segunda-feira, 22 de novembro de 2010

EM SERVIÇO PÚBLICO

OBRIGADO SENHOR GULBENKIAN

Ainda hoje não consigo entender muito bem as razões porque Calouste Gulbenkian se decidiu a ficar em Portugal e dedicar toda a sua fortuna à instrução, formação e cultura do povo português.

Para quem conhece pouco a sua história direi que era um rico comerciante arménio nascido em Scutari, Turquia e que por disposição testamentária, antes de morrer em Lisboa, determinou que a maior parte de sua fortuna, acumulada na indústria e no comércio do petróleo, além de quadros e objetos de arte, fossem destinadas para uma fundação em Portugal, a Fundação Gulbenkian (1955), cujo objectivo seria promover a caridade, a educação, a arte e a ciência.

Cônsul-geral do Irão em Paris, no início da segunda guerra mundial refugiou-se em Portugal (1942), onde fixou residência.

Era conhecido como "senhor cinco por cento" devido à sua participação de 5% na Iraq Petroleum Company.

Em Abril de 1942, entrou em Portugal pela primeira vez, convidado pelo embaixador de Portugal em França.

Inicialmente, Lisboa seria apenas uma escala numa viagem a Nova Iorque, mas o empresário adoeceu e acabou por ficar mais tempo do que planeara, agradado com a paz que em Portugal se vivia durante o conflito que devastava o resto da Europa. Sentindo-se bem acolhido, estabeleceu residência permanente em Lisboa, no Hotel Aviz. Acabou por se instalar definitivamente em Portugal até à sua morte em 1955.


O testamento, datado de 18 de Junho de 1953, criou a fundação com o seu nome que ficou herdeira do remanescente da sua fortuna, e que tem fins caritativos, artísticos, educativos e científicos, elegendo Portugal para a sua fixação - agradecendo, postumamente, o acolhimento que teve num momento crítico da história da Europa e sabendo o respeito que em Portugal haveria pelo escrupuloso cumprir da sua vontade.

Já ouvi testemunhos de Mário Soares e de Jorge Sampaio que foram seus advogados e que referem que o facto de Gulbenkian ter permanecido no nosso país quando de inicio estaria apenas em trânsito para um exílio nos Estados Unidos, foi o facto das pessoas o cumprimentarem sempre com um sorriso e um bom dia no elevador do Hotel e nos cafés sem mesmo saber quem ele era. Dizia que isso era raro nos outros países que visitara.

Um bom dia com um sorriso fez com que Portugal beneficiasse por mais de 50 anos da sua generosidade, da sua solidariedade.

A minha crónica de hoje, ‘’EM SERVIÇO PÚBLICO’’ fala de mais um episódio pitoresco da minha adolescência, fala da minha paixão pelos livros, fala dos momentos que eu deixava a minha mente voar para os mundos dos piratas do Capitão Morgan e do Sandokan, para a selva de Tarzan, para as sete partidas do mundo de Júlio Verne e até para os fantásticos lanches dos Cinco! Fala da Biblioteca Gulbenkian instalada no parque D. Carlos I!

Devo muito à biblioteca Gulbenkian em termos de instrução, formação e lazer. Os seus livros ajudaram-me tanto a superar aqueles dias tristes de chuva de inverno que, por fim, já ansiava por eles.

Olhando agora para trás, vejo que também eu beneficiei da generosidade, da bondade de um refugiado estrangeiro, que apenas procurava abrigo de um mundo em guerra.

Ainda hoje existe quem procure abrigo de uma sociedade desequilibrada. Mas muitos não têm os meios de Calouste Gulbenkian.

E assim e agora, chegou também a minha vez de retribuir a generosidade de Calouste Gulbenkian, ajudando quem mais necessita.

Por isso no dia 11 de Dezembro estarei em Óbidos na Festa Anos 70 e 80 em Apoio à Instituição AJUDA DE BERÇO.






EM SERVIÇO PÚBLICO

Já anteriormente, em outras crónicas, abordei a importância que a Biblioteca Gulbenkian, instalada num dos pavilhões do parque, teve não só para mim mas para toda a população das Caldas e muito particularmente para os jovens da minha geração.

