulho ritmado com o vai e vêm do braço das máquinas que trabalhavam dias e dias sem parar, empurrando o papel de encontro a um rolo de tinta e uma placa com milhares de caracteres em positivo.

O barulho era incomodativo e nunca nos conseguia aguentar muito tempo.

O Sr. Silva que falei em cima na pensão da Dona Alice, morava por cima dessa tipografia.

Mais abaixo era o armazém de produtos de drogaria que tinha sempre na parte de fora da porta umas mangueiras para guardar um lugar onde as carrinhas paravam para descarregar e carregar para a distribuição do dia seguinte.

A Dona Célia, dona desse armazém era a nossa preferida, adorávamos a senhora apesar de haver uns ralhetes bem metidos de vez em quando. Mas claro não havia bela sem senão e por cima do armazém morava mais um dos detestáveis da rua

….Um senhor que sempre nos culpou de um vidro partido que nunca o fizemos e nem força teríamos para pontapear a bola aquela altura, o Berto era o alvo preferido dele, pois era o mais gozão de todos nós e claro, brindava-o com algumas imitações que ele começou a descobrir e que não achava piada nenhuma.

A rua ainda tinha um depósito de produtos farmacêuticos, um armazém de cereais cujo dono tinha uma filha de nome Clara que de vez em quando brincava connosco e que ombreava de ombro com ombro com os rapazes.

Antes da esquina e junto á Super América existia outro sapateiro o Sr. Carlos uma pessoa que tinha uma presença enorme e que tinha o atelier cheio de posters de equipas de futebol e o os famosos bancos em que as pessoas passavam algumas horas ou minutos no mal dizer.

Foi o Sr. Carlos talvez o primeiros nas Caldas a ter uma mota adaptada á sua deficiência que lhe inibia uma locomoção normal.

Mas á algo que sempre permaneceu, no meu imaginário e também se passava nessa zona da rua, na altura do natal o Abílio Flores mandava distribuir balões que tinham a publicidade do Gás Móbil, pela cidade com um pai Natal.

Essa personagem fechava-se num pequeno armazém perto do sapateiro Carlos e enchia centenas de balões com hélio, até ai tudo era normal, mas é que ele também dava uns click`s que faziam um barulho que simbolizava o barulho que o novo sistema de regulação do gás das garrafas de gás Móbil fazia, diziam eles que era um simples click .

Eram azuis-claros e tinham a cara alegre da campanha do Gás móbil, esses clicks fizeram-nos esperar horas a essa porta para cravar ao pai natal os tais click, s com que infernizávamos os nossos pais em casa e os amigos na rua.

Existia ainda o Dr. Lamy a quem chamávamos arranca dentes, a loja do pai do Badaró e a famosa Super América e as suas botas de cano alto pretas com pêlo por dentro, que a minha mãe me obrigava a usar no inverno.

Foram anos de brincadeira, que naturalmente tiveram o seu fim com o avançar da idade, uns conseguiram surfar e usufruir do gosto da vida, outros afundaram-se e resistiram á morte, estando hoje numa dinâmica dita racional da vida….

A todos os Tózés, Berto, Rui´s, Mano Zé, e outros que apareciam por vezes na rua para brincaram comigo e me deram o gosto de sorrir com vocês…um grande abraço.



(post do António José Albano)


Nota do Paulo Caiado:

A D. Helena Pinto Bastos era a proprietária dos referidos automóveis (BMW-Isetta e VW Karmann Ghia) e da Mansão da Torre. Era conhecida pela ‘’cabelos no ar’’ pela sua cabeleira sistematicamente despenteada e pelo seu rápido andamento nos seus afazeres diários. Uma figura!
O armazém a que o Albano se refere e cujo portão fazia de baliza, ao cimo da Rua do Jardm, era o depósito das bananas que o avô do Rui comercializava e onde estas amadureciam.
A ‘’Clara’’ do silo de cereais não seria antes ‘’Teresa’’? Eu também vivi nessa rua, por cima do silo até aos meus 10 anos e lembro-me dela a jogar melhor que muitos rapazes!







domingo, 23 de maio de 2010

DE REGRESSO A CASA





Tínhamos uma forma de regressar a casa, depois de terminar a aula na escola primária da Praça do Peixe deveras “peculiar”. …..

