sexta-feira, 23 de julho de 2010

CALOS, BANHOS E OUTRAS DORES - o Remo na Lagoa de Óbidos


Em 1976, após a extinção do Centro Universitário de Lisboa (CUL), por ligação à Mocidade Portuguesa, os atletas da Secção de Remo, sob o comando do seu carismático líder, António Vidigal, fundam nas Caldas da Rainha, para onde este se tinha mudado com toda a famíl...ia, o Nautilus Clube de Regatas.

Esta foi uma forma de, aproveitando a presença em permanência nesta região do muito experiente e visionário António Vidigal, dinamizar o Remo, na sequência das regatas universitárias internacionais que tinham ocorrido no inicio de Abril de 1974 no braço do Bom Sucesso.

Fazendo uso da tradição familiar na prática do Remo, actualmente já na 4ª geração, incentivou os filhos à prática da modalidade, estimulando-os a trazerem os seus novos amigos caldenses para a modalidade.

Com a base logística na velha e sempre Rua dos Loureiros (actual Rua Maria Ernestina Martins Pereira), todos os sábados e domingos, de Outubro a Julho, começou a sair em direcção à Foz do Arelho uma excursão de barcos e remadores.

Nos primeiros anos, 1976/77, a actividade dependeu mais da participação dos antigos remadores.A partir de 1978/79, começam a aparecer os primeiros remadores caldenses. Os 3 Vidigais mais velhos, António, Teresa e Luísa. O Pedro Gonçalves. O Paulo Vasques. O Manuel Luzio. O Tó-Zé Pina. O Quintino. O Rui Coelho (que já tinha remado em Angola) e muitos outros, que me falha a memória. Não necessariamente por esta ordem e eventualmente nem todos logo neste ano.

Em 1978 participa-se nas primeiras provas, no Rio Tejo. Desde a Central Eléctrica até à Doca de Alcântara. Para quem estava habituado e tinha aprendido a remar nas calmas da Lagoa de Óbidos, esta foi uma dupla prova. A regata em si mesma e a “luta” contra a mareta violenta do Rio Tejo. Provas superadas, com mais ou menos sucesso.

Depois desta, muitas outras se seguiram. Em Setúbal, em Vila Franca, em Lisboa, na Figueira da Foz, em Aveiro, na Régua e na Lagoa de Óbidos (Camp. Regional de 1980).

Em 1981 e depois de longos esforços junto da Câmara Municipal, consegue-se a criação de um telheiro no antigo parque de campismo da Foz do Arelho e que deu origem ao actual pavilhão do ISN. Com estas condições passou a ser muito mais fácil a prática do remo, pois assim deixou de ser necessário o seu transporte desde as Caldas.

Apesar de todos os entraves criados pelo guarda do referido parque.

Nestes primeiros anos passaram pelo Nautilus Clube de Regatas algumas dezenas de candidatos a praticantes. Todos eles passaram pela experiência de remar com alguns dos mais velhos (tantos que ensinei!!). Mas o Remo é ingrato e exige sacrifícios.

De vez em quando as coisas não correm tão bem e há uns barcos que se viram, obrigando a uns mergulhos forçados e depois é necessário trepar para o barco (nada fácil).

Outras vezes são as unhas que passam onde não deviam ou umas bolhas que surgem nas mãos e as deixam marcadas durante uns dias ou semanas.

Mas a superação destas dificuldades criou laços de amizade entre aqueles que prosseguiram, que ainda hoje perduram e se mantêm vivas.

Mas a preparação não se limitava a andar de barco ao fim de semana. De 3ª a 6ª, todos os fins de tarde havia treino. E intermináveis foram as vezes que um grupo maior ou mais pequeno de “malucos” se punha a dar voltas ao Parque D. Carlos I. Começando na Parada e descendo pela “avenida” ao longo do antigo parque de campismo, passando pelos cortes de ténis, subindo pela “avenida” da esplanada e do coreto e continuando ao longo do liceu, de regresso à parada, para mais uma volta. Ou então e em alternativa, até Óbidos e regresso. Tudo seguido de uma sessão de trabalho de ginásio, no r/c da casa da Rua dos Loureiros.

À medida que o Remo foi evoluindo nas Caldas, o grupo foi-se reduzindo e especializando.

Perdeu-se, e isso ditou o seu fim passados alguns anos, a perspectiva da captação e formação de novos remadores.

Ganhou-se em termos competitivos, porque os remadores caldenses passaram a disputar os primeiros lugares.

Mas muitos foram os episódios que ao longo dos anos deixaram marcas na memória.

Desde um primeiro estágio de Páscoa, em que os jovens remadores caldenses, efectuam um estágio de uma semana, acampando junto à Lagoa de Óbidos, numa antiga Escola Primária que aí ainda existe. Aí estiveram, para além dos incontornáveis Vidigais, o Pina, o Quintino e a Maria João, o Miguel Ballu, o Pedro Gonçalves, o Paulo Vasques, o Manel Luzio.

Ou a vez em que num Campeonato Nacional na Barragem da Régua, depois de na 6ª feira se ter deixado os barcos devidamente preparados e arrumados na zona de prova, quando chegamos no sábado de manhã metade dos barcos do Nautilus CR estavam destruídos pela queda de duas vigas de sustentação das coberturas que tinham sido (mal) instaladas.

Desespero total pelos barcos destruídos e por não se poder participar nas provas, depois de uma época de preparação.