Adquirir livros não era um acto tão corriqueiro quanto o é hoje e o poder económico das familias nos anos 60 e 70 não era grande. Apesar de existirem várias livrarias nas Caldas como a Parnaso, a Pelicano, a Polana e a Tertúlia e a Tália também vendiam livros algumas papelarias como a Áurea, o Silva Santos, a Átila e ainda a Jornália. Contudo comprar livros ao ritmo da sua leitura era despesa completamente impensável quando o rendimento familiar era contado até aos tostões.

Daí que no seguimento da biblioteca instalada em 1962 num pavilhão do parque já com leitura domiciliária, foi inaugurada oficialmente em 1969 a biblioteca nº 156 da Fundação Gulbenkian. Esta biblioteca da Gulbenkian passava agora a ser fixa depois de anos em que serviu as Caldas com serviço itinerante.

E assim, a partir de meados dos anos 70 passei a frequentar assiduamente a biblioteca, tornando-me um utilizador frequente e constante e foi graças a esta biblioteca que pude aceder às obras que ilustraram a minha adolescência. Primeiro as obras de Julio Verne, Emilio Salgari, Enyd Blyton, Edgar Rice Burroughs, Leslie Charteris, Agatha Christie, Sir Arthur Conan Doyle, George Simenon, Paul Feval, Erle Stanley Gardner, Ellery Queen, Alexandre Dumas e depois os autores portugueses, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão.


Entrava na biblioteca e depois de apresentar o meu cartão à bibliotecária sentada à direita de quem entra e apresentar os livros que levara para casa, disparava para as prateleiras situadas imediatamente à esquerda da porta de entrada.

Sabía que iria aí encontrar os livros indicados para a minha idade. A forma de classificação da biblioteca era bastante interessante com etiquetas coloridas na lombada de cada livro. Cada cor indicava o limite mínimo de idade a que podíamos aceder ao título. Os livros estavam dispostos por cores e eu sabia quais as prateleiras que continham os livros que podia levar para casa. Eram as à esquerda da porta. Só à medida que fui crescendo pude aceder às outras prateleiras, primeiro às do centro e depois às do fundo. Nunca cheguei às da direita e muito menos à sala do fundo onde estavam as preciosas encadernações resguardadas das mãos das crianças. No inicio dos anos oitenta quando parti para Lisboa já pouco utilizava a biblioteca que contudo se manteve em funcionamento até 1997.

O meu gosto pela leitura ficou mas ainda hoje me custa pegar em livros que não são meus, com receio de os estragar, com pena de não os manter!

A biblioteca cedeu o seu lugar à Biblioteca Municipal, erigida na Rua Vitorino Froes mas ainda hoje ao passar diante da porta da antiga biblioteca sinto uma grande nostalgia desses momentos passados no seu interior em busca de um novo título ou de quando quase corria para o parque logo após a hora de abertura para verificar se já fora entregue o livro que eu perseguia há semanas.

E ao olhar para aquela porta interrogo-me como teriam sido diferentes aquelas tardes de inverno chuvosas se não tivesse a companhia de todos aqueles livros cuja leitura a biblioteca me proporcionou.


E pergunto-me também como terão passado os outros jovens mais velhos do que eu se não fosse o serviço que a biblioteca e a Fundação Gulbenkian proporcionou à população caldense.

A história do serviço bibliotecário nas Caldas é interessante. Só nos finais dos anos 40 se instalou a primeira biblioteca nas Caldas quando uma comissão sob o nome de Grupo de Amigos da Biblioteca conseguiu reunir suficientes donativos e obras suficientes para constituir uma primeira biblioteca que ficou guardada no Sindicato dos Caixeiros.

Depois conseguiu-se instalar provisoriamente num dos arruamentos do Parque, por trás da estátua de Ramalho Ortigão, uma biblioteca de apoio ao jardim apenas com uma estante e uma mesa. Os livros tinham de ser lidos no local e devolvidos antes do encerramento.

Biblioteca instalada no Jardim Teófilo Braga (Jardim da Parada) em Campo de Ourique.
A biblioteca do Parque D.Carlos I deveria ser semelhante a esta que data da mesma altura.

Só em 1962 se inaugurou uma biblioteca com serviço domiciliário num dos pavilhões do parque, calculo que no mesmo local onde se situou a Biblioteca Gulbenkian que lhe sucedeu em 1969.

Esta biblioteca substituiu o serviço itinerante que a Gulbenkian já proporcionava à população local.

Os serviços bibliotecários itinerantes da Gulbenkian foram criados em 1953 e eram constituidos por unidades móveis, carrinhas Citroen Hy especialmente adaptadas para o efeito que transportavam no seu interior mais de 2000 livros.