Depois de acalmada a correria inicial após a saída, a primeira paragem era logo na porta ao lado da porta da Escola, na Drogaria Mimosa (mesmo ao lado), o nosso olhar consumia diariamente a montra, que, se bem me lembro, mudou só uma vez a sua decoração quando alguém partiu o vidro e foi necessário substitui-lo.

Mas nada de novo se passava na montra, mas não sei porque raio, tínhamos um encanto pela montra, o que é certo é que olhávamos quase de olhos fora das orbitas para as embalagens com produtos químicos expostos com as magnificas e proibidas caveiras pequenas na parte inferior da embalagem, que passavam imensos meses na montra sempre brindadas com a nossa admiração diária.

Talvez a curiosidade fosse pelo medo que os nossos pais nos induziam acerca daqueles produtos. Após termos saciado a curiosidade com as drogas na montra da drogaria descíamos até á mercearia do Pena.

Olhávamos para as caras de bacalhau e para as línguas de bacalhau expostas á porta de entrada com um ar de enjoados do pior, aliás não me esqueço de enormes bacalhaus pendurados nas partes laterais das portas da mercearia, por cima das castanhas, nozes e amendoins, com uns papeis brancos agarrados a meio, com letras estilizadas de cor azul, “ Bacalhau da Noruega só no Pena” .

Houve alturas que uma ou outra língua de bacalhau era usada para atazanar alguém, ia parar á mala de algum mais distraído, claro está, que depois levava uma bronca das grossas pelo cheiro que aquele pequenino pedaço de peixe salgado produzia dentro da mala no quarto de quem fosse brindado.

Sempre que o empregado suspeitava de algo, lá estávamos nós com as caritas de anjo na primeira fila do sorriso, como se nada tivesse acontecido. Mas aquela mercearia, possuía ainda mais duas outras mais-valias, uma era aquele cheiro a café incrível, que nos entrava pelo nariz de tal modo que se tornava egoísta, não deixando entrar outros cheiros.

Bom mas esses cheiros faziam os caldenses passarem pelo menos duas vezes por mês no “Pena” para comprar um pacote de café, em papel de cores coloridas esbatidas, que se fechava no topo com a dobragem da parte superior do pacote do qual resultavam, dois triângulos rectângulos que ficavam opostos, mas que muitíssimas vezes eram atados com a passagem da guita numa das dobras que nessa altura usavam e partiam, com uma perícia de ourives em todas as lojas.

Muitas vezes, tentei nessa altura partir o raio da guita e nadaaaaa…

A outra mais-valia do Pena era sem duvida o sitio onde íamos comprar umas pastilhas de nome pirata que faziam uns balões, maiores que as nossas cabeças. Por imensas vezes metemo-nos em sarilhos com essas “performances”, brindando com alguns pedaços de pastilha esticada resultantes dos estoiros desses balões algumas das pessoas que pela praça do peixe, passavam e se cruzavam connosco nos momentos da grande “arte do balonismo”,

Bom até ai seria tudo tranquilo, mas as contra-indicações dessa brincadeira fazia-nos aparecer por vezes após o intervalo, com os cabelos cheios de pastilha, o que nos valia sempre valente reprimenda do professor e por norma, um corte de cabelo bem mais curto, no meu caso no meu tio Hermínio em frente ao antigo quartel da GNR.

Bom já consegui andar 20 metros desde a porta de saída da escola…..nada mal.

Entravamos então na rua Heróis da Grande Guerra onde o nº125 me esperava todos os dias por volta das 13h30, cruzávamo-nos então pelo Ramiro e com as suas montras em curva, onde estava sempre dois manequins masculinos e um feminino, eles de fatos completos, sempre escuros com umas gravatas brilhantes numas posições de Peter Pan, enquanto o manequim feminino, sempre vestido de noiva, coisa que achávamos na altura uma chatice ‘’coitada da mulher tinha de levar aquilo tudo vestido’’ pensávamos nós terríveis “cavaleiros da arte de bem vestir”.



Era então ai, que se dava o inicio da corrida que religiosamente todos os dias iniciávamos nessa parte da rua para executar um salto, na tentativa de chegar a um sinal de trânsito, para aferir a nossa altura já que a loja a seguir ao Ramiro nunca nos cativou, vendia, pratos e serviços de chá os quais achávamos uma tremenda de uma chatice.

Esse sinal estava num suporte que estava cravado na parede antes da padaria que existia na altura e que vendia uns bolos em forma de rim e uns triângulos de coco com os quais ainda hoje me perco, formidáveis acreditem, bolos incríveis comemos nós ai.