Ou como eu e o (Tó-Zé) Pina aprendemos a guiar, “roubando” o carro do Rui Coelho, um Renault 16, enquanto ele treinava na Lagoa.

Momentos houve de maior angústia e desespero, como os que experimentei por duas vezes no meio da Lagoa. A primeira vez, em 1981, numa manhã de domingo com muito sol e imenso vento. Uma ondulação violenta e eu de skiff (o similar a casca de noz). As tampas das caixas de ar ficaram em terra. A terminar o treino e após um longo e violento esforço, começo a ver a popa do barco a levantar-se para fora de água. Olho para trás de mim (frente do barco) e a proa do barco está completamente submersa. Acto continuo atiro-me para dentro de água e nado para terra, rebocando o barco. Felizmente estava já em frente ao parque de campismo e só tive que nadar 50 m com o barco a reboque.

A segunda vez, talvez em 1984/85, no centro da Lagoa e também de skiff, parte-se uma forqueta. Mergulho imediato e involuntário. Desta vez um pouco mais complicado, pois as distâncias muito maiores. A margem mais perto a de Óbidos e a meio do percurso a ajuda impagável de um windsurfista. Depois o regresso até à Foz do Arelho, pela margem sul, com o barco às costas e os remos nas mãos. Chegado em frente à Foz, foi novamente necessário nova sessão de natação com barco e remos a reboque.

Outros momentos em que estas amizades e cumplicidades se foram cimentando para toda a vida, foram aqueles em que, aproveitando a pequena indústria de construção naval que António Vidigal lançou (uma história para outros dias), se construíram alguns dos barcos que o clube utilizou na sua prática desportiva.

Ou seja os remadores caldenses envolviam-se desde o primeiro momento.

Primeiro construíam os barcos, para depois remarem neles.

Barcos esses que ainda hoje existem e que muito recentemente foram utilizados por alguns desses remadores (outra história).

O auge da actividade competitiva do Nautilus CR vive-se nos anos de 1982, 1983 e 1984, em que dois remadores caldenses, Rui Coelho e José Quintino , remando em double-scull atingem em dois anos consecutivos (82 e 83) o 2º lugar no Campeonato Nacional.

Num destes 2 anos, depois de uma época brilhante, no Campeonato Nacional e depois de terem atingido a grande final, lideram a regata inteira, quando aos 1.950 m, a 50 m da meta, o Quintino entra em total esgotamento e para de remar. São então ultrapassados pelos seus eternos rivais, ficando em 2º lugar.

Ainda neste ano esta tripulação foi seleccionada para a equipa nacional para participar nas provas internacionais em Vichy e em Luzerna.

Contudo, invejas e antigas rivalidades intrometem-se no percurso de sucesso destes remadores, impedindo-os de prosseguirem a sua participação.

Em 1984, após a construção de mais um barco para o Nautilus pelos remadores , um shell de 4, aposta-se numa tripulação de quadri-scull para disputar o Nacional. Constituem a tripulação, do proa para o voga, Pina, Quintino, Rui e António Vidigal (filho).

Após uma época em que se começa por remar e competir em double-scull e skiff, o barco fica pronto a tempo de se preparar o Campeonato Regional.

Sendo este, então, um barco novo no panorama do Remo nacional, só existia mais um clube interessado em disputar esta categoria. A Associação Naval de Lisboa.

Depois de muitos e intensos treinos (às 6h da manhã, ás 19h, ….) na Lagoa de Óbidos, parte-se para o Regional na Figueira da Foz.

Com umas péssimas condições, muito vento e muitas ondas e acusando a falta de experiência neste tipo de barco (com leme), a tripulação caldense “leva uma sova” dos seus adversários de Lisboa.

Grande desânimo por esta primeira experiência menos conseguida, mas um moral muito elevado para o Nacional, 15 dias depois em Aveiro (Rio Novo do Príncipe – Cacia).

Mais 2 semanas de treinos diários e intensos.

Em Aveiro, com um plano de água fantástico, largamos à frente e sempre à frente controlamos a regata.

A 500 m da chegada, intencionalmente ou não, o barco da ANL, que vem meio barco atrás, começa a empurrar-nos para a margem, apesar dos alertas do juiz árbitro.

A 100 m da meta, os nossos remos da esquerda (sota) batem nos caniços da margem e os da direita (voga) estão numa luta de paus com os remos da ANL.

Desespero total!

Esta estratégia não foi, contudo, suficiente para nos abalar e prosseguimos decididos e empenhados até ao final, conseguindo chegar em primeiro, conquistando assim o título nacional.

A violência do esforço foi brutal mas não nos impediu de soltar algumas boas gargalhadas no desembarque ao assistirmos ao nosso proa, o Pina, a desembarcar de gatas, pois não tinha força para mais.

Por motivos de saúde, no início da época seguinte fui impedido de continuar a praticar remo.

A equipa desmembrou-se e o remo pouco tempo depois acabou nas Caldas da Rainha.

Peço desculpa a muitos dos que vão ler estas linhas por não os referir, pois fizeram com certeza parte daqueles que ensinei a remar, mas que a memória não me ajuda.

Fazem parte desta história e desfrutaram tanto como eu e outros de umas boas tardes de sábado ou manhãs de domingo a remar na Lagoa de Óbidos.

(post do António Reis Vidigal)

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