Passaram a servir a população das Caldas e concelhos limítrofes a partir do inicio dos anos sessenta e as suas distintivas carrinhas Citroen ‘’Rinoceronte’’ tornaram-se famosas por todo o país.

Mal saberia a Gulbenkian que utilidade teria uma dessas carrinhas após a sua merecida reforma!


No inicio dos anos 80, um nosso amigo,o Luis Oom, apareceu um dia na Foz, onde a sua familia ainda hoje mantém uma casa de férias, com uma dessa carrinhas que tinha adquirido não me lembro em que circunstâncias.

A carrinha mantinha a iluminação original ou fora-lhe instalada um género de gambiarra e no seu interior foram montados uns divãs e uma mesa com banqueta. Parecia uma autocaravana rudimentar!

O Luis mostrou-a orgulhoso a todos os seus amigos e todos tivemos direito a dar uma volta. Finalmente, no sábado seguinte, o Luis decidiu ir nela até à Green Hill.

Estacionou-a triunfante perto da entrada, com a frente a dar para a parede à direita da entrada onde pediu ao Sr. Beja que lhe fosse deitando um olho.

Nessa mesma noite um seu amigo, conhecido por todos os que desde sempre frequentaram a noite da Foz, veio pedir-lhe um grande favor. Queria namorar à vontade com a sua namorada de há muito e gostaria de poder estar mais em privado com ela na carrinha Citroen.

No inicio o Luis recusou veemente mas depois ainda que relutante aquiesceu ao pedido do seu amigo mas encheu-o de recomendações e alertas para manter a decência.

Que sim, afiançou-lhe o amigo. Não haveria lugar a nenhuma falta de respeito, seria tal e qual o namoro no interior da discoteca mas ao abrigo dos olhares e das bocas dos amigos.

O Luis ainda se manteve muito preocupado. Tinha medo do que poderia acontecer e do que isso poderia ter como consequências para si próprio como proprietário da carrinha. E ficou ainda mais de pé atrás quando o amigo lhe garantiu que não aconteceria nada mais do que normalmente acontecia no interior de qualquer outra viatura estacionada no parque da Green Hill. O que ele foi dizer!!!


Finalmente com a garantia da jovem namorada ele lá entregou as chaves da Citroen e o casalinho lá foi todo lampeiro para a viatura.

Mas o Luis continuava inquieto e acho que só sossegou quando o Rodrigo, o ‘’Batata’’, subiu ao tejadilho da carrinha e espreitou pela claraboia que aí existia, certificando-lhe que tudo se mantinha dentro dos limites da decência.

A partir dessa vez foram muitas as noites que a carrinha esteve estacionada à porta da Green Hill e foram também muitos os pedidos que o Luís teve para ceder a viatura por alguns minutos. O Luís mostrou-se algumas vezes irredutível mas a verdade é que de vez em quando lá a voltava a emprestar. Contudo, os pedidos eram tantos que sugerimos que começasse a cobrar e a determinar o período de tempo de utilização para dar lugar a todos.
Foi o suficiente para o Luis desaparecer com a carrinha e até hoje não voltei a pôr-lhe a vista em cima!

Que será feito dela? Terá a Gulbenkian consciência do enorme serviço público que aquela Citroen continuou a prestar ao longos desses anos após a sua reforma?






AS BIBLIOTECAS ITINERANTES DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN (1958-2002)
Texto Complementar à crónica ''Em Serviço Público''


Para o início efectivo das bibliotecas móveis em Portugal é apontado a data de 1953, referente ao início dos serviços de uma biblioteca-circulante, implementada por Branquinho da Fonseca, no Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, em Cascais, onde na altura exercia funções de conservador-bibliotecário. Esse carro-biblioteca deslocava-se até “às associações, escolas e lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo domiciliário, o acesso ao livro pela população.” [Neves, pág. 3]. Era de carácter gratuito e o acesso às estantes era livre.

Biblioteca móvel, do Museu-Biblioteca do Conde Castro Guimarães, de Cascais
(ver fonte no fim do post)

Em 1958 a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) criou, por sugestão do mesmo Branquinho da Fonseca, um serviço similar ao de Cascais, mas que almejava abranger todo o território nacional, incluindo mesmo os arquipélagos. Surgiu assim o Serviço de Bibliotecas Itinerantes (SBI), que B. da Fonseca dirigiu até à sua morte (1974). Este tinha como objectivos “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço.” [Neves, pág. 3] Afigurava-se como tal um serviço de leitura pública moderna.