Refeitos do esforço sobre humano para nós na altura na vã tentativa de perceber se poderíamos chegar ao sinal, cruzávamo-nos com uma loja que vendia tachos e panelas de alumínio com as pegas pretas e artigos em plástico, que tinha umas portas exteriores verdes, que misturava a madeira com algumas varas de ferro fundido trabalhado.

Com a nossa correria de vez em quando brindávamos os plásticos com uns ligeiros pedidos de licença para passar, nunca aceites por eles, e o resultado era, projecção para a estrada, para um espaço que estava normalmente reservado com duas caixas de madeira e duas tábuas em cima delas em jeito de hipotenusa, para que as camionetas pudessem descarregar as rações para a loja que estava a seguir.

No cruzamento da primeira estrada que tínhamos de atravessar existia e acho que ainda existe uma loja que vendi-a malhas e que mostrava garbosamente os seus pullover´s de lã virgem em manequins de meio corpo sem cabeça, nas suas pequenas montras de meia altura, tapados com uns papeis transparentes amarelos e verdes nas horas de maior luminosidade, estando no interior da loja uma senhora com um ar carrancudo que nunca nos cativou para dar-nos liberdade á nossa curiosidade e criatividade nos lanifícios de pura lã virgem.

Depois de passado este cruzamento aparecia um talho do qual não me lembro o nome, que nos gastava alguns momentos a olhar de caras coladas á montra de narizes apertados de encontro ao vidro para as peças de carne penduradas, prontas a serem vendidas Os empregados de bata branca com alguns vestígios de sangue, andavam de um lado para o outro a afiar vigorosamente as suas facas de lâmina enorme, no fuso.

Era com essas enormes facas que para nós na altura pareciam espadas que talhavam os bifes e as bifanas, de pedaços que retiravam das pernas enormes de vaca e das peças inteiras do porco para as senhoras de penteados de caracóis e pregadeiras cheias de pedras reluzentes, com saias e casacos do mesmo tecido, que levavam sempre uma sesta rectangular de sisal ou algo do género que tinha uns riscos na horizontal verdes e encarnados e uma pega desse material entrelaçado.

Quando a acção deixava de ser interessante, passávamos para a próxima paragem que era sempre muito curta, pois o nosso forte nunca foi os sapatos, a sapataria Macadi, com a sua mistura de sapatos e botas nas montras e na exposição de exterior eram meras bolas brilhantes na arvore de natal para nós.
O que nos fazia deslizar um pouco mais na rua fazendo-nos passar entretanto pelo depósitos de pesticidas da Sapec, que tinha um portão enorme onde hoje é uma rua, além disso tinha também, uma montra enorme talvez a maior das Caldas durante décadas, apesar de escondida, sitio esse que nos dava abrigo aquando de algumas chuvadas mais fortes, mas que o cheiro de pesticidas nos fazia sair dali rapidamente, pois aquele cheiro provocava uma terrível má vizinhança.

Com alguma pena a minha casa estava a aproximar-se e como desde novinho aprendi, que á volta do burgo, não se queima as cortinas a contenção e o portar bem, tinha de estar no ponto todos os dias nesta aproximação a casa, não fosse alguma vizinha ou amiga da minha mãe estar plantada na janela a ver as modas a passar na rua.

Tendo ainda de passar pela Alliance Francaise e atravessar a rua do quartel dos bombeiros (era assim que a chamávamos), que possibilitava aos carros voltarem para a rua Heróis da Grande Guerra ou continuar para a Almirante Reis (rua das Montras, hoje estas ruas não tem transito), bem como pelo Gil com os seus vidros e espelhos.

Mas por último vinha o supermercado Nutripol que para a altura era quase uma inovação com o carrancudo do Sr. Ribeiro sempre a olhar para nós quando nos vi-a a comprar uns chocolates e uns Sugus ou Smarties em dias de algumas prendas monetárias.

Retirava a chave de casa da mala que sempre usava nas costas, metendo-a na fechadura rodando-a com frenesim, para uma subida de escadas tipo míssil, em direcção ao sofá para assistir ao final da emissão da RTP 1 que nessa altura acabava às duas da tarde.

Era assim um simples regressar a casa depois do fim das aulas na Escola Primária às 13h00, percorrendo pouco mais de 400 metros …


(post do António José Albano)


Cat Stevens - Remember The Days Of The Old Schoolyard