O público a quem era mais dirigido o serviço era sobretudo aquele que era mais parco no acesso à educação e cultura, habitando nas regiões mas desfavorecidas. estendendo-se a todas as faixas etárias. Todavia será no público mais jovem que este serviço terá melhor acolhimento, apesar de se pretender contemplar de modo símile todas as idades. (ver [Melo, 2004a])

“As bibliotecas itinerantes ou carros-biblioteca levavam a bordo cerca de dois mil volumes arrumados nas estantes. Nas prateleiras de baixo, encontram-se os livros para crianças, nas prateleiras do meio a literatura de ficção, de viagens e biografias e, por fim, nas de cima os livros menos procurados, de filosofia, poesia, ciência e técnica. Circulavam por territórios que abrangiam mais do que um concelho, permitindo, após o cumprimento das formalidades de inscrição e requisição, o empréstimo dos livros por períodos de um mês, prorrogáveis, sendo até possível efectuar reservas.” [Neves, pág. 3 e 4]

A opção inicial por bibliotecas itinerantes foi motivada sobretudo pelo facto de grande parte das populações nunca antes terem tido contacto com este tipo de serviço e como tal revelava-se essencial ser a biblioteca a deslocar-se até elas, até em razão dos potenciais leitores possuírem poucos tempos livres, e de os meios de deslocação dos mesmos serem escassos. Com os veículos móveis era possível chegar ao Portugal mais profundo, dos pequenos lugarejos, de habitações mais dispersas (e uma grande parte destes povoados nem se localizava propriamente no interior do país). Indubitavelmente o cerne deste serviço era o leitor e as suas efectivas necessidades, o que era algo incomum nas bibliotecas mais tradicionais portuguesas. (ver [Melo, 2004b, pág. 282-83 e 330-331])

Este serviço era em muitos casos o único contacto com os livros que se possibilitava a muitas populações. Todavia, observa-se o cuidado de não atender apenas à leitura lúdica (embora seria esta a mais saliente) mas também à leitura informativa e formativa, abarcando o maior número de temáticas possíveis (e também incluindo nestes manuais de estudo, oficiais). A escolha do fundo documental obedecia a critérios bem definidos, por uma comissão, e era publicado num catálogo, actualizado regulamente (o primeiro, de 1960, possuía 1674 títulos diferentes). No acervo das obras disponíveis foram-se incluindo mesmo, embora lentamente e com certas reservas, algumas obras que não eram muito do agrado dos dirigentes políticos do Estado Novo. Ressalva-se, todavia que o empréstimo deste tipo de obras, era restrito a certas pessoas. (ver [Melo, 2004a])

Bibliotecas Itinerantes (Citröen) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Inicialmente, em 1958, foram colocadas em circulação 15 bibliotecas itinerantes (sobretudo na região de Lisboa e litoral), mas o seu crescimento inicial foi deveras acentuado, sendo que em 1961 já circulava pelo país (estendendo-se ao interior) um total de 47 veículos de marca Citröen. (ver [Melo, 2004b, pág. 334]) “No que concerne ao pessoal que assegurava o funcionamento destas unidades móveis, era constituído por dois elementos: o auxiliar e o encarregado, responsável pela biblioteca, a quem competia orientar o leitor nas suas escolhas de leitura”. [Neves, pág. 4] O encarregado “não tinha de de ter nenhum curso específico, nem sequer de ser diplomado, apenas precisando de ser alfabetizado, evidenciar alguma cultura geral, gosto pelo livro e predisposição para o contacto com o público”. Entre eles incluíram-se “grande número de intelectuais reconhecidos” como Alexandre O’Neill ou Herberto Hélder [Melo, 2004b, pág. 285]

A FCG estabeleceu parcerias com as autarquias, em que estas cediam instalações para depósitos de livros (cada carrinha tinha o espólio no interior e mais o dobro de reserva num espaço exterior) e pontualmente contribuíam para o pagamento das despesas, ao passo que à FGC arcava com o grande ónus das expensas (fornecer o acervo de obras, o biblio-carro, pagar os honorário do pessoal, o combustível, despesas de manutenção e conservação, etc). (ver [Melo, 2004b, pág. 283-84]) A Gulbenkian teve assim a incumbência de se substituir em grande parte ao Estado a sua função de criar uma rede de bibliotecas, até pelo facto de o Estado não estar muito interessado na formação de cidadãos plenamente esclarecidos e informados. Por outro lado, e reportando somente ao valor material do livro, o seu corrente acesso era na época apenas factível a classes mais favorecidas.

Este serviço itinerante teve desde o seu começo uma elevada recepção, sendo que somente três anos volvidos, em 1961, o número de leitores inscritos era de cerca de 250 mil e foram requisitados cerca de 2,5 milhões de livros. Apenas para se observar a acentuada evolução, no ano seguinte o número de leitores inscritos era já de cerca de 350 mil e foram requisitados cerca de 3,5 milhões de livros (ver [Melo, 2004b, pág. 334])

Gradualmente, desde o 2º semestre de 1959, foram-se instalando algumas bibliotecas fixas, sobretudo em locais de maior centralidade e inseridas em organismos públicos, o que induziu, pelo menos a um acréscimo mais paulatino dos efectivos móveis. Em 1962 já existiam 36 bibliotecas fixas e 47 móveis, o que já evidenciava uma razoável cobertura do país. “Em 1963 introduziram-se as bibliotecas itinerantes e fixas nos Açores e na Madeira. Em 1967 contabilizavam-se 205 bibliotecas (61 móveis e e 144 fixas) (ver [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Ainda assim, só em 1972, é que a própria FCG deu por «concluída» a sua rede de bibliotecas itinerantes e fixas, totalizando, respectivamente, 62 e 166 unidades” Nesse ano existiam cerca de 475 mil leitores inscritos e foram requisitados cerca de 6 milhões de livros. [Melo, 2004b, pág. 291 e 334]. As Bibliotecas móveis sempre serviram aos povoados mais pequenos e periféricos ao inverso das fixas.

Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Desde o início da década de 70 o projecto SBI vê a sua sustentação fragilizada no seio da FCG, pois esta pretendia que as despesas (bastante elevadas e com um 'retorno' algo dúbio) fossem repartidas com o poder central e local. Em 20-2-1974 chegou mesmo a existir uma reunião onde se discutiu a extinção da SBI, contudo a eclosão do 25 de Abril, mudou o panorama global e o serviço manteve-se, sofrendo algumas reestruturações.

No período (1981-1996) em que Vergílio Ferreira foi director do SBI, foi enfatizado a animação da leitura e a difusão literária e cultural. Deste modo forami reforçadas as actividades de promoção da leitura e dos livros (exposições, debates, encontros com autores, leitura de contos e poesia, etc.) nas bibliotecas Gulbenkian. Em 1983 o SBI foi renomeado SBIF (Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian).

Vergílio Ferreira”foi um defensor da manutenção do projecto de bibliotecas FCG, pois entendia que a proposta lançada pelo IPLL não era uma alternativa completa, dado não cobrir então todo o pais (excluía as regiões autónomos) e por não ter um serviço de unidades itinerantes.” [Melo, 2004b, pág. 302].

A implementação gradual do Programa Nacional de Leitura Pública, a partir de 1987, que visava a construção de bibliotecas de feição mais moderna de acordo com os princípios de Manifesto da UNESCO contribui para o decréscimo progressivo do número de efectivos da SBIF que se vinha registando desde o início da década da década, sobretudo de móveis que rapidamente se extinguiram (ver[Melo, 2004b, pág. 294-298]. Por outro lado muitas das novas biblioteca da Rede Nacional de Leitura Pública começaram a integrar o serviço de biblioteca itinerante. Contudo em muitos dos casos a gradual ausência das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian das povoações, não foi colmatada pelos novos serviços móveis, sobretudo nos povoados mais periféricos.

Em 1993 o SBIF passava a SBAL (Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura) e em 19 de Dezembro de 2002 era definitivamente extinto.

Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

No total, segundo aponta Manuel Carmelo Rosa, director do Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Gulbenkian, o serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da FCG emprestou ao longo de quarenta e quatro (1958-2002) anos cerca de 97 milhões de livros e, chegou a quase 29 milhões de leitores, distribuídos por cerca de três mil novecentas povoações. Para cumprir com sucesso esse serviço adquiriu ao longo dos anos mais de cinco milhões de livros. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Estes números são muito diferentes do que Daniel Melo apresenta. Relativamente ao número de empréstimos, e apenas entre 1958 e 1989, este regista 140 862 248 livros emprestados; e no mesmo período de tempo relativamente a livros adquiridos regista 7 849 749 livros. [Melo, 2004b, pág. 334-335]. Na mesma obra de Daniel Melo é registado que apenas entre 1958 e 1990 o número total de leitores foi 46 423 881. Desses, cerca de 36 551 663 (78,7%) foram crianças e adultos [Melo, 2004b, pág. 343]. Estes valores evidenciam a enorme importância que este serviço da Gulbenkian assumiu em Portugal e espelham de modo singular o elevado sucesso que granjeou no seio do povo português.

A propósito, Carmelo Rosa lembra que quando uma biblioteca móvel era substituída por uma fixa todo o acervo da móvel (quer do seu interior, quer em depósito) era oferecido ao município. Em Dezembro de 2002 com a extinção do programa praticamente todo o acervo bibliográfico e documental transitou para as autarquias. (ver notícia LUSA/RTP abaixo)

Saliente-se que a Fundação Gulbenkian continua a prestar um fundamental apoio às bibliotecas portugueses, sobretudo Públicas e Escolares, agora não através de unidades físicas (fixas ou móveis), mas de programas, serviços, diversas iniciativas, apoio financeiro e material, etc. que lhes concede; e de eventos e iniciativas (conferências concursos, formações, etc.) que produz nos e a partir dos seus espaços. E como lembra Carmelo Rosa "no seu website tem disponível mais de 30 mil fichas de leitura relativas ao que mais importante se publicou desde a década de 60".

Biblioteca Itinerante (renovada) da Fundação Calouste Gulbenkian
(ver fonte no fim do post)

Se desde finais da década de 80 o número de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian diminuiu, essa redução foi sendo contrabalançada com o acréscimo sucessivo, de novas unidades referentes às bibliotecas não pertencentes à rede Gulbenkian. Estes bibliomóveis apresentam-se, regra geral, melhor apetrechados, incorporando já sistemas multimédia e informáticos. Por outro lado tem se vindo a diversificar o tipo de serviços móveis prestados, com a inclusão de bibliocaixas, bibliomalas, etc. A edificação de pólos e extensões das bibliotecas públicas não tem sido muito significativa, não servindo assim efectivo contraponto a este serviço. Na actualidade existem várias dezenas de bibliotecas públicas que prestam este serviço itinerante.

Na generalidade dos países da UE ou da OCDE, e basta olharmos para os nuestros hermanos, existe uma considerável profusão de redes de bibliotecas móveis. E na generalidade dos casos, não se tratam apenas de meros princípios verbais assinados num documento ou pontuais intercâmbios de serviços, produtos ou recursos humanos. São efectivas redes onde em muitos casos a mesma unidade móvel movimenta-se um raio de acção supra-concelhio, orientada por políticas de promoção da leitura e da literacia digital de âmbito regional.


Referências bibliográficas:

MELO, Daniel

2004a Leitura e leitores nas bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957-1987). [em linha] [consultado em 23/12/2006]

2004b A Leitura Pública no Portugal contemporâneo : 1926-1987. Lisboa : Imprensa de Ciências Sociais. ISBN 972-671-137-1

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato word-pdf)

Gulbenkian emprestou 97 milhões de livros – notícia da Agência Lusa/RTP 18-7-2005

Fonte das imagens (referenciadas acima):

NEVES, Rui – As bibliotecas em movimento. As bibliotecas móveis em Portugal. [em linha] [consultado em 23/12/2006] Disponível em www:

Comunicação apresentada no “II Congreso de Bibliotecas Móviles”, que decorreu em Barcelona, de 21 a 22 de Outubro de 2005. (em formato ppt)


Publicada por Fernando Vilarinho no blog ''Bibliotecas de Portugal'' em 12/24/2006

2 comentários:

HERMINIO DE disse...

Olá Paulo
Longe de mim encontrá-lo nestas andanças biblioteconómicas; gostei imenso.
Cordialmente
Fátima Abreu (FRAMI)

Paulo Caiado disse...

Olá Fátima, ainda bem que gostou. As minha crónicas não pretendem dar uma visão histórica no sentido cientifico da cidade. São mesmo memórias, recordações de momentos que merecem ser contados por terem sido curiosos ou engraçados ou por me permitirem manter viva a lembrança de locais, eventos e sobretudo de pessoas que marcaram a cidade. Bj Paulo